Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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formado pelo pessoal

dos Anjos do Inferno era "o melhor Bando da Lua que já existira".)
Em agosto e setembro de 1949, para o novo Bando da Lua - agora

oficialmente liderado por

Aloysio -, o trabalho em Romance carioca consistia em gravar com Carmen,

no estúdio de som

da MGM, o playback de "Yipsee-i-o" e "Caroom" pá pá" e, depois, sempre

com Carmen, fazer a

mímica dessas gravações no palco de filmagem. (Em "Caroom" pá pá", eles

estariam fantasiados

de palhaços.) Foram contratados por duas semanas, mas só precisaram de

três dias para dar conta

do trabalho: um para a gravação do playback e dois para as filmagens, com

duas semanas quase

inteiras de inatividade pelo meio. Mas não tinham do que reclamar: quando

não estavam

assistindo a Fred Astaire, Judy Garland ou Gene Kelly ensaiando no galpão

ao lado, jogavam

futebol

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com os funcionários hispânicos nos fundos do estúdio. E eram



integralmente pagos para fazer isso.
O trabalho de Carmen nesses dois números se deu entre agosto e setembro.

O restante de sua

participação (várias seqüências de diálogo com Jane Powell, Ann Sothern e

Barry Sullivan) foi

filmado quase dois meses depois, em fins de novembro. Quando o filme

ficou pronto, a diferença

física em Carmen nessas cenas era visível e impressionante - como se

fossem duas atrizes

fazendo o mesmo papel.
A primeira Carmen (a que cantava e dançava "Yipsee-i-o" e "Caroom" pá pá"

com o Bando da

Lua) estava enxuta, tentadora, deliciosa - os olhos, dois jatos verdes; a

pele, no tom certo de

moreno; o sorriso, franco e desarmado. Seu vigor físico era notável. Era

uma Carmen que

lembrava a dos primeiros filmes na Fox, que fizera uma jornalista

descrevê-la como tendo "olhos

vocais", e um colunista, famoso e casado, insinuar que ela o perturbava

eroticamente. Era a

mesma Carmen, muito bonita, que fotografara também para o anúncio do

sabonete Lux, inspirado

no filme, e que circularia em centenas de revistas pelo mundo.
A outra (a que contracenava com Jane Powell, Ann Sothern e Louis Calhem

nas seqüências não

musicais) parecia inchada, matronal, pesadona - os olhos estavam

ríspidos; a pele, afogueada; o

sorriso era uma máscara (e, mais uma vez, percebia-se a sensação de

tristeza que aquela Carmen

parecia carregar). Como os números musicais estavam entremeados com as

seqüências de

diálogos, o espectador devia achar incompreensível ver uma Carmen

fulgurante que, de repente,

se transformava numa mulher acabada para, logo depois, no outro número,

voltar exuberante à

cena e, em seguida, decair de novo.
Coincidência ou não, a Carmen dos números musicais estava a sós com dona

Maria em North

Bedford Drive - sem Sebastian - quando eles foram filmados. A outra era a

que fora buscar seu

marido e o levara de volta para casa. Nessas poucas semanas, tudo pode

ter acontecido.


Por exemplo: Sebastian, embriagado, ter cuspido no rosto de Carmen,

porque ela serviu a uma

repórter os bolos que dona Maria havia feito. "Você sabe que eu gosto

desses bolos!", gritou

Sebastian. Carmen, passiva e sem reação, teria apenas enxugado a

disparada com o braço, sem

dizer nada. Dona Maria não contou isso a Aurora - e Carmen também não, ao

visitar sua

sobrinha e afilhada Maria Paula. Temiam que Gabriel, ao tomar satisfações

com Sebastian, fizesse

algo mais incisivo, como enchê-lo de bolos na cara ou quebrar-lhe os

dentes a socos. E nem é

bom pensar no que Russinho ou Lulu fariam com Sebastian se tivessem

sabido. Mas dona Maria só

confidenciaria essa história a Andréa Ozorio e, mesmo assim, anos depois,

no Rio, quando já não

fazia a menor diferença.
Por que Carmen passaria por uma transformação física tão drástica e em

