Carmen, Uma biografia Ruy Castro



Baixar 5.39 Mb.
Página54/71
Encontro02.07.2019
Tamanho5.39 Mb.
1   ...   50   51   52   53   54   55   56   57   ...   71

dia seguinte,

encontraram as almofadas das espreguiçadeiras destruídas a dentadas e

todo o recheio de

algodão boiando na piscina. Foi a maneira que Samba encontrara para se

acalmar. Carmen

chamou Zezinho e ele levou o cachorro para sambar em outra freguesia.
Em julho, um brasileiro ilustre chegou a Los Angeles: o poeta e diplomata

Vinícius de Moraes, 34

anos, para trabalhar no consulado brasileiro sob as ordens do novo

cônsul, Afonso Portugal.

Assim como Raul Bopp já era "o poeta de Cobra Norato" ao servir em Los

Angeles, Vinícius

também chegara à cidade montado no prestígio de Cinco elegias e do

recentíssimo Poemas,

sonetos e baladas. Era o seu primeiro posto no exterior, e já tipicamente

enrolado. Meses antes,

ele desembarcara em Nova York com a mulher com quem se "casara" no Rio, a

arquivista do

Itamaraty Regina Pederneiras. Mas a relação desandara. Vinícius deixara

Regina para trás em

Nova York e agora insistia para que sua
415
verdadeira mulher (de quem nunca se separara formalmente), Tati, que

ficara no Rio, fosse juntar-

se a ele em Los Angeles, levando seus filhos Susana e Pedro. Tati

concordou, mas só planejava

viajar em fevereiro de 1947. Até lá, a "família" de Vinícius em Los

Angeles seria, de certa forma, a

casa de Carmen.
Vinícius e Carmen se gostaram de saída. Ela o chamava de "Vesúvio",

apelido que "o derretia", e

ele via nela uma mulher "corajosa, toda sensibilidade e torturada por ter

de sorrir à boçalidade de

Hollywood". (Não, nunca houve nada entre os dois, nem nunca se cogitou

disso - não faziam o

género um do outro.) Vinícius ia à casa de Carmen quase todos os dias ou

às de seus satélites

Zezinho e Nestor Amaral, a quem chamava de "figuras ciclópicas". Com

Zezinho, Vinícius ia ao

Billy Berg"s, um bar de jazz onde, às vezes, ao olhar em volta, se sentia

incomodado - era o

único 100% branco na plateia.
Para convencer Tati a embarcar logo com as crianças, Vinícius cumulava-a

de cartas,

descrevendo-lhe as maravilhas locais. Numa dessas, prometeu para sua

filha Susana, de seis anos:

"Você vai conhecer a Carmen Miranda e o Zé Carioca e uma porção de

artistas de cinema. Tem

cada desenho animado formidável para te levar" - como se Carmen e Zezinho

fossem


personagens de um desenho animado ao vivo, no qual se pudesse entrar, a

exemplo do episódio

de Aurora em Você já foi à Bahia?.
Ao contrário de Ary Barroso, que nunca deixou de se espantar com a beleza

das mulheres de

Hollywood, Vinícius não demorou a ficar blasé diante da oferta feminina:

"É tanta mulher bonita

que até enjoa", escreveu para sua mãe. De propósito, convidou Cecília a

ir com ele a uma boate

em Los Angeles, para que ela visse "as mulheres mais bonitas do mundo".

Cecília aceitou apenas

para não desapontar Vinícius, mas voltou para casa impressionada:

"Realmente, que mulheres!".

Só então ele lhe revelou, para gargalhada geral, que aquelas mulheres do

outro planeta eram

homens - ou, pelo menos, "criaturas do sexo masculino".
Dias depois, como uma doce vingança do destino, Vinícius defrontou-se com

a beleza a um grau

que nunca acreditou existir, exceto, talvez, quando descrita por poetas

como Robert Browning ou

Dante Gabriel Rossetti. Numa festa na casa de Herman Hover, dono do

Ciro"s, em que estava com

Carmen, viu surgir uma moça cuja beleza era demais até para Hollywood. De

copo na mão e

passo incerto, ela se aproximou de Carmen para render-lhe as devidas

homenagens:


"Sou sua fã. Você é o máximo." A entonação, meio borrada, sugeria um

pileque atómico.


