Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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corpo fora. Carmen então

procurou um advogado de Buffalo, que sabia ser seu fã. Este contatou um

senador chamado

Minnelli e, com a anuência dela, convidou-o a assistir ao show de Carmen

Miranda e os Anjos do

Inferno no cassino e depois jantar com os artistas no hotel. O senador

aceitou e vibrou com o

espetáculo. Durante o jantar, Carmen falou "casualmente" do problema; o

senador mandou vir um

telefone, ligou para Washington e passou os nomes dos rapazes para um

assessor; desligou e

ficaram conversando até as oito da manhã. A essa hora, alguém de

Washington ligou de volta,

informando que eles tinham seis meses de permanência até resolverem de

vez o problema. À

tarde, Carmen, agradecida, mandou um par de abotoaduras de brilhantes

para o senador. O

político, para surpresa dos brasileiros, agradeceu, mas devolveu as

abotoaduras - disse que não

teria como explicá-las aos colegas.
Poucas semanas antes, no dia 9 de fevereiro, os Anjos do Inferno haviam

interrompido o seu

número no Chez Paree em Chicago e atacado de "Parabéns pra você". Era o

aniversário de

Carmen. Mas só Aloysio sabia (e foi ele quem comandou o "Parabéns") que

não era um

aniversário qualquer. Carmen estava completando quarenta anos -

oficialmente, 35. A platéia se

juntou à melodia. Carmen se emocionou. Uma corbeille do tamanho de uma

geladeira foi levada

ao palco. Um por um, os rapazes do conjunto a beijaram. O pandeirista

Russinho, 22 anos, a

chamou de "mamãe", e Carmen respondeu, rindo:
"E eu lá quero ser mãe de malandros como vocês?"
Carmen chegava aos quarenta como se ainda fosse a cantora de "Taí", vinte

anos antes, sendo

que, agora, tinha de se vestir com fantasias cada vez mais extravagantes

- coisa que não fazia

quando jovem. Podia parecer ridículo, mas Hollywood era assim. Em discos,

Frank Sinatra, aos

34 anos, casado, pai de dois filhos e garanhão impiedoso, era o consumado

cantor de "Soliloquy",

"The song is you" e "The house I live in". Mas, no cinema, continuava

interpretando adolescentes

retardados vestidos com roupa de marinheiro. Fizera isto em Marujos do

amor (Anchors aweigh),

em 1945, e estava fazendo de novo em Um dia em Nova York (On the towri),

que ela vira sendo

rodado na MGM (Gene Kelly era o marinheiro "adulto"). Até quando?
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Carmen sentia que não poderia continuar a interpretar Carmen Miranda por

muito tempo -

chegaria a hora em que não agüentaria dançar com aqueles chapéus e roupas

tão pesados. E

agora sabia que podia fazer coisas diferentes.
Meses antes, em meio às filmagens de O príncipe encantado, e num dia em

que ela estava

particularmente bem, Ted Allan, principal fotógrafo de testes da MGM,

oferecera-se para rodar

alguns metros de filme com ela, usando um pequeno estoque em dezesseis

milímetros que ainda

possuía. A idéia era mostrála de um modo diferente: queria ver como

Carmen fotografava em

roupas normais, mas elegantes, sobre um fundo neutro.
Obedecendo à sua direção, Carmen recostou-se no braço de uma chaise

longue e fez todo tipo de

expressões do repertório das atrizes dramáticas. Eram portraits animados,

em que ela parecia tão

interessante quanto Greer Garson ou tão sedutora quanto Hedy Lamarr.

Allan, um veterano de

filmes com Jean Harlow, Joan Crawford e Carole Lombard, já esperava por

aquilo, mas não com

tanta presença e intensidade. Dali podia surgir algo mais duradouro que

uma estrela - o que ela

já era. Podia surgir uma atriz.
Infelizmente, Allan nunca conseguiu que Dore Schary, o novo encarregado

de produção do

estúdio, ou algum executivo da MGM se interessasse em ver o teste (a que

Carmen se submetera

como se fosse uma principiante). Por trás da desculpa oca - diziam-lhe

que não tinham

equipamento para projetar dezesseis milímetros -, o que havia era apenas

o triste e eterno

preconceito.

