Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos



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Conclusão


Os documentos apresentados neste volume à atenção dos amigos da verdade estão longe de representar o conjunto dos fenômenos psíquicos; eles, porém, já nos conduzem a algumas conclusões preliminares.

O fim dessas pesquisas é saber se a alma humana existe como entidade independente do corpo e se ela sobrevive à destruição deste.

Pois bem! Os fatos que acabam de ser expostos depõem quase todos em favor dessa existência. A hipótese de influências físicas, mecânicas, fisiológicas não os explica. As palavras alma, espírito, entidade psíquica são as que melhor convêm para designar essas transmissões. A palavra cérebro não é adequada.

Pode uma alma exercer influência sobre outra, a distância e sem ter os sentidos por intermediários.

Aí estão manifestações de faculdades de ordem psíquica e não de ordem fisiológica.

Grande número de mortes, cujos exemplos são acima dados, foram conhecidos por meio de comunicações telepáticas, aparições (subjetivas ou objetivas), chamamentos, cantos, ruídos e movimentos (fictícios ou reais), impressões diversas. Não pode haver mais dúvida alguma sobre esse ponto.

A alma, portanto, age a distância.

Igualmente indubitável é a sugestão mental.

A comunicação psíquica entre os vivos não está menos corroborada por um número suficiente de fatos de observação. Há correntes psíquicas, como há correntes aéreas, elétricas, magnéticas, etc.

A abundância dos testemunhos recentes e contemporâneos impediu-nos de citar as narrativas antigas que não são, tanto quanto as modernas, para desprezar, e diversas das quais se apresentam com todas as características de uma autenticidade incontestável. Algum dia talvez as descrevamos com todos os seus interessantes detalhes.

A telepatia era quase que um dos lugares comuns da literatura antiga. As obras de Homero, de Eurípedes, de Ovídio, de Virgílio, de Cícero põem mui freqüentemente em cena manifestações de moribundos e de mortos, aparições, evocações, realizações de sonhos premonitórios.

Pode-se acompanhar esses fatos telepáticos no curso de toda a história da Humanidade e entre todos os povos, desde a antigüidade, através da lenta sucessão dos séculos, até a nossa época moderna. São eles extremamente numerosos, e enganam-se aqueles que os consideram todos como falsos e lendários.

Essas observações não datam, portanto, de hoje. Devemos esperar que o seu estudo científico as force a saírem das sombras da lenda e da superstição.

Falta-nos espaço para analisar detalhadamente cada uma das que neste volume registramos e para estabelecer desde agora que há grande número de causas diversas em jogo nesses fenômenos. O que, desde logo, quisemos deixar aqui provado, foi a realidade das manifestações de moribundos, da ação psíquica a distância, das comunicações mentais, do conhecimento das coisas pelo espírito, sem o concurso dos sentidos.

Pode-se ver sem os olhos, ouvir sem os ouvidos, não, de modo algum, por uma hiperestesia do sentido da vista ou do ouvido, visto como essas observações provam o contrário, mas por um sentido interior, psíquico, mental.

A vista interior da alma pode ver não somente o que se passa ao longe, em distâncias consideráveis, mas ainda conhecer antecipadamente o que sucederá no futuro. O futuro existe potencialmente, determinado pelas causas que provocarão os efeitos sucessivos.

A observação positiva prova a existência de um mundo psíquico, tão real como o mundo conhecido pelos nossos sentidos físicos.

Presentemente, partindo do princípio de que a alma age a distância, em virtude de uma força que lhe é própria, estamos autorizados a concluir, daí, que ela existe como ser real, que não é resultante das funções do cérebro?

A luz realmente existe?

Existe realmente o calor?

Existe o som?

Não.

Em tudo isso há apenas manifestações de movimentos.

O que chamamos luz é uma sensação produzida sobre o nosso nervo óptico pelas vibrações do éter, compreendidas entre 400 e 756 trilhões por segundo, ondulações de si próprias obscuras.

O que chamamos calor é uma sensação produzida por vibrações, não quentes em si mesmas, cujo número está compreendido entre 350 e 600 trilhões.

