Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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diretor assistente e,

ultimamente, assistente de montador (na Columbia). Na verdade, era um

biscateiro, sem profissão

definida.
Como "assistente do produtor" em Copacabana, uma de suas primeiras

atribuições foi buscar

Carmen em casa para uma reunião no estúdio. Carmen confundiu-o com o

motorista que estava

esperando. A princípio ela não o associava às flores que recebia no

camarim (achava que eram

uma gentileza da produção). Só passou a prestar-lhe atenção quando ele

cuidava de distrair dona

Maria ou comprava balas para Carminha, que às vezes iam com ela para o

trabalho. A partir dali,

com freqüência, Sebastian ia visitá-la no camarim, para perguntar se

precisava de alguma coisa

ou como poderia ajudá-la.

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"Ele não sabe o que fazer para me agradar", comentou Carmen com Aurora.


As filmagens de Copacabana, todas em estúdio, tomaram de fins de outubro

a meados de

dezembro de 1946. Findos os trabalhos, Carmen telefonou a Sebastian para

comprar as fantasias

que ela usara no filme. Sebastian disse que eram um presente da produção

e se ofereceu para

levá-las a North Bedford Drive. Fez isso - e convidou-a para jantar. E só

então Carmen

percebeu que havia ali, por parte dele, um interesse além do chamado

dever de ofício.


O Trocadero estava em obras, mas ele podia tê-la levado a algum dos

nightclubs oficiais. Em vez

disso, propôs um restaurante chamado Lucey"s, ponto de atores e técnicos

do segundo time, em

frente à Paramount. (Carmen gostou.) Foi a única vez que Sebastian a

levou a um lugar de gente

mais ou menos conhecida. Nas vezes seguintes, só jantaram em restaurantes

fora do circuito do

cinema - o que dava prazer a Carmen, porque mostrava que ele não queria

exibi-la.


Certa vez, numa entrevista, Carmen fizera uma restrição aos homens

americanos:


"Eles convidam uma mulher a sair, pagam-lhe um belo jantar, e passam o

resto da noite tentando

espremê-lo [o jantar] para fora da mulher."
Não era o caso de Sebastian, sempre reservado e respeitoso. Enquanto

isso, as flores continuavam

a chegar a North Bedford Drive. Na segunda vez em que saíram juntos,

Sebastian a pediu em

casamento. Carmen riu, agradeceu e com delicadeza recusou. Não seria por

isso, é claro (ou não

seria só por isso), mas Sebastian passava longe dos atlas e dos apoios

que ela tinha em seu

currículo amoroso. Era feio, baixo (pouco maior que ela), magro, cabelo

espetado e

prematuramente branco, nariz de boxeador, alguns dentes a menos - mas com

caninos bem

pronunciados, quase draculescos -, puxando conspicuamente de uma perna

(tentava disfarçar

com um sapato de palmilha grossa) e com um notável mau gosto para

gravatas-borboleta.


Apesar de um certo charme juvenil no sorriso, realçado pelo contraste com

o cabelo prateado,

Sebastian, em condições normais, não teria chance de ver sua proposta nem

sequer considerada

por Carmen. Mas várias coisas aconteceram ao redor de Carmen nas semanas

seguintes. Coisas

que a feriram, lhe abriram os olhos ou lhe deram coragem - daí a súbita

transformação que virou

o jogo a favor dele.
Tanto que, quando aconteceu, foi de supetão. No começo de março de

1947, ela continuava alheia a Sebastian e com a cabeça ainda povoada por

outros homens. Menos

de duas semanas depois, no dia 17 de março, em Hollywood, Carmen se

tornava a senhora David

Alfred Sebastian.


Capítulo 24

1947
Sebastian

Menos de um ano antes, Carmen fora peremptória:


"Casamento? Neca. Não acredito em casamento misturado com a vida

artística." Era ainda a sua

entrevista a César Ladeira para Diretrizes. "Conheço poucos casamentos

felizes em Hollywood:

Ingrid Bergman, Irene Dunne, Claudette Colbert - todas casadas com

médicos. Aí, sim, artistas

casadas com homens de outras profissões. Mas, [sendo ambos] do mesmo

métier, não acredito. E

só tenho tido propostas de homens de cinema."
Verdade? E como ela reagia quando um deles descia do conversível branco

e, caindo sobre um

joelho, lhe pedia a mão?
Carmen passara a noite de seus 38 anos, 9 de fevereiro de 1947, de mãos e

corações dados com

seu novo namorado, o ator Donald Buka, no Slapsy Maxie"s, um nightclub no

Wilshire Boulevard.