tão pouco tempo? No

caso de Romance carioca, havia o fato de Carmen ter ficado

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inativa por várias semanas. Tanto quanto o excesso de trabalho, a

ausência dele também lhe

fazia mal: facilitava a que ficasse sem dormir e, quando não pudesse mais

adiar o sono, apelasse

para medicamentos mais poderosos. Harry se lembra de uma semana que o

conjunto passou com

ela em Palm Springs. Foram cinco dias e noites sem dormir para todo

mundo, com Carmen falando

sem parar e reformando vestidos, um atrás do outro, varando as madrugadas

(os soníferos normais

já não pareciam fazer efeito).


E se, numa emergência, ela precisasse de quem lhe aplicasse uma injeção,

agora tinha alguém

permanentemente à mão: Lulu - ou, na vida civil, o doutor Aluisio Ferreira,

como ele era conhecido

no Ceará antes de ir para o Rio com o seu violão. Lulu, que deixara a

medicina pouco depois de

formar-se, atuava como clínico geral da trupe, embora sua especialidade

fosse o pulmão. (Foi ele,

aliás, quem identificou a causa de uma bronquite crônica que vinha

atazanando Carmen: uma base

de maquiagem feita de raiz de lírio. Eliminado esse componente no creme,

a bronquite

desapareceu.)
Lulu podia ser competente na sua especialidade, mas não devia conhecer

muito (ou nada) de

dependência química. Nem isso lhe era exigido - porque quase ninguém

conhecia. Somente nos

primeiros anos do pós-guerra começou-se a perceber as conseqüências do

uso regular daqueles

medicamentos sintéticos. Até então, as anfetaminas eram consideradas um

aditivo benéfico para

os soldados (tanto os Aliados como os do Eixo, a ponto de ser

distribuídas na ração junto com os

chicletes e as barras de chocolate), para os operários da indústria de

guerra (a fim de aumentar a

produção) e para os artistas. Para rebatê-las, havia os barbitúricos.

Milhões de pessoas foram

cobaias desses produtos nos anos 40 - e Carmen, uma delas. Quase dez anos

depois, o

organismo dessas pessoas estava apresentando a conta.
Romance carioca estreou em Nova York em março de 1950 e, para quem

abstraiu a aparência de

Carmen no restante do filme, seus números musicais faziam crer que o

cinema ainda a teria por

muitos anos. Principalmente por "Caroom" pá pá", com a eufórica

coreografia de Nick Castle.

Carmen dançavaa descalça, e seus rodopios com a baiana de babados e com o

turbante de 24

sombrinhas eram de encher as medidas. Era também uma das maiores façanhas

da história da

Technicolor: um show de cores em movimento, num efeito poucas vezes

conseguido num musical.

Era ainda, sem dúvida, um dos grandes números de Carmen no cinema - e que

ela nunca mais

superaria.
Naquele mesmo mês, Vinícius, que estava distante de Carmen havia algum

tempo, reencontrou-a,

e não gostou do que viu. Em carta (de 23/3/1950) a Rubem Braga no Rio,

foi duro: "Ainda ontem

estive com Carmen, em casa de Aloysio. Ela, coitada, começando a

decompor. Quando cheguei

[a Los Angeles, em 1946], estava tão fresquinha e viva".

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Mas, se a câmera já não queria ser gentil com Carmen (e ela, às vezes,

assusta-sse ao ser observada

mais de perto, como acontecera com Vinícius), seu desempenho no palco, ao

vivo, com o Bando

da Lua, continuava a ser arrasador. Foi assim no megaespetáculo promovido

pela MGM para a

estréia de Romance carioca em Los Angeles: quase 20 mil pessoas no

Hollywood Bowl viram-na

roubar o show de Jane Powell, Ann Sothern, Jeanette MacDonald, Mickey

Rooney, Lena Horne e

dos outros astros convidados pelo estúdio.


