Carmen, Uma biografia Ruy Castro



Baixar 5.39 Mb.
Página56/71
Encontro02.07.2019
Tamanho5.39 Mb.
1   ...   52   53   54   55   56   57   58   59   ...   71

La Rocque - ela,

húngara de nascimento e estrela de O filho do sheik, sem falar uma

palavra de inglês; ele,

descoberto num circo e astro do primeiro Os dez mandamentos (The ten

commandments, 1923), de

Cecil B. De Mille. A cerimônia fora uma festa colossal em Hollywood, com

Harold Lloyd,

Constance Talmadge, Ronald Colman e Bebe Daniels entre os pajens e damas

de honra, o

cowboy Tom Mix chegando numa carruagem puxada por quatro cavalos, e por

aí afora. A união é

que duraria pouco, porque os noivos não eram adeptos do sexo oposto. E a

carreira de ambos

seria liquidada naquele mesmo ano pelo cinema falado.
O casamento de Carmen seria, sobretudo, sincero. Na véspera, ela chamou

Cecília ao seu quarto:


"Cecília, vamos rasgar estas cartas do Carlos Alberto."
Despejou na cama uma caixa com maços de cartas - as que Carlos Alberto da

Rocha Faria lhe

escrevera quando ela viajava para as temporadas em Buenos Aires e no

primeiro ano que passara

em Nova York. Ali, sobre a cama de Carmen, algumas foram abertas e lidas

pela última vez, entre

muitas exclamações:
"São lindas, Carmen", dizia Cecília. "Olha esta aqui! [E lia um trecho.]

Pelo amor de Deus, não

rasgue!"
"Rasgo, sim", insistia Carmen. "Vou me casar. Não posso ficar guardando

essas cartas."


Havia algo de simbólico nessa decisão: era Carmen se despedindo do homem

de quem mais

gostara e que, de certa forma, definira sua vida - se ele tivesse se

casado com ela no Rio, não

haveria a Broadway, nem Hollywood, e Carmen Miranda havia muito teria

deixado de existir.

Mas a vida quisera diferente. E assim, meticulosamente, Carmen fez seu

passado em pedaços e,

depois, picou-o como confete.
No dia seguinte, numa cerimônia para poucos, na igreja do Bom Pastor,

Carmen e Dave trocaram

grossas e pesadas alianças (para "durar para sempre", segundo ela) diante

do monsenhor Patrick

J. Concannon. Ao ser perguntada

430
se aceitava David como seu legítimo esposo, Carmen, em vez de

responder "Sim", disse

"Vou". Mas padre Patrick entendeu o espírito da coisa e os casou assim

mesmo. Aurora e o irmão

de Dave, Maurice, assinaram como testemunhas. Carmen usava cabelo laranja

sob um véu de

flores e lantejoulas, um conjunto de lã branco e plataformas em azul e

rosa com tachinhas

brilhantes. Dave, um jaquetão risca de giz azul, uma pavorosa gravata-

borboleta de listras azuis e

vermelhas e meias brancas - sob a camisa, junto à estrela-dedavi

pendurada em seu pescoço, a

medalhinha de santo Antônio que Carmen lhe dera.


Pouco depois, na recepção igualmente simples em torno da piscina em North

Bedford Drive,

Stenio Ozorio fez uma cara significativa ao observar o jeito de Sebastian

arrastar uma perna ao

andar. Carmen adivinhou o que estava se passando pela cabeça de Stenio e,

sempre


incorretíssima, sussurrou, rindo:
"Pois é. Namorei tantos homens bonitos e fui me casar com um manquinho!"
Nas duas semanas que haviam transcorrido entre a saída de Carmen de Miami

e o dia do

casamento, seu cunhado Gabriel estava em Cuba, a negócios, e não pôde

voltar para a cerimônia.