Vinícius não conseguia tirar o olho dela. A moça percebeu e se debruçou

sobre ele:


"Quem é você?", perguntou a Vinícius, com uma voz de nove ou dez uísques.
Vinícius disse quem era. Ela não pareceu muito impressionada.

416
"Você me acha bonita, não é?", continuou, com uma voz, agora,

definitivamente de dez uísques.
Vinícius concordou entusiástico, fazendo que sim rapidinho com a cabeça e

arregalando os

olhinhos azuis. Ao que ela acrescentou:
"É, sou mesmo. Mas, moralmente, eu sou um lixo."
Disse isso sem exclamação, sem remorso e sem perdão.
Vinícius dançou com ela, que era bem mais alta do que ele. Depois ela

sumiu. Saber ou não o seu

nome não fazia diferença. Embora já tivesse sido casada com Mickey Rooney

e Artie Shaw, e

aparecido em 21 filmes, ninguém a conhecia, porque sempre em papéis

insignificantes. Mas a festa

na casa de Hover, a que fora levada por Howard Hughes, deve ter sido uma

das suas últimas

aparições como anônima. Meses depois, ao assistir a Os assassinos (The

killers), com Burt

Lancaster, baseado no conto de Ernest Hemingway, Vinícius saberia que a

moça se chamava Ava

Gardner.
Quando despachou o Mercury para Tatá no Rio, Carmen já estava rodando seu

novo filme,

Copacabana, com Groucho Marx. A generosidade da colega assustou Groucho -

onde já se vira

distribuir carros novos para irmãos? Numa folga do elenco, ele foi à casa

de Carmen, onde

conheceu dona Maria, Aurora, Gabriel, Cecília e Carminha, e os rapazes do

antigo Bando da Lua

e suas famílias. Nunca tinha visto tantos brasileiros juntos, e se

surpreendeu ao saber que só parte

da família de Carmen estava ali - ainda havia mais gente no Brasil e em

Portugal. Pela amostra,

Groucho podia fazer uma idéia do fluxo de dinheiro e de presentes saindo

de Hollywood para os

ermos do globo onde houvesse um Miranda, tudo patrocinado por Carmen.
"São centenas de parentes, todos sustentados por ela!", dizia Groucho,

estupefato, a amigos.


Não era verdade, mas quase. Carmen mandava presentes para muita gente no

Rio: para seus

irmãos, para os parentes de seus músicos (antigos ou atuais), e para os

amigos em geral. E eles

eram muitos. Quando sabia que um de seus velhos compositores ou letristas

estava doente,

despachava contribuições em dinheiro. Não podia saber que a mulher de um

amigo tivera filho

sem providenciar um enxoval - tinha mais afilhados do que poderia

humanamente se lembrar

(mas, pelo visto, não se esquecia de nenhum). Uma vez por ano, pegava as

roupas velhas da

família, incluindo as de Gabriel, e mandava-as para suas tias portuguesas

Cecília e Florisbela, em

Várzea de Ovelha, para reparti-las entre os primos e primas - sem

prejuízo do dinheiro que

também enviava. E não deixava de contribuir com os três santos de sua

devoção: santo Antônio,

são Judas Tadeu e santa Teresa. Para a igreja de Santo Antônio, no largo

da Carioca, mandava

dinheiro anualmente para ser distribuído entre os pobres. Para a

igrejinha de São Judas Tadeu, no

Cosme Velho, enviou uma imagem

417
do santo em tamanho natural (causando o maior embaraço para o pároco,

que não queria

recebê-la). Para diversas instituições que levavam o nome de santa

Teresa, fazia contribuições em

espécie ou em dinheiro. E não se esquecia das representações desses

mesmos santos em Los

Angeles.
No dia 30 de abril de 1946, milhares de seus colegas brasileiros perderam

