Apontamentos para uma leitura da presença militar no Antigo Estado de Mato Grosso (1870-1914)



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Apontamentos para uma leitura da presença militar no Antigo Estado de Mato Grosso (1870-1914)

Bruno Torquato Silva Ferreira é discente do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Grande Durados (UFGD) e Bolsista CAPES

Orientador: Professor Dr. Carlos Martins Júnior (UFMS)

Palavras-chave: Exército – Mato Grosso – Política


No espaço cronológico delimitado pelo fim do conflito militar que envolveu o Império brasileiro e as repúblicas uruguaia e argentina contra a paraguaia (1870) e a conclusão das obras de instalação da ferrovia Noroeste do Brasil1 (1914) ocorreram intensas transformações na estrutura sócio-econômica do Estado de Mato Grosso. Ao mesmo tempo, nessas quatro décadas, a burocracia militar do País inflou. O que indica um aumento das potencialidades de controle da sociedade pelo Estado e da sua presença em espaços geográficos nos quais sua ação era inexistente ou, ao menos, tênue, como era o caso mato-grossense.

Além disso, no período citado, os militares desenvolveram, no longo prazo, por razões que aqui não serão discutidas, o que chamam de “espírito de corpo”, ou seja, coesão corporativa. Mas, paradoxalmente, foi uma época de fortes dissensões internas na instituição, que os levou muitas vezes a opções políticas radicais. Nesse sentido, procuro, através do presente texto, indicar como os dirigentes militares e civis, nesse ambiente político turbulento, pensavam estrategicamente a região, e como acreditavam que deveria agir o Exército no sentido de manter a coesão nacional e a ordem social, a despeito das imensas deficiências dos organismos governamentais em Mato Grosso.

Do ponto de vista estritamente militar, Mato Grosso constituía um verdadeiro tampão no que se refere às chamadas forças desagregadoras internas como também no que toca às disputas territoriais e diplomáticas com os visinhos sul-americanos da região do Prata, a saber: Argentina, Paraguai e Bolívia. Na visão do geógrafo Demétrio Magnoli, a simples existência de Mato Grosso garantia a integridade territorial do País, sobretudo em sua região central, constituída que era pelas províncias de Minas Gerais, São Paulo e Goiás; além de manter afastada dessa mesma região a principal antagonista do Estado nacional brasileiro: a República argentina.

O final do conflito supracitado possibilitou a resolução das pendências diplomáticas e territoriais com os dois Estados vizinhos ao território mato-grossense (Paraguai e Bolívia). Ao mesmo tempo o Estado brasileiro, estruturalmente frágil e vivendo crise decorrente do esforço de guerra, se viu às voltas com recorrentes dificuldades orçamentárias para fazer frente aos desafios impostos pelas injunções estratégicas dos seus espaços fronteiriços.

Por outro lado a abertura do Rio Paraguai à navegação internacional não livrou completamente Mato Grosso de seu relativo isolamento com relação aos centros decisórios do País, pois a utilização do citado percurso fluvial, considerado o menos demorado, ainda demandava algumas semanas de viagem. Isto sem mencionar os riscos representados pelo fato de o referido meio de comunicação passar necessariamente por dois países potencialmente hostis ao Brasil, como era o caso da Argentina e do Paraguai. Com efeito, restava aos dirigentes brasileiros manterem em Mato Grosso força mais numerosa possível para dar o primeiro combate ao inimigo invasor e retê-lo por tempo suficiente para que maiores forças militares mais se organizassem nas áreas litorâneas com o fito de intervirem na região potencialmente deflagrada.

Como se vê, a idéia básica era, em um eventual conflito, tentar não repetir os erros de condução estratégica verificados na guerra contra o Paraguai, quando as forças militares brasileiras foram surpreendidas em Mato Grosso e a invasão paraguaia foi pouco mais que um passeio, dada a relativa tranqüilidade com que ocupou militarmente o sul da então província. Essa maneira de pensar parece ter norteado a conduta dos dirigentes militares e civis brasileiros em todo o período considerado (1870-1914).