Em janeiro, já tinham levantado a platéia ao se apresentarem no enorme

Copa City, em Miami.

"Quando Carmen entra no palco, é como se todos os neons se acendessem ao

mesmo tempo",

escreveu no Morning Mau a colunista Dorothy Dey - a primeira jornalista

americana a saber da

existência de Carmen, em 1939, quando Shubert, de volta do Rio, lhe

telefonara para contar que

acabara de contratar uma sensacional cantora brasileira. E, como Dorothy

podia constatar, dez

anos depois Carmen parecia não ter perdido nem um pouco do seu poder de

eletrizar. Na boate

defronte ao Copa City apresentavase a grande sensação da temporada: a

nova dupla Dean

Martin e Jerry Lewis - só que para poltronas às moscas, porque Carmen

lhes roubara a platéia.

Como não tinham nada a perder, Martin e Lewis atravessaram a rua e foram

visitar Carmen, que,

como eles esperavam, os chamou ao palco - e Jerry, ali mesmo, apoderando-

se de um turbante,

"homenageou-a" com uma constrangedora imitação.
Nos meses seguintes, Carmen continuou atraindo multidões em todos os

lugares por onde

passava. Os números eram impressionantes: 50 mil pessoas numa semana em

Buffalo (onde seu

show era aberto pelo Will Mastin Trio, do qual fazia parte um garoto

prodígio, Sammy Davis, Júnior);

80 mil em oito shows em Detroit; outros 50 mil em uma semana em

Minneapolis; e por aí afora. Em

certas cidades, Carmen tinha de se apresentar em estádios e ginásios.

Para esses shows, seu cachê

variava em torno de 15 mil dólares por semana.
Em Chicago, no Chicago Theatre, Carmen e o Bando da Lua bateram outro

tipo de recorde: o de

shows por dia - nada menos de dez, das oito da manhã à meia-noite, de

vinte minutos cada, entre

as sessões de E o mulo falou (Francis, the talking mule), o primeiro

filme da série com Donald

CKConnor e o mulo Francis. A maneira de sobreviver a essa maratona era,

encerrado cada show,

correr para o camarim (eram proibidos de sair do teatro e cada um tinha o

seu camarim individual)

e se esticar por uma hora - menos Carmen, que, como se sabe, tinha de se

trocar de alto a baixo

para o show seguinte.
Por essa temporada de uma semana, Carmen recebeu 20 mil dólares. Para se

ter uma idéia desses

valores, basta saber que, nos Estados Unidos em começos dos anos 50, uma

boa casa, com sala,

copa e cozinha no andar de baixo e três quartos no de cima, típica

daquela época, numa cidade

de tamanho médio, saía por menos de 10 mil dólares.
Carmen pagava ao Bando da Lua trezentos dólares fixos por semana,

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trabalhassem ou não, mais as despesas de hospedagem quando viajavam. Mas,

diante de um

compromisso tão puxado como o do Chicago Theatre, ela não esperava que

eles fizessem alguma

reivindicação. Já se antecipava e lhes oferecia algo muito melhor: mil

dólares por semana para

cada um. Não admira que eles a adorassem - não tanto pelo dinheiro, mas

pelo seu desapego aos

próprios rendimentos e pelo reconhecimento do esforço alheio.


Nem Carmen estava precisando de todo esse dinheiro. Ao contrário: quanto

mais ganhava, mais o

imposto de renda lhe abocanhava. E não que estivesse carente do aplauso

das multidões. Mas

algo a fazia correr - algo fora dela. Era uma correria extenuante, um

esforço de matar, sem um

objetivo definido, sem nada que a razão justificasse. Infelizmente, a

razão já não tinha um papel

preponderante em suas decisões.
Afinal, o que fazia Carmen correr? A Benzedrine, o Dexedrine, o Dexamil.

