Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos



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(Carta 312)

XV – “A. – Quando eu era moça, assisti em sonho ao roubo de um cavalo de meu marido por dois indivíduos, e a todas as precauções tomadas para fazê-lo sair da estrebaria sem ruído. Ao despertar, contei o sonho a meu marido, que foi à estrebaria, achando-a vazia. Três anos mais tarde os ladrões foram presos e meu marido foi indenizado.

B. – Vejo, certa noite, em sonho, um amigo de meu marido; achava-se em um subterrâneo, cercado por minha mãe e minhas irmãs falecidas, para com as quais esse senhor nutria viva simpatia. Ele achava-se envolto em longas vestes brancas, veio a mim fazendo-me profunda saudação; depois desapareceu, o mesmo sucedendo àquelas pessoas da minha família. Alguns dias depois meu marido morria.

Se julgardes útil mencionar esses dois sonhos, não citeis o meu nome, sou viúva e vivo modestamente em meu retiro.



Viúva C. F.
(Carta 396)

XVII – “No dia 13 ou 14 do mês de outubro de 1898, despedia-me da Sra. G., com quem passara alguns dias, para voltar à minha casa. Na noite seguinte ela viu em sonho um naufrágio, sendo grande o número de afogados. Queria, ao despertar (persuadida, por outros exemplos, que dispõe de uma espécie de segunda vista), telegrafar-me para pedir-me que não viajasse; mas foi impedida de fazê-lo por seu marido.

A 15 de outubro os jornais anunciavam uma grande tempestade e a perda de um navio, ocasionando uma centena de mortes. Felizmente, para mim, não era ainda a minha vez.



P. P.
Doutor em Direito, em Philippeville.”

(Carta 447)

XVIII – “a Sra. B. residia há vários anos em uma “vila” perto da cidade de Yokohama. Tinha ela o hábito de deitar-se uma hora antes do jantar. Uma tarde (não se recorda ela bem se estava inteiramente acordada ou ainda meio adormecida) ela repentinamente grita:

– Ah! meu Deus, o Sr. N. está se afogando! Salvai-o, salvai-o!... Ah! morreu!...



Viu-o distintamente. Seu marido procura tranqüilizá-la, rindo-se do sonho, como disse ele, mas pouco tempo depois um mensageiro vem participar-lhe que o seu amigo, Sr. N., se afogara quando tomava seu banho habitual no rio, antes de subir à “vila” desse casal, para jantar com eles.

A intenção de jantar com os esposos B. facilmente explica que ele pensou em seus amigos no momento de dirigir-se ao banho. A hora do acidente e a do “sonho” da Sra. B. coincidiam exatamente.



F. E. Bade (Hamburgo).”
(Carta 463)

XIX – “Nos primeiros dias de abril de 1884, em Nice, sonhei que meu marido, deitado e doente, me dizia: “Vem abraçar-me.” (vivíamos separados desde muito tempo). Realizava-se então a Exposição de Nice. A 11 de abril, sexta-feira santa, uma voz me disse: “Vai à exposição hoje, ou não o verás mais.” Na noite de 12 para 13 chegou um telegrama: meu marido estava acometido de congestão. No dia 13 parto para Paris. Vi meu marido, no Val-de-Grâce, tal como em meu sonho; expirou no dia 15, sem recuperar os sentidos.

Desejo conservar-me incógnita: usai simples iniciais, peço-vos.



Viúva A. S. (Nice).”
(Carta 540)

XX – “Tenho para contar-vos um sonho que tive há cerca de seis anos e que me impressionou fortemente, ainda que eu não seja supersticiosa.

Era eu, nessa época, professora em um internato do Departamento do Aisne. Sonho, uma noite, que caminhava na principal rua da cidade, quando, erguendo os olhos, avisto, em um céu muito claro, na direção de nordeste, uma grande cruz negra, por baixo da qual pude ler bem distintamente as duas letras seguintes: M M.

No dia seguinte contei o meu sonho, procurando em vão saber se alguém de minha família tinha um nome começado por essa mesma inicial; não encontrando, pensei em outra coisa. Alguns dias depois (não poderia infelizmente precisar a data com exatidão), recebo uma carta participando-me que uma de minhas tias, residente em certa aldeia situada ao nordeste de nossa cidade, e que se chamava Margarida Marconnet, acabava de morrer.

Essa coincidência entre meu sonho e tal morte era tão surpreendente, que jamais pude esquecê-la, e o que sobretudo me causa admiração é que, conhecendo muito bem minha tia, não a via senão raramente, já fazendo muito tempo que não a via e nela quase nunca pensava.



L. Marconnet (Montbéliard).”
(Carta 563)

XXI – “Li, há alguns anos, em um jornal mensal (inglês), que um amigo de Sir John Franklin vira em sonho que o dito Franklin fracassava em sua expedição ártica e que esse amigo, chamado, se bem me recordo, Walter Snoo, vira toda a região em que sucedera a desgraça.

Imediatamente ele desperta e, sendo bom desenhista, toma um lápis e desenha as embarcações, os blocos de gelo circundantes, toda a região, em suma.

Enviou então esse desenho a um dos seus amigos, proprietário de um grande jornal americano ilustrado, no qual foi inserido o desenho com uma sucinta menção das impressões de Walter Snoo; não se podia ter, naturalmente, opinião alguma sobre a exatidão do acontecimento desenhado.

Quando foram achados, muito tempo depois, os despojos mortais de Franklin e de seus companheiros nas geleiras árticas, as testemunhas oculares desenharam também o lugar, a posição dos corpos inertes e gelados, as embarcações, os cães atrelados e mortos: tudo concordava com o desenho anterior.

Não sei o nome do jornal ilustrado, nem do mensário inglês, mas para vós seria sem dúvida uma coisa fácil constatar, por meio de vossas relações com o mundo inteiro, a exatidão desta carta que ouso escrever-vos.

Dr. Bronislaw Galecki
Advogado. Praça da Catedral.
Farnow, Galícia (Áustria).”

(Carta 625)

XXII – “Posso certificar-vos a absoluta autenticidade dos seguintes fatos:

Tinha eu então 7 anos. Minha mãe, que jamais havia consentido em separar-se de mim, rendeu-se um dia, entretanto, ao desejo de uma de minhas tias e me deixou partir com ela para a província, após mil recomendações.

Decorrera um mês sem incidente algum, nem acidentes, quando, certa manhã, minha mãe corre a toda pressa à casa de meu tio e lhe diz o seguinte:

– Escrevei, peço-vos, bem depressa à minha irmã, para pedir-lhe notícias de minha filha, pois estou em inquietação mortal! Esta noite eu a vi, em sonho, coberta de sangue e estendida sem vida em uma estrada. Sucedeu-lhe com certeza alguma desgraça, tenho o pressentimento disso. Ora, vós sabeis que nessas coisas eu jamais me engano.

Meu tio, rindo-se de minha mãe, disse-lhe que sua esposa era bastante prudente para não expor-me a perigo algum. No próprio dia seguinte, recebia ele uma carta, escrita na véspera, em que lhe contava sua esposa, com a recomendação de nada dizer à minha mãe, o acidente que me sucedera.

Na mesma noite em que minha mãe me tinha visto coberta de sangue, levara-me minha tia com três outras pessoas, de carro. Estava a noite escura, apagou-se a lanterna e achamo-nos em pleno campo, sem saber onde estávamos, quando subitamente o cavalo, que trotava tranqüilamente, empinou-se, precipitando-se num valado que marginava a estrada, arrojando por terra as pessoas que se encontravam no carro, não se sabe como, sem a menor arranhadura, somente eu, que nesse momento dormia profundamente, fui lançada, pelo choque, sob o ventre do animal, que me fustigou o rosto e o peito com as patas e, nos esforços que fazia para erguer-se, dilacerava-me nas pedras da estrada, sobre as quais arrastara especialmente o lado direito do meu rosto.

Corria o sangue em abundância; eu estava com a orelha dilacerada; ouvia os gritos desesperados que me chamavam e não lhes podia responder, não havendo, como já o disse, luz alguma nessa noite escura!... Chegaram, enfim, socorros de uma casa pouco distante e foram achar-me desmaiada, em deplorável estado. Um homem em mangas de camisa passara diante do cavalo e o espantara.

G. D.
Avenida de Saxe, 58, Paris.”

(Carta 661)

XXIII – “Certa manhã (tinha eu, a essa época, 17 anos), pelas 7 horas, acordo; de novo adormeço até às 8 horas e sonho que passava diante de uma casa onde residia uma família minha conhecida, mas que eu não freqüentava. Tinha essa casa um armazém e eu sonhava que via esse armazém fechado, com um papel branco colado à porta, no qual se achava escrito: “Falecimento”. Acordo e conto o meu sonho a mamãe, que me mostrou o jornal em que vinha essa morte noticiada.

Essa coincidência não provará um certo deslocamento da alma durante o sono, circunstância sem a qual não poderia eu ter tido o sonho em questão, atendendo-se a que coisa alguma me fazia pensar em um falecimento nessa família?



Marie Louise Milice
Rua Boudet, 33 (Bordéus).”

(Carta 662)

XXIV – “Uma de minhas amigas, atualmente cobradora dos Correios em Louvigné-du-Dezert (Ille-et-Vilaine), a Srta. Blanche Susanne, era, talvez há uns 25 anos, noiva de um moço, filho de agricultores, que entrara para os estudos. Um dia sonhou ela que seu noivo lhe dirigira uma longa carta, na qual escrevera a frase seguinte, pouco mais ou menos: “Eu teria feito melhor se permanecesse à charrua do que entrando para os estudos.”

De manhã a moça contou seu sonho a sua mãe, citando a frase; depois, dirigiu-se ao seu trabalho. Após algumas horas chega o carteiro, trazendo para essa jovem criatura uma carta de seu noivo. A frase do sonho estava aí escrita integral e identicamente.



Henriette François
Bromberg-Posen (Alemanha).”

(Carta 679)

XXV – “Eis o que aconteceu a meu pai, conselheiro de Estado, homem de idade, septuagenário, por ocasião de sua temporada no campo, onde viera gozar um pouco de repouso. Era dia de Santo Elias. No campo, onde não há distrações nem mudanças, onde todos os dias se parecem, não tinha meu pai consciência do tempo e esquecera mesmo que era dia santo.

Nessa manhã, ao almoço, contou-nos um dos sonhos da noite precedente: vira sua cunhada, que estava longe dele, perguntando se as exéquias de seu marido deviam ser realizadas no dia de Santo Elias ou em outro dia. Contando-nos o sonho, ficou meu pai muito admirado de saber que justamente esse era o dia de Santo Elias. Depois de haver refletido e discutido sobre a estranheza dos sonhos em geral, tomou meu pai o trem, para dirigir-se à cidade, prometendo voltar na mesma noite. Qual não foi a nossa surpresa, quando, após sua chegada, recebemos de sua cunhada um telegrama comunicando-nos a morte de seu marido, ocorrida no dia de Santo Elias!



Maria de Lesley
Riga-Orel, gov. de Sanolensk (Rússia).”

(Carta 683)

XXVI – “Eu tinha uma filha com a idade de 15 anos, minha alegria, meu orgulho; deixara essa criança com minha mãe, ausentando-me para uma pequena viagem. Devia regressar à casa a 17 de maio de 1894; ora, a 16, sonho que minha filha está muito mal, que ela me chama, a chorar, com todas as suas forças. Acordo muito agitada, dizendo que todo sonho é mentira.

No correr do dia, recebo uma carta de minha filha, não se queixando, contando-me o que se passa em nossa casa. Volto no dia seguinte para casa; não vejo minha filha correr ao meu encontro, conforme o seu costume; uma criada me informa que foi acometida de um mal súbito; subo à pressa: uma forte dor de cabeça a fazia sofrer; meto-a na cama. Pois bem: ela não mais se levantou; uma angina diftérica se declarou dois dias depois e, mau grado a todos os nossos cuidados, a pobre criança expirava a 29 de maio.

Ora, duas noites antes dessa desgraça eu estava deitada em minha cama, em um gabinete separado por uma porta, fechava os olhos e não podia dormir; quanto à minha filha, estava adormecida; a enfermeira velava. De repente, uma viva claridade penetra na obscuridade do quarto, com uma rapidez e um brilho que lembra o sol do meio-dia, no mês de agosto. Chamo a enfermeira. Ela demora um pouco para responder-me; nesse ínterim já eu estava perto do leito de minha filha, a luz extinguira-se; o clarão tinha desaparecido. A enfermeira parecia amedrontada; em vão interroguei-a, mas no dia seguinte ela disse às pessoas da casa, e ainda no presente o afirma, que avistou meu marido, falecido seis meses antes, aos pés da cama de minha filha.

Essa pessoa é viva, tem 46 anos e o repete a quem quer ouvi-la.



Mme. R. de L. (Lacapelle).”
(Carta 684)

XXVII – “A. – Num destes últimos dias achava-me muito nervosa, pensando em meu falecido esposo, morto há sete anos, quando, ao deitar-me, tomo um jornal em que leio a crítica a um dos livros escritos pelo Sr. K.

Depois de haver lido essa crítica, tive o desejo ardente de obter o livro em apreço, tanto mais que o Sr. K. era um velho amigo de meu marido.

No dia seguinte, chegando ao colégio de moças, onde sou professora, uma das alunas da classe superior me traz um livro e diz:

– Senhora, muito desejaria que lêsseis este livro e que a respeito me désseis a vossa opinião.

Abro-o e vejo que era o livro por mim tão desejado no dia antecedente.

B. – Se esse fato fosse único, eu o teria talvez deixado em silêncio, mas no curso da mesma semana um segundo fato ocorreu que igualmente me impressionou. Sonhei com uma das alunas que já partira para uma outra cidade e que não mais eu vira, desde o ano anterior. Eu a vi no sonho com os cabelos cortados.

No dia seguinte, no ginásio, uma das alunas da minha classe se aproxima de mim e diz:

– Senhora, recebi carta de minha amiga Z.; ela me pede para transmitir-vos suas saudações; acha-se muito contrariada neste momento porque lhe cortaram os cabelos...

Por que esses dois fatos tão extraordinários na mesma semana?



M. Onanoff
Fagauray, Mar d’Azov.”

Vê-se que os exemplos de visão a distância, em sonho, não faltam. Eis ainda alguns outros. Parece-nos claro que essas observações, tão repetidas, tornam impossível toda negação.

Estes são extraídos das Alucinações Telepáticas. O primeiro é do Dr. Gaodall Janes, residente em Liverpool, 6, Prince Edwin Street.

XXIX – “A Sra. Jones, esposa de William Jones, piloto em Liverpool, guardava o leito no sábado, 27 de fevereiro de 1869. No dia seguinte, domingo, quando fui vê-la, às 3 horas da tarde, encontrei seu marido que estava em caminho para vir buscar-me, porque sua esposa delirava. Contou-me que, pouco mais ou menos meia hora antes, estava ele entretido a ler, no quarto de sua esposa. De repente ela despertou de um profundo sono, declarando que seu irmão William Roulands, também piloto em Liverpool, afogara-se no rio (Mersey). Seu marido procurou acalmá-la, dizendo-lhe que Roulands estava em serviço no exterior e que não podia a essa hora encontrar-se no rio. Ela, porém, persistiu em sustentar que o tinha visto afogar-se.

À tarde chegaram notícias, informando que à hora mencionada, isto é, cerca de 2:30, Roulands se afogara. Desencadeara-se uma grande ventania no mar, a embarcação da pilotagem não pudera pôr um piloto a bordo de um navio que queria entrar. Fora, pois, necessário guiá-lo. Quando se chegou ao rio, defronte do farol que ficava sobre um rochedo, o pequeno bote virou e Roulands, bem como um outro prático, se afogaram.”

É esse igualmente um exemplo notável de visão a distância, em sonho. O inquérito provou a sua absoluta autenticidade. O mesmo acontece com o seguinte caso assinalado por uma Sra. Green, de Newry, Inglaterra:

XXX – “Eu via duas senhoras convenientemente trajadas, guiando sozinhas um carro semelhante a um veículo próprio para transportar águas minerais. O cavalo encontrou água em sua frente, parou para beber, mas, faltando-lhe um ponto de apoio, perdeu o equilíbrio e, procurando restabelecê-lo, caiu n’água. Com o choque, as mulheres levantaram-se, pedindo socorro: caíram-lhes os chapéus das cabeças e tudo mergulhou n’água. Voltei-me chorando, perguntando se não havia ninguém para socorrê-las. Nesse ínterim despertei, muito agitada, e meu marido também acordou. Contei-lhe o sonho. Perguntou-me se eu conhecia as mulheres e lhe respondi que não, parecendo-me jamais tê-las visto.

Não consegui, durante todo o dia, subtrair-me à impressão do sonho e da inquietação na qual me deixara ele. Observei a meu filho que essa data era a do aniversário de seu nascimento e do meu também – 10 de janeiro – e essa é a razão que me faz recordar exatamente aquela data.

No mês de março recebi uma carta e um jornal de meu irmão, residente na Austrália e que me participava a mágoa que tivera de perder uma de suas filhas, que se afogara, com uma amiga, precisamente nessa data e nessa hora, levando-se em conta a diferença das longitudes.

Fazem referência ao acidente duas passagens diferentes do jornal Inglewood Advertiser. Esse jornal publicou, a 11 de janeiro de 1878, a descrição do acidente, que corresponde exatamente ao que foi visto em sonho.”

Eis ainda um caso bastante notável de visão a distância, em sonho. O paciente é filho do antigo bispo protestante de Iowa (Estados Unidos); viu, em sonhos, a uma distância de perto de 5 quilômetros, seu pai caindo de uma escada. Damos a seguir o que ele escreveu a respeito a um de seus parentes:

XXXI – “Devo inicialmente dizer que existia entre meu pai e eu um laço mais forte de afeição do que os laços que ordinariamente ligam um pai a seus filhos, e desde alguns anos parecia-me conhecer e sentir quando ele estava em perigo, ainda que estivéssemos várias milhas separados um do outro.

Na noite em que ele caiu da escada, voltara eu das minhas ocupações, pelas 8 horas, após um dia de trabalho muito fatigante, e retirei-me logo após a ceia. Tenho o hábito de deitar-me do lado da parede. Nossas cabeças ficam para o lado do norte, de maneira que ocupo o lado oeste da cama. Peguei no sono logo que minha cabeça tocou o travesseiro e dormi pesada e profundamente. Não senti quando minha esposa se deitou e nada vi até o momento em que meu pai me apareceu no alto da escada, em perigo de cair. Precipitei-me para agarrá-lo e saltei da cama, fazendo grande barulho. Minha mulher acordou perguntando que diabo de coisa queria eu fazer. Acendera eu imediatamente uma lâmpada e verificara em meu relógio que eram 2:15. Perguntei a minha mulher se ela escutara o rumor. Respondeu-me negativamente. Disse-lhe então o que tinha visto; ela, porém, procurou fazer-me rir, não o conseguindo.

Não dormi mais toda a noite; nem mesmo tornei a deitar-me. Fora muito viva a impressão, para que eu pudesse pôr em dúvida que meu pai se tinha ferido gravemente. Dirigi-me à cidade pela manhã muito cedo e telegrafei para casa perguntando se tudo ia bem: recebi uma carta de meu pai, que confirmava a exatidão da minha visão, correspondendo ao acontecimento até ao detalhe mínimo de se ter verificado no mesmo minuto. O triste resultado da queda só pudemos conhecer mais tarde; mas como pude ver, a uma distância de mais de 3 milhas, meu pai cair é o que não pretendo explicar.

H. M. Lee.

O Sr. Sullivan, bispo d’Algowa, confirma o fato, porque teve ocasião de ouvi-lo relatado imediatamente.90

O exemplo precedente foi publicado pelo Sr. Sidgwick nos Proceedings da Sociedade Psíquica de Londres. Acrescenta-lhe o seguinte caso comunicado em agosto de 1890 pela Sra. A. de Holsten (Avenida de Wagram, 29, Paris). Este caso é um pouco menos satisfatório que o último, como elemento de prova, visto o sonho não ter sido contado a ninguém antes que seu caráter verídico fosse reconhecido; parece, entretanto, haver produzido tão grande impressão sobre o Dr. Golinski, que se torna improvável terem sido os detalhes muito alterados mais tarde. Ele difere dos precedentes no fato de parecer que a impressão clarividente tivesse sido devida, não a qualquer relação entre o agente e o paciente ou a qualquer crise especial sofrida pelo agente, mas à sua ansiedade e ao seu intenso desejo de ser socorrido (ondas psíquicas?).

Eis o que escreveu o Dr. Golinski, médico em Krementchug, na Rússia:



XXXII – “Tenho o hábito de jantar às 3 horas, entregando-me, após esse repasto, a pequeno sono de uma hora ou de hora e meia. No mês de julho de 1888 estendi-me, como de costume, em um canapé e adormeci perto das 3:30. Sonhei que faziam soar a campainha e que eu tinha a sensação ordinária, um pouco desagradável, de ter de levantar-me e ir à casa de um doente. Depois me vi diretamente transportado a pequeno quarto de tapeçarias escuras.

À direita da porta de entrada achava-se uma cômoda, e sobre esta notei uma vela ou pequena lâmpada de petróleo de forma particular. Chamou-me particularmente a atenção a forma desta vela, diferente de todas as que me tinha sucedido ver. À esquerda da porta de entrada vejo uma cama na qual está deitada uma mulher que tem forte hemorragia. Não sei como cheguei a saber que ela está com uma hemorragia, mas o sei. Examino a mulher, mas de alguma sorte por desencargo de consciência, pois de antemão sei o que devo fazer, ainda que ninguém me fale. Em seguida sonho, de um modo vago, com alguns recursos médicos que aplico; em seguida acordo de forma inusitada. Ordinariamente desperto lentamente, fico alguns minutos em um estado de adormecimento; desta vez, porém, despertei quase em sobressalto, como se alguém me tivesse acordado. Eram 4:30.

Levantei-me, acendi um cigarro e comecei a passear pelo quarto, em estado de excitação todo particular, refletindo no sonho que acabava de ter. Desde muito tempo não tivera caso algum de hemorragia, de qualquer espécie que fosse, em minha clínica, e eu perguntava a mim mesmo qual podia ser a causa desse sonho.

Cerca de dez minutos após o despertar, fizeram soar a campainha e fui chamado para ver uma doente. Entrando no quarto de dormir, fiquei surpreso, pois reconheci nele o quarto com que acabava de sonhar. Tratava-se de uma mulher doente e o que sobretudo me impressionou foi uma lâmpada de petróleo colocada sobre a cômoda, absolutamente no mesmo lugar e da mesma forma que no meu sonho, e que eu via pela primeira vez. Foi tão grande a minha admiração, que perdi, por assim dizer, a distinção nítida entre o sonho passado e a realidade presente e, aproximando-me do leito da enferma, disse-lhe tranqüilamente: “Estais com uma hemorragia”, e não voltei a mim senão quando a doente me respondeu: “Sim, mas como o sabeis?”

Impressionado com a estranha coincidência de meu sonho com o que vi, perguntei à enferma a que horas decidira mandar chamar-me. Respondeu-me que estava indisposta desde pela manhã. À 1 hora da tarde, pouco mais ou menos, apareceu ligeira hemorragia, acompanhada de mal-estar; ela, porém, não deu a isso muita importância. Pelas 2 horas a hemorragia tornou-se muito forte e a doente inquietou-se sobremodo. Não estando seu marido em casa, não sabia o que fazer e deitou-se esperando que parasse a hemorragia. Entre 3 e 4 horas ela continuava sempre indecisa e em grande ansiedade. Pouco mais ou menos às 4:30 decidiu-se a mandar chamar-me. A distância entre a minha casa e a sua é de 20 minutos de marcha.

Eu não conhecia a doente senão por havê-la tratado há tempos; nada, porém, sabia a respeito do estado atual da sua saúde.

Em geral não sonho freqüentemente e é esse o único sonho de minha vida, de que me recordo, graças ao seu caráter verídico.”

A Sra. Henry Sidgwick escreveu 91 diversas experiências de visão a distância, realizadas com uma moça de 15 anos, magnetizada, as quais certamente se podem acrescentar às observações feitas nos sonhos.

Citaremos aqui duas dessas experiências.

XXXIII – “A Srta. Florence F., presentemente Sra. R., vizinha nossa, foi convidada a vir, uma noite, à nossa casa, após o preparo de uma experiência, no correr do dia, que pudesse servir de prova. Ela chegou e ordenou ao sujet que fosse à cozinha e lhe dissesse o que via. O sujet respondeu:

– A mesa está no meio da peça e em cima há uma caixa coberta com uma toalha de mesa.

– Que há na caixa, Fannie? – perguntei.

– Oh! não ouso olhar para a caixa! A Srta. Florence decerto ficaria furiosa.

– A Srta. Florence quer muito que V. olhe. Levante a toalha, Fannie, e diga-me o que ali existe.

De repente ela respondeu:

– Há sete pães e dezesseis biscoitos. (Era exato.)”

Tenho para mim que se trata, neste caso, da transmissão do pensamento, porque a Srta. Florence estava no quarto e sem dúvida alguma os fatos estavam inteiramente presentes no seu espírito, achando-se as coisas dispostas por ela como prova; mas o que se segue não o estava certamente:

“A Srta. Florence perguntou a Fannie o que havia na estrebaria. Ela respondeu:

– Dois cavalos negros, um cinzento e um vermelho. (Ela queria dizer um baio.)

A Srta. Florence:

– Não é isso, Fannie: só estão na estrebaria os meus cavalos negros.

Dez ou quinze minutos depois, um irmão da Srta. Florence veio à casa e disse à sua irmã que aí se achavam uns viajantes e, interrogando-o, soubemos que o cavalo cinzento e o “vermelho” lhes pertenciam e que se achavam na estrebaria há uma meia hora, quando Fannie os assinalou.”

Pode-se aventar, sem dúvida, a teoria de que Fannie chegou a esse conhecimento pelo intermédio do espírito de alguma das pessoas que se achavam então na casa de Miss Florence, ou que, por simpatia telepática com seu irmão ou seu pai, Miss Florence era inconscientemente prevenida dos fatos, indo Fannie buscar informação nessa fonte inconsciente; não é, porém, esta hipótese um tanto alambicada?



XXXIV – “A. – O Sr. Howard morava a seis milhas de minha casa. Tinha acabado de construir uma grande casa de madeira. Nosso sujet jamais vira essa casa, ainda que, suponho, tenha podido ouvir falar a respeito. O Sr. Howard, que estava há alguns dias fora de casa, pediu a Fannie que lá fosse e visse se tudo ia bem. Ela fez uma exclamação diante da grandeza da casa, mas criticou a deformidade do alto da fachada, dizendo que não queria ter uma fachada tão antiquada e horrível em uma casa tão bela.

– Sim – disse Howard rindo – minha mulher mostrou-se-me contrariadíssima por causa do acabamento da fachada e dos degraus da escada.

– Oh! – interrompeu Fannie – os degraus são belos e novos.

– Ela não entende disso – replicou Howard – os degraus são ainda mais pesados que a própria fachada.

– Não vedes – gritou Fannie com impaciência – como eles são novos e bem proporcionados? Hein! (E ela parecia absolutamente revoltada, a julgar pelo tom de sua voz.) Eu os acho verdadeiramente belos.

Mudando de assunto, Howard perguntou-lhe quantas janelas tinha a casa. Quase imediatamente deu ela o número (creio que eram vinte e seis). Pensava Howard que era muito, mas, contando-os com cuidado, verificou ser isso mesmo.

De minha casa seguiu ele diretamente para a sua e, com grande surpresa, verificou que, durante sua ausência, sua esposa chamou um carpinteiro, que construíra degraus novos para a escada, tendo a obra terminado um ou dois dias antes de ter Fannie observado o lugar com seu invisível telescópio.

B. – O filho do Sr. Howard tinha ido a um condado vizinho e não se esperava a sua volta antes de alguns dias. Fannie conhecia esse moço (André). Tendo sido o Sr. Howard obrigado a voltar à localidade, achava-se ainda conosco na noite seguinte. Sua fé em nosso “oráculo” tomara maiores proporções e ele sugeriu-nos a idéia de fazer uma visita a sua casa, por meio das maravilhosas faculdades de Fannie. Descreveu ela perfeitamente os quartos, até um buquê sobre uma das mesas e disse que diversos jovens lá se encontravam. Interrogada sobre os seus nomes, respondeu que não conhecia nenhum deles, salvo André.

– Mas – disse eu – André não está em casa.

– Como! Não o vedes?

– Estais certa disso?

– Oh! Será que eu não conheço André? Lá esta ele, posso afirmar-vos.

O Sr. Howard voltou para casa na manhã seguinte e constatou que André regressara tarde, na véspera, e que vários moços da vizinhança tinham passado a noite com ele.”

Eis aqui um outro caso, bastante notável, de visão a distância por um sujet magnetizado. A descrição dele foi feita, em primeira mão, pelo Dr. Alfredo Backman, de Kalmar.

Em resposta a uma carta perguntando ao Sr. A. Suhr, fotógrafo em Ystad, na Suécia, se podia ele recordar-se, de algum modo, de certa experiência hipnótica realizada pelo Sr. Hansen, havia vários anos, em presença dos irmãos Suhr, o Dr. Backman recebeu a seguinte narrativa:



XXXVI – “Foi em 1867 que nós, os irmãos abaixo assinados, nos estabelecemos em Odensa (na Dinamarca), onde víamos muito freqüentemente nosso comum amigo, Sr. Carlos Hansen, o hipnotizador, que residia perto de nós. Diariamente encontrávamos um jurisconsulto, o Sr. Balle, atualmente advogado em Copenhague, sobre o qual tinha Hansen grande influência hipnótica e que desejou, certa noite, ser mergulhado em um sono profundo, para se tornar clarividente.

Nessa época residia nossa mãe em Roeskilde, na Seelândia. Pedimos a Hansen para mandar Balle visitá-la. Era tarde da noite e, depois de haver hesitado um pouco, fez o Sr. Balle a viagem em alguns minutos. Encontrou nossa mãe doente e na cama; o que tinha, porém, não era mais do que ligeiro reumatismo que devia passar no fim de pouco tempo. Não acreditamos que fosse isso verdade e, como controle, Hansen pediu a Balle que lesse no canto da casa o nome da rua. Balle dizia que estava muito escuro para poder ler; Hansen, porém, insistiu e ele por fim leu Skomagerstraede. Pensamos que ele estivesse completamente enganado, pois sabíamos que nossa mãe residia em outra rua. No fim de alguns dias, escreveu-nos ela uma carta, na qual nos dizia que estivera doente e que se havia mudado para Skomagerstraede.”

Outro caso ainda de visão a distância, de um fato atual, em sonho:

XXXVII – “Residia eu em Wallingford. Meu melhor amigo era um jovem chamado Frederico Marks, graduado pela Escola Científica de Yale. Frederico tinha um irmão chamado Carlos, que morava nessa época no Estado central de Nova York, perto do lago Oneida. Pela tarde de um dia chuvoso, Frederico subiu ao seu quarto para deitar-se e descansar. Cerca de uma hora depois desceu, dizendo que acabava de ver seu irmão Carlos, em uma visão, supunha. Estava ele em um pequeno barco à vela e tinha um companheiro consigo, sentado à ré. Desencadeara-se forte tempestade, porque as vagas eram enormes. Carlos se encontrava na proa, apertando o mastro com um dos braços, ao mesmo tempo em que com o outro agarrava o gurupés que se tinha quebrado. Sua posição perigosa de tal modo aterrou Frederico, que ele despertou ou a visão desapareceu. Pensaram as pessoas de sua família que ele dormira inconscientemente e nada mais fizera do que sonhar.

Três ou quatro dias depois, entretanto, recebeu Frederico uma carta de Carlos narrando uma aventura que acabava de ter no lago Oneida. Na manhã do dia em questão, ele e um camarada foram ao lago, alugaram um bote e soltaram a vela. Como o tempo estava bom, desceram o lago até à ilha de Frenchman, à distância de perto de 20 milhas.

Ao voltarem, à tarde, levantou-se furiosa tempestade. Carlos ocupou-se em esgotar a água, enquanto seu companheiro se mantinha ao leme. No mais impetuoso da tempestade, o gurupés quebrou-se. Vendo Carlos o perigo, saltou à proa da embarcação e, agarrando o mastro com uma das mãos, o gurupés com a outra, procurou amarrar este. Conseguiram impedir que o bote corresse, mas o mesmo acabou por encalhar. Eles saltaram à água e atingiram a margem, sãos e salvos.

O lago Oneida está a cerca de 300 milhas de Wallingford e, tendo em conta a diferença da hora, verificou-se que o acidente e a visão ou sonho de Frederico deviam ter ocorrido à mesma hora, talvez no mesmo momento.

Os temperamentos e os caracteres desses dois irmãos são dessemelhantes e nenhuma afinidade particular existe entre eles. Frederico reside atualmente em Santa Ana (Califórnia) e Carlos na cidade de Nova York.

B. Bristol
Short Beach (Estados Unidos).”

Cartas dos Srs. Carlos e Frederico Marks explicam em detalhe o perigo e a visão. São encontradas nos Annales des Sciences Psychiques (1892, págs. 230-235). Há nessa ocorrência, de forma a ser afastada qualquer dúvida, um caso de vista a distância, com todos os requisitos da certeza. Assinalemos da carta do Sr. Charles Marks a seguinte passagem:

Em resposta a esta pergunta: “Soubestes que vosso irmão acreditava estar vendo-vos nesse instante?” responderei que, tanto quanto me recordo, não tive consciência de que meu irmão me via. Creio que todo o meu pensamento, toda a minha atenção estavam ocupados pelo que eu fazia, quando, levantando-me no banco, procurava arriar a vela, no instante em que meu irmão me viu aparecer-lhe. Conhecendo os hábitos de meu irmão (é um homem excepcionalmente forte e bem disposto), penso que naquele momento devia estar dormindo, pois que, dada a sua robusta constituição, quando o deseja pode adormecer quase instantaneamente durante o dia, e muito freqüentemente entrega-se à sesta pela tarde. Durante sua permanência em Wallingford, era ele estudante na Escola Científica de Yale (Sheffield).

C. R. Marks.”

Todas estas relações provam com exatidão que o ser humano é dotado de faculdades ainda desconhecidas que lhe permitem ver o que se passa ao longe. Eis aqui um exemplo muito mais notável ainda, no qual a pessoa que desempenhou o principal papel não somente viu, mas parece que ele próprio se transportou, em uma espécie de duplo, e foi visto não somente por seu marido, mas ainda por uma outra testemunha.



XXXVIII – “A 3 de outubro de 1863, deixei Liverpool, para dirigir-me a Nova York pelo vapor City of Limerick, da linha Inman, do comando do capitão Jones. À noite do segundo dia, pouco depois de deixar Kinsale Head, começou uma grande tempestade que durou nove dias. Durante todo esse tempo não vimos nem o Sol nem as estrelas, nem embarcação alguma; as amuradas foram arrebatadas pela violência da tempestade, uma das âncoras foi arrancada de suas amarras e produziu muitos estragos antes que se pudesse imobilizá-la. Diversas e fortes velas, conquanto cuidadosamente ferradas, foram levadas pelo vento e vários botalós partidos.

Durante a noite que sucedeu ao oitavo dia da tempestade, houve um pouco de calma e, pela primeira vez desde que deixei o porto, pude gozar de um sono reparador. Pela manhã sonhei que via minha esposa, a quem deixara nos Estados Unidos. Veio à porta do meu quarto, em seu trajo de dormir. À entrada, pareceu descobrir que eu não estava só no quarto, hesitou um pouco, depois se dirigiu para o meu lado, parou e me abraçou e, depois de acariciar-me por alguns instantes, retirou-se tranqüilamente.

Acordando, fiquei admirado de ver meu companheiro, cujo beliche estava por cima do meu, mas não diretamente – porque o nosso camarote ficava à ré –, apoiando-se nos cotovelos, olhar-me fixamente:

– Sois um felizardo – disse-me por fim – em ter uma dama como esta que veio ver-vos.

Pedi-lhe que me explicasse o que queria dizer; a princípio recusou, mas, afinal, contou-me o que tinha visto, estando inteiramente acordado e debruçado sobre o seu beliche. O que ele viu correspondia exatamente ao meu sonho.

O nome desse companheiro era William J. Tait; não era dotado de caráter inclinado habitualmente a brincar, mas, pelo contrário, era um homem sério e religioso, cujo testemunho pode ser aceito sem hesitação.

No dia seguinte ao do desembarque, tomei o trem para Watertown, onde se achavam minha esposa e meus filhos. Quando ficamos a sós, sua primeira pergunta foi:

– Recebestes a minha visita, na terça-feira da semana passada?

– Uma visita – exclamo – se estávamos a mais de 1.000 milhas sobre o mar!

– Eu o sei – replicou ela – mas pareceu-me ter-te feito uma visita.

– É impossível; dize-me o que te faz crer nisso.

Contou-me, então, minha mulher que, notando a tempestade e sabendo da perda do África, que partira para Boston no dia em que deixáramos Liverpool, rumo a Nova York, e que naufragara no cabo Race, ela estivera extremamente inquieta pela minha sorte. Na noite precedente, a mesma noite em que, como já disse, começara a diminuir a tempestade, ela ficara acordada durante muito tempo, pensando em mim, e pelas 4 horas da manhã pareceu-lhe que vinha ao meu encontro. Atravessando o largo mar enfurecido, encontrou enfim um navio baixo e negro, subiu a bordo e, descendo sob o convés, atravessando os camarotes até à ré, chegou ao meu quarto.

– Dizei-me – acrescentou – há sempre camarotes como esse que vi, nos quais o beliche superior está mais para trás do que o de baixo? Havia um homem no de cima, que me olhava fixamente, e durante um momento fiquei com medo de entrar, mas por fim me encaminhei para o vosso lado, inclinei-me, abracei-vos e vos apertei em meus braços, depois retirei-me.

A descrição feita por minha esposa era correta em todos os seus detalhes, ainda que ela jamais tivesse visto o navio. Verifico pelo diário de minha irmã, que partimos a 4 de outubro, chegamos a Nova York a 22 e à casa a 23.



S. R. Wilmot
Manufatureiro em Bridgeport.”

O New York Herald noticia que o City of Limerick deixou Liverpool a 3 de outubro de 1863, Queenstown a 5, chegou muito cedo pela manhã de 22 de outubro de 1863, e refere-se à tempestade, assim como à situação crítica do navio e ao naufrágio do África. O inquérito confirmou de diversos modos essa estranha narrativa. A irmã do Sr. Wilmot, que viajava no mesmo navio, escreve especialmente:

“A respeito de tão curioso fenômeno ocorrido com meu irmão por ocasião de nossa viagem pelo Limerick, lembro-me que o Sr. Tait, que nessa manhã me levava para o almoço, por causa do terrível ciclone que causava grande estrago, perguntou-me se na noite precedente eu viera ver meu irmão, com quem ele partilhava do mesmo camarote. “Não, respondi, por quê?” – “Porque vi uma mulher de branco que viera ver vosso irmão.”

A Sra. Wilmot, por seu lado, escreveu:

“Bridgeport, 27 de fevereiro de 1890.

Em resposta à pergunta: “Guardastes alguns detalhes a respeito do homem que vistes no beliche superior?”, não posso, tanto tempo depois, dizer com certeza que reparei em detalhes, mas lembro-me distintamente que me senti muito perturbada pela sua presença, vendo-o assim olhar-nos do alto.

Creio que contei meu sonho a minha mãe no dia seguinte pela manhã; e sei que, durante todo o dia, experimentei a impressão nítida de ter ido ver meu marido. Era tão forte a impressão, que me sentia feliz e reconfortada, de forma inusitada – e com grande surpresa de minha parte.

Sra. S. R. Wilmot.” 92

Este importante caso merece especial atenção. É ele um pouco antigo: a sua narrativa foi escrita provavelmente mais de vinte anos após a ocorrência, uma das testemunhas é morta e não pode dar um relato de primeira mão do que observou. Não se pode afirmar que, após tão longo tempo, a memória das testemunhas, por muito fiel que se mantenha, seja exata, nem que a gente possa fiar-se de todos os detalhes. Entretanto, depois de guardadas todas as reservas, é incontestável que se verificou uma notável correspondência entre as impressões das três pessoas em questão. A Sra. Wilmot – em sonho ou acordada – tem uma visão de seu marido, na qual percebe exatamente uma parte do que o rodeia; o Sr. Wilmot sonha com o que sua esposa pensa e, ainda mais, vê e sente-a; e o Sr. Tait, acordado, vê com os seus próprios olhos, o sonho do Sr. Wilmot. Eis aí três fatos inexplicáveis que é preciso admitir. Quanto aos duplos, às manifestações do corpo fluídico ou astral, é esse um assunto sobre o qual teremos de nos pronunciar mais tarde.

O Sr. Marcel Séméziès Sérizolles descreve as curiosas observações seguintes, feitas nele próprio.93

XXXIX – “Em novembro de 1881 tive um sonho muito claro, durante o qual eu lia um volume de versos. Experimentava as sensações exatas da leitura real; não somente compreendia o que estava a ler, gozava com essa leitura, mas ainda notavam meus olhos a aspereza do papel, um pouco amarelo, a impressão muito negra e carregada, meus dedos voltavam as folhas espessas e minha mão esquerda sustentava o volume bastante pesado.

De repente, ao voltar de uma página, despertei e maquinalmente, meio dormindo ainda, acendi a vela, tomei de sobre a mesa o lápis e os papéis que aí sempre estavam ao lado do livro, para ler à noite (era, nesse dia, uma obra de história militar), e escrevi as duas últimas estrofes que acabava de ler no volume do sonho.

Foi-me impossível, mau grado a violentíssimos e dolorosos esforços de memória, lembrar-me de um só verso além desses doze que pareciam tratar de uma questão de metafísica e cujo sentido está incompleto, achando-se inacabado o período. Ei-los, tais quais então os escrevi:

Do tempo em que eu vivia uma vida anterior,
Do tempo em que eu levava existência melhor,
Que não posso recordar,
Quando eu sabia, então, os efeitos e as causas
Antes da queda lenta e das metamorfoses
Para um mais triste tornar;


Do tempo em que eu vivia as altas existências,
De que temos, como homens, simples reminiscências
Rápidas como relâmpagos;
Do tempo em que, livre talvez, eu ia pelo espaço
Como um astro deixando ver, um instante, seu traço
No azul sombrio do éter...
94

Esses versos não poderiam ser uma reminiscência de leitura; procurei-os, sem os encontrar, em todas as compilações publicadas: era bem um volume inédito e que permanecia desconhecido, o que eu lia no sonho em questão.

Eis agora um ou dois casos de pressentimentos ou de adivinhação por meio do sonho.

Quando, em 1880, meu pai era magistrado em Montauban, havia no Tribunal um advogado de nome Laporte. Vejo-o ainda, delgado, louro, de olhar frio, um tanto enigmático. É preciso notar que eu era ainda muito jovem, que os togados me interessavam pouco e eu não tinha com eles mais do que as relações de estrita cortesia que devem ser mantidas por um filho de magistrado com todos os membros do Tribunal.

Em 1883 meu pai faleceu e pouco depois o advogado Laporte foi nomeado juiz de Noutron (Dordogne). Apenas dei atenção ao fato e tinha perdido completamente a lembrança do mesmo magistrado, quando, dois ou três anos mais tarde, certa noite, em sonho, vi meu pai a passear em um lugar indefinido, uma espécie de solo trepidante que parecia flutuar sobre as nuvens. Meu pai, nas atitudes, trajes, modo de andar, sorriso, era tal qual antes de sua morte. De repente vi uma forma sair das nuvens do fundo e encaminhar-se para ele. Essa forma tomou a pouco e pouco a aparência real do Sr. Laporte, e quando as duas sombras se acharam uma perto da outra, ouvi muito distintamente estas palavras pronunciadas por meu pai: “Então, Laporte, aí estais, é chegada, pois, a vossa vez?”, ao que o Sr. Laporte respondeu simplesmente: “Pois não, sou eu em carne e osso”, e eles apertaram-se as mãos.

Ora, alguns dias depois, encontrei em minha correspondência uma carta de participação: O Sr. Laporte, juiz em Noutron (Dordogne), morrera, recentemente, no mesmo dia em que eu tivera o citado sonho.

Um outro caso, quase idêntico, porém menos fúnebre. Desse conservo a data: 18 de dezembro de 1894. Dormindo e sonhando, avistei em seu escritório, a compulsar seus dossiers, um notário residente em pequena cidade, distante cerca de 20 quilômetros da sede onde eu então morava. Esse notário tinha em suas mãos capitais meus e habitualmente se apresentava em minha casa, uma ou duas vezes por ano, em épocas incertas, levando-me os juros vencidos. Repito-o, suas visitas não tinham nenhuma data fixa e jamais eu via esse notário, homem respeitabilíssimo, conselheiro geral, prefeito e condecorado, muito correto no trajar e quase elegante. Nessa noite eu o vi envergando um comprido casacão azul, trazendo à cabeça um barrete de seda preta.

Ora, dois dias depois, a 20 de dezembro, pela manhã, o Sr. X. apresentava-se em meu gabinete de trabalho e me entregava uma soma atrasada e inesperada.

– Então – disse-lhe eu – que fizestes do vosso casacão azul e do vosso barrete de seda preta?

Olhou-me ele com a mais viva surpresa e me respondeu:

– Mas como conheceis tão bem meu traje de casa?

Contei-lhe meu sonho e então confessou-me ele, não sem admiração, que a 18 de dezembro estivera, com efeito, acordado até muito tarde em seu escritório e que trazia as vestes por mim descritas.”

Desses três sonhos, o último indica uma visão a distância, de um fato atual; o segundo é uma espécie de manifestação telepática de moribundo, mas que não deve proceder dele, assaz estranho ao percipiente: é talvez ainda a visão a distância, mas de ordem muito transcendente. O primeiro parece indicar uma composição, uma invenção real, do espírito do autor, análogas às produzidas pela cerebração inconsciente, acima assinaladas (Maury, Condillac, Voltaire, Tartini, Abercrombie, págs. 377-380).

A propósito de sonhos, o seguinte fato histórico é conhecido desde longa data:



XLII – “Uma noite a princesa de Conti viu em sonho um dos compartimentos do seu palácio prestes a ruir, e seus filhos, que aí dormiam, a ponto de serem sepultados sob as ruínas. A imagem apresentada à sua imaginação alarmou seu coração e pôs-lhe o sangue em ebulição. Em seu pavor, ela acorda sobressaltada e chama as mulheres que dormiam em seu quarto de vestir. Ao ruído, elas vêm receber as ordens de sua senhora. Conta-lhes a princesa a visão que tivera e declara querer peremptoriamente que lhe tragam seus filhos. Suas fâmulas resistem-lhe, citando a propósito o antigo provérbio: que todo o sonhar faz enganar.

A princesa renova a sua ordem com insistência. A governante e as amas de leite deram mostras de obedecer; depois voltaram para dizer que os jovens príncipes dormiam tranqüilamente e que seria violência perturbar-lhes o repouso. Vendo a princesa a obstinação e talvez mesmo o embuste das serviçais, pediu altivamente o seu roupão. Não houve mais meio de recuar; foram buscar os principezinhos; apenas chegaram estes ao quarto de sua mãe, eis que desaba o em que dormiam.” 95

A visão a distância, sem o concurso dos olhos, em sonho, parece-se, por uma analogia muito acentuada, ao que muitas vezes tem sido constatado pelos magnetizadores em seus sujets “lúcidos”. Eis, como exemplo, um caso incontestavelmente autêntico, observado por vários médicos, a propósito da ablação do seio, operada sem dor, durante o sono magnético, conforme o relato de Brierre de Boismont (Obs. 106):

XLIII – “A Sra. Plantin, com cerca de 64 anos de idade, consultara, no mês de junho de 1828, uma sonâmbula que o Dr. Chapelain lhe indicara; esta prevenira-a de que se estava formando um tumor sob o seio direito, ameaçando tornar-se canceroso.

A doente passou o verão no campo e seguiu com pouca exatidão o regime que lhe haviam prescrito. No fim de setembro foi consultar o Dr. Chapelain e confessar-lhe que o tumor havia aumentado consideravelmente. Começou ele a magnetizá-la a 23 de outubro seguinte e o sono manifestou-se poucos dias depois; mas o sonambulismo lúcido, nessa paciente, foi sempre muito imperfeito. Os cuidados médicos diminuíram os progressos do mal, sem curá-lo. Por fim, o seio ulcerou-se e o médico julgou não haver esperança de cura senão mediante amputação. O Sr. Jules Cloquet, cirurgião de raro merecimento, foi do mesmo parecer; restava ainda o trabalho de convencer a enferma. Isso foi conseguido pelo Dr. Chapelain, graças à influência magnética que exercia sobre ela.

Trabalhou com todas as forças da sua vontade para produzir a insensibilidade do órgão e, quando acreditou havê-lo conseguido, apertou fortemente com as unhas, sem causar dores, o bico do seio cuja ablação devia ser feita. Ignorava a doente o dia exato da operação, marcada para 12 de abril de 1829. O Dr. Chapelain fê-la entrar em estado magnético; magnetizou fortemente a parte que ia ser operada.

Eis o relatório apresentado, a esse respeito, à Academia de Medicina:96

“No dia designado para a operação, o Sr. Cloquet, chegando às dez horas e meia, encontrou a doente vestida e sentada em sua poltrona, na atitude de pessoa tranqüilamente entregue ao sono natural. Fazia perto de uma hora que ela regressara da missa, a que assistia habitualmente à mesma hora, tendo-a o Sr. Chapelain mergulhado no sono magnético desde a sua chegada. A doente falava com muita calma a respeito da operação que ia sofrer. Estando tudo disposto para a operação, ela mesma se despiu e se sentou em uma cadeira.

O Sr. Pailloux, aluno interno do Hospital de S. Luís, ficou encarregado de apresentar os instrumentos e de fazer as ligaduras.

Uma primeira incisão, partindo da cavidade da axila, foi dirigida por cima do tumor até à face interna do peito. A segunda, começada no mesmo ponto, contornou o tumor pela parte inferior e foi conduzida ao encontro da primeira; os gânglios ingurgitados foram dissecados com precaução, à vista da sua proximidade da artéria axilar, e o tumor foi extirpado. Durou a operação dez ou doze minutos.

Durante todo esse tempo, a doente continuou a conversar tranqüilamente com o operador e não deu o menor sinal de sensibilidade; movimento algum nos membros ou modificação nas feições; mudança alguma na respiração, nem na voz; emoção alguma, sequer assinalada nas pulsações; manifestação alguma dessa espécie, em suma, se verificou. A enferma não cessou de apresentar esse estado de abandono e de impassibilidade automática, que oferecia à chegada do Sr. Cloquet. Quando o cirurgião lavou a pele, nas proximidades da ferida, com uma esponja embebida em água, a doente manifestou sensações idênticas às produzidas pelas cócegas e disse várias vezes com hilaridade: “Acabe com isso, não me faça cócegas.”

Essa senhora tinha uma filha casada com o Sr. M. Lagandée; infelizmente residia ela na província e não pôde transportar-se a Paris senão alguns dias após a operação. A Sra. Lagandée caía em sonambulismo e era dotada de notabilíssima lucidez.”

XLIV – “O Sr. Cloquet pediu ao Dr. Chapelain que magnetizasse a Sra. Lagandée e fez-lhe diversas perguntas sobre sua mãe. Ela respondeu da forma seguinte:

– Minha mãe está muito enfraquecida de alguns dias para cá; não vive mais senão em virtude da ação magnética, que a sustenta artificialmente: falta-lhe a vida própria.

– Acreditais que se possa sustentar a vida de vossa mãe?

– Não, ela expirará amanhã de manhã bem cedo, sem agonia, sem sofrimento.

– Quais são, pois, as partes doentes?

– O pulmão direito está diminuindo, contraído sobre si mesmo; acha-se envolto por uma membrana semelhante a cola; flutua em meio de muita água. Más é sobretudo ali – diz a sonâmbula, mostrando o ângulo inferior da omoplata – que está o sofrimento de minha mãe. O pulmão direito não respira mais, está morto. O pulmão esquerdo está, pelo contrário, são: é por ele que minha mãe vive. Há um pouco de água no envoltório do coração (o pericárdio).

– Como se acham os órgãos do baixo ventre?

– O estômago e os intestinos estão bons, o fígado está branco e descorado na superfície.

O Sr. Chapelain magnetizou a doente várias vezes no correr de segunda-feira e conseguiu apenas fazê-la dormitar. Quando voltou na terça-feira, pelas sete horas da manhã, ela acabava de expirar. Os dois médicos desejariam verificar as declarações da sonâmbula sobre o estado interior do corpo; obtiveram o consentimento da família para fazer-lhe a autópsia. O Sr. Moreau, secretário da seção de cirurgia da Academia, e o Dr. Drousart foram solicitados a servir de testemunhas da autópsia e ficou deliberado que ela seria feita no dia seguinte, em sua presença. Foi a mesma procedida pelos Srs. Cloquet e Pailloux, seu ajudante, assistidos pelo Dr. Chapelain, sendo que este fez adormecer a Sra. Lagandée um pouco antes da hora fixada para a autópsia. Não relatarei uma cena de ternura e de piedade filial, durante a qual esta sonâmbula banhou com suas lágrimas o rosto inanimado de sua mãe.

O Dr. Chapelain apressou-se em acalmá-la. Os médicos desejariam ouvir, de seus próprios lábios, o que ela declarara ter visto no interior do corpo da Sra. Plantin, e a sonâmbula repetiu, com voz firme e sem hesitar, o que havia declarado aos Srs. Cloquet e Chapelain. Conduziu-a este último ao salão contíguo ao quarto onde ia ser feita a abertura do cadáver, quarto cuja porta foi hermeticamente fechada. A Sra. Lagandée continuava mergulhada em sono sonambúlico e, mau grado às barreiras que a separavam desses senhores, seguia o bisturi na mão do operador e dizia às pessoas que permaneciam perto dela:

– Por que fazem a incisão no meio do peito, uma vez que o derramamento é à direita?

As indicações fornecidas pela sonâmbula foram reconhecidas como exatas, sendo o processo verbal da autópsia escrito pelo Dr. Drousard.

As testemunhas desse caso, acrescenta B. de Boismont, estão todas vivas; ocupam no mundo médico um lugar honroso. Sua comunicação foi interpretada de diferentes maneiras, mas jamais se levantaram dúvidas sobre a sua veracidade.”

Eis aí, portanto, uma observação incontestável de visão magnética sem a intervenção dos olhos. Ela é ainda mais notável que a referida ablação do seio sem dor, que relatamos, por ser a primeira operação magnético-médica que tenha sido feita.

B. de Boismont acrescenta o seguinte caso a propósito dessa visão a distância:

XLV – “Um magistrado, conselheiro da Corte, contou-me o seguinte caso: Sua esposa tinha uma criada de quarto, de saúde precária. O tratamento magnético era feito secretamente, para que as suas intenções caridosas ficassem ao abrigo das chacotas. Essa senhora era ajudada por seu marido. Um dia em que a sessão magnética lhe fizera experimentar fortes dores, pediu a sonâmbula um pouco de vinho velho: o marido tomou uma luz e saiu para buscar o vinho. Desceu o primeiro andar sem acidente; mas a adega estava situada mui profundamente abaixo do solo, os degraus eram úmidos, ele escorregou a meio da escada e caiu para trás, sem ferir-se, nem mesmo apagar a luz que trazia à mão. Isso não o impediu em seguida de continuar seu caminho e de tornar a subir trazendo o vinho solicitado. Verificou que sua mulher já era sabedora de sua queda e de todos os detalhes de sua viagem subterrânea: a sonâmbula havia-lhe feito a narrativa deles à proporção que se iam sucedendo.”

Outro exemplo de visão magnética a distância, tirado do mesmo autor:



XLVI – “Conheci a esposa de um coronel de Cavalaria, que era magnetizada por seu marido e que se tornava sonâmbula; no curso do tratamento, uma indisposição o constrangeu a pedir o auxílio de um oficial do seu Regimento. Isso não durou mais do que oito ou dez dias.

Algum tempo depois, em uma sessão magnética, tendo o marido posto sua esposa em estado sonambúlico, induziu-a a verificar o que se passava com o mesmo oficial:

– Ah! o infeliz! – gritou ela –; eu o vejo; ele está em X.; quer suicidar-se; toma um revólver. Correi depressa.

O lugar indicado estava a uma légua. O coronel tomou imediatamente um cavalo; mas, quando chegou, o suicídio estava consumado.”

Eis ainda a narrativa de uns casos curiosos de lucidez no sonambulismo, extraídos de uma das últimas cartas recebidas em meu inquérito:

(Carta 743)

XLVII – “Sou muito incrédulo quanto ao Espiritismo e era muito céptico relativamente ao magnetismo, quando um fato da mais alta evidência veio esclarecer-me e forçar a minha convicção sobre este último ponto.

Uma jovem de 36 anos, muito respeitável, de uma distinção e instrução superiores, e que morava com a minha família, foi acometida de um quisto do ovário e resistia aos médicos que a aconselhavam a fazer-se operar. Em 1868, foi ela presa, um dia, de dores terríveis e, sendo chamado o Dr. B., teve ele receio de um desenlace fatal após uma crise de 30 horas, pelo que decidiu tentar, em desespero de causa, magnetizá-la. Conseguiu adormecê-la e amenizar seus sofrimentos.

Continuando assim o tratamento, sentiu-se a doente muito aliviada e, desde a segunda sessão, produziram-se fenômenos de lucidez absolutamente notáveis. Cada vez que sobrevinha um novo acesso ela indicava, com extrema precisão, o dia, a hora e o minuto exato em que devia ele recomeçar e isso a intervalos muito irregulares e distanciando-se cada vez mais uns dos outros. Advertido, o médico anotava cuidadosamente essas indicações, de modo a chegar antes do começo da crise e a magnetizar a paciente, que se sentia rapidamente aliviada.

Uma noite, pelas 3 horas da madrugada, achando-se o médico doente, produziu-se a anunciada crise, que se desenvolveu com aterradora intensidade. A religiosa que a assistia, sabendo que eu, em conseqüência dessas constatações, estudara os fenômenos magnéticos nas obras de Deleuze e do Barão du Potet, sugeriu-me a tentativa de substituir o doutor ausente. Com efeito, consegui rapidamente fazê-la dormir e acalmar-se, tão bem, senão melhor, declarando a paciente que o meu fluido era muito mais calmante. Eis como o acaso me revelou qualidades de magnetizador, que eu não desconfiava possuir. Magnetizava-a regularmente todas as noites, em presença de minha mãe e de minha numerosa família, e assistíamos a fenômenos extraordinários de lucidez.

Mau grado à melhora considerável experimentada pela doente, ela reconhecia que o magnetismo não lhe era mais do que um calmante, que o desenvolvimento de seu quisto fazia progressos inquietantes e que a operação se tornava absolutamente urgente para evitar um desenlace fatal.

Ficou decidido que a Srta. de V. iria, acompanhada de sua mãe, fazer-se operar em Estrasburgo, pelo Dr. Koeberlé, que desfrutava, nessa época, grande renome nessa espécie de operações. A extensão de semelhante viagem para a pobre doente inquietava o médico, que aconselhou efetuá-la em diversas etapas. Mas a doente, consultada, declarou que poderia fazê-la sem inconvenientes, de uma só vez, observando-se as precauções seguintes: de início seria necessário conduzir diversas garrafas de água magnetizada, mas sobretudo doze ou quinze lenços magnetizados, tendo-se o cuidado de encerrá-los em fortes envelopes de papel, cuidadosa e hermeticamente fechados e colados, de modo a impedir toda entrada de ar exterior. Declarou a doente que, desde que se produzisse um começo de fadiga e de crise, sua mãe, rasgando um envelope, aplicaria um lenço sobre a sua fronte, o que provocaria o sono magnético, e em seguida aplicá-lo-ia sobre o ventre na parte doente.

Mau grado essas precauções, ficamos todos muito inquietos quando ela partiu com sua mãe.

Tudo se passou precisamente como o paciente o havia anunciado. A viagem fez-se bem, sem interrupção alguma, nada mais usando do que alguns lenços magnetizados e sem ter necessidade de recorrer à água também magnetizada.

Chegando a Estrasburgo, foi a mãe apresentar sua filha ao sábio cirurgião e, tomando-o em seguida à parte, apresentou-lhe uma nota que o médico, Sr. B., redigira conforme o ditado da enferma. Durante o sono, a paciente descrevera minuciosamente seu estado.

– O meu quisto – dissera – é da grossura e da cor desses balões amarelos com que as crianças brincam, seu conteúdo não é fluido, mas composto de uma matéria compacta de cor parda. Em uma de suas faces já está formada uma nova bolsa do tamanho da metade de uma pequena laranja e do outro lado começa a desenvolver-se uma outra bolsa da espessura de uma meia avelã. Está o quisto rodeado de aderências ou ligamentos numerosos.

Interrogada pelo Sr. B., seu médico, sobre os perigos da hemorragia na operação, respondeu que não havia o que recear por esse lado, mas, à pergunta sobre os temores de septicemia, ela empalideceu horrivelmente e, após um instante de silêncio, respondeu:

– Somente Deus o sabe.

Tal o conteúdo da nota que a genitora apresentou ao Dr. Koeberlé, que a acolheu com ironia e incredulidade, declarando que não acreditava nessas elucubrações, e como prova acrescentou:

– Vossa filha pretende que existem numerosos ligamentos; ora, a palpação acaba de mostrar-me que há poucos ligamentos, pois o quisto flutua desde que se lhe faça pressão. Vedes, portanto, que os seus dizeres são puramente imaginários.

A operação, entretanto, foi das mais demoradas e graves, por causa do grande número de ligamentos, como o havia a enferma indicado, e tendo-se declarado a septicemia, levou a enferma dentro de três ou quatro dias.

Chamado pela infeliz mãe, parti para Estrasburgo, a fim de assisti-la em sua cruel prova. Constatei com os meus próprios olhos a exatidão de todas as informações quanto ao quisto, que fora conservado após a operação. Acompanhei a pobre mãe, antes de sua partida, à casa do sábio Dr. Koeberlé, que encontrei absolutamente desconcertado pela minúcia dos detalhes e predições que lhe transtornavam todas as idéias. Perguntei-lhe especialmente como a palpação lhe havia feito crer em poucas aderências contrariamente à realidade. Respondeu-me ele:

– É um dos casos mais extraordinários que tenho constatado; evidentemente as aderências eram muito numerosas, mas eram longas, o que permitia a flutuação e o deslocamento do quisto sob a pressão da mão e me fez concluir de modo muito diverso da realidade. Tudo isso é verdadeiramente extraordinário, pois não posso contestar a perfeita exatidão de todas as previsões e indicações da pobre doente.

Não sei se o Dr. Koeberlé ainda vive, mas a lembrança de todos esses fatos sensacionais deve ter sido conservada na excelente casa de saúde mantida pelas religiosas (de cuja ordem esqueci o nome) e que deve ainda existir.

Tais os fatos que eu vos posso atestar sob palavra de honra e que me parecem de natureza a ocupar um lugar no vosso dossier, do ponto de vista estritamente científico.

P. S. – Permitir-me-eis assinar com um pseudônimo, pois que sou muito conhecido em Marselha, onde ocupo situação de evidência, e não desejava que meu nome ficasse envolvido em qualquer controvérsia pública.

Mais abaixo assino o meu verdadeiro nome, a título confidencial, para o caso em que, acolhendo com confiança as minhas declarações, julgardes interessante que eu as complete com outros informes que me parecem do mais alto interesse, sob o ponto de vista humanitário e científico.



C. du Chatellard (Marselha).”

O mesmo correspondente acrescenta:



XLVIII – “Uma noite em que a enferma se achava magnetizada, calma e lúcida, ocorreram numerosas experiências usuais de magnetismo, perante numerosa reunião familiar, quando uma de minhas primas teve a idéia de ver se poderia seguir e encontrar meu tio que partira na antevéspera com seu filho Paulo, para fazer uma tournée em suas vastas propriedades que compreendiam diversas comunas. Interrogada, a magnetizada declarou vê-los em uma estalagem cuja descrição demonstrou estarem em outra aldeia, que não aquela que se supunha. Declarou que o pai conversava com um guarda e que seu filho Paulo embalava-se em uma cadeira defronte do fogão, na cozinha. De repente, a magnetizada solta uma grande gargalhada, gritando:

– Ah! não é que o Sr. Paulo acaba de virar-se para trás! Oh! que engraçadas contorções ele acaba de fazer ao cair! Mas nenhum mal sofreu.

Terminada a sessão, a irmã de Paulo tomou a pena para lhe descrever a hora e os detalhes desse grotesco incidente. Tudo estava rigorosamente exato na descrição, e Paulo e seu pai ficaram muito intrigados até à sua volta, antes de saberem como se pudera ter tido conhecimento do ocorrido.

Se desejardes controlar a narrativa que vos fiz, seja pedindo informações ao Dr. Koeberlé (caso ainda esteja vivo), seja à casa de saúde que deve ainda existir em Estrasburgo ou na França, enviar-vos-ei confidencialmente o nome da Srta. de V.”

Segunda carta:

“Sensível aos agradecimentos e ao interesse que testemunhastes pelas minhas comunicações, venho hoje completá-las, persuadido de que devereis tirar deduções instrutivas do que vou dizer-vos.

Volto, pois, à sessão da estalagem. Um de meus primos, presente àquela reunião familiar, sugeriu-me ordenar-lhe que subisse à sala de jantar. Imediatamente a magnetizada me respondeu:

– Mas não! há três degraus a descer, para ir-se à sala de jantar.”



XLIX – “Pediram-me para enviá-la à igreja e solicitar-lhe a descrição de uma bela série de quadros religiosos. Convencido desta asserção, em virtude do tom sério que a acompanhara, transmito o pedido à magnetizada. Fiquei muito admirado ouvindo-a rir desabaladamente e fazer uma descrição muito humorística desses famosos quadros. Era uma série de telas absolutamente grotescas, feitas por um habitante da aldeia, nas quais os agrupamentos e o desenho apresentavam anomalias e efeitos dos mais hilariantes. Igualmente explodiam risadas de todos os assistentes que conheciam essas pinturas e que estavam aturdidos com a fidelidade da descrição e dos minuciosos detalhes enumerados.

Convém tirar certas deduções dos dois precitados fatos, do ponto de vista científico. Sábios mais ou menos convencidos, e mesmo magnetizadores, têm sustentado que em casos semelhantes o magnetizado pode ler semelhantes detalhes no pensamento quer do magnetizador, quer das pessoas presentes, o que excluiria a visão a distância. Ora, não seria em meu pensamento que teria ela podido encontrá-los, pois que eu os ignorava absolutamente.97 Não podia ser, muito menos, no pensamento daquele que me pedira para transmitir as duas perguntas, porquanto se, de uma parte, conhecia ele as originalidades dos quadros, fora de boa fé que me fizera ordenar à magnetizada que subisse à sala de jantar, para fazer-lhe a descrição e que outros membros da família reconheceram ter tido razão a magnetizada em dizer que havia três degraus a descer.

Resulta, pois, do que precede, que a visita e descrição dos quadros na igreja era bem uma visão e descrição a distância, com a circunstância de que isso se passava entre 10 e 11 horas da noite, hora na qual as igrejas estão fechadas e em completa obscuridade.

Durante os longos serões de família em que eu a fizera adormecer, tive certa vez a idéia de perguntar-lhe qual a composição de um remédio de nome estranho que eu acabava de ler em uma farmacopéia. Ela imediatamente me deu a descrição completa de uma planta com suas fases sucessivas, sua floração, gênero, família, enfim, todas as descrições botânicas mais minuciosas. Em seguida acrescentou:

– Essa planta cresce em uma ilha, eu a vejo, ela é natural das ilhas da Oceania.

Feita uma verificação, todos esses detalhes eram exatos. Ocupei depois as minhas noites a escrever, sob ditado seu, a descrição de grande número de plantas medicinais. Ao seu despertar, eu conduzia sem afetação a conversação para as plantas que ela acabava de descrever e sobre as quais não parecia ter senão muito vagos conhecimentos.

Interrogando-a, certa noite, sobre o acônito, de que me fizera a descrição, indicando a zona de crescimento, ficou durante longo tempo pensativa, mergulhada em profunda reflexão, de que tive dificuldade em tirá-la, e acabou por me responder nestes termos que faço questão de repetir-vos escrupulosamente, tão profunda impressão deixaram eles em minha lembrança. Saindo de sua profunda meditação, ela me disse:

– É, entretanto, verdade; não me engano. Por que razão não se pôde ainda encontrar o remédio para esse mal terrível, o remédio para o câncer: Vejo a planta, ela cresce nas mesmas regiões que o acônito.

Fez-lhe a descrição exata, completada em diversas sessões, acrescentando que se lhe reconheceria a virtude, inoculando em um animal, notadamente em um cão, a tintura mãe obtida pela maceração dessa planta, o que determinaria uma ferida de aparência cancerosa.

Várias vezes procurei, mas sempre em vão, interessar médicos e botânicos em pesquisas nesse sentido. Um sábio botânico declarou-me que a descrição parecia referir-se à oxiria dygina.

Envio-vos a descrição literal que foi feita dessa planta sob ditado da magnetizada. Melhor do que eu, vós, cujo nome e cuja ciência fazem honra ao nosso país, podereis, sem dúvida, realizar a fundo essas pesquisas e verificar-lhes o fundamento. Que auréola acrescentaríeis ao vosso nome, se chegásseis, como Pasteur, a dotar a Humanidade de semelhante benefício!

Ninguém ignora que os mais lúcidos magnetizados têm os seus momentos de obnubilação, sobretudo as mulheres, em certas épocas, ou sob influências patológicas. Não tenho, porém, razões para duvidar que as suas afirmações sobre o remédio do câncer sejam tão probantes como tantas outras. Sua gravidade, sua espontaneidade, sua longa meditação antes de emitir suas afirmativas, seu ardente desejo de ver assim a cura de tantos infelizes, impressionaram-me profundamente e levam-me a crer em suas declarações.

Todavia, se tiverdes de mencionar em publicações o que vos comunico, muito desejaria que não citásseis este último fato que, único em minha narrativa, ainda não pôde ser controlado.”

Permito-me não manter a reserva solicitada por meu respeitável correspondente, porquanto jamais teria nem o tempo nem a competência para ocupar-me com essa questão, e talvez um médico ou um fisiologista, encontrando aqui essa indicação, poderiam fazer com que dela resultasse algum proveito para a Humanidade.98 Pois que a visão a distância e a adivinhação (está provado) são possíveis, não desdenhemos nada, registremos as coisas úteis sem negar coisa alguma.

Sem multiplicar indefinidamente esses exemplos, constatemos somente que seria muito fácil fazê-lo e que a vista independe dos olhos, em estado sonambúlico, é um fato assaz freqüente, que nos cumpre admitir, mau grado às numerosas fraudes, mais freqüentes ainda. A visão a distância, em sonho e em estado sonambúlico, não pode mais ser negada.

A comunicação psíquica recíproca, por meio do sonho, pode ser igualmente demonstrada por exemplos positivos. Sem remontar até o caso assinalado por Santo Agostinho (Cidade de Deus, liv. XVIII, cap. 18), recordemos, entre outros, os de que fala Gratiolet (Anatomies, tomo II, pág. 515). Uma mulher levantou-se certa noite, inteiramente desatinada, sonhando que envenenara os filhos; no mesmo instante seu filho sonhava que tinha sido envenenado por ela. Um moço sonha que sua mãe é mordida por uma serpente e desperta no momento exato em que sua mãe tinha o mesmo sonho, etc. As correntes psíquicas devem ser admitidas como uma realidade.





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