Após lento processo de acomodação verificado com o final do conflito, a presença militar foi reforçada na região, ainda que esse reforço se mostrasse insuficiente e intermitente. Sabe-se que, por exemplo, que uma divisão do Exército brasileiro permaneceu no Paraguai até 1876. 2 Além disso, corpos do Exército estacionados em Mato Grosso eram eventualmente acionados para reforçar aquela tropa de ocupação, constituindo-se, nesse sentido, num instrumento de pressão exercido sobre a política interna daquele País. 3 Nos Relatórios dos Presidentes da Província de Mato Grosso apresentados à Assembléia Legislativa Provincial entre 1871 e 1876 constam registros de que os corpos estacionados em Cuiabá, São Luís de Cáceres, Nioaque e, sobretudo, Corumbá eram ocasionalmente deslocados, através de via fluvial, até Assunção. A manutenção da ordem somava-se ao conjunto das atribuições dos corpos do Exército, já que as suas forças policiais eram consideradas insuficientes, pois durante a monarquia os efetivos de praças da força policial na Província jamais ultrapassaram trezentos homens.

No decorrer da década de 1870, aquela divisão do Exército foi desmobilizada e boa parte dos seus efetivos foram repartidos entre as guarnições militares de Mato Grosso. 4 Entre 1871 e 1888 os efetivos do Exército na província giraram entre 1290 e 2481 homens. Apesar de continuar sendo um efetivo reduzido, aumentou consideravelmente em comparação com os anos imediatamente anteriores ao conflito. Os gastos militares no período também foram proporcionalmente altos quando comparados aos gastos efetuados pelos outros ministérios na região.

Embora não haja condições de encetar comparações com os gastos militares das outras províncias na mesma época, a proporção consideravelmente alta desses gastos em Mato Grosso demonstra a importância estratégica atribuída à região e o caráter marcadamente militar de sua administração. Considerando-se as despesas efetuadas pelos dois ministérios militares na província no período, percebe-se que estiveram entre 40,72% (1886-1887) e 84,37% (1872-1873). 5
A proporção excessivamente alta das despesas bélicas na década de 1870 – entre 84,37% (1872-1873) e 63,32% (1873-1874) – reflete, muito provavelmente, os esforços dos dirigentes provinciais no sentido de reparar e reconstruir os próprios nacionais danificados ou destruídos em razão da invasão paraguaia6. Em 1872, por exemplo, o governo central liberou uma verba extra no valor de 50:000$000 para “obras militares em Mato Grosso”, valor superior aos gastos do Ministério do Império, o da Justiça e o da Agricultura no exercício de 1872-1873. A evolução dos gastos militares na província indica uma tendência geral à diminuição, o que reflete o que vinha ocorrendo no contexto geral do próprio Império. Não obstante, em contraste com a situação geral, as despesas militares em Mato Grosso se mantiveram em números hegemônicos até o final do regime monárquico.

Deve-se levar em consideração o fato de que o Estado imperial convivia, sobretudo devido aos consideráveis gastos efetuados com a Guerra da Tríplice Aliança, com crônica escassez de recursos financeiros. Nesse sentido, as autoridades civis e militares da província, em seus relatórios administrativos recorrentemente reclamavam da falta de condições estruturais para a concretização dos projetos defensivos naquela extremidade da nação. Em mensagem dirigida à Assembléia Legislativa em agosto de 1874, o Presidente da província destacou: “Pode-se dizer, sem medo de errar, que não existem quartéis propriamente ditos em nenhum ponto desta província, essencialmente militar (...)”. 7 Além da inexistência de suporte estrutural para as unidades do Exército, persistiam as dificuldades em manter os efetivos regulamentares dos corpos aquartelados em Mato Grosso. De acordo com a Mensagem já referida, os 1915 homens a serviço da primeira linha em Mato Grosso no ano de 1871:

