Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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a North Rodeo Drive,

ficava um dos restaurantes mais concorridos da cidade, o Romanoff"s, do

"príncipe" Mike

Romanoff, pseudomembro da família imperial russa massacrada em

1917. Segundo Jorginho Guinle, o Romanoff"s era onde todas as pessoas que

contavam em

Hollywood se reuniam para um drinque depois do trabalho. Mas Carmen (que,

no Rio, também

não freqüentava o Café Nice, lembra-se?) não se interessava em ir lá, nem

escoltada por ele.
Um quase-vizinho de porta de Carmen em North Bedford Drive era Herman

Hover, dono do

Ciro"s. Este ficava na Sunset Strip e era o ponto de encontro da elite do

cinema nos domingos à

noite. Ia-se ao Ciro"s para jantar, dançar, assistir a um show e para a

clássica cafonice de "ver e

ser visto". Era um dos poucos lugares de Hollywood onde, com todas as

restrições provocadas

pela guerra, ainda se bebia uísque escocês autêntico. Nem podia ser

diferente: seu fornecedor era

Joseph (pai de John e Robert) Kennedy, "representante" do Haig & Haig

desde a Lei Seca...


A pedido de Hover, Carmen deu um show beneficente de uma noite no

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Ciro's com o Bando da Lua. No palco, pela primeira vez ao alcance das

piadas e brincadeiras de

seus novos concidadãos angelinos, aquele seria um batismo de fogo para

Carmen. Mas ela nem se

alterou. Dominou as figuras carimbadas de Hollywood e girou-os ao redor

de seu dedo mindinho.

Ao apresentar o Bando da Lua, por exemplo, disse simplesmente, com voz

bem sacana:
"Vocês precisam conhecer os meus rapazes... Meus rapazes... Todos os

seis... Seis solteiros..."


O que nem era verdade, porque pelo menos Zezinho e Stenio estavam

casados. Para não falar de

Aloysio, que era quase casado - com ela.
Aloysio de Oliveira também se mudou para North Bedford Drive, 616 - mas

não para o quarto

de Carmen. Oficialmente, era um hóspede, a quem fora reservado um dos

dois quartos no andar de

baixo, ao lado do vestiário que servia como depósito de calções e maios

para as visitas usarem na

piscina. Ou seja, como se fosse um hóspede de passagem. Essa encenação

tinha mais de uma

razão de ser. Primeiro, por dona Maria. Não era segredo para ela que sua

filha e Aloysio eram

"amantes". Mas o respeito era tanto que, quando Carmen queria ficar a sós

com Aloysio, esperava

que sua mãe fosse dormir e só então descia e batia à porta dele. O

contrário não acontecia - não

há registro de que ele jamais tenha dormido no quarto de Carmen em North

Bedford Drive.


Segundo, havia as convenções de Hollywood. Por elas, era inaceitável que

uma estrela

coabitasse com um homem - qualquer homem - sem ser casada com ele. É

verdade que, com

um pequeno arranjo, tudo se tornava possível. Márion Davies era

sabidamente a mulher do

(também casado) magnata da imprensa William Randolph Hearst. Mas, para

salvar a face,

mantinham quartos "separados" no rancho dele em San Simeon (o modelo do

castelo Xanadu de

Cidadão Kane) e na casa dela em Santa Monica, com o que se tornavam

apenas "amigos".