o emprego com uma

canetada - bastou o novo presidente, Eurico Gaspar Dutra, eleito para

suceder a Getúlio, assinar

um hipócrita decreto-lei proibindo o jogo no Brasil. Da noite para o dia,

a roleta deixou de girar

nos mais de setenta cassinos oficiais, no Rio, em Niterói, Petrópolis e

nas estâncias hidrominerais

de Minas Gerais e São Paulo. Carmen cantara e fizera amigos em todos eles

(só não pegara o

Quitandinha, o mais deslumbrante de todos e recém-inaugurado por Joaquim

Rolla em

Petrópolis). Deu-se o pânico. Muitos profissionais se desesperaram -

alguns se mataram - e

houve manifestações em frente ao Palácio Laranjeiras para suplicar a

Dutra que voltasse atrás. De

nada adiantou. Alguns tentaram não se apertar: Vicente Paiva - até a

véspera o poderoso diretor

musical do Cassino da Urca, co-autor de "Mamãe, eu quero" e com poderes

quase absolutos

sobre a música popular - pendurou sua casaca prateada, vestiu um paletó

modesto, trocou seu

rabo-de-peixe por um carrinho comum e foi ser motorista de táxi, à espera

de dias melhores (que

chegaram). Mas muitos escreveram para Carmen, relatando a situação e

pedindo ajuda. Ela os

atendeu.
A maioria dos que conheciam Carmen se comovia com sua generosidade, mas

Groucho ficava

horrorizado - era um dos maiores sovinas de Hollywood e não abria a

algibeira nem para seus

filhos. O que ele não diria se soubesse que Carmen era assim,

ridiculamente mão-aberta, até com

gente que acabara de conhecer - como alguns brasileiros que iam visitá-la

e que ela nunca vira

antes (nem veria depois). Alguns desses brasileiros pediam-lhe dinheiro

para a passagem de volta;

outros queriam sua interferência para conseguir um visto de permanência.

Um deles teve o

desplante de pedir-lhe um carro. Às vezes roubavam-lhe garrafas de

uísque. Carmen nunca

permitiu que deslizes isolados turvassem o seu prazer de receber

patrícios em sua piscina. Esse

laissez-faire, Mssez-passer se estendia também à casa de Palm Springs,

onde Carmen certa vez

marcou encontro com alguns hóspedes - e, ao chegar, descobriu que eram

tantos que a casa

ficara lotada, e o jeito foi ir para um hotel.


Carmen não ligava para dinheiro. Só queria saber quanto ganharia em cada

contrato. O som de

valores como 12 mil ou 15 mil dólares por semana era música para seus

ouvidos - ser a artista

estrangeira mais bem paga dos Estados Unidos ou a mulher que mais

faturava na América dava-

lhe uma satisfação interior, falava à sua vaidade. Mas era um gozo

gasoso, quase volátil. O

dinheiro, a moeda em si, não lhe fazia diferença. Mantinha em casa uma

fortuna em cédulas,

guardadas em gavetas, às vezes deixadas sobre móveis. Não ligava para

bancos e menos ainda

para aplicações - não era, absolutamente, uma mulher de negócios.

418
O mal parecia de família porque, no Rio, Mocotó continuava como seu

procurador, mas não

ligava para negócios - só queria saber de remar. Os imóveis no Catete e

na avenida Presidente

Vargas e o terreno em Jacarepaguá só tinham sido comprados por seu

intermédio porque as

situações haviam se atirado à sua frente, não que ele as tivesse

procurado.
"Vou parar de mandar dinheiro para lá", disse Carmen. "O Mocotó não quer

nada."
Carmen poderia ter comprado muita coisa no Brasil. Dinheiro havia. Mas

não quem fizesse isso

por ela no Rio.