O Sol ilumina o espaço tanto à meia-noite como ao meio-dia. Entretanto, o espaço permanece na obscuridade. Sua temperatura é de cerca de 270 graus abaixo de zero.

O que chamamos som é uma sensação produzida sobre o nosso nervo auditivo por vibrações do ar, silenciosas em si mesmas, compreendidas entre 32 e 36.000 por segundo.

A eletricidade existe, ou é, em si mesma, apenas uma certa modalidade do movimento? O futuro da Ciência no-lo revelará. (É provável que ela exista como entidade real. Não será o éter uma substância elétrica?)

A palavra atração foi aplicada por Newton apenas para representar a maneira pela qual os corpos celestes se movem no espaço. “As coisas passam-se – diz ele – como se esses corpos se atraíssem.” Quanto à essência, à natureza dessa força aparente, ninguém a conhece.

Grande número de termos científicos não representam mais do que efeitos, e não causas.

Poderia acontecer que a alma estivesse no mesmo caso.

As observações expostas nesta obra, as sensações, as impressões, as visões, as audições, etc., poderiam indicar efeitos físicos produzidos de cérebro a cérebro.

Sim, sem dúvida. Mas não parece ser assim que se passam as coisas.

Examinemos um exemplo.

Retornemos, nesta obra, ao capítulo III, caso CLVIII:

Uma jovem esposa, adorada de seu marido, morre em Moscou. Seu sogro, em Poulkovo, perto de São Petersburgo, vê, a essa mesma hora, a seu lado, a nora acompanhando-o pela rua e depois desaparecer. Tomado de surpresa e de pavor, telegrafa a seu filho e é informado ao mesmo tempo da doença e da morte da referida pessoa.

Somos de modo absoluto obrigados a admitir que “alguma coisa” emanou da morta e foi impressionar seu sogro.

Esse “algo desconhecido” pode ser um movimento etéreo, como no caso da luz, e não ser mais do que um efeito, um produto, um resultado; mas esse efeito tem uma causa e essa causa é a agonizante, evidentemente. Pode a constituição do cérebro explicar essa projeção? Não creio que algum anatomista ou algum fisiologista ouse responder afirmativamente.

Pressente-se ali uma propriedade desconhecida, não do organismo físico, mas do ser pensante.

Tomemos um outro exemplo, o do capítulo III, caso VIII:

Uma senhora escuta, em sua casa, uma voz que canta, a voz de uma amiga que entrara para o convento, e cai desmaiada porque compreendeu que era a voz de uma morta! No mesmo instante essa amiga morria, com efeito, a 40 quilômetros de distância.

Não temos ainda aqui a mesma impressão, a de uma comunicação de alma a alma?

Ainda outro exemplo, do capítulo III, caso CLXVII:

A esposa de um capitão que partira para as Índias vê, certa noite, seu marido de pé diante dela, com as mãos comprimidas sobre o peito e o semblante de quem está sofrendo. A comoção que ela experimenta por causa disso convence-a de que ele está morto ou gravemente ferido. Era 14 de novembro. O Ministério da Guerra anuncia-lhe em seguida que ele foi morto a 15. Faz-se uma verificação a respeito. O Ministério tinha-se enganado: foi precisamente a 14 que ele morreu.

Em meio de seus folguedos, uma criança de seis anos detém-se gritando com aspecto apavorado: “Mamãe, acabo de ver mamãe!” Nesse mesmo instante sua mãe morria, longe dali (capítulo III, caso CXI).

Uma jovem, estando no baile, pára de repente no meio de uma contradança e, banhada em lágrimas, grita: “Meu pai morreu, acabo de vê-lo!” No mesmo instante seu pai morria, ignorando a filha que ele estivesse doente (capítulo III, caso XC - B).

Todos esses fatos se nos apresentam como designativos não de atos fisiológicos de cérebro a cérebro, mas de atos psíquicos de espírito a espírito.

É sempre difícil, sem dúvida, separar o que pertence ao espírito, à alma, do que pertence ao cérebro. Não nos podemos deixar guiar em nossas apreciações e em nossos julgamentos, senão pelos sentimento íntimo que resulta para nós da discussão dos fenômenos. Nem foi outra a maneira pela qual todas as ciências foram fundadas. Pois bem! Não sentem todos que se trata, nos exemplos citados, de manifestações de um ser pensante e não somente de fatos fisiológicos materiais ou de transformações da energia física?

Essa impressão é abundantemente confirmada pela constatação de faculdades desconhecidas da alma, que se acham em jogo nos sonhos e no sonambulismo.

Um irmão é sabedor da morte de sua jovem irmã por meio de um horrível pesadelo (capítulo VII, caso LXX).

Um senhor sonha que vê cair de uma janela uma moça que, aliás, ele não conhece (capítulo VIII, caso VII).

Uma senhora vê em sonhos um de seus amigos afogar-se (capítulo VIII, caso XVIII).

Uma mãe vê em sonho sua filha caída em uma estrada e coberta de sangue (capítulo VIII, caso XXII).

Uma senhora vai, em sonho, visitar seu marido sobre um navio longínquo e seu marido recebe realmente essa visita, testemunhada por uma terceira pessoa (capítulo VIII, caso XXXVIII).

Uma senhora magnetizada vê e descreve todo o interior do corpo de sua mãe agonizante, no estado em que foi exatamente constatado pela autópsia (capítulo VIII, caso XLIV).

Um senhor vê em sonho uma senhora, sua amiga, chegar pelo trem de ferro, viagem essa aliás imprevista (capítulo IX).

Uma senhorita vê antecipadamente, em sonho, o jovem desconhecido que ela desposará (capítulo IX).

Uma senhora vê o ataúde no qual será enterrado um senhor bem disposto com quem ela conversa (capítulo IX).

Diversas pessoas vêem de antemão uma cidade, uma paisagem, em circunstâncias idênticas às em que se encontram em seguida (capítulo IX, casos diversos).

Uma mãe ouve, com seis meses de antecipação, sua filha anunciar-lhe um casamento imprevisto (capítulo IX).

Determinada morte é predita com precisão (casos freqüentes).

É visto um roubo por uma sonâmbula e anunciada a execução do delinqüente (capítulo IX).

Uma jovem vê seu noivo, seu amigo íntimo, no momento da morte (casos freqüentes).

A ação psíquica de um espírito sobre outro, a comunicação a distância existem, com tanta certeza como as correntes elétricas e magnéticas da atmosfera (capítulo VI, casos diversos).

São faculdades desconhecidas da alma. Tal é, pelo menos, a minha impressão. Não me parece que se possa racionalmente atribuir a previsão do futuro e a vista mental a uma produção nervosa do cérebro.

O cérebro não é mais do que um órgão, como o nervo óptico ou o nervo auditivo. A alma, o espírito, o ser intelectual age e percebe por si mesmo; não é, porém, uma propriedade física o de que ele dispõe.

A adivinhação do futuro é talvez o que ainda há de mais extraordinário, pois que para que ela exista é necessário que o futuro seja determinado de antemão, com certeza, pelas causas que o produzirão. Notemos que um só fato desse gênero, com exatidão constatado, provaria a tese. Ora, não é um fato apenas que temos sob nossas vistas, mas centenas de fatos.

Falta-nos o espaço – e mesmo não é este o lugar – para discutir o grave problema do livre arbítrio e da fatalidade. Relembremos somente as palavras seguintes de Laplace:

“Os acontecimentos atuais têm com os precedentes uma conexão fundada sobre o princípio evidente de que não pode uma coisa começar a existir sem uma causa que a produza. Este axioma, conhecido sob o nome de princípio da razão suficiente é extensivo às ações mais insignificantes. A mais livre das vontades não pode, sem um motivo determinante, dar-lhes origem, porquanto, sendo todas as circunstâncias de dupla posição exatamente as mesmas, se ela agisse sobre uma e se abstivesse de agir sobre outra, sua escolha seria um efeito sem causa; seria então, diz Leibniz, o cego acaso dos epicuristas. A opinião contrária é uma ilusão do espírito que, perdendo de vista as razões fugitivas do desígnio da vontade, nas coisas mínimas, persuade-se de que ela se determina por si mesma e sem motivo algum. Devemos, pois, encarar o estado presente do Universo como o efeito do seu estado anterior e como a causa do que vai seguir-se. Uma inteligência que conhecesse todas as forças de que está animada a Natureza e a situação respectiva dos seres que a compõem, se, além disso, fosse bastante ampla para submeter esses dados à análise, abrangeria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do Universo e os do mais ligeiro átomo: nada existiria de incerto para ela e tanto o futuro como o passado estariam presentes aos seus olhos. O espírito humano oferece, na perfeição que soube dar à Astronomia, um frágil esboço dessa inteligência.” 107

Se o futuro é inevitável, a que se reduz a nossa liberdade? Um dia possivelmente a Filosofia conciliará essas duas aparentes contradições, pois que temos o sentimento de poder escolher e da utilidade dos esforços que empregamos, e todo o progresso dos povos ocidentais é devido precisamente à ação intelectual, oposta ao fatalismo dos orientais. Fatos, na aparência contraditórios, já se explicam hoje pelo conhecimento das coisas, como por exemplo a levitação, o levantamento de um pesado corpo de ferro sob a influência de um ímã. A ascensão de um balão é tão natural como a queda de uma pedra. Que os moralistas não venham, pois, deduzir conseqüências de uma determinação antecipada que se possa fazer de certas coisas, para se recusarem a admitir as previsões do futuro, reconhecidas e controladas.

As contradições não são mais do que aparentes. Determinismo não é fatalismo.

Os fenômenos que estudamos talvez não estejam tão fora do alcance, como parece, dos raciocínios da ciência positiva.

Creio que seja necessário, ou negar todos esses fatos, ou admitir que eles denotam uma causa intelectual, espiritual, de ordem psíquica, e estou persuadido de que os cépticos, por parti pris, preferirão negá-los, tratando-os como ilusões e coincidências fortuitas: será isso mais simples. Os negadores intransigentes, rebeldes mesmo à evidência, serão ainda mais absolutos e declararão que os autores dessas extravagantes narrativas não passam de farsantes que me escreveram com o intuito de mistificarem-me, e que o mesmo sucedeu em todos os séculos para com todos os pensadores que se dispuseram a ocupar-se com essas questões.

Seria, efetivamente, possível recusarmo-nos a aceitar todos esses testemunhos humanos? Não nos parece que tenhamos esse direito. Os que foram controlados provaram sua veracidade, sua autenticidade. Não foram imaginados ou coordenados após os sucessos: pelo contrário, o que impressiona é a sua espontaneidade, tendo sido freqüentemente por causa dessa aparência de mistério, que me escreveram, narrando-os, no desejo de receberem uma explicação. Sem dúvida alguma, nem todas as narrativas oferecem as mesmas garantias e várias entre elas podem, aliás com toda a sinceridade, ter sido mesmo modificadas na memória dos narradores e adaptadas mais estritamente aos acontecimentos; mas isso não quer dizer que tenham sido inventadas, nem que sejam mistificações. Recusar todos esses testemunhos levaria a recusar as narrativas de tudo o que se passa constantemente em torno de nós, durante a vida, sob o pretexto de que não se verificou tudo ou de que certos detalhes são inexatos. Atenho-me aqui ao raciocínio de Emmanuel Kant mais acima citado e ao que já fiz notar a esse propósito.

Tal é, pelo menos, a minha impressão e submeto-a com confiança aos leitores ansiosos de chegar à verdade, sem ter, aliás, de modo algum, a presunção de impor minha opinião a ninguém. Cada um apreciará conforme o seu julgamento próprio.

Procuro simplesmente pôr as coisas em foco, tal como um astrônomo a sua luneta, um fotógrafo em face de uma paisagem ou um naturalista armado de um microscópio.

Segundo penso, provam esses fenômenos que a alma existe e é dotada de faculdades ainda desconhecidas. Era, portanto, lógico iniciarmos por aí os nossos estudos, cujo prosseguimento nos conduzirá ao problema da sobrevivência e da imortalidade. Pode uma idéia transmitir-se de um a outro espírito. Há transmissões mentais, comunicação de pensamentos, correntes psíquicas entre as almas humanas. O espaço não parece constituir um obstáculo e o tempo se nos afigura, por vezes, como que aniquilado.

