Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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editorial em que

lembrava, como que se lamentando, que Carmen "nascera entre eles

[portugueses], mas adotara a

nacionalidade brasileira". Só que, para o jornal, o lamento era um

elogio, e o prejuízo era deles,

não dela: "É uma pena que Carmen - cujo encanto a tornaria incomparável

no fado - só cante

sambas brasileiros. É o caso de imaginarmos o que seria o fado por ela

interpretado, se Carmen

não soubesse cantar o samba".
Se não tinha dúvidas entre o samba e o fado, Carmen, talvez estimulada

pela mãe, exercia sua

dupla nacionalidade quando se tratava de caridade. Ao mesmo tempo que

mandava auxílio para

hospitais e casas de saúde no Brasil, socorria vítimas de enchentes em

Portugal e mandava

aparelhos de rádio para presidiários nos dois países. Exceto pelos

rádios, que iam em espécie,

Carmen fazia todas as doações em dinheiro, por telegrama. A entrada dos

Estados Unidos na

guerra complicou um pouco essa última atividade. Por aqueles tempos, ao

mandar uma certa

quantia para a igreja de São Judas Tadeu, no Cosme Velho, no Rio, seu

telegrama foi interceptado

no correio de Los Angeles.
341
As autoridades queriam saber quem era Mister Tadeu.
Aurora terminara seu compromisso com Monte Proser no Copacabana em março

de 1942 e fora

contratada por Earl Carroll, um mini-Ziegfeld que, desde 1922, montava

anualmente uma revista

musical de sucesso: as Earl CarrolVs Vamties. Carroll começara com um

teatro em Nova York,

depois abrira uma filial de luxo no Sunset Boulevard, em Los Angeles, e

agora criara uma

companhia itinerante que cruzava o país. Aurora foi contratada para esta

e passou os cinco meses

seguintes, até agosto, atravessando os Estados Unidos - Nova York, Ohio,

Illinois, Kansas,

Califórnia, várias cidades em cada estado -, e sempre fechando o

espetáculo com um quadro de

música brasileira em que "Mamãe, eu quero" era o carro-chefe.
Em seu começo de carreira, o expedito e lascivo Carroll fazia qualquer

coisa para aparecer. Às

vésperas de uma estréia, cobria as paredes de seu escritório com fotos de

garotas nuas e instruía

um funcionário para denunciá-lo à polícia. Carroll ia preso, passava a

noite na cadeia, seu

advogado pagava a fiança e ele se beneficiava da publicidade. Deu certo,

até que a polícia

descobriu o truque e parou de prendê-lo. Carroll não se abateu: em 1927,

apresentou uma corista

que saía nua de uma taça gigante de champanhe. A polícia teve de invadir

o teatro e prendê-lo -

não pela nudez da moça, mas pelo champanhe, já que estávamos na Lei Seca.

Carroll explorava

esse marketing barato, mas seu espetáculo era de primeira e ele era um

homem musicalmente

alerta - entre os jovens que se gabava de ter "descoberto" estavam os

compositores Harold

Arlen e Burton Lane e os letristas Yip Harburg e Ted Koehler (a clássica

"I gotta right to sing the

blues", de Arlen e Koehler, fora feita para o show de Carroll em 1934).
Ao seguir os conselhos de Carmen (que achava que ela devia começar por um

nightclub - o

Copacabana -, depois fazer teatro - o Earl CarrolFs - e só então entrar

para o cinema), Aurora

ganhou mais do que pensava. Graças a Carroll, viveu a experiência de

excursionar com uma

importante companhia americana e, ao mesmo tempo, gozar sua protelada

lua-de-mel - porque

Gabriel viajou com ela e, de hotel em hotel dos Estados Unidos, os dois

passavam o tempo inteiro

juntos, com tudo pago. E o final foi perfeito: em Los Angeles, nas

últimas semanas do show no

Earl Carroll, Aurora foi vista por alguém que pensava nela para um filme

passado no Brasil. O

homem era Walt Disney e o filme - em que se previa um quadro com a

revolucionária

concepção de combinar desenho animado com ação humana - seria Alô,

amigos.
Na verdade, a Miranda que Disney queria era Carmen. Sua idéia era juntar,