Carmen Miranda e Groucho Marx juntos, num filme em Technicolor, era uma

idéia boa demais

para ser verdade. Foi o que aconteceu com Copacabana: não funcionou.
O Copacabana a que se referia o título tornara-se o maior nightclub de

Nova York, desde que

Aurora o inaugurara, cinco anos antes, e não se contentava com isso. Em

breve haveria um

Copacabana também em Hollywood: Monte Proser arrendara o antigo Café

Trocadero, no

Sunset Boulevard, por quinze anos, para transformá-lo na filial de seu

nightclub na cidade do

cinema. Pagara 60 mil dólares de luvas e ainda teria de morrer em 1600

dólares por mês pelo

aluguel. A idéia era passar quase um ano em obras, ao custo de 45 mil

dólares, e inaugurar o novo

Copacabana em maio de 1947. Dentro dele, haveria o Miranda"s Room,

decorado com paisagens

do Rio, no qual Carmen teria uma participação muito bem remunerada - mil

dólares por semana

pelo uso de seu nome e imagem, o ano inteiro - e em que se apresentaria

durante doze semanas

por ano, a 8 mil dólares por semana. Proser já contratara até as atrações

da semana de estréia do

nightclub: Tony Martin e os dançarinos de Jack Cole no salão principal;

Joe Mooney e seu

quarteto no bar; e Carmen no Miranda"s Room, com Zé Carioca e seus

Carioca Boys. O

Copacabana teria de caprichar para esmagar a saudade que Hollywood já

sentia do Trocadero,

talvez o nightclub mais querido da turma do cinema. (Fora nele que, em

1939, David O. Selznick e

Jock Whitney deram a festa de lançamento de ...E o vento levou. Em certa

época, abrigou um

cassino clandestino no porão. E quem costumava ser o pianista "da casa"?

Nat "King" Cole.)


Um filme passado no Copacabana (o de Nova York), a estrear no mesmo dia

em que se

inaugurava o de Hollywood, pegaria o nightclub na crista da onda nas

costas Leste e Oeste.

Abriu-se uma empresa, Beacon Productions, para cuidar da produção do

filme. Proser entrou com

dinheiro; Carmen também pôs algum - afinal, era seu primeiro filme como

"independente"; e

Groucho, nem um tostão, mas aceitou trabalhar por um salário menor em

troca de uma fatia da

bilheteria. O restante do dinheiro foi levantado junto a particulares. O

responsável pela

administração das cotas era Sam Coslow, eventual produtor
419
de filmes e, principalmente, compositor - autor de grandes canções como

"Cocktails for two",

"My old flame" e "Sing you sinners", mas que havia anos não tinha um

sucesso. O principal corista

fisgado por Coslow foi um fabricante de malas chamado Maurice Sebastian.

O filme seria rodado

no estúdio de Samuel Goldwyn e distribuído pela United Artists. Para

dirigir, Coslow chamou

Alfred E. Green, que vinha do sucesso de O trovador inolvidável (The

Jolson story). Ninguém

levou em conta que O trovador inolvidável era um filme medíocre, exceto

pelos números musicais

em que Larry Parks fazia Al Jolson - os quais tinham sido dirigidos por

Joseph H. Lewis, muito

mais competente.
Tudo conspirou para que Copacabana fracassasse: a insegurança de alguns,

a má-fé de outros e a

mediocridade de muitos. Groucho fazia um empresário esperto que "vendia"