Spencer Tracy e Katharine Hepburn também tinham um "acordo" que ninguém

desconhecia, mas

não coabitavam - porque o católico Tracy nunca se divorciara de sua

mulher, a influente

filantropa Louise Treadwell Tracy. Os únicos que, em certa época,

desafiaram essa convenção e

moraram juntos foram Charles Chaplin e Paulette Goddard, mas sempre

declarando (falsamente)

que tinham se casado a bordo de um navio na China.
A depender de Carmen, ela e Aloysio já teriam se casado. Aos 33 anos em

fins de 1942, Carmen

sentia o tempo voar em relação ao que verdadeiramente lhe interessava na

vida: ser mãe. Mais

alguns anos, e teria de desistir desse sonho. Aloysio, por sua vez,

sentia uma pressão permanente,

indireta, da parte de dona Maria e de Aurora e Gabriel, por saber que

eles o aprovavam - e

talvez o aprovassem até demais. Sem falar na silenciosa pressão social, a

qual insinuava o tempo

todo que não ficava bem ele continuar morando ali sem ser casado com

Carmen.
349


Mas havia também uma pressão contrária, vinda de sua família no Rio.

Aloysio era quase um filho

único. Sua mãe, dona Nair, e sua irmã, Yvonne, o tinham criado de forma

rígida, repressiva. Por

elas, ele teria se formado em odontologia e se dedicado às brocas e aos

boticões, e nunca se

aproximado de um microfone. As duas eram contra seu casamento com Carmen,

por ela ser

cantora e, pior ainda, bem mais velha do que ele. Aloysio anotava tudo,

mas era capaz de ignorar

os sentimentos das duas famílias e decidir por conta própria. Na verdade,

já decidira.


Primeiro, precisava libertar-se profissionalmente de Carmen. A única

maneira de conseguir isso

era arranjando um emprego fora do Bando da Lua. Como a alternativa - nem

pensar - era a

volta para o Brasil, começara a assuntar a praça em Hollywood. A melhor

possibilidade

chamava-se Walt Disney - e, desde que Disney voltara do Rio, ele se

aproximara do produtor,

por intermédio de Gilberto Souto. Walt iria rodar Alô, amigos, e havia

muito em que um homem

como Aloysio lhe poderia ser útil. Walt se deixou convencer. Aloysio

ainda participou de Minha

secretária brasileira, mas ali se encerrou o seu primeiro ciclo com

Carmen e com o Bando da Lua.

Disney já o contratara como assessor especial.
Com a saída de Aloysio, o Bando da Lua original (que, nos últimos três

anos, perdera Ivo, Hélio e

Vadeco) resumiu-se aos irmãos Stenio e Affonso Ozorio, e eles não abriam

mão de continuar com

Carmen. Aloysio não se opunha a isso - desde que o nome Bando da Lua

deixasse de existir.

Stenio e Affonso tiveram de concordar. E assim, formado por Zezinho,

Nestor, Stenio, Affonso,

Vadico e o trompetista Ivan Lopes, músico brasileiro que também fora

tentar a sorte em Los

Angeles, nasceram informalmente os Carioca Serenaders.
Já se desligar de Carmen não foi tão fácil. Aloysio precisou de

habilidade para contornar seu

rompimento com ela. Primeiro, limitou-o a uma separação profissional e

explicou: com ela agora

sob contrato permanente com a Fox, suas apresentações com o Bando da Lua

diminuiriam. Ele,

sem ter o que fazer, seria, mais do que nunca, Mister Miranda - a que ele

não queria. Seu

afastamento do conjunto era importante até para que pudesse crescer

artisticamente. Mas que ela

não se preocupasse porque, mesmo trabalhando com Disney, ele estaria

sempre por perto.

Carmen entendeu. Quanto a continuar morando com ela, Carmen sabia, melhor

do que ninguém,

que não estava direito. E ele ainda não se sentia seguro para falar em

casamento. Além disso,

havia o ciúme brabo de Carmen - sempre acusando-o de não se fazer de

rogado diante das

coadjuvantes, coristas, secretárias e datilógrafas dos estúdios -, e que

só tendia a agravarse,

porque era verdade. O melhor, para ambos, era se afastarem por uns

tempos.
Chorando, Carmen concordou com tudo e logo começou a acreditar que, de

fato, esse curto

afastamento de Aloysio fizesse bem aos dois. Não podia adivinhar que, tão

rapidamente, Aloysio

fosse conhecer, apaixonar-se e se casar com uma secretária de Disney e

até ter uma filha com ela.