No dia seguinte, a foto nos jornais mostrou um casal feliz em repartir

aqueles momentos com a

câmera. A diferença de idade - ele, 25 anos, treze a menos que ela - não

parecia importar. O

atraente Buka, nascido em Cleveland, Ohio, tinha um pé firmemente

plantado no rádio, em Nova

York. O outro, ele às vezes usava para sentir a temperatura da Broadway

ou de Hollywood, mas

nunca molhando mais que a ponta dos dedos. Em 1943, Donald fora à Costa

Oeste pela primeira

vez, para filmar Horas de tormenta (Watch on the Rhine), com Bette Davis,

na Warner, baseado na

peça de Lillian Hellman. Ignorara os convites para ficar, voltara para

Nova York, e só retornara

agora, para interpretar um gélido assassino em Rua sem nome (The street

with no name), com

Richard Widmark. Foi onde Carmen o conheceu e se encantou com seu jeito -

era como se

carreira e sucesso fossem seus interesses mais remotos.
Por causa de Donald, Carmen estava a fim de passar uns tempos em Nova

York, produzindo e

estrelando uma revista ou, quem sabe, uma comédia musical - algo de

prestígio que, depois, ela

poderia levar para o cinema. Por sua vez, Carmen também inspirara uma

idéia a Donald, só que

mais imediata: os jornais publicaram que ele pintara seu carro de

vermelho, em homenagem a ela.


"Por que vermelho?", Carmen lhe perguntou.
"Porque Carmen quer dizer carmim, você sabe", ele explicou.

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Não, ela não sabia - e por essas e outras é que estava, mais uma vez, tão

apaixonada.
Naquela noite, ao vê-la com Buka, ninguém poderia suspeitar que uma

cadeia de fatores estivesse

se formando, como uma nebulosa no espaço, para arrastar Carmen ao

casamento com o mais

improvável dos pretendentes. Mas depois ficou claro que os sinais já

vinham desde meados do

ano anterior. Alguns de seus últimos namorados - homens de quem ela

gostara e em quem ainda

depositava uma secreta esperança - estavam tratando da vida ou fazendo

planos que não a

incluíam. Com isso, seus sonhos de casar-se, ser mãe e aposentar-se -

descer das luzes no auge

- pareciam mais distantes a cada dia e hora. Em compensação, seus

aniversários ficavam cada

vez mais próximos uns dos outros. E, para onde se virasse, Carmen recebia

uma informação que a

atingia em seu íntimo. Como esta, sobre Aloysio de Oliveira.
Aloysio divorciara-se da mulher, Nora. Sua filhinha, Louise, ainda não

completara dois anos.

Nora pedira demissão da Disney e voltara para a casa de sua família, no

Texas, levando a menina

com ela. Aloysio não se opusera. E, como se nunca mais pudesse viver

solteiro, não demoraria a

se casar de novo, dessa vez com Nikky, showgirl do Earl Carroll"s

Vanities: uma americana para

quatrocentos talheres, espaventosamente ruiva, curvilínea, com seios

estilo balcão do Radio City

Music Hall (enormes, debruçados sobre a platéia), e dada a rir e a falar

alto até em igrejas e

velórios - a descrição, com outras palavras, é do próprio Aloysio.
Em Beverly Hills, Carmen ficaria sabendo desse casamento quase ao mesmo

tempo em que ele se

realizava. A notícia não contribuiria para levantar o seu moral. Era mais

uma prova de que

Aloysio se casaria com o primeiro par de peitos que lhe passasse pela

frente, menos com ela. O

fato de que também esse casamento duraria pouco mais de um ano, e que

Nikky tomaria de

Aloysio (e enfiaria no decote) o pouco que ele conseguira economizar até

então, não resultaria

em nenhum conforto para Carmen - mesmo porque, quando Aloysio se

separasse, Carmen era

quem estaria casada.
Do Rio, chegou-lhe a notícia de que seu ex-namorado Carlinhos Niemeyer

também desfizera o

noivado com Vera, a namorada que ele tinha no Brasil enquanto permitia

que ela, Carmen, se

apaixonasse por ele em Beverly Hills. Mas o fato de ter terminado com

Vera não queria dizer

nada, porque Carlinhos já estava de namoro firme com Maria Luiza,

Luizinha - que ele

conhecera na praia, jogando peteca no Posto 5, em frente ao cinema Rian,

em Copacabana (e com

quem se casaria para o resto da vida).
Só lhe faltava agora uma decepção com Donald Buka, o namorado que ela

deixara em

Hollywood em meados de fevereiro, ao partir para uma temporada de duas

semanas no Colonial

Inn, em Miami (acompanhada pelo conjunto de Frank Marti, paulista

radicado nos Estados

Unidos), e para uma série de eventos na Flórida. Carmen roubou o show e

os refletores do

Lincoln Theatre
425
na estréia de gala de Trapalhadas do Haroldo (The sin ofHarold