(...) absolutamente não chegam para a guarnição das fronteiras, prisões, quartéis, destacamentos, diligencias e outros serviços igualmente importantes, tanto assim que na cidade de Mato Grosso acham-se ainda aquarteladas algumas praças da Guarda Nacional que, coadjuvadas pelas de linha vindas de Vila Maria, policiam e guarnecem aquela povoação tão central (...) 1915 soldados não é força para manter a ordem, segurança e propriedade numa província cujo território excede ao de muitos Estados da Europa8.
A história política da província de Mato Grosso indica forte presença e prestígio dos militares. Sobre isto basta verificar que, apesar da sistemática “erradicação" da presença militar na política brasileira, efetuada pela elite imperial desde o período regencial, 9 o cargo de presidente da província entre 1870 e 1889 foi ocupado majoritariamente por oficiais do Exército. Para efeito de comparação, vale notar que enquanto no nível nacional a participação de oficiais do Exército na Câmara dos Deputados, Senado e mesmo na composição dos ministérios, inclusive nos ministérios militares, diminuiu, 10 em Mato Grosso, dos 23 homens que ocuparam o cargo de presidente da província entre 1870 e 1889, pelo menos 13 eram oficiais do Exército ou Marinha. 11 Embora se deva também considerar que a presença de militares no principal posto do poder executivo mato-grossense não era uma escolha livre da população, pois esta era uma prerrogativa do poder central, através dos gabinetes ministeriais.

Por outro lado, ao longo do século XIX os militares atuaram praticamente sozinhos em atividades que materializavam a presença do Estado na região. Entre estas destacam-se a construção de obras públicas, “pacificação” ou extermínio dos grupos indígenas mais recalcitrantes à presença não-índigena, mapeamento e levantamentos topográficos, delimitação das fronteiras internacionais e nacionais, excursões exploratórias em áreas desconhecidas e ocupação territorial através da formação de colônias militares.

Além disso, apesar de insuficientes segundo as autoridades, os efetivos militares sempre constituíram uma parcela considerável da população mato-grossense. Em 1889 a província possuía a terceira maior guarnição militar do País, ficando atrás somente do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Em comparação com as demais províncias, a proporção de militares em relação à população geral era a maior. Ainda na década de 1920 Mato Grosso mantinha-se como sede de uma das maiores guarnições militares do País, com proporção de soldados em relação à população civil consideravelmente alta, não obstante a sua queda para a segunda colocação em comparação com os demais estados. 12

A despeito da diminuição relativa dos contingentes das forças militares terrestres no Estado a partir da proclamação da República, pode-se afirmar que a presença do governo central foi reforçada na região através de outras medidas. Após o conturbado período em que o novo regime foi consolidado, na década de 1890, o governo federal passou a intervir direta e indiretamente no sentido de aumentar sua presença na região. Ainda na primeira década do século XX teve início a construção da NOB. 13 Antes do fim dos anos 1910, todo o sul do Estado, mais as regiões de Cáceres e Cuiabá já estavam interligadas ao eixo político-administrativo do País através dos fios do telégrafo levantados pela Comissão de Linhas Telegráficas do Estado de Mato Grosso.

Ainda no campo militar, em 1891 foi formado, em Mato Grosso, o 7º Distrito Militar, no contexto geral de reformulação da divisão territorial do Exército brasileiro iniciada na década de 1890 e completada na década seguinte, 14 que formalizou a existência de grandes comandos operacionais e territoriais em tempos de paz. Depreende-se a partir dessas alterações que a guarnição de Mato Grosso manteve sua importância, uma vez que dos sete distritos militares criados inicialmente, apenas dois coincidiam com os limites de um único Estado: o 6º do Rio Grande do Sul e o 7º15.

A nova redistribuição de forças, encetada após reforma implementada pelo Ministério da Guerra em 1908-1909, manteve o status militar de Mato Grosso, que continuou a sediar exclusivamente uma grande unidade do Exército, passando a constituir a 13ª Região Militar, agora com sede na cidade de Corumbá. 16 Além disso, uma Portaria ministerial, de 28 de novembro de 1908, estabeleceu a formação de cinco brigadas estratégicas, entre as quais a 5ª em Mato Grosso. 17

Essa nova distribuição de forças, verificada desde o início da República, reflete uma nova filosofia estratégica nos meios militares brasileiros de então, que passou a primar pela concentração de forças. O característico isolamento das unidades do Exército durante o Império deveria dar lugar às formações militares compactas e centralizadas em torno de um eixo de comando, que necessariamente passaria a controlar os mínimos aspectos das organizações militares a elas subordinadas – burocracia, instrução, pagamento, punições, armamentos.

