Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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programas diurnos da Mayrink Veiga e, à noite, era uma presença

constante do Programa Suburbano, na Rádio Guanabara, onde dividia o

microfone com a irmã Cecília. Quem conseguia segurar esses Miranda?


Só faltava agora Mocotó, o último irmão ainda fora do rádio, jogar os

remos do Vasco para o alto e - vestido com sua camiseta regata, sem

mangas, e touca cruzmaltina - invadir uma estação, chamar o diretor

artístico e dizerlhe que também estava ali para cantar. Salvou-o a

consciência de que não tinha gogó para isso e que, afinal, era um dos

atletas mais respeitados e bem-sucedidos do remo brasileiro, com

prateleiras que vergavam ao peso dos troféus. E, ora, raios - pensou

Mocotó -, já havia quatro Mirandas no ar. Para que um quinto?


Em novembro de 1935, Cecília se viu grávida. Os primeiros enjôos a

fizeram perder ensaios e programas. O avanço da gravidez levou-a a

refletir sobre sua carreira - era aquilo mesmo que queria? E seria

possível conciliar rádio e maternidade? Em julho de 1936, quando nasceu

sua filha Carminha - o nome em homenagem à madrinha Carmen -, Cecília já

se decidira: sua carreira estava encerrada. Mas sua última participação,

em janeiro, foi histórica: no coro de um disco de Carmen, a marchinha

"Alô, alô, Carnaval", em que, sem os nomes no selo, grande parte da

letra era cantada por um trio formado por Carmen, Aurora e Cecília.
E Tatá, que estava conciliando o rádio com o trabalho de balconista na

loja A Melodia, também largou tudo ao ser contratado por uma empresa - a

americana Swift, do ramo de enchidos, presuntos e patês - que lhe fez

uma fascinante proposta: disseram-lhe que ele poderia "progredir como

vendedor". Tatá acreditou na promessa e não se arrependeu - trabalhou na

Swift pelo resto da vida e, assim como Cecília, só voltaria a cantar em

família. O micróbio artístico não os picara com a necessária virulência.

Com a defecção dos dois juniores, os Miranda voltaram a ter apenas as

profissionais a representá-los: Carmen e Aurora.

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E elas eram mais que suficientes. Em meados de 1935, com a concordância

de todos, Carmen tirara sua família do Curvelo e a levara para o

Flamengo. E, pela primeira vez, não para uma casa, mas para um

apartamento tomando todo o térreo de um simpático prédio residencial de

cinco andares, na rua Silveira Martins, 12. O prédio era uma mistura de

modernismo e tradição: tinha elevador e escada de incêndio, mas o

elevador era aparente, de ferro batido, e a escada, em espiral. Ficava

quase de esquina com a Praia do Flamengo e de frente para a lateral do

Palácio do Catete. Se acordasse muito cedo e chegasse à janela, Carmen

veria Getúlio passeando nos jardins e poderiam acenar-se com dedinhos.
Mas acordar cedo era o que Carmen em breve já não poderia fazer - assim

que acrescentasse um novo e fenomenal campo de trabalho à sua agenda: os

cassinos.
Em 1936, nas noites do Rio, podia-se ouvir a bolinha de marfim

matraqueando nos casulos das roletas, o atrito entre as fichas de

madrepérola, as cartas sendo disparadas pelas caixas de bacará e

campista e, horas depois - talvez em Copacabana, num apartamento em

andar alto e às escuras - um tiro na fronte, disparado por um perdedor

mais afoito. Naquele ano, os três grandes cassinos do Rio já estavam a

todo pano: o do Copacabana Palace, o Atlântico e o da Urca. Antes disso,

não.
O cassino do Copacabana Palace era o mais antigo: nascera junto com o

hotel, em 1923, mas o jogo levara uma vida atribulada na República Velha

e estivera proibido durante quase todo o governo Washington Luiz, de

1926 a 1930. Com Getúlio no poder, o jogo voltou em 1932 e o Copacabana

foi o primeiro a reabrir. Octavio Guinle, proprietário do hotel, nunca o

explorou, preferindo arrendá-lo a terceiros por 30 mil dólares fixos por

mês e o direito de ser seu fornecedor exclusivo de comida e bebida. Só

exigia que o cassino, com entrada pelo teatro, na avenida Nossa Senhora

de Copacabana, estivesse à altura do hotel. E o Copacabana estava.


O jogo se dava em três salões, de terça a domingo, das oito da noite às

duas da manhã. O equipamento e o pessoal - os móveis, máquinas, fichas,

baralhos e pagadores (crupiês) de roleta e de bacará - vinham da França.

Mas o verdadeiro luxo ao estilo Copacabana Palace estava no bar e no

grill, com capacidade para seiscentos lugares, uma orquídea em cada mesa

(do orquidário de Guilherme Guinle, irmão de Octavio), black-tie às

sextas e sábados, pista de dança (de vidro, iluminada por baixo) e o

palco em que se revezavam três orquestras, uma delas a de Simon

Bountman. Às quartas e sextas, o ingresso dava direito a uma garrafa de

champanhe.

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Diante do Copacabana, o Cassino da Urca, controlado por Joaquim Rolla,

era quase um estábulo de tão pobre. Ficava na rua João Luiz Alves, nas

instalações onde, desde 1925, existira o minúsculo Hotel Balneário, que

Carmen freqüentava quando ia à praia na Urca com Mário Cunha. O mineiro

Rolla comprara o imóvel em 1933 e o convertera em cassino, assunto de

que só entendia por cena de filme com Erich von Stroheim. Aliás, Rolla,

então com 33 anos, podia entender de tudo, menos de cassinos. Filho de

fazendeiros, começara a vida como tropeiro, tendo como maior patrimônio

uma mula. Depois fora vendedor de café, empreiteiro de estrada, dono de

jornal em Belo Horizonte e duas vezes revolucionário: em 1930, para

depor Washington Luiz, e em 1932, para depor Getúlio. Na primeira,

venceu e levou a patente de capitão, por bravura; na segunda, perdeu e

pegou cana. Mas não por muito tempo. Assim que o soltaram, Rolla veio

para o Rio, associou-se a amigos - Caio Brant, Abgar Renault, João

Daher, Nicolas Ladamy - e pediu a Getúlio a concessão de um cassino. E

Getúlio lhe deu.


No começo, o Cassino da Urca era de um impressionante amadorismo. O

grill ficava logo na entrada, aberto a qualquer transeunte que passasse

pela porta do cassino e resolvesse entrar, jantar e ir embora - sem

jogar. O piso era de mármore, a decoração, hospitalar, e a iluminação,

de velório. Não tinha palco, nem mesmo um tablado: os artistas se

apresentavam ao rés-do-chão - se houvesse alguém na frente, parte da

platéia tinha de ficar na ponta dos pés. A orquestra se vestia nas lojas

da rua Larga e as atrações eram recrutadas na Lapa. O diretor artístico

era um militar (amigo de Rolla na campanha de 1930), com mais vocação

para comandar um "ordinário, marche" do que para um coro de corpetes e

tutus. Evidente que, com tudo isso, o Cassino da Urca só atraía os

jogadores de baixo cacife, que iam fazer sua fezinha antes de voltar

para casa. Nenhum deles levava a patroa - não era um programa social.

Daí que, em seus dois primeiros anos, Rolla nem sonhou em competir com o

Copacabana, e já se conformara com isso. Mas, em 1935, surgiu mais um

templo do jogo no Rio, e que veio também para esmagá-lo: o Cassino

Atlântico, do empresário Alberto Bianchi, no Posto 6 de Copacabana.
Este era um belo cassino. Art déco por dentro e por fora, com um

pé-direito de quase dez metros, tanto nas salas de jogo como no grill -

dava a sensação de se estar a céu aberto no deque de um transatlântico.

Era o programa perfeito para um casal levar os amigos em visita ao Rio,

para jantar, dançar, assistir ao show, estrear um carro ou um vestido

novo - e jogar. "Diante dos seus olhos", dizia um volante do Cassino

Atlântico distribuído nos hotéis, ""o senhor" terá o empolgante

espetáculo daféerie noturna da praia de Copacabana, com seu colar de

pérolas em cuja extremidade, como digno e deslumbrante fecho, avulta o

esplendor de luzes e música do nosso cassino, realçando o mais belo

panorama do mundo". Nesse caso, todos os clichês e adjetivos se

justificavam. E concluía: "Faça uma visita ao grill-room do Atlântico, o

centro mais elegante do Rio. Vá aos jantares dançantes, abrilhantados,

em um ambiente incomparável de distinção e suntuosidade, por numerosas

atrações internacionais, e guardará de sua visita ao Rio uma

inesquecível recordação". Numa inteligente estratégia, nenhuma

referência ao jogo.
Foi no Atlântico (sob o codinome Cassino Mosca Azul) que se passou Alô,

alô, Carnaval!, retratando, meio sem querer, o começo de uma nova era da

música popular. No filme, Jayme Costa, diretor artístico do cassino,

tinha de se conformar em usar uma revista nacional, escrita por Barbosa

Júnior e Pinto Filho, porque a companhia francesa de ópera que ele

contratara lhe dera o cano - e, por isso, tome de Carmen e Aurora, Chico

Alves, Mário Reis, Dircinha Batista e tantos outros em cena no cassino.

Na vida real, graças a uma lei de Getúlio Vargas também de 1935, os

cassinos brasileiros ficaram obrigados a usar artistas nacionais em

número equivalente ao de americanos, franceses e argentinos que até

então compunham sua programação.

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Os donos dos cassinos entraram em pânico. Temiam que ninguém saísse de

casa para ver cantores que se podia ouvir de graça pelo rádio - embora

suas atrações estrangeiras fossem quase todas oriundas do segundo time

do vaudeville americano. (Uma típica atração era Miss Baby, uma acrobata

americana que, equilibrando-se em três cadeiras, tocava ao violino a

"Serenata" de Toselli.) A Lei Vargas foi aplicada com desconfiança e

nunca cumprida à risca, mas, por causa dela, os cassinos começaram a se

abrir para a música brasileira - e ainda havia quem se perguntasse por

que os compositores, músicos e cantores adoravam Getúlio.
Em janeiro de 1936, meio que para cumprir a lei e tentar sentir a reação

da platéia, o Copacabana contratou Carmen para uma pequena temporada.

Foi bom para o cassino - e decisivo para Carmen. Era sua primeira

apresentação num palco que não fosse o de um teatro ou cinema, e para

uma platéia de extração diferente da que a via por alguns tostões. Ali,

a poucos metros das mesas, sob a apreciação de casais que bebericavam

champanhe e tomavam langouste en cocktail às colherinhas, Carmen começou

a sofisticar-se como intérprete de palco.


O Cassino Copacabana foi o primeiro lugar público a tirar de casa os

grãfinos cariocas e a fixá- los no Rio. Até então, eles só dançavam e se

divertiam entre si, nos salões de seus palácios em Botafogo ou

Laranjeiras, e passavam seis meses por ano na Europa. Os cassinos, ao

misturar a alta sociedade com os ministros de Estado, os políticos, o

corpo diplomático, os grandes empresários, as celebridades

internacionais, as prostitutas de alto bordo e os velhos e novos ricos

europeus e argentinos, consolidaram a vocação internacional da cidade.

Para que viajar se estavam todos aqui? Em certo momento de 1936, por

exemplo, o Rio recebia o maestro Stravinski, o automobilista Pintacuda,

o escritor Stefan Zweig, o estadista americano Cordell Hull - cada qual

um expoente em seu ramo -, e todos hospedados no Copa. Pois essa era a

nova platéia de Carmen.
Em seu alquebrado escritório na Urca, cheio de goteiras e infiltrações,

Joaquim Rolla acompanhava alarmado essa movimentação. O Copacabana e o

Atlântico o estavam esmagando. E o que esses cassinos tinham que o dele

não tinha? Classe, charme, savoir-faire. Se quisesse salvar seu cassino,

Rolla teria de agir rápido. Para isso, convocou Luiz (Lulu) de Barros, o

diretor mais prolífico do cinema brasileiro e também cenógrafo de

teatro.
Lulu foi ao cassino, examinou as dependências uma a uma e achou tudo um

horror, mas aceitou o desafio. Antes de cuidar da parte artística, no

entanto, atacou a infra-estrutura. Começou por mudar o grill para um

grande salão interno - quem quisesse jantar ou ver o show teria de

passar antes pelas salas de jogo - e instalou ar-refrigerado em todos os

salões. Dividiu o cassino em duas partes, separadas pela rua. O lado que

dava para a praia seria freqüentado pelos menos endinheirados, com

apostas mais leves. O que dava para o morro teria o grill, onde se

dariam os shows e o jogo pesado. Para não discriminar ninguém, construiu

uma comunicação por cima entre os dois lados: uma passagem dava acesso

às galerias, de onde os menos cacifados poderiam assistir aos shows, de

pé.
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Acertado o lado funcional do cassino, Lulu dedicou-se à parte de

criação. Primeiro, chutou o militar incompetente e escalou a si próprio

como diretor artístico interino. Contratou três orquestras (uma para

danças, duas para os shows), que se apresentariam em plataformas móveis,

surgindo no palco sobre elevadores, vindas do porão - enquanto uma

orquestra descia, como se estivesse sendo tragada pelo chão, a outra

subia, já tocando. A principal delas, regida por Vicente Paiva, tinha 32

figuras, incluindo oito violinos, duas violas e dois cellos. O palco,

por sua vez, ganhou uma cortina de espelhos. Por baixo dele, saía um

segundo palco, que se projetava em direção à pista, como se fosse uma

gaveta. De onde Lulu tirava essas idéias? Não se sabia, mas o importante

é que elas funcionavam. E ele era detalhista e obstinado: cuidou

pessoalmente da decoração do grill, dos figurinos das coristas, do

uniforme das orquestras. Estabeleceu também que, a qualquer momento que

um artista chegasse ao cassino com uma idéia, de dia ou de noite,

haveria um pianista, um coreógrafo ou um ensaiador para tomar nota e

desenvolver a idéia com ele. Quando Lulu se deu por satisfeito, entregou

o cassino a Rolla, mandou-o contratar um diretor artístico definitivo -

que tal César Ladeira? - e grandes atrações brasileiras, e voltou para o

mundo do cinema, que era o seu.


Mas, então, a intuição de Rolla também começou a trabalhar. Um táxi

tomado em qualquer lugar do Rio, tendo como destino o Cassino da Urca,

seria pago pelo porteiro do cassino. O cidadão pagaria 10 mil-réis

(cerca de trinta centavos de dólar) para entrar, com direito a assistir

aos dois shows, cear e - este era o truque - poderia apostar a entrada

na roleta. A bolinha garantiria o lucro do cassino sobre aquele cidadão.

Rolla profissionalizou tudo: os salários venciam religiosamente nos dias

1 e 15 do mês; dos funcionários aos prestadores de serviço, ninguém

fazia nada, por mais insignificante, que não fosse contabilizado e pago.

Essa correção e pontualidade eram inéditas no meio artístico brasileiro.

O que Rolla demoraria um pouco a entender seria a relação entre o jogo e

as atrações musicais. O jogo era a finalidade do cassino, mas só

atrairia os apostadores profissionais. Para chamar o grande público - e

transformá-lo em apostadores -, todo o cassino teria de ser atraente.


O cassino de Rolla tinha agora classe, charme e savoir-faire, mas,

apesar de reinaugurado com estrondo em 1936, não parecia capaz de

superar o Copacabana e o Atlântico. No fim daquele ano, um amigo

perguntou a Rolla:

140
"Você quer encher isto aqui?"
"Quero."
"Então ponha a Carmen Miranda para cantar."
Rolla conhecia Carmen, é lógico. Pouco antes, em fins de novembro, ela

já se apresentara na Urca. Mas era uma noite para convidados, em que o

cassino recebera a visita do presidente dos Estados Unidos, Franklin D.

Roosevelt, de passagem pelo Rio a caminho de Buenos Aires. Roosevelt

ficara hospedado na mansão de Carlos e Gilda (pais de Jorginho) Guinle,

na Praia de Botafogo, e o normal seria que o levassem ao cassino do

Copacabana. A sugestão da ida à Urca viera do Catete, a partir de uma

ponte de cooperação que começava a se estabelecer entre Rolla e a

primeira-dama, dona Darcy Vargas. E também entre Rolla e o "coronel"

Benjamin (Bejo) Vargas, o irmão de Getúlio, que tinha mesa cativa no

grill para seus amigos do poder. Bejo estava fazendo da Urca uma

extensão de sua casa. Só que a sua era a casa-da-mãe-joana. Ia para o

cassino, enchia a cara, jogava, perdia, não pagava, assediava as

coristas, dava tiros para o ar e ameaçava fuzilar a roleta. Mas Rolla

era tão grato a Getúlio que Bejo podia fazer qualquer coisa em seu

cassino, exceto, talvez, urinar em cima do pano verde.


Em dezembro, Rolla chamou Carmen para oferecer-lhe um contrato de um ano

com exclusividade. Carmen pediu trinta contos de réis por mês - cerca de

mil dólares -, e mais o direito de ausentar-se para apresentações fora

do Rio.
"Carmen, isso eu não posso pagar", disse Rolla.


"Pode, sim", ela garantiu. "Dinheiro de jogo é achado na rua. Eu vou

cantar aqui duas vezes por noite e não vou repetir nem um vestido

durante um mês. As mulheres virão me ver, por causa dos vestidos, e

trarão os homens, que virão jogar."


Rolla pagou. E não se arrependeu. Carmen ajudou a consagrar o seu

cassino e, graças a este, a Urca, uma península na entrada da baía de

Guanabara, já famosa mundialmente pelo Pão de Açúcar, tinha agora um

novo marco no cartão-postal.


Seu Pinto e dona Maria mal tiveram tempo para desfrutar o apartamento do

Flamengo. No mesmo ano de 1935, logo depois de se mudarem, Carmen

cumpriu sua velha promessa e mandou-os para uma temporada de meses junto

aos parentes em Portugal. A idéia era irem juntos, a família toda, para

visitar o túmulo de Olinda em Várzea de Ovelha. Mas a vida profissional,

e não apenas de Carmen e Aurora, tornava aquilo impossível.

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Todos os anos, entre janeiro e fevereiro, as duas tinham compromissos em

São Paulo e adjacências para a pré-temporada de Carnaval. No começo,

Carmen e Aurora iam de trem, promovendo a bordo uma farra musical que

envolvia, além dos passageiros, os graxeiros, foguistas e maquinistas.

Quando chegavam à Estação da Luz, metade do trem já consagrara seus

sambas e marchinhas como sucessos daquele Carnaval. Depois passaram a ir

pelo avião "Cidade do Rio de Janeiro", da Vasp, uma espécie de avô da

ponte aérea. Apresentavam-se todos os dias às 19h30 na Rádio Record -

considerada "o maior auditório do mundo", porque o microfone ficava

próximo das janelas que davam para a praça da República. O público

paulista enfrentava a garoa e lotava a praça - a imprensa a chamava de

"uma enchente humana". Às vezes, quando chovia, a enchente humana

enfrentava uma enchente de verdade para ver Carmen e Aurora, mas ninguém

arredava pé. Na Record, elas eram acompanhadas pelo regional do

violonista Rago, onde conheceram um músico pelo qual se encantaram à

primeira vista, o cavaquinista e violonista José do Patrocínio de

Oliveira, Zezinho, ex-funcionário do Instituto Butantan e que, quando se

empolgava, falava das cobras pelos seus nomes em latim.


Terminado o programa, desciam até a praça e cruzavam a multidão a pé

para suas apresentações no Cine República ou no Teatro Santana. Por via

das dúvidas, eram escoltadas pessoalmente pelo proprietário da rádio, o

empresário Paulo Machado de Carvalho, que não se conformaria se uma das

duas fosse vítima de um sórdido bolina na multidão.
Carmen e Aurora eram convidadas quase diariamente a almoçar ou jantar

com Paulo e sua mulher, Maria Luiza, em seu casarão na alameda Barros.

Um dos presentes à mesa, invariavelmente, era o irmão de Paulo,

Marcelino de Carvalho," ditador das boas maneiras em São Paulo e incapaz

de tolerar a menor gafe de seus semelhantes. Certo dia, para chocar

Marcelino, ou porque estava realmente pouco ligando, Carmen, enquanto

serviam o peixe, virou-se para a dona da casa e disse:
"Maria Luiza, eu gostaria de usar o bidê."
Marcelino quase engasgou com a alcachofra. E, com o sim mudo e atônito

de dona Maria Luiza, Carmen levantou-se e foi lá dentro. Como eles

poderiam saber que Carmen era fanática pela higiene íntima e que a fazia

várias vezes por dia?


O outro compromisso anual ou bianual de Carmen era com a Rádio Belgrano,

de Buenos Aires. Jaime Yankelevich já se julgava com direitos adquiridos

sobre ela quando, em março de 1936, a Rádio El Mundo, sua concorrente,

entrou na parada. Os telegramas da El Mundo para Carmen no Rio eram

taxativos:
"DIGA QUANTO E ESTÁ ACEITO. MAS VENHA!"

142
O assédio foi intenso e Carmen, por lealdade a Yankelevich, precisou

inventar toda espécie de desculpa, como a de que, antes, "tinha de se

apresentar em Portugal". O que era menos verdade, porque Portugal nunca

lhe acenara com uma proposta. (Aliás, somente naquele ano os patrícios

se deram conta de que Carmen era um deles - mais ou menos. "A criança

nasceu em Portugal", escreveu sobre ela o português Fernando Rosa, na

revista Cinéfilo, de Lisboa. "Mas a alma é brasileira e a artista é do

Brasil.")
E, com esse drible de corpo na Rádio El Mundo, Carmen assinou, como

sempre, com a Belgrano, onde, em julho e agosto, se apresentou com

Aurora e um conjunto formado por Custódio Mesquita ao piano, os

violonistas Laurindo de Almeida e Zezinho e o pandeirista Sutinho.


A presença de Carmen na capital argentina já excedia o lado musical. O

jornal El Hogar abriu a manchete, em letras vermelhas: "Carmencita lança

moda em Buenos Aires". A porta dos fundos de seus shows não se limitava

aos admiradores masculinos. As mulheres portenhas também iam esperá-la à

saída da rádio ou do teatro e se aproximavam para tatear suas roupas,

apreciar o tecido, o corte, o acabamento, e perguntar onde poderiam

comprar ou fazer igual. E o que as roupas de Carmen tinham de diferente?
Àquela altura, nem todas eram criadas por ela e executadas por suas

costureiras - Carmen não tinha mais tempo para isso. Mas, mesmo os

vestidos ou tailleurs dernier bateau que comprava prontos - vindos para

ela com exclusividade de Paris pela Casa Canadá - levavam um toque

pessoal seu, uma pequena adaptação, ou eram combinados com uma peça com

que ninguém pensara, como um lenço ou um chapéu. Pelas centenas de fotos

em que aparece nessa época, cada qual com uma roupa diferente, sua

despesa com o guarda-roupa devia ser assustadora.


Com material de divulgação também. Em Buenos Aires, suas fotos eram,

como sempre, de Annemarie Heinrich. A exemplo dos outros artistas que se

deixavam fotografar por Annemarie, Carmen lhe encomendava entre mil e

1500 cópias de cada uma. Nunca uma artista brasileira vivera tão

intensamente aquilo que os americanos chamavam de estrelato - um estágio

em que as portas se abriam automaticamente, os camarins se enchiam de

flores, os copos nunca ficavam vazios, e tudo que se dizia era ouvido e

levado em consideração. Mesmo que para discordar.


Foi o que aconteceu na temporada de 1936 quando, ao sintonizar uma

transmissão da Rádio Belgrano para o Rio, alguns brasileiros quase


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
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