C2 Repercussão das condições de trabalho na vida do profissional



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Fatores que influenciam nas condições de trabalho em enfermagem e suas repercussões para o trabalhador¹
Factors that influences in the conditions of work in nursing and her its repercussions to the worker¹
Factores que influyen en las condiciones de trabajo en enfermería y sus repercusiones para el trabajador¹


Karine Antunes Marques Notaro²

Livia Agostini Figueiredo²

Mariana Silva Guimarães Santos²

Isabela Silva Câncio Velloso³

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RESUMO

O estudo visou analisar a produção acadêmica referente aos aspectos que influenciam as condições de trabalho e que repercutem na saúde dos profissionais de enfermagem. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura. Foi realizada busca de estudos indexados nos bancos de dados da LILACS, utilizando-se os descritores trabalho and enfermagem and qualidade and de and vida or satisfação and no and emprego. A amostra constituiu-se de 16 estudos primários. Da leitura dos estudos, originaram duas categorias: fatores que interferem nas condições do trabalho de enfermagem em saúde e repercussão das condições de trabalho na saúde do profissional. O desgaste físico e emocional, a má remuneração, a sobrecarga e dupla jornada de trabalho e o desprestígio social são apontados como fatores que refletem negativamente na qualidade de vida dos profissionais da equipe de enfermagem e, conseqüentemente, na assistência prestada ao cliente.


Descritores: condições de trabalho, profissionais de enfermagem, qualidade de vida
ABSTRACT
The study seeked to analise the academic production referenced to the aspects that influence in the conditions of work and that reflects on the health of nursing professionals. It is a systematic revision of literature. It was submitted a search of indexed studies on lilacs database, using the descriptors work and nursing and quality and of and life or satisfaction and no and occupation. The sample consisted of sixteen primaries studies. From the lecture of the studies, two categories were originated: factors that interfere in the conditions of the nursing work in health, and repercussions of the work conditions in the health of the professional. The physical and emotional abrasion, the bad remuneration, the overwork, the double shift and the social disbelieve are pointed as factors that reflects negatively in the quality of life of nursing professionals and, consequently, in the assistance given to the client.
DESCRIPTORS: conditions of work, professional nursing, quality of life.
RESUMEN
El estudio analizó la producción académica se hace referencia a los aspectos que influyen en las condiciones de trabajo y que refleja en la salud de los profesionales de enfermería. Se trata de una revisión sistemática de la literatura. Se presentó una búsqueda indexada de estudios sobre la base de datos LILACS, utilizando los descriptores de trabajo y de enfermería y la calidad y de la vida y la satisfacción o no y la ocupación. La muestra constaba de dieciséis estudios primarios. De la conferencia de los estudios, dos se originaron las categorías: factores que interfieren en las condiciones de trabajo de enfermería en materia de salud, y las repercusiones de las condiciones de trabajo en la salud de los profesionales. La física y emocional, la abrasión, la mala remuneración, el exceso de trabajo, el doble turno y el social se creen señaló como factores que refleja negativamente en la calidad de vida de los profesionales de enfermería y, en consecuencia, en la asistencia prestada al cliente.


DESCRIPTORES: las condiciones de trabajo, profesionales de enfermería, la calidad de vida

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¹ Trabalho de Conclusão de Curso.

² Alunos do Curso de Enfermagem, Faculdade de Ciências Biológicas e Saúde, Universidade UNA – karineantuneshob@yahoo.com.br, liviaagostini@yahoo.com.br, mariana_guimaraes_santos@yahoo.com.br

³ Enfermeira. Mestre e Doutoranda em enfermagem pelo Programa de pós Graduação da Escola de Enfermagem da UFMG. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade UNA. isacancio@gmail.com

INTRODUÇÃO

As transformações ocorridas nas últimas décadas, no mundo, têm repercutido nas relações de trabalho e na saúde individual e coletiva dos trabalhadores de forma intensa(¹).

