Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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O novo filme, Aconteceu em Havana, a ser rodado em julho e agosto, já

estava exigindo todas as

preliminares indispensáveis aos musicais - e a nota dava a entender que

havia um motivo sério

para Carmen não estar trabalhando. Supondo que só alguns de seus leitores

e ouvintes fossem

atilados e maldosos, mesmo assim seriam milhares, talvez milhões, a

decifrar a informação:

Carmen Miranda fizera um aborto. O truque consistia em escrever de tal

forma que desse uma

pista ao leitor sobre do que se tratava, fazendo com que a personagem da

nota percebesse que o

colunista sabia - ao mesmo tempo que deixava uma saída na hipótese de

alguém resolver

processar. Nesse caso, Fidler sempre poderia alegar que, segundo sua

fonte, a ida ao médico fora

para uma extração de amígdalas. Mas, nos anos 40, nenhum artista seria

louco de processar um

jornalista.
O restante da informação, que Fidler também devia ter, continuaria a ser

privilégio dos íntimos. O

pai da criança era Aloysio de Oliveira. As alternativas para Carmen eram

óbvias. Ou se casava

rapidamente com Aloysio e inventava uma (fácil) explicação para quando a

criança nascesse,

menos de nove meses

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após o casamento - ou assumia sozinha esse filho e encerrava de vez a

carreira, porque

Hollywood nunca aceitaria uma mãe solteira em 1941. Se uma atriz tivesse

um filho fora do

casamento, seria melhor que se volatizasse - não lhe bastaria mudar de

nome, de rosto ou de

país. A carreira de Gloria Swanson, por exemplo, fora liquidada em 1931

por ela ter fugido

grávida para a Europa com um playboy irlandês, abandonando seu marido, o

marquês de La

Falaise. Joe Schenck, então na MGM, cancelou seu contrato, comprou suas

ações na United

Artists e expulsou-a das duas companhias. Depois disso, Swanson só

voltaria a filmar

esporadicamente. Bem, o mesmo Joe Schenck era agora o patrão de Carmen na

Fox.
Além das hipóteses casar ou sumir, só lhe restava o aborto. A clínica

(clandestina, claro) teria sido

indicada a Carmen por uma colega da Fox ou por um médico de sua

confiança. Fidler descobrira

a história porque tinha um contato junto a essa e outras clínicas - que o

informavam sobre os

grandes nomes que passavam por elas.
No futuro, ao admitir que Carmen fizera um aborto dele, Aloysio diria que

nunca soube disso na

época em que aconteceu - e que só ficara sabendo anos depois, por

intermédio de Aurora. Como

outras declarações de Aloysio, essa é para ser recebida com cautela - e

não apenas porque,

numa entrevista gravada, Aurora riu ao ouvir tal declaração. Mas

suponhamos que Aloysio não

soubesse que Carmen estava grávida dele. Isso transferia automaticamente

para Carmen toda a

responsabilidade pelo aborto. Significava que, tendo de escolher entre o

filho e a carreira, ela não

hesitara: preferira a carreira - sem dar a ele, Aloysio, a menor chance

de opinar.


Essa atitude não se parecia com Carmen. Era notória sua paixão pelos

filhos das amigas - no

Rio, era madrinha sabe-se lá de quantas crianças. (Às vezes, pedia uma

delas emprestada à mãe e

só a devolvia horas depois, toda babada de beijos.) Já Aloysio nunca

seria um pai dos mais

extremados (ficaria muitos anos sem ver uma filha que teria com uma

americana). Diante do

histórico de um e de outro, é improvável que Carmen não tivesse pensado

em legitimar a criança

casando-se com Aloysio - e, se ela ainda contemplava a idéia daquele

casamento, não podia

haver ocasião melhor. A última e pior alternativa era o aborto - que

Carmen, católica como era,

via como uma afronta à sua religião.
Mas, por tudo que se sabe, o casamento não estava nos planos de Aloysio.

Ou, pelo menos, o

casamento com Carmen. Aos 26 anos em 1941, ele continuava seis anos mais

novo que ela, e essa

diferença, com o tempo, só tenderia a aumentar. O grande problema para

Aloysio, no entanto, era

a confusão quanto a seu cargo na firma naquele momento: era amante e, ao

mesmo tempo,

empregado de Carmen, com múltiplas atribuições - artísticas,

administrativas e práticas. Era,

inclusive, pago por ela - tinha um salário à parte, além do que recebia

pelo Bando da Lua. Um

casamento oficializaria o nome que já circulava aos cochichos para

defini-lo, e que ele detestava:

Mister Miranda.
305
É verdade que ele já era tudo isso, e mais ainda, em maio de 1939, quando

Carmen e o Bando da

Lua estavam recém-chegados a Nova York. Mas, então, a situação era

diferente. Naquela época,

eles estavam juntos na grande aventura, e Carmen dependia de Aloysio para

tudo. Era ele quem

falava por ela com os americanos, fosse para discutir negócios com

Shubert ou para comprar um

hambúrguer na carrocinha. Era ele, Aloysio, quem analisava suas propostas

de trabalho, lia os

contratos, escrevia suas cartas em inglês e ia conseguir a Benzedrine que

os manteria, a ela e a

ele, em condições de dar mais um show quando era mais intenso o cansaço -

outras vezes, era

uma piscadela de cumplicidade que lhes permitia continuar de pé. Os

americanos o chamavam de

Louis, e ela também adotou o tratamento. Passavam juntos as 24 horas do

dia - de vez em

quando, aplicavam um drible na turma (inclusive no Bando da Lua) e iam

fazer amor onde desse,

como se fosse uma travessura. Aos olhos de Carmen, Aloysio tinha três

metros de altura e

competia com os arranha-céus.
Mas, dois anos depois, em Hollywood, as coisas haviam mudado. Carmen

voltara a ser a mulher

que ele conhecera no Rio: segura, confiante, que falava grosso com

qualquer um. Seus contratos

eram agora discutidos entre empresas, de potência para potência. Em caso

de dúvida, estava

cercada de advogados poderosos, homens pagos para aconselhá-la. E já

falava inglês tão bem

quanto ele. E quanto ele mediria agora aos olhos dela?
Amante era também a palavra correta. Carmen e Aloysio não se podiam

chamar de namorados -

não rolavam na areia e caíam juntos nas águas de Santa Monica nem ficavam

de mãos dadas nos

concertos do Hollywood Bowl. Sua relação era "secreta", como se tivesse

algo de errado - além

de ostensivamente anti-romântica. E, para todos os efeitos, nas

entrevistas à imprensa americana,

Carmen continuava a sustentar a fantasia de um "noivo brasileiro", na

figura do "advogado" alto,

moreno e bonitão, às vezes chamado "Carlos", eternamente à sua espera no

Rio.
Essa descrição era quase um ato falho. Carmen estaria se referindo a

Carlos Alberto da Rocha

Faria? Ele era advogado, alto, moreno, bonitão e, por acaso, se chamava

Carlos. E era também,

segundo Aurora e Cecília, o grande amor de Carmen. Ou fora - até chegar

do Rio a notícia de

que Carlos Alberto se casara com uma francesa chamada Josephine Marie,

recém-chegada ao

Brasil (tinha de ser uma francesa), e que teriam ido morar numa bela casa

em Santa Teresa.
A notícia inundou Carmen de um compreensível chagrin - Carlos Alberto,

casado! No mesmo

instante, esqueceu-se de que fora ela que o largara no Rio ao ir para os

Estados Unidos - e que,

mesmo antes de embarcar, já namorava Aloysio. Em sua interpretação

distorcida e injusta para

consigo mesma, era mais uma vez a filha do barbeiro que não estava "à

altura" de se casar com o

príncipe. E tudo que a vida vinha lhe dando na América - aplausos,

dinheiro, prestígio - não

chegava para apagar aquela nódoa. Carmen não se tocava

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para o fato de que despertava a paixão de milhares e que, se realmente

quisesse, não lhe faltariam

bons partidos.


Talvez por isso, no confronto com Aloysio sobre o que fazer com aquela

gravidez, ela tenha

passado por cima de seus sonhos e convicções e, como sempre, tomado a

decisão que menos a

beneficiava. Fez o aborto e não se casou com Aloysio.
O rapaz mais bonito de Hollywood? Carmen nem pestanejou:
"John Payne." E, referindo-se à mulher dele, acrescentou, meio tom

abaixo: "Anne Shirley soube

escolher".
Bem, ela também soubera. O problema era que Anne Shirley o escolhera

primeiro. Isso não

impedira um caso vulcânico entre Carmen e John Payne durante as filmagens

de Aconteceu em

Havana, embora tivesse influência no seu desfecho. Quando a resposta de

Carmen saiu na Noite

Ilustrada, em 16 de setembro de 1941, o affaire já estava definido.
Carmen e Payne se conheceram na Fox. Os dois tinham chegado ao estúdio