Capítulo 20


1943
Entre a vida e a morte

No Rio, os críticos de cinema deixavam crescer as unhas para escrever

sobre Carmen:
"Não se concebe uma pior artista do que Carmen Miranda. Muito gorda, com

roupas


espalhafatosas (incluindo uma fantasia com as cores portuguesas) e

desprovida da menor parcela

de graça ou simpatia. Começa a imitar o estilo Lupe Velez: grita muito,

fala muito, berra muito.

Alice Faye é meiga, sincera e bonita. [Carmen] é espalhafatosa, nada

sincera e muito feia."

(Crítico anônimo, em A Cena Muda.)
"Verdadeira caricatura - e caricatura grotesca - daqueles tipos

"temperamentais" que Lupe

Velez fazia. Nunca a vimos se apresentar tão mal e de maneira tão

exagerada e vestir-se tão mal.

Suas baianas são de um mau gosto incrível, e positivamente grotescas em

Technicolor." (Crítico

anônimo, no Diário da Noite.)
"[Carmen está] melhor que nos trabalhos anteriores, mas ainda assim

revelando-se péssima artista.

Também quem inventou que ela podia trabalhar no cinema?" (Pedro Lima, em

O Jornal.)


Essas críticas lubrificadas a bile se referem a Aconteceu em Havana,

estreado no Rio em

novembro de 1942. Um dos críticos anônimos, o da Cena Muda, seria o mesmo

Pedro Lima, que

não podia ver um traço de verde ou vermelho numa baiana de Carmen sem ter

um espasmo

antilusitano. O outro, o do Diário da Noite, talvez fosse Celestino

Silveira. Ou os dois primeiros

textos poderiam ser de Celestino, pela indignação quase apoplética em

ambos, pela fixação em

Lupe Velez e por não saber se criticava o filme ou os figurinos (estes,

talvez a sua verdadeira

vocação como crítico). O primeiro artigo não perdoa Carmen, por "gritar

muito", e preferia que

ela fosse "meiga e sincera", como Alice Faye. Ou seja, quando o crítico

de uma revista de cinema

confunde a personagem com a intérprete, entende-se por que, nos anos 40,

ainda havia na platéia

quem acreditasse que os atores iam inventando os diálogos à medida que o

filme rolava na tela.


Estava quebrada a trégua entre Carmen e os críticos brasileiros. No

primeiro filme, Serenata

tropical, não havia muito o que criticar - Carmen aparecia cantando seus

números musicais e só.

Em Uma noite no Rio, deram-lhe alguns diálogos, mas seu papel continuou

musical e decorativo

- os críticos a pouparam, pelo visto por benevolência. Mas, a partir de

Aconteceu em Havana,


351
Carmen entrou na linha-de-tiro. A maioria dos críticos brasileiros tomou

assinatura contra ela -

por suas baianas fugirem da estilização original ou por fazer os

americanos pensarem que as

brasileiras se vestiam daquele jeito; por tentar ser engraçada ou por

estar sempre irritada; por

trocar o samba pela rumba ou por reduzir a música brasileira aos sambas

"negróides". Isso, no

caso das críticas minimamente articuladas - porque, de modo geral, Carmen

era atacada por ter

se tornado americana demais, brasileira demais, latino-americana demais,

ou todas as opções

anteriores, mesmo que uma contradissesse as outras.
O mais implacável era, por acaso, Pedro Lima. Suas críticas - quase

sempre a mesma, com

pequenas alterações - saíam em todos os veículos da cadeia Associada, o

que significava que

Carmen tinha contra ela uma rede de jornais e revistas. Apenas três anos

antes, ele e Celestino

Silveira eram recebidos como velhos amigos na casa da Urca por dona

Maria. Se Carmen ainda

estivesse por chegar, ela os cumulava de ovos moles ou pastéis de Santa

Clara enquanto eles

esperavam. Agora arrotavam diatribes contra a estrela.
Em Beverly Hills, com um ou dois meses de atraso, Carmen lia tudo que se

publicava no Brasil a

seu respeito, enviado por Almirante. Não gostou do que leu sobre

Aconteceu em Havana e

mandou dizer que não adiantava os críticos estrilarem, porque a realidade

do cinema era aquela e

era "perda de tempo criticar, de tão longe, o que se passava na

Califórnia".


Celestino soube disso e subiu nas tamancas, ferido no seu direito de

opinar. A provar que se

ofendera, mandou-lhe pela Cena Muda uma resposta professoral e

provinciana, acusando seus

"falsos amigos" (Almirante seria um deles?) de a estarem intrigando

contra os que aqui "lhe

queriam tanto bem". (Mas, entre estes, não podia estar se referindo a si

próprio e a Pedro Lima,

que achavam ridículo tudo o que ela fazia.) Em outro trecho, parecia

censurá-la por estar gozando

"dos gases da fama, da popularidade e dos dólares" - como se houvesse

nisso algo de

reprovável e como se a nobreza estivesse em submeterse aos cachês de

Wallace Downey nos

alô-alôs. Depois aconselhava os "falsos amigos" a auscultar o ambiente e

"tomar o pulso da

opinião pública" (brasileira) em relação a ela.
Para que não se perdesse uma boa idéia, Celestino antecipou-se e fez

exatamente isso em sua

revista: promoveu uma enquete sobre Carmen. Entre as dezenas de leitores

que escreveram para

atacá-la, era notável a incidência de cartas que concordavam tintim por

tintim com as críticas,

dele e de Pedro Lima, na argumentação e no estilo... Houve cartas a

favor, também, isentando

Carmen e lembrando que, por força de seu contrato, ela era obrigada a

fazer o que lhe mandavam,

inclusive vestir-se "daquele jeito". Outras atribuíam os ataques a Carmen

àquela secular víbora,

tradicional inimiga dos brasileiros que faziam sucesso lá fora: a inveja.
Bem mais simples era responder à pergunta de Pedro Lima: "Também quem

inventou que ela

podia trabalhar no cinema?".

352
Pois fora ele próprio - Pedro Lima. Você se lembra. Em 1926, trabalhando

com o produtor Paulo

Benedetti, Lima publicou a primeira foto de Carmen numa revista

(Selecta), chamando-a de "uma

extra da nossa filmagem" e já lhe antevendo - com grande faro - um futuro

de estrela.
E estrela ela se tornara, mas, ao se olhar ao espelho, Carmen nunca

chegara a um acordo com seu

nariz. Em Hollywood, muito menos, porque ali circulavam os narizes mais

perfeitos do mundo.

Carmen era excessivamente severa consigo mesma - irritava-a que, vista de

lado, a ponta de seu

nariz se prolongasse numa batata ou em outro ramo da família dos

tubérculos, formando uma

ligeira ensellure ou sela. Obrigava-a também a ficar atenta para que os

cinegrafistas e fotógrafos,

que a perseguiam dia e noite, só a pegassem de meio perfil e, de

preferência, com o rosto voltado

para a esquerda (90% de suas fotos são assim). Aliás, para Carmen, o

único senão da seqüência de

"Chica chica boom chie", em Uma noite no Rio - um momento em que ela está

iluminada,

esbanjando felicidade -, era seu nariz virado para a direita, formando um

ângulo reto em relação

à testa e projetando-se como uma flecha contra o impecável uniforme

branco de Don Ameche. E

era verdade que se divertira muito com Mickey Rooney quando o ajudara a

caracterizar-se como

ela nas filmagens de Calouros na Broadway - exceto quando tivera de pôr-

se em posição para

que ele copiasse seu nariz.
A vontade de operá-lo vinha de longe. Cerca de dez anos antes, no Rio,

Carmen já falara sobre

isso com o médico que cuidara de sua pele, o doutor Hernani de Irajá:
"Não se pode dar um jeito nele, doutor? Tirar esta cinturinha?"
"Poder, pode, Carmen. Mas eu aconselho a você deixar como está. Isso em

nada a afeta, e até lhe

aumenta a graciosidade."
O doutor Hernani argumentou que o leve arrebitamento provocado pela

ensellure dava-lhe um ar de

petulância que a remoçava - e poderia ser até uma garantia contra o

envelhecimento. Mas

Carmen nunca se convenceu. Por fim, tantos anos depois, descobriu um

cirurgião em Los Angeles,

doutor Holden, que fizera um "ótimo trabalho" no nariz de sua amiga Ann

Miller. Em 1943, era difícil

encontrar médicos que executassem plásticas para fins apenas estéticos.
Ao decidir recorrer a ele para operá-la, Carmen contrariou várias

opiniões, entre as quais a de seu

clínico, doutor Marxer, que a advertiu para a prática de charlatanismo no

terreno da cirurgia plástica

em Los Angeles - e que a cidade americana a se recorrer para essa

especialidade era Saint Louis,

no Missouri. Carmen contrariou também a intuição de sua mãe, para quem

algo ia dar errado. E

ela própria, com um mínimo de esforço intelectual, devia saber que não

era aconselhável entregar

seu único nariz a um cirurgião que, segundo diziam, operava até em

domicílio. Era muito risco

para uma atriz. Mas Carmen já tinha

353
tudo acertado em sua agenda: operar o nariz no primeiro trimestre de

1943, filmar de abril a julho

e, no dia seguinte ao último take ou sessão de dublagem, superar todas as

dificuldades de

navegação aérea provocadas pela guerra e tomar um avião para o Rio, onde

pretendia ficar pelo

menos dois meses. E, assim, em fins de fevereiro ou nos primeiros dias de

março de 1943, Carmen

armou-se literalmente da cara e da coragem e submeteu-se à cirurgia -

sobre a qual há duas

versões.
A primeira, muito improvável, reza que, num dia em que Aurora e dona

Maria estariam fora, ela

recebeu o homem em sua casa e ele fez o trabalho ali mesmo. Outra, mais

plausível, é a de que,

sempre às escondidas de dona Maria e Aurora, ela tivesse sido levada à

clínica por Aloysio. O

certo é que Holden lhe cobrou quinhentos dólares adiantados e exigiu que

Carmen assinasse um

documento (prática comum na medicina americana da época) isentando-o de

responsabilidade

pelo resultado. Em seguida, fez o serviço: com algumas incisões e a

retirada de cartilagem,

eliminou a curvatura e remodelou-lhe o nariz. Ou, pelo menos, foi o que

prometeu - porque,

quando as ataduras foram removidas, algumas semanas depois, o resultado

pareceu desastroso

para Carmen. Seu nariz ficara parecido com o de um lutador de boxe.


Daí em diante, ninguém mais teve sossego. Nos primeiros dias, Carmen se

desesperou. Sua

carreira estava destruída - nunca mais poderia aparecer em público,

porque seus fãs não a

aceitariam daquele jeito. Descobrira, um pouco tarde, que uma plástica no

nariz não era uma

tintura no cabelo ou um novo esmalte que se pudesse aplicar e remover,

caso não se gostasse -

era muito mais complicado. Mas também não era irreversível. Só começou a

se tranquilizar

quando o doutor Marxer lhe garantiu que, com uma nova cirurgia corretiva, de

preferência em Saint

Louis, ganharia pelo menos seu antigo nariz de volta. Teria apenas de

esperar alguns meses.


Acontece que Carmen não podia esperar tanto - estava às vésperas de

começar um novo filme.