Capítulo 27

1950 - 1951
Mulher-maratona

Com ou sem as ranhetices de Sebastian como anfitrião, o verdadeiro

consulado do Brasil em Los

Angeles continuava a ser North Bedford Drive (até para os cônsules, que

não saíam de lá).

Carmen não abria mão de receber os brasileiros de passagem, e bem a seu

estilo - como fez

quando Waldemar Torres, diretor de publicidade da MGM no Brasil, foi

visitá-la, levado por

Gilberto Souto.


Carmen agarrou Waldemar, arrastou-o para um canto do sofá e atirou-se

sobre ele, quase

asfixiando-o:
"Vem pra cá! Você ainda deve estar com um cheirinho gostoso do Rio!"

Waldemar depois

comentou sobre Carmen com Gilberto: "Que vocação para gostar dos outros,

gostar de todos!"

Nessa época, a história que Carmen mais gostava de contar às visitas era

a de sua futura ida ao

Rio - da maneira como ela fantasiava que aconteceria. Tomaria um avião em

Los Angeles e,

perfeitamente incógnita, pousaria no Santos Dumont em pleno sábado de

Carnaval, para cair na

folia. Passaria os quatro dias e quatro noites no sereno, "de camisa de

malandro e tocando cuíca",

confundindo-se com o povo, sem ninguém reconhecê-la, pegando no ar as

últimas marchinhas,

exaurindo-se de sambar e abraçando-se às pessoas suadas, ela também

derramando o generoso

suor brasileiro. Na Quarta-Feira de Cinzas, acabada, mas feliz, tomaria o

avião de volta e só

então, quando se visse de novo em casa, é que o Rio saberia que ela

estivera lá. Não que não

quisesse rever os amigos e falar com todo mundo. É que precisava,

primeiro, de um reencontro a

sós com a cidade - apenas ela e os 2 milhões e meio de habitantes.
É possível que, de volta ao Brasil, tanta gente contasse essa história

sobre Carmen que ela

acabaria caindo em altos ouvidos. Em meados de 1950, o governo brasileiro

(ainda sob Dutra)

deu sinais de que gostaria de convidá-la oficialmente. Mandaria um avião

buscá-la em Miami (por

que em Miami?), decretaria feriado no dia de sua chegada, e lhe pagaria o

que pedisse - foi o

que ela ouviu. Era para Carmen ter se sentido homenageada (afinal, era um

reconhecimento

institucional). Mas aquele último item não lhe caíra bem - o simples fato

de imaginarem que ela

exigiria dinheiro para visitar seu país ofendeua de tal forma que nem

quis mais pensar no assunto.

A gafe seria em parte
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remediada com a concessão de um passaporte honorário, que, graças ao

esforço de Raul de

Smandek, lhe foi expedido naquele ano pelo consulado em Los Angeles -

honorário mesmo, já

que, como Carmen nunca se naturalizara brasileira, não havia como lhe

conceder um passaporte

de verdade.
O flerte constante de Carmen com o Brasil nem sempre era correspondido na

mesma medida. Em

1950, sua antiga gravadora brasileira, a Odeon, só tinha em catálogo os

três discos de 78 rpm que

ela gravara em 1940 - contendo "Recenseamento", "Voltei pró morro",

"Disseram que voltei

americanizada" etc. -, num total de seis músicas. Era pouco, quase nada,

mas ainda melhor que

sua outra gravadora, a ingrata Victor (já então, RCA Victor), que não

tinha nenhum disco de

Carmen em catálogo. Na visão caolha dessas gravadoras, era como se ela

tivesse deixado de

existir - embora a cantora mais popular do país, Emilinha Borba, fosse

sua discípula direta e

cujos sucessos como "Chiquita bacana", de Braguinha e Alberto Ribeiro, no

Carnaval de 1949, e

"Tomara que chova", de Romeu Gentil e Paquito, que estouraria no Carnaval

de 1951, fossem

marchinhas visceralmente mirandianas.
Mas, como sempre, as piores agressões contra Carmen vinham dos críticos