Capítulo 26

1948 - 1950
A câmera nada gentil

"Como descrever um par de mãos que esvoaçam como pardais dopados com

Benzedrine?",

escreveu a colunista Beulah Schacht no Globe-Democrat, de Saint Louis,

Missouri, de 9 de maio de

1949. (A referência à Benzedrine era só uma imagem literária.) E

continuou, sem rir: "Como

soletrar sobrancelhas que sobem e descem como se não quisessem ser vistas

duas vezes no mesmo

lugar? Como entender uma língua muito mais olhos do que inglês? Quando

tiver as respostas para

essas perguntas, talvez - talvez - eu possa escrever sobre Carmen

Miranda".
David Nasser, o principal repórter de O Cruzeiro, não tinha desses

pruridos barrocos para

escrever sobre Carmen ou sobre ninguém. Para ele, bastavam algumas

informações. Sua

capacidade de imaginação e o estilo incomparável faziam o resto. A falta

de escrúpulos também

ajudava.
Em fins de 1948, o ilustrador e figurinista Alceu Penna iria aos Estados

Unidos a serviço de O

Cruzeiro. Accioly Netto, diretor da revista, pediu-lhe que conseguisse

com Carmen material

fotográfico exclusivo para uma série de artigos que planejavam escrever

sobre ela. Em Los

Angeles, Carmen presenteou Alceu com um belo jogo de fotos mostrando-a em

sua casa, com a

família e os amigos. Alceu despachou tudo para Accioly no Rio, que pôs o

material nas mãos de

David Nasser. E só então a série começou. De 18 de dezembro de 1948 a 23

de julho de 1949,

Nasser publicou em O Cruzeiro "A vida trepidante de Carmen Miranda", uma

suposta biografia

em capítulos semanais, estilo folhetim.
Nos 32 artigos da série, ele inventou uma infância portuguesa completa

para Carmen, com direito

a "recordações" profundas - sabendo muito bem que seriam usadas contra

ela; penetrou na

cabeça de personagens para ler seus pensamentos; reproduziu diálogos que

ninguém ouviu; e

descreveu situações com detalhes imperceptíveis até para quem estivesse

lá. Em compensação, a

cronologia era uma bagunça. Os artigos exageravam a participação de

amigos de Nasser (como

Francisco Alves) na vida de Carmen e atacavam pessoas a quem ela queria

bem, mas que eram

desafetos do repórter. Além disso, este conferiu uma falsa autoridade a

seu relato simulando

alguma intimidade com Carmen - quando, na verdade, só tivera uma rápida

conversa com ela,

na volta de Carmen ao Rio em 1940. Não por acaso, as fotos exclusivas,
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conseguidas por Alceu Penna, davam a entender que a artista colaborara no

trabalho. Tudo isso era

bem David Nasser, no apogeu de sua canalhice - e se vingando de Carmen

por ela ter gravado

apenas uma letra sua, "Candeeiro", dele e de Kid Pepe. (No mesmo ano de

1949, Nasser quase

mataria Dalva de Oliveira com uma série de artigos no Diário da Noite, em

que contava a

separação entre a cantora e o compositor Herivelto Martins - do ponto de

vista de Herivelto -,

sem se importar com as conseqüências sobre os filhos do casal.)
Durante aquelas 32 semanas, O Cruzeiro certamente aumentou a sua

circulação, e os papalvos,

mais uma vez, tiveram seus motivos para admirar David Nasser. Mas, em

Beverly Hills, sempre

que um número da revista lhe caía às mãos, Carmen lia o capítulo e ficava

furiosa. No embalo,

sobravam impropérios para Alceu Penna, por ela o considerar cúmplice do

repórter. Mas o

inocente Alceu fora apenas usado por Nasser, via Accioly, e nunca se

conformaria por ser alijado

do círculo da mulher que ele idolatrava. O maior merecedor da ira de

Carmen deveria ter sido seu

irmão Mocotó, que municiou o repórter com inúmeras informações - essas,

sim, preciosas - a

respeito dos primeiros anos de seus pais no Rio e forneceu fotos tiradas

dos álbuns de família. Mas

Carmen pode não ter lido esses capítulos, porque nunca brigou com Mocotó.
Outro que se indignou com os artigos foi Alex Viany, que, no começo de

1949, encerrara sua carreira de correspondente em Hollywood e voltara com

Elsa para o Rio.

Alex propôs à revista Noite Ilustrada a sua própria série, "Carmen

Miranda descobre a América",

apenas sobre a trajetória americana da cantora. A revista topou. Alex

escreveu os artigos todos de

uma vêz e de um ponto de vista bem pessoal, de quem conhecia o território

e presenciara parte

dos fatos. Mandou-os para Carmen antes da publicação, esperando humilhar

David Nasser com a

informação de que a biografada lera e aprovara o que ele havia escrito.

Mas Carmen demorou

tanto a responder que, quando a série de Alex começou a sair, no dia 5 de

abril de 1949, Nasser já

estava quase encerrando a dele. A resposta de Carmen para Alex demorou,

mas valeu:
"Gostei muito dos seus artigos", ela escreveu.
"Ninguém melhor que você, que é meu amigo e conviveu tanto conosco aqui

em Hollywood,

pode escrever a meu respeito. Aliás, estou com um projeto encasquetado,

que só não o faço agora

porque, infelizmente, perdi o bebê e, até vir outro, não considerarei

minha vida completa.

Pretendo um dia escrever a história da minha vida, que pode não ser a de

nenhuma Isadora

Duncan, mas afinal é minha e tem suas passagens bem gozadas."
Mais adiante, ao se justificar por ter segurado os originais de Alex por

tanto tempo, Carmen se

traía em relação a outro assunto mais sério:
"Você me desculpe não ter podido me comunicar com você antes,

462
mas a afobação era muita, e você sabe como eu fico quando estou trabalhando.

[...] Até hoje tenho

tremedeira em dia de estréia e, depois, o velho calmante come solto,

senão não há nada que faça a

pestana de cima juntar com a de baixo."


O gesto simpático de Alex, oferecendo-lhe a primeira leitura dos artigos,

não anulava a suspeita

de Carmen de que a imprensa brasileira vivia em campanha contra ela. Não

era bem assim -

embora Carmen tivesse razão quanto aos críticos de cinema. Pedro Lima e

Celestino Silveira

tinham voltado a vê-la com olhos um pouco mais amigos, mas isso agora de

pouco adiantava,

porque Moniz Vianna, do Correio da Manhã e já o principal crítico

brasileiro, continuava a

desancá-la. Na estréia de Copacabana no Rio, em julho de 1948, Moniz

lamentou que Groucho

sozinho, sem seus irmãos, não era "a mesma coisa" - ninguém poderia

discordar -, mas só

faltava culpar Carmen por ela não ser Harpo, Chico e Zeppo ao mesmo

tempo. E acrescentava:

"No papel mais importante de sua carreira, [Carmen] não faz outra coisa

além de repetir velhos

cacoetes e exibir interessantíssimas rugas". Em junho de 1949, na estréia

carioca de O príncipe

encantado, o crítico fez pior: massacrou o filme, ressalvou a "delícia"

que era Elizabeth Taylor e

ignorou a presença de Carmen. Para alguns, essa omissão tinha algo de

cruel. Para Moniz, era

apenas um ato piedoso.
E, por fim, houve a proposta de entrega a Carmen de uma medalha de ouro e

de um diploma com

o título simbólico de "Embaixadora artística do Brasil" pela Câmara dos

Vereadores do Rio, no

segundo semestre de 1948 - um episódio nebuloso que, ao resultar em nada,

deu mais um motivo

para que Carmen sofresse com o que considerava uma atitude hostil a ela.
A novela da medalha começara ao mesmo tempo que a gravidez. No dia

9 de setembro, Ary Barroso, então vereador, soltara a proposta entre seus

colegas de vereança

com a melhor das intenções. O Brasil devia muito a Carmen, dizia Ary, e

somente ele, que

convivera com ela em Hollywood, podia avaliar a luta da artista pelas

nossas coisas. Era uma

militância permanente, fanática e apaixonada, em prol do Brasil. Uma

medalha e um diploma

(falou-se também num título de Cidadã Carioca) eram o mínimo que o povo

brasileiro, por

intermédio de seus representantes no Rio, poderia oferecer-lhe. Ora, uma

moção como esta, de

grande simplicidade, não deveria encontrar nenhum obstáculo para sua

aprovação, certo?
Errado. Muitos vereadores deviam achar a moção justíssima e a aprovariam

de olhos fechados. E

havia outros que também a achavam justa, mas, por ela ter vindo do

encrenqueiro Ary Barroso,

não poderiam aprová-la - talvez se tivesse partido de outro vereador,

menos criador de casos...

E havia os que votariam contra, por não gostar da Carmen que viam nos

filmes e por uma

profunda divergência futebolística com Ary (muito ligado ao Flamengo para

conseguir apoio

entre os vereadores vascaínos, por exemplo). Tudo,
463
no entanto, era uma questão de discussão e votação - nada para ser decidido em

cima da perna.


Um dos irmãos, Mocotó ou Tatá, ficou sabendo da proposta de Ary no mesmo

dia ou no dia

seguinte à sua apresentação, e telefonou para Beverly Hills, onde a

notícia foi recebida com

fogos. Fogos prematuros. A moção ainda teria de entrar na pauta e só

depois começaria a

carambolar pelos desvãos da Câmara, sujeita a pareceres e apreciações. Na

melhor das hipóteses,

levaria meses para ser aprovada - mas Carmen já fazia planos de ir ao Rio

para recebê-la.


"Não sei quando poderei viajar, mas irei de qualquer maneira se a medalha

for aprovada", disse

Carmen a Alex Viany, que, então, ainda estava em Hollywood. "Eu a

receberei em nome do

samba e da marchinha, em nome dos rapazes [do Bando da Lua] que também

ajudaram com seu

ritmo e - não me esquecerei - em nome de todos os compositores populares

do Brasil." E,

baixando os olhos: "Por outro lado, não ficarei decepcionada nem sentida

se a medalha não for

aprovada. Afinal de contas, há muitas pessoas que, mais do que eu,

merecem tal condecoração.

Bidu Sayão, por exemplo. Ou Guiomar Novaes, uma das maiores pianistas do

mundo".
Não era verdade. Ficaria sentida e decepcionada, sim. Bidu e Guiomar,

praticantes da grande

arte, viviam sendo homenageadas por reis, presidentes e primeiros-

ministros. Carmen, a antiga

rainha dos sambas e das marchinhas, já tinha a aclamação popular. Mas

sonhava com que o Brasil

oficial, o das casacas e dos brasões, também a reconhecesse.


E não queria pressionar ninguém, mas precisava de uma posição - qualquer

uma - sobre a

proposta, para poder programar sua vida profissional. Se fosse para ir

já, ela tomaria o primeiro

avião - e o Diário da Noite garantia que ela teria uma recepção

consagradora. Mas, se ficasse

para o primeiro semestre de 1949, precisaria dispensar as várias

perspectivas que tinha para

aquela época. Havia o convite para uma temporada em janeiro, em Paris

(que não se realizaria);

um novo filme em fevereiro, na MGM (Ambassador from Brazil, idem); e, em

meados do ano, seu

próprio programa de televisão.
"Por isso é que até hoje não tive um programa de rádio", ela disse a

Alex. "Eu estava esperando

pela televisão."
De qualquer maneira, Carmen tentaria conciliar sua agenda com a homenagem

que tanto queria

receber.
Mas, na Câmara, a banda já trocara a marcha por um dobrado. Os debates

entre os vereadores

tinham migrado para outros temas mais momentosos, e a medalha saíra da

ordem de prioridades.

Então Carmen soube da gravidez, sofreu o aborto, ficou hospitalizada e

sua vida se complicou.

Os jornais falaram no cancelamento da viagem, mesmo que esta nunca

tivesse sido marcada.

Houve resmungos por escrito em jornais: "De novo, diz que vem, mas não

vem". E alguns

colunistas já estavam se cansando de anunciar a vinda de Carmen,

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apenas para ter de desmenti-la pouco depois. Dali a algum tempo, haveria

quem levantasse a

suspeita de que sua gravidez não teria existido - que seria uma invenção

de Carmen para

justificar sua desistência de vir ao Brasil pela possibilidade de a

medalha não ter se materializado

(e, como uma gravidez não podia ficar em suspenso, ela teria optado por

um aborto também

fictício).


Essa versão, naturalmente, só podia ser creditada ao mal que se esconde

nos corações humanos.

Tanto que, poucos dias depois do aborto, a idéia da viagem já estava

sendo retomada, pelo

menos por Sebastian.
Em sua carta de 12 de outubro, de Beverly Hills, para Aloysio de Oliveira

no Rio, ele queria

saber em que pé estava a situação:
Falando nisso, Louie, Carmen e eu estávamos planejando ir ao Brasil assim

que possível. Mas,

desde que começou a agitação em torno da medalha, achamos que seria meio

ridículo chegar aí

antes da hora. Agora que estamos prontos [de novo], não podemos ir ao Rio

sem ter certeza de

que isso não será interpretado como um desejo, da parte de Carmen, de

apressar a homenagem -

quando a verdade é justamente o contrário. [...] Ficaríamos muito gratos

se você continuasse

acompanhando a situação e nos aconselhasse sobre a época mais apropriada

para viajar.


Hoje se sabe que, nessa história da medalha, o único pecado de Carmen foi

desconhecer a

natureza do funcionamento da Câmara dos Vereadores carioca, na praça

Floriano. Somente em

1947, depois de quase dez anos de interrupção provocada pela ditadura

getulista, é que o Rio

voltara a eleger os seus representantes. E, dos cinqüenta vereadores

eleitos, apenas três possuíam

alguma prática parlamentar. Os outros 47 ainda estavam aprendendo em

plenário as

complexidades do regimento, como a de se chamarem de quadrúpedes ou

ladrões enquanto se

tratavam por Vossa Excelência. Ary era um dos novos vereadores, os quais

incluíam o temível

jornalista e campeão de votos da UDN, Carlos Lacerda; o também udenista

Jorge de Lima,

famoso como poeta por "Essa nega Fulô" e como médico, por não cobrar dos

pobres e dos

amigos em seu consultório na Cinelândia; e o humorista Aparicio Torelly,

o Barão de Itararé,

eleito pelo Partido Comunista. (Por pouco a Câmara não teria a presença

do também comunista

Jararaca, co-autor de "Mamãe, eu quero" e que não se elegeu.) Em 1947 e

1948, aquela primeira

leva de vereadores bateu cabeça com cabeça, discutiu as propostas mais

folclóricas e fez da

Câmara um democrático forrobodó - até aprender.
O próprio Ary alternou propostas sólidas e nem tanto. Numa delas, pregou

a criação de um selo

municipal - um imposto - a ser pago pelas gravadoras multinacionais, para

conter o avanço da

música estrangeira no Brasil. Em outra, defendeu uma campanha de

esclarecimento da juventude

carioca sobre "o pernicioso vício de beber". Numa terceira, liderou a

batalha pela construção

465
de um grande estádio de futebol que permitisse ao Brasil sediar a Copa do

Mundo de 1950. Das

três propostas, como se sabe, só a do estádio vingou e, mesmo assim,

depois de Ary duelar com

Lacerda pela escolha do lugar - Ary queria o estádio no bairro do

Maracanã, como ficou sendo;

Lacerda preferia a Baixada de Jacarepaguá, "para onde a cidade iria" (e

foi mesmo). A proposta

do selo sobre a música não colou, porque era matéria federal, e a da

campanha antialcoólica

também não, porque o próprio Ary era um bebedor federal. Além disso, nos

primeiros tempos, os

vereadores tiveram de limitar-se a discursar sobre as propostas porque,

enquanto o Congresso

Nacional não regulamentasse a sua atividade, não podiam votar projetos de

lei. Com isso, a

proposta da medalha para Carmen caiu num buraco negro, como muitas

outras.
Carmen amargou essa rejeição pelo resto de 1948. Mais uma vez, o mundo

oficial negava

reconhecimento à filha do barbeiro e da lavadeira. Mas, em janeiro de

1949, numa das escalas de

sua excursão por várias cidades com os Anjos do Inferno, Carmen teve uma

surpresa. Das mãos de

Vera Sauer, consulesa do Brasil na Filadélfia, recebeu no palco uma placa

do Itamaraty por seus

"relevantes serviços prestados à divulgação da cultura brasileira e ao

estabelecimento de

relações artísticas entre o Brasil e os Estados Unidos". Aparentemente,

já que o Legislativo não

tomava providências, o Executivo, na pessoa de seus representantes no

país em que ela morava,

encarregara-se de lhe fazer justiça.


O naipe de problemas de Carmen em 1949, no entanto, seria de tal ordem

que uma placa ou uma

medalha a mais ou a menos já não faria muita diferença. Ou uma capa de

revista, mesmo que fosse

a da Newsweek, como a de 16 de maio daquele ano, estampando a foto de

Milton Berle (de

baiana, claro) num programa em que Carmen fora a principal atração - e

daí se Newsweek (ou

Time) nunca lhe desse uma capa? Já um filho a mais ou a menos faria

diferença - porque, para

quem um dia sonhara ter cinco filhos, ela estava exatamente cinco filhos

atrasada.


E, menos de três meses depois de Carmen perder seu bebê, Aurora viu-se de

novo grávida.


Mesmo que ele e Carmen estivessem "separados" depois do aborto, Dave

Sebastian contabilizara

sua permanência na casa como uma vitória. A volta para a cama de Carmen

era uma questão de

tempo. Mas Sebastian, sucessivamente expulso e perdoado por Carmen,

levaria os meses

seguintes alternando entre o "Blue room" e a cama do casal. Às vezes, sua

promoção ao quarto

principal se dava porque alguma visita, geralmente Vinícius, não tinha

condições de ir dirigindo

para casa e ficava por lá, para dormir até passar o porre (e ficava para

o fim de semana inteiro).

Nesse caso, Vinícius ia para o "Blue room", e Sebastian reassumia seu

travesseiro ao lado de

Carmen. Outro que, às vezes,

466
também ficava para o fim de semana era o novo funcionário do consulado,

Raul de Smandek.
Carmen adorou Smandek assim que o conheceu. Certa vez, de molecagem,

agarrou-o pelas

lapelas e exclamou, rosto com rosto: "Gostoso!"
Espremeu-o contra a parede e surpreendeu-o com um beijo em que forçou


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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