num esquete

intitulado "Blame it on the samba", Carmen e a organista Ethel Smith, com

duas figuras animadas:

o Pato Donald e um novo personagem criado a partir de sua experiência

brasileira, o papagaio

Joe Carioca - no Brasil, Zé Carioca. Mas, para ter Carmen, Disney teria

de passar pela Fox,

342
e Zanuck - ainda convalescendo do cheque de 60 mil dólares que assinara

para tomar Carmen de

Shubert - nunca cederia sua nova estrela para um concorrente. Sem Carmen,

o esquete perdeu o

sentido e teria de ser abandonado, suspirou Disney. Mas Carmen sugeriu

Aurora e garantiu a

Disney que arrancaria de Zanuck a permissão para fornecer-lhe uma

"consultoria técnica", sem

crédito e sem remuneração, para as cenas de sua irmã. Disney prometeu ir

assistir a Aurora no

teatro. Cumpriu a promessa e gostou do que viu.


Quanto ao personagem de Zé Carioca, já nascera pronto. Durante sua estada

no Rio, em seu QG

no Copacabana Palace, Disney fora vastamente informado sobre a

importância do papagaio na

psique do homem brasileiro. Alguns povos faziam uma idéia tão arrogante e

exaltada de si

mesmos que se identificavam com certo tipo de aves: águias, condores,

falcões. O brasileiro se

identificava com o papagaio. Através das centenas de anedotas que lhe

contaram - o pianista

Gadé foi levado ao Copa especialmente para uma sessão de piadas -, Disney

ficou sabendo

como o brasileiro, digo, o papagaio, podia ser pobre, folgado,

preguiçoso, vagabundo e sem

caráter, mas era esperto, feliz, sabia se virar e aprendia tudo com

facilidade, inclusive a enrolar os

gringos. Para a criação física do personagem, usaram vários elementos -

alguns sugeridos por

desenhistas brasileiros que Disney conheceu, como J. Carlos e Luiz Sá. O

fraque, o chapéu de

palhinha, o colarinho duro, a gravatinha-borboleta e o guarda-chuva do

papagaio foram

inspirados na indumentária do folclórico doutor Jacarandá, um popular rábula

carioca. Os olhos, o

nariz e a boca (ou bico) lembravam as feições do compositor Herivelto

Martins. E os movimentos

do corpo foram copiados, em Hollywood, da particularíssima ginga do

violonista Zezinho, que,

apesar de paulista, acabou fazendo também a voz de Zé Carioca. (E não

apenas em português.

Zezinho começou por dublá-lo em espanhol e, depois da guerra, fez o mesmo

em francês, sueco,

italiano, alemão e japonês, assim como Clarence Nash fazia a "voz" de

Donald em todas as

línguas, entre as quais o português.) Alô, amigos era uma coletânea de

desenhos curtos, tendo em

comum apenas o cenário: um passeio por várias regiões da América do Sul

(o lago Titicaca, no

Peru; o pico do Aconcágua, no Chile; os pampas argentinos e uruguaios; e,

única grande cidade

em cena, o Rio), tudo muito bem embrulhado em 42 minutos de projeção.

Pela primeira vez, um

filme patrocinado pelo Birô de Rockefeller não irritou ninguém - ao

contrário, todos os povos

retratados gostaram de se ver nos olhos de Disney. Para o Brasil, valeu

especialmente pelo

esquete "Aquarela do Brasil", onde se deram a estréia de Zé Carioca -

fazendo Donald de

escada - e a primeira audição em escala internacional do samba de Ary

Barroso, cantado por

Aloysio de Oliveira, pelo qual o mundo iria se apaixonar: "Aquarela do

Brasil".
A seqüência que reuniria Aurora e Ethel Smith a Donald e Zé Carioca não

chegou a ser filmada,

porque os engenheiros de Disney ainda não tinham aperfeiçoado o aparato

técnico para

combinar animação e gente de carne e osso na mesma cena.

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Mas as sugestões de Carmen para a roupa, os diálogos e

os movimentos de

Aurora - dadas nos dois dias que Zanuck lhe concedeu para trabalhar para

Disney - foram

transformadas em storyboards e não se perderam. Disney viu as

possibilidades de mais um filme

no gênero e decidiu que Alô, amigos seria apenas um aquecimento para The

three caballeros (no

Brasil, Você já foi à Bahia?), e este, com Aurora, é que seria o filme

para valer.


Meses antes, Carmen, Aurora e Gabriel tinham combinado que passariam o

verão brasileiro de

1942-1943 no Rio. Mas não contavam que a vida profissional interferisse

nos seus planos. Em

setembro, com Shubert já evaporado de sua vida, Carmen podia finalmente

sentir-se "da Fox" -

um passo de sete léguas desde aquele remoto concurso de fotogenia a que

se submetera em

1927. No dia 28 de outubro de 1942, Aurora fez teste para o quadro

brasileiro de Você já foi à

Bahia?, usando um bustiê verde-amarelo e cantando "Os quindins de iaiá",

também de Ary

Barroso. Foi contratada ali mesmo e ficaria presa a Disney pelos dezoito

meses seguintes,

precisando ir diariamente ao estúdio. E o próprio Gabriel, agora, também

trabalhava para

Howard Hugues - os dois, de macacão e levando chaves inglesas e de boca,

metiam-se pela

barriga de um avião e só saíam dali horas depois, sujos de graxa, mas

tendo desventrado os

segredos do bicho.
"Ei, o que é isso? O que você está fazendo?", berrou um homem com sotaque

sulista e pescoço

vermelho, nas primeiras filas do Roxy, em Nova York, numa matinê.
Carmen estava dançando abraçada aos elegantíssimos Nicholas Brothers, um

de cada lado.

Virou-se para o lado de onde vinha o som:
"Qual é o problema?", ela disse, sorrindo. "Está com ciúme, yes?"
Na década de 40, não era normal que uma artista branca (mesmo "latina")

tocasse ou fosse tocada

fisicamente por um negro num palco de Nova York. E menos ainda por dois

negros. Ou, ainda

pior, além de tocar e ser tocada, se enroscasse com eles ao dançar.

Levaria décadas para que,

mesmo em Nova York, tais práticas passassem despercebidas no teatro.
Na última semana de 1942 e nas três primeiras de 1943, quando Carmen e os

Nicholas Brothers

fizeram uma temporada de inverno no palco do Roxy em sete shows diários,

o número em que

dançavam juntos sempre representou algum risco para eles. Toda vez que

Fayard e Harold

Nicholas a enlaçavam, não se podia garantir que, na platéia, um sulista

desgarrado, em vez de

esbravejar, não fosse sacar uma arma. Diálogos entre Carmen e um

espectador revoltado

aconteceram mais de uma vez nas quatro semanas da temporada e, não fosse

sua frase ("Está com

ciúme, yes?") inevitavelmente provocar uma gargalhada, não se sabe qual

seria o desfecho.


Nos dias anteriores, Carmen já superara outras experiências de

intolerância em Nova York.

344
O Roxy lhe reservara um apartamento no Sherry-

Netherland, na Quinta

Avenida, um hotel classudo, discreto, ideal para hóspedes que gostavam de

falar aos sussurros e

olhando para os lados. Em toda a sua história, o único dia em que o

sossego se alterara no

Netherland foi quando, sem aviso prévio, um hóspede tão querido - Spencer

Tracy, numa de

suas fugas de Hollywood - desceu do apartamento e apareceu no lobby,

pelado e na maior

água, procurando bebida.
Carmen também teve um problema no lobby do Netherland, mas de outra

natureza. O hotel não

quis hospedar a acompanhante que o Roxy lhe providenciara - Ruby, uma

mulata jamaicana que

falava bem inglês e já trabalhara para Bette Davis. O argumento era o de

sempre: "Não temos

acomodações para empregados". Então Carmen foi ao gerente e, em voz

baixa, olhando para os

lados, como era norma no hotel, pediu uma cama extra no apartamento; caso

contrário, iria

embora. Grandes tempos, em que ninguém se atrevia a contrariar uma

estrela do cinema - num

segundo, o gerente providenciou a cama. Na mesma noite, Carmen convidou

Gilberto Souto e o

pessoal do consulado ao show de Sophie Tucker no Copacabana. Como todos

os nightclubs de

Nova York, o Copacabana podia apresentar artistas brancos, como Sophie

Tucker, e negros,

como Lena Horne, mas a platéia era sempre branca. Pois, ignorando os

leões-de-chácara, Carmen

entrou pelo Copacabana com seus convidados, entre os quais a mulata Ruby,

vestida com suas

roupas e jóias e coberta por um casaco de pele. Carmen fez de propósito -

para ver como seu

amigo Monte Proser se sairia. Proser entendeu o recado e Ruby passou

direto. Ao praticar esses

pequenos atos de bravura, Carmen não calculava que, naquelas semanas em

Nova York, teria de

ficar de olho aberto sete vezes por dia, no palco do Roxy, ao dançar

abraçada com os Nicholas

Brothers.
Os Nicholas eram os irmãos Fayard, 28 anos, e Harold, 21. Formavam talvez

a maior dupla de

dançarinos acrobáticos do mundo. Seu estilo era, ao mesmo tempo, circense

e heróico: um misto

de sapateado selvagem com aflitivos granas écarts, com os dois se jogando

de alturas cada vez

maiores, caindo de pernas abertas e já dançando ao se levantarem. Eram um

produto típico do

Cotton Club e do Apollo Theatre, no Harlem, onde dançavam ao som de

orquestras como as de

Duke Ellington e Cab Calloway. Estavam no cinema desde 1932, mas tinham

muito menos filmes a

seu crédito do que mereciam. Mesmo na Fox, sob o liberal Zanuck, seus

números eram editados

tendo em vista a exibição do filme nas praças racistas - era só fazer com

que, na tela, eles não

tivessem nenhuma comunicação por palavras ou olhares com o elenco

principal; assim, suas

seqüências podiam ser facilmente cortadas, até pelo dono do cinema, sem

prejuízo para a trama.


Na época da temporada com Carmen no Roxy - a primeira e única vez em que

dançaram com

ela -, os Nicholas não sabiam, mas sua carreira no cinema já estava perto

do fim. Só apareceriam

em mais dois ou três filmes antes
345
de Hollywood decretar que o público se "cansara" deles. E um dos motivos

alegados era que

estavam condenados a dançar um com o outro - porque, além do problema

racial, quem seria

capaz de dançar com eles?
Ora, Carmen, por exemplo. No Roxy, eles criaram para ela o "Carmen

Miranda step" ou "samba

boogie tap", misto de soft shoe (uma espécie de sapateado em tempo médio,

em que os pés mal se

descolam do chão) com o também suave jogo de quadris de Carmen. (Foi uma

importante

homenagem, porque os Nicholas faziam - com justiça - uma grande idéia de

si mesmos.) Eram

passos ideais para ser dançados ao ritmo dos samba-choros, quando o

acompanhamento era feito

pelo Bando da Lua, ou dos boogie-woogies menos enfezados, quando entrava

a orquestra do

Roxy. Pois Carmen, que estava longe de ser dançarina, dançou com os

Nicholas Brothers. Ao fim

das quatro semanas, o Roxy deu a ela uma pulseira com a inscrição:

"Obrigado pelo melhor Natal

e Ano-Novo da história do Roxy".
Carmen e os Nicholas Brothers eram contratados da Fox. Esta fizera do

Roxy o seu principal

cinema lançador em Nova York, e o filme com que eles se revezavam no

palco, do meio-dia à

meia-noite, era o último sucesso do estúdio, O cisne negro (The black

swan) com Tyrone Power,

rodado pouco antes de o galã partir para o Pacífico. Ou seja, tudo em

casa. Mas quem contratava

Carmen era o Roxy - por 12 mil dólares por mês.
Por que esses valores absurdos? Porque, com sua marquise prometendo

Carmen Miranda ao vivo

no palco, o Roxy sabia que teria casa cheia, quase 6 mil pessoas, em cada

uma das sete sessões do

dia. Isso significava cerca de 40 mil pessoas passando diariamente pela

bilheteria. A cinqüenta

centavos o ingresso, o Roxy precisava de apenas meio dia para pagar o

salário semanal de

Carmen.
A própria Carmen não podia se queixar. Livre de Shubert, não tinha mais

de dividir o dinheiro

com ninguém. Isso, mais seu salário na Fox - 5 mil dólares por semana -,

fariam com que ela

finalmente soubesse o que era ganhar dinheiro.
No Brasil, onde os mil-réis tinham dado lugar ao cruzeiro, só o seu

salário na Fox representava

meio milhão de cruzeiros por mês. Os poucos brasileiros que, um dia,

chegavam ao milhão

podiam ser chamados de milionários. Carmen era uma milionária seis vezes

por ano.
Como ganhava muito dinheiro, era preciso gastá-lo. Assim, nos últimos

meses de 1942, investiu

parte dele numa casa para ela e sua família, num endereço que, por sua

causa, ficaria famoso:

North Bedford Drive, 616, em Beverly Hills. Carmen só fez isso depois que

a Fox comprou seu

contrato a Shubert, e ela se certificou de que sua vida já não estava

centrada em Nova York e que

iria viver em Los Angeles pelos próximos anos.

346
A escritora nova-iorquina Edna Ferber, autora de Show boat e também

veterana da "mesa

redonda" do Algonquin, observara que as rosas da Califórnia não tinham

perfume. E daí? Carmen

não estava ali por causa das rosas. Também não devia conhecer a frase de

Fred Allen, de que a

Califórnia era um lugar ideal para morar - se você fosse uma laranja. E,

em 1943, Raymond

Chandler ainda não dissera que Los Angeles era uma cidade "com a

personalidade de um

copinho de papel". Mas nada disso alteraria a disposição de Carmen em

viver ali.


A casa lhe custou o mesmo que sua liberdade em relação a Shubert: 60 mil

dólares. Para os

padrões de Beverly Hills, estava longe de ser uma mansão como as dos

senhores feudais de

Hollywood. O modelo habitual de casas na região seguia o formato persa-

barroco-normando-

espanhol-vitoriano, numa grotesca sarabanda de estilos, todos falsos e ao

mesmo tempo. A

mansão do antigo comediante Harold Lloyd era um misto de Terra do Nunca e

castelo de

Cinderela, com regatos internos, uma lagoa circundante e uma piscina em

que até galeões

poderiam atracar. A de Gary Cooper era uma África de fancaria: paredes

adornadas com uma

extensa fauna de cabeças empalhadas, de zebras a elefantes, nenhum deles

abatido pelo astro.

Havia também casas no estilo Roma antiga e outras que pareciam ter sido

transplantadas de

Boulton Gardens, em Londres, ou de Waverley Place, em Nova York. Ao se

passar diante delas,

não se sabia se eram casas de verdade ou fachadas cenográficas e, por

dentro, igualmente

pareciam cenários. Claro: seus arquitetos e decoradores eram os

cenógrafos dos estúdios.


A de Carmen era uma boa casa, com sete salas no primeiro andar, mas nada

de comparativamente

especial. Até sua arquitetura, em falso colonial espanhol, era discreta.

Tinha dois andares, quatro

quartos (todos suítes, com banheiros individuais), salão com piano e bar,

escritório, um jardim na

frente e outro atrás, este junto à piscina, e garagem para dois carros.

North Bedford Drive era uma

rua cheia de palmeiras - uma destas, exatamente à porta de sua casa. Era

também quase deserta,

sem ônibus nem táxis, mas o bonde San Fernando Valley-Hollywood passava

em frente.


Dos quatro quartos da casa, um era o de Carmen, outro, o de dona Maria, e

um terceiro, o de

Aurora e Gabriel. O último foi transformado num quarto de costura, com a

máquina, uma mesa

grande (para se abrir o pano exigido pelas saias das baianas), cortes de

tecidos, manequins,

moldes, revistas e apetrechos. Carmen era a senhora do aposento, mas

Aurora a secundava no

gosto pela costura - adoravam fazer blusas de jérsei, usando tecidos de

duas cores.


O quarto de Carmen, em estilo provençal, cinza e dourado, era o maior da

casa e maior que

muitos apartamentos que ela conhecera. Todos os móveis - as camas gêmeas,

a cômoda, os

abajures, os espelhos - eram franceses, e tinham sido deixados pelos

antigos proprietários

(Carmen gostou deles e os deixou ficar). Outro móvel, com gavetinhas,

tinha pequenas divisões

forradas de veludo, para as jóias e bijuterias: brincos, colares,

pulseiras e braceletes, todos


347
em conjuntos, com as peças individuais combinando. Uma passagem para o

banheiro foi

transformada num aposento só para os perfumes - centenas de frascos,

sendo Femme o favorito.

O guarda-roupa era um vasto closet, com armários para as plataformas

(dezenas de pares), os

vestidos sociais e as fantasias. Os turbantes ficavam armados em cabeças

de manequins, e havia

os que as costureiras de Hollywood lhe mandavam buscando sua aprovação.

Em breve haveria

um armário apenas para os casacos de pele. Aurora às vezes pegava um

casaco emprestado e se

esquecia de colocá-lo de volta. Carmen dava por sua falta, mas logo se

lembrava:


"Ah, já sei. A Aurora pegou. Essa Aurora..." - e piscava o olho.
Durante boa parte do ano, a vida social da casa se dava ao redor da

piscina. A própria Carmen

passava todo o tempo que podia à sua borda. Quando só havia mulheres

presentes, aproveitava

para se queimar por inteiro, usando apenas a parte de baixo do duas-peças

e, à guisa de sutiã, uma

boa camada de bronzeador Gaby. (Para sua mãe, o simples fato de Carmen

expor-se perante as

mulheres da família já tinha alguma coisa de pecado. Além disso, dona

Maria preferia que Carmen

ficasse "clarinha".)
Bem perto, no número 505, ficava a igreja do Bom Pastor, bonita, com duas

torres, famosa por ter

sido palco do espetacular velório de Rodolfo Valentino em 1926. Era a

igreja preferida por vários

católicos de Hollywood: Fred Astaire, Alfred Hitchcock, Charles Boyer,

Jimmy Durante,

Rosalind Russell, Rita Hayworth, Gary Cooper, a garota Elizabeth Taylor,

Bing Crosby, Frank

Sinatra. Se quisesse, Carmen podia ir a pé para a missa. Sua mãe, pelo

menos, ia - todos os dias.

Carmen preferia as missas menos concorridas, a que ia de lenço na cabeça

e óculos escuros e

assistia da sacristia. Mais perto ainda, no número 512, morara Clara Bow,

no auge da "Tf girl" -

só Deus sabia o que acontecera entre aquelas paredes. E, na rua de cima,


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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