Aplicava-se ao Exército o chamado princípio divisionário, ou seja, passou-se a fomentar o entrelaçamento das unidades, na esperança de permitir a materialização de brigadas, divisões, exércitos e corpos de exércitos. Forças que, na Europa contemporânea, poderiam agrupar até centenas de milhares de homens, em poucas dezenas de quilômetros quadrados. Evidentemente, esse preceito tático e estratégico se alicerçava na execução do serviço militar na modalidade obrigatória. Nesse sentido, essas grandes unidades seriam erigidas em tempo de guerra ou de exercícios militares, através da convocação de reservistas que necessariamente deveriam conhecer de antemão os pontos de concentração de tropas para onde deveriam se dirigir.

Não foi por acaso que essa reforma, parcialmente implementada em 1907-1909, se fez acompanhar da aprovação, pelo parlamento brasileiro, da Lei Nº 1860 de 4 de janeiro de 1908, chamada Lei do Sorteio Militar. Num contexto potencialmente belicoso na América do Sul, os altos oficiais brasileiros buscavam equiparar seu Exército àqueles que consideravam os melhores do mundo: os europeus. De fato, o modelo europeu de organização militar divisionária persiste até os dias atuais no Brasil, apesar de nunca ter sido posto a prova em combate.

Seguindo esse princípio foram instaladas várias unidades do Exército em cidades mato-grossenses. Mas como reunir unidades com alguns milhares de soldados num território com mais de 1.200.000 quilômetros quadrados? Como aplicar o princípio divisionário a essa realidade territorial? A rigor, o Exército continuava sofrendo das mesmas deficiências estruturais do período monárquico: faltavam armas, munições, provisões e efetivos. Se essas deficiências atingiam a força de uma forma geral, o que dizer dos corpos acantonados em lugar relativamente distante dos grandes centros de decisões, como era o caso de Mato Grosso? Vários foram os corpos criados que não saíram do papel por falta de efetivos e impedimentos orçamentários. A alusão à “falta absoluta de oficiais e praças” é repertório comum nos relatórios dos generais-comandantes em Mato Grosso.

Além disso, sobretudo antes da construção da NOB, as dificuldades de transportes entre as localidades do próprio Estado eram consideráveis. Os únicos meios de transporte disponíveis eram a tração animal e, principalmente, o transporte fluvial. Diante desse quadro geral de crônicas dificuldades orçamentárias no Ministério da Guerra, de acesso a determinadas regiões do Estado, de recrutamento e de comunicações, as autoridades militares fizeram a opção de, em coerência com o principio divisionário, eliminar ou diminuir os efetivos das regiões mais afastadas, localizadas no norte do Estado. Assim sendo, locais que tradicionalmente contavam com a presença de guarnições militares desde os tempos coloniais foram perdendo efetivos até o completo desaparecimento.

Cidades localizadas no sul do Estado, como Corumbá, Bela Vista, Ponta Porã, Aquidauana e Campo Grande foram aos poucos ganhando importância militar em detrimento de localidades como Cuiabá e São Luís de Cáceres. A tendência a dar prioridade à defesa do Sul já havia se esboçado no final do Império (após a Guerra da Tríplice Aliança) e persistiu no regime republicano.

Provavelmente as autoridades militares levavam em consideração fatores de ordem prática, natural e estratégica ao adotarem essa opção tática. Entre eles: 01) as já enumeradas dificuldades estruturais do Exército; 02) as ínfimas densidades populacionais dos dois lados da fronteira no extremo norte; 03) a barreira natural representada pela floresta amazônica, que dificultava sobremaneira a penetração de grandes contingentes humanos; 04) as relações diplomáticas entre o Brasil e o Paraguai eram consideravelmente mais tensas do que com a Bolívia; 05) a maior densidade populacional na região de fronteira com o Paraguai e com o sudeste da Bolívia; 06) as distancias avantajadas da área a ser defendida; 07) o isolamento relativo do Estado em relação aos demais; e finalmente 08) a proximidade do Sul de Mato Grosso em relação a um vizinho considerado potencialmente perigoso para a integridade nacional: a Argentina.

A mudança da sede do comando militar de Cuiabá para Corumbá ainda ensejou a instalação de um Hospital Militar de 2ª Classe nesta última cidade. Aliás, Corumbá passou a ser a única não-capital a sediar uma região militar do Exército. Era também prevista a instalação da 5ª Brigada Estratégica na cidade de Aquidauana ou Campo Grande, destinada ao comando de um general-de-brigada. Assim, a Inspeção Permanente da 13ª Região Militar, como era oficialmente conhecida, era considerada uma grande unidade divisionária, o que correspondia ao comando de um oficial general-de-divisão, posto mais alto da hierarquia militar em tempo de paz.

No tocante à atuação política dos corpos sediados em Mato Grosso no contexto republicano, sabe-se que os militares desempenharam um importante papel na escalada da violência na região, envolvendo-se diretamente nas lutas coronelistas, 18 sobretudo os militares que serviam nas guarnições sulinas. Em algumas localidades, os comandantes de unidades exerciam verdadeiro poder de mando, ao estilo dos coronéis. 19 Mas em certas ocasiões a intervenção militar se fazia através de vias institucionais, como, por exemplo, por meio de intervenções federais, que eventualmente eram solicitadas pelos próprios grupos dirigentes mato-grossenses. 20

Ainda continua sendo difícil auferir o prestígio político dessa categoria no Estado, mas seguramente era muito maior que nos chamados “grandes estados da federação”, como Minas Gerais e São Paulo, onde eram excluídos da vida política. Aliás, como se pode ver em quadro já apresentado, a presença de guarnições federais nesses dois estados era reduzidíssima em termos relativos e absolutos21. Talvez, para efeito de comparação, estivesse próximo do prestígio que possuíam no Rio Grande do Sul, onde também se vinculavam diretamente às rivalidades políticas regionais por alianças políticas ou laços familiares. 22

O que diferenciava Mato Grosso desses três estados era a sua marcante sujeição à tutela exercida pelo governo federal. 23 A condição de força política de terceira grandeza aliada à dependência econômica em relação ao governo seguramente enfraquecia a posição dos políticos mato-grossenses no cenário nacional. Embora muitos políticos mato-grossenses tivessem alcançado, nessa época, grande projeção nacional, a exemplo de Joaquim Murtinho e Antônio Azeredo.

Outra diferença diz respeito ao papel complementar e secundário do Exército na manutenção da ordem interna dos estados de primeira grandeza política e econômica, pois suas forças públicas eram verdadeiros exércitos a serviço das oligarquias estaduais. 24 Essas forças rivalizavam, levando vantagem, com o próprio Exército. As forças policiais do Estado de Mato Grosso estavam longe de rivalizar com as do Exército, até porque eram em geral comandadas por oficiais daquela corporação. 25

Em contraste com as oligarquias nacionalmente projetadas, que viam com desconfiança o fortalecimento do Exército em seus respectivos estados, as lideranças oligárquicas mato-grossenses, cientes das carências estruturais do governo estadual, procuravam incentivar a instalação de organizações militares em seus municípios. O governo do Estado e alguns municípios cediam grandes áreas para o Exército com o objetivo de atrair a instalação das suas guarnições.

Em 1909, o presidente do Estado de Mato Grosso, Pedro Celestino Corrêa da Costa, escreveu ao Barão do Rio Branco, então Ministro dos negócios exteriores, tratando de vários problemas do Estado. Referindo-se às “condições peculiares do sul de Estado” e à “anarquia sempre reinante na República vizinha” do Paraguai, opinou que a guarnição federal na região precisaria ter “instruções especiais para prestar auxílio não só às autoridades aduaneiras da União como às do Estado nos casos de perturbação da ordem e contrabando”. 26

Portanto, era a fraqueza estrutural do governo estadual e, por conseguinte, a falta de condições para estabelecer e manter a ordem oligárquica o que determinava a sua dependência em relação ao Exército. Numa época em que a região era marcada por um clima de instabilidade e violência, 27 a presença do Exército poderia ser um fator de tranqüilidade e até inibidor da ação de caudilhos e bandos armados que assolavam povoados, vilas e cidades. 28

A instalação da NOB no Sul de Mato Grosso condicionou a aproximação dos dirigentes brasileiros em relação ao espaço mato-grossense e uma profunda inflexão na sua organização militar. A ferrovia possibilitava acesso mais rápido do que qualquer outro meio de transporte até então utilizado na região. Assim, um trajeto que durava meses passou a ser rivalizado por outro que durava dias, quiçá horas (dependendo de onde se partia). A citada política de concentração de forças no Estado nesse período não contava com suporte no que a sua população poderia proporcionar ao Exército e, por essa razão, a maior parte dos efetivos que nele serviam era constituído por indivíduos exógenos ao meio.

Portanto, nos anos de 1915 e 1916 as forças do Exército em Mato Grosso diminuíram drasticamente. Dos três regimentos de infantaria que lá ficavam acantonados um foi dissolvido e outro transferido para o interior de São Paulo. Um dos dois regimentos de cavalaria foi também dissolvido, embora nunca tenha saído do papel e o batalhão de artilharia que defendia a região de Corumbá foi reduzido para uma bateria que passou a ocupar o Forte Coimbra. Assim, Mato Grosso perdeu o status de divisão de exército e ficou com efetivos menores do que os equivalentes a uma brigada. A 13ª RM, até então sediada em Mato Grosso, foi transformada em Circunscrição Militar e passou a se subordinar diretamente a 2ª RM.

Ao mesmo tempo, o Estado de São Paulo (sede da 6ª Região Militar) ganhou maior importância militar e, tendo apresentado forte incremento populacional nessa mesma época, passou, sobretudo após a aplicação da chamada Lei do Sorteio Militar, a concentrar maior número de corpos do Exército em seus limites. Foi assim que, após essa drástica diminuição da presença de forças militares terrestres em seu território, com a instalação da NOB, fechou-se uma fase da organização militar em Mato Grosso.


Bibliografia
CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro : Jorge Zahar , 2005.

CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso (1889-1943). Campo Grande: Ed. UFMS, 2006.

CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1969.

DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A ocupação político-militar brasileira do Paraguai (1869-1876), In. CASTRO, Celso, IZECKSOHN, Vitor, KRAAY, Hendrik (Org.). Nova História Militar Brasileira. Rio de Janeiro : Bom Texto/FGV Editora, 2004.

GALETTI, Lylia da Silva Guedes. Nos confins da Civilização: sertão, fronteira e identidades nas representações sobre Mato Grosso. Tese [Doutorado em História] USP, São Paulo, 2000.

McCANN, Frank. Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937). São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério do Exército. História Administrativa do Brasil. v. 7. Brasília : ENAP; Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército, 1994.

SCHULZ, John. O Exército na Política: Origens da intervenção militar, 1850-1894. São Paulo: EDUSP, 1994.



1 Doravante NOB.

2 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A ocupação político-militar brasileira do Paraguai (1869-1876), In. CASTRO, Celso, IZECKSOHN, Vitor, KRAAY, Hendrik (Org.). Nova História Militar Brasileira. Rio de Janeiro : Bom Texto/FGV Editora, 2004, p. 210.

3 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A ocupação político-militar brasileira do Paraguai (1869-1876), In. CASTRO, Celso, IZECKSOHN, Vitor, KRAAY, Hendrik (Org.). Nova História Militar Brasileira. Rio de Janeiro : Bom Texto/FGV Editora, 2004, pp. 227-228.

4 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A ocupação político-militar brasileira do Paraguai (1869-1876), In. CASTRO, Celso, IZECKSOHN, Vitor, KRAAY, Hendrik (Org.). Nova História Militar Brasileira. Rio de Janeiro : Bom Texto/FGV Editora, 2004, p. 233.

5 Informações extraídas dos relatórios dos presidentes da Província de Mato Grosso do período compreendido entre os anos de 1871 e 1888.

6 Cf. MENSAGEM dirigida a Assembléia Legislativa Provincial de Mato Grosso pelo Excelentíssimo Senhor Presidente Tenente-Coronel Dr. Francisco José Cardoso Júnior, em 04 de outubro de 1872. Rio de Janeiro: Tipografia do Apostolado, 1873, p. 45.

7 MENSAGEM dirigida a Assembléia Legislativa Provincial de Mato Grosso pelo Excelentíssimo Senhor Presidente Tenente-Coronel Dr. Francisco José Cardoso Júnior, em 20 de agosto de 1871. Cuiabá: Tipografia de Souza Neves & Companhia, 1871, p. 16.

8 MENSAGEM dirigida a Assembléia Legislativa Provincial de Mato Grosso pelo Excelentíssimo Senhor Presidente Tenente-Coronel Dr. Francisco José Cardoso Júnior, em 20 de agosto de 1871. Cuiabá: Tipografia de Souza Neves & