Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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Urca. Como nunca em

sua vida, pelo menos nos meses seguintes, Carmen estaria entregue a si

própria.
Desde que tivera o primeiro filho e encerrara sua carreira americana,

Aurora pensava em voltar

para o Brasil. A princípio, era só uma vaga intenção. Mas, depois que se

vira obrigada a deixar a

casa de Carmen, continuar morando nos Estados Unidos perdera o sentido.

Gabriel, por sua vez,

não queria voltar. Sentia-se instalado em Los Angeles, trabalhando agora

numa empresa que

vendia peças para a Aeronáutica brasileira, e não tinha a menor

perspectiva profissional no Rio.

Estavam fora do Brasil havia dez anos, para onde nunca mais tinham ido,

nem a passeio. Mas

Aurora parecia inflexível e garantiu a Gabriel que, se passassem

dificuldades no início, ela

voltaria a cantar e a se apresentar - as rádios e as gravadoras do Rio

deviam estar à sua espera.


Carmen não entendia o porquê dessa decisão, mas foi voto vencido. A

partida de Aurora não a

privava apenas de sua irmã e melhor amiga,

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mas da pessoa que sempre se encarregara de uma função essencial para ela: cuidar

das compras da casa,

sob a orientação de dona Maria. Mesmo depois que se mudara de North

Bedford Drive - e não

importava se grávida em último grau ou se amamentando Maria Paula -,

Aurora continuara a

fazer o supermercado para Carmen. Se isso parece irrelevante, é só

imaginar o volume de

compras quinzenais ou mensais tendo em vista um mínimo de doze ou quinze

pessoas diariamente

para almoçar, com ou sem a presença da dona da casa. O próprio transporte

dessas compras nos

carrinhos pelos corredores do supermercado parecia uma operação de guerra

e, muitas vezes,

Aurora tinha de ser ajudada pelos rapazes do Bando da Lua. Sem sua irmã

para cuidar disso,

Carmen dependeria agora de Odila, mulher de Zezinho, ou de Isa, mulher de

Harry. Ela, Carmen,

é que não poderia ir ao supermercado para pegar o sapólio e a creolina

nas prateleiras ou

disputar pechinchas nas gôndolas de picles e enlatados - por mais que se

disfarçasse, acabaria

sendo reconhecida.


Assim, pela primeira vez em onze anos, Carmen passou uma noite de Natal

em casa, a de 1950,

sem trabalhar. Recusou convites para os programas de TV de Bob Hope e

Jimmy Durante, e deu

uma festa de despedida em North Bedford Drive para Aurora e Gabriel, que

iriam embora assim

que ela, Carmen, voltasse de uma temporada no Havaí, no começo do ano - e

na qual Aurora só

não iria como sua acompanhante porque precisava preparar a mudança.
Carmen foi e custou a voltar do Havaí, e a ida de Aurora com sua família

acabou sendo adiada

para abril, mas isso não alterou em nada o desgosto de Carmen com a

deserção da irmã. Ao se

aproximar o dia (agora definitivo) da viagem, ela se lembrou de que

Aurora, ao se mudar para

Westwood, um ano antes, deixara uma série de pertences em North Bedside

Drive e nunca fora

buscar.
"Levem tudo", ordenou Carmen. "Não deixem nada aqui, para que eu não

fique me lembrando de

vocês."
Aurora deu uma geral na casa e recolheu tudo que lhe pertencia e que

encontrou, incluindo giletes

usadas de Gabriel e alfinetes de fralda de Maria Paula. Mas, assim que

ela zarpou, Carmen, ao

entrar no antigo quarto da irmã, naturalmente achou uma boneca que ficara

para trás. O que a fez

chorar muito - porque só então percebeu quanto estava sozinha.
Dias antes da partida, as duas tinham vivido um de seus raros momentos de

atrito. Aurora queria

trazer dois carros com ela, um em nome do casal e outro no de dona Maria.

Mas Carmen insistia

em mandar um Nash Chevrolet verde, que também ganhara num programa, de

presente para Tatá,

e isso limitou a cota de Aurora. Esta não gostou e criou-se um clima -

superado em função do

fato maior de que, depois de dez anos juntas, iriam se separar. Além

disso, a mudança de Aurora

não era nada desprezível - estava levando material suficiente para

rechear duas casas. Era tanta

coisa que, ao chegar ao Rio, Aurora resolveu, a princípio, deixar os

contêineres num guarda-

volumes na Zona Portuária.
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Nem tudo caberia na casa da Urca, onde iriam fazer

companhia a Cecília e

Carminha, que moravam lá desde que elas próprias tinham voltado, em 1947.
Gabriel sentiu que não lhe seria fácil firmar-se profissionalmente, mas

esperava que fosse só uma

questão de tempo. Aurora, numa reviravolta inexplicável, é que logo se

arrependeu da decisão de

ter vindo. O calor úmido, o trânsito infernal, até o espetáculo das

postas de carne penduradas nos

ganchos dos açougues, tudo no Rio a perturbava. Só pensava agora em

voltar para Los Angeles.

Tanto que manteve a mudança encaixotada no guarda-volumes - móveis,

quadros, objetos, todo

o enorme acervo que trouxera, incluindo dezenas de peças que arrematara

em leilões de Beverly

Hills e que tinham pertencido a gente famosa. E só meses depois, quando

se convenceu de que a

volta para os Estados Unidos ficara impraticável, é que Aurora se

conformou e começou a se

adaptar. Então abriu os caixotes, vendeu tudo o que trouxera e, quase no

fim do ano, retomou sua

vida profissional.
Primeiro, na Rádio Mayrink Veiga; depois, no tipo de estabelecimento que,

no Brasil, sucedera os

cassinos: os nightclubs, aqui chamados boates - foi trabalhar na boate

Night and Day, na

Cinelândia, dirigida por Carlos Machado. E, como nos velhos tempos, um

grande compositor

reservou-lhe uma canção inédita - Ary Barroso chamou-a à Fiorentina, no

Leme, e lhe deu

"Risque", que ela gravou na Continental, em março de 1952. Mas, a provar

que os tempos haviam

mudado, "Risque" - um samba enfarruscado, implacável, cruel - teria de

esperar um ano para

ser sucesso. Só que com Linda Batista, na RCA Victor.
Aurora ainda voltaria a gravar, mas somente novas versões de seus velhos

sucessos. Sua carreira

ficara no passado - ao passo que a música popular tinha agora novos

valores pelos quais se

apaixonar, como Marlene, Zezé Gonzaga e Elizeth Cardoso. O futuro seria

ainda mais injusto

para com ela, reduzindo-a à condição de irmã de Carmen e se esquecendo de

que, com "Cidade

maravilhosa", de André Filho, Aurora sempre teria um nicho só para ela na

história. Mas ela

própria contribuiria para esse esquecimento, nas centenas de vezes em que

silenciaria sobre si

mesma para falar sobre a irmã.
Inegavelmente, havia uma diferença entre Carmen e Aurora. Certa vez,

pouco depois de sua

chegada aos Estados Unidos, Aurora passou por Greta Garbo, esta de pernas

de fora e capuz,

numa calçada em Beverly Hills. Com uma humildade de fã - como tantos já

tinham feito com ela

no Brasil -, cumprimentou a deusa e, tímida, pediu-lhe um autógrafo.
Garbo, imperial, com o mesmo tom de contralto que tirava do porão para

dar ordens a seus galãs

Conrad Nagel, John Gilbert ou Melvyn Douglas, apenas respondeu:

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"Obrigada, mas não concedo autógrafos."


E passou direto.
A cena muda para Nova York - Central Park South, Hampshire House, alguns

anos depois.

Garbo saiu do prédio, onde também morava em Manhattan, e passou por

Carmen, que entrava

distraída, cercada pelos meninos do
novo Bando da Lua.
"Carmen, querida!", exclamou Greta, a voz um ou dois tons acima de seu
chapéu.
"Miss Garbo!" - era como todos em Hollywood a chamavam.
Seguiram-se os quequequés e quiquiquis de rigueur entre mulheres

igualmente divas, tranqüilas e

recíprocas no reconhecimento de suas majestades. Que Carmen visse isso em

Garbo, era natural

- afinal, ainda era uma menina de nariz escorrendo na travessa do

Comércio, e Garbo já levava

os homens a duelos ou suicídios na tela do antigo Odeon. Mas Garbo via o

mesmo em Carmen -

para nenhum espanto desta.
E esta era a diferença: Carmen já nascera uma estrela. Aurora era,

talvez, a mais privilegiada das

mortais.
O episódio à porta da Hampshire House foi apenas um entre muitos,

envolvendo Carmen e

alguém famoso, que deixou seus novos músicos atarantados. Estes tinham

acabado de se juntar a

ela e ainda se chamavam Anjos do Inferno quando Carmen lhes comunicou, em

Beverly Hills:


"Esta noite, vamos jantar na casa de Ann Sheridan. Se, na hora de ir

embora, ela resolver que um

de vocês vai ficar, não é para discutir. É para ficar."
O retraído Lúcio Alves, que ainda estava com eles, por algum motivo não

quis ir. Com Carmen

foram Harry, Walter, Russinho e Lulu. O jantar foi magnífico. Ao fim da

noite, Ann levou Carmen e

os rapazes até a porta. Ao se despedir, fez "oomph", tomou Lulu pelo

braço e disse:


"Você fica."
E Lulu ficou.
Outras vezes, era Carmen quem provocava as situações, mas apenas para se

divertir com a reação

de algum deles. Como no dia em que a campainha tocou em North Bedford

Drive enquanto eles

ensaiavam com ela. Carmen pediu a Russinho que fosse atender à porta -

não a dos fundos, que

era a que mais se usava, mas a da frente, reservada às ocasiões de gala.
Russinho abriu a porta distraidamente e viu-se diante de - quem? - Lana

Turner, legitimamente

loura, olhos de água-marinha, pestanas também louras e um shortinho

branco como o que usara

para seduzir John Garfield em O destino bate à sua porta (The postman

always nngs twice). Os

joelhos de Russinho bambearam - se não se segurasse ao pórtico, cairia. A

custo fez sinal para a

estrela entrar e, escorando-se às paredes, foi chamar Carmen. Que já

chegou às gargalhadas,


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porque fizera de propósito. Sabendo da paixão de Russinho

por Lana, convidara-a a

ir visitá-la para assistir a um ensaio e o mandara abrir a porta. A

percussão do Bando da Lua

atravessou várias vezes naquela tarde, porque o pandeirista estava

tocando ao ritmo de um

coração aos pulos.
E, com os outros, era a mesma coisa. Não que o convívio com as estrelas

lhes fosse totalmente

estranho. Em Nova York, Lúcio Alves namorara a linda porto-riquenha Rita

Moreno (é verdade

que a futura Anita de West Side story ainda não era uma estrela). Mas, em

Hollywood, o vivido

Aloysio beliscara, entre outras, Linda Darnell, e o próprio Russinho

passara horas infernais com a

comediante e cantora Martha Raye, dona de uma carantonha assustadora e de

um corpo de fechar

o comércio. Mas era difícil ignorar a mística de Hollywood - o que era

beijar (ou simplesmente

dizer boa-noite) a uma mulher que, na tela, era tão maior do que a vida?
A cumplicidade entre Carmen e seus músicos agora era total. No dia 11 de

janeiro de 1951,

Carmen, com dona Maria de acompanhante (sem Sebastian), e o Bando da Lua,

reforçado pelo

arranjador e maestro Bill Heathcock, pousaram em Honolulu, no Havaí.

Durante oito horas e

meia, o Stratocruiser da United Air Lines passara por toda espécie de

desconforto no céu -

talvez o pior vôo na vida dos 39 passageiros e quatro tripulantes. Mas,

graças ao livrinho sobre

são Judas Tadeu a que Carmen se agarrou durante a viagem, eles

conseguiram chegar.


Carmen foi recebida por 5 mil pessoas de sarongue - as quais, assim que

ela despontou na

escadinha do avião, pareceram pendurar-lhe outros tantos colares de

flores no pescoço. Carmen

ganhou também um chapéu de três andares, cada andar ornado com orquídeas,

antúrios e

hibiscos. Num palanque decorado de alto a baixo com jasmins, recebeu as

chaves da cidade e foi

agraciada com novas flores pelos representantes das colônias do

arquipélago: "caucasianos",

havaianos, filipinos, chineses, japoneses e até portugueses em trajes

típicos. (Seu encontro com a

colônia lusa a fez chorar.) Ao chegar ao hotel Royal Hawaiian, mais

flores a esperavam na

recepção e, no apartamento, corbeilles descomunais - e só então, quando

se viu sozinha, é que

Carmen se permitiu ter um dos maiores ataques de espirros na história do

Pacífico Sul.

Descobrira-se repentinamente alérgica a pólen e, não sabia como,

conseguira segurar-se, para não

magoar os havaianos. Mas teve de trocar de quarto com sua mãe.
Outro momento crítico da chegada foi quando o locutor do palanque

anunciou o Bando da Lua

pelo nome. Os 5 mil locais explodiram numa gargalhada em uníssono -

porque "lua", na língua

nativa do arquipélago, significava privada, latrina. Benny Holzman, alto

executivo da agência

William Morris que se juntara à viagem por amizade a Carmen, sugeriu que,

pelo menos ali, eles

fossem chamados de "Bando de La Luna".

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Carmen fora contratada para três shows de sexta a domingo em Honolulu, em

dois fins de semana,

a 17 mil dólares cada um. Mas a procura foi tão intensa que os promotores

havaianos acertaram

com Holzman outros dois fins de semana, com shows também em Maui, Kauai e

Hilo. No show em

Kauai, um setor das arquibancadas do ginásio de basquete, onde ela se

apresentou, desabou ao

peso de setecentos jovens. Dezenas se machucaram, mas ninguém morreu e o

espetáculo

continuou. A convite do comando da Base Aérea de Pearl Harbor, Carmen fez

também um

programa de rádio e um pequeno filme cantando para os soldados americanos

na Coréia.
Estava em grande forma naquelas semanas. Os shows terminavam cedo e,

apesar dos luaus quase

diários, com as festas até de madrugada nas praias iluminadas por tochas,

Carmen conseguia ir

dormir em horários regulamentares. Ou, pelo menos, que lhe permitiam

estar de pé por volta do

meio-dia do dia seguinte e ir à praia com dona Maria e os rapazes.

Divertiu-se como havia anos

não fazia, bebendo de forma moderada, esparramando-se na areia e caindo

na água azul-safira da

ilha de Oahu, onde fica Honolulu. Aloysio arranjara uma namorada, Joyce,

uma atraente eurasiana

que trabalhava como recepcionista de um serviço local de turismo. Houve

um momento em que,

aos olhos do Bando, os dois pareceram estar vivendo uma paixão de filme.

A prova de que

Carmen já não nutria o menor interesse amoroso por Aloysio está no fato

de que se deu bem com

Joyce e andava com eles e o Bando para todo lado. O Havaí fez bem a

Carmen, e foi pena que

esse estado de coisas não se prolongasse - porque bastou voltar a Beverly

Hills para que, em

pouco tempo, conseguisse chocar um antigo amigo que passaria uma

temporada com ela: Synval

Silva, o autor de "Adeus, batucada".
Synval fora a Los Angeles a convite de Carmen. Ela lhe mandou a passagem

e foi buscá-lo no

aeroporto. Indicou o seu quarto, explicou-lhe onde guardava as toalhas,

pôs-lhe um carro na mão

e disse que ficasse pelo tempo que quisesse. E, se quisesse que suas

filhas fossem estudar nos

Estados Unidos, era só falar que ela cuidaria de tudo - típico da

impressionante generosidade de


Carmen.
Na primeira vez em que saiu a passear de carro por Los Angeles com

Synval, insistiu em que ele

dirigisse - como no passado, quando ele fora seu motorista. Carmen

esqueceu-se de que, nos

Estados Unidos, em 1951, uma mulher branca não se sentava ao lado de um

homem negro ao

volante. Sentava-se no banco de trás. Outro motorista, por sinal também

negro, passou por eles na

estrada, reconheceu-a e emparelhou seu carro com o dela:
"Algum problema, Carmen? Está sendo seqüestrada?"
Carmen riu e identificou Synval:
"Não! Este é meu compositor brasileiro."
O homem os convidou para um drinque num botequim da rodovia logo depois

da primeira curva.

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Synval ficou quatro meses com Carmen em North Bedford Drive. (Quando ela

viajava a trabalho,

ele continuava por lá com Sebastian; os dois se deram surpreendentemente

bem.) Nesse espaço

de tempo, Synval conviveu com uma Carmen em grande forma, como a que

acabara de voltar do

Havaí, e outras vezes, nem tanto. Quando ele a vira pela última vez, no

Rio, em 1940, ela

continuava abstêmia como sempre - mal tomava guaraná; chope ou cerveja,

muito raro. Agora,

para surpresa de Synval, Carmen esvaziava doses duplas de uísque quase

que de um gole, e com

uma velocidade que ele não via nem em Ary Barroso. E não parecia se

alterar, o que era

espantoso pela quantidade que ingeria.
Carmen pedia a Synval que contasse as últimas anedotas que circulavam no

Rio e ria de se

dobrar, com a mão na cintura. Numa dessas, Carmen sentouse ao chão para

rir e, quando ela se

levantou, Synval viu o que não queria: uma pequena poça de urina. Carmen

não se contivera.


Ela percebeu o sem-jeito da situação e, ainda rindo, disse: "Que coisa!

Mas a culpa foi sua, me

fazendo rir desse jeito!" Um ocasional descontrole desse tipo é normal,

mas Synval se preocupou

porque estava habituado a ver aquilo entre os bebuns das biroscas de sua

escola de samba, o

Império da Tijuca. Alguns deles já não se seguravam nem se preocupavam em

se segurar.


Eram agora várias Carmens. No dia 25 de março, absolutamente dona de si,

uma Carmen firme,

articulada e piadista estava ao lado de Bette Davis e Judy Holliday ao

microfone de T/ze big

show, um programa de rádio da NBC. As duas eram candidatas ao Oscar de

melhor atriz de 1950:

Bette, por sua interpretação de Margo Channing em A malvada (Ali about

Eve), e Judy, como a

loura burra de Nascida ontem. Na bolsa das apostas de Hollywood, Bette

era barbada e, se

alguém pudesse tomar-lhe o Oscar, seria Gloria Swanson, pelo papel de

Norma Desmond em

Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard). Judy corria por fora e não se

esquecia de que, apenas

sete anos antes, estava fazendo uma ponta quase invisível num filme de

Carmen, Alegria, rapazes!.

Mas, dali a quatro noites, na cerimônia de entrega do prêmio no Pantages

Theatre, no Hollywood

Boulevard, Judy Holliday atropelou na reta final e ganhou o Oscar, nas

barbas de Bette Davis e

Gloria Swanson.
A possibilidade de Carmen ser um dia indicada para o Oscar era tão remota

quanto a de viajar

num disco voador, mas o cinema e a televisão estavam fazendo planos

importantes para ela.

Howard Hughes assumira o controle da RKO e lhe falara de sua intenção de

recuperar as

seqüências de Carnaval filmadas por Orson Welles no Rio em 1942 e editá-

las num novo filme,

tendo Carmen como hostess. Esse, sim, era um projeto de prestígio - as

imagens perdidas de It"s

ali true já faziam parte da mitologia do cinema. Se se pudesse finalmente

vê-las, todos os

envolvidos no projeto teriam a ganhar. Imagine, então, ser a hostess

desse filme. Mas Hughes

venderia sua participação na RKO em setembro de 1952 sem que o projeto se

firmasse - aliás, ali

seria o fim da RKO.

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Ainda em 1951, o diretor brasileiro Alberto Cavalcanti, muito respeitado

na Europa, convidou

Carmen a fazer com ele e voltar a filmar no Brasil. Prometeu-lhe um papel

sério num filme da Vera

Cruz, Terra é sempre terra. Carmen pensou com carinho na proposta, mas

Cavalcanti logo

deixaria a Vera Cruz, e se esqueceriam de Carmen. O filme foi feito, com

Marisa Prado no papel.

E a CBS tinha em mente uma série de programas de televisão, The Carmen

Miranda Show, um

misto de musical e comédia, e queria sentar-se para conversar com ela.

Mas Sebastian interferiu e

recomendou a Carmen esperar pela TV em cores - que estava sendo

"desenvolvida" -, para

fazer justiça à sua coleção de roupas. Ou seja, sempre que alguma boa

idéia se apresentava, o

acaso ou um palpite errado contribuía para que essa idéia morresse no

ovo.
Assim, de todas as propostas diferentes que lhe surgiram no primeiro

semestre de 1951, a única

que se materializou foi a de um livreto de bonecas de papel, com os

moldes de suas fantasias para

serem "vestidos" nas bonecas. E, caso Carmen se sentisse deprimida,

sempre poderia animar-se

com uma pesquisa do Variety, segundo a qual ela era a pessoa "mais

imitada dos Estados

Unidos", por profissionais e amadores.
A verdadeira Carmen não tinha por que se sentir deprimida. Se quisesse,

poderia apresentar-se

todas as noites do ano - onde, quando e por quanto quisesse -, como lhe

disse Benny Holzman,

da William Morris. Era só não recusar os convites. Carmen fez isso em

março e abril, emendando

temporadas no Latin Cassino, na Filadélfia, no Town Cassino, em Buffalo,

e no Latin Quarter, em

Boston - alternando entre as cápsulas vermelhas, para deitar-se e

relaxar, e laranja, para

levantar-se e dar os shows. Em algumas situações, dormia mais do que

devia, o que, numa dessas

cidades, criou um problema inédito: o cheque com o pagamento da semana

(algo como 17 500

dólares) precisava ser endossado por Carmen para poder ser levado ao

banco e descontado, de

modo que os rapazes do Bando da Lua recebessem a sua parte. Mas Carmen

estava dormindo e

não havia perspectiva de acordar antes das seis da tarde, quando o banco

já estaria fechado. O

próprio Benny Holzman deu a sugestão de que Russinho, perito em

falsificar a assinatura de

Carmen, depois dos milhares de fotos que já autografara por ela, fizesse

o mesmo no verso do

cheque. O músico se negou - uma coisa era assinar para um fã, outra era

falsificar o endosso de

um cheque. Mas Holzman garantiu-lhe que se responsabilizaria e, com o

estímulo dos colegas do

Bando da Lua, Russinho pegou a caneta e desenhou o nome de Carmen, com

todos aqueles emes

floridos e rebordados. Ele próprio não gostou do resultado - disse que

estava nervoso -, mas o

banco nem discutiu: aceitou sua assinatura e pagou. Carmen, ao acordar e


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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