Camille Flammarion o desconhecido e os Problemas Psíquicos



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(Carta 153)

XVI – “Era eu estudante de Medicina em Paris, em 1862. Certa manhã, o meu porteiro que me levava, na cama, acordando para ir ao hospital, o meu pequeno almoço, encontrou-me em pranto. Perguntando-me o que eu tinha, respondi-lhe: “Acabo de ter um horrível pesadelo: meu tio, que me educara (pois havia perdido, ainda muito moço, meu pai e minha mãe) e a quem eu amava enternecidamente, estava em vésperas de morrer, quando me acordastes, e tenho certeza de que, pelo primeiro vapor que chegar de Havana, meu país natal, terei a triste notícia de sua morte.”

Foi o que aconteceu. Afirmar-vos ter sido isso à mesma hora do meu sonho não o posso, pois já não me lembro mais; a coincidência, porém, do dia, posso garantir-vos.



P. S. – Peço-vos não publicar meu nome. Quanto à observação, podereis inseri-la em vossas publicações, se o merecer.

Dr. T. de M. L.
(Carta 162)

XVII – “De 1870 a 1874, tinha eu um irmão empregado no Arsenal de Fou-Tchéou, na China, como mecânico-ajustador. Um de seus amigos, mecânico e compatriota, da mesma cidade (Brest), que trabalhava igualmente no Arsenal de Fou-Tchéou, foi, certa manhã, visitar meu irmão em seu alojamento e contou-lhe o seguinte:

“Meu caro amigo, estou muito angustiado: sonhei esta noite que meu filhinho tinha morrido de crupe e estava sobre um edredom vermelho.”

Meu irmão zombou da sua credulidade, falou a respeito de pesadelos e, para dissipar aquela impressão, convidou seu amigo para almoçar. Nada, porém, pôde distraí-lo: para ele seu filho estava morto.

A primeira carta que recebeu de França, após essa narrativa, e que era de sua esposa, anunciava-lhe a morte de seu filho, em conseqüência do crupe, em meio de grandes sofrimentos, e, coincidência estranha, sobre um edredom vermelho, na mesma noite do sonho.

Logo que recebeu essa carta, ele foi, banhado em lágrimas, mostrá-la a meu irmão, do qual ouvi esta narrativa.

H. V. (Brest).”

(Carta 286)

XVIII – “Uma de minhas primas residia em Nion, na Suíça, e sua mãe em Clairveaux, no Jura. Estava-se em um desses rigorosos invernos, com todas as comunicações impraticáveis, por causa da neve. Desde muito que minha tia se achava doente; não a supunha sua filha em pior estado que de costume, quando, uma noite, vê em sonho sua mãe morta; ela acorda aterrorizada e diz a seu marido: “Minha mãe está morta, acabo de vê-la!” Ela queria partir imediatamente para Clairveaux, mas dissuadiram-na, mostrando-se-lhe a imprudência de empreender uma viagem por estradas cobertas de neve, por causa de um simples pressentimento. Tendo os correios deixado de funcionar, não se podiam receber cartas.

Pela tarde desse dia ou no dia seguinte, não me lembro bem, vê minha prima um cavaleiro entrar no parque; então ela grita: “Vêm anunciar-me a morte de minha mãe!” Com efeito, não sendo possível comunicar de outro modo, enviaram um cavaleiro que a informou haver sua mãe falecido naquela noite. Passara-se o fato no momento em que minha prima tivera esse sonho.

Existe ainda a minha prima e poderia dar-me detalhes mais precisos se o desejásseis.

G. Belbenat
Lous le Saunier (Jura).”

(Carta 298)

XIX – “Fato assinalado por um de meus amigos a quem referira os vossos estudos. Trata-se de um antigo empreiteiro de vias férreas na França e no estrangeiro, atualmente retirado de negócios, em Saint-Pierre-lés-Nemours. Sua honorabilidade e sua fé não podem sofrer suspeição. Eis o fato tal qual mo contou ele:

“Tinha eu ido ver um fazendeiro meu amigo, que se achava muito enfermo; encontrei à porta da herdade sua sogra, que me disse haver o seu genro recebido muitas visitas que o tinham fatigado em excesso; todavia convidou-me a entrar para vê-lo alguns instantes, acrescentando que lhe daria com isso muito prazer. Pedi então àquela senhora o obséquio de transmitir-lhe os meus cumprimentos e de anunciar-lhe a minha visita a realizar-se no dia seguinte.

“No dia seguinte, pelas 7 horas da manhã, quando eu apenas dormitava, dispondo-me a levantar-me, fui tomado de súbito por um pesadelo. Parecia-me ver o doente, do tamanho de um menino e como que enterrado em um buraco, sobre o talude da estrada, a alguns metros da fazenda, e eu empregava todos os meus esforços para arrancá-lo desse buraco, sem o conseguir.

“Ao cabo de alguns instantes saltei para fora da cama, a fim de livrar-me do pesadelo, e vim a saber, no correr da manhã, da morte do fazendeiro, ocorrida à mesma hora em que eu tivera essa visão.”

A distância de Saint-Pierre-lés-Nemours à fazenda é de cerca de duas léguas. Passou-se esse fato a uma dezena de anos.

J. Boireau
Farmacêutico em Nemours (Seine e Marne).”

(Carta 330)

XX – “Meu tio-avô, o Sr. Henri Horet, que era professor de Música em Estrasburgo, viu uma noite, em sonho, cinco ataúdes saírem de sua casa; na mesma noite, um escapamento de gás ocorreu em sua casa e cinco pessoas foram asfixiadas.

Contam-se, em nossa família, vários casos de aparições telepáticas. Procurarei informar-me exatamente a seu respeito e vo-los comunicarei, desde que tenha deles tomado conhecimento.



Georges Horet
Lycéen, Bouxwiller (Basse Alsace).”

(Carta 340)

XXI – “Jamais experimentei coisa alguma que se relacione com o que pedis em vosso questionário. Em sonhos, porém, pelo contrário, tenho tido, algumas vezes, certos avisos. Entre outros, na noite do assassínio do saudoso Sr. Carnot, vi o morto em meus sonhos. Na véspera, à noite, fora deitar-me muito cedo. Não residindo na própria cidade de Lião, mas em La Croix-Rousse, não havia eu tido o menor conhecimento de nenhum dos atos que se estavam passando nessa memorável noite. Pela manhã, a criada entra em meu quarto e eu lhe digo imediatamente:

– Acabo de sonhar com a morte do Sr. Carnot.

Ela me respondeu que bem poderia ter-se dado isso.

– Mas não – disse-lhe eu –, antes meu sonho deve causar riso, pois o Sr. Carnot vai passar às 10 horas sob as minhas janelas (ele devia, com efeito, passar pelo bulevar).

Dez minutos depois, ela volta ao meu quarto e me diz, muito impressionada:

– O sonho da senhorita realizou-se, o leiteiro acaba de dizer-me que o Sr. Carnot fora assassinado na noite de ontem.

Mau grado ao sonho que eu tivera, foi-me difícil acreditar no fato, no primeiro momento.

A. M. (Lião).”

(Carta 353)

XXII – “Eis aqui um fato pessoal: na noite de 13 para 14 de junho de 1887, sonhei que minha mãe estava morta. Chegado ao restaurante, no dia seguinte, comunicava eu esse fato a um colega, quando recebo um telegrama que me anunciava a desgraça pressentida.

Eis aí o ato de que me recordo nitidamente.



A. Carayon
Diretora da Escola da “Cruz de Ferro” (Nimes).”

(Carta 358)

XXIII – “O pai de meu marido, achando-se afastado da casa onde havia deixado sua mulher doente, foi uma noite despertado pela voz de sua esposa que o chamou três vezes distintamente pelo nome: Pedro! Pedro! Pedro!

Acreditando haver sonhado, ele de novo adormeceu. Dois dias mais tarde recebeu a notícia de que naquela mesma noite sua mulher morrera.



Maria Pauvrel (Vedrôd).”
(Carta 360)

XXIV – “Na noite de 1º para 2 de janeiro de 1898, vi em sonho minha mãe, morta havia dois anos e meio. Ela encaminhou-se gravemente para o meu leito, apertou-me em seus braços e saiu sem nada dizer. No dia seguinte, recebi uma carta participando-me a morte súbita de minha irmã, na noite de 1º de janeiro, às 10 horas. Como eu não houvesse despertado, foi-me impossível saber se havia coincidência perfeita entre a hora do sonho e a da morte de minha irmã.

M. Razons
Professor em Trelous (H. Gor.).

(Carta 365)

XV – “A Sra. V. residia em Gênova e tinha um irmão dentista no Cantão de Vaud. Esse irmão morreu subitamente. Na noite de sua morte, a Sra. V. viu em sonho, sobre a parede, o nome de seu irmão e a data do seu nascimento, ou da sua morte, não me recordo qual das duas. Ao acordar, ficou a referida senhora com receio de uma desgraça, que em breve lhe foi confirmada.

Jeanne Blanc
Le Cannet (Alp. Mar.).”

(Carta 374)

XXVI – “Passou-se isto no convento. Uma noite fomos despertadas por gritos e prantos. A religiosa de guarda aproxima-se do leito da criança, que em meio de suas lágrimas diz-lhe que sua avó estava morrendo, que ela a chamava e que queria ir para junto dela.

Procuraram acalmá-la, fizeram-nos orar, a religiosa reza o terço: nós respondíamos de nossas camas e o sono de novo nos empolga.

Outra vez somos despertadas. A menina sonhara novamente, ela nos repete que sua avó estava morta, que lhe enviara adeuses aflitivos e que, entre outras coisas, designara um cofrezinho no qual havia guardado jóias que ela queria dar à netinha de sua predileção. Findou a noite.

Na manhã seguinte, pelas 8 horas, estávamos reunidas na classe, ajoelhadas para curta prece que precedia os estudos, quando violenta badalada de sino corta o ar, fazendo-nos tremer sem saber por que – todas nós que não éramos interessadas no acontecimento –, e dá entrada na sala a irmã mais velha da nossa companheira. Vinha para buscar sua irmãzinha – a avó morrera naquela noite – e tudo que a menina tinha visto se havia passado absolutamente assim como no-lo contara ela.

Bem podeis imaginar a emoção que se produziu no convento; viu-se em tudo isso a intervenção divina e passou-se o dia em preces.

J. G. (Paris).”

(Carta 377)

XXVII – “Há cerca de dois anos, em Jarnac, certa manhã, pelas 7 horas, uma senhora amiga de minha família, estando ainda levemente adormecida, foi despertada por uma voz que a chamava muito distintamente, e na qual reconheceu a voz de seu cunhado, a respeito de quem eram boas as últimas notícias recebidas.

Nesse momento ninguém se achava em seu quarto, nem nos apartamentos vizinhos, e era impossível correlacionar essa impressão com uma causa conhecida.

Algumas horas depois – cerca das 10 – esta senhora tinha conhecimento, por um telegrama, de que seu cunhado, residente em Auzances, acabava de morrer subitamente; no dia seguinte informava-lhe uma carta que o falecimento sobreviera às 7 horas, isto é, no mesmo instante em que a voz fora escutada.

Breaud (Jarnac).”

(Carta 397)

XXVIII – “Estive durante catorze anos ligada, por uma afeição, a certa pessoa; depois, sobrevindo a separação, não nos vimos mais senão a grandes intervalos. Por fim, decorreu mais de um ano sem nos tornarmos a ver, porque, doente, foi o meu amigo constrangido a partir para o Tirol; estávamos, pois, separados por uma distância correspondente a 58 horas de caminho de ferro. Tinha eu indiretamente notícias desse amigo; eram relativamente boas e a sua volta estava próxima. Na noite de 2 de março, vi o meu amigo durante um entre-sono; estava sentado em uma cama em trajes de dormir e me dizia: “Oh! quanto sofro!” Eram, nesse momento, 2 horas da madrugada. Dois dias depois, anunciava-me um telegrama a morte dessa pessoa, ocorrida às 2:20.

Na ocasião me senti e ainda me sinto impressionada por essa coincidência, parecendo-me importante, para as vossas pesquisas, relatar-vos o que precede.



C. Couesnou
Estrada Romana, 23 (Jassy, Rumânia).”

(Carta 401)

XXIX – “A. – Um tio de minha mulher, capitão de Marinha, muitas vezes me contou que à noite que coincidiu com a data da morte de sua mãe, estando ele, então, em viagem, apareceu-lhe ela em sonho com o semblante muito triste. Impressionado, escreveu ele, a lápis, a data desse sonho na parede do seu beliche, tendo o pressentimento de uma desgraça.

Por isso, pouco se surpreendeu quando, à sua chegada, soube dessa morte; a data era bem aquela que ele havia escrito em seu beliche.



B. – Fato idêntico sucedeu à minha sogra, por ocasião da morte de seu irmão. Ela sonhou, na noite precedente, que se encontrava com sua falecida mãe na escadaria da casa e que, sem lhe dizer palavra, mirou-a com um ar de funda tristeza. No dia seguinte encontram o irmão, morto de um ataque de apoplexia.

C. – Por ocasião de meu casamento, sucedeu um fato quase semelhante. Minha sogra, muito impressionada pela aparição de sua mãe no caso que venho de relatar, dissera a uma de suas amigas que, se algum dia ainda tornasse a ver sua mãe daquele modo, estaria certa de se achar em véspera de grande desgraça. Essa amiga, alguns dias antes do meu casamento, teve também uma aparição, em sonho, da mesma pessoa que lhe dizia não querer ver sua filha, com receio de torná-la enferma, tendo, entretanto, vindo para vê-la. A mesma pessoa sonhou na mesma noite, creio, que a porta da casa de minha mulher estava coberta de luto no próprio dia do meu casamento. Foi o que aconteceu, conquanto nada mo fizesse prever: na véspera meu cunhado morria da ruptura de um aneurisma e foi sepultado no dia em que nos devíamos casar.

Eis aí fatos cuja autenticidade vos posso garantir.



L. Coutant (La Ciotat).”
(Carta 434)

XXXII – “Meu pai era, segundo creio, aluno do 6º ano no pequeno seminário de Guérande. Uma noite ele viu, em sonho, sua mãe deitada e não dando mais sinal de vida, no quarto dela, no Croisic, onde morava. Ele acordou com o rosto banhado em lágrimas.

No dia seguinte, comunicava-lhe uma carta que sua mãe, à hora em que ele a vira assim, tivera uma crise súbita e estivera prestes a morrer nos braços de seus filhos que acorreram aos seus gemidos. Isto, como vedes, se afasta um pouco das observações por vós publicadas, pois que apenas se trata de um sonho e não se deu morte alguma. É, porém, seguramente, um fato de ordem psíquica – eis porque achei conveniente fazer-vos, a seu respeito, este relato.



Poluec (Plormel).”
(Carta 438)

XXXIII – “Uma de vossas leitoras sonhou, uma noite, que se achava em casa de uma de suas amigas, tuberculosa havia muito tempo. Ignorava que estivesse ela, nesse instante, mais sofredora que de ordinário. A amiga estava deitada; ela estendeu-lhe a mão, disse-lhe adeus e morreu em seus braços. No dia seguinte, a pessoa de quem vos falo disse à sua mãe: “Fulana morreu; eu a vi esta noite...”

Soube-se durante o dia da morte da enferma.

Realizando-se a visão em estado de sonho, não se poderia precisar se a hora da morte coincidiu com a da aparição.

Jean Surya
Rua Raynouard, 37, Paris.”

(Carta 441)

XXXIV – “Não tenho mais que 22 anos e já por três vezes experimentei em sonhos, com coincidência de morte, os fenômenos que estudais:

A. – A primeira vez, há cinco anos. Acordara eu rindo e contei a minha irmã que acabava de sonhar com o pai Fulano de Tal (velho rabugento com o qual minha família se malquistara). Hoje não me lembro mais em que consistia o sonho, mas fiquei muito impressionado com o mesmo. Nesse mesmo dia soubemos que ele acabava de suicidar-se.

B. – A segunda vez, um ano depois. Sonhei que um de meus primos, viúvo, residindo na mesma cidade, mas a quem eu raramente via, comunicava-me o seu desejo de tornar a casar (fato que eu ignorava em absoluto). Contei o sonho à minha família no dia seguinte pela manhã, e cerca das 10 horas encontramos, banhada em lágrimas, uma tia desse moço, que nos participou sua morte ocorrida à noite, após uma doença de três dias, deplorando que sua morte, assim tão brusca, o impedisse de realizar seu projeto de dar uma mãe aos seus órfãozinhos.

C. – Uma terceira vez, há um ano. Achava-me doente de influenza e vários locatários da casa estavam enfermos. Sonhei uma noite com um enterro que saía dessa casa, sendo que o féretro era de enormes proporções. Tinha a intuição de que se tratava do Sr. Durand, um dos locatários doentes, cuja corpulência era notável. Por isso, ao despertar, minhas primeiras palavras foram para pedir notícias dele. Fiquei penosamente impressionado ao saber que morrera durante a noite.

Jeanne About (Nancy).”
(Carta 450)

XXXVII – “Uma de nossas amigas teve durante a noite um sonho que lhe mostrou um de seus irmãos que ela muito amava e que não pudera ver desde muito tempo; estava vestido de branco, tinha boa cor e parecia feliz. A sala onde ele se achava era igualmente pintada de branco e regurgitava de gente. O irmão e a irmã abraçaram-se afetuosamente. Terminado o sonho, a minha amiga despertou e teve o pressentimento que seu irmão falecera. Soou meia-noite no mesmo instante. No dia seguinte esta senhorita sabia, por uma carta, que seu irmão expirara naquela noite, precisamente à meia-noite.

G. P. (Arles).”
(Carta 466)

XXXVIII – “Querendo eu, em sonho, no mês de julho de 1890, abrir uma porta de comunicação de meu quarto com uma outra peça, não o pude conseguir, mau grado aos mais vigorosos esforços; vieram então em meu auxílio e, por uma outra porta, muito próxima da primeira, acabamos por afastar o obstáculo: era o corpo de meu tio, estendido no chão, com as pernas dobradas.

Não liguei importância alguma a esse sonho, mas voltou-me ele à memória quando soube da morte súbita desse meu parente, sobrevinda no campo a 10 de julho de 1890.

Não anotei, infelizmente, a data desse sonho, mas creio poder afirmar que se deu nas primeiras noites da semana, ou talvez mesmo na de 10, que era uma quinta-feira.

J. C. (Lião).”

Carta 468)

XXXIX – “Achava-me doente em Cartágena, no fim de 1888. Na noite de Natal tive um sonho desagradável que relato resumidamente. Estava eu na povoação de Rezé-les-Nantes, vendo passar o enterro de uma jovem. Não conhecia nem o nome nem a família da morta e, entretanto, sentia-me invadir por grande tristeza. Juntei-me ao cortejo; na igreja, coloquei-me no primeiro lugar por trás do ataúde, sem me aperceber das pessoas que estavam perto de mim. Estava banhado em lágrimas e uma voz me dizia: “Ali tens a tua melhor amiga.” No cemitério desencadeou-se tremenda tempestade e uma chuva diluvial. Despertei, julgando ouvir a trovoada.

De regresso à casa de minha família, vim a saber que uma parente próxima, amiga de infância, contando, como eu, 15 anos de idade, morrera nessa noite de Natal.



E. Orieux
Inspetor-chefe honorário do
Departamento das Estradas, em Nantes.”

(Carta 476)

XL – “Meu tio era capitão de Marinha. Voltava ele à França depois de uma ausência de vários meses. Uma tarde de calor excessivo, estava em sua cabine, procurando anotar algumas observações em seu livro de bordo. Adormeceu e sonhou que via sua mãe sentada, tendo sobre os joelhos um pano manchado se sangue, sobre o qual repousava a cabeça de seu irmão. Desagradavelmente impressionado, despertou e quis continuar a fazer as suas anotações, mas tornou a adormecer e teve de novo o mesmo sonho. Ao despertar sob a sugestão desses dois sonhos, registrou-os em seu livro de bordo, com a data e a hora.

À chegada do seu navio no porto de Marselha veio um amigo ao seu encontro e lhe disse:

– Acompanho-te à tua casa.

Meu tio dirigiu-se ao camarote; durante esse tempo, o amigo providenciara a fim de que o navio hasteasse bandeira a meio pau. Ao sair do camarote, meu tio, à vista do sinal de luto, surpreendido, exclamou:

– Meu irmão morreu.

– Sim – diz-lhe o amigo – como o sabes?

Então contou meu tio o sonho que tivera em pleno oceano. Seu irmão suicidara-se no dia indicado no livro de bordo.

J. S. (Marselha).”

(Carta 513)

XLI – “Conheço uma pessoa cuja impressão foi muito violenta em face da aparição de uma amiga, a quem ela amava muito e cuja morte, ocorrida na véspera, um telegrama acabava de anunciar-lhe. Posteriormente foi essa pessoa informada, por uma carta, que a agonizante pronunciava exatamente as mesmas palavras que ela ouvira em sonho.

Jeanne Delamain (Jarnac, Charente).”
(Carta 515)

XLII – “Faz alguns meses, fui avisado, em sonho, da morte de uma das minhas conhecidas, na mesma noite dessa morte, que ninguém esperava.

Pela manhã contei esse sonho à minha amiga. Ao voltar para casa, ela encontrou um telegrama, anunciando-lhe essa morte, ocorrida à mesma noite.



H. Bardel (Yverdon, Suíça).”
(Carta 518)

XLIII – “Aparição, em sonho, de minha avó, na noite de 8 para 9 de julho de 1895. Ela morreu no dia 9 de julho, às 8 horas da manhã. Estava eu a 120 quilômetros do lugar onde ocorreu o falecimento.

Allier
Professor em Florac (Lozère).”

(Carta 534)

XLIV – “Recentemente, achando-me em casa de pessoas de meu conhecimento, aí encontrei uma senhora que teve ocasião de ver-vos em Paris. Falávamos a vosso respeito e de vossos estudos recentes, e um dos circunstantes me disse a propósito: “Oh! se soubésseis que estranho sonho tive esta noite!... Vós vos lembrais de Gabriela T.?

Respondi afirmativamente.

“Pois bem, sonhei que ela estava morta e que eu a via deitada em seu túmulo!... Esta manhã desci para dar um passeio e a pessoa com quem eu ia me disse: “Sabeis que a Sra. T. morreu? Acabo de sabê-lo neste instante.” Meu sonho da noite e esta notícia impressionaram-me tão vivamente que fiquei confusa e perturbada com essa inexplicável coincidência, pois não a conhecia particularmente, não a sabia doente e não falava a seu respeito há muito tempo.”

Esse o fato curioso que acabo de saber. No caso de o citardes, ficar-vos-ia agradecida de somente publicardes as minhas iniciais.



J. A. (Bourges).”
(Carta 535)

XLV – “Eu estava muito enamorado de uma jovem honesta e de muito boa família. Ela caiu doente. Uma noite, cerca de 9 horas, eu passava por uma madorna e me via em uma grande sala onde todo mundo dançava. A minha bem-amada achava-se presente, vestida de branco, com um semblante ao mesmo tempo pálido e triste. Aproximo-me dela e convido-a para dançar. Ela me recusa com uns modos bruscos, dizendo-me baixo: “É impossível, estão-nos vendo.”

Despertei com grande palpitação do coração e lágrimas nos olhos. Logo que amanheceu, vesti-me à pressa e corri para a residência da enferma. Encontrei na rua o criado de sua casa, o qual me comunicou haver ela morrido nessa mesma noite.



M. T. (Constantinopla).”
(Carta 543)

XLVI – “Meu pai tinha um amigo de infância, o general Charpentier de Cossigny, que sempre me testemunhava muita afeição. Como estivesse ele atacado de uma moléstia nervosa, que tornava esquisito o seu modo de ser, não nos admirávamos jamais que nos fizesse por vezes três ou quatro visitas sucessivas, pois que ficava meses sem aparecer. Em novembro de 1892 (havia cerca de três meses que não víamos o general), estando eu com forte dor de cabeça, fui deitar-me muito cedo. Já me achava há bastante tempo na cama e começava a adormecer, quando ouvi meu nome pronunciado a princípio em voz baixa, depois um pouco mais alto. Apliquei o ouvido, supondo que era meu pai que me chamava, mas percebi que ele dormia no quarto vizinho e sua respiração era bastante natural, como a de alguém que dormisse há muito tempo.

Novamente adormeci e tive um sonho. Vi a escada da casa em que o general morava (7, Cité Vanean). Ele próprio apareceu-me debruçado sobre a balaustrada do patamar do primeiro andar; depois desceu, veio a mim e me beijou na fronte. Seus lábios estavam tão frios que o contato me despertou. Vi então distintamente, no meio do meu quarto, iluminado pelo reflexo do gás da rua, a silhueta alta e fina do general que se afastava. Eu não estava dormindo, pois que ouvi bater onze horas no Liceu Henrique IV e contei as pancadas. Não pude tornar a dormir, e a impressão fria dos lábios de nosso velho amigo perdurou-me na fronte a noite inteira.

Pela manhã, as minhas primeiras palavras a minha mãe foram: “Teremos notícias do general de Cossigny; eu o vi esta noite.”

Alguns instantes depois, meu pai encontrava em seu jornal a notícia da morte de seu velho camarada, ocorrida na véspera, à noite, em conseqüência de uma queda na escada.



Jean Drenilhe
Rue des Boulangers, 36, Paris.”

(Carta 552)

XLVII – “Uma noite, achando-me a dormir em minha casa, vi meu irmão que se achava em Argel, em agonia de morte.

Foi tão viva a impressão experimentada, que despertei subitamente. Seriam cerca de 4 horas da manhã.

Meu irmão há cerca de dois anos vivia sofrendo, mas nenhuma importância liguei a este sonho, sabendo que seu estado de saúde, no momento, era assaz bom, porquanto me havia dado notícias suas alguns dias antes. Pela manhã recebi um telegrama participando-me o seu falecimento às 6 horas da manhã.

Jamais falei a respeito disso a quem quer que seja, atribuindo o fato a uma pura coincidência e não teria certamente falado sobre isso se não se tratasse do testemunho estatístico-científico que desejais.



Lehembre
Intérprete do Tribunal, em Sousse (Tunísia).”

(Carta 583)

XLVIII – “Era durante a grande guerra de 1870-1871; meu noivo era soldado no exército do Reno, se não me engano, e depois de dias e dias não tínhamos notícias suas. Na noite de 23 de agosto de 1870 tive um sonho singular que me atormentou, mas ao qual não liguei grande importância. Encontrava-me em um quarto de hospital, no meio do qual estava uma espécie de mesa onde meu noivo se achava deitado. Seu braço direito estava nu e percebia-se grave ferimento perto da espádua direita; dois médicos, uma irmã de caridade e eu estávamos perto dele. De repente olha-me ele com seus grandes olhos e me diz: “Amas-me ainda?” Alguns dias depois soube pela mãe de meu noivo que ele fora ferido mortalmente na espádua direita, a 18 de agosto, perto de Gravelotte, e que morrera a 23 de agosto de 1870. Uma irmã de caridade que o tratara foi a primeira que nos participou sua morte. O quadro está ainda presente em meu espírito como se eu o houvesse sonhado e vivido ontem.

Suzanne Kubler
Professora (Heidelberg).”

(Carta 587)

XLIX – “Na noite de 30 para 31 de julho de 1897, sonhei que atravessava a praça de Quinconces, onde estavam trabalhando marceneiros. Um deles me tomou a mão esquerda e serrou-me o dedo mínimo: o sangue corria em abundância e gritei por socorro.

Nesse instante acordei, em um estado impossível de descrever, levantei-me e minha mulher, admirada, perguntou-me o que fazia. O relógio batia 3 horas. Momentos depois tornei a dormir. Tive novo sonho, no qual eu via um navio atravessando um canal; no fim desse canal uma embarcação destacava-se do navio e encostava à margem. Alguns homens desembarcaram, cavaram um buraco, enterraram qualquer coisa e depois de terem tapado o buraco retiraram-se.

Chegando ao meu escritório, contei aos colegas os dois sonhos que tivera durante a noite. Eles ficaram muito admirados. Um deles declarou que, quando a gente via, em sonho, correr o seu próprio sangue, era isso presságio de desgraça na família.

Eu tinha então o meu primogênito como soldado no 11º Regimento de Marinha em Saigon. Tendo enfermado, regressara à França.

A 11 de agosto soube, pelo comissário de polícia do meu quarteirão, da morte de meu filho. Falecera no canal de Suez a 31 de julho. Algum tempo depois, eu recebia uma cópia do registro de óbito, segundo a qual meu filho morrera, com efeito, a 31 de julho, às 3 horas da manhã e fora inumado em Port-Said.

R. Dubos
Diretor-chefe das Alfândegas, em Bordéus.”

(Carta 591)

L – “Sendo estudante de Medicina e prestes a terminar meus estudos, fora eu passar com a minha família as férias da Páscoa de 1895. Uma noite (não me recordo da data exata) deitamo-nos como de ordinário; o repasto fora muito alegre e todos os da família se achavam de perfeita saúde. Pelas 2 horas da manhã, tive um sonho penoso: meu pai estava morto, eu chorava desesperadamente, acompanhando-o ao cemitério. Esse pesadelo acabou por me despertar e pude constatar que o meu travesseiro estava molhado de lágrimas.

Não dando crédito aos sonhos e não estando ainda muito iniciado em questões de telepatia, tornei a dormir calmamente, na crença de que aquilo não passava de um sonho. As 7 horas da manhã ainda eu dormia, quando minha mãe entrou em meu quarto para dizer-me que eu fosse ver meu pai imediatamente, pois estava ele com um ataque de paralisia. Corri para ele e vi, com efeito, que não podia mais mover o braço e a perna esquerda, tornados inertes.

Sabendo-se que os ataques de paralisia se produzem freqüentemente durante o sono dos doentes, que despertam hemiplégicos, calculo que a hemorragia cerebral de meu pai se declarou pelas 2 horas da manhã, no instante do meu pesadelo. (Meu pai ainda vive, mas é doentio.)

Trata-se de um caso de telepatia? Talvez! Eu vo-lo relato para que lhe deis o valor que mereça.



Dr. Durand
Saint-Purçain (Alier).”

(Carta 594)

LI – “A. – Há uma quinzena de anos, a Sra. T. C. dava a algumas senhoritas um “garden-party” em sua vila, situada em Dourbali Déré, sobre a margem asiática do Mar de Marmara. Foram aí servidos, entre outras coisas, sanduíches de presunto.

Cinco ou seis anos depois desse pequeno festival, uma das convidadas, a quem ela apenas conhecia e a respeito de quem não ouvira mais falar, apareceu-lhe em sonho, pedindo-lhe para lhe dar um pouco daquele presunto que ela comera em seu “garden-party”.

A Sra. T. C. conta a seu marido o sonho que tivera e este presta ao caso justamente a atenção que de ordinário se concede aos sonhos. Qual não é o espanto de M. C., ao chegar ao seu escritório, aí encontrando o pai da senhorita que a Sra. T. C. tinha visto em sonho e que lhe comunica que sua filha morria aos poucos de tuberculose e que ela o enviava a ele para lhe pedir um pouco daquele excelente presunto que ela saboreou no “garden-party” de alguns anos atrás! M. C. satisfez ao desejo da moça e, ao voltar para casa, conta a sua mulher o que se passara. E não se falou mais nisso.

Alguns dias mais tarde a Sra. T. C. torna a ver em sonho a mesma jovem, que desta vez lhe pede flores de seu jardim. Ao despertar, a Sra. T. C. conta seu sonho ao marido, dizendo-lhe: “Tenho certeza de que a Srta. Fulana morreu.” Com efeito, no mesmo dia recebe M. C. o anúncio mortuário: a moça expirava durante a noite.



B. – A Sra. T. C., em seguida a uma sentença pronunciada em processo de separação, parte para o Egito. Sua filha, de 14 anos de idade, é confiada a um estabelecimento escolar religioso da cidade de Constantinopla. A 18 de março de 1880, a Sra. T. C. está sentada em seu balcão, em Alexandria. Era após o entrar do Sol, no momento em que começa a escurecer. De súbito ela ouve como que o roçagar de um vestido de seda no hall e desaparece.

Alguns dias depois, vem um amigo visitar a Sra. T. C. É portador de notícias de Constantinopla. Esse amigo não acabara de pronunciar o nome de sua filha, quando a Sra. T. C. o interrompe, dizendo-lhe: “Minha filha morreu, eu o sei; ela morreu a 18 de março pelas 5 horas da tarde.” A carta mencionava a data e a hora do falecimento: eram precisamente as da aparição.



Alpouroni (Constantinopla).”
(Carta 599)

LIII – “A. – Na noite de 23 de março de 1884, sonho que uma de minhas amigas jogava sua partida de xadrez com o Dr. D., em família, na minha casa; percebi que se achava revestida de um véu negro muito espesso e lhe disse:

– Vais perder se ficares, assim, envolta nesse véu.

É que eu estou morta, repara!

Ela então levanta o véu de crepe e vejo uma caveira sem dentes, os olhos convertidos em buracos! Era horrível!

Esta amiga estava ainda há oito dias em minha casa, tinha 49 anos, estava de perfeita saúde e não me deixara senão pelas férias da Páscoa, para dirigir-se a Paris, onde ia buscar seu filho no colégio, e depois com ele voltar, a fim de concluir seu pequeno estágio de recreação, em minha casa. O quarto por ela ocupado permanecia tal qual o deixara e aguardava-a. Não havia, portanto, suposição alguma de morte. Contudo, na própria manhã que se seguiu a este horrível sonho, cuja narrativa eu fazia ainda muito emocionada ao doutor, o carteiro traz-me um telegrama concebido nos seguintes termos: “Venha depressa, Maria morreu esta noite...” e foi o que aconteceu!...

B. – Coisa idêntica sucedeu por ocasião da morte de meu pai, na idade de 79 anos. Deixa-nos ele com perfeita saúde e nós nos admirávamos mesmo da sua vivacidade. Na noite de 17 de outubro de 1879, sonho que mudaram o tanque do jardim; puseram flores no lugar e a terra se acha revolvida. Aproximo-me, inclino, olho... solto um grito, pois avisto o caixão de meu filho!...

Chega, nessa mesma manhã, um telegrama: “Vosso pai morreu esta noite...” E o seu ataúde está agora colocado no mesmo sepulcro, sobre o de meu filho querido.



Mme. H. D.
Rue du Conédic, Paris.”

(Carta 606)

LIV – “Uma manhã, às 9 horas, tinha meu marido saído para o desempenho dos seus afazeres e eu tornei a dormir por alguns minutos. No breve espaço de tempo que durou o meu sono, tive um sonho que me impressionou fortemente. Sonhei que tinha saído em companhia de meu marido. Deixou-me ele por alguns momentos, para entrar em um estabelecimento, a fim de conversar com alguém, e eu fiquei no lado de fora, esperando-o. Instantes depois, vejo-o sair muito pálido e tendo sua mão esquerda apoiada sobre o coração. Pergunto-lhe ansiosamente o que era, ele me responde:

– Não te amedrontes, isto não é nada. Ao sair dali, alguém me deu acidentalmente um tiro de revólver, suponho, mas não tenho mais do que leve ferimento na mão.

Despertei em sobressalto e, vestindo-me, contava meu sonho à criada de quarto, quando um toque violento de campainha me fez estremecer. Meu marido entrou em meu quarto tão pálido como o tinha visto em sonho e, trazendo sua mão esquerda envolta em panos, me disse:

– Não te alarmes, isto não é nada. Indo ao meu escritório com um amigo, deu-me alguém um tiro de revólver e a bala, passando por meu braço, produziu-me apenas leve ferimento no pulso.

Trata-se de sonho, visão ou de um caso de telepatia?

Mme. Kranskoft (Constantinopla).”

(Carta 611)

LVI – “Em 1866, estava eu em um pensionato situado em pequena localidade da Floresta Negra. Uma manhã, no momento em que o professor ia começar a lição, apresentou-se diante dele um aluno e perguntou-lhe se tinha boas notícias de seu irmão (igualmente professor no mesmo pensionato e que estava passando uns tempos com sua família, na Suíça).

Respondendo-lhe o professor que não tinha notícia alguma, contou-lhe o discípulo, em alta voz, que tivera um horrível sonho na noite precedente e que, durante o sonho, vira o professor ausente, estendido sobre a relva, com um buraco negro no meio da fronte.

A fim de dissipar a emoção experimentada por todos os que ouviram essa narrativa, começou o mestre a aula imediatamente e durante todo o dia não se falou mais a respeito do sonho.

Um ou dois dias depois (minha memória está indecisa quanto ao dia precisamente em que se deu o fato) o professor recebeu uma carta participando-lhe que seu irmão morrera em conseqüência de um acidente na caçada: ao querer transpor um fosso, sua espingarda disparou e a carga inteira penetrou-lhe na cabeça.



A. H. (Gênova).”
(Carta 616)

LVII – “Minha mãe residia em Lile e tinha na Alsácia um tio a quem ela amava muito. Tinha ele os dedos muito finos e compridos: ora, um dia em que minha mãe estava a dormir, viu em sonho esta mão longa pairar lentamente por cima dela, procurando agarrar um objeto qualquer. No dia seguinte, recebia minha mãe a notícia da morte do tio e, conforme informações obtidas dos que o rodeavam, o falecido, com efeito, antes de morrer, fizera todos os movimentos vistos por minha mãe.

A. P. (Rua das Plantas, Paris).”
(Carta 631)

LVIII – “Sucede-me constatar, muitas vezes, uma impressionante coincidência entre os meus sonhos e acontecimentos sobrevindos no mesmo instante.

Permito-me citar-vos, como exemplo, o último desses sonhos, aquele que mais presente se acha ao meu espírito.

Aconteceu-me sonhar, uma noite inteira, com uma religiosa que tivera outrora como professora. Vendo-a muito doente, eu experimentava, por isso, grande angústia e procurava, em vão, confortá-la. Constato, no dia seguinte, que as irmãs da escola comunal se acham em Mirecourt, a fim de assistirem aos funerais de uma de suas colegas. Ainda sob a impressão de meu sonho, digo imediatamente: “Trata-se da irmã Saint-Joseph!”

E, com efeito, era precisamente dela que se tratava. Entretanto eu não pensara nisso nos dias precedentes, ninguém me havia falado nesse assunto, eu ignorava que ela estivesse doente.



G. Collin (Vittel).”
(Carta 649)

LIX – “Era o dia 13 de junho de 1894. Residia eu nesse momento em Barbezieux (Charente). Tive um sonho no qual via constantemente um empregado dos Correios e Telégrafos portador de um telegrama. No dia seguinte e mau grado as minhas ocupações, a visão desse empregado, de papel azul em punho, não deixou meu pensamento.

Durante sete dias e sete noites consecutivos esse pesadelo me tiranizou a tal ponto, que no dia 20, pela manhã, me achava verdadeiramente enfermo. Ao meio-dia, a minha doença desapareceu como por encanto, e eu me sentia perfeitamente bem; mas, às 3 horas da tarde deram-me a notícia da morte de meu pai, em conseqüência de um ataque de apoplexia, em Castillon-sur-Dordogne, ao meio-dia, hora na qual me senti de súbito aliviado.

Vi então diante de mim o empregado dos Correios, tal qual minha imaginação o havia representado – e que jamais eu tinha visto.

Em absoluto ignorava que meu pai estivesse doente e estávamos separados por uma distância de cem quilômetros.



Ulysse Lacoste
Saint Louis, 48, Bordéus.”

(Carta 670)

LX – “Sou um homem bem disposto e de nervos sólidos. Em 1894, a 20 de abril, pelas 7:30, morre minha mãe Olga Nikadlevna Arbonsova. Sua idade era de 58 anos. Na véspera de sua morte, pela Páscoa, tinha eu ido visitar amigos que residiam a 15 verstes de minha propriedade. Em geral, fica-se para dormir, mas eu, por não sei que pressentimento, não quis ficar e, durante todo o caminho que percorri para voltar a casa, não me sentia em meu estado habitual. Chegando em casa, vi minha mãe a jogar as cartas com um senhor e fiquei tranqüilizado. Deitei-me. Pela manhã de 20 de abril, despertei com um arrepio de frio em todo o meu corpo, em conseqüência de um sonho horrível, e olhei o relógio: eram 7:30 da manhã. Vi minha mãe aproximar-se de minha cama, abraçar-me e dizer: “Adeus, vou morrer”. Estas palavras despertaram-me de todo.

Não pude tornar a dormir. Dez minutos depois vejo que todo mundo corre em minha casa. Entra a minha criada de quarto que me diz: “Senhor, a patroa morreu.”

Conforme a narrativa dos empregados, minha mãe levantou-se às 7 horas, esteve no quarto de dormir de sua neta para abraçá-la, depois tornou a entrar no seu quarto para ler suas preces matinais; em seguida, ajoelhou-se diante do oratório e ato contínuo morreu da ruptura de um aneurisma. Segundo o que me disseram, passou-se isso às 7:30 da manhã (exatamente o instante de minha visão).

Alexis Arbousoff (Pskoff, Rússia).”

(Carta 678)

LXI – “Em 1881, deixara eu a França para ir a Sumatra, onde meus amigos me chamavam. Deixei minha mãe em França, com saúde pouco robusta, mas não inquietante, e uma irmã de 20 anos, fortemente atacada de uma moléstia incurável. A saúde desta última exigia cada ano uma viagem às águas de Mont-Dore. Do mesmo modo, todos os anos eu recebia regularmente a notícia de sua partida para essa estação de águas.

Ora, em 1884, a noite de 3 para 4 de agosto, em sonho, eu recebia uma carta de minha irmã, informando-me de que minha mãe havia morrido subitamente nos Pirineus.

Despertei muito impressionado com esse sonho e falei a seu respeito a dois europeus que residiam, um deles comigo, outro na minha vizinhança. A lembrança do sonho perseguiu-me sem descanso, era uma verdadeira obsessão, fazendo-me desejar e recear ao mesmo tempo o recebimento da correspondência que me pudesse trazer notícias relativas à época do sonho. Ela chegou afinal e recebi uma carta de minha irmã, informando-me de que o médico a enviara a Luchon e que minha mãe, acometida de um resfriado, devia seu restabelecimento somente aos cuidados enérgicos do doutor. Declarara este, na tarde de 3 de agosto, que se minha mãe ainda vivesse, no dia seguinte, poderia responder por ela, mas que aguardava esse dia para pronunciar-se.

O sonho não era exato quanto ao desenlace anunciado por ele: a morte de minha mãe. Não é, porém, menos notável:

1º) que o sonho assinalasse um perigo concernente a minha mãe e não a minha irmã, cuja saúde preocupava muito mais o meu espírito;

2º) que o sonho se referisse a uma estação balneária diferente daquelas a que iam elas ordinariamente – o que se verificou ser perfeitamente exato;

3º) que se o sonho induziu a erro quanto à morte em si mesma, a iminência da morte existiu perfeitamente e o sonho coincidiu com essa iminência, como pude verificar pelas datas e pelos detalhes que pedi a minha irmã, para controlar a coincidência.

Enfim, não é estranho que um sonho preocupe o espírito a tal ponto que ainda eu o tenha presente à memória após decorridos 15 anos? Faço-vos este relato sem o concurso de uma simples nota e penso que me recordarei do sonho toda a minha vida, tanto a impressão dele permanece, por assim dizer, inapagável em mim. Todo o mundo concorda que não se dá o mesmo com todos os sonhos. A maior parte deles passam com a rapidez do vento.



J. Bouchard
Ocara Enim, Palembang, Sumatra.”

(Carta 822)

LXII – “A 16 de junho de 1870 eu dormia profundamente quando alguém me despertou batendo-me nas costas. Abro os olhos e vejo minha irmã, de 15 anos de idade, sentada em minha cama. “Adeus, Nadia”, disse-me ela. Depois desapareceu.

No mesmo dia soube que ela morrera, nessa mesma hora em que tive esse despertar e essa visão (5 horas).



H. N. Ubanenko (Moscou).”

Eis aí uma série de sonhos relativos a manifestações de moribundos e que devem, ao que nos parece, ser classificados na mesma categoria dos casos de telepatia, que constituíram objeto do Capítulo III. Indicam eles uma ação psíquica do moribundo sobre o espírito daquele que dorme ou, em quaisquer casos, correntes psíquicas entre os seres; achei, entretanto, de bom alvitre, não lhes dar mais do que um lugar secundário, porque se tem menos segurança das coisas percebidas em sonho do que daquelas que vemos em estado normal e também porque, sendo inumeráveis os sonhos e devidos freqüentemente a preocupações pessoais, os casos de coincidências fortuitas não podem ser eliminados pelo cálculo das probabilidades, como os fatos observados em estado de vigília com a plenitude da razão.

Não é menos certo que grande número desses sonhos devem ser aceitos como testemunhando também uma relação de causa e efeito entre o espírito do moribundo e o do percipiente. Alguns são de uma precisão de detalhes absolutamente probantes, notadamente os casos VIII, IX, XI, XVII, XX, XXVI, XLVII, LVI. No próprio instante em que redijo estas páginas, o seguinte relato acaba de ser-me dirigido pelo Sr. Daniel Beylard, arquiteto, discípulo distinto da Escola de Belas Artes, filho do conhecido estatuário. A impressão telepática não foi sentida em sonho, mas em um estado mental que oferece alguma analogia com o sono, o estado de infância assaz freqüentemente observado na extrema velhice.

(Carta 845)

LXIII – “Minhas duas avós vivem juntas em Bordéus desde muitos anos: uma tem 80 anos; a outra, minha avó paterna, tem 87. Esta última não goza mais, desde muito tempo, de suas faculdades intelectuais: de dois anos para cá, sobretudo, ela perdeu a memória, a tal ponto que não se lembra do nome dos objetos mais usuais e não nos reconhece.

A 10 de outubro último, segundo seu hábito, minha avó passou a manhã em seu quarto. A criada que a trata via-a muito ocupada em cortar papelão e pentear seus cabelos; satisfeita com a sua tranqüilidade, deixou-a estar assim até à hora do almoço. Sentando-nos à mesa, percebemos que minha avó amarrara aos seus cabelos, por trás da cabeça, com auxílio de fios e de alfinetes, uma fotografia: era o retrato, em cartão, de seu único sobrinho, residente em Madrid. Rimo-nos logo do caso, e em seguida quisemos tirar-lhe o retrato, ao que ela se opôs, resistindo, e foi até às lágrimas quando se fez menção de empregar a força; então deixamo-la tranqüila.

Às 4 horas da tarde desse mesmo dia recebíamos um telegrama de Madrid, participando-nos a morte do referido sobrinho, ocorrida nessa mesma manhã. Surpreendeu-nos tanto mais essa notícia quanto ninguém sabia, em Bordéus, que estivesse ele doente.

Devo acrescentar que minha avó educara esse sobrinho até a idade de 5 anos e que tinham um pelo outro profunda afeição.

Eis aí, caro mestre, os fatos tais quais se produziram em minha presença, e tais como vos podem atestar minha avó materna, meus pais e a empregada.

Daniel Beylard
Rua Denfert Rocheran, 77 – Paris.”

Pedi ao narrador desse caso muito interessante de telepatia que solicitasse das testemunhas o obséquio de atestá-lo também e elas apressaram-se em fazê-lo.

Ainda que aí estejam provas tão numerosas quanto irrecusáveis, acrescentar-lhes-emos ainda algumas outras. É preciso que não fique nenhum lugar à dúvida.

O marechal Serrano morreu em 1885. Sua mulher escreveu o seguinte relato de um curioso incidente relativo a essa morte.



LXIV – “Há longos doze meses que uma enfermidade muito grave – ai de mim! pois que devia levá-lo – minava a existência de meu marido. Percebendo que o seu fim chegava rapidamente, seu sobrinho, o general Lopez Dominguez, dirigiu-se ao presidente do Conselho de Ministros, Sr. Canovas, para obter que, por sua morte, Serrano fosse enterrado, com os outros marechais, em uma igreja.

O rei, então em Pardo, recusou aceder ao pedido do general Lopez Dominguez. Acrescentou, entretanto, que prolongaria sua estada no domínio real, a fim de que sua presença em Madrid não viesse a impedir que fossem prestadas ao marechal as honras militares devidas ao posto e à elevada hierarquia que ele ocupava no Exército.

Aumentavam dia a dia os padecimentos do marechal; ele não podia mais deitar-se e permanecia constantemente em uma poltrona. Uma manhã, ao romper da aurora, meu marido, a quem um estado de completo aniquilamento, causado pelo uso da morfina, paralisava inteiramente, e que não podia fazer um só movimento sem o auxílio de várias pessoas, levantou-se de súbito, sozinho, direito e firme, e com uma voz mais sonora do que jamais o tivera em sua vida, gritou no grande silêncio da noite:

– Depressa, que um oficial da ordenança monte a cavalo e corra do Pardo: é morto o rei!

Tornou a cair, esfalfado, em sua poltrona. Todos acreditamos tratar-se de delírio e nos apressamos em dar-lhe um calmante.

Ele acalmou-se, mas, alguns minutos depois, de novo se ergueu. Com uma voz débil, quase sepulcral, disse:

– Meu uniforme, minha espada; o rei é morto!

Esse foi o seu último sinal de vida. Depois de ter recebido, com os últimos sacramentos, a bênção do papa, expirou. Afonso XII morreu sem tais confortos.

Aquela súbita visão da morte do rei, por um moribundo, era verdadeira. No dia seguinte toda Madrid soube, com estupor, da morte do rei, que se encontrava quase só no Pardo.

O real cadáver foi transportado para Madrid. Por essa causa, Serrano não pôde receber a homenagem que tinha sido prometida. Sabe-se que, quando o rei está no palácio de Madrid, as honras são somente para ele, mesmo estando morto, desde que seu corpo aí se encontre.

Foi o próprio rei que apareceu a Serrano? O Pardo fica longe; tudo dormia em Madri; ninguém, a não ser meu marido, o sabia. Como pôde ter ele a notícia dessa morte? Eis uma coisa digna de meditação.

Condessa de Serrano (Duquesa da Torre).”

O Sr. G. J. Romanes, membro da Sociedade Real de Londres, consignou o fato seguinte que lhe foi comunicado por um de seus amigos:



LXV – “No correr da noite de 26 de outubro de 1872, senti-me de súbito muito indisposto e fui deitar-me às 9:30, cerca de uma hora mais cedo que de costume; adormeci quase imediatamente. Tive, então, um sonho muito intenso, que me causou grande impressão, de modo que, logo ao despertar, falei a respeito à minha esposa; temia que me anunciasse ele uma desgraça.

Eu me vi, em sonho, sentado no salão, perto de uma mesa, na atitude de quem lê, quando uma velha senhora apareceu repentinamente, sentada do outro lado, muito perto da mesa. Ela não falou nem se mexeu, mas olhou-me fixamente e do mesmo modo fixei-a durante vinte minutos pelo menos. Impressionou-me vivamente o seu aspecto; tinha cabelos brancos, sobrancelhas muito negras e um olhar penetrante. Não a reconheci absolutamente e imaginei tratar-se de uma estrangeira. Minha atenção foi atraída para o lado da porta, que se abriu e, sempre em meu sonho, entrou minha tia. Vendo esta velha senhora, muito surpresa, ela exclamou, em tom de censura:

“John, não sabes então quem é?”, e sem me dar tempo de responder, acrescentou: “É tua avó.”

Do lugar em que se achava, o Espírito que me viera visitar levantou-se de sua cadeira e desapareceu. Nesse momento despertei. Tal foi a impressão, que tomei o meu carnê e registrei o estranho sonho, persuadido tratar-se de um mau presságio. Entretanto, passaram-se alguns dias sem que chegassem quaisquer más notícias. Uma tarde recebi uma carta de meu pai, anunciando-me a morte súbita de minha avó, que se verificou na mesma noite do meu sonho e na mesma hora (10:30).89

O Dr. Oscar Giacchi publicou os três casos seguintes nos Annales des Sciences Psychiques (1893, pág. 302):

LXVI – “1º caso (pessoal) – Em 1853, era eu estudante em Pisa, contava 18 anos de idade, tudo me sorria então, e nenhuma preocupação do futuro me perturbava.

Uma noite, a 19 de abril (não posso bem precisar se se passou isso em sonho ou em estado de sonolência), vi meu pai estendido em sua cama, pálido, lívido e a me dizer com uma voz quase extinta: “Meu filho, dá-me o último beijo, pois que em breve eu te vou deixar para sempre”; e senti o frio contato de seus lábios sobre a minha boca. Lembro-me tão bem desse triste episódio, que poderia repetir com o divino poeta: “che la memoria il sangue ancor mi scipa”.

Alguns dias antes havia eu recebido, a seu respeito, excelentes notícias e, por essa razão, não liguei importância a essa fantasmagoria do meu espírito; mas uma tortura horrível apoderou-se da minha alma e aumentou com tanta persistência, que na manhã seguinte, resistindo ao raciocínio e às advertências dos meus amigos, tomei o caminho de Florença, abatido qual condenado que se conduz ao suplício. As minhas angústias eram fundadas, pois apenas franqueara o limiar da casa, minha mãe, correndo ao meu encontro, anunciou-me, em desespero, em meio a seus beijos e suas lágrimas, que na noite precedente, à mesma hora de minha visão, meu pai nos fora arrebatado por subitâneo colapso cardíaco.

2º caso (em minha clientela) – Tenho aqui, em minha casa de saúde para moléstias mentais, há mais de três anos, uma velha afetada de delírio senil que lhe deixa, entretanto, longos períodos de calma, durante os quais ela se mostra inteligente e tranqüila, de maneira a fazer acreditar em suas asserções. É uma pobre viúva que, ao tempo em que se achava em liberdade, era generosamente socorrida pelo cura de São João de Racconigi, que se apiedava de sua miséria. Na noite de 17 de novembro de 1892, esta mulher, que geralmente – então ela não sofria dessa inquietação – dorme um sono ininterrupto, começou à meia-noite a gritar, a se desesperar, alarmando todo o dormitório, sem excetuar as irmãs da seção dos tranqüilos, assegurando a essas religiosas, que procuravam acalmá-la, ter visto o prior cair ao chão, deitar uma espuma ensangüentada pela boca e morrer em poucos instantes. O relatório do médico de plantão mencionava esse episódio da noite, ao passo que ao mesmo tempo se espalhava na região a dolorosa notícia de que o cura de Saint-Jean morrera de fato, vítima de fulminante apoplexia, à mesma hora em que a velha tivera seu pesadelo.

3º caso (idem) – Um Sr. G. C., de Gottasecca, Comuna de Monesílio, fora admitido, havia dois meses, em uma casa de saúde. Seu estado melhorara e tudo fazia esperar a cura com essa prontidão que se verifica nas doenças mentais sem elementos hereditários na marcha degenerativa. Era perfeita a saúde física, ainda que houvesse sintomas de ateroma vascular. Mas, na noite de 14 de setembro de 1892, foi ele acometido de uma hemorragia cerebral que o arrebatou no dia seguinte. A 16 recebi de sua mulher, que até então guardara silêncio, uma carta postal em que me pedia, em frases cheias de ansiedade, notícias de seu marido, rogando-me responder-lhe imediatamente, porquanto ela receava que tivesse havido uma desgraça.

Tal coincidência de fatos e de datas não podia passar despercebida nem deixar-me indiferente. Escrevi, pois, imediatamente ao eminente Dr. Dhiavarino, médico da família, pedindo-lhe indagar das razões que levavam essa senhora a escrever-me de uma forma tão alarmante. Respondeu-me o doutor dizendo haver efetuado as necessárias indagações, tendo obtido os seguintes detalhes:

“Na noite de 14 e precisamente à hora em que C. foi acometido de apoplexia, sua esposa (que é dotada de temperamento excessivamente nervoso e estava então grávida de 7 meses), depois de haver experimentado grande abatimento moral durante toda a noite despertou em sobressalto, desesperada com a sorte de seu marido; e tal foi a emoção experimentada que ela se viu obrigada a acordar seu pai, a fim de contar-lhe o triste pressentimento e conjurá-lo a acompanhá-la desde logo a Rocconigi, persuadida de que alguma desgraça sucedera.”

Esses três casos parecem-me dignos de ser tomados em consideração. Atribuí-los unicamente a uma coincidência fortuita parecer-me-ia de um cepticismo desprezível e isso até seria, segundo penso, um falso orgulho de persistir em negar que possam eles ser o efeito de uma lei biológica, pela razão de que ignoramos essa lei, como desgraçadamente ignoramos tantos outros mistérios da Psicologia.

A hipótese de uma transmissão misteriosa do cérebro daquele que sofre, ou se acha em situação difícil, ao da pessoa amada, é sedutora, porque em momento de supremo perigo, ou de horrível desgraça, poderia o pensamento fazer um esforço assaz poderoso para vencer as distâncias; mas no 2º e no 3º casos essa teoria não pode ser admitida, pela razão de que tanto o prior de Saint-Jean como G. C., acometidos como foram ambos, repentinamente, pela apoplexia, não puderam ter a força de pensar em seus queridos ausentes, e certamente a velha não podia ser amada pelo cura, a tal ponto que fosse para ela que se dirigisse a suprema invocação do moribundo.”

Assinalarei ainda aqui, a propósito deste gênero de sonhos, um caso bem notável, observado pelo Sr. Frederic Wingfield, em Belle-Isle-en-Terre (Côtes-du-Nord), já publicado em Hallucinations Télepathiques, pág. 101):



LXIX – “O que vou escrever é precisamente a descrição do que se passou, e devo tornar bem claro, a propósito, que me sinto o menos disposto possível a acreditar no maravilhoso e que, muito ao contrário, tenho sido acusado, muito justamente, de um cepticismo exagerado, a respeito das coisas que não posso explicar.

Na noite de quinta-feira, 25 de março de 1880, fui deitar-me depois de haver lido até muito tarde da noite, como era meu hábito. Sonhei que estava estendido em meu sofá e entregava-me à leitura, quando, erguendo os olhos, vi distintamente meu irmão, Richard Wingfield Baker, sentado em uma cadeira diante de mim. Sonhei que lhe falava, mas que ele simplesmente inclinava a cabeça, à guisa de resposta, depois se levantava e deixava o quarto. Quando acordei, pude constatar que me achava levantado, com um pé firmado no chão, perto da cama, e o outro nesta e que procurava falar e pronunciar o nome de meu irmão.

A impressão de que se achava ele de fato presente era tão forte, e toda a cena com que eu sonhara mostrava-se tão vivamente, que deixei o quarto de dormir para procurar meu irmão na sala. Examinei a cadeira em que o tinha visto sentado, voltei à minha cama e procurei adormecer, porquanto esperava que a aparição de novo se produziria, mas o meu espírito achava-se muito agitado. Devo, entretanto, ter dormido pela manhã. Quando despertei, a impressão do meu sonho era muito viva e devo acrescentar que ela está sempre assim em meu espírito. O sentimento que eu tinha de uma desgraça iminente era tão forte que anotei essa “aparição” em meu diário, fazendo-o do seguinte modo: “Que Deus tal não permita!”

Três dias depois, recebi a notícia de que meu irmão, Richard Wingfield Baker, morrera na quinta-feira, dia 25 de março de 1880, às 8:30 da noite, em conseqüência de terríveis ferimentos que recebera em uma queda, quando caçava.”

O Sr. Wingfield enviou com essa carta o seu carnê, no qual, entre grande número de notas referentes a negócios, se lê a seguinte menção: “Aparição noite de quinta-feira, 25 de março de 1880. R. B. W. B. Que Deus tal não permita!” Junto a essa nota, achava-se a seguinte carta:

“Coat-an-nos, 2 de fevereiro de 1884.

Meu Caro amigo,

Não preciso fazer nenhum esforço de memória para lembrar-me do fato a que vos referis, porquanto dele conservei nítida e precisa recordação. Lembro-me perfeitamente que no domingo, 4 de abril de 1880, tendo chegado de Paris nessa manhã mesmo, para passar aqui alguns dias, fui almoçar convosco. Lembro-me também perfeitamente que vos encontrei muito emocionado com a dolorosa notícia que vos tinha chegado da morte de um dos vossos irmãos. Recordo-me igualmente, como se fosse de ontem o fato, tanto me impressionou ele, que, alguns dias antes de conhecer a triste notícia, vistes ou acreditastes ver, achando-vos já deitado, mas em todo caso muito distintamente, vosso irmão, aquele cuja morte súbita acabáveis de conhecer, muito perto de vossa cama e que, na convicção em que estáveis de que era bem ele, vos levantastes e lhe dirigistes a palavra, e que nesse momento cessastes de vê-lo, como se ele se tivesse desvanecido assim como um espectro. Recordo-me que, sob a impressão bem natural que fora a conseqüência desse acontecimento, anotaste-o em um pequeno carnê em que costumais registrar os fatos mais salientes de vossa existência muito tranqüila e que me mostrastes esse carnê.

Pouco me surpreendeu o que me dizíeis então e disso conservei muito nítida lembrança, como em começo vos dizia, porquanto em minha família tenho casos similares nos quais acredito absolutamente.

Fatos semelhantes sucedem, crede-o bem, com muito mais freqüência do que geralmente se pensa. O que acontece, apenas, é que ninguém quer contá-los, porque todo o mundo desconfia de si ou dos outros, em casos análogos.

Adeus, caro amigo, até breve. Espero-o e crede sempre na expressão dos mais sinceros sentimentos de

Vosso muito devotado



Faucigny, Príncipe de Lucinge.”

O Sr. Wingfield acrescenta em resposta às questões:

“Jamais tive sonho dessa espécie, assim horrível, nem outro qualquer sonho de que tenha despertado com semelhante impressão de realidade e de inquietude e cujo efeito haja durado tanto após o despertar; jamais tive alucinações.

Cumpre assinalar que esse sonho se deu somente várias horas após a morte.

Os documentos desse gênero são de tal modo numerosos que se torna difícil estabelecer preferência entre eles. Não podemos, entretanto, deixar de assinalar ainda um sonho não menos notável, que foi recentemente trazido a público, acompanhado de todos os documentos suscetíveis de garantir-lhe a absoluta veracidade, através das páginas da excelente revista especializada no assunto: Annales des Sciences Psychiques, do Sr. Dr. Dariex:

LXX – “Nos primeiros dias de novembro de 1869, parti de Perpignan, minha cidade natal, para ir continuar meus estudos de Farmácia em Montpellier. Compunha-se a minha família nessa época, de minha mãe e minhas quatro irmãs. Deixei-as muito felizes e de perfeita saúde.

A 22 do mesmo mês, minha irmã Helena, linda e vigorosa moça de 18 anos, a mais jovem e minha predileta, reunia na casa materna algumas de suas jovens amigas. Cerca de três horas após o jantar, dirigiram-se elas, em companhia de minha mãe, para a alameda dos Plátanos.

O tempo estava magnífico. Ao cabo de meia hora, minha irmã foi acometida de súbita indisposição.

– Mãe – disse ela – estou sentindo estranho calafrio percorrer-me todo o corpo; tenho frio e a minha garganta causa-me grande incômodo. Voltemos para casa.

Doze horas depois, a minha irmã bem-amada expirava nos braços de minha mãe, asfixiada, subjugada por uma angina diftérica que dois médicos foram impotentes para dominar.

Minha família – era eu o único homem para representá-las nos funerais – endereçou-me telegrama sobre telegrama para Montpellier. Por terrível fatalidade, que ainda hoje deploro, nenhum deles me foi entregue a tempo.

Ora, na noite de 23 para 24, dezoito horas depois da morte da pobre criança, fui presa de terrível alucinação. Voltara eu para casa às 2 horas da madrugada, com o espírito descansado e ainda saturado da felicidade que experimentara nos dias 22 e 23, consagrados a uma temporada de alegria. Recolhi-me ao leito muito contente. Cinco minutos depois estava dormindo.

Pelas 4 horas da manhã vi aparecer diante de mim o rosto de minha irmã, pálido, ensangüentado, inanimado, e um grito agudo, repetido, queixoso, vinha ferir meus ouvidos:

Que fazes, meu Luís? por que não vens, por que?

Em meu sonho, agitado, nervoso, tomei um carro; mas, ai de mim! mau grado a esforços sobre-humanos, não conseguia fazê-lo avançar.

E eu via sempre a minha irmã pálida, ensangüentada, inanimada, e a ferir-me os ouvidos o mesmo grito estridente, repetido, amargurado:

Que fazes, meu Luís? vem, peço-te, vem!

Despertei bruscamente, a face congestionada, a cabeça em fogo, a garganta seca, a respiração curta e ofegante, ao mesmo tempo em que meu corpo se banhava em suor. Saltei da cama, procurando acalmar-me. Após uma hora tornei a deitar-me; mas não pude recuperar a calma.

Cheguei à pensão às 11 horas da manhã, presa de uma incoercível tristeza. Interrogado por meus colegas, contei-lhes o brutal acontecimento, tal como o sentira. Valeu-me isso algumas zombarias. Às 2 horas dirigi-me à Faculdade, esperando encontrar no estudo algum repouso.

Saindo das aulas, às 4 horas, vi uma mulher de luto pesado dirigir-se a mim. A dois passos, levantou ela o véu. Reconheci minha irmã mais velha, que, inquieta a meu respeito, vinha, mau grado a sua grande dor, perguntar o que se tinha passado comigo. Comunicou-me o fatal acontecimento que absolutamente nada me podia fazer prever, porquanto eu recebera ótimas notícias de minha família a 22 de novembro pela manhã.

Tal a narrativa que vos faço, sob palavra de honra, absolutamente verdadeira. Não emito opinião alguma; limito-me a contar o que se passou.

São decorridos 20 anos, mas a impressão que me deixou esse caso é sempre tão funda como no instante em que se verificou – sobretudo agora – e se os traços da minha Helena não me aparecem com a mesma nitidez, ouço constantemente aquele mesmo chamado angustioso, multiplicado, desesperado. “Que fazes, meu Luís? vem, peço-te, vem!”

Luís Noell
Farmacêutico em Cette.”

Esta narrativa acha-se acompanhada de documentos destinados a confirmar-lhe a autenticidade. Desses documentos citaremos a seguinte carta da irmã do observador:

“Por solicitação vossa, pediu-me meu irmão para enviar-vos a narrativa do encontro que tive com ele em Montpellier, após a morte de nossa irmã Helena. Segundo o vosso desejo e o dele, venho, mau grado a amargura de tão dolorosas recordações, trazer-vos o meu testemunho.

Ao ver na rua o meu irmão, que foi o primeiro a reconhecer-me, apesar das mesmas vestes de luto, compreendi que ele ignorava ainda a morte de Helena. “Que desgraça veio sobre nós abater-se?” gritou ele. Sabendo, por minha boca, da morte de Helena, apertou-me ele nos braços com tal violência, que quase caí para trás. Entrando em casa, tive de suportar uma cena terrível. Louco de cólera, meu irmão, muito nervoso, muito veemente, mas também muito bom, quase me maltratou: “Que fatalidade – gritava –, que desgraça! Oh! os telegramas! Por que não os recebi, então?” E ele batia violentamente na mesa com ambas as mãos... Aos repetidos goles, ele esvaziou três grandes garrafas de água. Por um momento, eu o julguei louco, de tal modo o seu olhar se mostrava desvairado...

Quando recuperou a calma, algumas horas depois, disse: “Oh! eu estava certo disso, uma grande desgraça devia sobre mim abater-se.” Então me contou a alucinação que tivera na noite de 23 para 24.

Teresa Noell.

Este sonho, como o precedente, verificou-se depois da morte da pessoa que parece tê-lo determinado. Não analisaremos aqui as causas imediatas de tais sensações, pois que mais adiante nos ocuparemos em distinguir as manifestações de mortos das de moribundos, de vivos: mas o que devemos ter em consideração é o sonho em si mesmo, qualquer que seja a natureza da ação psíquica. Diversas explicações podem ser propostas. Foi o espírito do autor que se transportou para junto de sua irmã e não achou mais do que uma morta? Ou, pelo contrário, foi sua irmã que o procurou antes de morrer e esse apelo teria levado dezoito horas para despertar a sensação?

Não teria havido simplesmente uma corrente psíquica, de natureza desconhecida, entre o irmão e a irmã?

Quantas questões a estudar!

Entramos em um novo mundo que não é muito fácil de ser explorado. Mas desde já, lendo-se esses sonhos, percebe-se, sente-se que a força em ação nem sempre vai do moribundo ao percipiente, mas antes, por vezes, daquele que sonha ao moribundo, assemelhando-se o fato ao da vista a distância.

Os casos números VIII (avó conduzindo seus netos através de um prado), XI (irmão moribundo em S. Petersburgo, com os filhos de joelhos perto do leito), XII (extenso préstito mortuário), XV (morte de um cão), XVII (criança a expirar sobre um edredom vermelho), XX (cinco ataúdes), XXI (morte de Carnot), XXXIX (vista do préstito de uma jovem, de Cartágena a Nantes), XLVI (o general de Cosigny caindo de uma escada), XLVIII (ferimento na espádua direita), LV (tiro de revólver recebido na mão), LVI (discípulo que vê o irmão do professor morto por uma carga de chumbo na cabeça), LXIV (o marechal Serrano anunciando a morte do rei), LXVII (velha que vê a morte de seu pároco), etc., dão essa impressão. Parece que nesses casos o espírito de quem dormia viu, percebeu, sentiu coisas que se passavam ao longe.

Essa constatação da vista a distância, em sonho, fará o objeto do nosso próximo capítulo.

Nós temos, porém, como outros tantos documentos absolutamente demonstrativos, os 70 casos que vêm de ser relacionados e que confirmam, sob outro aspecto, as 186 manifestações de moribundos, expostas mais acima. Para nós esses fenômenos psíquicos são certos e incontestáveis. Devem eles, doravante, constituir um novo ramo da Ciência.





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