O processo de trabalho é composto por três elementos: atividade adequada a um fim, o que é o próprio trabalho; a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho; e os meios de trabalho, que se refere às condições materiais e a área física necessária à sua realização. O trabalho é pressuposto, sob forma exclusivamente humana, pois só o homem idealiza seu resultado final. Para a realização do trabalho, além do esforço, é preciso a vontade durante todo o curso do trabalho(2).

Nesse sentido, quaisquer fatores que atuem sobre algum dos elementos que compõem o processo de trabalho tendem a modificá-lo, podendo essa mudança resultar de forma positiva ou negativa. O fato de não perceber o retorno de seu trabalho, faz com que ele seja destituído de sentido, já que a finalidade do trabalho reside em alcançar um resultado anteriormente idealizado na imaginação do trabalhador(2). é válido considerar, ainda, que o trabalho em saúde constitui-se em uma parte do setor de serviços, sendo considerado essencial para a vida humana. Porém, ele não tem como resultado um produto material. O produto final do trabalho em saúde é a própria prestação da assistência que é produzida no mesmo momento em que é consumida(3).



Entretanto, essa ideologia do trabalho passou por profundas transformações ao longo da história das sociedades. As relações de trabalho passaram por diversas mudanças, tanto devido a sua forma, quanto pelo modo como é realizado, além da maneira de pensar sobre ele. O trabalho nem sempre foi uma atividade remunerada e, por muito tempo, foi utilizado como uma forma de castigo. Em outras situações, quando remunerado, tratava-se de um valor irrisório, para atender apenas às necessidades de sobrevivência(4).

O mercado de trabalho em saúde também sofreu muitas mudanças ao longo dos anos e, nas décadas de 1970 e 1980, se expandiu significativamente tornando-se um ramo de expressiva absorção de mão de obra. Entretanto, a expansão de vagas no setor não se fez acompanhada de proporcional melhoria nas condições de trabalho(3).

No contexto do trabalho em saúde, a enfermagem constitui-se na maior força de trabalho, e suas atividades são freqüentemente marcadas por divisão fragmentada de tarefas, rígida estrutura hierárquica para o cumprimento de rotinas, normas e regulamentos, dimensionando qualitativo e quantitativo insuficiente de pessoal, situação do exercício profissional que tem repercutido em elevado absenteísmo e afastamentos por doenças(5).

Pautados nessa realidade e preocupados com a humanização das ações assistenciais, principalmente no contexto hospitalar, o Ministério da Saúde criou, em maio de 2000, o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar, posteriormente Política Nacional de Humanização, tendo como objetivo fundamental aprimorar as relações entre profissionais e usuários do sistema de saúde, visando à melhoria da qualidade e a eficácia dos serviços prestados pelas instituições, além de favorecer as condições de trabalho da área de saúde(6).

O espaço hospitalar também é considerado um local onde se concentram pacientes acometidos por diferentes problemas de saúde, cujo sofrimento é eminente, o que exige uma assistência de diversas categorias de trabalhadores. Os profissionais de enfermagem, a maioria nessas organizações, além de estarem expostos a cargas psíquicas que solicitam um preparo adequado e um suporte para o desenvolvimento das atividades cotidianas, ainda são os que mais enfrentam condições insatisfatórias de trabalho e, diante disso, ficam expostos a situações na qual a manutenção da saúde está prejudicada(1).

O processo de trabalho hospitalar é fragmentado e reproduz as características da organização do trabalho industrial, o que produz trabalhadores ora compromissados, ora desesperançados. A incorporação de novas tecnologias no setor saúde não significa, necessariamente, “alívio da labuta humana”, ao contrário, o setor é essencialmente de trabalho intensivo. Na literatura cresce o número de comunicações referentes a agravos psíquicos, a medicalizações e a suicídios de profissionais da área da saúde(7).

Há muito tempo, as condições de trabalho dos profissionais de enfermagem têm sido consideradas inadequadas, devido às especificidades do ambiente e das atividades insalubres executadas. O desgaste físico e emocional, a baixa remuneração e o desprestígio social são fatores associados às condições de trabalho do profissional de enfermagem, que vem refletindo negativamente na qualidade da assistência prestada ao cliente, levando ao abandono da profissão e conseqüentemente a escassez de profissionais no mercado de trabalho(5).

No cotidiano, é exigida grande produtividade, mas em contrapartida as condições de trabalho normalmente não são satisfatórias em relação aos recursos físicos e materiais, dentre outros. Observam-se problemas relativos ao número insuficiente de profissionais de enfermagem que se esforçam para realizar o atendimento aos pacientes. Essa inadequação resulta em maior esforço físico e mental dos profissionais, inclusive, com prejuízo da qualidade de vida dos mesmos(8).

A qualidade de vida depende da relação existente entre vários fatores de natureza biológica, psicológica e sociocultural, tais como: saúde física, saúde mental, longevidade, satisfação do trabalho, relações familiares, disposição, produtividade, dignidade e até mesmo a espiritualidade. Portanto, não depende somente de fatores que estão relacionados à saúde, mas envolve outros aspectos como, trabalho, família, amigos, e outras circunstâncias da vida(9).

Diante dos problemas enfrentados pela equipe de enfermagem, propõe-se, neste estudo, analisar os fatores que influenciam nas condições de trabalho em enfermagem e suas repercussões para o trabalhador.


METODOLOGIA


Trata-se de um estudo exploratório de pesquisa bibliográfica, de cunho sistemático. A revisão sistemática é uma síntese rigorosa de todas as pesquisas relacionadas a uma questão específica, ou seja, uma forma de síntese das informações disponíveis em um dado momento, sobre um problema específico, de forma objetiva e reproduzível, por meio de método científico. A mesma difere da revisão tradicional, uma vez que busca superar possíveis vieses em todas as etapas, seguindo um método rigoroso de busca e seleção de pesquisas; avaliação da relevância e validade das pesquisas encontradas; coleta, síntese e interpretação dos dados oriundos das pesquisas. Esse recurso envolve a aplicação de estratégias científicas, com a finalidade de limitar vieses, congregar, avaliar criteriosamente e sintetizar todos os estudos relevantes que respondem a uma pergunta clínica especifica; além disso, promove a atualização dos profissionais de saúde, uma vez que sintetiza amplo corpo de conhecimento e ajuda a explicar as diferenças entre estudos com a mesma questão clínica(10).

A pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade com o problema com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses. Envolve levantamento bibliográfico e análise de exemplos que estimulem a compreensão e assume, em geral, as formas de pesquisas bibliográficas ou estudos de caso(11).

Para o desenvolvimento do estudo, foi realizada busca no banco de dados da LILACS (Literatura Latino-americana em Ciências da Saúde), através da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com os seguintes descritores: trabalho and enfermagem and qualidade and de and vida or satisfação and no and emprego.

O levantamento bibliográfico no banco de dados foi realizado pelas acadêmicas no período de agosto a setembro, respeitando alguns critérios. Inicialmente, foram selecionados artigos publicados no período de 1999 a 2008, disponíveis em língua portuguesa. O processo de avaliação crítica dos artigos constitui na leitura inicialmente do título totalizando 33 artigos. Destes 24 foram selecionados para realizarmos a leitura dos resumos considerando apenas estudos primários. Dos 24 artigos levantados 16 foram selecionados para a amostra, os demais não atendiam as perspectivas do nosso estudo. Assim, foram excluídos alguns artigos que divergiam do tema proposto para o estudo. Os que restaram foram lidos na íntegra, analisados e sintetizados. Os dados empíricos foram discutidos com base em duas categorias: fatores que interferem nas condições de trabalho de enfermagem e repercussão das condições de trabalho na vida do profissional.