Não há registro da presença de Aloysio - se foi convidado, não se sabe se

compareceu. O

cônsul Raul Bopp, homem experiente e amigo de Carmen, já deixara Los

Angeles por seu novo

posto, em Lisboa; seu substituto, Afonso Portugal, acabara de chegar e

não era íntimo de Carmen

para lhe dar conselhos. (Além disso, fora convidado a ser o padrinho.) E

seu vice-cônsul Vinícius

tinha essa intimidade, mas, quando deu palpite sobre o casamento, foi a

posteriori - disse que

não via sentido... no noivo. (A mulher de Vinícius, Tati, que acabara de

chegar do Brasil, também

não seria uma admiradora de Sebastian.)
Tampouco há registro da presença de amigos antigos como Gilberto Souto e

Dante Orgolini no

casamento. E Elsa e Alex Viany, de forma inexplicável, não foram

convidados - para eles foi

dito que a cerimônia seria em São Francisco. O único jornalista

autorizado a comparecer teria

sido o caricaturista Luiz Fernandes, correspondente do Jornal das Moças

em Hollywood, e que

escreveu deslumbrado sobre a festa. (Especialmente porque, com o atraso

do cônsul e de sua

esposa, ele teria assinado como padrinho, junto com Aurora.) De propósito

ou não, Carmen se

privou da visão de pessoas que a conheciam bem e lhe queriam ainda

melhor, a respeito do passo

que estava dando. Não que essas pessoas tivessem força para alterar sua

decisão.
Dois dos antigos companheiros poderiam ter dito a Carmen o que pensavam

daquilo. Um era o

violonista Laurindo de Almeida, que finalmente emigrara para os Estados

Unidos e acompanhara

Carmen na minitemporada em Miami. Laurindo julgou radiografar Sebastian

assim que lhe foi

apresentado - e o que ele viu foi o caça-dotes, o vivaldino, interessado

em subir usando o

dinheiro e a posição de Carmen. Mas Laurindo só diria isso a ela quando

já não adiantava mais.
431
Outro, Stenio, o mais antigo amigo de Carmen na

cerimônia, teria comentado, não

para ela, mas para Andréa, sua mulher:
"Este é o começo do fim de Carmen Miranda."
A foto mais conhecida da festa mostra, sentados num sofá, o cônsul

Portugal e sua mulher,

Glorinha (também chamada de Dó), dona Maria, Carmen, Sebastian, Cecília

e, à frente de

Carmen, sua sobrinha Carminha. Foi batida quando já se encerrava a

recepção - todos

sorridentes, suas expressões confiantes em que aquela felicidade se

eternizaria. Mas ela pode ter

registrado o último momento de felicidade a dois para Carmen e Sebastian.

Pelo que se

depreende dos relatos, a guerra conjugal começava ali, tendo como

combustíveis a decepção, a

revolta e várias formas de crueldade, da parte de um ou de outro.
Esses relatos, partidos da família de Carmen, falam de uma noite difusa e

frustrada em São

Francisco, para onde os noivos teriam ido logo depois do casamento, e

onde os "parentes ricos"

de Sebastian os esperariam com um grande jantar no restaurante Ernie"s,

na Montgomery Street.

Mas, ao chegar a São Francisco, não haveria parentes nem jantar, numa

reviravolta que nunca se

explicou. Apenas uma noite no hotel (possivelmente o Saint Francis), com o

jantar pedido ao room

service e comido em silêncio no quarto; depois, Carmen, sem conseguir

dormir, os dois faróis

verdes virados para a parede, começando a suspeitar de que cometera um

grave erro; e, no dia

seguinte, a volta, também muda, para Beverly Hills.
Aurora, por sua vez, já não suspeitava de nada. Tinha certeza. E mais

ainda quando começaram a

pipocar em North Bedford Drive as contas do florista e da joalheria,

cobrando as flores que

Sebastian mandara para Carmen durante semanas e até o anel de brilhantes

que ele lhe dera. As

contas vinham em nome de Carmen Miranda. Isso explicava também os longos

e custosos

interurbanos para Miami dados a partir do telefone de Carmen. E a

preferência de Sebastian por

restaurantes baratos, quando ele a levava a jantar - porque eram os

únicos que podia pagar.