Carmen duplamente

para o Copacabana: como uma cantora brasileira, a morena Carmen Navarro,

e como a chanteuse

francesa, de peruca loura, Mademoiselle Fifi. O sabonetão Steve Cochran

interpretava Monte

Proser e Gloria Jean era sua secretária. O hispano-americano Andy Russell

cantava três números e

exibia a competência de seu dentista. Entrechos mais modestos já renderam

bons musicais, mas,

da forma como as coisas correram, Copacabana nascera condenado. A pobreza

da produção era

constrangedora, os números musicais, lúgubres, e as canções de Sam

Coslow, música e letra de

sua autoria, mostravam por que ele nunca mais emplacaria um sucesso. Mas

o pior era como

Carmen, livre dos supostos grilhões de um estúdio, parecia abrir mão de

muito do que conquistara

na Fox. Deixou-se passar para trás de todo jeito.
Groucho, em seu primeiro filme-solo, sem os irmãos, percebeu que o

roteiro original dividia as

frases engraçadas entre ele e Carmen. E não estava habituado a isso - nos

filmes dos Irmãos

Marx, Chico era seu straight man e as gags de Harpo eram visuais. Ciente

de que, com seu estilo

expansivo, Carmen roubaria as cenas que fizessem juntos, Groucho fez com

que a produção

demitisse três roteiristas até que o roteiro final reduzisse Carmen a

simples escada e deixasse todo

o humor por sua conta. ("Por que você vive correndo atrás das mulheres?",

ela pergunta. "Quando

conseguir pegar uma, eu te conto", responde ele.) Em matéria de luxo, a

Fox também a tratava

muito melhor. Não importava que seus filmes tivessem Betty Grable ou

Alice Faye, sempre

haveria um ou dois grandes números para Carmen. Em Copacabana, um filme

marca barbante,

Carmen aparece em cinco números musicais, mas nenhum é tão produzido

quanto os números

individuais de Andy Russell, Gloria Jean e mesmo Groucho - e estes já são

de uma


constrangedora modéstia.
Outra diferença: nos filmes de Carmen na Fox, o montador era proibido de

cortar para intercalar

tomadas dos atores "reagindo" quando ela estivesse cantando ou dançando.

Em Copacabana,

isso foi ignorado e não há um número de Carmen sem as ditas intromissões.

E, para completar,

embora ela faça uma cantora brasileira, o tom geral dos números musicais,

devido à presença de

Andy Russell,

420
é monotonamente mexicano - sobram ponchos e sombreiros pelos

cenários. "Meu

coração dançou/Ao som de um bolero/No Rio de Janeiro", canta Russell em

certo momento. Se

fosse só para isso, seu coração não precisaria ter deixado a Cidade do

México. Ou seja, a Fox

cuidava mais dos interesses de Carmen do que esta podia fazer por si

mesma em sua nova

condição de "independente".


Copacabana era para ter sido em cores. Em função disso, planejaram-se as

roupas de Carmen, a

cargo do figurinista Barjansky, cheias de amarelos e dourados. Mas

Natalie Kalmus, da

Technicolor, pediu meses para entregar as cópias, o que prejudicaria a

idéia de lançar o filme

junto com o Copacabana de Hollywood. Kalmus foi dispensada e rodaram o

filme em preto-e-

branco mesmo, sem adaptar as roupas ou acentuar os contrastes - pode-se

avaliar o prejuízo

comparando as cenas do filme com o material publicitário em cores. E,

finalmente, Carmen

ensaiou seus números em casa, com a ajuda de Zezinho, Nestor e Russo do

Pandeiro. Mas, pela

primeira vez em toda a sua filmografia, nenhum dos amigos brasileiros é

agraciado com uma

sorridente tomada em plano médio a seu lado. Num dos números, distingue-

se ao longe Nestor, de

pé, tocando violino, Zezinho ao violão, e mais nada (os irmãos Ozorio já

não estão à vista). Em

compensação, três jornalistas de Nova York - os colunistas Earl Wilson,

do New York Post,

Louis Sobel, do Daily News, e Walter Abel, do Variety - fazem uma ponta

como eles mesmos.

Para filmar a cena em que aparecem, e que dura um minuto na tela,

exigiram três stand-ins, dois

dias de filmagem e um camarim portátil para cada um. Fizeram isso de

brincadeira, não esperavam

ser atendidos - mas foram, e, desde então, suspeitaram de que ninguém ali

tinha muita noção de

custos.
Aos 56 anos, Groucho estava com uma mulher nova - Kay, 24 anos e melhor

amiga de sua filha

Miriam - e fora pai pela terceira vez. Melinda, sua filha com ela,

acabara de nascer. Kay entrou

logo em forma e Groucho conseguiulhe uma ponta de cigarette girl em

Copacabana, para reforçar

os rendimentos do casal. Tudo em matéria de dinheiro o aterrorizava. O

fato de ter duas novas

bocas para sustentar o deixava em pânico; o último filme dos Irmãos Marx,

Uma noite em

Casablanca, também do ano anterior, fora um fiasco; e seu irmão Chico

ameaçava processá-lo,

acusando-o de reter dinheiro que lhe pertencia - o que era verdade, mas

Groucho e Harpo

estavam usando esse dinheiro para pagar as dívidas de jogo de Chico e

evitar que ele fosse

morto. Groucho temia que Chico ganhasse o processo e o arruinasse. Por

isso, para se precaver,

estava fazendo toda espécie de anúncio que lhe ofereciam - de charutos,

cigarros, caneta,

cerveja, lâminas de barbear - e cuidou para que as falas engraçadas de

Carmen em Copacabana

fossem apagadas. Mesmo assim, queixou-se de que ela o reduzira "a uma

banana de segunda

classe" no filme.
Não era engraçado ser um Irmão Marx.
421
Fora da tela, Dave Sebastian só vira Carmen ao vivo num programa de

auditório, na rádio CBS,

em 1945. Ao fim do programa, não fora falar com ela, nem se aproximara.

Sabia o seu lugar: era

apenas mais um na platéia, separado da estrela por várias filas de

cadeiras e por um abismo. Um

ano se passou e, de repente, graças ao acaso, seu nome seguia-se ao dela

entre os letreiros de um

filme.
Num dos créditos de Copacabana, lia-se: "Produtor associado - Walter

Batchelor. Assistente do

produtor - Dave Sebastian". Uma velha piada em Hollywood rezava que não

havia nada mais

baixo na face da Terra do que um produtor associado - por ser um sujeito

capaz de associar-se a

um produtor. Imagine então o assistente desse produtor. Na verdade,

"assistente do produtor" foi

um cargo simbólico criado para Sebastian como representante de seu irmão

Maurice, um dos

investidores em Copacabana. Este temia que o "estrelismo" de Groucho ou

que o "mau gênio" de

Carmen - "temperamental como toda latina", segundo Sebastian - atrasasse

o filme e lhe

causasse prejuízo.
Carmen só saberia disso depois, mas Sebastian ficou de preposto,

encarregado de zelar pelo bom

andamento dos trabalhos. Uma das maneiras de garantir a tranqüilidade era

prover Groucho de

charutos e certificar-se de que Carmen tivesse flores frescas diariamente

no camarim - com um

agrado tão baratinho, liquefazia-se um possível gênio de cão. Mas, antes

disso, como ele mesmo

admitiu, fez uma "sindicância" a respeito de Carmen, aprendendo sobre

seus hábitos, horários e

amigos. (Imagine sua surpresa ao descobrir que ela não falava como nos

filmes.) E, pelo visto,

ficou satisfeito. Tanto que, terminada a filmagem, pediu-a em casamento.
Os Sebastian eram judeus romenos, baseados na Califórnia. Dave, 38 anos,

era o mais novo de

oito irmãos, dos quais cinco eram mulheres. Como ele próprio contava, sua

família, antes de

acumular "alguns meios" fabricando malas, vivia numa zona violenta de Los

Angeles e ele

precisava "brigar todos os dias". Inimigos não faltavam: irlandeses,

italianos, hispânicos. Seu pai e

um dos irmãos teriam sido produtores de cinema. Outro irmão teria sido

noivo de Clara Bow, a

""it" girl". E ele, Dave, também teria passagens pelo cinema, em funções

que as enciclopédias não

costumam registrar: câmera, técnico de laboratório, editor de som,


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   50   51   52   53   54   55   56   57   ...   71


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande