Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos



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(Carta 268)

XXVIII – “A. – Em 1858 (já não sou criança), estava eu em Terrasson (Dordogne), empregado na construção da estrada de ferro de Perigueux a Brive. Um outro empregado no mesmo trabalho, natural dos Altos Alpes, disse-me, certa manhã, muito preocupado, que na noite precedente vira um fantasma no qual acreditava reconhecer seu pai. Dois dias depois recebia ele um sobrescrito tarjado de luto: era uma carta participando-lhe o falecimento de seu pai, ocorrido na própria noite da aparição.

B. – Em 1885, estava eu em Perigueux com a minha família. Minha mulher viu em sonho, na noite de 15 para 16 de janeiro, um leito cercado de cortinado e, perto, uma mesa sobre a qual se achavam um círio aceso e um crucifixo; ela me contou esse sonho que a alarmava. Ora, recebemos uma carta de Rodez, onde se encontrava meu sogro, comunicando-nos que ele fora acometido de pleurisia, em conseqüência da qual sucumbira pouco depois.

Lumique
Rua Traversière-des-Poitiers, 7, Toulouse.”

(Carta 270)

XXX – “Achando-me acordada, tenho freqüentemente sentido perto de mim a presença de um ente desaparecido e vivamente relembrado com saudade. Além disso, dois dias antes da morte dessa mesma pessoa, sonhei que me chegava uma carta impressa participando o seu falecimento, e foi por essa forma que a triste notícia veio ao meu conhecimento.

Viúva Poullain Bouhou (Seignelay).”
(Carta 345)

XXXI – “Tenho feito a triste experiência de que todas as vezes que vejo em sonho uma das minhas amigas, falecida há cinco anos, perco um membro de minha família.

O que sobretudo me impressionou, porém, há cerca de mês e meio, foi que essa mesma pessoa veio, em sonho, passear comigo, do lado de Lagoubran. Chegados ao bulevar de Estrasburgo, à entrada de Toulon, ela deixou-me e voltou para Lagoubran, em companhia de operários que eu não conhecia. Todos tinham o ar de pessoas infelizes.

Durante vários dias perguntei a mim mesmo com pavor, a quem ainda ia perder, quando ocorreu a catástrofe de Lagoubran, que todo mundo conhece. Ela viera, pois, anunciar-me a desgraça que devia ferir a cidade inteira.

Uma de minhas amigas sonhou, na noite de 3 para 4 de março, com as cenas que se produziram na noite de 4 para 5, e no domingo, quando ela viu desfilar pela frente de sua casa os carros de artilharia transportando os mortos e os feridos, acompanhados de soldados e de padres, parecia-lhe ver uma segunda edição de seu sonho.



M. J. D. (Toulon).”
(Carta 351)

XXXII – “Acontece-me freqüentemente achar-me em uma situação qualquer, tão banal quanto possível, de que eu tivera a exata sensação em indeterminado tempo antes.

H. Charpentier (Francfort-sur-Mein).”
(Carta 371)

XXXIII – “Era em 1889, num certo dia do mês de abril. Uma jovem chamada Jeanne Dubo, empregada no serviço de minha casa como criada, sucumbia repentinamente, em minha presença, sem que eu pudesse prestar-lhe o menor socorro. Tratava-se de um caso de morte súbita, causada pela ruptura de um aneurisma.

Os pais dessa moça, pobres rendeiros que moravam e moram ainda no Departamento de Landes, tendo recebido a dolorosa notícia, chegavam em prantos a casa, no dia seguinte ao dessa triste ocorrência.

Essa primeira entrevista foi tão penosa para mim como para eles, pois sentia-me profundamente abalado com a morte dessa moça, a quem tanto me afeiçoara pela franqueza e pela doçura de seu caráter, como também por causa do zelo que demonstrava nos cuidados da minha casa.

Chegada a noite, estando eu a velar a morta, em companhia de seu pai e de sua mãe, dirigi-me ao velho Dubo, fazendo-lhe, em patuá, a seguinte pergunta:

– Diga-me, Dubo, não teve algum pressentimento à propósito da morte de Joana?

– Como é isso? – respondeu-me ele –, não compreendo.

– Sim – continuei – um sinal qualquer... que sei eu... qualquer coisa que lhe tenha podido advertir de que o ameaçava uma desgraça?

– Não – respondeu-me ele sacudindo a cabeça, nada!...

– Um sonho?... por exemplo – insisti.

– Um sonho!... Ah! esperai – disse ele, como uma pessoa que procura recordar-se –. Sim, um sonho! – murmurou depois, voltando a cabeça para o lado de sua mulher, que se achava deitada, vestida, num colchão: – Ouves Marcelina? Teu sonho, hein!”

Soluços abafados responderam a essa interrogação. Contou-me, então, que uma noite – fora isso há uma dezena de dias –, sua mulher sonhara que a filha estava morta; que, durante o sonho, ela gemera e chorara lágrimas ardentes e que, mau grado os esforços que fizera para consolá-la, sua mulher conservou até o amanhecer a idéia de que sua filha estava morta. Seguiu-se uma forte enxaqueca, que durou vários dias.

Este sonho, que de alguma sorte eu adivinhara, e que a esposa de Dubo tomara por uma realidade, devia assim tornar-se, com efeito, dez ou doze dias mais tarde.



Justin Mano
Tesoureiro-cobrador, em Belin (Gironde).”

(Carta 406)

XXXIV – “Em 1865, achava-me na Inglaterra, como professora em um internato; contava 18 anos. O clima não me convinha, sentia-me doente e os meus pensamentos volviam-se constantemente para a França.

Fora à Inglaterra com o intuito de aí permanecer por dois anos, o tempo necessário para aprender o inglês; aí estava desde o mês de janeiro, quando, exatamente no fim de julho, sonhei que me era preciso estudar rapidamente, porque não devia permanecer muito mais tempo nesse país, mas sem conhecer o motivo que me obrigaria a partir.

Tal sonho me preocupou e afastei-o de meu pensamento, dizendo que todo o sonho é enganoso.

A 13 de agosto seguinte, morreu minha mãe e eu precisei, com efeito, voltar à França.



Léonie Serres, nascida Fabre Deaux,
Cantão de Vézénabres (Gard).”

(Carta 486)

XXXV – “Em sonhos vi e percorri detalhadamente um país que me era desconhecido. Mais tarde pude controlar essa... visão e verificar que era exata e precisa. Se o desejardes, entrarei em detalhes.

Abdou Grau
Ain Beida (Constantine).”

(Carta 496)

XXXVI – “Há justamente dois anos, ocupando eu um lugar na América, estávamos em vilegiatura no Maryland, quando uma noite vi em sonho uma grande porta monumental que fechava a entrada de vasta floresta e, a dois passos dessa porta, a casinhola de um guarda de mata. Contei meu sonho na manhã seguinte à Srta. S., de quem eu era professora, dizendo-lhe que, sem dúvida, voltaria breve à Europa.

Mas qual não foi a minha surpresa quando, no ano passado, estando, na verdade, de retorno e tendo sido nomeada para Cracóvia, partimos para o campo, no mês de junho. Alguns dias depois de nossa chegada, uma jovem aluna minha, de 14 anos, disse-me:

– Vinde, senhora, quero mostrar-vos a bela floresta de T., pertencente ao conde P.

Para lá nos dirigimos e, à entrada da floresta, reconheci aquela porta que tanto me impressionou por ocasião do sonho, exatamente um ano antes.

– Maria – disse eu à minha aluna – vi esta porta há um ano, muito longe daqui, em sonho – no que achou ela muita graça.

Rogo-vos não publicardes o meu nome.



L. R. (Morávia, Áustria).”
(Carta 499)

XXXVII – “Suponho que seja útil assinalar-vos dois fatos bem característicos, relativos ao pressentimento que tiveram em sonho duas pessoas do meu inteiro conhecimento.

A. – A primeira pessoa sonha que seu pai faleceu. Um mês depois seu pai morre nas mesmas circunstâncias que acompanharam o sonho.

B. – A segunda sonha (uma senhora) que seu filhinho acaba de morrer, na véspera do dia em que realmente ele falece e sempre nas mesmas circunstâncias do sonho.

G. Vian
Antigo secretário da Sociedade
Científica Flammarion, de Marselha.”

(Carta 509)

XXXIX – “Tive, em fevereiro ou março de um dos últimos anos, a visão, em sonho, de uma amiga íntima, trajando luto fechado de um de seus parentes. Assisti nessa noite a todas as peripécias que se podem experimentar em uma viagem de retorno, em meio da noite, vendo-a no meu sonho, com seu filho, vagando, em meio de uma gare, no escuro da noite, à procura de veículos ou meios de transporte, para chegar a casa antes da cerimônia fúnebre.

Cinco meses depois, constatei a completa realização de meu sonho. Essa pessoa, a quem dedico a mais elevada afeição, experimentou, nas circunstâncias relatadas, todos os desassossegos, tormentos e agonias de que eu a vi assoberbada com seu filho. O membro de sua família, que ela perdera, estava, aliás, muito doente, mas estava-se longe, contudo, de imaginar um desenlace tão próximo.

A realização, conquanto não tenha sido muito rápida, produziu-se, entretanto, no espaço de poucos meses.

De onde vem, pois, essa presciência do futuro, manifestada nos sonhos?



M. P. H. D. M. (Romans).”
(Carta 527)

XL – “Dirigia-me ao colégio, do qual era aluno externo, vendo-me, em sonho, a atravessar a Praça da República, em Paris, com um guardanapo no braço, quando, exatamente defronte dos Armazéns do Pauvre-Jacques, passou um cão perseguido por um bando de garotos que o maltratavam. Contei exatamente o número: oito. Os empregados começavam a desempenhar suas funções, uma vendedora das quatro estações passava com seu carro cheio de frutas e de flores.

No dia seguinte, pela manhã, dirigindo-me ao colégio, vi em idênticas circunstâncias, na mesma praça, a cena que tinha visto em sonho. Nada aí faltava: o cão corria pela sarjeta, os oito garotos o perseguiam, a vendedora das quatro estações subia com o seu carro, em direção ao bulevar Voltaire e os empregados do Pauvre-Jacques dispunham os seus tecidos à porta da loja.



Ed. Hannais
Av. Lagache, 10, Villemomble (Seine).”

(Carta 549)

XLI – “Pelos anos de 1827 ou 1828 achava-se meu pai em Nancy. Existia na época uma dessas loterias, depois interditas, nas quais era preciso determinar, ao tomá-los, os números em que se desejava jogar. Meu pai estava fortemente inclinado a tentar a sorte, mas ainda hesitava, quando uma noite viu, durante o sono, destacarem-se dois números em caracteres fosforescentes sobre uma das paredes do seu quarto. Vivamente impressionado, resolveu ir, logo que se abrissem os guichês, pedir os números sonhados. Escrúpulos de delicadeza retiveram-no à porta. Não pôde deixar, entretanto, após a extração da loteria, de ir informar-se dos seus resultados. Os números com que ele havia sonhado tinham saído na ordem em que lhe apareceram, dando um prêmio de 75.000 francos.

Srta. Meyer
Niort (Deux Sèvres).”

(Carta 554)

XLII – “Fomos a Paris, minha mulher e eu, em maio de 1897, passar alguns dias, e detivemo-nos em Angers, na casa de uns parentes. Pela manhã do dia fixado para a nossa partida para Paris eu estava nesse estado de delicioso adormecimento, no qual nos comprazemos, quando temos a vaga idéia de que a vida renasce em torno de nós e muito confortavelmente repousamos deitados em boa cama. Não me achava acordado; cochilava. De repente ouvi uma voz fresca e de bom timbre cantando uma romança deliciosa que me encantou; essa ária me pareceu tão bonita que lamentei ter acordado. Eu estava em êxtase.

Em minha imaginação atribuí esse canto a um jovem aprendiz que se tivesse detido sobre o cais, exatamente sob as minhas janelas, para cantar.

Chegados a Paris nesse mesmo dia, fomos passear a noite em um café-concerto dos Campos Elíseos. Imaginai o meu espanto quando, a meio do espetáculo, ouvi um artista cantar a mesma ária que ouvira em sonho pela manhã. Afirmo que eram absolutamente as mesmas notas.

Essa ária era-me completamente desconhecida na véspera e depois não mais a ouvi.

Emile Soux
Rua Victor Hugo, 6, Carcassone.”

(Carta 558)

XLIII – “Eu tinha, em 1871, um irmão de 20 anos, médico militar no hospital de Montpelier. Meu desgraçado irmão veio a cair doente. Chamaram meu pai por telegrama, pois meu irmão estava com a febre tifóide. Esgotado pelas emoções e pelas fadigas da guerra, ficou bem depressa em estado grave, mau grado os cuidados de que foi rodeado.

A 1º de dezembro disse ele a meu pai, que não saía de sua cabeceira:

– Vejo três ataúdes no quarto.

Disse-lhe papai:

– Enganas-te, meu bom amigo, estás vendo berços.

Devo esclarecer-vos que eu tinha uma irmã primogênita, casada há três anos, que tinha um gentil garotinho de 13 meses, muito bem disposto, e um outro de 8 dias.

No dia seguinte meu irmão piora e expira nos braços de meu pai. Este regressa a Douai após o enterro e encontra o meu pequeno sobrinho morrendo de crupe; o segundo, soberbo de saúde, sucumbiu a seu turno.

Eis aí, portanto, os três túmulos vistos por meu pobre irmão. Aí se acham descritos, textualmente, os fatos como se passaram.



Berthe Dubrulle
Rua de l’Abbaye-des-Près, Doual.”

(Carta 573)

XLIV – “A. – Em 1889 era eu inspetor das estradas distritais no Departamento de Lozère. Achando-me em viagem de inspeção em Saint Urcize (Cantal), tive, pela meia-noite, a impressão de uma voz que me disse: “Teu pai morreu”. Regressei à casa, dois dias depois, muito preocupado; não havia nenhuma notícia desagradável a respeito de meu pai, residente em uma comuna afastada; mas dois dias depois (creio) de minha chegada, recebi um telegrama chamando-me para junto dele, gravemente enfermo de uma congestão pulmonar. Parti imediatamente, mas só cheguei dez a doze horas após o falecimento.

Se houvesse partido logo em seguida ao aviso recebido em sonho, teria podido passar cerca de 36 horas com meu pai antes da sua morte. Não tenho necessidade de dizer-vos quanto lamentei não tê-lo feito.



B. – Contava eu 21 anos; ia ser sorteado. Na véspera sonhei com o número 45, que me foi dado no dia seguinte. Isso parece indicar-me que as operações que se julgam subordinadas meramente ao acaso estão submetidas a outras leis. Por outro lado, entre o momento do sonho e o momento em que tirei o número da urna passaram-se muitas operações com o objetivo de entregar ao acaso a aplicação dos números. Como se compreende que não tenham elas modificado o que parecia resolvido na véspera?

Guibal
Inspetor distrital em Belizane, Argélia.”

(Carta 584)

XLVI – “Em 1893, tinha eu minha filha em Paris, na Escola de Odontologia. Conquanto estivesse com 20 anos, não manifestava ela disposição alguma para o casamento. Tive, a 2 de janeiro, um sonho realmente estranho. Via chegar minha filha, que estava em férias, às 5 horas da manhã (ela jamais viera por esse trem); vi-a entrar em meu quarto, coberta com um grande manto listrado que eu não conhecia. Aproximou-se da minha cama, abraçou-me e me disse:

– Mamãe, quero casar-me; amo, sou amada e, se o não desposar, morrerei por essa causa.

Fiz-lhe todas as minhas advertências, dizendo-lhe que seria mais prudente esperar pelo fim dos estudos, para não interromper o seu curso. Nada consegui; ela insistiu de tal modo que, em meu sonho, aquiesci ao seu desejo.

No dia seguinte, ao despertar, voltou-me o sonho à memória. Contei-o logo à minha empregada e a uma operária que eu tinha em casa, e acrescentei:

Tanto vale sonhar como enganar. Mas não importa; não escreverei sobre esse sonho à minha filha, com receio de lhe despertar a idéia do casamento.

No fim de julho do mesmo ano recebi uma carta de minha filha, informando-me de que ela havia passado, com êxito, nos exames do 2º ano e que voltaria a casa nessa mesma noite, pelo trem que tomava habitualmente e que chegava a Saint Amand às 12:49 da noite. Esperamo-la, mas em vão.

Às 5 horas da manhã somos despertados por um forte soar de campainha. A criada vai atender e minha filha entra em meu quarto, coberta com um guarda-pó listrado que comprara alguns dias antes. Abraça-me e me repete, palavra por palavra, as expressões que me viera dizer, a 2 de janeiro, em sonho. Eu não estava completamente acordada e lhe dei esta resposta:

– Mas tu já m’o disseste!

– Como poderia ter-te falado nisso? Há apenas oito dias que tomei esta decisão!

Imediatamente me lembrei do sonho; a minha empregada relatou-o. Mas minha filha não se mostrou surpresa, dizendo-me que eu já tinha visto em sonho o que deveria suceder muito tempo depois. Efetivamente, eu vira Saint Amand, que não conhecia, assim como os apartamentos que atualmente ocupo, dois anos antes de vir habitá-los.



Sra. Bovolin
Saint Amand (Cher).”

(Carta 607)

XLVII – “A. – Há alguns anos tínhamos uma amiguinha, a quem sua mãe acabava de levar ao internato, em Écouen. Sonhei nessa época que via a menina passar na rua. Admirava-me de sua presença, sabendo que havia partido e (sempre em sonho) sua mãe veio dizer-nos: “Não pude conformar-me em deixar minha filha no internato, fui buscá-la.”

Um ou dois dias depois desse sonho recebemos a visita dessa senhora. Disse-lhe eu:

– Margarida vai bem no internato?

Respondeu-nos ela:

– Não sabeis o que acabo de fazer: é que não me pude conformar em deixá-la no internato e a vim buscar.

B. – Em Toul, onde residíamos, havia um mendigo que me impressionava estranhamente; inspirava-me uma grande aversão, porquanto era repugnante física e moralmente. Uma noite sonhei que batiam à porta, à noite, e na obscuridade pareceu-me reconhecer a silhueta desse mendigo, que me disse: “Senhorita, estou sem abrigo; podeis dar-me uma pousada para esta noite?”

No dia seguinte, à noite, não mais em sonho, mas em realidade, achava-me na sala de jantar com minha irmã e uma priminha, quando ouvi barulho do lado da porta da cozinha. Fui ver. O mendigo lá estava e disse-me:

Não tenho abrigo, podeis dar-me uma pousada por esta noite?

Srta. Hubert (Nancy).”

(Carta 608)

XLIX – “A. – Com a idade de 11 anos sonhei que me achava perto de um bosque, ao cair da noite, tendo diante de mim uma parede. Estava a sós e tinha vontade de chorar. Alguns meses mais tarde achei-me nesse mesmo local e em idênticas circunstâncias.

B. – Em 1882, vindo de ser promovido a sub-oficial no 119º (Havre), sonhei que era professor; achei graça no sonho, pois não tinha elementos para conseguir isso. Dois anos depois achava-me em Stains, como professor e com as crianças que tinha visto.

C. – Em 1893 batia eu à porta do quarto do meu pai (residente em Faux-la-Montagne, Cantão de Gentioux, Creuse), recém-chegado da Martinica, após 9 anos de ausência. Pergunta-me ele, sem reconhecer-me, quem sou e o que quero.

– Sou um viajante e trago-vos notícias de vosso filho que está na Normandia.

– E o da Martinica?

– Não tenho notícias dele. Por que me perguntais isso?

– É porque esta noite sonhei estar vendo-o, aí, perto da porta, como o estás agora.

E caiu em pranto. É preciso notar que ele falara desse sonho ao despertar e antes de ter-me visto. A minha volta não tinha sido anunciada de modo algum.



Legros
Diretor de escola, em Gros-Morne, Martinica.”

(Carta 619)

LII – “Alguns dias após meu casamento, disse-me a esposa:

– É extraordinário, mas eis que há cerca de seis meses sonhei que me casava contigo. cheguei mesmo a fazer a narrativa do sonho a minha mãe, no dia seguinte pela manhã, e nos rimos do caso, tendo minha mãe declarado: “Oh! é provável que esse moço não pense em ti!”

Ora, notai que não nos tínhamos, até essa data, jamais falado; que não nos conhecíamos, embora residindo na mesma localidade, que nos tínhamos visto somente de longe, por acaso, e que não freqüentávamos nenhum amigo comum.

É, portanto, assaz extraordinário que essa moça tenha sonhado a respeito de uma próxima união comigo. Entretanto, esse sonho teve a sua realização.103



T. (Villeneuve sur Yonne).”
(Carta 623

LIII – “Pedistes que sejam trazidos ao vosso conhecimento os fatos inexplicados, a respeito dos quais não se tenha dúvida, concernentes aos sonhos, e outras observações da mesma ordem. O que vou dizer-vos talvez não tenha para vós importância alguma, nem vos interesse; mas, se todo mundo pensasse assim e nada dissesse, vosso apelo seria inútil e a Ciência não avançaria. Venho, pois, escrever-vos o que sei, unicamente rogando-vos que não publiqueis o meu nome, se por acaso fizerdes uso de minha carta; resido em pequena cidade e prefiro o silêncio.

A. – No mês de janeiro de 1888, achava-me grávida desde uma data absolutamente desconhecida, por motivos especiais. Achando-me muito incomodada, mandou meu esposo chamar a parteira, que me disse:

– Creio que será para breve.

Trata-se de uma senhora muito instruída. No dia seguinte eu ia bem. A 1º de fevereiro repetiu-se o incidente, e minha irmã, um ano mais moça do que eu e solteira, disse-me pela manhã (ela ignorava que eu ainda estivesse sofrendo e residia em outro bairro):

– Esta noite, não me parece que tenha sido sonho, conquanto eu não estivesse desperta, disse-me alguém: “Vossa irmã não se deve inquietar com essas indisposições, a criança nascerá a 22 de junho.”

E acrescentou:

– Repliquei àquela voz: Mas, uma vez que estais tão bem informado, dizei-me, será um rapaz ou uma menina? Responderam: “Não o sei, mas não ficareis muito contentes.”

Tínhamos dois filhos e desejávamos ardentemente uma filha. Naturalmente todos nós achamos graça no que minha irmã nos disse e, como as minhas indisposições continuassem, fazia os meus preparativos.

Mas, como fossem passando os meses de fevereiro, março, abril, deixamos pouco a pouco de rir de minha irmã, que suportava as nossas zombarias sem abalar-se em sua convicção; acabamos mesmo concluindo que ainda dessa vez seria um rapaz, pois que não devíamos ficar contentes, e acreditamos tanto em sua predição que a 21 de junho armei o berço e preparei tudo para o dia seguinte.

A 22 de junho, pelas 10 horas da manhã, veio ao mundo a criança. Era uma menina, que foi aclamada, mas tive logo em seguida uma hemorragia que me levou à beira do túmulo. Dois dias depois meu primogênito foi acometido de bronquite; minha irmã, pela primeira vez em sua vida, ficou doente; em seguida meu segundo filho teve o crupe e foi operado; saindo minha irmã muito cedo para vê-lo, teve uma angina diftérica muito grave e, enfim, meu pai, três meses depois, sofreu um acidente de que veio a morrer: não nos sentíamos, portanto, de certo muito felizes.

B. – Tinha três semanas a minha filha; eu não podia mais amamentá-la, devido a abcessos do peito; meu marido devia ir a Manosque ver uma ama que nos inculcaram e trazê-la no mesmo dia. Era uma sexta-feira, 13 de julho. Ao despertar, senti-me inquieta por causa de um sonho extravagante que tive. Meus filhos iam bem, estando o primogênito em convalescença e o segundo, admirável criança, como um verdadeiro mimo. Eu disse a meu marido:

– Coisa estranha, esta noite sonhei que estava em uma cidade desconhecida, procurava a pajem de René e me disseram: “Como é sábado, ela foi lavar.” Eu a buscava inquieta e, encontrando-a a sós, perguntei-lhe: “E René, que fizeste dele?” Clotilde respondeu: “Senhora, deixei-o atrás dessa parede.” Fui correndo procurá-lo, ele estava deitado contra a parede, inteiramente nu, o corpo negro como que de fuligem e um buraco na garganta, de onde saía a traquéia-artéria: não estava, entretanto, morto.

Meu marido riu-se do meu sonho e da inquietação que ele me trazia. Pelas 4 horas da tarde, René, que não saíra, brincando com seu pai, foi acometido de um acesso violento de tosse, que o sufocava; mandei depressa chamar um médico. Imediatamente declarou-se o crupe.

As 2 horas da manhã de sábado, 14 de julho, os quatro médicos se preparavam para fazer a operação de traqueotomia: ainda não havia sido descoberto o sérum. A criança, inteiramente nua, foi deitada em uma mesa, teve o pescoço aberto e uma cânula de prata introduzida na traquéia-artéria; quase terminada a operação, tendo-se desprendido a traquéia do colchete que a mantinha, foi a criança sufocada pelo sangue, seu corpo tornou-se todo negro. Felizmente, uma forte dose de ipeca provocou uma tosse que, fazendo a traquéia elevar-se, permitiu segurá-la.

Durante a operação, inclinando-se meu marido para mim, dize-me:

– Valentine, teu sonho de ontem, de que eu fiz tanta caçoada!...

Hoje o menino está crescido e muito bem disposto.

Sra. X. (Forcalquier).”

(Carta 632)

LV – “O Sr. A., juiz de Direito, contou certa manhã à sua esposa e à sua filha (a Sra. M., de quem ouvi a narrativa) o seguinte sonho:

– Tomava eu um carro na vila, quando vejo diante da casa D. dois ataúdes e um cortejo fúnebre que os acompanhava; reconheci quase todos os assistentes: o prefeito, os juízes, as autoridades municipais, os parentes. Perguntei a um transeunte: Quem morreu na família D.? “Então não sabeis? – foi-me respondido – A Sra. D. e seu filho morreram no mesmo dia e realiza-se hoje o enterro.”

Nesse mesmo dia, chegando à vila, o Sr. A. viu, com efeito, dois ataúdes diante da casa D. e os assistentes exatamente como os reconhecera em sonho. Não ousava quase perguntar quais eram as pessoas falecidas, pois estava antecipadamente certo de ouvir as palavras de seu sonho. Decidiu-se afinal a deter um transeunte e fazer-lhe a pergunta, sendo-lhe respondido:

– Então não o sabeis? A Sra D. e seu filho morreram no mesmo dia e realiza-se hoje o enterro.

O que me pareceu interessante nesse sonho é que as palavras ouvidas nele foram exatamente as mesmas que na realidade; houve, portanto, ao mesmo tempo visão e audição premonitórias.

Podeis estar certo da perfeita autenticidade do fato. A família A. ficou tão impressionada com isso que lhe conservou uma recordação absolutamente precisa.



H. Besson
Pastor em Orvin-près-Bienne, Suíça.”

(Carta 640)

LVI – “Sonhei que, estando a andar de bicicleta, veio um cão lançar-se de encontro à roda, e eu cai, quebrando o pedal da máquina.

Pela manhã, contei o ocorrido à minha mãe que, sabendo quanto habitualmente os meus sonhos são exatos, me convidou a ficar em casa. Resolvi, efetivamente, não sair, mas pelas 11 horas, no momento de nos sentarmos à mesa, o correio trouxe uma carta informando-nos de que minha irmã, residente a cerca de 8 quilômetros, se achava doente. Esquecendo de repente meu sonho, para não pensar senão em saber notícias de minha irmã, almocei à pressa e parti de bicicleta. Minha viagem realizou-se sem incidente algum até o lugar em que me vira, na noite precedente, rolando no pó e quebrando a minha máquina. Apenas meu sonho me atravessou o espírito e enorme cão desembocou subitamente de uma propriedade vizinha, procurando morder-me a perna. Sem refletir, eu quis dar-lhe um pontapé, mas no mesmo instante perdi o equilíbrio e caí sobre a bicicleta, quebrando-lhe o pedal, realizando assim meu sonho em seus mínimos detalhes. Ora, peço-vos que noteis o seguinte: era bem a centésima vez, pelo menos, que eu fazia esse trajeto, sem que jamais tivesse a deplorar o menor acidente.



Amédée Basset
Notário em Vitrac (Charente).”

(Carta 643)

LVII – “O marechal Vaillant, que não era nem um visionário, nem um espírito apoucado, afirmou a um de meus amigos que mais de uma vez me contou isso, que, partindo para o assédio de Roma, cujas operações estava incumbido de dirigir, e ignorando completamente os trabalhos executados para fortificar a praça, vira muito distintamente em sonho, antes de chegar à Itália, o lugar preciso por onde deveria começar o ataque. Era, com efeito, como o reconheceu depois, o ponto mais fraco da defesa.

Relato-vos o fato sem comentários; vós o classificareis sem dúvida na categoria das auto-sugestões.104



B. Kirsch
Diretor aposentado, em Semur (Côte d’Or).”

(Carta 667)

LVIII – “A. – Minha mãe, nascida em 1800, morta em 1886, teve as febres em 1811, quando estava no internato em Aire-sur-la-Lys. Em um acesso de delírio, viu-se em casa de sua mãe, a Sra. Campagne, nascida Maria Luíza de Launoy de Linghem, em Estrée-Blanche (Pas-de-Calais) e pediu em grandes gritos que a levassem, porque a casa estava pegando fogo.

Ora, um ano depois, em 1812, a casa d’Estrée incendiava-se realmente e minha mãe tornava a ver o incêndio exatamente como o tinha visto no delírio da febre, em 1811.

O corpo principal do edifício e uma das alas foram reduzidos a cinzas; a outra ala foi preservada, tendo sido aí que a minha avó se alojou provisoriamente, mau grado sua numerosa família. Minha mãe nunca mentiu, que eu saiba; ela me contou isso um número incalculável de vezes, e não somente ela, mas também os meus tios e minhas tias. O edifício preservado do fogo ainda existe.

B. – Pelo mês de julho de 1887, suponho (poder-se-ia saber a data exata na mairie de Saint-Omer), residia eu então em Tatinghen, aldeia situada a 4 quilômetros daquela cidade. A Srta. Estelle Poulain, que mora em minha casa desde 1873, viu em sonho sua tia, a Sra. Leprêtre, nascida Honorina Hochart, que lhe falava. A Srta. Poulain não podia distinguir seus traços, mas sabia que era bem sua tia. Despertou em sobressalto e, quase ao mesmo tempo, soaram 3 horas (da manhã) no relógio do seu quarto.

Entre meio-dia e 1 hora, o tio da Srta. Poulain, Sr. Noel Leprêtre, chegou a minha casa para comunicar-lhe que sua esposa e tia daquela senhorita, Honorina Hochart, morrera pela manhã, um pouco antes das 3 horas, tendo dito à irmã de São Vicente de Paulo, que a tratava:

– Que desgraça! não mais verei minha sobrinha Estelle!

Ora, a Srta. Estelle Poulain, afirmo-o sob palavra de honra, contara-me o seu sonho muito tempo antes da chegada de seu tio...



Léon Leconte
Redator-chefe d’
O Estudante, Paris.”
(Carta 725)

LX – “Fui, em 1882, bruscamente separado de uma pessoa que me era muito querida e, certa vez, no lapso dessas semanas em que estive mergulhada no mais profundo acabrunhamento, ouvi uma voz desconhecida dizer-me: “Dentro de um ano, contado dia a dia, essa pessoa voltará a ti.”

Foi isso no mês de maio e, no ano seguinte, pela mesma época, encontro na rua a referida pessoa que, à minha vista, experimenta uma emoção tão viva como a que eu própria experimentava. Entramos em explicações, queixas, remorsos, por fim reconciliação e desde essa hora não tive amigo mais devotado e cujo arrependimento fosse mais sincero.

Tenho tido, durante o sono, visões a distância, de cidades onde em seguida tenho ido (muito surpresa de ver monumentos e ruas já vistos quando dormia), como Bruxelas, por exemplo, que visitei um ano antes de aí ter estado.

H. Poncer
Rua Paadis, 457, Marselha.”

(Carta 748)

LXI – “A. – Minha pobre mãe morreu na noite de 17 de setembro de 1860, às 3 horas da madrugada, tendo conservado íntegra a memória e tendo nítida consciência do que se passava ao seu derredor. Um pouco antes de morrer, procurou-me com o olhar, parecendo que seu sofrimento era dilacerante; grossas lágrimas corriam-lhe pelo rosto (isso me foi contado mais tarde).

Ora, nessa mesma noite, 17 de setembro de 1860, às 3 horas da manhã, acordei em sobressalto, crendo ouvir minha mãe chamar-me, e isso repetidas vezes; levantei-me da cama gritando: “Mamãe, mamãe!”, o que despertou meu companheiro de cama, depois, como uma massa, caí por terra. Foi necessário fazerem-me voltar de uma síncope que não durou menos de vinte minutos.



B. – Estava-se em 1869, no momento do plebiscito. Tive, certa noite, um sonho, para melhor dizer: um pesadelo horrível. Nesse pesadelo, eu me via soldado. Estávamos em guerra; eu experimentava todas as agruras da vida militar: a marcha, a fome, a sede; ouvia as vozes de comando, a fuzilaria, o estampido do canhão; via os mortos e os feridos caírem ao meu lado, ouvindo-lhes os gritos.

De repente, encontrei-me numa região, numa aldeia onde tivemos de suster um ataque terrível do inimigo. Eram prussianos, bávaros, cavaleiros (dragões badenses) – notai bem que jamais tinha eu visto desses uniformes e que não se tratava absolutamente de guerra. Em dado instante vi um dos nossos oficiais subir ao campanário da aldeia, munido de um binóculo, para observar os movimentos do inimigo, depois descer, formar-nos em coluna de ataque, ordenar o toque de avançar e lançar-nos para frente, a marche-marche, numa carga de baioneta, contra uma bateria prussiana.

Nesse instante do meu sonho, achando-nos engalfinhados corpo a corpo com os artilheiros daquela bateria, vi um deles desferir-me um golpe de sabre na cabeça, tão formidável que a separou em duas partes. Foi então que despertei, caindo da cama: experimentava uma forte dor de cabeça. Ao cair da cama bati com a cabeça em uma pequena estufa que me servia de mesa.

A 6 de outubro de 1870 esse sonho realizou-se: aldeia, escola, mairie, igreja; o nosso comandante subindo ao campanário para observar as posições do inimigo, depois descendo e, ao toque de avançar, arrojando-nos, a baioneta calada, contra as peças prussianas. Em meu sonho, nesse mesmo instante, eu tivera a cabeça rachada por um golpe de sabre! Aqui, realmente, eu o esperava; mas não recebi mais do que um golpe de lanada (talvez destinado à cabeça) que, repelido a tempo, veio ferir-me a coxa direita.



A. Régnier
Antigo sargento-mor da Companhia dos
Franco-atiradores de Neully sur Seine.
Rua Jeanne Hachette, 23, Havre.”

(Carta 782)

LXIII – “Em 1867, estava eu em Bordéus, à frente de uma farmácia que abrira havia alguns meses. Uma noite vi em sonhos os algarismos 76 fr. 30 inscritos no livro da receita, no lugar onde se devia inscrever a receita do dia seguinte. Pela manhã desse dia eu estava vendo tão bem gravada essa cifra em meu espírito que não pude deixar de falar a respeito ao meu ajudante. Sendo a receita ordinária em média de 45 francos, pensamos que os algarismos 76 fr. 30 deviam representar a soma de dois dias. O trabalho durante o dia foi igual ao dos dias precedentes, mas à noite a farmácia regurgitava de gente. Enfim, às 10:30, depois de despachado o último cliente (centésimo, pelo menos), contei a féria e achei exatamente 76 fr. 30.

O Sr. Jaubert, de Carcassonne, a quem contei o fato, fez-me notar que teria sido necessário o concurso de espíritos muito numerosos para conseguirem: atrair clientes, impedir que outros chegassem, devendo seguramente figurar um caixa entre os operadores.105 Lembro-me de uma circunstância. Uma jovem senhora, que eu sabia muito segura, comprava artigos e mais artigos, como que parecendo obedecer a uma inspiração. Enfim terminou! Esta compradora era a última, provavelmente era necessário o seu dinheiro ao caixa espiritual.



A. Coméra (Toulouse).”
(Carta 788)

LXIV – “Perdi meu pai em 1865 e tornei-me chefe de família, com dois irmãos de menor idade.

O mais moço, Aristides, nascido em 1853, fazia parte da classe de 1873, sendo sorteado em 1874. Ele não tinha querido apresentar-se como voluntário e aguardava a sorte para fazer, quer seis meses, quer cinco anos de serviço militar ativo.

Essa alternativa preocupava muito minha pobre mãe, que a esse respeito conversava comigo todas as vezes que me encontrava junto dela, em Nieuil-sur-l’Antise (Vendéia) aos domingos, tendo então o meu tabelionato em Niort.

Com a preocupação de amparar meu irmão – como um pai – por ocasião de seu sorteio militar, na terça-feira, 10 de fevereiro de 1874, parti de Niort, segunda-feira, para Nieuil. Depois do jantar, durante o qual a conversação girou em torno dos sucessos do sorteio, fui-me deitar, cerca de 10 horas. A preocupação sem dúvida me levou a sonhar e vi distintamente meu irmão Aristides introduzindo a mão na urna, retirando um número e mostrando-me os algarismos consideravelmente elevados de 67.

Desperto em sobressalto, acendo a vela e, vendo a hora, constato que são 3 horas da manhã.

Levantando-me às 8 horas, dei parte do meu sonho à minha mãe, ao meu irmão, ao guarda-matas e aos conscritos da comuna, que muito se riram dele.

Mas exatamente às 3 horas da tarde, do mesmo dia, na sede do cantão de Saint-Hilaire-des-Loges (Vendéia), meu irmão tirava da urna o famoso número 67 e mostrava-mo com o mesmo gesto que fizera no sonho de 12 horas antes; e, coisa igualmente extraordinária, o número 66 foi o último do contingente que devia fazer 5 anos de serviço ativo, ao passo que meu irmão tirou um número que o obrigava a seis meses de serviço na Artilharia, em Brest.

Alfredo Cail
Avenida de Wagram, 154, Paris.”

(Carta 802)

LXV – “A. – Uma de minhas tias-avós, hoje falecida, teve, durante sua vida, freqüentes pressentimentos que se realizaram. No mês de fevereiro de 1871, teve ela um sonho anunciando-lhe a morte próxima de duas de suas irmãs, que estavam, na ocasião, de perfeita saúde. Esse sonho foi transcrito em um livro de memórias em que tinha ela o costume de anotar todos os acontecimentos de sua vida, e realizou-se ele, infelizmente, de uma forma terrível.

Um mês depois, como se pode verificar pelos jornais da época, irrompia a febre amarela em Buenos Aires e as duas irmãs foram vítimas da epidemia.



B. – Uma outra vez, em 1868, a mesma parente viu em sonho uma cena de interior, que era uma completa revelação. O quadro representava um compartimento, onde uma de suas amigas, a Sra. B., sentada em sua poltrona, perto do fogão, no qual flamejava um grande fogo, acariciava uma criancinha que estava em seus braços, enquanto uma serviçal enxugava suas fraldas diante das chamas.

Esse sonho foi narrado a diversas pessoas, sem que nenhuma delas lhe prestasse grande atenção, porquanto a Sra. B., mãe de numerosa família, já tendo passado dos 40 anos e não tendo tido filhos há mais de sete, não parecia mais suscetível de ter outros. Entretanto, o que parecia no momento impossível realizava-se um ano depois, e uma noite em que minha tia-avó foi visitar a parturiente, para felicitá-la pelo nascimento do recém-nascido, tornou a ver, como realidade, o que precedentemente fora sonho. O compartimento, a disposição dos objetos, o fogão aceso, a serviçal ocupada em secar as fraldas diante do fogo, enfim todos os detalhes do sonho estavam fielmente reproduzidos. A adivinhação realizara-se com exatidão completa.



Emílio Becher
Rosário de Santa Fé (República Argentina).”

(Carta 825)

LXVII – “Fui educado em Paris, onde meus pais eram negociantes estabelecidos com casa de vinhos e laticínios, à rua Saint Ambroise, nº 7. Meu pai faleceu em 1867. Minha mãe e eu deixamos Paris em 1872. Eu tinha também um tio, irmão de meu pai, falecido depois deste, e que era estabelecido com especiarias à rua Saint-Roch, nº 32.

A. – Em 1868, tinha então 17 anos, estava eu empregado na casa desse tio, como caixeiro. Certa manhã, depois de lhe haver dado bom-dia, ainda sob a impressão de um sonho que tivera à noite, contou-me ele que no aludido sonho se achava na soleira de sua porta quando, ao voltar seus olhos na direção da rua Neuve-des-Petits-Champs, vê desembocar um ônibus urbano da Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte, que se detém diante da porta de seu armazém. Sua mãe desce e o ônibus continua sua viagem, conduzindo uma outra senhora que estava na viatura com minha avó, cuja senhora, vestida de preto, mantinha um cesto sobre os joelhos.

Ambos achamos muita graça nesse sonho, tão em desacordo com a realidade, porquanto jamais minha avó se aventurara a vir da gare do Norte até à rua Saint-Roch. Residindo perto de Beauvais, quando ela queria vir passar uns tempos com seus filhos, em Paris, escrevia de preferência a meu tio, que era aquele a quem mais queria, e ele ia esperá-la na estação, de onde a trazia, invariavelmente, de fiacre. Ora, naquele dia, à tarde, como estivesse meu tio à porta, olhando os transeuntes, voltam-se seus olhos maquinalmente para a esquina da rua Neuve-des-Petits-Champs e ele vê rodar um ônibus do caminho de ferro do norte, que vem parar defronte de seu armazém.

Nesse ônibus achavam-se duas senhoras, das quais uma era minha avó, que desce, continuando o veículo sua viagem com a outra senhora, tal como ele tinha visto em sonho, isto é, vestida de preto e tendo seu cesto sobre os joelhos.

Imaginai a estupefação geral! Minha avó, crente de nos fazer uma surpresa, e meu tio contando-lhe o sonho!



B. – Durante o assédio de Paris, achava-me incorporado ao 10º Batalhão do Sena. Um dia em que eu estava jantando em casa de minha mãe, encontravam-se à nossa mesa um de meus primos, então estudante de Farmácia, atualmente proprietário nos arredores de Dieppe, um de meus amigos, sargento da Guarda Móvel, um outro, desenhista, que reside atualmente no bulevar Beaumarchais, nº 1, e enfim um cliente da casa, guarda-livros de notável inteligência, sargento-mor do 192º Batalhão de Infantaria. Não me recordo mais do seu nome; chamemos-lhe Sr. X.

No fim do jantar, como falássemos da guerra e dos alemães que nos cercavam, o Sr. X. pôs-se a examinar as linhas das nossas mãos, declarando-nos que se dedicava seriamente à quiromancia e pretendendo dizer-nos se qualquer coisa de grave estava para suceder-nos durante os acontecimentos que se desenrolavam. Perguntamos-lhe naturalmente se seríamos feridos. Para três dentre nós a resposta foi negativa: os Srs. Lucas, o estudante, François, o desenhista e eu próprio. Quanto ao quarto, o sargento do Corpo Móvel, Sr. Lallier, disse-lhe o Sr. X.:

– É extraordinário! Sereis ferido seriamente, dentro de pouco tempo, mas não por uma arma; queimar-vos-eis.

– Como se dará isso?

– Não poderia dizer-vos; acidentalmente, sem dúvida – respondeu-lhe o X. E falou-se de outras coisas.

Passava-se isso pelos fins de 1870.

No corrente ano de 1871, partira para Bordéus, onde cheguei em novembro. Passando em Tours, aí me detive para ver meu amigo Lallier que estava destacado nessa cidade desde o fim da guerra. Ao vê-lo, fiquei admirado com a mudança operada em sua fisionomia, sem poder compreender bem o que poderia tê-lo assim transformado, quando ele me diz:

– Lembras-te das predições de X.? O que ele me predisse, desgraçadamente sucedeu! Há dois meses, o aprendiz do armazém praticou a imprudência de ir com uma vela acesa em um compartimento onde estavam dois garrafões de petróleo; por descuido seu, um deles pegou fogo; procurei, para evitar maior perigo, retirar o segundo, cujo líquido se inflamou. Fiquei com o lado esquerdo todo queimado, e faz apenas quinze dias que voltei ao serviço.

Cito-vos esses dois casos, como rigorosamente verdadeiros, pois que ambos se passaram em minha presença e pude controlá-los. Tenho freqüentemente falado a respeito deles aos de minha família e aos meus amigos sem poder achar-lhe uma explicação que me satisfaça, salvo, contudo, para uma parte do sonho de meu tio, depois que li vossos interessantes artigos sobre os sonhos.

Suponho que minha avó, em um momento de insônia, terá tomado a deliberação súbita de partir para Paris no mesmo dia, com a resolução de não prevenir ninguém, e, uma vez chegada à estação do norte, tomar um veículo como tão freqüentemente vira fazer-se, e isso para ter o prazer da surpresa do filho. Foi, sem dúvida, precisamente nesse momento que teria o meu tio sonhado.



Paul Leroux
Neubourg (Eure).”

(Carta 850)

LXIX – “Em 1879 meu tio Jacques Théodore Hoffmann era professor em Heerenvenn (Holanda). Meu pai, tendo ido vê-lo no começo de julho, contou-lhe sua cunhada, minha tia Margarida, antes de sua partida, que tinha visto em sonho a esposa de meu tio Jacques e seus dois filhos trajados de luto fechado, receando ela uma desgraça, pelo que lhe recomendava todo cuidado se porventura tivessem que embarcar, etc.

Meu pai e seu irmão Jacques fizeram a 7 de julho uma longa viagem a vela, nenhum acidente ocorrendo, e por esse motivo se riram um pouco do sonho de minha tia Margarida.

Dois dias depois, a 9 de julho, foram levar meu pai à estação. Lá estava uma parte da família. Meu tio Jacques, atravessando os trilhos, não prestou atenção a um trem que se afastava da gare, foi atropelado, guilhotinado, indo a cabeça rolar distante do corpo.

Minhas duas tias e os dois filhos de meu tio vivem ainda e podem, como eu, confirmar a realização desse sonho.



A. C. A. Hoffmann
Estudante de Medicina na Universidade
de Amsterdã, rua de França, 25.”

(Carta 862)

LXX – “Fui bruscamente acordado, à noite, depois do seguinte sonho: a aparição da metade de um ataúde, isolado no espaço.

A precisão desse sonho perturbou-me e me conservou mergulhado, durante toda a manhã, em certa melancolia. Contudo, os numerosos negócios que eu tinha a tratar, as numerosas voltas que dei, afastaram um pouco as idéias tristes, almocei como de costume e retornei às minhas ocupações.

Quatro horas depois, chegando, em uma dessas voltas, ao ângulo formado pelas ruas Saint-Pierre e du Plâtre (Lião) e olhando para frente, por causa dos veículos que obstavam a passagem, vi, a cerca de 25 metros, e no espaço, a metade de um ataúde.

Esse ataúde acabava de ser retirado do carro do empresário dos funerais, por um carregador, sendo que a primeira metade me estava oculta pela porta de entrada da casa.



P. C. Revel
Rua Thomassin, 39, Lião.”

Eu ia encerrar esses exemplos quando, percorrendo antigas cartas em que são tratados problemas desta natureza, acabo de encontrar uma da saudosa princesa Emma Carolath, de 5 de março de 1870, contando-me um sonho da mesma ordem e notavelmente explícito.

É o seguinte, bastante resumido:

LXXI – “Acabava eu de adormecer, muito ansiosa a respeito da saúde de uma pessoa amada, e me vi transportada em sonho a um castelo desconhecido, encontrando-me aí em uma sala octogonal alcatifada de damasco vermelho, onde havia um leito em que dormia a pessoa cuja saúde me preocupava. Uma lâmpada, suspensa da abóbada, inundava de luz a face pálida, mas sorridente, emoldurada por opulenta cabeleira negra. À cabeceira do leito, vi um quadro cujo assunto se gravou tão estranhamente em meu pensamento que, ao despertar, poderia desenhá-lo: era um Cristo coroado de rosas por um gênio celeste, contendo versos de Schiller, que pude ler.

Dois anos depois, convidada para uma vilegiatura a um castelo do interior da Hungria, detive-me, tremendo, ao penetrar no compartimento que nos estava destinado: achava-me no gabinete octogonal, alcatifado de damasco vermelho, diante do leito, e defronte do quadro do Cristo coroado de rosas, contendo os versos de Schiller. Jamais foi esse quadro copiado ou reproduzido, e era impossível que eu o tivesse visto de outro modo senão no sonho, o que, de resto, acontecia em relação ao gabinete octogonal.



Emma, Princesa Carolath (Wiesbaden).”

Depois de ter lido e comparado esse conjunto de fatos, é impossível duvidar de que se tenha visto por vezes em sonho as coisas porvindouras.

Diversos desses sonhos podem explicar-se naturalmente. Já o assinalamos. Não é mais extraordinário, por exemplo, sonhar com um número de sorteio a sair, do que com um outro, e como esses casos são muito raros, a coincidência fortuita pode, talvez, explicá-los. Seria necessário conhecer-se-lhes o número para saber se excede notavelmente o que seria dado pelo cálculo das probabilidades. Mas a maior parte das premonições que acabam de ser expostas não se explicam.

Trata-se, no caso, de visões, de sonhos que parecem ser produzidos no estado normal de saúde, ou que podem ser assim considerados, e não em estados patológicos excepcionais. Essa mesma previsão do futuro tem sido observada no estado sonambúlico e magnético. São mesmo muito numerosos os exemplos de tal previsão. Somente assinalaremos alguns dentre eles.

O Dr. Liébault cita o caso seguinte em sua Terapêutica Sugestiva:

LXXII – “Em uma família dos arredores de Nancy, magnetizavam freqüentemente uma jovem de 18 anos, chamada Júlia. Essa moça, uma vez posta em estado de sonambulismo, era por si mesma levada, como se recebesse uma inspiração a respeito, a repetir, em cada nova sessão, que uma próxima parente dessa família, por ela citada, morreria em breve e não chegaria ao dia 1º de janeiro. Estava-se então em novembro de 1883. Uma tal persistência nas afirmativas da sonâmbula levou o chefe da família em questão, que farejava nisso um bom negócio, a segurar em 10.000 francos a vida da mencionada senhora, a qual, não estando de modo algum doente, com facilidade obteria um atestado médico.

Para obter aquela soma, dirigiu-se ele ao Sr. L., a quem escreveu diversas cartas, em uma das quais contava o motivo que o induzia a fazer o empréstimo. E essas cartas, que o Sr. L. me mostrou, ele guarda como provas irrefragáveis do sucesso futuro, previamente anunciado. Acabaram, afinal, por não se entender sobre a questão dos juros e o negócio entabulado ficou indeciso. Mas, algum tempo depois, grande foi a decepção de quem desejava tomar a quantia por empréstimo. A Sra. X., que devia falecer antes de 1º de janeiro, sucumbiu, com efeito, e de repente, a 31 de dezembro, conforme faz certo uma última carta de 2 de janeiro, endereçada ao Sr. L., carta que este senhor guarda juntamente com as que recebera precedentemente, a propósito da mesma pessoa.”

O mesmo autor cita igualmente o seguinte caso, extraído textualmente de sua agenda diária. Sabe-se até que ponto o Sr. Liébault é escrupuloso e metódico observador.

LXXIII – “7 de janeiro de 1886. Veio consultar-me hoje, às quatro horas da tarde, o Sr. de Ch., por um estado nervoso, sem gravidade. O Sr. de Ch. anda muito preocupado por causa de um processo em que se acha envolvido e de outras circunstâncias que em seguida conheceremos.

Estando ele a passear em uma rua de Paris, no dia 26 de dezembro de 1879, viu escrito sobre uma porta: Mme. Lenormand, necromante. Movido por uma curiosidade irrefletida, ele entrou.

A Sra. Lenormand, examinando a face palmar de uma de suas mãos, disse-lhe:

– Perdereis vosso pai dentro de um ano, sem aumento nem diminuição de um só dia. Muito breve sereis soldado (tinha então ele dezenove anos), mas não ficareis por muito tempo sob a farda. Casar-vos-eis moço; nascer-vos-ão dois filhos e morrereis aos 26 anos.

Essa estupefaciente profecia, que o Sr. de Ch. confiou a dois amigos e a alguns dos seus parentes, não foi por ele tomada a sério; havendo, porém, seu pai falecido a 27 de dezembro de 1880, após breve enfermidade e justamente um ano depois da entrevista com a necromante, essa desgraça abateu um pouco a sua incredulidade. E quando se tornou soldado – apenas durante sete meses –, quando, pouco depois casado, se tornou pai de dois filhos e estava prestes a atingir seus 26 anos, abalado definitivamente pelo terror, acreditou que não teria mais do que alguns dias de vida. Foi então que veio consultar-me se não me seria possível conjurar a sorte, porquanto, pensava ele, se os quatro primeiros acontecimentos da predição se realizaram, o quinto devia também fatalmente realizar-se.

Nesse mesmo dia e nos dias subseqüentes, procurei mergulhar o Sr. de Ch. em sono profundo, a fim de dissipar a negra obsessão gravada em seu espírito: a da morte próxima, que ele imaginava ter de realizar-se a 4 de fevereiro, dia do aniversário de seu nascimento, ainda que a Sra. Lenormand nada houvesse precisado a esse respeito. Não pude provocar nesse homem o mais ligeiro sono, tanto estava ele agitado. Entretanto, como era urgente afastar-lhe a convicção de que devia em breve sucumbir, convicção perigosa, pois tem-se visto freqüentemente predições desse gênero cumprirem-se à risca, por auto-sugestão, mudei a maneira de agir e propus-lhe consultar um dos meus sonâmbulos, um velho chamado o profeta, pelo fato de haver anunciado a época exata de sua cura de um reumatismo articular, que o apoquentava havia quatro anos, e a própria época da cura de sua filha.

O Sr. de Ch. aceitou a minha proposta com avidez e não deixou de comparecer à hora exata à reunião. Posto em relação com o sonâmbulo, as suas primeiras palavras foram:

– Quando morrerei?

O sonâmbulo experimentado, suspeitando da perturbação desse moço, respondeu-lhe, depois de fazê-lo esperar algum tempo:

– Morrereis... morrereis... dentro de 41 anos.

Foi maravilhoso o efeito causado por essas palavras. Imediatamente o consultante se tornou alegre, expansivo e cheio de esperança; e quando viu passar o dia 4 de fevereiro, esse dia tão temido por ele, acreditou-se salvo.

Foi então que alguns dos que tinham ouvido falar dessa pungente história acabaram concluindo que nisso tudo nada houvera de verdade; que seria devido a uma sugestão pós-hipnótica que esse moço concebera a tal narrativa imaginária. Palavras no ar! Se a sorte estivesse lançada no sentido da sua morte, ele teria de morrer.

Eu não pensava mais nisso quando, em começo de outubro, recebi uma carta de participação, pela qual soube que o meu infeliz cliente acabava de sucumbir a 30 de setembro de 1886, em seu vigésimo sétimo ano, isto é, na idade de 26 anos, como o predissera a Sra. Lenormand. E para que se não suponha que algum erro tenha havido, de minha parte, no que afirmo, conservo essa carta no meu registro: são dois testemunhos escritos, irrecusáveis.”

As 22 primeiras edições desta obra publicaram a seguinte narrativa, atribuída à Sra. Leconte de Lisle, cunhada do poeta (Anais das Ciências Psíquicas, 1896, pág. 257).



LXXIV – “Um Sr. X. tivera a idéia de consultar uma cartomante. Predisse-lhe esta que ele morreria da picada de uma serpente.

Este Sr. X., empregado na administração, havia sempre recusado um posto na Martinica, ilha célebre por suas serpentes classificadas entre as mais perigosas. Afinal o Sr. B., diretor do Interior em Guadalupe, convenceu-o a aceitar uma boa posição sob as suas ordens, na administração dessa colônia que, ainda que próxima da Martinica, jamais teve serpentes.



Ninguém foge ao seu destino, diz um provérbio que se verificou, uma vez mais, ser verdadeiro. Tendo terminado seu tempo de estada em Guadalupe, o Sr. X. estava de regresso à França. Como o navio fizesse escala em Martinica, não ousou ele, sequer, descer à terra.

Conforme um costume local, tinham vindo negros vender frutas a bordo. Estando o Sr. X. com muita sede, tomou uma laranja do cesto de uma das negras, mas imediatamente soltou um grito e disse que tinha sido picado. A preta virou o seu balaio e viu-se então uma serpente que estava escondida, não sob os frutos, mas sob as folhas que forravam o cesto. A serpente foi morta; mas o infeliz morreu algumas horas depois.”

Várias cartas recebidas da Martinica, por leitores deste livro, fizeram-me ver que o correio das Antilhas, de retorno à França, toca na Martinica antes de passar em Guadalupe e ruma diretamente a Saint-Nazaire ou Bordéus e que a anedota precedente não deve ser mais do que o eco de um conto narrado às crianças de Guadalupe. Essa narrativa é, portanto, inverídica. Mas pode ser que lhe tenha dado origem um fato anterior real.

O extraordinário caso de clarividência e de previsão narrado a seguir foi publicado pela mesma revista (1896, pág. 205):



LXXV – “Uma senhora das minhas relações, Lady A., residia nos Campos Elíseos. Jantara eu em casa dessa amiga, numa tarde de outubro de 1883. Mau grado sua grande fortuna, era uma senhora metódica. Muito ativa, satisfazia-se em dormir apenas mui poucas horas. Todas as noites, logo após a saída de seus hóspedes, fazia suas contas.

Qual não foi, nessa noite, o seu espanto, ao constatar que lhe faltava a quantia de 3.500 francos no bolsinho interior da enorme bolsa de viagem, onde tinha o hábito de guardar as suas jóias e o seu dinheiro!

Entretanto, a fechadura não tinha sido forçada. Somente os bordos da bolsa pareciam ter sido separados... Contudo, Lady A. estava certa de que, pelas 2 horas da tarde, diante da sua criada de quarto, havia aberto a sua bolsa, pago uma conta e posto o dinheiro em seu lugar de costume, do que tinha absoluta certeza. Em sua perturbação, chamou a criada de quarto, que nada lhe pôde esclarecer, mas que teve tempo de advertir todo o pessoal, de sorte que o culpado ou os culpados – se porventura se achavam entre os domésticos – pudessem pôr em lugar seguro o fruto do roubo.

No dia seguinte, bem cedo, foi avisado o comissário de Polícia da rua Berryer. Mordomos e criados, armários e esconderijos, todos os móveis, enfim, foram revistados. Nada se encontrou, naturalmente.

Tendo terminado suas pesquisas infrutíferas, o comissário conversou por um momento com Lady A. Perguntou-lhe quais eram as suas impressões, relativamente à maneira pela qual teria sido o roubo praticado... quais os empregados menos dignos de confiança. etc.

Lady A., enumerando seus criados, pediu ao comissário para excluir de desconfianças seu segundo criado de quarto, um moço de 19 ou 20 anos, muito bem apessoado, muito respeitoso, muito conhecedor do serviço, que tinha sido apelidado “o pequeno”, não por causa de seu talhe, pois que ele era, pelo contrário, bem grande, mas por um sentimento de gentil familiaridade protetora que lhe haviam conquistado as suas boas qualidades.

Tinha-se escoado quase toda a manhã nessas pesquisas infrutíferas, quando Lady A. me enviou a Srta. C., professora de sua filha mais moça, para contar-me o que lhe sucedera e pedir-me para acompanhar a mesma moça à casa de uma clarividente cuja lucidez – alguns dias antes – eu havia elogiado.

Para lá nos dirigimos.

Mme. E., a nossa clarividente, trouxe uma taça cheia de bagaço de café, pediu à Srta. C. para soprar em cima por três vezes, depois do que foi esse bagaço passado para uma outra taça, sendo a primeira emborcada sobre a segunda, a fim de que o conteúdo passasse em parte para o novo recipiente, retendo apenas, sobre a superfície da parte interna, algumas partículas mais sólidas do pó de café, que devia, deixando escapar sua parte líquida, formar extravagantes desenhos, nos quais a pitonisa parecia ler.

Durante essa preparação oculta, era preciso ocupar-nos; a Sra. E. estendera as suas cartas e começava:

– Ah!... mas... é um roubo, e um roubo praticado por uma das pessoas da casa e não por alguém que se introduzisse furtivamente.

Essa declaração era bem promissora... Reconhecemos que o que ela afirmava era verdadeiro... Quanto ao ladrão, era-nos infelizmente desconhecido.

– Esperai – disse-nos ela – vou agora ver os detalhes no bagaço que deve ter formado o seu depósito.

Tomou a taça emborcada, mandou que a Srta. C. aí soprasse ainda por três vezes e pôs o seu lornhão.

Então, como se houvesse assistido à cena, descreveu-nos peça por peça a topografia do apartamento de Lady A., sem jamais se enganar relativamente a um quarto ou a uma sala. Viu desfilarem diante de seus olhos, como em lanterna mágica, sete domésticos dos quais nos disse exatamente o sexo e as atribuições. Depois, novamente penetrando no quarto de Lady A., avistou um armário 106 que lhe pareceu bem extraordinário:

– Existe lá – repetia-nos ela, com espanto – um armário ao centro, cuja porta é ornada de espelho; e de cada lado desse armário principal há ainda dois outros sem espelho, e tudo isso se conserva...

“Por que esse armário jamais está fechado? Entretanto, ele contém sempre o dinheiro que se acha... em... Que objeto esquisito!... abre-se como um porte-monnaie, em forma de bolsa... e não como um cofre... Ah! eu o sei! é uma bolsa de viagem... Que idéia a de guardar aí seu dinheiro! e sobretudo que imprudência de deixar o armário aberto!...

“Os ladrões conheciam bem a bolsa... eles não forçaram a fechadura. Introduziram um objeto bastante largo para separar os dois lados; depois, com auxílio de uma tesoura ou de uma pinça, retiraram o dinheiro que aí estava, em notas de banco...”

Nós a havíamos deixado falar. Tudo o que nos dissera essa mulher confundia-nos, na veracidade dos detalhes, ainda os mais ínfimos.

Ela se deteve fatigada. Quanto a nós, desejaríamos saber mais. Pedimos-lhe, suplicamos-lhe que nos dissesse qual ou quais os empregados que tinham praticado o furto, pois que nos assegurava fazerem estes parte do pessoal do serviço doméstico.

Confessou ela que lhe seria impossível fazê-lo sem incorrer nos rigores da lei francesa que diz não se poder e não se dever admitir que um culpado seja reconhecido como tal, sem provas, por meios ocultos.

À força de rogativas, ela nos assegurou, entretanto, que o dinheiro de Lady A. não seria jamais encontrado; o que era muito provável, porquanto o culpado não seria, de forma alguma, descoberto por causa desse roubo, e enfim, o que era mais para admirar, que dois anos mais tarde ele sofreria a pena capital.

Todas as vezes que seu olhar, percorrendo os desenhos do bagaço de café, fixavam-se sobre “o pequeno”, ela o distinguira perto de cavalos. Asseguramos-lhe que jamais servira ele de escudeiro, ocupando-se exclusivamente com os serviços domésticos, ao passo que os escudeiros residem com os cocheiros; mas a Sra. E. estava obstinada na sua afirmativa. Quanto mais a contradizíamos, tanto mais se obstinava ela em o afirmar. Acabáramos por deixar de lado esse pequeníssimo nada, que nos impressionava, entretanto, como uma nódoa em um conjunto surpreendente de exatidões.

Lady A., ao cabo de quinze dias, despediu seu mordomo e sua criada de quarto. “O pequeno”, sem que se soubesse a razão disso, no momento, deixou Lady A. três ou quatro semanas mais tarde. O dinheiro não foi encontrado; e, um ano depois, Lady A. partia para o Egito.

Dois anos após aquele acontecimento, Lady A. recebia, procedente do Tribunal do Sena, o aviso de se dirigir, como testemunha, a Paris.

Encontrara-se o autor do roubo. Acabava ele de ser preso: “o pequeno”, dotado de tantas qualidades, não era outro senão Marchandou, o assassino da Sra. Cornet.

Como se sabe, sofreu ele a pena capital, como o anunciara a clarividente da rua Notre Dame de Lorette e, pelo processo, ficou provado que “o pequeno” tinha, nos Campos Elíseos, muito perto da residência de Lady A., um irmão que era cocheiro em uma grande casa.

“O pequeno”, ou Marchandou, pois que ambos são a mesma pessoa, aproveitava, então, todos os seus momentos de liberdade para ir ter com seu irmão, pois era grande amador de cavalos. E, portanto, essa a razão pela qual a Sra. E. nos afirmara, mau grado as nossas contraditas, que ela o via sem cessar perto dos cavalos.

Ainda nesse pequeno detalhe, que as peripécias do processo nos revelaram, acertara a clarividente.

L. d’Ervieux

Atesto estar conforme a verdade.



C. Deslious (que assistiu à consulta).”

Observação – Este caso de clarividência é absolutamente extraordinário. Tivemos ocasião de avistar-nos com Lady A., que nos confirmou a exatidão da precedente narrativa.

Não se deve, evidentemente, ver no emprego das cartas e do bagaço de café senão um meio empregado, sem dúvida inconscientemente, pelo sujet, para ficar em estado de auto-sonambulismo, isto é, em um estado em que a consciência normal se torna inativa, para que se manifeste o inconsciente. Nesse segundo estado as faculdades inconscientes podem adquirir todo o seu desenvolvimento, sendo possível admitir que a faculdade de clarividência, que todos talvez possuímos em um estado mais ou menos rudimentar, possa exercer-se mais livremente e adquirir, em indivíduos predispostos, um certo grau de precisão.

Dariex

O Sr. Myers cita na mesma revista (1899, pág. 170) o seguinte caso de repetição de um sonho premonitório:



LXXVI – “Há 60 anos uma Sra. Carleton faleceu no Condado de Leitrim. Era amiga íntima de minha mãe, e poucos dias após a sua morte ela lhe apareceu em sonho e lhe disse que nunca mais minha mãe teria ocasião de vê-la em sonho, salvo uma única vez, 24 horas antes de sua morte.

Em março de 1864 minha mãe residia em companhia de meu genro e de minha filha, o Dr. e a Sra. Lyon, em Dalkey. A 2 de março, à noite, minha mãe recolheu-se ao seu quarto, muito bem disposta, rindo e gracejando com a Sra. Lyon. Nessa mesma noite, ou antes na manhã seguinte, o Dr. Lyon, ouvindo barulho no quarto de minha mãe, acordou a Sra. Lyon, para que fosse ver o que se passava. Ela encontrou minha mãe com o corpo a meio para fora da cama e com uma expressão de horror desenhada em seu rosto. Proporcionaram-lhe os melhores cuidados e, na manhã seguinte, parecia ter voltado ao seu estado natural. Almoçou como de costume, em sua cama, e muito alegremente. Pediu à minha filha para dizer à criada que lhe preparasse um banho, que ela tomou. Mandou em seguida chamar a Sra. Lyon e lhe disse que a Sra. Carleton viera enfim, após um intervalo de 56 anos, falar-lhe de sua morte muito próxima, e que morreria na manhã do dia seguinte, à mesma hora em que a haviam encontrado como acabo de dizer. Acrescentou que havia tomado um banho por precaução, para evitar a lavagem de seu corpo. Começou então a decair pouco a pouco e morreu na manhã de 4 de março, à hora em que o havia dito.

O Dr. e a Sra. Lyon podem corroborar esta narrativa. Sempre minha mãe me dizia que tornaria a ver a Sra. Carleton antes de sua morte.

Thomas James Norris
Dalkey, Irlanda.”

Seguem-se diversos atestados.

O Sr. Myers escreve a propósito:

“Há três explicações possíveis para esses fatos.

De minha parte, sinto-me bastante propenso a admitir que a falecida Sra. Carleton conhecia realmente a doença que ameaçava a sua amiga e que os dois sonhos foram produzidos telepaticamente por um espírito desencarnado para com um espírito encarnado. Mas podemos também supor que o primeiro sonho, ainda que puramente acidental, produziu uma impressão tão profunda que, quando se reproduziu, também por acaso, foi equivalente a uma auto-sugestão de morte. Ainda uma terceira explicação é possível: a de supormos que o primeiro sonho foi acidental, mas que o segundo foi simbólico e produzido por alguma sensação orgânica que preludiava a morte iminente, sendo porém perceptível durante o sono, em vez de o ser em estado de vigília.

Há, entretanto, casos em que tais predições de morte, em sonho, são feitas com tanta antecipação relativamente à data fixada para o falecimento, que é difícil conceber que seja a auto-sugestão a causadora do resultado.”

Não começaremos aqui a discussão do grande problema das comunicações de mortos, que só por si exigirá desenvolvimentos indispensáveis à sua elucidação, dado que nos seja possível chegar até lá. Já se pôde assinalar diversas dessas comunicações na variedade dos exemplos aqui consignados. Possuímos considerável número de tais exemplos, cuja análise exige um trabalho ainda mais atento do que o que presidiu às pesquisas precedentes, nas quais não saímos do quadro dos seres vivos.

O que precedentemente quisemos estabelecer, com a publicação desses sonhos premonitórios, foi que realmente certos sonhos têm previsto e anunciado o futuro, e isso com precisão. Não se trata de pressentimentos vagos ou de predições alambicadas, suscetíveis de duplos e tríplices sentidos, no gênero das de Nostradamus, que se podem aplicar indistintamente a vários e diferentes sucessos, mas da visão real e exata do que em seguida sucede.

Por hora, não iremos mais longe.

O ser humano é dotado de faculdades ainda desconhecidas, que permitem ver de longe, no espaço e no tempo. Foi o que quisemos demonstrar por um conjunto de testemunhos satisfatórios.

Quanto à pesquisa das respectivas leis, não é chegada ainda a hora de a encetarmos. Pôde-se constatar que esses sonhos são freqüentemente concernentes a coisas banalíssimas da vida cotidiana. Mas pode-se, de resto, confessar que a vida humana terrestre é, em geral, assim constituída.

Pelo fato de ter sido o futuro previsto em certos sonhos excepcionais, não se deveria concluir por idêntica interpretação geral dos sonhos. Seria isso um completo erro. Ao demais, eu não aconselharia a consultar-se o que quer que seja sobre o futuro.

Falta-nos espaço para tratarmos neste volume da questão dos pressentimentos, assim como da que concerne à adivinhação do futuro em estado de vigília, e somos obrigados a deixar para mais tarde essas interessantes pesquisas. Para nós o fato se acha igualmente resolvido no sentido da afirmativa. A curiosa impressão do já visto será em seguida examinada. Chegaremos depois ao eterno problema do livre arbítrio e do destino e constataremos que o futuro existe de um modo tão preciso como o passado e o presente, determinado pelas causas que o produzirão, em virtude daquele princípio absoluto, segundo o qual não há efeito sem causa, sendo a alma humana, aliás, com todas as suas faculdades, uma dessas causas.

Não se pode fazer tudo de uma vez e, antes, devo escusar-me, lendo o número 575 no alto desta página, da longa atenção a que submeti aos meus leitores e as minhas leitoras. Mas importava, antes de tudo, fazer uma classificação metódica dos fenômenos, começando pelos mais seguros, estudá-los sucessiva e completamente, admitindo em primeiro lugar o que parecesse, à nossa razão, estar demonstrado como certeza moral.

As manifestações telepáticas de moribundos, a transmissão do pensamento, a ação psíquica de um ser humano sobre outro, a distância, e a previsão do futuro, em sonho e em estado sonambúlico, constituem, para nós, fatos positivos. Pareceu-nos lógico iniciar por aí a nossa investigação do mundo invisível.




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