Para Aurora, Carmen caíra numa armadilha. E, por mais que sua irmã fosse

uma mulher frágil e

carente, Aurora tinha de reconhecer que Sebastian fora brilhante: do fim

das filmagens de

Copacabana, em meados de dezembro, ao casamento, em março, ele só

dispusera de três meses

para jogar a rede. Mas trouxera o peixe.
Para Carmen, não havia nada a fazer. Casara-se porque quisera - e o

casamento era sagrado.

Agora, agüentasse.
Quando Sebastian se mudou para North Bedford Drive, era como se estivesse

se mudando para o

Brasil. Mas ele já devia saber que seria assim. Com sua mulher, moravam a

mãe dela (dona

Maria), duas irmãs (Aurora, grávida, e Cecília), um cunhado (Gabriel,

marido de Aurora) e uma

sobrinha (Carminha,

432
filha de Cecília). Outras presenças permanentes eram as de Zezinho e

Odila, com o filho de

ambos, também Zezinho, de dois anos e afilhado de Carmen; Stenio e

Andréa, com as duas

crianças, Joyce e Ronald; e os outros músicos, com suas mulheres ou

namoradas. Entre os amigos,

os mais regulares eram Elsa e Alex, agora somados a Tati e Vinícius,

sendo que Elsa e Tati, esta

com seus filhos Susana e Pedro, formavam um grupo de amigos de Carmen que

entrava pelos

fundos e ia direto para a piscina sem avisar. Alguns brasileiros também

freqüentes nessa época

eram o cantor Dick Farney, indeciso entre sua promissora carreira

americana e a volta incerta

para o Rio; o violonista Laurindo de Almeida, pouco antes de juntar-se à

orquestra de Stan

Kenton; e Rosina Pagã, nos intervalos de seus namoros com os atores John

Garfield e Brian

Aherne, com o diretor John Huston e com meio mundo (Rosina deu muito em

Hollywood, mas de

nada lhe adiantou.) Um ou outro, como Vinícius ou Dick, falava inglês com

Sebastian. Mas a

língua oficial da casa era o português, uma algaravia que Sebastian nunca

ouvira antes e não fazia

questão de aprender, por saber que não teria nenhum uso para ela fora

dali. Das poucas palavras

que aprendeu, uma foi "chato" - que usava para definir algum brasileiro

que chegasse.
E havia os turistas brasileiros, para quem não apenas Carmen, mas também

Aurora e Cecília,

abriam as portas e os braços, mandavam ir entrando e faziam com que se

sentissem em casa. (Eram

comuns as visitas de militares, vinte ou trinta de cada vez, comandados

por um oficial. O recorde

absoluto foram os guardas-marinhas do navio-escola Almirante Saldanha -

mais de trezentos, a

ponto de terem de se revezar em grupos de trinta para entrar na casa.)
Se estivesse trabalhando, Carmen achava normal voltar para casa no fim da

tarde e encontrar

tanta gente na piscina ou no jardim - só pedia um tempo para refrescar-se

e vestir um short ou

maiô, antes de juntar-se à turba. Para ela, conversar com eles, saber das

últimas e rir muito era

como receber no rosto uma lufada de Brasil. Para Sebastian, que passava o

dia inteiro em casa,

aquele entra-e-sai de brasileiros cacarejantes era uma invasão

estrangeira. As músicas que

cantavam em coro até de madrugada - velhos sucessos de Carmen ou do

Carnaval - não lhe

diziam nada.
Mas, como era inevitável, nem sempre os de fora traziam boas notícias.

Foi por eles que Carmen e

Aurora souberam da morte, em janeiro daquele ano, do querido cantor João

Petra de Barros, que

participara do disco de Aurora, "Se a lua contasse". Dois anos antes, ele

tivera uma perna

amputada num acidente. Sofrerá muito e morrera agora em conseqüência

dessa amputação. João

Petra fora o criador de clássicos como "Até amanhã", de Noel Rosa, e

"Feitiço da Vila", de Noel e

Vadico. Estava com 32 anos. Por ironia, seus principais amigos - Noel,

Luiz Barbosa e Custódio

Mesquita - também tinham morrido muito jovens.
Todos os dias havia brasileiros para o almoço ou o ajantarado e a comida
433
era sempre brasileira - feijoada, arroz-de-forno, rabada. Vários foram os

hábitos alimentares que

Sebastian teve de mudar de um dia para o outro - arroz em vez de batata,

porco em vez de

carneiro, farinha em vez de ketchup -, mas para tudo havia um limite. A

vida ao redor da piscina

tampouco lhe era rósea: por causa de sua perna (uma mais curta e mais

fina do que a outra),

evitava aparecer de calção na frente de estranhos, os quais, para ele,

eram quase todos. Atribuía

sua deficiência alternadamente a um acidente de trabalho ou a uma doença.

(Stenio e Affonso

diziam que devia ter sido um tiro e só se dirigiam a ele como "Deixa que

eu chuto", em português,

sabendo que ele não entendia.)
Sebastian tentou regular o uso da piscina, sem sucesso - para todo lado

que se virava havia um

brasileiro.
"Quero ficar a sós com minha mulher!", dizia, desesperado.
Mas os hábitos da casa eram anteriores a ele e estavam muito arraigados

para permitir uma

mudança súbita. Sebastian se irritava porque Carmen, por temperamento e

falta de tempo, era a

que menos opinava nos negócios domésticos. Se estivesse trabalhando,

Carmen voltava para

casa de madrugada e passava boa parte do dia dormindo - geralmente, só

reaparecia no fim da

tarde. Se tivesse acabado de cumprir uma temporada, dormia direto durante

três dias, para se

recuperar. Enquanto isso, as donas da casa eram dona Maria e Aurora, e a

voz masculina que se

ouvia era a de Gabriel. Carmen parecia uma hóspede - e, com isso, ele,

Sebastian, ficava sem

autoridade.
Ao disputar com Gabriel o posto de primeiro-marido da família, Sebastian

sentiu de saída a

hostilidade de Aurora. Sem querer favorecer o marido ou o cunhado, Carmen

ficava paralisada -

o que, sem que ela quisesse, favorecia Gabriel. Para sobreviver nesse

terreno, Sebastian tentou

várias ententes. A princípio, encheu Carminha de presentes (com o

dinheiro de Carmen) para

angariar a simpatia de Cecília. Quando percebeu que, com esta, não

conseguiria nada, dirigiu sua

campanha contra ela. Chegou a tentar expulsá-la, mas Cecília não se

intimidou:


"A casa é da minha irmã e só vou se ela mandar."
Mas Carmen também se omitia, o que reforçava a posição de Cecília.

Sabendo que, com Aurora,

jamais teria alguma chance, Sebastian voltou-se para uma terceira Miranda

- dona Maria.

Protegido pelo fato de não falar português e por ela nunca ter aprendido

inglês, Sebastian

passava o dia fazendo-lhe pequenos agrados e se dirigindo à sogra como

mamãe:
"Coffee, mamma?"


Acabou arrancando de dona Maria um tratamento mais tolerante, embora isso

não lhe valesse de

muito naqueles primeiros tempos.
Sebastian resolveu tomar outras medidas para ganhar espaço. Começou por

cortar visitas que

apareciam todo dia para almoçar, como os músicos do ex-Bando da Lua.

Sempre que o telefone

tocava, corria para atendê-lo, em inglês, a fim de constranger possíveis

visitantes brasileiros.

Esbravejava contra o

434
uso dos banheiros por aquela legião de visitas e contra o abuso de papel

higiênico, ainda um

artigo difícil de encontrar no imediato pós-guerra. (E era mesmo. Tanto

que, quando Tati chegara

a Los Angeles em fevereiro, Rosina Pagã fora visitá-la e, de presente,

lhe levara dois rolos, como

quem "presenteasse orquídeas".) Carmen disse a Sebastian que sossegasse o

periquito - quem

comprava o papel higiênico era ela, e seus amigos podiam usar até um rolo

inteiro de cada vez, se

precisassem.


Não que Sebastian fosse dos mais comedidos. Na primeira semana do

casamento, foi a um alfaiate

e mandou fazer nove ternos, na conta de Carmen. Seu guarda-roupa aumentou

tanto que Carmen

teve de reservar-lhe dois armários do closet. As brigas também começaram

cedo, embora não se

saiba se, já no primeiro mês, Carmen inaugurou a prática de, no meio de

um bate-boca, tirar a

aliança do dedo, jogá-la na privada e dar a descarga. (Faria isso pelo

menos três vezes durante o

casamento. Sebastian sempre lhe comprava uma aliança nova - com o

dinheiro dela.) Ou se, já

então, ela o mandou dormir no quarto de costura, como faria depois

repetidamente. O fato é que,

em meados de abril, apenas um mês depois do casamento - quando deviam

estar no meio de uma

apimentada lua-de-mel -, Carmen deixou Sebastian para trás, em Beverly

Hills, e foi fazer uma

temporada de dois meses no Copacabana, em Nova York.
Com isso, um dos projetos docemente acalentados por ela durante o noivado

ficava também

adiado: a viagem ao Rio, para apresentar Dave aos irmãos e desfilá-lo

pela cidade. Antes do

casamento, imaginara-se passeando com ele pela avenida Atlântica,

almoçando nas Paineiras ou

levando-o à Vista Chinesa. Em vez disso, Carmen estava no Copacabana, mas

o de Monte Proser,

a 7500 dólares por semana, fazendo três shows de meia hora por noite

(dez, meia-noite e duas da

manhã), acompanhada por um conjunto dirigido pelo brasileiro Fernando

Alvarez - o mesmo

que ela ajudara anos antes, no Rio, ao aceitar gravar um disco em dueto

com ele. A ausência dos

irmãos Ozorio nesse grupo representou a primeira vitória de Sebastian -

Stenio, pelo menos,

nunca mais tocaria com Carmen.
Era a primeira vez que Carmen se apresentava na boate que Proser criara

em sua homenagem

havia seis anos. Essa temporada fazia parte do contrato que previa o uso

de seu nome na futura

filial da Califórnia e o lançamento de seu filme com Groucho.
Aqueles foram também os primeiros shows de Carmen para valer num

nightclub de Nova York. Os

que fizera no passado, no Waldorf e no Versailles, não contavam porque

ela acabara de chegar

aos Estados Unidos e não dominava a língua - limitava-se a cantar e

rezava para que ninguém

da platéia lhe perguntasse nada muito difícil. Agora, anos depois, ela

mesma se dirigia à platéia,

conversava com qualquer um, contava histórias, zombava de si mesma.
"Olhei para um candelabro em minha casa e tive uma idéia para um

turbante", ela dizia.


435
A platéia se sacudia de rir. Podia também falar a sério, como na noite de

11 de maio, quando anunciou que estava casada, que queria um filho e era

"para já".
Foi ali, no Copacabana, que, sem citar a infeliz Lupe Velez, Carmen

inaugurou a prática de soltar

as melenas no palco, para mostrar que estava longe de ser careca e que,

ao contrário, tinha

abundante cabelo. Se sentisse que a platéia não estava acreditando, pedia

a alguém da orquestra

que o puxasse com força e gritava "Ai!". Aos que se espantavam de vê-la

loura, apressava-se em

informar: "É tingido!" - como se ninguém soubesse. A idéia de mudar a cor

de seu cabelo viera

da peruca loura que usara em Copacabana e que ela achara que lhe caíra

bem. Só que a peruca

tinha de ser penteada, era cheia de triquetriques e levava meia hora para

ser aplicada - donde

era mais fácil tingir. Aquela tonalidade, que seria a sua definitiva,

estava mais próxima da cor

natural de seu cabelo do que a asa de graúna que usava ao chegar aos

Estados Unidos.