de cinema. Romance

carioca, que estreara no Brasil em setembro de 1950, mereceu dois artigos

de Walter George

Durst em uma revista. Em ambos, Durst esqueceu-se de que estava

escrevendo sobre um

despretensioso musical infanto-juvenil da MGM, e não sobre o último filme

de Vittorio de Sica ou

Roberto Rosselini, e fuzilou: "Uma das mais xaroposas e torpes fitas que

o cinema já produziu";

"O filme é uma real ignomínia, da mais penosa digestão ocular"; e, fosse

lá o que isso quisesse

dizer, acusou-o de contar "uma penicilenta história". O veterano Louis

Calhem, amável

comediante de tantos filmes inócuos e que faz na fita o avô de Jane

Powell, foi chamado por ele

de "espantoso, teratológico e odioso". Quanto a Carmen, Durst repetiu uma

opinião antiga, "Essa

portuguesa que já é pouco mais brasileira que a estátua da Liberdade", e

acrescentou uma nova:

"fantasiada de roupas futebolisticamente ridículas". Não contente, Durst

dedicou vários

parágrafos do primeiro artigo a destruir o diretor Norman Z. McLeod,

tachando-o de

incompetente e de o pior diretor de todos os tempos. Mas McLeod era

inocente, não tinha nada a

ver com Romance carioca. Durst confundira-o com o verdadeiro diretor,

Robert Z. Leonard. Daí

o segundo artigo, em que voltou a arrasar o filme e estendeu o arraso a

Leonard, sem admitir o

erro nem pedir desculpas aos leitores pela mancada no artigo anterior.
De um jeito ou de outro, Carmen sempre ficava sabendo o que escreviam a

seu respeito. Seu

acesso à imprensa brasileira era mínimo, mas os patrícios que a visitavam

a mantinham informada.

Muitos, na tentativa de parecer solidários com ela, exageravam em seus

relatos sobre o que este

ou aquele jornal tinha publicado. Esqueciam-se de dizer-lhe que, com

freqüência, ela era capa da

Carioca, do Jornal das Moças, da Vida Doméstica e de outras revistas, com

matérias simpáticas

para justificá-las.

480
Em meio ao entra-e-sai de estranhos na casa e à discussão de assuntos que

não lhe diziam

respeito, Sebastian tinha alguma razão em reclamar que os brasileiros de

visita o ignoravam - a

maioria não dava o devido reconhecimento à sua condição de marido. Muitos

o tratavam como se

ele fosse um biombo ou uma cômoda, e nem lhe dirigiam a palavra. Mas

esses visitantes

argumentavam que era difícil estabelecer pontos comuns de interesse com

ele. Sebastian não se

interessava por nada referente ao Brasil, como a política, a música

popular ou mesmo o futebol -

o único esporte a que dava atenção era o boxe e, mesmo assim, o boxe

amador (não perdia uma

luta do Golden Gloves, que era uma espécie de campeonato juvenil

americano). Ao mesmo

tempo, Sebastian percebia quando algum dos "amigos" brasileiros fazia uma

falseta contra

Carmen. Como quando ela aproveitava a partida de alguém para o Brasil (de

preferência, gente

da Aeronáutica, voando em aviões cargueiros) e lhe pedia que levasse uma

mala de roupas ou de

presentes para os parentes no Rio.


Em uma ou duas ocasiões, essas malas não chegaram ao destino - o que

Carmen só descobriu

quando, pelo telefone internacional, perguntou casualmente:
"E aí, Cecília, recebeu a mala que te mandei pelo brigadeiro Fulano?"

