Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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morava na Lapa, bairro densamente povoado, com gente morrendo na porta

ao lado - e, mesmo assim, fora poupada. Nenhum deles caíra doente. Por

quê? Para dona Maria, porque eram abençoados. Para os médicos, porque

eram fortes e seus organismos tinham as defesas para resistir à gripe.

Não era de se esperar que, tanto tempo depois, por causa de uma decepção

amorosa, uma filha do casal ficasse tuberculosa.

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A estreptomicina ainda levaria algumas décadas para existir, e o

procedimento de praxe, sem garantia de sucesso, era a longa internação

num sanatório em lugar montanhoso e de clima seco. O tratamento

consistia de alimentação, repouso e, às vezes, práticas brutais, como o

pneumotórax (injeções diretamente no pulmão) e o corte de costelas.

Olinda poderia se tratar aqui mesmo, em Corrêas, distrito de Petrópolis,

ou em Campos do Jordão, no estado de São Paulo, onde havia bons

sanatórios. Mas a proximidade de Feliciano era perigosa - ele a

procuraria nos dias de visita, reacenderia suas esperanças e agravaria

ainda mais a doença. A alternativa foi sugerida pelo doutor Agenor: uma

internação na nova mas já respeitada Estação Sanatorial do Caramulo, em

Portugal, a sessenta quilômetros do Porto, perto de Tondela e Viseu, a

1200 metros de altitude. Lá, Olinda teria por perto a família de seus

tios, em Várzea de Ovelha, e haveria um oceano a separá-la de Feliciano.


Quando Olinda ficou doente, eles tinham se mudado havia pouco para a

travessa do Comércio. Seu Pinto tocava a barbearia, dona Maria

inaugurara a pensão diurna, e Carmen já começara a trabalhar na

chapelaria. Mas o dinheiro continuava curto, e a perspectiva de manter

uma filha numa clínica particular em outro país estava além de suas

possibilidades. Uma troca de cartas com os parentes de Várzea de Ovelha

animou-os, pela garantia de ajuda que lhes seria dada por um casal da

região, o doutor Antunes Guimarães e sua mulher, dona Cecília. Essa ajuda

pode ter se materializado numa internação a preço reduzido, por uma

possível amizade entre o doutor Antunes e o médico Jerônimo Lacerda,

fundador e proprietário do sanatório do Caramulo.
Assim, em 1926, antes que a doença chegasse a um estado desesperador,

Olinda separou-se de seus pais e irmãos e tomou o navio para uma terra

que, embora fosse sua de origem, lhe era completamente estranha.

Embarcou sozinha para os dez dias e noites de viagem, consciente de que

podia estar indo ao encontro da morte. Tinha dezoito anos.
Olinda foi recebida pelos tios na Cidade do Porto e levada de início

para Várzea de Ovelha. Lá conheceu seus benfeitores e eles a

apresentaram a outras pessoas de posses na região de Marco de Canavezes.

Por algumas semanas, Olinda recuperou a alegria. Nas festas,

fantasiava-se, dançava, cantava músicas brasileiras e encantava os

locais com sua graça carioca e o jeito de falar. Mas era difícil manter

seu estado de saúde em segredo e, assim que a sabiam tuberculosa, as

pessoas ficavam reticentes ou evitavam aproximar-se. Para visitar outros

parentes que moravam na margem oposta do rio Ovelha, Olinda tinha de

usar os serviços de um canoeiro. Ele a transportava, mas, quando

chegavam à margem, recusava-se a lhe dar a mão para ajudá-la a descer da

canoa. Como era arriscado continuar adiando a internação, Olinda foi

finalmente levada para o Caramulo, a cem quilômetros de Várzea de Ovelha

- uma imensidão para os padrões portugueses.

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O sanatório ficava na serra do Caramulo, depois de uma longa subida por

estrada de terra, cortando uma região coberta de maias amarelas e roxas,

cercada de pinheiros e carvalhos bravios e abundante em lebres e

raposas. O ar era muito seco, como convém aos tuberculosos, e ficou

famosa a frase de um paciente que não pensou antes de falar: "E preciso

ter uma saúde de ferro para agüentar esse clima!". Embora fundado havia

apenas seis anos, o sanatório já se tornara a maior instituição do

gênero na península Ibérica e era procurado por doentes de todo o país e

da Espanha. No alto da serra, ao fim de uma estrada em forma de

ferradura (para "dar sorte"), via-se a entrada do sanatório, guarnecida

por dois leões de bronze. Um pouco abaixo ficava a aldeia do Caramulo,

onde moravam as famílias da região, uma delas a do futuro ditador

Antônio de Oliveira Salazar, que em 1928 tomaria o poder no país e se

atracaria ao cargo pelos 42 anos seguintes. Os pacientes eram proibidos

de atravessar os leões em direção à aldeia, para evitar constrangimentos

provocados pelo temor do contágio.


O Caramulo consistia de dezesseis sanatórios, dos mais diversos níveis,

entre os quais um militar e um infantil, todos pagos. Não havia

enfermarias, o que salvava os internos da triste cacofonia de tosses e

gemidos noturnos - cada qual, em seu quarto, só ouvia a si próprio. Os

sanatórios eram mistos, com o que namoros entre pacientes (ou entre

pacientes e médicos) eram possíveis. Mas nada de escandaloso acontecia,

nem os amantes tinham muita saúde para arroubos. A liberdade de

locomoção entre as unidades era total, exceto das duas às quatro da

tarde, a hora de "fazei a cura", com os pacientes sentados em cadeiras

de palhinha nas varandas e mantendo obrigatório silêncio. Havia também

uma capela e um café, além de um palco para pequenos espetáculos

montados por eles mesmos. Era nele que Olinda às vezes se apresentava,

com seu repertório de choros e tangos e de trechos de revistas a que

tinha assistido nos teatros da praça Tiradentes. Contava anedotas para

os colegas, ajudava-os a se fantasiar e a se maquiar, dirigia-os no

palco. Seu jeito para o teatro era evidente, e seu lado palhaço e

musical parecia o melhor remédio contra a doença.
Em 1927, Olinda escreveu às tias em Várzea de Ovelha e à família no Rio,

insinuando que um médico do sanatório estava apaixonado por ela. Nunca

deu o nome, mas pela freqüência com que falava de um certo doutor Arnaldo

Quintela, convenceram-se de que só podia ser ele. O reencontro com o

amor era, talvez, um sinal de sua recuperação e a esperança de que um

dia a tivessem de volta. Mas Olinda nunca mais voltaria ao Rio. Na

verdade, não sairia viva do Caramulo.

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Carmen ficou menos de um ano vendendo gravatas e colarinhos em A

Principal. O proprietário, o português Cepeda, não a deixava em paz.

Quase grená de paixão, seguia-a pela loja sussurrando- lhe propostas

indecentes e prometendo aumentos e gratificações. Carmen fingia

ignorá-lo ou levava na brincadeira, mas Cepeda falava sério. Quando

descobriu que sua funcionária só queria saber do remador que ia buscá-la

quase todos os dias ao fim do serviço, adotou a mesquinha atitude de

obrigá-la a ficar até mais tarde, redecorando as vitrines, para atrasar

os seus encontros. Por causa disso, Carmen preferiu pedir demissão.

Podia ganhar a vida fabricando chapéus em casa, enquanto não lhe

surgisse coisa melhor. E teria todo o tempo para vigiar Mário Cunha.


Aquele era um namoro turbulento. Se Carmen registrava, mas não respondia

aos olhares que a despiam na rua ou às graçolas que ouvia dia e noite,

não se podia dizer o mesmo de seu namorado. Mário Cunha se orgulhava de

seu poder de sedução sobre as mulheres. E não recusava serviço - se

percebesse um indício de flerte, e a costa estivesse limpa, atacava.

Carmen não fora a primeira virgem que ele deflorara e não seria a

última, mas ele não fazia exigências nesse particular - não distinguia

entre as muito jovens ou um pouco mais velhas, louras ou morenas,

solteiras ou casadas, com ou sem óculos. As únicas que não o

interessavam eram as profissionais, nem Mário Cunha precisava delas. E,

para um homem sobre quem não restava a menor dúvida, ele podia ser um

prodígio de vaidade. Ao se arrumar para sair, passava um bom tempo ao

espelho produzindo largas ondas no cabelo, como as de Richard Dix ou

Ronald Colman nos filmes americanos.


Quando um amigo o repreendia por tanto capricho, justificava-se: "É

nessas ondas que elas se afogam..."


Ninguém o pegava desprevenido: estava sempre impecável, do chapéu aos

sapatos, e seu toque final na indumentária costumava ser um cachecol,

mesmo que a noite lá fora estivesse pelos trinta graus.
Durante todo o namoro com Carmen, Mário Cunha dedicou-se a um

considerável estoque de mulheres, manobrando os encontros de modo que a

titular não ficasse sabendo. Nem sempre conseguia - como na vez em que,

ao visitar uma delas, na rua do Catete, ele foi imprudente ao estacionar

a barata defronte à casa da fulana. Passou horas lá dentro e, ao sair,

quem estava sentada dentro do carro, à espera? Carmen - que passara

casualmente pela rua, reconhecera a barata e, sabendo que ali morava uma

mulher que Mário freqüentava, resolveu esperá-lo para tomar satisfações.


As brigas eram muitas, quase todas provocadas por justos ciúmes de

Carmen. Mas, de alguma forma, Mário Cunha sabia que sempre sairia

ganhando e que ela não seria capaz de romper com ele. A própria Carmen

devia achar isso - que as aventuras de Mário eram algo com que teria de

conviver. E, por essa razão, não dispensava um toque de humor nem quando

se irritava. Como nesta dedicatória no verso de uma bela foto de seu

rosto: "Para o meu bestalhão, para que, olhando para essa linda

boquinha, me troque menos pelas outras vacas. Bituca". Mário nunca

abandonou a militância sexual, mas, na onipotência da juventude,

conseguia aplacar a violenta atração que Carmen sentia por ele e ainda

dava brilhantemente conta das outras. O impressionante é que ainda

tivesse forças para remar.


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Em dado momento, Carmen sugeriu que, para maior conforto, deveriam ter

um ninho fixo para os seus encontros. Nesse caso, o normal seria que

Mário Cunha fizesse como os amigos e montasse uma garçonniere - um

pequeno apartamento de solteiro, que ele teria de alugar e, minimamente,

mobiliar. Mas ali entrava outra de suas características: a sovinice. Às

vezes dava presentes a Carmen, como perfumes e lenços, mas nunca jóias -

no máximo, bijuterias. Numa relação custo- benefício, a garçonniere lhe

sairia antieconômica, porque ele não poderia usá-la para aventuras

extracurriculares - estaria sempre sujeito às incertas de Carmen. Além

disso, a existência de um apartamento só para os dois se aproximaria

muito da idéia de um casamento - algo que ele sempre conseguia contornar

quando Carmen tocava no assunto. Então, continuou a ir com ela aonde ia

com todas: aos pequenos hotéis da Glória que alugavam quartos para

casais, de preferência um na rua Santo Amaro, não muito longe da

Beneficência Portuguesa.


Mário, surpreendentemente, não tinha ciúmes de Carmen - ou por confiança

no próprio taco ou, quem sabe, porque ela ainda não fosse Carmen

Miranda. Numa das poucas vezes em que a briga partiu dele, com os dois

dentro do carro, Carmen, olhando-o fixo e sorrindo, deixou-o esbravejar

à vontade. Em meio ao estrilo, foi levantando devagarinho a saia e,

quando esta lhe chegou acima dos joelhos, perguntou, sempre sorrindo:


"Vai continuar brigando?"
Nem ela sabia, mas era Carmen Miranda que já estava a caminho.
As garotas mais românticas sonhavam com que Ramon Novarro descesse da

tela, vestido de Ben- Hur, e as arrebatasse da poltrona com um beijo de

sufocar. As mais ambiciosas, ao contrário, já se viam na própria tela,

com moldura de volutas e cortinas, nos braços de um daqueles deuses

mudos, nem que fosse Lon Chaney ou Buster Keaton. Em 1926, Hollywood

tinha pouco mais de dez anos e já era a grande ilusão. Os estúdios

inventaram o star system, passaram a abastecer gratuitamente as revistas

com centenas de fotos de suas estrelas e, no mundo todo, as mulheres

queriam se parecer com elas. No Rio, desfilavam garçonetes com pestanas

à Joan Crawford, manicures com batom à Gloria Swanson, e até jornalistas

com franjinha à Pola Negri. Entrar para o cinema era uma aspiração geral

e, já que Hollywood parecia inatingível, uma chance no cinema nacional

também servia. Por isso, revistas como Selecta, Para... Todos e a

especializada Cinearte tentavam inventar similares nacionais das

estrelas americanas, para criar uma espécie de star system que

estimulasse o cinema brasileiro.


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E, bem ou mal, este já tinha a sua estrela: a portuguesa Carmen Santos,

de 22 anos, no Brasil desde os doze. Era uma mulher bonita, expedita e

esperta. Suas fotos saíam nas revistas a três por dois, mostrando-a em

cena nos importantes filmes que vivia produzindo, dirigindo e

interpretando. O problema era: onde estavam esses filmes? Por vários

motivos, ninguém conseguia vê-los. Ou não eram completados ou não saíam

do papel. De um deles, se disse que foi rodado sem filme na máquina;

outro "incendiou-se" sem que ninguém lhe deitasse os olhos. Carmen

Santos se considerava vítima de produtores e colegas desonestos. Mas,

com ou sem filmes para mostrar, era uma celebridade. Na sua esteira,

milhares de jovens brasileiras mandavam cartas com fotos para as

revistas, esperando ser "descobertas". Entre elas, Carmen Miranda.
Possivelmente por intermédio de seu ex-patrão Luiz Caruso, Carmen

conheceu um rapaz chamado Marcos, programador dos cinemas de Francisco

Serrador e amigo de Pedro Lima, que, por sua vez, era redator da Selecta

e participava das filmagens da Benedetti Film como assistente de

produção. Marcos apresentou-a a Pedro Lima como uma jovem que "sabia

cantar e tinha vontade de trabalhar no cinema". O jornalista, pelo

visto, aprovou-a, porque a foto de Carmen, sorriso aberto, chapéu de aba

debruada e segurando a barra do vestido, foi publicada na edição de 7 de

julho daquele ano de 1926, ilustrando o artigo "Quem será a rainha do

cinema brasileiro?". O artigo referia-se a um concurso de calouros

cinematográficos promovido pelo Circuito Nacional dos Exibidores. O nome

de Carmen não era mencionado nem na legenda, que, mesmo assim, a tratava

com carinho: "Uma extra de nossa filmagem... E depois disso haverá ainda

quem duvide se podemos ou não ter estrelas?".


Não, nenhuma dúvida. A dúvida é sobre se Carmen chegou a participar como

figurante em tal filmagem. Ninguém viu essa figuração, e o filme em

produção na época do artigo de Pedro Lima, A esposa do solteiro, se

perdeu - só restaram três minutos, nos quais não há sinal de Carmen. Mas

é possível que, passando a freqüentar o "estúdio" - uma vila na rua

Tavares Bastos, nos altos do Catete, onde Paulo Benedetti rodava suas

produções -, ela tivesse sido aproveitada pelo menos numa cena, nem que

fosse de costas, para compor um grupo.


Nos dois ou três anos seguintes, Carmen continuou incansável em suas

tentativas de entrar para o cinema. Se já conhecia Paulo Benedetti e

Pedro Lima, podia dispensar-se de continuar mandando fotos para

"concursos de fotogenia feminina e varonil". Mas um desses concursos a

atraiu: o da companhia americana Fox Films, por intermédio de seu

escritório brasileiro - porque, nele, o prêmio ao rapaz e à moça

vencedores era um contrato para trabalhar em Hollywood.

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Em janeiro de 1927, quando a Fox anunciou sua caçada aos "novos

talentos", chegaram cartas com fotos de concorrentes de todo o Brasil,

entupindo as salas da empresa, na rua da Constituição. Um júri de

figurões nacionais, presidido por um representante do magnata William

Fox, foi encarregado da seleção inicial. A primeira peneirada levou

semanas para se completar, rendendo a cobertura diária da imprensa com o

farto material publicitário produzido pela Fox. As mais lindas

expectativas se frustraram logo nesse estágio, porque o grosso dos

aspirantes já parou por ali mesmo. Entre as que foram reprovadas de

saída pelo júri inicial estavam Carmen e a paulistana Patrícia Galvão,

que em breve se tornaria Pagu, mulher de Oswald de Andrade e militante

comunista. Várias peneiradas depois, restaram três sobreviventes de cada

sexo, que foram submetidos a testes de cinema supervisionados pelo

famoso diretor de fotografia da Fox, Paul Ivano, vindo especialmente de

Hollywood. Ser filmado por Ivano já era um acontecimento, porque ele era

o fotógrafo e amante da atriz russa Alia Nazimova, que contracenara com

Valentino em A dama das camélias em 1921 - e era de retalhos como esses

que se faziam os sonhos.
Os testes foram levados para Hollywood e, dois meses depois,

anunciaram-se os vencedores: a carioca Lia Tora (née Horacia Corrêa

d"Avila), de vinte anos, com alguma experiência em dança clássica e

popular, e o jornalista paulistano Olympio Guilherme, 22 anos, sem

experiência nenhuma. Em agosto, os dois embarcaram festivamente para

Hollywood via Nova York, sob as luzes e as câmeras da Fox e abençoados

pela esperança de milhares de jovens brasileiros: a de que valia a pena

sonhar - Hollywood não era uma utopia.


Enquanto Lia Tora partia para a glória, Carmen via a sua realidade com

desgosto. Até mesmo o pífio cinema nacional parecia inatingível para

ela. E quais eram as alternativas para alguém, como ela, que tinha a

arte no sangue, no coração e no arco da sobrancelha? Do ponto de vista

da época, muito poucas.
O rádio, ainda amador e incipiente, não contava - só havia duas

emissoras, a Rádio Sociedade e a Rádio Clube do Brasil, que transmitiam

em horários alternados (não havia público para as duas ao mesmo tempo).

Como eram amadoras, não podiam sequer convidar oficialmente alguém para

se apresentar. Mas nada as impedia de receber "visitas", daí os

exercícios de piano por senhorinhas da sociedade ou recitais de poesia

pelo Clube das Vitórias-Régias. O grosso da sua programação musical, no

entanto, consistia em tocar discos de ópera e de concertos, como os do

famoso selo vermelho da Victor, todos importados. As rádios, portanto,

não contavam. A indústria de discos nacionais, por sua vez, estava em

expansão, mas era quase monopolizada por uma gravadora, a inglesa Odeon,

representada pela Casa Edison - os outros selos nacionais eram

insignificantes. E, mesmo que houvesse muitos, o predomínio da música

instrumental era absoluto, com espaço apenas para meia dúzia de cantores

(e nenhuma mulher).

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O melhor veículo para uma garota com alguma vocação artística era o

teatro - aliás, o teatro musicado da praça Tiradentes, onde reinavam

Margarida Max, Aracy Cortes, Lia Binatti e Ottilia Amorim. Este, sim,

era uma indústria, que sustentava uma multidão de dramaturgos, coristas,

músicos, técnicos e carpinteiros. Era também do palco que saíam os

maxixes, foxes, valsas, sambas e marchas que o povo cantava durante o

ano. Como espectadora, Carmen assistia a todas as principais revistas.

Voltava para casa cantarolando, "Dondoca, Dondoca/ Anda depressa que eu

belisco essa pernoca", do popular Freitinhas, e imitando as cantoras e

os comediantes. Mas não há registro de que tenha tentado aproximar-se

das grandes companhias, como a Ba-ta-clan, a Tro-lo-ló ou a de Manuel

Pinto, para pedir emprego.
Visto de hoje, no entanto, o acaso não poderia ter escolhido época mais

favorável para Carmen despontar. Em 1927, o cinema sonoro acabara de

surgir em Hollywood. A princípio fanho e desajeitado, mas, dois anos

depois, com os primeiros filmes "falados, cantados e dançados",

provar-se-ia irreversível - e, cedo ou tarde, a novidade chegaria por

aqui. Também em 1927, no Rio, a fábrica Odeon aderiu à gravação

elétrica, lançada dois anos antes nos Estados Unidos e que fazia com que

até os cantores "sem voz" pudessem gravar. A qualidade do som melhoraria

muito, impulsionando a venda de discos e revelando o primeiro cantor

nacional de grande público: Francisco Alves. Isso atrairia outras

gravadoras para o Brasil, como a também inglesa Parlophon, subsidiária

da Odeon, a alemã Brunswick e a americana Victor, dispostas a revelar

seus próprios cartazes. A radiofonia também ganharia em potência com a

instalação de novos transmissores. Com o surgimento de mais estações, o

rádio perderia aos poucos a mania de só tocar discos de música clássica

e começaria a se abrir para a música popular. Finalmente, a partir de

1930, o samba seria entronizado como a música brasileira por excelência

e, junto com as marchinhas de Carnaval, produziria uma extraordinária

geração de compositores, letristas e cantores. E também de cantoras.
Os antigos patrões não gostavam que Carmen cantasse ao fabricar chapéus

ou vender gravatas. Mas ninguém a impedia de fazer isso na pensão de sua

mãe, enquanto ajudava a servir à mesa ou a preparar marmitas para os

clientes da vizinhança (e que ela própria ia entregar, cantando pelo

caminho). Os comensais, por sinal, gostavam muito. Um deles parecia

admirá-la mais que todos: o baiano Anibal Duarte de Oliveira, de

quarenta anos, filho de usineiros e políticos também baianos. Anibal era

boêmio, pé-de-valsa, aprendiz de violão, cantor de banheiro e, de

profissão, vagamente jornalista. Como sua carga diária de trabalho não

chegasse a extenuá-lo, podia dedicar-se a organizar festivais (shows)

beneficentes de música, bale e poesia, com amadores recrutados na

sociedade e o enxerto de um ou outro profissional. Para um show a

realizar-se em janeiro de 1929 no Instituto Nacional de Música, na rua

do Passeio, em benefício da Policlínica de Botafogo, pensou

imediatamente em Carmen. Mas o convite dependeria da aprovação do homem

que ele chamara para dirigir a parte musical do espetáculo: seu

conterrâneo, o violonista e compositor Josué de Barros. Anibal falou-lhe

da garota, mas todo o seu entusiasmo não foi suficiente - Josué insistiu

em que precisava ouvi-la.
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Cerca de um mês antes do festival, em dezembro de 1928, Anibal levou

Carmen a Josué. O encontro foi marcado para as oito da noite, debaixo do

relógio da Galeria Cruzeiro, na avenida Rio Branco. Como Josué contaria

depois, Carmen "chegou tímida, vestida à Clara Bow" - vestidinho curto e

leve, chapéu cloche, sobrancelhas a lápis, um pega-rapaz na testa e

outro em cada orelha. A mistura de timidez com Clara Bow (famosa pelos

namoros na tela e fora dela) parecia uma contradição em termos, mas o

instinto de Josué estava certo. Clara Bow era a ""it" girl" oficial,

eleita em Hollywood pela criadora da expressão, a escritora Elinor Glyn.

Desde então, as revistas não falavam em outra coisa, e ter "it"

tornara-se uma questão de vida ou morte para todas as mulheres do mundo.


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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