Carmen sabia que, se explorasse suas imperfeições, atrairia mais simpatia

da platéia. Era um velho

truque do show business, e os comediantes sempre souberam os limites

dessa autodepreciação.

Mas Carmen fez algo inacreditável: na terra da peruca, da maquiagem e das

fotos com retoque,

em que rugas e pés-de-galinha eram inadmissíveis numa estrela, mostrou

sua cicatriz provocada

pela cirurgia na vesícula. Em vez de escondê-la, deixou-a à mostra na

fantasia e ainda chamou a

atenção da platéia:
"Olhem só. É minha cicatriz favorita. E justamente onde aparece mais! Nos

filmes, aplico uma

borboleta ou uma flor em cima, para disfarçar. Mas, no show, faço questão

de mostrar para todo

mundo. Gosto que saibam que estive doente, para que fiquem com pena de

mim."
Mas, o que a platéia diria se soubesse que Carmen estava doente e

trabalhando com sacrifício no

Copacabana? Ao fim de cada show, em que não se percebia nenhum senão,

arrastava-se até o

camarim, tirava a fantasia (entre as quais uma muito engraçada, de cestas

de flores presas aos

ombros), e se atirava exausta sobre um sofá. Estava com alguma coisa que

não sabia explicar. A

cada intervalo, a idéia de voltar para o show seguinte era intolerável.


Um brasileiro que conversou com ela num desses intervalos, seu velho

amigo Paschoal Carlos

Magno, ouviu sua confissão:
"Estou um trapo, Paschoal. Não sei o que há comigo."
Pouco mais de uma hora depois, no entanto, Carmen voltava ao palco para o

show seguinte e,

com seu profissionalismo, exibia uma alegria e uma vitalidade que a

tornavam "colossal, uma

sensação", como disse um crítico sobre o espetáculo. Em meados de maio, o

organismo

apresentou-lhe a conta: Carmen desabou no palco do Copacabana durante um

dos shows. Corre-

corre nos bastidores e seu médico em Nova York, o doutor Udall Salmon, foi

chamado. Ele

diagnosticou uma infecção intestinal causada por um vírus. Carmen foi

levada para o LeRoy

Sanitarium, e a temporada, interrompida.

436
Sebastian voou para Nova York para buscá-la. No dia 20 de maio, Carmen

saiu do hospital

diretamente para o aeroporto. Sebastian cancelou as semanas finais no

Copacabana e a levou de

volta para Los Angeles, argumentando que, além de tudo, o Copacabana lhe

dava prejuízo:-para

cumprir aquela temporada, Carmen tivera que recusar fazer oito semanas no

Roxy a 15 mil dólares

por semana - o que era verdade. Noticiou-se que a empresa que controlava

o Copacabana, a

Chip Corporation, iria processá-la em 200 mil dólares por quebra de

contrato. Carmen processou

de volta a Chip em 260 mil dólares, por quebra de contrato no uso de seu

nome no Miranda"s

Room do Copacabana da Costa Oeste - o qual nunca chegaria a existir. O

Trocadero cancelara

o arrendamento (alegando um trambique da Chip), retomara o imóvel e, com

isso, Carmen ficou

sem os mil dólares por semana a que teria direito por cinco anos -

exatamente 260 mil. Os dois

processos cancelaram-se mutuamente e ninguém se machucou, mas o

Copacabana de Nova York

ficaria de mal com sua musa enquanto Monte Proser estivesse à frente

dele.
Na ida de Carmen para Nova York, Sebastian não perdera tempo em armar o

novo esquema sob o

qual ela passaria a trabalhar e do qual ele seria o gestor, gerente e

agente. Começou por demitir

George Frank, a quem Carmen devia sua libertação de Shubert e o contrato


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   52   53   54   55   56   57   58   59   ...   71


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande