Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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Carmen, Uma biografia - Ruy Castro

Para
Isabel e João Ruy, que são a continuação da vida

SUMÁRIO


Prólogo 9
1 - 1909 - 1924 Coquete 11
2 - 1925 - 1928 "If girl" 26
3 - 1929 - 1930 "Taí" 42
4 - 1930 - 1931 Rainha do disco 58
5 - 1932 - 1933 Aurora 77
6 - 1933 - 1934 Pequena Notável 93
7 - 1934 - 1935 Cantoras do rádio 110
8 - 1936 - 1937 Cassino da Urca 131
9 - 1937 - 1938 "Uva de caminhão" 150
10 - 1938 - 1939 O que é que a baiana tem 167
11 - 1939 OsimaShubert 182
12 - 1939 "Brazilian bombshell" 200
13 - 1939 Cápsulas mágicas 219
14 - 1940 Silêncio na Urca 237
15 - 1940 Estrela da Fox 258
16 - 1940 Deusa do cinema 276
17 - 1941 Paixões fugidias 294
18 - 1941 - 1942 Livre de Shubert 312
19 - 1942 Boa vizinhança de araque 330
20 - 1943 Entre a vida e a morte 350
21 - 1944 Dependente 369
22 - 1945 Rolinha Spring 387
23 - 1946 Dinheiro a rodo 406
24 - 1947 Sebastian 423
25 - 1948 Sonho abortado 441
26 - 1948 - 1950 A câmera nada gentil 460
27 - 1950-1951 Mulher-maratona 478
28 - 1952 - 1954 Choques elétricos 497
29 - 1954 - 1955 Noites cariocas 516
30 - 1955 Última batucada 536
Epílogo 547

PRÓLOGO
No fim da tarde de 12 de fevereiro de 1908, o rei de Portugal, dom

Carlos I, fardado de generalíssimo, desceu do vapor São Luís no Terreiro

do Paço, em Lisboa. Passou a tropa em revista, conferiu a presença dos

ministros, piscou para uma ou duas marquesas de sua intimidade e subiu à

carruagem puxada por cavalos de penacho. Com ele estavam sua mulher,

dona Amélia de Orleans, princesa da França, e os dois filhos, o príncipe

herdeiro Luís Filipe e o infante Manuel. Voltavam de uma temporada de

caça no Palácio de Vila Viçosa, no Alentejo, onde dom Carlos, senhor de

mira implacável, desfalcara a fauna local em alguns milhares, entre

tordos, coelhos, corças, veados e raposas. A corte e o ministério tinham

ido recebê-lo e formar o séquito que rumaria ao Palácio das

Necessidades. Entre os quiosques do Paço, no entanto, dois homens

esperavam o rei com intenções nada regulamentares. Estavam ali para

matá-lo.
Poucos dias antes, com dom Carlos ainda em férias, a polícia abortara

mais uma tentativa de insurreição republicana e prendera o sombrio Luz

de Almeida, líder de uma sociedade de embuçados que faziam juramentos de

sangue e se comunicavam por códigos - a Carbonária. O chefe de polícia

aconselhara a que, devido à turbulência política, o percurso do rei ao

palácio fosse em carro fechado. Mas dom Carlos insistira no landau - o

que diriam do rei se não pudesse mostrar-se ao povo?
Não que, aos 45 anos, ele fosse um monarca dos mais populares. Os

portugueses se queixavam de que, nos dezenove anos de reinado de dom

Carlos, os ingleses só faltaram dar-lhe ordens e, na prática, já tinham

se apossado dos diamantes das colónias africanas. O analfabetismo no

país passava de 75%. E, numa população de 5 milhões de habitantes, 420

mil cidadãos (a maioria, homens, jovens e solteiros) tinham vindo, a

partir de 1890, para o Brasil, numa cruel hemorragia populacional. O rei

via esse fato como dos males o menor, porque eram as remessas dos

emigrados, principalmente os radicados no Rio, que equilibravam as

contas nacionais.


O fato de dom Carlos ser também um cientista, um oceanógrafo de

respeito, não queria dizer muito. Os súditos não perdoavam seu

desinteresse pelos negócios de Estado, a obsessão pelas caçadas, a

constante troca de iates (todos chamados Amélia, em homenagem à rainha)

e os sobrados que comprava com dinheiro público para seus recreios

extraconjugais. Por tudo isso, a pregação republicana era intensa nas

tribunas, na imprensa e nas esquinas. Só a Carbonária não perdia tempo

com palavras - preferia jogar bombas e atirar para matar.


O carbonário Manuel Buíça, de capa comprida até os pés e barba preta

quase idem, postou-se na calçada. O rei, a rainha e os jovens príncipes

se acomodaram nos assentos do landau e o cocheiro deu a partida. Quando

a carruagem passou, Buíça, em segundos, tirou da capa uma carabina

Winchester, dobrou um joelho para fazer a mira e, a cinco metros,

fuzilou o rei pelas costas. Um dos tiros acertou a nuca de dom Carlos,

matando-o no ato. Outro carbonário, Alfredo Costa, armado com uma

pistola Browning, materializou-se ao lado de Buíça, saltou para o

estribo do carro e também disparou várias vezes, à queima-roupa, contra

o rei já morto. Os cavalos, assustados, davam coices no vento. O

príncipe Luís Filipe sacou seu Colt .38 e apontou contra Costa. Costa

foi mais rápido e atingiu-o no peito, com a bala atravessando o pulmão

do herdeiro. Mesmo assim, Luís Filipe ainda conseguiu dar quatro tiros

em Costa, que tombou morto na rua. O barbudo Buíça voltou a disparar:

acertou um tiro na cabeça de Luís Filipe e feriu o infante Manuel no

braço. Um tenente investiu contra Buíça e o matou com uma estocada de

baioneta. Cessado o fogo, o cocheiro, também ferido, conseguiu conter os

cavalos. O tiroteio durara pouco mais de um minuto, mas o cheiro de

pólvora e uma grande comoção tomavam o Terreiro do Paço.
A condessa de Figueiró, o marquês de Lavradio e os outros nobres

correram para a carruagem ensangüentada. O corpo do rei pendia sobre o

ombro da rainha, que estava em choque. Luís Filipe, de vinte anos,

morreu nos braços da condessa. Se dom Carlos pudesse ter usado o Smith &

Wesson .32 que trazia no bolso, os fados seriam outros. Mas, do jeito

que eles se deram, pode-se dizer que a brava monarquia portuguesa, velha

de oito séculos, acabava ali.
O resto seria mera formalidade. Três meses depois, o infante, de dezoito

anos, assumiria o trono, com o nome dom Manuel II. Seu tíbio reinado,

abalado por golpes e conjuras, só chegaria até o dia 5 de outubro de

1910, quando uma insurreição final proclamaria a República em Portugal.

Capítulo 1
1909 - 1924
Coquete

O futuro não costumava figurar na agenda dos cerca de trezentos

habitantes de Várzea de Ovelha, uma aldeola da freguesia de São Martinho

da Aliviada, concelho de Marco de Canavezes, distrito do Porto,

província da Beira-Alta, no Norte de Portugal. (Na divisão

administrativa brasileira, Várzea de Ovelha seria um subdistrito do

município de Marco de Canavezes.) Até então, só o passado existia, e

mesmo o presente custava a chegar àquele platô perdido nas montanhas, a

que se tinha acesso, a pé ou a cavalo, por uma trilha cheia de curvas e

contornando os despenhadeiros da serra do Marão. Um lugar tão bonito e

fora do mundo quanto algumas das outras freguesias de Marco de

Canavezes, com seus nomes tão sugestivos: Magrelos, Rio de Galinhas,

Paredes de Viadores, Paços de Gaiolos. O Ovelha e o Tâmega, os poéticos

rios da região, seguiam seu curso sem perturbações. Mas, depois do que

acontecera no Terreiro do Paço, em Lisboa, nem a poesia conseguiria

poupar Várzea de Ovelha das atribulações nacionais - porque a incerteza

já fazia parte da vida de todos os portugueses.
Os jovens José Maria e Maria Emília, recém-casados, eram protegidos da

família de Francisco de Assis Teixeira de Miranda, rico proprietário de

terras na região, inclusive do sobrado em que o casalzinho morava de

graça. Os Assis, como o povo chamava os donos do lugar, eram

monarquistas com intensa atuação política e muito ligados à Coroa. A

morte do rei, a ascensão de um menino ao trono e a iminência de queda do

regime faziam antever uma crise que tornaria as coisas ainda mais

difíceis. A guerra e a fome no campo eram uma possibilidade. Os Assis

ficariam para defender suas terras. Mas, para José Maria e Maria Emília,

que eram pobres, só restava tomar o vapor para onde zarpavam tantos de

seus patrícios: o Brasil.

12
Dois anos antes, em 1906, quando eles se casaram, nada parecia indicar

esse destino. José Maria Pinto da Cunha tinha dezenove anos. Os pais

dele, José Pinto da Cunha e Emília de Jesus, eram camponeses, curvados

por séculos de enxada. Mas José Maria, moreno e aprumado, fizera o

serviço militar na Cavalaria e atraía os olhares das moças nas datas

patrióticas, ao desfilar a cavalo no uniforme dos Lanceiros da Rainha.

Um dos olhares que ele atraiu foi o da bela tecelã Maria Emília de

Barros Miranda, vinte anos, filha de José de Barros Miranda e Maria da

Conceição Miranda. O pai de Maria Emília era entalhador, habilidoso em

trabalhos de madeira, mas um homem simples. Já a mãe dela tinha algum

parentesco com os Assis, e seu próprio casamento fora um problema: a

família não aprovava seu amor por um artesão. José e Conceição se

casaram assim mesmo e tiveram uma fieira de filhos: Eulália, Amaro,

João, Cecília, Florisbela, Aurora e Maria Emília. Vinte anos depois, ao

se casar com José Maria, a intrépida Maria Emília repetiria o gesto da

mãe, porque seu noivo também não tinha eira nem beira: apesar de

Lanceiro da Rainha - título meramente simbólico de seu regimento -, José

Maria era simples lavrador, empregado nos olivais dos Assis, e, nas

horas vagas, barbeiro - um reles rapa-queixos, como se dizia com

desprezo.
Quando lhes nasceu a primeira filha, Olinda, no dia 8 de dezembro de

1907, Várzea de Ovelha ainda estava fora do mundo. Dois meses depois

aconteceram o assassinato de dom Carlos, os desaires da monarquia e o

começo das perseguições aos Assis. Foi então que José Maria decidiu

mudar-se com mulher e filha para o Brasil. Planejou a viagem para o

segundo semestre de 1908 e começou a cuidar dos papéis para a imigração.

Mas, então, Maria Emília viu-se de novo grávida. A burocracia atrasou,

porque os documentos tinham de ser tratados na Cidade do Porto, a

quarenta quilômetros de distância, e a gravidez avançou. A mudança foi

adiada, por medo de perder o filho ou de que a criança viesse à luz no

meio do Atlântico, num porão de navio, atapetado de ratos, em pavorosas

condições de higiene e talvez sem médico a bordo.


E apenas por isso Maria do Carmo Miranda da Cunha, como a chamaram,

nasceu em Várzea de Ovelha, no dia 9 de fevereiro de 1909 - um ano e

oito dias depois do regicídio -, e Carmen Miranda deixou de nascer no

Brasil.
Maria do Carmo nasceu às três horas da tarde de um inverno gelado, no

sobrado de pedra composto de um térreo e de um andar, com chão de terra

batida, sem luz e sem água, em que seus pais moravam de favor. Nasceu de

bruços - donde, como rezava a superstição, seu pai pensou que fosse um

menino. (A superstição dizia também que mulher que nasce de bruços é

estéril.) Cinco dias depois, a miúda foi batizada na igrejinha de São

Martinho, severa, rústica, de pedra, junto a um muro também de pedra. Os

padrinhos foram o senhor Assis e sua mulher, dona Maria do Carmo Monteiro,

de quem Maria do Carmo herdou o nome. Normalmente, as Marias do Carmo

portuguesas tornavam-se apenas Carmo. Mas Amaro, irmão de Maria Emília e

eventualmente também barbeiro, era boêmio, tocava violino e cantava -

talvez nunca tivesse ouvido falar em Prosper Mérimée, mas sabia uns

tostões de ópera e, ao ver a pequena Maria do Carmo, "morena como uma

espanhola", associou-a à então popularíssima Carmen de Bizet. O apelido

pegou em família, e Maria do Carmo tornou-se, para sempre, Carmen.


13
Amaro (que os parentes preferiam chamar de Mário) não era o único

Miranda com veia artística. Eulália, Cecília, Felisbela e Aurora, irmãs

de Maria Emília, também eram musicais e festeiras: gostavam de cantar,

dançar, fantasiar-se e se destacavam nas janeiras e reisadas, que eram

os prolongamentos das celebrações de Natal e Ano-Bom. Outro hábito era o

de cantar enquanto ceifavam o trigo, entoando cantigas de sentido dúbio

e, às vezes, francamente malicioso. Já Maria Emília, mais católica do

que as irmãs, e, se calhar, mais até do que o pároco de São Martinho,

reservava sua voz para cantar nas festas e procissões de santo Antônio.
Em setembro de 1909, deixando para trás a mulher e as duas filhas -

Olinda, dois anos e nove meses; Carmen, sete meses -, José Maria e seu

cunhado Amaro foram para o Porto e, de lá, tomaram um navio de carga no

porto de Leixões, em Matosinhos, para o Rio de Janeiro. Munido de duas

tesouras, uma navalha e dinheiro para se manter pelas primeiras semanas,

José Maria resolvera vir na frente. Primeiro, tentaria estabelecer-se;

quando isso acontecesse, mandaria buscar a família. Somente naquele

navio, cerca de cem emigrantes legais, fora os clandestinos, uns sobre

os outros na terceira classe, rumavam para a aventura brasileira - como

seus compatriotas vinham fazendo havia quatrocentos anos. O mar, para os

portugueses, era historicamente apenas outro nome para o seu próprio

litoral e, exceto pelo cheiro de vômito no dormitório coletivo, os dez

ou onze dias de travessia pareciam uma continuação da vida na província

- muitos desses imigrantes eram parentes entre si ou já se conheciam de

antes do embarque. E o Rio em que eles desembarcaram era tão português

quanto a terra de onde tinham saído - talvez mais.


Já havia muitas avenidas ao figurino de Paris, mas a cidade em que José

Maria pôs os pés, ao descer na praça Mauá no dia 27 de setembro de 1909,

podia lhe ser bem familiar - pelas ruas calçadas com pedras, ora veja,

portuguesas; pelo traçado irregular dos becos e das vielas coloniais;

pelas fachadas mouriscas dos sobrados e manuelinas das igrejas; pelas

conservas e latarias nas prateleiras dos armazéns; e pelo aroma dos

chouriços, sardinhas, rabadas, dobradinhas e ovos moles que emanava dos

restaurantes, tascas e biroscas. A música de sua língua era a mesma que

ele já começou a ouvir no próprio cais, bradada pelos estivadores,

cocheiros e puxadores de carroças, e que também saía dos açougues,

armarinhos e casas de ferragem. Os portugueses dominavam no Rio o

comércio de tecidos, cigarros, feijão, café, milho, azeite, pescado,

vinhos, gelo e praticamente todo o varejo. Numa população de cerca de 1

milhão, o Rio tinha perto de 200 mil portugueses natos - muito mais do

que o Porto, cuja população era de 150 mil, incluindo os estrangeiros

que lá viviam. Se se contassem os descendentes diretos dos imigrantes (e

muitos eram cariocas filhos de pai e mãe portugueses), esse número seria

ainda mais espetacular - seria o dobro. Era normal que um português

recém-chegado, ao andar pelas ruas do Rio, encontrasse não apenas

patrícios aos magotes, reconhecíveis pelos bigodes,

mas gente de sua aldeia ou freguesia, conterrâneos já aclimatados e,

bem ou mal, postos na vida.


14

É quase certo que, ao tomar o navio, José Maria trouxesse na algibeira o

nome de alguém a procurar no Rio - fala-se de um comerciante de secos e

molhados na rua Primeiro de Março. Seja como for, foi um conterrâneo que

o instalou numa pensão na rua da Misericórdia e, dali a alguns dias, o

levou a um cidadão também de Marco de Canavezes, só que da freguesia de

Aviz: Álvaro Vieira Pinto, dono de um salão de barbearia na esquina da

então avenida Central com a rua Mayrink Veiga. Seguindo uma prática

comum na colônia, seu Álvaro estava à cata de um patrício que fosse seu

sócio minoritário, e tanto fazia que este entrasse apenas com o trabalho

- com isso, ele dobraria o faturamento e se dispensaria de pagar o

salário de um auxiliar. Mas, como candidatos, só lhe apareciam estróinas

e aldrabões. José Maria lhe cheirou a um rapaz sério: tinha 22 anos, era

casado e pai de filhos, que pretendia mandar buscar na aldeia. Seu

Álvaro propôs-lhe sociedade e José Maria aceitou. Dois meses depois, já

situado em seu novo país, José Maria despachou o dinheiro


para a vinda da família.
Carmen chegou ao Rio, com sua mãe e irmã, no dia 17 de dezembro de 1909.

Tinha dez meses e oito dias. E, se parece pequeno o intervalo entre a

chegada de José Maria e a da família, teria sido menor ainda se

dependesse de Maria Emília. As esfuziantes cartas que seu irmão Amaro

enviava do Rio, contando as peripécias da dupla na cidade, davam a

entender que tanto ele como José Maria estavam se esbaldando entre

mulheres, chopes duplos e patuscadas - o que não deixava de ser verdade.

Ciosa de seu casamento, Maria Emília exigiu que José Maria mandasse o

dinheiro e, assim que este lhe chegou às mãos, embarcou, também num

vapor de carga. Era uma jornada heróica, mesmo para uma mulher que sabia

ler bem, escrever razoavelmente e fazer as quatro operações. Tratava-se

de cruzar sozinha o oceano, em condições indescritíveis, com uma criança

no colo e outra pela mão. Uma tarefa que exigia coragem e determinação,

e, por sorte, ela tinha essas qualidades.


Ser sócio-proprietário de uma barbearia no Centro do Rio também podia

ser uma proeza para um camponês recém-chegado de Várzea de Ovelha, mas

não permitia a José Maria dar luxos à família. Em seus primeiros quatro

anos no Rio, eles tiveram três endereços. O primeiro foi em São

Cristóvão, tradicional reduto da imigração portuguesa e para onde

marchara uma parte dos desalojados pelas demolições que o prefeito

Pereira Passos promovera entre 1903 e 1906. Mas antigo bairro imperial,

já sem as românticas ilhotas que tinham sido engolidas pelos aterros

para as obras de expansão do cais do porto, começava a se tornar uma

zona industrial. Além disso, para os padrões de distância de José Maria,

ficava muito longe de seu trabalho.

15
Em 1911, à custa de milhares de queixos raspados, José Maria desfez a

sociedade com seu Álvaro, de quem continuou amigo, e instalou com o

cunhado o seu próprio salão de barbeiro, na rua da Misericórdia, 70,

perto do Mercado Municipal. Pouco depois, nesse mesmo ano, a família se

mudou para um sobrado na rua Senhor dos Passos, 59, no Centro -

relativamente perto da barbearia, mas bem na zona de prostituição que

transbordava da praça Tiradentes pela avenida Passos. Não era o ambiente

ideal para uma família, mas eles não tinham escolha. Amaro Miranda da

Cunha, o terceiro filho do casal, o primeiro do sexo masculino e o

primeiro a nascer no Brasil, veio à luz ali, no dia 15 de junho de 1912.

Uma das testemunhas do registro (daí o nome da criança) foi o cunhado

Amaro, e esta foi a última informação que a família guardou a seu

respeito - sabe-se que, dali a algum tempo, ele fechou a navalha, tomou

alegremente o navio de volta para a Europa em busca de uns "negócios de

pescaria" na Inglaterra, e nunca mais deu notícias. E, com grande

coerência familiar, o pequeno Amaro, assim como seu tio, também passou a

ser chamado de Mário.


Quando Maria Emília se pôs de pé, depois do parto, a família se mudou

novamente, agora para uma vizinhança não muito distante, mas bem melhor:

outro sobrado, na rua da Candelária, 50, de esquina com o beco do

Bragança, em cima de uma serraria. Ali nasceram as outras duas filhas,

Cecília, no dia 20 de outubro de 1913, e Aurora, no dia 20 de abril de

1915 - nomes também em homenagem às irmãs de Maria Emília. Com o aumento

da família, os rendimentos da barbearia deixaram de ser suficientes -

nem sempre o bacalhau dava para todos. Para complementá-los, o casal

espremeu-se em dois quartos e alugou os restantes para dois comerciantes

portugueses que José Maria conhecera no Mercado. Numa casa onde o jantar

era à base de caldo verde e em que se lia um dos cinco jornais

portugueses publicados diariamente no Rio com as notícias da terra, era

normal que Carmen, aos cinco anos, chamada a cantar para seu pai num dia

de aniversário, apresentasse a única música que conhecia: um fado que

lhe fora ensinado por Olinda.
A região da Candelária, desde a reforma de Pereira Passos, estava

deixando de ser uma zona residencial para se tornar uma área exclusiva

de negócios. Já era então o distrito de menor população fixa na cidade:

das dezenas de milhares de pessoas que passavam por ali durante o dia,

apenas 5 mil eram residentes efetivos. Qualquer prédio decrépito ou

terreno baldio ficara supervalorizado, e em breve os Miranda não teriam

como pagar o aluguel. Além disso, um andar num prédio cercado por

bancos, escritórios e lojas, e com um trânsito de bondes, carroças e

automóveis era uma prisão para a penca de crianças que eles agora tinham

em casa: Olinda, oito anos; Carmen, seis; Mário, três; Cecília, dois; e

a recém-nascida Aurora.
Os acidentes já tinham começado a acontecer. Aos cinco anos, Carmen

debruçara-se em uma das janelas do sobrado para mostrar sua boneca à

menina do prédio em frente e caíra lá de cima. Por sorte, sua queda foi

amortecida por um rolo de fios telefônicos, e Carmen nada sofreu. Meses

depois, foi a vez de Cecília despencar de outra janela. Da mesma

maneira, sua queda também foi atenuada, mas por alguns barris deitados

na calçada do prédio. O pequeno Mário, sentado na porta do sobrado,

assistiu desesperado à queda da irmã e, chorando, correu para avisar à

mãe. Cecília não quebrou nenhum osso, mas ficou estrábica, pelo provável

deslocamento de um nervo ocular. O folclore da família atribuiu o

estrabismo ao susto. Quanto a Mário, por coincidência ou não, ficou gago

pelo resto da vida.

16

José Maria e Maria Emília decidiram que as crianças precisavam de uma



casa com quintal, perto de uma escola e em uma rua onde elas pudessem

brincar. Por isso, em 1915 mudaram-se para uma casa de vila na Lapa -

rua Joaquim Silva, 53, casa 4, bem no começo da curva em que, descendo,

se chegava à praia da Lapa. (Sim, havia uma prainha ali, chamada

oficialmente de praia das Areias de Espanha, rente à avenida Augusto

Severo, que já existia.) Nesse endereço, eles passariam os dez anos

seguintes, dos seis aos dezesseis anos de Carmen- justamente a idade em

que, para a criança, o mundo se torna maior que a família. E, a quem já

se perguntou onde e quando Carmen começou a ser Carmen Miranda, eis aí a

resposta: na Lapa.


Para seus novos vizinhos da rua Joaquim Silva, os ainda jovens José

Maria, 28 anos, e Maria Emília, 29, tornaram-se seu Pinto e dona Maria -

ele, pelo sobrenome; ela porque era assim que todas as portuguesas, cedo

ou tarde, acabavam se chamando. Os moleques gritavam quando ela passava:


"Dona Maria, como vai o seu Pinto?". A malícia na Lapa começava cedo.
Não que tivesse sido sempre assim. Em seus primeiros 150 anos de

história, a Lapa fora um dos bairros mais pacatos do Rio. Em 1750, era


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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