RESULTADOS E DISCUSSÃO
O trabalho tem um papel fundamental na inserção dos indivíduos no mundo, contribuindo para a formação de sua identidade, permitindo que os mesmos participem da vida social, sendo elemento essencial para a saúde. Entretanto, na forma como esse trabalho está organizado e é executado por um grande contingente de profissionais, na sociedade atual, são maximizados seus efeitos negativos, entre eles o adoecimento e a morte dos trabalhadores(3). Assim, o trabalho deve ser considerado um fator agravante ou desencadeante de distúrbios psíquicos, existindo uma inter-relação entre saúde mental e o emprego(12).

Diante dos dezesseis artigos analisados, foram identificadas duas categorias de maior relevância com relação ao tema em questão, sendo possível identificar os fatores inquietantes para os profissionais de enfermagem e suas repercussões na qualidade de vida dos trabalhadores.


Fatores que interferem nas condições de trabalho de enfermagem
A satisfação profissional ocorre quando se atinge um resultado esperado com o trabalho desenvolvido. Isso só ocorrerá quando esse trabalhador se sentir realizado profissionalmente em relação às suas expectativas, suas necessidades e valores, ou seja, quando o que recebe como retorno está de acordo com aquilo que esperava obter, como remuneração adequada, segurança no emprego, ambiente harmonioso no trabalho, amizade, valorização e reconhecimento profissional, além de oportunidade de trabalhar em equipe(12).

Nesse sentido, as condições insatisfatórias do trabalho de enfermagem vêm sendo discutidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), desde a 61ª Conferência, em 1976. Problemas como extensas jornadas de trabalho, ausência de períodos de descanso e o fato da equipe de enfermagem não ser ouvida quanto ao planejamento e à tomada de decisões da prática profissional persistem e interferem negativamente na saúde dos trabalhadores(12).

Considerando que o grau de satisfação e motivação de uma pessoa é uma questão que pode afetar a harmonia e a estabilidade psicológica dentro do local de trabalho, torna-se necessário investigar e analisar os fatores responsáveis pela motivação da equipe de enfermagem, considerando-a como um componente significativo dentro da organização(7).

Ao mesmo tempo em que há evidente idealização do trabalho, há também a frustração pelo seu não reconhecimento, pela sua desvalorização. O “trabalho de enfermagem” é preservado pelas suas características históricas de cuidado ao outro, as causas da frustração e insatisfação ficam canalizadas para as condições de realização do mesmo. Essa idealização, além de ser uma construção histórica, e uma forma de controle, pode servir também como estratégia defensiva, assim os profissionais de enfermagem preservam um lugar onde se sintam úteis e de alguma forma valorizadas. O prazer no trabalho, nesse caso, está na execução de algo valorizado e reconhecido socialmente(1).

A enfermagem é uma profissão que se encontra em um processo de transição, confrontando seu início marcado pelo ímpeto caridoso de suas precursoras, com o desenvolvimento que atingiu através da pesquisa. Apesar dessa evolução, ainda não há um reconhecimento desse trabalhador por outras categorias profissionais e nem mesmo pela sociedade. Para mudar essa realidade, é fundamental rever o processo de formação desses profissionais, investir em pesquisa, além de evidenciar a concepção do objeto de trabalho(12). O nosso objeto de trabalho, considerando como “aquilo” que sofre a ação não é o cuidado, mas sim corpos, famílias, comunidades, aprendizes, etc, o cuidado por sua vez é a essência em sua prática profissional.

Entretanto, pesquisas mostram resultados diferentes, em que os profissionais de enfermagem apresentaram satisfação quanto ao reconhecimento do seu trabalho. Essa diferença pode ser justificada em razão da idade, tempo de formação e estado civil da população estudada(12). Além disso, a partir dos estudos analisados, observou-se que a valorização desses profissionais está associada a sua autonomia para tomar condutas terapêuticas.

