Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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toda a sua língua,

quilometricamente, para dentro da boca do diplomata. Quando se

desprendeu, Smandek estava

sôfrego e atônito - fora o seu primeiro (e talvez último) beijo numa

mulher. Carmen fingiu olhar

sério para ele e disse: "Não vá contar pra ninguém, hein?"
Vinícius, Smandek e o pessoal do consulado não irritavam Sebastian - por

falarem inglês, eram

dos poucos amigos de Carmen com quem podia conversar. Os grandes

obstáculos entre ele e o

poder em North Bedside Drive eram Aurora e Gabriel. Em janeiro de 1949,

quando eles

anunciaram que a cegonha ia passar de novo, Sebastian vislumbrou a

oportunidade para se livrar

de seus cunhados.
Uma de suas armas era a intriga que, sem muito tato, vivia tentando criar

entre as irmãs. Para

Carmen, Sebastian transmitia supostas queixas de Aurora, de que Carmen

era a culpada por ela

"não ser um sucesso nos Estados Unidos", e que ela, Aurora, era quem

"poderia estar no lugar de

Carmen". Para Aurora, Sebastian dava a entender que Carmen a considerava

"uma ingrata", e que,

se estava insatisfeita, "por que não voltava para o Brasil?". Agora, com

a gravidez de Aurora,

Sebastian ganhara novos elementos para semear a cizânia. Para Aurora, ele

insinuava que Carmen

"não se conformava com aquela injustiça" - por que Aurora seria "mãe duas

vezes e ela,

nenhuma?". Para Carmen, Sebastian dava a entender que Aurora se sentia

vitoriosa sobre ela.

Carmen e Aurora não acreditavam nessas futricas grosseiras, mas Sebastian

sempre teria a ganhar

se, no íntimo de cada uma, ficasse um resíduo de dúvida.
As relações entre ele e Gabriel eram piores ainda. Só se falavam o

necessário, e o fato

(plenamente percebido por ambos) de um deles ser de ascendência judaica e

o outro, árabe, não

contribuía para que acertassem suas diferenças. Até havia pouco, Gabriel

presidia a casa com

naturalidade e, na ausência de Carmen, fazia as honras da piscina junto

às visitas. Agora Sebastian

desautorizava ordens de Gabriel, expulsava os brasileiros que apareciam

sem avisar, proibia que

as visitas falassem português na sua presença e, com isso, criava

impasses que só a dona da casa

poderia resolver.
"Ele está querendo forçar uma situação, Carmen", alertou Gabriel. Tinha

razão, porque logo

Sebastian deu um ultimato a Carmen: "Ou Gabriel e Aurora vão embora,

honey, ou eu vou" -

sublinhando o honey, para Carmen não se esquecer do que ele representava.

"Um de nós terá de

sair."
Era uma cartada perigosa, porque Carmen podia pagar para ver

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- e então ele teria de fazer as malas. Mas Sebastian sabia que não havia esse

risco: Carmen não queria

ser obrigada a tomar partido porque, se realmente se decidisse contra

ele, teria de formalizar o

pedido de divórcio. (Segundo Laurindo de Almeida, que ia muito lá,

Sebastian ameaçava usar os

meandros das leis americanas para tomar tudo de Carmen se ela levasse o

divórcio adiante.)
A MGM, com quem Carmen estava sob contrato para mais um musical "família"

com Jane Powell,

não via com simpatia aquela situação. Era conveniente que aqueles rumores

de divórcio não

chegassem à imprensa, pelo menos por enquanto. Em função disso,

providenciou-se a produção

de material fotográfico para as revistas de cinema sobre a felicidade no

lar dos Sebastian. Carmen

e Dave se submeteram - fazia parte do jogo. As fotos mostravam o casal na

piscina de North

Bedford Drive (com Dave dentro d"água, para não revelar o defeito na

perna), Carmen dando de

comer ao marido na boquinha, ou os dois de rosto colado e fazendo caretas

um para o outro. As

fotos eram muito boas, mas nem todos se deixavam enganar.
Rumores de que as coisas iam mal naquele casamento chegaram à sempre bem