O estúdio a aguardava para rodar The gang"s ali here (no Brasil, Entre a

loura e a morena), com

direção de Busby Berkeley. Carmen seria o segundo nome do elenco, atrás

apenas de Alice Faye,

com três grandes números musicais a seu cargo e uma intensa presença na

trama. A produção já se

iniciara em fevereiro, e tudo indica que Carmen tenha gravado o playback

de seus números antes

da cirurgia. Gravação, aliás, que ela teria marcado para aquele mês na

esperança de que, até o

dia acertado para o início das filmagens,

19 de abril, o pós-operatório tivesse se completado e ela pudesse exibir

o novo narizinho. Mas,

quando as filmagens começaram, Carmen ainda estava sob o impacto do nariz

deformado.
Não há registros fotográficos desse nariz e, quem examinar o rosto de

Carmen em Entre a loura e a

morena em busca de pistas, ficará intrigado - porque, no filme, ela está

com um nariz perfeito,

com um ligeiro e delicioso arrebitamento. Mas é um nariz de massa de

maquiagem, obra do

visagista Guy Pearce,

354
responsável pelo make-up geral do elenco. E esse, sim, foi um trabalho de

mestre - porque

permitiu a Carmen atirar-se com toda a alma a seus números no filme, como

se adivinhasse que

eles seriam o ponto máximo de sua carreira em Hollywood.


Entre a loura e a morena é considerado, quase por unanimidade, o melhor

filme de Carmen. Para

muitos, é também o melhor de Busby Berkeley, "Buzz", para os amigos - que

não eram muitos. O

filme marcou o reencontro de Berkeley com Darryl F. Zanuck. Em 1933,

quando ambos estavam

na Warner - Zanuck, como um ambicioso chefe de produção; Berkeley, como

um coreógrafo

cheio de idéias -, eles revolucionaram o gênero musical com Rua 42. Logo

depois, Zanuck

deixou a Warner para tomar-se um dos magnatas da Fox e de Hollywood; mas

Berkeley

continuou lá, como coreógrafo ou diretor, e criou uma série antológica de

números para os

musicais do estúdio. Na Warner, todos achavam fácil admirá-lo. Difícil

era aturar o seu

temperamento ríspido e autoritário, os ocasionais porres e a permanente

fixação pela mãe, que ele

só faltava levar com ele quando se encarapitava na grua, a dez metros de

altura. Em

1939, Berkeley mudou-se para a MGM, onde se dedicou a dirigir e torturar

Judy Garland e

Mickey Rooney numa série de musicais adolescentes, entre os quais

Calouros na Broadway. A

tortura consistia em obrigá-los a repetir trinta vezes a mesma cena e a

chamá-lo de "tio Buzz". Só

não o avisaram de que, já então, ninguém podia torturar Judy e Mickey

impunemente - não por

muito tempo.
Desgastado na MGM, Berkeley foi chamado para a Fox em 1942 por Zanuck,

mas este, frenético

defensor da entrada dos Estados Unidos na guerra, não ficou para esperá-

lo - aos quarenta anos,

alistou-se e zarpou para a Europa. Não fez diferença: com a carta-branca

que Zanuck lhe deixou,

Berkeley rodou Entre a loura e a morena exatamente como tinha planejado.

E, de passagem,

quase enlouqueceu o chefe interino do estúdio, William Goetz, e o

produtor William LeBaron.

Não admira que tenha sido seu único filme na Fox.
Berkeley não era bem um coreógrafo, no sentido de um diretor de dança,

como Hermes Pan ou

Robert Alton. Entre outros motivos, porque não sabia dançar. (Nos seus

musicais, ninguém

precisava saber dançar.) Era mais um diretor de cena e de câmera, mas,

nesse caso, beirando a

genialidade. Sua idéia de uma seqüência musical era dispor o máximo

possível de coristas em

cena - um coro com nunca menos de sessenta mulheres bonitas, às vezes

mais de cem - e

ensinar-lhes movimentos simples, mas que, em conjunto e vistos do alto,


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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