A má remuneração é um fator importante de insatisfação, considerando-se que na enfermagem, o exercício profissional exige grande responsabilidade. De acordo com o Núcleo de Apoio aos Estudos de Graduação (NAEG) do Hospital de Base de São José do Rio Preto, 20% dos enfermeiros que abandonam a profissão o fazem devido à baixa remuneração, e 58,8% estão insatisfeitos financeiramente, mas continuam exercendo a profissão(12). Diante do exposto observou-se que a baixa remuneração é um dos fatores mais citados pelos profissionais como insatisfatórios. A frustração econômica, muitas vezes leva o profissional a assumir mais de um emprego para manter condições dignas de vida, ou então gera alta rotatividade e desligamento do emprego(13).

O trabalho noturno, muitas vezes se configura em um atrativo para profissional devido à possibilidade de acréscimo nos vencimentos com adicional noturno, além de facilitar a conciliação de mais de um vínculo empregatício. Quando analisado sob esse aspecto, os trabalhadores enfrentam as dificuldades de uma forma mais otimista, podendo assim avaliar sua qualidade de vida da mesma forma que os trabalhadores diurnos(9).

O excesso de trabalho restringe as oportunidades de estar com a família, principalmente nos finais de semana, o que somado à proximidade dos plantões, à insuficiência de pessoal e de material, causam desgaste no trabalhador(12). Este trabalhador tem acúmulo de tarefas, compensando o quadro de funcionários incompletos sem possibilidades de prestar assistência integral ao paciente(13).

A política atual de racionalização de recursos humanos, materiais e financeiros é responsável pelo achatamento salarial, levando a maioria desses profissionais à dupla jornada de trabalho. A não-contratação de pessoal, mesmo para reposição de demissões ou aposentadorias, resulta em sobrecarga de trabalho para a equipe. Associado a isso, as restrições de recursos materiais exige a constante adaptação do profissional para a execução das tarefas diárias, significando muitas vezes, maior tempo despendido, o que contribui para a existência de um ambiente insatisfatório(14).

Os trabalhadores percebem as condições de trabalho e sua organização como fator que causa desgaste. Destacam a ausência de privacidade, ou seja, local para a guarda de bolsas e pertences e refeitório para os funcionários. Demonstram insatisfação quanto aos recursos humanos e materiais na unidade, pois não são plenamente adequados às atividades desenvolvidas. Os direitos dos trabalhadores com relação às boas condições no ambiente de trabalho têm sido alvo de discussões. No entanto, a equipe de enfermagem necessita conhecer melhor seus direitos e principalmente reivindicá-los quando oportuno, principalmente quando está em questão a vida de seres humanos e sua respectiva saúde, lutando por melhores condições de trabalho para a classe(15).

Quanto à segurança no ambiente de trabalho, considera-se que a violência ou insegurança, quer no percurso trabalho-casa ou na própria instituição, tem sido considerada como estressor laboral. A violência é citada como grave ameaça à vida dos trabalhadores. As agressões verbais e físicas contra o pessoal de enfermagem têm sido praticadas predominantemente por pacientes e seus familiares(15).

Em relação ao ambiente físico e o relacionamento da equipe de profissionais de enfermagem de um Hospital Escola, as entrevistas apontam um ambiente desgastante com disputas internas e pleno envolvimento da equipe. As relações entre os colegas de trabalho aparecem nos estudos de forma ambígua referidas, ora como muito boas, com um discurso de trabalho em equipe, ora com relatos de disputas internas, rivalidades e diferenças de tratamento(1).

A motivação para o trabalho segundo os próprios profissionais poderia ser adquirida por incentivos como remuneração e outros. Assim, o salário condizente à função e aos investimentos realizados traria maior satisfação entre os trabalhadores de enfermagem. Outros incentivos apontados pelos profissionais de enfermagem foram: realização de confraternizações periódicas, música ambiente para acalmá-los durante a realização das tarefas, ginástica antes do início das atividades e até mesmo relaxamento e momentos de reflexão(15).

Vale ressaltar ainda que, estas questões de condições laborais e salariais são relatos de insatisfação manifestadas em diversas pesquisas anteriores, o que reforça a necessidade de maior politização e união da classe trabalhadora em busca de estratégias de lutas, de negociação, a fim de transformar o valor do trabalho do profissional de enfermagem em remuneração compatível, embora se reconheça que a profissão tenha alcançado muitos dos seus objetivos ao longo do tempo(7).
Repercussão das condições de trabalho na vida do profissional
A satisfação no trabalho é um fenômeno complexo e de difícil definição, por se tratar de um estado subjetivo, podendo variar de pessoa para pessoa, de circunstância para circunstância e ao longo do tempo para a mesma pessoa(8).

A atividade de trabalho não supre apenas as necessidades financeiras do profissional, mas também as emocionais por ser uma forma de auto-satisfação, autovalorização e realização pessoal. Nesse sentido, a satisfação do trabalhador torna-se um indicador da qualidade da prestação de serviço, visto que quando este está satisfeito se envolve e se compromete mais com a empresa em que trabalha(16).

Indiretamente, a má qualidade de vida em uma ou mais dimensões dos profissionais da equipe de saúde pode comprometer a dinâmica de atendimento, gerando prestação inadequada de serviços, com prejuízo institucional e, principalmente, para a assistência aos pacientes(17).

Partindo da realidade prática, observa-se no cotidiano dos profissionais de enfermagem certo desconhecimento em relação ao processo de trabalho e sua relação com a saúde/doença ocasionado muitas vezes pelo despreparo desses profissionais em reconhecer o trabalho como um possível agente causal nos agravos à saúde, aliado à falta de informações sobre os riscos ocupacionais aos quais estão susceptíveis(18).

Apesar de historicamente a categoria dos profissionais de saúde não ter sido considerada de alto risco para os acidentes e doenças profissionais, essa situação tomou novo rumo mediante estudos e estatísticas que confirmam que os profissionais de saúde, especialmente os trabalhadores das unidades hospitalares, estão sujeitos a maior número de riscos ocupacionais do que outras categorias(18).

Estudos realizados em um Hospital Escola de São Paulo apontam que Unidades de Terapia Intensiva são locais de trabalho consideradas de alto risco ocupacional (riscos biológicos, físicos, químicos, ergonômicos e riscos de acidentes de trabalho)(17). Diante desta realidade, é possível perceber que os acidentes ocupacionais constituem um sério risco para o profissional, acarretando um elevado custo para a Instituição, uma vez que este não detém o conhecimento do custo da propedêutica.

Freqüentemente, estão sujeitas a condições inadequadas de trabalho, provocando agravos à saúde, que podem afetá-las fisicamente ou psicologicamente, gerando transtornos alimentares, de sono, de eliminação, fadiga, diminuição do estado de alerta, desorganização no meio familiar e neuroses, fatos que, muitas vezes, levam a acidentes de trabalho, licenças para tratamento de saúde e um índice de absenteísmo elevado(18).

As condições inadequadas de trabalho são também determinantes na qualidade do atendimento prestado ao pessoal de enfermagem, ficando evidente que as características do cotidiano dos profissionais de enfermagem em grandes hospitais são causadoras de sofrimento físico e psíquico(1).

Os trabalhadores da área de saúde tendem a apresentar níveis altos de ansiedade, seja pelo contato com o sofrimento humano, com o processo de morte do paciente, seja pela divisão técnica ou social do trabalho, como nas relações hierarquizadas, pelas grandes jornadas e por ser, no caso da enfermagem, trabalho predominantemente feminino(19).

Em virtude dos baixos salários, a maioria dos trabalhadores da enfermagem optam por trabalharem em mais de um emprego, o que leva os profissionais a permanecerem no ambiente dos serviços de saúde a maior parte do tempo de suas vidas produtivas. Essa situação leva ao aumento do período de exposição aos riscos existente nesses locais, podendo haver prejuízo para sua qualidade de vida no trabalho(20).

Outro aspecto importante mencionado nos estudos é a diminuição no tempo para atividades de lazer e recreação, necessárias para a manutenção da saúde física e mental dos trabalhadores(20). Inúmeras vezes, a equipe de enfermagem apresenta uma sobrecarga laboral e um excesso na jornada de trabalho que afasta os trabalhadores do convívio social e familiar. Ainda é válido destacar que muitas vezes o trabalhador torna-se distante de seus familiares e de situações da vida diária devido as longas jornadas ou por trabalhar em dois ou três empregos, tornando-se alienado, irritado e estressado(16).

Estudos realizados em um Hospital Escola da região Sul do Rio Grande do Sul comprovam que vários são os danos acarretados ao ser humano e seu comportamento, devido às tensões no ambiente de trabalho, condições negativas, levando ao estresse profissional, conseqüente da insatisfação profissional, excitação, depressão, perda do interesse, desmotivação podendo culminar em uma baixa qualidade nos serviços prestados(16).

A força de trabalho vem sendo consumida por problemas de saúde de caráter físico e psíquico, destacando-se as lesões por esforços repetitivos, a depressão, angústia, estresse, dentre outras. Considerando-se a categoria processo saúde-doença, tais profissionais estão expostos a todas as cargas de trabalho sendo estas potencializadas pelas cargas psíquicas(1).

Outra questão importante relacionada ao trabalho de enfermagem refere-se à sua pouca visibilidade e valor da divisão social do trabalho. Em quase todos os países do mundo, as condições de trabalho do pessoal de enfermagem não são satisfatórias, e vêm causando um desgaste físico e psicológico aos trabalhadores, além do estresse cada vez mais presente. Em decorrência da sobrecarga de trabalho e do sofrimento psíquico podem apresentar doenças como hipertensão arterial, diabetes mellitus, distúrbios ortopédicos, neurológicos, gástricos, psicológicos, etc(7). Esse conjunto de variáveis aponta para a necessidade de mais estudos nessa área e possíveis intervenções que conciliem as necessidades das empresas com o bem-estar dos trabalhadores.

A satisfação no trabalho está sujeita a influências de forças internas e externas ao ambiente de trabalho, podendo afetar a saúde física e mental do trabalhador interferindo no seu comportamento profissional e/ou social(8). A exposição a essas forças gera o processo de desgaste que se caracteriza em desgaste físico e mental(12).

O desgaste físico e mental em unidades de internação, em especial a pediatria, é considerado um ambiente totalmente estressante em função da presença de crianças e patologias graves(13). Outro fator importante a ser destacado é o trabalho em unidades fechadas e áreas críticas, a complexidade da atuação nestas unidades exige dos profissionais de enfermagem agilidade na tomada de decisões, pensamento crítico, capacidade de liderança, aquisição de aptidões intelectuais. Além disso, estudos realizados em unidades psiquiátricas afirmam que a maioria das dores, contusões, fraturas e edemas estão associadas às agressões físicas sofridas, ou seja, vivenciadas pelos trabalhadores(12).

A literatura mostra que, na maioria das vezes, os profissionais reagem faltando ao serviço, em muitos casos agridem os seus colegas e superiores, não seguem as normas e rotinas da empresa, sem saber identificar o que realmente os levam a tal atitude(8).

Estudos apontam que a rotina de trabalho dos profissionais de enfermagem é desgastante e falta tempo para o descanso. O intenso ritmo de trabalho, a exigência do conhecimento, de criatividade, de iniciativa e critérios rígidos de avaliação leva o profissional a queixar de dores de cabeça e nas costas, dificuldade de dormir e cansaço que não melhora com o descanso(12). O desânimo sentido pode se somar ao estado de cansaço ou fadiga, tornando-se importante fator de desgaste mental. Em contrapartida, observou-se que tais queixas são expostas, mas não são vistas pelos mesmos como problemas de saúde, evidenciando assim a banalização da própria saúde(1).