informada Dorothy

Kilgallen, do New YorkJournal-American. Dorothy deu o divórcio como às

portas. Carmen

telefonou-lhe para desmentir - mas, por algum motivo, um desmentido nunca

é tão lido quanto a

nota que deu origem a ele. Assim, sempre que um repórter os visitava,

Carmen armava um

teatrinho, uma ficção, em que fazia a esposa realizada, e em que

Sebastian era simpático com todo

mundo.
Nesse teatrinho, Sebastian era apresentado como um bem-sucedido "produtor

de filmes", embora

seu único crédito na tela fosse o de "assistente do produtor" em

Copacabana e, mesmo assim, por

causa do irmão. Nos filmes que Carmen estava fazendo na MGM, ele mal

tinha permissão para

entrar no estúdio. Era difícil encontrar uma ocupação fixa para defini-

lo. Em certo momento, foi

referido como "chefe de vendas" numa companhia de exportação de tratores.

Depois se disse que

estava metido no negócio de transcriptions - transcrições radiofônicas -,

que eram a gravação

em estúdio, com todos os recursos de qualidade, de programas com cantores

para difusão pelo

rádio. (Muitos cantores, como Bing Crosby e Peggy Lee, estavam gravando

transcriptions em

série.) Não se sabe o que resultou dessa atividade de Sebastian - e, se

resultou, onde estariam as

preciosas transcriptions de Carmen? Em 1950, Sebastian teria aberto uma

firma de conversão de

aparelhos de TV, de dez ou de doze polegadas, para dezesseis polegadas ou

mais - um jornal

chamou-o de "uma autoridade no ramo de conversões". Por causa disso, em

outubro daquele ano

Carmen teria comprado uma empresa especializada, a Sterling Television

Company - de cujo

destino não se teve mais notícia.
Embora Carmen invariavelmente comparecesse com o dinheiro para as

empreitadas de Sebastian,

nada parecia ser levado adiante. A última de que se soube teria sido uma

produtora de programas

de TV em sociedade com

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Edward Eliscu, parceiro do falecido compositor Vincent Youmans em "The

Carioca" e "Flying down

to Rio". Não se sabe se algum programa resultou dessa produtora - ou se

ela própria chegou a

existir.
A verdadeira avaliação de Carmen das aptidões de seu marido pode ser

medida pelo que

aconteceu na escala de Chicago da sua primeira excursão com os Anjos do

Inferno e na qual

Sebastian a acompanhou. Carmen levara todo o plano de luz preparado pelo

coreógrafo Nick

Castle, para ser apenas seguido pelo encarregado da iluminação de cada

lugar em que se

apresentasse. Em Chicago, no Chez Paree, Sebastian resolveu substituir

esse encarregado. Na

noite de estréia, o primeiro show já ia pelo meio e Sebastian não

conseguia se acertar com as

luzes - disparava o canhão vermelho quando devia soltar o azul, ou

deixava o palco às escuras e

outros erros bisonhos. Isso fazia com que Carmen e os músicos também

errassem o tempo todo.

Em certo momento, Carmen parou o show, cobriu com a mão os refletores que

a cegavam e falou

em direção ao jirau onde estavam Sebastian e o rapaz que deveria estar

cuidando da luz.
"Ei, garoto!", gritou Carmen. "Meu marido está aí? Diga a ele para vir

tomar um uísque e deixar

você trabalhar. Quando ele der o fora daí, você sabe o que fazer: é só

seguir o papel! [E, virando-

se para a platéia:] Estão vendo para que servem os maridos?"
A platéia riu, e continuou rindo enquanto Sebastian, as faces em fogo,

descia do jirau e ia em

direção ao bar. A partir dali, e por um bom tempo, deixou de viajar com

Carmen.
Com freqüência, Sebastian era também apresentado à imprensa como um

marido ciumento. Uma

prova disso é que relutava em ir ao Brasil enquanto não aprendesse

português suficiente para

entender "o que diriam à sua mulher no Rio". Mas a realidade era outra -

porque Sebastian não

tinha o ciúme entre seus pecados capitais. Nos teatros em que se

apresentavam, Carmen e seus

músicos costumavam dar os últimos retoques no show dentro dos camarins,

muitas vezes enquanto

acabavam de se trocar. E, assim como acontecia no passado com o Bando da

Lua, Carmen não

era mistério para os rapazes dos Anjos do Inferno - eles a viam seminua

com frequência.

Russinho, o mais novo deles e recém-egresso da Tijuca, ficava

impressionado - Carmen, em

forma, ainda era de provocar alteração -, mas todos se mantinham a uma

respeitável distância.

(Afinal, era a patroa.) A exceção foi Walter, que não teve melhor idéia

do que se apaixonar por

Carmen.
A situação pareceu se complicar quando se teve certeza de que Sebastian

percebera e, a qualquer

momento, poderia tomar satisfações com ele. E, inevitavelmente, isso

aconteceu.
"Walter, acho que você está apaixonado por minha mulher. É verdade?",

perguntou Sebastian.


Walter, suando frio, mas já sentindo o bilhete azul sobrevoando-o,

resolveu jogar tudo:

469
"Apaixonado só, não, Dave. Eu sou louco por ela."
Sebastian deu a única resposta que ninguém esperava - e a prova de que o

ciúme passava longe

de suas preocupações:
"Ora, fico contente com isso. Alguém que gosta tanto da minha mulher

quanto eu, ou quase. É sinal

de bom gosto."
E Walter não foi demitido - pelo menos, não naquele momento, nem por

aquele motivo. O cantor

não demoraria a sair do conjunto, mas por sugestão dos colegas e pelo

fato de que estava

bebendo demais e atrapalhando o trabalho. Harry, Lulu e Russinho o

chamaram de lado e o

aconselharam a voltar por algum tempo para o Brasil. Quando se sentisse

melhor, eles o

receberiam de novo - tanto que nem o substituiriam. Walter concordou.

Carmen pagou-lhe a

passagem e ele foi embora, mas nunca mais voltou.
Apesar da aparente concórdia entre Sebastian e os músicos, o que havia

era uma silenciosa e

mútua aversão. Até que essa aversão deixou de ser silenciosa. Certa noite

em que Carmen

precisara sair, e os Anjos do Inferno estavam ensaiando em sua casa,

Sebastian gritou de lá de

dentro:
"Russinho, venha cá agora!"
Russinho, ocupado com seu pandeiro num número com os colegas, ignorou-o.

Dali a pouco, outro

grito impertinente:
"Russinho, venha cá, já disse!"
Harry, Lulu e Walter, que, como Russinho, não gostavam de Sebastian (o

único que o tolerava era

Aloysio), trocaram olhares e riram. Mais alguns minutos, e o próprio

Sebastian irrompeu na sala,

aos desaforos:
"Não está me escutando chamá-lo, seu filho-da-puta?"
Russinho não estava habituado a ser chamado assim - na praça Saenz Pena

todos o tratavam

com educação. Ouviu essa imprecação de Sebastian e nem conversou.

Acertou-lhe um murro no

nariz que fez com que Sebastian saísse catando cavaco para trás e, no

caminho, levasse outro

soco, esse de raspão, no supercílio, até cair de costas e de pernas

abertas, sem saber o que o

abatera.
Russinho saltou sobre ele para continuar o castigo, mas foi contido por

Gabriel - uma decisão

que este, no futuro, deve ter se arrependido de ter tomado. Salvo do

massacre, Sebastian deixou-

se ficar grogue no chão, enquanto o sangue lhe escorria do supercílio ou

do nariz, ou de ambos, e

empapava sua camisa amarela. Em segundos, Sebastian estava todo em

Technicolor.


Russinho apenas vestiu o paletó, recolheu seu pandeiro e disse tchau. Foi

embora, sozinho, para a

casa que alugava com os colegas. Não havia sentido em continuar no ensaio

- afinal, acabara de

agredir o marido da patroa. Sua demissão do conjunto eram favas contadas.

Só esperava que o

nariz de Sebastian estivesse doendo tanto quanto os nós de seus dedos.
Mal abriu a porta de casa, o telefone tocou. Era Carmen.
"Russinho, você tem uma direita que eu vou te contar, hein?", ela disse,

vibrando.

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Ele não entendeu. Então não estava demitido, e nem ela furiosa?
"Isso que aconteceu foi uma coisa entre homens", disse Carmen. "Gabriel e

os outros me contaram.

Amanhã você virá ensaiar normalmente e ele [Sebastian] te pedirá

desculpas."


No dia seguinte Russinho voltou com os colegas à casa de Carmen. Dona

Maria chamou-os para

almoçar e lhes serviu bifes à milanesa. Sebastian, com um band-aid sobre

o olho e com o nariz em

forma de couve-flor, não se sentou à mesa. Mas, ordenado por Carmen, foi

até lá e estendeu a

mão:
"Desculpe, Russinho."
Aurora e Gabriel presenciaram com reserva esse gesto de humildade. Sabiam

que era falso e que

Sebastian estava sendo apenas político. Reinava na casa uma atmosfera

opressiva. Aurora movia-

se pesadamente pelas salas, transportando com dificuldade sua barriga de

seis ou sete meses. Ao

passar lentamente por Sebastian num corredor, sentia o olhar de ódio às

suas costas. A criança era

esperada para setembro, mas, se incidentes como o de Russinho se

repetissem (com Gabriel, por

exemplo), Aurora temia um desenlace antes do tempo - bastaria sofrer

algum aborrecimento

grave. (Dizia-se que, numa mala fechada debaixo da cama, Sebastian

guardava um revólver.)

Não era a melhor maneira de viver uma gravidez.
Para poupar Aurora e a própria Carmen, Gabriel decidiu que sairiam dali.

Sebastian, afinal, tinha

seus direitos - era o marido de Carmen. E já era tempo de Aurora ter um

pouco de autonomia em

relação à irmã. Limpando suas economias, em junho ou julho de 1949,

Aurora e Gabriel

compraram à vista, por 25 mil dólares, uma casa na então pacata Westwood

Village, perto de

Beverly Hills, entre Brentwood e West LA, e um dos poucos lugares em Los

Angeles onde se

podia passear a pé. No dia em que Aurora, Gabriel e Gabrielzinho

marcharam para fora de North

Bedford Drive, Sebastian sentiu que havia vencido. Finalmente tinha

Carmen só para si.


Em termos, porque, responsabilizando-o pela saída de sua irmã e de seu

cunhado, Carmen o

enxotou de novo. Primeiro, de sua cama - e Sebastian foi dormir no antigo

quarto de Aurora e

Gabriel. Mas havia nisso algo de simbólico, que desagradava a Carmen.

Então, pela primeira vez,

ela o expulsou de casa. Sebastian achou mais conveniente, por enquanto,

fazer o jogo. Não

bronqueou, não ameaçou. Voltaria para seu antigo apartamento. Mas, antes,

deu a Carmen uma

chave (de ouro) e disse:
"Esta é a chave de meu apartamento, Carmen. Quando você quiser, vá me

visitar. Abra a porta a

qualquer hora. Então ficaremos juntos de novo."
A separação chegou aos ouvidos dos colunistas de Hollywood, comprometendo

a estratégia da

MGM de manter as comédias de Jane Powell a salvo de divórcios. Dali

espalhou-se pela

imprensa brasileira e foi registrada de forma
471
pitoresca pelo repórter e compositor Fernando Lobo na revista Radar, em

novembro de 1949.

Sem saber direito do que estava falando, Lobo (sucesso naquele ano com o

samba "Chuvas de

verão", na voz de Francisco Alves) resolveu narrar velhos namoros de

Carmen - com "o moço

rico que teve lutas sangrentas com rivais" (Mário Cunha ou Carlos Alberto

da Rocha Faria?); com

"um jovem artista que largou a arte e depois sofreu quando compreendeu

que ela deveria seguir,

seguir para o alto, mas que, nessa caminhada, deveria caminhar sozinha,

para que o público não

virasse os olhos, decepcionado" (Aloysio, talvez?); e com "alguém que

Hollywood não deixou,

porque aquela estrela não permitiu" (Gregory Peck? Joseph Cotten? Victor

Mature?) -, como se,

por onde passasse, Carmen largasse um rastro de homens destruídos.
Não era o caso e, como sabemos, bem o contrário. Era sempre ela quem, no

mano a mano com os

homens, perdia e se submetia. No dia 14, também de novembro, Louella

Parsons noticiou a

reconciliação de Carmen e Sebastian, "depois de uma separação de dois

meses". O próprio

Sebastian, nada galante, contou como tinha sido: por aqueles dias, por

volta das onze da noite,

Carmen parara o Lincoln na porta do prédio dele e subira. Horas depois,

saíram juntos, rumo a

North Bedford Drive.
Vitorioso e de volta à casa de Carmen, livre de Gabriel e de Aurora,

Sebastian poderia exigir

também a partida de dona Maria. Mas isso seria de um atrevimento quase

suicida. E desnecessário

porque, pelo menos no primeiro ano, a "Velha" passaria mais tempo em

Westwood com Aurora

(ajudando a cuidar de Maria Paula, que nascera no dia 19 de setembro) do

que com Carmen. Para

Sebastian, era como se só agora seu casamento fosse começar - sem os

parentes que davam

ordens a sua mulher e, indiretamente, a ele. E, com Carmen no estúdio,

filmando o dia inteiro na

MGM, poderia manter os chatos brasileiros a distância.
Durante o ano de 1950, Carmen ainda teria forças para mandar Sebastian

embora outras duas

vezes - como contaria ao colunista Earl Wilson, que, onze anos antes, a

batizara de "Brazilian

bombshell". Sebastian obedecia, passava alguns dias fora - intervalos

cada vez mais curtos - e

reaparecia dizendo: "Honey, I love you". Carmen o recebia de volta.
Até que Sebastian já não precisou ir - porque ela nunca mais o mandou

embora.
Os dois meses em que Carmen esteve separada de Sebastian - setembro e

outubro de 1949 -

estão registrados em seus dois números musicais em Nancy goes to Rio (no

Brasil, Romance

carioca), filmados naqueles dias. Os números eram a rancheira (pode crer)

"Yipsee-i-o" e o misto

de rumba e baião, "Caroom" pá pá". Ambos eram assinados apenas por Ray

Gilbert, embora o

primeiro tivesse um trecho de letra em português (por Aloysio) e o

segundo fosse

472
nada menos que o então recente e celebérrimo "Baião", de Luiz Gonzaga e

Humberto Teixeira:
Eu vou mostrar pra você Como se dança o baião E quem quiser aprender É só

prestar atenção.


Na versão de Ray Gilbert, tornou-se:
When you are out in the street Out in the tropical heat You"llfall in

love with a song With a wonderful beat Ca-ca,

caroom" pá pá Ti-ca, ti-ca, ti-ca Ti-ca, ti-ca, ti-ca, tá.
Aloysio, em sua temporada no Rio em 1948, percebera o potencial

internacional desse baião. Dos

alto-falantes de Xique-Xique, no alto sertão baiano, à orquestra da boate

Vogue, à beira-mar de

Copacabana, era só o que se escutava, e isso cobria um leque de gostos. O

próprio ritmo do

baião, estilizado pelo pernambucano Luiz Gonzaga e cheio de swing, era

uma grande novidade,

e havia boas chances de sua aceitação na América. Aloysio levara o disco

de Gonzaga para Los

Angeles, tocara-o para Ray Gilbert, e este fizera uma letra em inglês.
Em termos de direitos autorais, o simples acréscimo do refrão nimbado,

"Ca-ca, caroom" pá pá"

etc., permitira a Gilbert assenhorar-se da canção inteira. Era assim que,

na partitura impressa da

versão americana (editada pela indefectível Robbins Music Corporation),

lia-se em inglês:

""Caroom" pá pá" - Música e letra por Ray Gilbert", com um condescendente

acréscimo em letras

miudinhas: "Baseado na melodia de "Baião", por Luiz Gonzaga e Humberto

Teixeira" - como se

estes fossem dois folcloristas primitivos que vivessem de cócoras à beira

de uma estrada,

mascando um talo de capim. Na última página da partitura, a sombria

ameaça: "O uso da letra ou

música desta canção, no todo ou em parte, estará sujeito a processo

criminal pelas leis de

copyright dos Estados Unidos". Mais um pouco, Luiz Gonzaga e Humberto

Teixeira, ao tocar sua

própria música numa boate do Rio, estariam sujeitos a um processo movido

por Ray Gilbert.


Mas essas não eram as únicas músicas brasileiras creditadas somente a

Gilbert em Romance

carioca. Havia também a batucada "Cai, cai", de Roberto Martins, e,

incrivelmente, o número que

fechava o filme, "Carinhoso",
473
de Pixinguinha e João de Barro, transformado em "Love is like this", ambos

cantados por Jane

Powell. Os nomes de seus verdadeiros autores também não apareciam na

tela. Mas, enfim, aquele

era apenas o começo da longa e lucrativa relação entre Ray Gilbert e os

compositores brasileiros

- estes, fornecendo a melodia, a harmonia, o ritmo e a letra original de

dezenas de canções, e

Gilbert, encarregando-se de adaptar uma letrinha em inglês e embolsar a

parte do leão nos

royalties.
Se os compositores eram omitidos dos créditos de Romance carioca, pelo

menos os músicos que

acompanhavam Carmen tiveram o seu nome com destaque na tela: o Bando da

Lua - como o

conjunto passara a chamar-se.
Durante boa parte de 1949, Harry, Lulu, Walter, Russinho e Aloysio ainda

se apresentaram como

os Anjos do Inferno. Mas o ex-crooner do conjunto, Leo Villar, de algum

microfone em Havana ou

na Cidade do México, exigiu o título de volta. Alegou que estava

reorganizando o grupo (de fato,

estava) e que o nome era seu. Não era - mas Harry e Lulu, em atenção à

antiga amizade, abriram

mão dele. Precisavam agora de um novo nome para si próprios. O primeiro

que lhes ocorreu foi

The Boys from Brazil, e parecia que iria pegar. Mas Aloysio convenceu-os

de que o melhor nome

- e mais tradicionalmente ligado a Carmen - estava inativo, disponível e

lhe pertencia: o

Bando da Lua.
(Na verdade, também não pertencia. Embora não houvesse nenhum papel

assinado, o nome

Bando da Lua pertencia por igual a Aloysio e aos demais fundadores:

Vadeco, Hélio, Ivo e os

irmãos Stenio e Affonso. É claro que estes não proibiriam Aloysio de usá-

lo para designar o

conjunto que acompanharia Carmen - se ele apenas os comunicasse disso.

Mas Aloysio os

ignorou e, pior ainda, em 1950, tentaria registrá-lo no Rio, através de

uma procuração passada ao

advogado Ernesto Dorea. Quase conseguiu - mas Stenio, ao voltar

definitivamente para o Brasil

naquele ano, não descansou enquanto não derrubou o registro. Mais tarde,

todos os veteranos do

grupo original romperiam com Aloysio ao ouvi-lo declarar que o conjunto


Catálogo: 2015
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2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
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