Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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real, Carmen

realmente cantara ano após ano em Buenos Aires até pouco antes. Mas

porque não havia o menor

eco de um tango na trilha sonora, nem sombra de um bandoneon, nem

vestígio das chiquérrimas

orquestras portenhas. Em vez disso, a trilha do filme era composta de

rumbas, congas, castanholas,

maracas, mariachis e trios de poncho e sombreiro, elementos tão estranhos

à música de Buenos

Aires quanto à de Nova York. Podia não ser caso para um corte de relações

diplomáticas - mas

quase.
No fim do ano, quando a primeira cópia do filme chegasse a Buenos Aires

para ser apreciada pela

censura local, a indignação seria tanta que os protestos sacudiriam os

lustres da embaixada

americana em Palermo e as da sala de Zanuck em Hollywood. A Junta de

Censura da Argentina

proibiria a exibição de
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Serenata tropical no país e o governo do presidente Ramón Castillo

ensaiaria um protesto oficial.


Pouco antes de Zanuck saber da fúria argentina contra seu filme, o

Departamento de Cinema do

Birô distribuíra um documento alertando Hollywood para a conveniência de

aproximação com o

mercado sul-americano devido ao estrangulamento do mercado europeu, em

todos os setores,

desde o começo da guerra. A Alemanha e os países que ela ocupara (entre

os quais a França) não

aceitavam mais os produtos americanos; e, com as restrições ao tráfico

internacional aéreo e

marítimo, ficaria cada vez mais difícil exportar para os países livres.

Isso incluiria os filmes. Era

preciso abrir novas frentes, como outros setores industriais estavam

fazendo. A solução para

Hollywood seria a realização de filmes com temáticas e cenários

"latinos", tomando o cuidado de

adular os países que servissem de palco para as histórias, enfatizando

seus pontos positivos e

ignorando qualquer aspecto polêmico ou - na opinião dos americanos -

vexaminoso de seus

costumes.
A prova de que Serenata tropical foi feito antes que essa política se

tornasse lei é a de que poucos

filmes, mesmo sem querer, podiam ser tão insultuosos para o país onde se

passa a história.

Nitidamente, Zanuck estava preocupado apenas com seu mercado doméstico e

pouco ligando

para as suscetibilidades dos argentinos, cujo mercado, até então, pesava

pouco na balança. A não

ser que, numa monstruosa demonstração de insensibilidade, ele achasse que

os argentinos não

iriam se ofender. Ao saber dos protestos e da decisão da censura

argentina, o Birô teve de

convencer Zanuck a aderir à "boa vizinhança" e, para isso, precisou

repassar-lhe 40 mil dólares

para alterar tudo que parecesse degradante no filme. Isso implicou

refazer diálogos, cortar

material "desaconselhável", aproveitar cenas filmadas em Buenos Aires e

enxertá-las liberalmente

na história. Com o tempo que se levou nesse trabalho, e mais o que a

censura argentina precisou

para reexaminar o filme, este só foi aprovado e lançado em Buenos Aires

um ano depois, em fins

de 1941.
Mas com uma hilariante característica: as alterações só foram feitas na

versão para a Argentina.

Os outros países continuaram assistindo ao filme original e rindo do

mesmo jeito. (Na cópia

brasileira, a única alteração foi o acréscimo de um letreiro antes do

filme, anunciando que a Fox

sabia que a Argentina era um "grande país" e que as "distorções" a que se

iriam assistir tinham sido

"exigidas pela comédia".)
Nenhum desses equívocos poderia acontecer no filme seguinte de Carmen na

Fox: Uma noite no

Rio - esta, sim, a primeira produção da Política da Boa Vizinhança. E a

primeira a se preocupar

em não cometer os tradicionais erros dos filmes americanos, como pôr

brasileiros para falar

espanhol, chamar Buenos Aires de capital do Rio de Janeiro, ou colocar

índios nus dentro de um

ônibus na avenida Rio Branco. Mas esse último ponto era discutível. O

maestro Leopold

Stokowski acabara de dizer à revista Time que, em sua recente temporada

no Rio,


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vira exatamente isso - índios nus dentro de um ônibus na

avenida Rio Branco. E

nem era Carnaval.
Em outubro, encerrado o compromisso no Chez Paree, Carmen e sua turma

tomaram o trem para

Hollywood. De Chicago a Los Angeles viajava-se pelo Super-Chief-39 horas

de porta a porta,

mas, no caso das estrelas de cinema, o ponto final ficava um pouco antes,

em Pasadena, a cidade

dos ricos, esnobes e metidos a tradicionais, a trinta quilômetros dos

estúdios. O ritual consistia em

saltar do trem ali, alegrar o dia dos fotógrafos e cinegrafistas, dar

entrevistas e seguir em carro

aberto, ao sol da Califórnia, para a cidade do cinema. Os estúdios não

abriam mão disso. Um dos

motivos era evitar que o astro desembarcasse na estação de Santa Fé, em

Los Angeles, tida como

horrorosa; outro era criar um clima de grande aparato, com a estrela

sendo recebida em Pasadena

pela imprensa e por gente importante; e, depois, o cortejo pela estrada,

como se fosse o circo

chegando à cidade. O que, de certa forma, era.
Como a realidade nem sempre obedece aos scripts, choveu na chegada de

Carmen, aguando um

pouco as festividades. Além disso, ela frustrou os publicistas da Fox,

que esperavam vê-la

desembarcar envolta em peles, fumando de piteira e com um staff de pelo

menos meia dúzia -

valete, secretário, cabeleireira, pedicure, namorado e cachorro poodle -,

como as divas

européias que Hollywood importara ultimamente. Em vez disso, Carmen

chegou com a mãe, o

irmão e uma cozinheira, escoltados por Zaccarias Yaconelli. (O Bando da

Lua era uma cota à

parte.) Esperavam encontrar também uma mulher temperamental, que se

zangava e saía

esbravejando por qualquer coisa (afinal, as "latinas" não eram assim?),

e, em lugar disso,

depararam-se com o que consideraram um quindim, um merengue, um doce-de-

coco humano.


Para recebê-la, lá estavam o cônsul brasileiro em Los Angeles, Manuel

Bento Casado, já prestes a

passar o posto, e sua mulher; a imprensa hollywoodiana; o pessoal do

estúdio; os brasileiros

residentes na região; e dois jornalistas brasileiros que a acompanhariam

pelos anos seguintes:

Gilberto Souto, correspondente de Cmearte, e Dante Orgolini, idem, só que

de A Noite, A Noite

Ilustrada e Carioca. O minúsculo, delicado e leal Gilberto estava em

Hollywood desde 1931, e a

primeira coisa que o encantou em Carmen foram os dentes: "Os mais belos

que já vi na boca de

uma mulher", escreveria depois. ("E sempre deliciosamente perfumada",

acrescentaria.) Seu

colega Orgolini fora para os Estados Unidos na mesma época e começara

trabalhando em

decoração de lojas e hotéis; depois, ganharia muito dinheiro ao

introduzir a peteca em

Hollywood e fundar a Peteca Manufacturing Co. Entre as duas funções, de

decorador de vitrines

e de tubarão das petecas, fora jornalista de cinema. Tanto Gilberto Souto

como Dante Orgolini

sabiam a diferença entre o sucesso de verdade e o sucesso de mentira em

Hollywood.

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De Pasadena a Los Angeles, a caravana de Carmen rodou por quase uma hora

(de capota

fechada) entre os totens da riqueza local, que se alternavam à beira da

estrada: os poços e mais

poços de petróleo e os milhares de pés de laranja. (Dali a um ano, o novo

cônsul brasileiro, o

poeta Raul Bopp, diria a Carmen que a primeira laranja a aportar na

Califórnia, em 1873, tinha

vindo do mesmo lugar que inspirara sua fantasia: a Bahia. Ela não

acreditou.)


Carmen, dona Maria e Odila foram instaladas na cobertura do La Belle

Tour, um prédio

residencial na esquina de Franklin Avenue com Vista dei Mar - um dos

luxuosos châteaux

construídos nos anos 20 para as estrelas em trânsito. O Bando da Lua

ficou no mesmo prédio, mas

num apartamento menor e menos imponente, em outro andar. Ambos tinham

sido providenciados

por Yaconelli. Para manter um mínimo de legalidade, a gerência proibia

que se fizesse barulho

depois de dez horas da noite. Mas, com o trânsito de apartamento para

apartamento entre Carmen

e os seis rapazes do Bando da Lua, além de Gilberto, Orgolini, Mocotó e

Yaconelli, os

elevadores do La Belle Tour ficaram cheios de gente falando e cantando

alto, e, a partir da

primeira noite, o pandeiro comeu solto nos apartamentos até altas horas.

Quem também mantinha

um apartamento no La Belle Tour, embora raramente aparecesse por lá, era

John Barrymore, ou o

que restava dele fora das garrafas.
Na manhã seguinte, uma limusine contratada pelo estúdio, já com Yaconelli

a bordo, apanhou

Carmen e a levou pela primeira vez ao estúdio da Fox, em Pico Boulevard,

entre Beverly Hills e

Santa Monica - para ser apresentada a Darryl F. Zanuck. Yaconelli contou

a Carmen que, certa

vez, estava numa roda na Fox quando alguém perguntou o que significava o

"F" de Darryl F.

Zanuck. Ninguém soube dizer Francis, que era a resposta certa. Vários

riram, mas só Henry Fonda

respondeu:
""F" de "Fodam-se" [Fuck-it-att]."
Na limusine, a caminho do estúdio, Carmen não queria acreditar que os

contratados da Fox

tivessem Zanuck nessa conta. Na sua fantasia, ele devia ser como Shubert

- uma espécie de pai

de plantão, protetor e compreensivo, sempre à disposição dos

funcionários. Mas não era

absolutamente o caso e, ao chegarem à Fox, bastou a Carmen ser levada à

sala de Zanuck e medi-

la com os olhos para se convencer disso. Era quase do tamanho de um campo

de pólo - cavalos

poderiam disparar por ela. Zanuck jogava pólo no Uplifters Club (diziam

que bem) e não se

separava do taco nem quando em reunião com os banqueiros. Era um dos

instrumentos de sua

autoridade. Seu personal trainer, o italiano Fidel La Barba, ex-campeão

mundial dos pesos-

mosca, era encarregado de lutar boxe, correr e pular corda com ele,

massageá-lo e mantê-lo em

forma. Um dos macetes para isso era atirar-lhe azeitonas durante as

reuniões, para Zanuck rebater

com o taco de pólo. Parece ridículo, mas não se esqueça: isso era

Hollywood.


Zanuck era baixinho - 1,54 metro -, e o gigantismo do recinto o tornava

ainda mais nanico.


270
Aos 38 anos, tinha cabelo e bigode prematuramente

ralos, carinha de

roedor, maus dentes, voz fina e fanhosa. Enfim, só lhe restava o poder -

que ele exercia com uma

convicção e um prazer inigualáveis. Mas Carmen não se intimidou. Depois

de uma entrada que

Yaconelli definiria como "garboesca", ela se viu frente a frente com o

homem. Ao constatar que,

do alto de suas plataformas, seus olhos ficavam quase um palmo acima dos

dele, Carmen deixou

escapar:
"Vocêêê é que é o Zanuck?"
Por sorte, disse-o em português, e Yaconelli, ao traduzir, corrigiu-lhe

no ato a inflexão - para

"Você é o Zanuuuckl" - antes que o chefe percebesse que estava sendo

chamado de tampinha.


Se Zanuck, por sua vez, teve uma surpresa com a pouca altura de Carmen,

não comentou nada. Os

produtores estavam habituados às mulheres que, na tela, pareciam ter três

metros de altura, mas

que, ao vivo, regulavam com a altura de Carmen: Mary Pickford, Gloria

Swanson, Lupe Velez,

Carole Lombard, a falecida Jean Harlow, Judy Garland e até a nova

sensação da cidade, Lana

Turner - todas tinham abaixo de 1,55 metro.
Como já chegara consagrada a Hollywood, Carmen nunca precisou submeter-se

ao "teste do

sofá" - o sexo oral que as moças tinham de praticar em qualquer pessoa

que detivesse um mínimo

de poder nos estúdios, se quisessem ser escaladas para uma simples ponta.

Os chefões, como

Zanuck, exerciam uma espécie de droit de seigneur nesse departamento -

era esperado que, ao

entrar na sala de um deles, a garota não se chocasse quando ele já fosse

desabotoando a

braguilha antes de dizer-lhe boa tarde. (Uma piada vigente em Hollywood

dizia que se

considerava pudica uma moça que usasse a palavra "não" mais de uma vez em

seu primeiro ano

de trabalho no cinema.) Zanuck, famoso também pelo apetite sexual,

gabava-se de que, se

quisesse, conseguia "funcionar dia e noite [sem ejacular]". Corria a

história de que, recusado por

Marlene Dietrich, ele brandira seu enorme pênis na mesa e perguntara:

"Qual é o problema com

isto?". Não se conhece a resposta de Dietrich. Mas sabia-se a receita de

Alice Faye como a

melhor maneira de se livrar dos ataques de Zanuck em sua sala: ficar

girando em volta da mesa e

perguntando sobre a mulher dele, Virginia - universalmente conhecida na

cidade como "Poor

Virgínia" [Pobre Virginia].
No que se referia a negócios, Zanuck se sentia Napoleão e, quando punha

seus pelotões na rua,

sempre voltava com a presa. Quando saíra à caça da raposa - a Fox -, fora

assim. Anos antes,

no apogeu do cinema mudo, o estúdio ainda pertencia a seu fundador,

William Fox, e era o lar de

Theda Bara, Tom Mix e Janet Gaynor. O magnata Fox, um dos verdadeiros

pais do cinema, fora o

primeiro a produzir cinej ornais (o Movietone News), a adotar o sistema

de gravação do som

direto no filme, usado até hoje, e investir num filme em setenta

milímetros (A grande jornada ou

The big trail, de Raoul Walsh, em 1930).
271
Em 1927, quando a Fox produziu Aurora (Sunnse), de F. W. Murnau, seu

patrimônio estava na casa

das centenas de milhões de dólares. Mas os concorrentes lhe moveram uma

série de processos

antitruste e ele perdeu sua gigantesca cadeia de cinemas. Nas longas

batalhas judiciais que se

seguiram, Fox foi perdendo tudo e, quando perdeu também o estúdio, tentou

subornar um juiz e foi

preso. Era o fim.
Zanuck, por sua vez, começara na Warner em 1922, escrevendo roteiros para

os filmes do

cachorro Rin Tin Tin. Dali chegou a vice-presidente de produção e foi

decisivo para que a

Warner produzisse filmes de gângsteres com conteúdo social, como os

tremendos Inimigo público

(The public enemy, 1930, com James Cagney) e Alma do lodo (Little Caesar,

de 1931, com

Edward G. Robinson). Outra façanha, em 1932, fora acoplar o coreógrafo

Busby Berkeley aos

compositores Harry Warren e Al Dubin e criar musicais como Rua 42 e

Cavadoras de ouro,

requintados na forma e cafajestes na temática. Mas Zanuck era ambicioso e

queria ter seu próprio

estúdio. Em 1933, deixou para trás um salário de 5 mil dólares por semana

na Warner e, em

sociedade com Joseph (Joe) M. Schenck (pronuncia-se Skenk), fundou a 20th

Century Films (não

confundir com a empresa ferroviária). Deu-se bem, ganhou dinheiro, e,

dois anos depois, em 1935,

com Schenck e um sócio menor, William Goetz, compraram o controle da Fox.

Schenck levantou

o dinheiro junto ao Chase National Bank, que passou a ser o maior

acionista, e se tornou

presidente. Zanuck continuou a ser o vice-presidente encarregado da

produção, tendo de

responder a Schenck e aos acionistas. Mas ali nasceu a 20th Century-Fox,

com hífen e tudo.

Alguns continuaram a chamar a nova empresa de Twentieth. Mas o nome Fox

acabou vencendo.


Zanuck teve sorte. Logo de saída, descobriu Shirley Temple, aos três anos

e meio. Pouco depois,

Tyrone Power surgiu de graça à sua frente. E, em seguida, Sonja Henie só

faltou cair-lhe no colo.

Ou seja, começou com uma criança e uma patinadora, dois exotismos de alto

valor de mercado, e

com o ator mais bonito do cinema. Mas Zanuck também sabia renovar o time

quando era preciso.

Em 1940, Tyrone continuava grande, mas Shirley Temple triplicara de

tamanho e perdera a graça,

e Sonja Henie estava levando um gelo da platéia. Os grandes nomes do

estúdio eram agora Alice

Faye, Don Ameche, Henry Fonda (com Fonda só então empatando com Ameche em

importância)

e Betty Grable. Carmen chegou e bastaram seus três números em Serenata

tropical para que ela

fizesse parte dessa elite.
Na hierarquia da Hollywood de então, a Fox pegava um quarto lugar firme

atrás da MGM, da

Warner e da Paramount, pela ordem. Ganhava da Columbia e da Universal

(que eram estúdios

"pobres"), da tão charmosa RKO (que era uma mixórdia administrativa) e da

United Artists (que se

reduzira basicamente a uma distribuidora). Na verdade, a grandeza da Fox

de Zanuck ainda

estava por começar - e começaria justamente na era dos musicais em cores

272
com Alice-Carmen-Betty, e com o prestígio dos filmes de John Ford, como A

mocidade de

Lincoln (1939), Vinhas da ira (1940) e Como era verde meu vale (1941).

Zanuck era um dos

poucos não-judeus a produzir filmes em Hollywood - os outros eram Walt

Disney e Howard

Hughes. Comparado a Louis B. Mayer, da MGM, Adolph Zukor, da Paramount, e

Harry Cohn, da

Columbia, podia-se quase dizer que era um intelectual, embora sua cultura

livresca nem sempre

ultrapassasse o livro do mês do Reader"s Digest ou a lista de mais

vendidos do New York Times.

A seu favor, todos achavam que era um empresário corajoso e queria

produzir filmes "sérios" (o

que faria de sobra no decorrer da década). E, ao contrário dos colegas,

que topariam qualquer

negócio para ter Clark Gable em um filme, Zanuck não estava muito

preocupado com quem iria

fazer este ou aquele papel. Para ele, o roteiro estava acima de tudo.

Talvez porque esta tivesse

sido sua primeira função no cinema - escrevê-los, ainda que fosse para

Rin Tin Tin.
Na sua primeira noite para valer em Hollywood, Carmen foi levada à

préestréia do musical A

vida é uma canção (Tin Pan Alley), que a Fox rodara logo depois de

Serenata tropical e estava

lançando quase ao mesmo tempo. O filme reunia pela primeira (e única) vez

Alice Faye e Betty

Grable, e continha a memorável seqüência em que as duas cantavam "The

sheik of Araby"

fantasiadas de odaliscas - com a diferença de que o bustiê de Alice era

tamanho-família, para

acomodar seus enormes seios, e o de Betty, muito menor, para seus

delicados peitinhos. À sua

chegada ao Chinese Theatre, Carmen foi triunfalmente apresentada como

"uma estrela da 20th

Century-Fox". Posou para fotos, deu autógrafos e quase roubou a noite de

Alice e Betty. À saída,

foi seqüestrada por Joe Schenck, que a levou ao Ciro"s, um nightclub

recém-inaugurado no Sunset

Boulevard. Apesar de novo na praça, o Ciro"s já se tornara o lugar

oficial para depois das

premières, e sua maior noite acontecera em seguida à inauguração, quando

Johnny Weissmuller,

devorado pelo ciúme, virara uma mesa cheia de chili con carne no colo de

sua mulher, Lupe

Velez.
A orquestra atacou uma rumba e Schenck tirou Carmen para dançar, crente

de que lhe prestava

uma homenagem. Veio o jantar, mais uma ou duas rumbas, e, somando toda a

agitação daquela

noite - pré-estréia de gala, imprensa, multidão, refletores varrendo os

céus e, depois, jantar-

dançante no Ciro"s -, podia-se imaginar que a alegria se estendesse até

pelo menos umas três da

manhã, não? Não. As coisas se davam de maneira que todo mundo já

estivesse em casa por volta

da meia-noite, para acordar cedo no dia seguinte. Essa era a vida noturna

de Hollywood - não

existia.
Ao passear com Carmen e o Bando de carro pela cidade na noite da véspera,

Aloysio de Oliveira

já tinha observado isso. Hollywood propriamente dita era apenas a zona

central de Los Angeles

e, pela pacatice, lembrava-lhe a praça
273
principal de algum bairro da Zona Norte carioca, algo assim como

Madureira ou o Méier - só

faltavam os homens de pijama na calçada. Como a cidade vivia para o

cinema, e os estúdios

começavam o expediente ao nascer do sol, era natural que a cidade

dormisse com as galinhas. No

dia 15 de novembro, quando as filmagens de Uma noite no Rio começaram de

verdade, Carmen já

conseguira estabelecer a rotina de dormir às oito e meia da noite e se

levantar às seis da manhã,

para estar no estúdio às sete, pronta para a maquiagem. E fazia isso

sozinha, sem precisar de

soníferos.
Carmen chegara à Califórnia no outono: sol ameno durante o dia, com um

pouco de frio e

nevoeiro à noite - cenário ideal para os filmes noir que dali a pouco os

estúdios começariam a

produzir. O sol podia ser ameno, mas Carmen e o Bando da Lua não queriam

desperdiçar nem um

raio dele e, nos primeiros domingos, chegaram a ir às duas principais

praias da região, Malibu e

Santa Monica. Ambas os decepcionaram. Malibu tinha unia faixa de areia

ridiculamente estreita e

pedregosa - além disso, ao se entrar no mar, davam-se dois passos e se

caía numa vala; e Santa

Monica era grande, mas sem graça e despovoada, exceto pela mansão de

Márion Davies. Daí que

o pessoal do cinema passasse o dia em suas piscinas particulares, e os

que não tinham piscina

usassem a do Beverly Hills Hotel - o que Carmen e os rapazes também

passaram a fazer.


Mas sua chegada ao hotel, num Cadillac conversível de 1937 que ela

comprara de segunda mão

por trezentos dólares, devia ser uma bola: uns sobre os outros, ele

acomodava Carmen, Odila,

Zezinho e, interminavelmente, o Bando da Lua completo.
Antes de sair para o primeiro dia de filmagem, com a noite ainda fechada

lá fora, Carmen e dona

Maria acenderam uma vela e rezaram para que tudo desse certo. Dona Maria

não sossegou

enquanto não encontrou uma igreja católica perto de casa, a cuja missa

passou a ir todos os dias.

Como não se dispunha a aprender inglês e, na ausência de Carmen e Odila,

não tivesse com quem

falar português, a litania em latim, que ela acompanhava mecanicamente


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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