Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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o mesmo, só que sem os

remédios. Nas longas conversas que tinham depois dos shows, Carmen se

queixava de seu

casamento com Sebastian.
Com quase um ano de casados, nada do que ele prometera se cumprira.

Sebastian não conhecia

ninguém importante na área musical. Recusava as propostas que vinham da

William Morris e só

lhe arranjava contratos em botequins de segunda categoria, e que ela

tinha a maior dificuldade

para cancelar. Ao arrecadar o cachê dos shows, aplicava-o como se fosse

seu e não lhe prestava

contas. E, não contente em fracassar como agente e empresário, insistira

em que ela lhe

financiasse uma loja de eletrodomésticos em Los Angeles, para aproveitar

a onda consumista do

pós-guerra. Carmen relutara, mas lhe dera o dinheiro. Sebastian abrira o

estabelecimento e, como

não tinha jeito para negócios e deixava tudo na mão de empregados, a loja

quebrara. Ficaram as

dívidas e o prejuízo para Carmen liquidar.
Sebastian revelava-se um blefe de ponta a ponta. Seus celebrados contatos

com os figurões do

cinema não saíam do zero, e ele não conseguia convencer nem seu próprio

irmão a investir num

filme. O projeto de fundar uma produtora independente também já fora

engavetado, mas, por

causa dele, ninguém a chamava para filmar - achavam que já estava cheia

de propostas. Até que

ela própria resolvera se mexer e encontrara Joe Pasternak, ex-produtor de

Deanna Durbin na

Universal e agora com o maior prestígio na linha de musicais da MGM. Ele

a convidara a fazer

dois musicais "jovens" em Technicolor (com opção para um terceiro) na

marca do leão, e Carmen

aceitara correndo. O primeiro, A date with Judy (no Brasil, O príncipe

encantado), teria Jane

Powell, Wallace Beery e Elizabeth Taylor, com Carmen como o quarto nome

do elenco.


As filmagens tomariam março e abril de 1948, e Carmen deveria apresentar-

se ao estúdio assim

que voltasse de Miami. A seu lado, estaria Xavier Cugat, realizando um

antigo sonho de ambos, o

de firmar juntos. Ele a acompanharia com sua orquestra nos dois números

musicais que lhe

estavam reservados: "Fm cooking with glass" e "Cuanto lê gusta". A idéia

era mostrar uma nova

Carmen, versão MGM: sem os turbantes, mas penteada por Sydney Guilaroff e

maquiada por Jack

Dawn, duas figuras legendárias de Hollywood; em vez das fantasias de

baiana ou rumbeira, ela

usaria os vestidos e chapéus criados por Helen Rose.
Carmen voltou de Miami, rodou O príncipe encantado, e esse filme pode ter

funcionado para todo

mundo - mas não para ela. Só entrava em cena aos quarenta minutos

cravados do filme e seu

papel (de uma cantora "latina", de origem indefinida, chamada Rosita) se

limitava a duas ou três

falas inócuas e a alguns passos de rumba com Wallace Beery. Seus números

musicais eram opacos


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- a química com Cugat não aconteceu, e a coreografia do jovem

Stanley Donen não

podia ser mais apática. Mas o pior é que a tela denunciava uma Carmen

ausente, triste e

desgastada.
Um dos motivos podia ser o contraste com o frescor indecentemente juvenil

das protagonistas:

Jane Powell, dezenove anos e ainda vivendo a ingénue adolescente, e

Elizabeth Taylor,

dezesseis, mas de uma beleza quase adulta e já se despedindo de seus

papéis de menina-moça.

Carmen, no filme, fazia par com o esférico e rotundo Cugat e, pior ainda,

era suspeita na trama de

manter um romance ilícito com Beery - o qual, na vida real, estava com 63

anos, idade então

considerada próxima da morte. Era altamente depreciativo para Carmen,

como estrela e como

mulher. Só Vinícius achou bem feito - quem a mandara filmar com Jane

Powell, que, para ele,

tinha "cara de ladrilho"? (Dali a três anos, a birra de Vinícius com Jane

Powell renderia um poema

em que ele dizia: "Você me lembra alimento enlatado, abobrinha verde,

André Kostelanetz/ E eu

lhe garanto que você não é a mulher que foi tirada do meu costelanetz"".)
Em suas poucas seqüências no filme, Carmen parecia inchada, os olhos

duros e sem brilho, a boca

crispada. A maquiagem, mesmo realçada pelo Technicolor, não conseguia

esconder a pele sem

vida. Os vestidos e os sapatos podiam ser chiques, mas inadequados para

seus movimentos - ou

talvez fosse Carmen que parecesse trôpega ou cansada. Ninguém lhe daria

os 39 anos que

acabara de completar. Daria mais - o que era terrível, considerando-se

que, devido à poda de

cinco anos em sua idade quando saíra do Brasil, Carmen tinha oficialmente

34. E o pior era a

sensação de tristeza que ela passava, e que nada tinha a ver com a

personagem. Mas não era

tristeza. Era o começo de uma depressão crônica em conseqüência da

intoxicação provocada

pelos medicamentos - o organismo começando a exigir um suprimento

ininterrupto para

continuar funcionando.
Carmen arrependeu-se de não ter solicitado à MGM um prazo de alguns dias

antes de se

apresentar para a filmagem. Sua tática, já aplicada com sucesso em outras

ocasiões às vésperas de

um compromisso importante, consistia em ir para Palm Springs com Aurora

ou Odila e tentar

derrotar a excitação e a insónia pelo cansaço. Isso significava diminuir

a dose dos medicamentos,

sofrer os rigores da abstinência - ansiedade, inquietude, taquicardia e,

embora ela nem

desconfiasse, a possibilidade de delírios e convulsões - e ficar acordada

até que o organismo

cedesse e ela conseguisse dormir. Só assim podia estabelecer um mínimo de

regularidade em seu

sono (permitindo-lhe acordar cedo para filmar) e recuperar um aspecto

saudável. Mas não tivera

tempo para isso. O resultado estaria à vista de todo mundo quando O

príncipe encantado

estreasse em junho.
Terminadas as filmagens, Carmen mal teve tempo de retocar o batom. Depois

de anos de

sofrimento pela guerra, a Europa - aliás, a Inglaterra - voltava a se

abrir para o mundo, e

chamava a visitá-la os artistas que,

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durante o conflito, tinham lhe ensinado, por filmes e discos, que valia a pena

lutar pela vida. Um desses

artistas era Carmen. Embarcou para Londres no dia 15 de abril, para uma

temporada de quatro

semanas no Palladium, do tentacular empresário Vic Parnell, a versão

inglesa de Shubert. Com

ela, no America, seguiram Sebastian, Aurora e um grupo organizado por

Aloysio, com Zezinho,

Affonso, Vadico (de volta ao conjunto, especialmente para essa excursão),

Gringo do Pandeiro

(ritmista brasileiro que trabalhava com Cugat) e o baterista mexicano

Chico Guerrero, fã de

samba. A princípio, Carmen iria somente com Tati e os músicos - e Tati já

começara a gastar por

conta as diárias que lhe seriam pagas por Carmen. Mas, no último

instante, Aurora resolveu ir e ela

teve de lhe ceder o lugar.


"Sem sacrifício", disse Tati numa carta, "porque o marido da Carmen

resolveu aderir e, como se

trata de um grande chato, a coisa piorou muito."
Carmen decidiu aproveitar a travessia para regularizar o sono cortando os

remédios. Mas isso

parecia impossível. Dias depois, ainda não conseguia dormir, e a ausência

dos medicamentos já

se manifestava nos suores frios, tremedeiras e dores no corpo. Desistiu

da estratégia e voltou aos

remédios, mas a vigília continuou. O sono não vinha, nem com a ajuda de

quantas cápsulas de

Seconal e Nembutal seu organismo conseguisse suportar sem vômitos ou

diarréia. Nada parecia

fazer o efeito desejado. A insónia prolongada provoca alucinações, e

somente Carmen podia

saber os monstros que desfilaram diante de seus olhos na treva da cabine.
Sabe-se que, em Londres, um médico teria sido chamado a seu hotel para

aplicar-lhe "uma

injeção" que a fizera dormir. A injeção seria de Demerol, um narcótico

analgésico à base de

morfina e que, combinado com os barbitúricos, tinha o efeito sedativo de

uma anestesia. Mas o

provável é que o primeiro alívio lhe tenha sido fornecido, ainda no

navio, por um dos médicos de

bordo - porque Carmen parece ter chegado bem a Londres, pronta para

estrear no dia 26 (e isso

não exclui uma posterior aplicação pelo médico londrino). O fato é que,

agora, ela detinha um

segredo perigoso: os sedativos injetáveis.
Carmen escutava da coxia do Palladium enquanto o ingênuo mestre-

decerimônias a apresentava:


"Esperamos que a platéia não estranhe a nossa estrela e entenda o seu

gênero musical,

absolutamente inédito para os ingleses", disse ele.
Carmen era a primeira artista "latina" a se apresentar no histórico

teatro da Argyll Street. Por isso

o mestre-de-cerimônias se achara na obrigação de "explicá-la" e ao seu

tipo de música. Mas não

carecia. Quando Carmen surgiu no palco, as 2500 pessoas que o Palladium

comportava ficaram

de pé. As palmas começaram, e pareciam não querer parar. Falou-se em

vários minutos de ovação

- e, para os músicos atrás de Carmen, elas tiveram mesmo a duração de uma

eternidade.


447
O show demorou ainda mais para começar porque, na seqüência

das palmas, Carmen

balbuciou alguma coisa tentando agradecer, começou a chorar, e recebeu

mais aplausos. Essa

troca de amor se repetiria, de forma abreviada, para as platéias que

lotariam o Palladium duas

vezes por dia (às seis e às nove da noite) durante toda a sua temporada -

não mais de quatro, mas

de seis semanas, porque os londrinos não queriam deixá-la ir embora.
Eles eram gratos a Carmen pelos momentos de alegria que ela lhes

proporcionara na guerra:

"Mamãe, eu quero", "Chica chica boom chie", "I, yi, yi, yi, yi (I like

you very much)", "Cai, cai",

"Chattanooga choo-choo". Sabiam tudo isso de cor porque Londres fora das

poucas capitais da

Europa a que os filmes americanos continuaram chegando durante o conflito

- pelo menos os

principais, entre eles os de Carmen. Seu festival de olhos, boca,

sapatos, turbantes e canções em

Serenata tropical, Uma noite no Rio, Aconteceu em Havana e Minha

secretária brasileira injetara

vida no cotidiano lúgubre dos londrinos em meio aos bombardeios. Por

isso, ao visitar Londres

pela primeira vez, Carmen tinha de falar e cantar no dialeto daqueles

filmes, para gáudio dos

repórteres que se esbaldavam reproduzindo-o nos jornais. (Para que

quebrar o encanto e mostrar-

lhes que tal jeito de falar era apenas o de suas personagens?) Exceto por

isso, os jornalistas

ingleses tinham perfeita noção de quem ela era e do que significava.
"Carmen Miranda é uma filial do departamento de propaganda [brasileiro]

que não custa nada ao

Brasil - nem mesmo um agradecimento", escreveu Ed Gregorian no London

Morning. "Carmen

vive num país [os Estados Unidos] em que as pessoas só entendem inglês,

comem em inglês,

dormem em inglês, se divertem em inglês e não têm a menor intenção de

estudar português para

entender a letra de "Tico-tico no fubá". Por isso [em seus shows], Carmen

fala e canta em inglês,

mas canta também em português e comete a proeza de ser entendida por

todos." Outro jornal, o

Daily Mail, descreveu-a: "É o cruzamento entre um bolo de casamento, uma

árvore de Natal e

uma exposição de flores. A platéia recebeu-a com tanto entusiasmo que ela

teve de fazer um

discurso de agradecimento antes de cantar a primeira nota. E, ao

contrário da maioria dos astros

do cinema a se apresentar nos palcos, Carmen não se poupa em nada.

Oferece uma performance

completa".
Menos aos domingos. Nestes, os shows, proibidos pela religião anglicana,

tinham de ser

"concertos". Carmen podia cantar, mas estava proibida de falar com os

colegas no palco, usar

turbantes e expor a barriga. (A censura inglesa implicara com o seu meio

palmo de barriga de

fora. Ela o cobrira com um lenço.) Eram formalismos que Carmen

respeitava, assim como se

encantava ao ver os ingleses disciplinadamente formando filas, ao fim do

espetáculo, para lhe

pedir autógrafos - bem diferente da balbúrdia dos shows em Nova York, em

que as pessoas

abriam caminho a cotoveladas e se atiravam umas sobre as outras com o

caderninho na mão.

A própria Carmen fizera uma concessão

448
importante para estar ali: aceitara receber 2 mil libras por semana - pouco

mais de 5 mil dólares,

muito menos do que ganharia nos Estados Unidos. Mas era uma nova frente

que se abria, e no

continente em que, por acaso, nascera.


A temporada de Carmen coincidiu com a passagem por Londres de seu amigo

Roberto Seabra,

que nunca se recobrara por inteiro da paixão por ela, e da atriz

portuguesa Beatriz Costa, sua

colega dos tempos da Urca. Roberto e Beatriz, juntos ou separados,

chamaram-na diversas vezes

a sair com eles para ver Londres à luz do dia. Mas Carmen nunca acedeu a

seus convites. Não que

não quisesse - apenas não tinha forças para voltar à vida enquanto a

combinação de remédios

para dormir não cumprisse o seu ciclo, o que só acontecia a poucas horas

de ela voltar a ser

Carmen Miranda e encher o palco do Palladium com sua presença. Aurora e

os rapazes saíam

para os passeios em seu lugar.
A Londres em que Carmen passaria quase dois meses ainda ostentava as

cicatrizes de guerra -

enormes terrenos baldios no lugar dos quarteirões destruídos pelas

blitzen alemãs, famílias

desfalcadas de pais e filhos mortos em combate, e um racionamento de

produtos então

considerados básicos (sabão, gasolina, chocolate, penicilina, cigarros)

que não se sabia quando

iria terminar. Pois era essa a cidade que a recebia como se, do palco,

ela lhe soprasse alegria e

vitalidade. Nenhum londrino desconfiaria de que, terminado o espetáculo e

depois de fazer um

social com seus admiradores no camarim do Palladium, Carmen voltava para

o seu hotel em South

Kensington, encerrava-se em seu quarto, com todas as luzes apagadas e

cortinas fechadas - num

escuro tão denso e profundo quanto os sedativos permitiam -, e cancelava

mais um dia em sua

vida até que, dali a quase vinte horas, as luzes do palco voltassem a se

acender.
No dia 7 de junho, quando eles deixaram Londres pelo Queen Mary, quase

todos tinham o que

fazer no destino. Zezinho, Vadico e Gringo do Pandeiro ficaram em Nova

York, para se

apresentar no nightclub Ruban Bleu. Depois, Zezinho voltaria para Los

Angeles, onde, com

Nestor Amaral, Laurindo de Almeida e Russo do Pandeiro, reassumiria sua

cátedra ao cavaquinho

no restaurante Marquis. Aloysio, sem nenhum trabalho em perspectiva,

seguiu direto para o Rio.

Carmen e Sebastian, além de Aurora, passaram alguns dias em Nova York,

onde assistiram ao

inacreditável sucesso de O príncipe encantado em sua estréia no dia 21 de

junho no Radio City

Music Hall, e finalmente tomaram o caminho de casa.


Em 1948, Carmen calculava ter faturado, desde a sua chegada aos Estados

Unidos, cerca de 2

milhões de dólares. (Em moeda brasileira, soava ainda melhor: 60 milhões

de cruzeiros - mas

onde ela ganharia tanto dinheiro no Brasil?) Isso significava mais de 200

mil dólares por ano em

média - perfeitamente possível,

449
considerando-se que seu último salário na Fox, em 1945, fora

de

6250 dólares por semana. Já não era a mulher mais bem paga dos Estados



Unidos, embora ainda

fosse uma das mais bem pagas.


E o que Carmen tinha a mostrar por esse dinheiro? Uma casa em Beverly

Hills e outra em Palm

Springs; um Lincoln conversível creme (duas portas); uma fortuna em

jóias, mas difícil de

calcular; outra, altamente volátil, em perfumes (era só esquecer os

frascos meio abertos); e uma

quantidade incerta de dinheiro vivo, espalhado pela casa ou depositado em

bancos, sobre os

quais não parecia ter muito controle ou interesse. Ações, seguros,

aplicações? Zero. É verdade,

havia os poços de petróleo, mas o que eles lhe rendiam talvez não lhe

pagasse a gasolina.


Tão difícil quanto saber seu ativo real era contabilizar suas despesas.

Para uma temporada de

quatro semanas no Roxy, por exemplo, Carmen investia 9 mil dólares em

turbantes, bijuterias,

vestidos, sapatos (alguns, com lâmpadas coloridas que se acendiam) e 48

pares de meias com uma

orquídea logo acima do joelho. Gastava uma nota em gorjetas para os

carregadores - levava em

cada viagem dois contêineres para os turbantes, três para as fantasias e

dois para as roupas de

passeio (que mal chegava a usar). E sua verba anual para maquiagem era

absurda - somente o

que consumia em batom daria para sustentar dezenas de bocas americanas

comendo galinha

assada todos os dias. Era também ela quem pagava de seu bolso os músicos,

os arranjos, o diretor

musical, os direitos autorais, a comissão da William Morris, o agente e o

publicista. E, do que

sobrasse, o imposto de renda lhe levaria 65%.
O sucesso lhe vedava certos prazeres comuns aos mortais. Carmen era bom

garfo, mas, com sua

facilidade para engordar, tinha de se controlar. Às vésperas de começar

um filme ou uma

temporada, fazia uma dieta violenta. Na volta, se não tivesse um

compromisso pendente, entrava

para valer nos cozidos e feijoadas de sua mãe - mas sempre havia um

compromisso pendente.

Seu café-da-manhã, durante anos, consistira de um grapefruit, um ovo

quente, uma maçã, presunto

e café com leite. Mas, ultimamente, já não tinha muito apetite para

sólidos ao acordar.


Nos últimos tempos, Carmen saía cada vez menos à noite. Um dos motivos

era que Los Angeles se

tornara uma das cidades mais violentas do mundo. O incandescente Sunset

Boulevard, onde

ficavam os grandes nightclubs, era também um cenário de gangsterismo.

Mickey Cohen e Jack

Dragna, os maiorais, tinham escritório ali. Os dois disputavam o controle

das redes de apostas,

prostituição, seqüestro, aborto, chantagem e tráfico de heroína, além do

suborno de policiais e da

compra de políticos e juizes. Às vezes estourava um quiproquó entre eles

e começavam as

perseguições motorizadas, as emboscadas nas esquinas e as explosões de

carros - só faltava

Franz Waxman ou Miklòs Ròzsa na trilha sonora. Cohen tinha livre acesso

às festas de Hollywood

e seu braço-direito, Johnny Stompanato, vivia se insinuando para as

estrelas de cinema.

450
Uma atriz que, mesmo sem saber, fosse fotografada com Stompanato

passava a ser malvista

junto ao pessoal de Dragna. E o que Carmen mais temia eram os sequestros

por vingança.


Esse temor, certa vez, deixou-a quase histérica. Sua irmã Cecília e a

sobrinha Carminha ainda

moravam com ela em Beverly Hills. Carminha tinha uma bicicleta vermelha,

mas não podia se

afastar da frente da casa. Certa tarde, distraiu-se com uma amiguinha e

pedalaram para o outro

lado do quarteirão. Carmen deu pela sua falta e ficou maluca. Carminha

reapareceu meia hora

depois e só então Carmen respirou. Mas passou-lhe o maior pito:
"Não faça mais isso! Se souberem que é sobrinha de Carmen Miranda, levam

você!"
Carmen podia não saber por quê, mas tinha razão de abrir o olho: em Los

Angeles, o crime e o

glamour iam sem remorso para a cama. Escritores hardboiled como James M.

Cain, Horace

McCoy e Raymond Chandler passariam à posteridade como ficcionistas, mas,

na prática, eram os

cronistas da cidade. Em

1947, o glamour dera lugar ao grana guignol com o assassinato de "Black

Dahlia" - Elizabeth

Short, uma "atriz" de 22 anos cujo corpo nu e dividido em dois (na altura

da cintura) fora

encontrado por uma criança num terreno baldio, não muito longe de Beverly

Hills. Pelos 56 anos

seguintes, o caso seria um enigma para a polícia angelina e somente em

2003 se descobriria que o

assassino conciliava Hollywood com as antecâmaras do crime. Tratava-se do

doutor George Hodel,

médico muito popular entre o pessoal do cinema - por ser ligado a uma

rede de abortos - e

cujo conjunto de obra teria incluído a morte de outras mulheres, em

parceria com o escultor Fred

Sexton, autor da estatueta do Falcão maltês no filme homônimo de seu

amigo John Huston, de

1941. (Em 1958, Sexton seria também o assassino da mãe do futuro escritor

James Ellroy.) Hodel,

apesar de suspeito no caso de "Black Dahlia", morreria em

1999, aos 91 anos, sem ter sido incriminado - seus contatos com policiais

e juizes garantiram que

nunca fosse sequer incomodado. Os mesmos contatos, talvez, que permitiram

a Huston safar-se de

um castigo mais severo em 1933 ao dirigir embriagado, atropelar e matar

Diva Tosca, mulher do

ator brasileiro Raul Roulien.


E, sendo Hollywood como era, a exploração do glamour ilícito chegava

perto da perfeição em

alguns de seus subterrâneos. Numa cidade em que os estúdios faziam tudo

para proteger a imagem

das estrelas, a rede de prostituição cuidava para que nenhum homem

morresse à míngua de

fantasias. Em certos bordéis de luxo, moças já muito bonitas submetiam-se

a requintes de

maquiagem e produção e, em alguns casos, até a plásticas, para se

tornarem sósias perfeitas das

favoritas do público masculino. Era assim que, por cem ou duzentos

dólares, podia-se ir para a

cama com "Ava Gardner", "Betty Grable", "Lana Turner" - ou, se

preferisse, com "Carmen

Miranda". Não se sabe se alguém contou isso a Carmen algum dia. Em caso

positivo, não é difícil

451
adivinhar sua reação - perguntaria rindo como estava sua cotação em relação às

outras.
A verdadeira Carmen não podia ir a um inocente cinema, loja ou

restaurante sem aglomerar gente

à sua volta (o declínio da qualidade de seus filmes não diminuíra sua


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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