Qual o modo de energia que se acha em jogo nessas transmissões? Atualmente é impossível dizê-lo. Um certo número das impressões experimentadas fazem pensar nos fenômenos do raio e da eletricidade. Não seria desarrazoado pensar-se que este último agente esteja muito mais intimamente associado ao organismo humano, do que até hoje se tem acreditado. Mas, uma vez ainda, a hora das teorias não é chegada.

Muito embora relativamente raros e sem a banalidade das coisas ordinárias da vida cotidiana, esses fatos são muito mais numerosos e freqüentes do que até agora se tem julgado. Vimos mais acima que o inquérito aberto por mim, em março de 1899, fez que chegassem às minhas mãos 1.130 cartas a respeito de tais fatos. Juntando a esse número as que recebi durante a impressão deste volume, excedem elas a 2.000. Podem-se ler, julgar, apreciar neste primeiro volume, 186 casos de manifestação de moribundos constatados em estado de vigília, 70 casos percebidos durante o sono, 57 observações ou experiências de transmissão de pensamento sem o concurso da vista, do ouvido ou do tato, 49 exemplos de vista a distância, em sonho ou em estado de sonambulismo, 80 sonhos premonitórios e adivinhações do futuro, ou sejam, 442 fenômenos de ordem psíquica que indicam a existência de forças ainda desconhecidas agindo entre os seres pensantes e pondo-os em comunicação latente uns com os outros (tenho ainda, talvez, outro tanto de casos análogos a esses). Mesmo atribuindo a máxima amplitude às variações da memória e à imaginação dos narradores, não é possível deixar de sentir e de reconhecer nesses testemunhos um fundo de verdade e de sinceridade incontestáveis. Certas observações e certas experiências, além disso, foram relatadas com o cuidado de não deixarem margem alguma ao erro, que em si mesmas contêm a característica da autenticidade científica mais absoluta e mais bem controlada. São, portanto, testemunhos que acusam o cepticismo dos negadores por parti pris e o reduzem à última extremidade. E agora que a atenção geral está voltada para essa ordem de fatos, serão eles assinalados em muito maior número, visto como bem considerável era o dos que passavam despercebidos ou aos quais nenhum valor se atribuía. Em Astronomia, desde que os astros são descobertos, todo o mundo os vê.

Tenho para mim que as conclusões seguintes resultam logicamente do conjunto dos fatos expostos:

1º) a alma existe como personalidade real, independente do corpo;

2º) a alma é dotada de faculdades ainda desconhecidas da Ciência;

3º) ela pode agir e perceber, a distância, sem os sentidos como intermediários;

4º) o futuro é de antemão preparado, determinado pelas causas que o produzirão. A alma percebe-o algumas vezes.

Observações outras já foram apresentadas, especialmente no que concerne aos duplos de vivos, ao corpo etéreo ou astral e às manifestações de mortos; mas os quatro pontos precedentes parecem-me firmados e demonstrados.

Quanto às explicações, é prudente não tentá-las. Já mostrei por diversas vezes neste livro que não são elas necessárias para a admissão dos fatos. Muita gente, em geral, é ludíbrio, a esse respeito, de ilusões assaz singulares. Ao tempo dos possessos de Loudun ou dos convulsionários de Saint-Médard, por exemplo, como os efeitos da sugestão e do hipnotismo eram desconhecidos, declarava-se que tais fenômenos eram ou fraudulentos ou diabólicos. Ora, eles não são nem uma nem outra coisa. Muitos deles hoje se explicam e ouve-se freqüentemente dizer de todos aqueles de que se fala: “isso é hipnotismo, sugestão, subconsciente”. Outro erro. Pode muito bem acontecer que não se trate nem de uma nem de outra coisa, não sendo por isso que o fato deixe de existir. Não fechemos o círculo de nossas concepções, não estabeleçamos nem escolas nem sistemas e não pretendamos que atualmente deve ser tudo explicado para que seja admitido. A Ciência está longe de haver dito a sua última palavra, seja a respeito do que for.

Esses estudos em muito ultrapassam os limites de um volume no qual eu tinha a intenção de encerrá-los. Mas esse quadro restrito obrigava-me a tantas condensações, restrições e superstições, que o conhecimento dos assuntos era por esse motivo consideravelmente diminuído, impondo-se, por isso, insensivelmente, naturalmente, um maior desenvolvimento. Ser muito incompleto teria tido como conseqüência nada poder provar. Preferi tratar de modo completo e metodicamente os objetos de estudo, em lugar de esflorar apenas superficialmente e inutilmente um exagerado número deles. São necessários, nesse gênero de pesquisas, provas acumuladas e convincentes, testemunhos seguros, numerosos e concordantes. Cumpria antes de tudo provar. Espero que essa demonstração esteja aqui feita para todo espírito livre, esclarecido e de boa fé.

Leva-nos a seqüência destas pesquisas a examinar os fenômenos do Espiritismo e da mediunidade; os do sonambulismo, do magnetismo e do hipnotismo; o conhecimento dos fatos remotos e do futuro sem o concurso dos sonhos; os pressentimentos, os duplos de pessoas vivas, o corpo astral, as aparições e manifestações de mortos, as casas mal-assombradas, os movimentos de objetos sem contato, a feitiçaria, a magia, etc.

O que desde já podemos estabelecer é que, pondo de parte superstições, erros, ilusões, farsas, malícias, mentiras, fraudes, restam fatos psíquicos verdadeiros, dignos da atenção dos pesquisadores. Isto quer dizer que entramos na investigação de todo um mundo, tão antigo como a Humanidade, mas ainda bem novo para o método científico experimental, que apenas começa a aplicar-se a tais estudos de alguns anos a esta data e simultaneamente em todos os países.

É esse um programa de estudos que eu desejaria levar a bom termo, se me fosse dado o tempo indispensável para alcançar esse resultado. Mas, de uma parte, é prudente não nos entregarmos exclusivamente a essa espécie de indagações ocultistas, porque bem depressa perderíamos a independência de espírito necessária para julgar imparcialmente; melhor será não ver em tudo isso mais do que uma digressão à margem da vida normal, uma distração de ordem superior, curiosa e interessante: há manjares e vinhos que é mais higiênico tomarmo-los em pequenas doses. Por outro lado, a Terra gira muito depressa e os dias passam como sonhos. Sem embargo, espero desfrutar o prazer científico de estudar uma parte desses mistérios. Depois, o que um não faz outros o fazem; cada qual conduz sua modesta pedra para a construção da pirâmide futura.

Recordemos também o caráter excepcional desses fatos. Os fenômenos psíquicos de qualquer ordem que sejam, aliás, conquanto cessem de pertencer ao domínio mórbido das superstições e dos fantasmas ocultos e sejam tratados à luz dos métodos experimentais, não deixarão, por isso, de ser anormais e excepcionais. Não nos devemos, portanto, afoitar por esses caminhos sem nos armarmos do espírito crítico, sem o qual a razão humana não seria mais do que um simples engodo. Não devemos considerar esses fatos senão como objetos de estudo interessantes, do ponto de vista do conhecimento de nós mesmos.

Cumpre sinceramente confessar, com efeito, que o que menos conhecemos ainda é a nossa própria natureza. A máxima de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo!” pode sempre inspirar os nossos mais nobres pensamentos.

Todo autor tem seus imperativos de consciência. Não se deve dizer senão o que se sabe. Talvez mesmo nem sempre se deva dizer tudo o que se sabe; mas até na vida normal cotidiana, não deveríamos jamais dizer senão o que sabemos.

Estudemos, portanto, trabalhemos e esperemos. O acervo dos fatos de ordem psíquica mostra que vivemos em meio de um mundo invisível, no seio do qual operam forças ainda desconhecidas, o que está de acordo com o que sabemos sobre o limite dos nossos sentidos físicos e sobre os fenômenos da Natureza. É mesmo precisamente por causa de tal estado de coisas que tem este trabalho por título O Desconhecido. Repitamos com Shakespeare o pensamento por nós inscrito como epígrafe a um dos nossos capítulos:

Há mais coisas no céu e sobre a terra, Horácio,
Que tudo o que saber pode a nossa filosofia;

e digamos também, com Lamartine, reportando-nos à filosofia astronômica:



É a vida um degrau dessa escada dos mundos,
Que devemos subir para alcançar o além.



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