Pela entonação indignada

de Carmen, Sebastian percebia que algo dera errado e perguntava o que

era. Carmen se traía e

lhe contava - Cecília nunca recebera a dita mala -, e ele tinha, de

graça, um argumento contra

todos os brasileiros que aparecessem pelos dias seguintes para fazer de

sua piscina uma extensão

de Copacabana.
Desde 1940, Carmen rodara pelo menos um firme por ano, num total de

treze. Agora, pela primeira

vez desde que chegara à América, iria passar dois anos seguidos, 1950 e

1951, sem trabalhar em

nenhum. Depois de O príncipe encantado e Romance carioca, a MGM tinha

opção para um

terceiro filme com ela, mas Joe Pasternak não estava lhe acenando com uma

proposta. Nem

Pasternak nem qualquer produtor de outro estúdio.
Hollywood enfrentava uma crise que não conhecera nem nos piores anos da

Depressão. Em 1950,

a freqüência ao cinema nos Estados Unidos desabara para 60 milhões de

ingressos por semana -

30 milhões a menos que em 1948! - e continuaria a cair. A indústria

estava sob três fogos

mortíferos: o crescimento da televisão (4 milhões de pessoas já tinham

aparelho em casa), a

suspeita de abrigar comunistas (começara uma sinistra caça às bruxas), e

a pior ameaça para os

estúdios: a lei antitruste, que iria proibi-los de ser, ao mesmo tempo,

produtores e exibidores.


Tombada essa pedra do dominó, as outras se seguiriam: os estúdios seriam

obrigados a vender

suas enormes cadeias de cinemas; sem a exibição garantida, a produção

cairia; e, com isso, muita

gente seria demitida.
481
Elencos e equipes que eles tinham levado décadas para formar seriam dispensados e

gêneros inteiros, como

os musicais e os westerns, que dependiam de estúdios funcionando à plena,

tendiam a

desaparecer. Era o fim de Hollywood - ou, pelo menos, de Hollywood como o

mundo a


conhecia. Carmen escolhera uma época ingrata para ficar independente. Se

isso lhe servisse de

consolo, ela não seria a única ao relento. Mas, agora, era cada um por

si.
Soltos na cidade, sem a proteção de um estúdio - sem nem mesmo um

contrato temporário que os

obrigasse a ir para o trabalho, e temendo acabar como os gafanhotos, que

todos os dias saíam ao

sol para morrer -, muitos atores tomaram providências. Alguns voltaram

para o teatro, em Nova

York; outros se venderam ao inimigo - a televisão - e se deram bem; e

ainda outros voltaram

para seus estados ou países de origem. Carmen poderia ter optado por

qualquer uma dessas

saídas. Mas algo a embotava e a paralisava em Beverly Hills, e nem se

podia dizer que a causa

disso fossem seus amigos americanos - porque nem eram tantos e, por mais

que a estimassem,

havia uma distância saxônica entre ela e eles. Os melhores amigos de

Carmen estavam em sua

família e em alguns de fora - todos brasileiros. E, de repente, eles é

que começaram a ir embora,

num movimento de volta em massa para o Rio.


Elsa e Alex Viany já tinham se mandado em 1949; Gilberto Souto faria o

mesmo em 1952, depois

de vinte anos em Hollywood. Mas a temporada das defecções seria 1950-

1951. Os primeiros a

partir, em meados de 1950, foram Andréa e Stenio Ozorio, levando seus

filhos. Em setembro seria

a vez de Vinícius e Tati, com Susana e Pedro. Em dezembro, o casal Sérgio

Corrêa da Costa

igualmente faria as malas - seu sucessor no Consulado, Antônio Corrêa do

Lago, com sua

mulher, Dedei, seria uma presença regular na casa de Carmen, mas não

teria com ela a mesma

cumplicidade de Sérgio. E, em abril de

1951, o pior golpe: Aurora e Gabriel também tomariam o navio de volta com

as crianças e,

provisoriamente, levariam dona Maria, para ajudá-los a se reinstalarem na


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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