quase ao mesmo

tempo, no ano anterior, mas o romance só começou quando foram filmar

juntos. Payne tinha 29

anos, 1,92 metro, era atlético, educado e tímido. Os homens podiam achá-

lo tão apático e

sensaborão na vida real quanto ele parecia na tela, mas as mulheres

discordavam - Carmen não

era a única a considerá-lo altamente apetecível. A Fox queria fazer dele

um novo Cary Grant e,

nesse sentido, Payne tinha suas virtudes: poucos em Hollywood vestiam um

terno com tanta

classe e fotografavam tão bem, de pé, com as mãos nos bolsos. Havia nele

algo que denunciava o

rapaz fino - nitidamente, a vida entre patos com trufas e cascatas de

camarão não lhe era

estranha.
Payne era de extração rica e fora criado para, um dia, assumir os

negócios da família. Seu pai era

dono de uma vasta quantidade de terras na Virgínia. Sua mãe tinha sido

cantora do Metropolitan

de Nova York, ainda que em papéis menores. O velho morrera em 1929, mas,

quando abriram o

testamento, descobriram que o filho só poderia suceder-lhe aos 35 anos.

Tudo bem - exceto que,

naquele ano, John ainda estava com dezoito. Ficou tão desiludido que

radicalizou: saiu de casa e

trocou sua boa vida nos Hamptons pela barrapesada de Queens e do Bronx.

Foi ser lutador de

boxe, empregado de borracharia, telefonista de bookmaker, animador de

mafuá e, finalmente, ator

de teatro, contratado por - você adivinhou - Lee Shubert. Sempre em

pequenos papéis, John

apareceu em algumas peças na Broadway. Numa dessas, em 1936, foi

"descoberto" por Samuel

Goldwyn e levado para Hollywood. Depois de vários filmes menores, assinou

com a Fox em

1940. Zanuck fez fé em sua estampa e o escalou com Alice Faye e Betty

Grable em A vida é uma

canção. Um ano depois, Aconteceu em Havana já seria seu sexto filme no

estúdio, o primeiro em

Technicolor e o primeiro com Carmen.
307
A mulher de Payne, Anne Shirley, antiga atriz infantil do cinema mudo,

estava vivendo um drama

típico de Hollywood: a adolescência destruíra sua carreira. Quando se

casara com John, em 1937,

ela tinha dezenove anos e lutava para conseguir bons papéis juvenis. Fez

a filha de Barbara

Stanwyck no lacrimogêneo Stella Dálias e foi indicada para o Oscar. Mas

não ganhou, e sua

carreira parou de novo. Em compensação, Payne, que até então nunca

provocara um suspiro

numa colegial, mudou-se para a Fox e se consagrou como galã. Seu

casamento com Anne Shirley

entrou em crise. Foi quando ele e Carmen se aproximaram - e, durante dois

meses, viveram uma

história que parecia redimi-los de suas tristezas e frustrações recentes.
Carmen estava aborrecida pelo casamento de Carlos Alberto da Rocha Faria,

ainda não digerido,

e pelo episódio da gravidez, conhecida ou não por Aloysio, mas que

redundara em aborto. Mais

uma vez, tudo leva a crer que Aloysio soubesse da gravidez e, mesmo

assim, se negara a casar

com Carmen - e essa certeza tem a ver com o romance entre Carmen e John

Payne.
Carmen não era uma mulher que se atirasse a um homem apenas por seus

braços e tórax salientes

(embora, para ela, isso certamente contasse). Carmen era romântica e

démodée, e sua frase para

Zanuck, repetida nas duas ou três vezes em que ele a encurralou em sua

sala e tentou induzi-la a

fazer sexo oral nele, ficara famosa no estúdio:


"Mas, senhor Zanuck, eu não estou apaixonada pelo senhor!"
Se Carmen chegou a apaixonar-se por John Payne, só se fora assim, de

estalo. Tudo indica que

ela tenha sentido uma forte atração por ele e, nesse caso, achado que

havia boas razões para ir em

frente.
Carmen não escondia de Aloysio que ela e Payne estavam saindo juntos do

estúdio - às vezes,

na garupa da motocicleta do ator, e abraçada à sua cintura, para uma casa

de praia que ele tinha

em Santa Monica. (A Fox, com razão, não gostava dessas viagens de moto.)

Ou que estavam

passando muito tempo trancados no camarim de um ou do outro. Ou que

flertavam sem parar

durante a filmagem. Tudo isso tem um doce aroma de vingança feminina. Se

a intenção foi essa,

Carmen conseguiu - porque Aloysio ficou transtornado (e sem poder para

retaliar). Não era

apenas um chifre público que estava tendo de absorver, mas também o risco

de, na possibilidade

de o caso entre Carmen e Payne evoluir, ele perder seus privilégios.
Carmen só não contava com uma coisa: que John Payne, vencendo a timidez,

se dissesse

apaixonado por ela e começasse a falar em divorciar-se de Anne Shirley.

Isso era exatamente o

que ela não estava pedindo, nem permitiria que acontecesse. Todos sabiam

que Payne estava

com problemas no casamento, mas ela não tinha nada com isso - e não havia

possibilidade de

alguém desfazer um casamento por causa dela.
Em pouco tempo, Carmen se tornara muito popular na comunidade católica de

Los Angeles,

inclusive aos olhos do arcebispo, o cardeal John J. Cantwell.

308
Mandava todas as flores que recebia para as igrejas pobres da cidade, com

instruções para que

fossem colocadas diante da imagem de santa Teresa. Apenas por esse

catolicismo militante,

Carmen já seria contra o divórcio. Além disso, bastara sua observação dos

costumes nos Estados

Unidos para convencer-se de que, com toda a sua prodigiosa capacidade

para inventar coisas

como enceradeiras elétricas ou torradeiras automáticas, o povo americano

era emocionalmente

imaturo. Aquele era o país em que um homem propunha casamento a uma

mulher apenas para ir

para a cama com ela - daí tantos casamentos acabarem em divórcio. Na

visão de Carmen, por

que não ir direto para a cama e economizar o arroz? O que se passava na

cama era de

responsabilidade somente do homem e da mulher. Mas, no altar, havia uma

terceira entidade

envolvida, imaterial, incorpórea, representada pelo padre ou pelo juiz.

Ela jamais provocaria o

divórcio de um casal, assim como, quando se casasse, também seria para

sempre. Payne ouviu

essa explicação de Carmen meio sem entender. Mas teve de aceitar.


A filmagem de Aconteceu em Havana terminou em fins de agosto, e o namoro

entre eles também,

sem brigas ou ressentimentos. Carmen e o Bando da Lua tinham de ir para

Nova York, para

cumprir o contrato com Shubert e fazer Crazy house no teatro. Mas

prometiam estar de volta a

Hollywood dali a um ano.
E, da maneira como se deram as coisas, John Payne e Arme Shirley

continuaram casados por

inércia. Até que, certa noite, em 1943, jantando no Romanoff"s, Anne

anunciou tranqüilamente:


"Hoje saí para procurar uma casa. Estou me separando de você, John."
O garfo que John estava levando à boca, transportando uma batata frita,

nunca chegou ao destino.

Os dois se separaram. Anne começou a sair com Robert Stack, Edmond

O"Brien e outros jovens

atores do momento. John, refeito do choque, foi visto com Jane Russell,

já mamariamente famosa

por O proscrito (The outlaw), embora o filme ainda não tivesse sido

lançado, e acabou se

casando com Gloria De Haven, que era um chuchuzinho e, no futuro, o

chifaria com Dean Martin.


Em Aconteceu em Havana, John Payne fazia par romântico com Alice Faye;

Carmen, com o

cubano César Romero. Curiosamente - ou não -, havia um empate de beijos

em Carmen na

história: dois para cada um. Romero só rodaria mais um filme com Carmen,

Minha secretária

brasileira, mas a idéia de que eles formavam um par ideal fez com que

muitos acreditassem que

isso acontecia também fora da tela.
E, pensando bem, por que não aconteceria? Em 1941 Romero tinha 34 anos,

1,92 metro (como Payne) e fartas ondas no cabelo, amansadas com

Brylcreem. Era muito vaidoso:

por estatísticas contemporâneas, havia em seu guarda-roupa quinhentos

ternos, 190 paletós

esporte e trinta smokings. O rosto bronzeado


309
contrastava com a alvura dos summer jackets, e ele era um consumado pé-

de-valsa. Todas essas

eram qualidades que Carmen admirava em um homem.
Em 1934, quando Romero entrara para o cinema, os estúdios o viram como o

Latin lover que

estavam pedindo a Deus - o esperado sucessor de Valentino, tanto para os

papéis ultra-

românticos como para os de vilões irresistíveis. Além disso, ele era um

"latino de Manhattan":

cubano autêntico, neto (por parte de mãe) do patriota José Marti, mas

nascido em Nova York,

falando perfeito inglês. Em 1935, a Paramount apostou alto: colocou-o ao

lado de Marlene

Dietrich em Mulher satânica (The devil is a womari), baseado na novela de

Pierre Louys,

Lafemme et lê pantin, com direção de Josef von Sternberg - e até lhe

inventou um romance com

Marlene. E sabe o que aconteceu? Nada. Faltava-lhe um certo flair, uma

flama, uma chispa que

convencesse a platéia de que ele podia incendiar uma mulher.
Seis anos depois, no lançamento de Aconteceu em Havana, Carmen teve a

duvidosa honra de ser

a heroína de uma "Tijuana bible" (no Brasil, "catecismo"), um daqueles

gibis pornográficos que

circulavam clandestinamente e em que os personagens costumavam ser os

astros do cinema. Na

historinha, toscamente desenhada, um ladrão esfomeado entra pela janela

de Carmen para se

alimentar com as frutas de seu turbante. Carmen, que se masturbava com

uma banana, aproveita a

oportunidade e faz sexo com o ladrão em todas as posições. No último

quadrinho, o bandido foge

correndo porque ela lhe esfregou pimenta no pênis. Mas o diálogo

revelador é quando Carmen,

no auge das atividades com o ladrão, exclama:
"É muito melhor do que com o César Romero!"
Tinha de ser - porque ele não era do ramo. Romero era homossexual - um

dos mais tranqüilos e

felizes de Hollywood. Na tela, seu homossexualismo só era visível ao olho

treinado, mas os

produtores temiam que, quando descobrissem, as fãs dele se sentissem

traídas. Assim, depois do

fiasco de Mulher satânica, esqueceram a história do Latin lover e o

limitaram a papéis de

bandidos cômicos ou de amigo do mocinho. O público, ironicamente,

continuou a pensar em

Romero como um garanhão: sabia que seu apelido era "Butch" (típico de

machões) e, todo dia, ao

abrir os jornais, via-o de braço com alguma estrela nas festas e estréias

de Hollywood. Nunca

suspeitou de que a razão disso era a de que, justamente por ser gay e

vistoso como companhia,

Romero era muito requisitado para sair com elas. Uma que adorava dançar e

o tinha como par

constante era Joan Crawford. Com isso, Romero pôde evitar aquela saída

adotada por todos os

homossexuais de Hollywood: casar-se com alguma mulher (quase sempre a

secretária) que

topasse interpretar a "esposa".
E quem diria que o apelido de "Butch" lhe fora dado por Tyrone Power, com

quem César

mantinha um caso - este, sim, um casamento - de anos?

310
As últimas cenas de Aconteceu em Havana tinham acabado de ser filmadas e

Carmen já estava no

camarim. Para relaxar, desabotoara a calcinha - uma espécie de cinta-

fralda, presa por

colchetes, que a incomodava - e se dedicava a zerar o QI olhando para o

teto. Foi quando

bateram à porta. Era Frank Powolny, o fotógrafo de stills do estúdio,

convocando-a em regime de

urgência para as últimas poses de dança com César Romero, a fim de

completar o material de

divulgação. Distraída ou despreocupada, Carmen voltou para o palco sem se

recompor. Romero

tomou-a pela cintura e levantou-a com um rodopio. A saia de lamê dourado

criada por Gwen

Wakeling, estilista do filme, enfunou - e a câmera de Powolny registrou

tudo em contre-plongée.

Inclusive o que não devia.


Terminadas as fotos, Carmen suspeitou que algo do gênero pudesse ter

acontecido. Tanto que

perguntou a Gilberto Souto, presente à sessão, se ele percebera alguma

coisa errada. Gilberto

disse que não, e Carmen tranquilizou-se.
O filme foi revelado na própria Fox. Os técnicos do laboratório

perceberam a gafe assim que ela

apareceu no revelador - uma das fotos captara a vagina de Carmen - e

podem ter comentado a

respeito, mas não havia a menor dúvida sobre o que deviam fazer: destruir

o negativo, sem alarde

e sem protela. A medida era uma ordem superior, válida em toda Hollywood,

e se aplicava a

qualquer foto que mostrasse um astro em situação desprimorosa, o que era

comum acontecer - e

não precisava referir-se às partes pudendas.
Mas, no caso de Carmen, a tentação deve ter sido demais para um dos

laboratoristas. Pelo menos

uma cópia foi contrabandeada para fora do estúdio - " e desta nasceram as

outras. Mesmo assim,

isso aconteceu com grande cautela, porque levou quase um ano para que as

primeiras

reproduções começassem a aparecer no mercado clandestino: em postos de

gasolina, oficinas de

carros, bares de estrada e outras galerias de arte mundanas. O FBI,

acionado pela Fox, recolheu

todas as que pôde, além de localizar um laboratório clandestino em Los

Angeles e abortar o

derrame de centenas de cópias. Uma ou outra tentativa de chantagem,

ameaçando espalhar as


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2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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