Outro setor que merece atenção quanto à sobrecarga física durante o trabalho é a Central de Material de Esterilização (CME). O trabalho na CME demanda esforço físico excessivo, com dispêndio elevado de força muscular e gasto excessivo de energia. Esses fatores ocasionam problemas de postura e fadiga geral nos trabalhadores, tornando-se mais grave à medida que se constata o predomínio de mulheres na força de trabalho empregada no hospital(20). Vale ressaltar que é um setor muito utilizado para abrigar profissionais com saúde já debilitada, ou como corretivo para aqueles rebeldes, em outras linhas é um setor considerado problemático.

Considera-se também que os profissionais de enfermagem que trabalham no período noturno passam a sofrer alterações fisiológicas e cognitivas que se expressam de maneira rítmica. Parte-se do conceito de tempo biológico, segundo o qual as funções orgânicas diferem entre o dia e a noite, de forma que o trabalho noturno implica alterações não só na vida social, mas também no organismo. As conseqüências destas perturbações não passam despercebidas pela maioria dos trabalhadores: manifestações de insônia, irritabilidade, sonolência excessiva durante o dia e à noite, fadiga continua, mau funcionamento do sistema digestivo(9).

Em contrapartida, pesquisa realizada em um Hospital Público do interior do Estado de São Paulo, na qual participaram 44 auxiliares de enfermagem inferiu que somente o fato de trabalhar à noite não altera significantemente a qualidade de vida dos auxiliares de enfermagem, pois apesar de terem uma modificação no seu ritmo físico, psicológico, social e até mesmo no ambiente em que vivem, para eles há algumas vantagens, como por exemplo, o adicional noturno, que os beneficiam financeiramente, podendo compensar as dificuldades de trabalhar nesse turno(9).

Estudo realizado em um Hospital Universitário aponta ainda que as atitudes profissionais como “apatia, indiferença, descompromisso, irresponsabilidade, relação desumanizada com a clientela, falta de motivação, insatisfação e falta de criatividade” são consideradas decorrentes de dificuldades no desenvolvimento do trabalho de enfermagem, devendo ser ressaltada a necessidade do “desenvolvimento de sensibilidade no que tange a um gerenciamento mais reflexivo, crítico, flexível, humano, que dê oportunidade para maior participação” dos elementos da equipe e dos clientes(14).

O contexto hospitalar possui fatores que influenciam a saúde física e mental dos profissionais e que a falta de gerenciamento organizacional direcionada para a diminuição desses fatores(18). A partir deste contexto, nota-se que a qualidade de vida e de trabalho é fundamental para a saúde do trabalhador, especialmente para a enfermagem, que tem o cuidado, como essência em sua prática profissional.
Considerações Finais
A realização deste estudo permite perceber que o trabalho está relacionado à satisfação das necessidades humanas básicas. Sendo este um elemento fundamental para a saúde das pessoas, desde que seja realizado em condições saudáveis promovendo sensação de bem-estar, refletindo na melhoria das condições de trabalho e na assistência de enfermagem prestada e, consequentemente, na qualidade de vida de seus trabalhadores. como fator que causa desgaste condiç~promovendo condiç desde que seja realizado em condiçtituiçeconhceimento, atravlorizaç

Diante desta realidade nota-se a necessidade de revisão do processo de formação desses profissionais, com necessidade de maiores investimentos em disciplinas que abordem questões relacionadas à saúde do trabalhador, além de ampliação de pesquisas que favoreçam a possibilidade de melhoria das condições de trabalho.

Vale sugerir também que as organizações avaliem os fatores de insatisfação do trabalho e suas repercussões para o profissional de enfermagem, para que este possa realizar uma assistência de melhor qualidade o que, consequentemente, contribuirá para o sucesso da instituição. Além disso, é importante que estes profissionais se façam perceber através do cotidiano mais revelador e com transformações, a fim de serem tratados com a sua devida importância e acima de tudo consigam conquistar o seu reconhecimento, através da competência, da luta, da politização, da organização da categoria, do posicionamento na equipe e na instituição, e da realização de um trabalho de qualidade.
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