Diddkdock), que marcava a

volta de Harold Lloyd ao cinema, dirigido por Preston Sturges. Horas

depois, ela seria o centro

das atenções numa mesa em torno do rei do açúcar cubano, Jorge Sanchez, e

formada por alguns

dos maiores causeurs americanos: Mickey Rooney, Sophie Tucker, o

fulgurante Sturges e o

embaixador Joseph Kennedy. Mas, pelas suas costas, o destino urdia das

suas. Ser capaz desse

brilho não era suficiente para prender um homem que resolvera dedicar

se a novos amores.


Em poucos dias, Buka sumira de Hollywood, escapara ao alcance dos

telefonemas de Carmen e

desaparecera do noticiário - até um colunista publicar, sem mais

detalhes, que Carmen Miranda

estava "apaixonada por um americano que preferiu se casar com outra". A

história se repetia com

uma regularidade que beirava a falta de imaginação. Mais uma vez, Carmen

era dolorosamente

passada para trás por um homem ou caroneada por outra mulher.
Foi em meio a mais essa humilhação que ela resolveu escutar o que Dave

Sebastian tinha a dizer,

nos sôfregos e diários interurbanos que ele lhe fazia.
" > Interurbanos, aliás, disparados do próprio aparelho de Carmen, em

North Bedford Drive,

enquanto doses de bourbon em copo alto amenizavam a longa espera para que

a telefonista

completasse a ligação. (Por algum motivo, Sebastian ia para a casa de

Carmen quando queria lhe

telefonar para Miami - Aurora o recebia porque achava que sua irmã o

havia autorizado.)


Nessas conversas, Sebastian tentava convencer Carmen de que, como grande

estrela que era, ela

deveria aproveitar ao máximo o sucesso. Uma das maneiras de fazer isso

era tornar-se produtora

de seus filmes - "como Chaplin" -, para poder escolher o diretor, as

histórias, o elenco, as

canções e os figurinos. Carmen Miranda deveria ser uma corporação, dizia

Sebastian, dona do

seu próprio espetáculo e até dos espetáculos dos outros - ao descobrir um

artista de talento,

deveria contratá-lo. Mas Carmen não queria ser dona de ninguém, exceto de

si mesma. De certo

modo, no entanto, estava de acordo: agora que tinha sua independência,

precisava de projetos

que a libertassem da imagem em que a Fox a aprisionara.
Sebastian a alertou de que, para isso, ela precisaria de financiamentos.

Era nesse sentido que ele

se dispunha a ajudá-la, com sua experiência e suas relações - afinal,

"conhecia todo mundo".

Carmen não se lembrou de perguntarlhe - já que ele conhecia tanta gente -

por que continuava

pobre e seu último emprego fora na sala de montagem de um estúdio então

de segunda classe,

como a Columbia. Talvez porque ela soubesse que, mesmo com um estúdio por

trás, era difícil

vencer naquele meio. E sua própria situação (dela, Carmen), agora que não

tinha mais o guarda-

chuva da Fox, também não era das mais tranqüilas.

426
Para começar, Carmen não se considerava uma atriz, por nunca "ter

aprendido a representar".

Considerava-se "uma entertainer", e se perguntava até quando as pessoas

continuariam gostando

de ser entertained por ela. Carmen calculava que sua carreira teria de

passar por uma

reformulação em pouco tempo, porque seu estilo de dançar, ágil, dinâmico

e malicioso, começava

a ficar impróprio para uma mulher já perto dos quarenta. O que era

propositadamente uma

caricatura perigava reduzir-se a uma caricatura da caricatura. E, no

Brasil, onde ela tanto gostaria

de ser aceita, já havia quem achasse isso.


Se eu fosse feliz acabara de estrear no Rio, e os críticos não perderam a

oportunidade. Moniz

Vianna, no Correio da Manhã, depois de espancar o filme de alto a baixo,

citou "uma Carmen

Miranda acafajestada, que já não sabe cantar, falar ou andar". O Globo

deplorou suas

"macaquices". Outros continuaram insistindo na sua alegada

desnacionalização. Hugo Barcellos

escreveu no Diário de Notícias: "Carmen Miranda é a única pessoa no

Brasil que não sabe

interpretar sambas". E Walter George Durst, numa revista semanal, armou-

se de rancor para

classificá-la de "uma portuguesa que consegue ser um pouco mais

brasileira do que a estátua da

Liberdade". Essas exigências nacionalistas estavam sendo feitas num país,

o Brasil, em que o

grande sucesso musical do ano era uma rumba - "Escandalosa", de Moacir

Silva e Djalma

Esteves -, na voz de Emilinha Borba, e gravada também por uma antiga

campeã do samba:

Aracy de Almeida.
Carmen imaginou que talvez fosse o momento de assumir-se de vez como uma

estrela


internacional, não mais como uma brasileira que trabalhava nos Estados

Unidos. E, para isso, ela

teria, em 1947, propostas fascinantes. O diretor Ernst Lubitsch lhe

acenara com a possibilidade de

um filme na Paramount, e tudo que ele fazia tinha um sofisticado sotaque

europeu. Mas Lubitsch

morreria dali a meses, antes de se sentarem para conversar. Do México, o

diretor Emílio

Fernandez a convidava para filmar La vida de Argentinita, com o admirado

Cantinflas. Depois,

seria Maurice Chevalier, que se disse encantado com a sua interpretação

de Mademoiselle Fifi em

Copacabana - viva as freirinhas com quem aprendera francês no colégio da

Lapa! - e mandara

sondá-la para um musical a ser rodado em Paris. Infelizmente, nenhum

desses filmes se

concretizou, pela gerência inepta que sua carreira tomaria muito em

breve.
Mas, mesmo que tivessem se realizado, nada daquilo resolvia seu principal

problema, e que não

tinha nada a ver com sua vida profissional. Era a sua vontade louca de

ser mãe - e o tempo que

corria contra ela. Numa época em que não eram raras as menopausas aos

quarenta anos, uma

gravidez aos 38 ou

39 (e, pior ainda, uma primeira gravidez levada a termo) era considerada

de alto risco. Se se

descobrisse grávida, Carmen teria de passar quase os nove meses de cama,

para não correr riscos.

Evidente que essa hipótese exigia, em primeiro lugar, a existência de um

marido.
No fim do ano anterior, Aurora ficara grávida como planejara. A criança


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era esperada para agosto de 1947 e, se fosse um menino, se chamaria

Gabriel, como o pai. Carmen

vibrou ao receber a confirmação da notícia e apoiou a decisão da irmã de

deixar a carreira de

lado. Depois de uma vida à luz dos holofotes, Aurora, aos 32 anos, se

realizaria como mãe e

mulher - e, para Carmen, essa era a sua idéia de plenitude. Alice Faye

também trocara o estrelato

por marido e filhos, e não queria outra vida. Já Betty Grable estava

tentando provar que era

possível conciliar tudo: o casamento com o bandleader mais famoso da

América, mais os filhos, os

cavalos e os filmes. Até então, estava conseguindo - mas, até quando? O

mundo ao redor de

Carmen parecia girar à volta de pais e filhos. (Para cúmulo da

humilhação, até Groucho Marx, que

já tinha idade para ser avô, fora pai no ano anterior.)
Nos primeiros dias de março de 1947, ainda que pelo telefone, as

circunstâncias começaram a

atirar Carmen para o casamento com Sebastian. Depois de tantos desgostos

com namorados, ela

se lembrou do conselho que Aurora lhe dera naquele longínquo 1940, no

Rio: não confunda

paixão com casamento - para se casar, escolha um homem de quem não goste

tanto, mas que seja

bom para você. Aurora fizera isso e era muito feliz com Gabriel. Para

Carmen, Dave parecia

enquadrar-se sob medida na receita. Ela gostava dele, mas não estava nem

um pouco apaixonada.

Ele é que, insinuante e com grande lábia, parecia louco por ela.
E Carmen conseguia enxergar seus méritos. Dave - poucos meses mais velho

- era um homem,

não um garoto. Sendo americano, iria protegê-la dos outros americanos.

Não tinha dinheiro (só

usava um paletó, um espinha-depeixe que às vezes parecia cheirar como o

próprio peixe), mas o

que ela ganhava dava de sobra para os dois e para quem mais viesse. E,

contrariando o que ela já

dissera, Dave trabalhava em cinema, conhecia os atalhos e as armadilhas

do show business e,

como prometera, produziria os seus filmes. Faria isso e já dissera que

não se sentiria ofendido por

se tornar "Mister Miranda". Mas o mais importante é que, com ele, ela

seria mãe quantas vezes

quisesse e enquanto pudesse - passaria o ano dando o peito, trocando

cueiros, costurando

camisinhas de pagão. Se calhasse, seria eleita a "Mãe do Ano". Além

disso, Dave tinha outra

qualidade: ele a pedira em casamento. E não vamos nos enganar: fora o

único a fazer isso.


Acabara de pedi-la pela segunda vez, num telefonema para Miami, e

propunha que se casassem

assim que Carmen voltasse. Disse que um anel de brilhantes estaria

esperando por ela em Beverly

Hills. Mesmo assim, Carmen queria tempo para pensar. Mas, depois de tudo

considerado, e até

porfaute de mieux, não via mais por que recusar. Ao telefonar para casa e

discutir o assunto com a

família, há o registro de que empregou uma expressão então corrente no

Rio e que o compositor

Pedro Caetano usaria em seu grande samba para o Carnaval do ano seguinte:
"Querem saber de uma coisa? É com esse que eu vou."

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Carmen voltou de Miami e marcou o casamento para o dia 17 daquele mesmo

mês - a menos de

duas semanas. Aurora, Cecília e dona Maria não entenderam a razão do

açodamento e pediram a

Carmen que esperasse um pouco, para refletir melhor. Para que seguir um

impulso e fazer uma

coisa tão às pressas, decidida quase de véspera?


Carmen só tinha um argumento para justificar-se:
"Preciso de um homem ao meu lado."
Levando esse motivo ao pé da letra, sua primeira providência foi reformar

seu quarto de dormir,

de móveis franceses, em cinza e dourado. Juntou as camas gêmeas, mandou

fazer um estrado

duplo e, com um reposteiro novo, converteu-as numa cama de casal. (A

lareira no quarto, que o

clima da Califórnia já dispensava, agora é que ficaria mesmo sem uso.)

Até aí, tudo bem - dividir

a cama fazia parte do casamento. Mas Carmen tinha mais o que dividir,

provocando uma explosão

de Cecília:
"Não faça uma coisa dessas, Carmen! Como é que você, sendo quem é, vai se

casar com

comunhão de bens?"
A Califórnia era um dos nove estados americanos regulados por leis de

community property -

uma lei em que todos os rendimentos e propriedades adquiridos depois do

casamento pertenciam

a ambos, independentemente de os dois ganharem igual ou um ganhar muito e

o outro pouco ou

nada. Naquele dia, Cecília estava se fiando em que todas as propriedades

adquiridas antes do

casamento continuariam pertencendo apenas a Carmen.
Sebastian, por outros motivos, precisava andar na ponta dos pés. Enquanto

pôde, omitira de

Carmen e da família o fato de ser judeu - uma precaução que julgou

necessária diante de

pessoas tão católicas. Dizia-se adepto da Ciência Cristã, e sua intenção

era a de que, por isso,

Carmen abrisse mão da cerimônia religiosa. Quando descobriu que não

escaparia a um casamento

na igreja, teve de revelar-se para Carmen. Declarou-se disposto a uma

conversão, e concordou

em ir ao padre da igreja do Bom Pastor para tomar as "instruções" -

noções elementares de

cristianismo. O padre prometeu dar-lhe as instruções, mas uma instância

mais alta da diocese

negou permissão a Carmen para o casamento. Sebastian ficou irritado.

Carmen procurou seu

velho amigo, o arcebispo de Los Angeles, e este os encaminhou aos padres

irlandeses que

controlavam as tecnicalidades católicas nos Estados Unidos.
Sebastian, segundo suas próprias palavras, teria conversado com um desses

padres e aberto o

jogo:
"O senhor não tem escolha, monsenhor. Escolha nenhuma. Ou o senhor nos dá

o direito de casar

na Igreja católica, para o que estou perfeitamente disposto a tomar as

instruções e deixar todo

mundo feliz, ou vamos nos casar no civil,
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por uma autoridade civil, de fora da Igreja - e, com isso, o

senhor perde Carmen e perde a

mim. Fica a seu critério tomar a decisão."
Vencido pela dureza do interlocutor, o padre lhe disse:
"Está bem, David. Tome as instruções e case-se com Carmen na Igreja."
Acertados data, local e padrinhos, só restava sacramentar certos

detalhes. Seria uma cerimônia

simples, quase indigente, para os padrões de uma cidade que, dez anos

antes, em 1937, abrigara o

casamento de Jeanette MacDonald e Gene Raymond - o mais bonito e suntuoso

da história de

Hollywood. (O único deslize tinham sido os sapatos novos do cantor Allan

Jones rangendo

impiedosamente quando, sob solene silêncio, ele atravessou a nave com os

outros pajens em

direção ao altar.) O casamento de Carmen nem sequer chegaria aos pés de

outro, ainda mais

antigo, de 1927, na própria igreja do Bom Pastor: o de Vilma Banky e Rod


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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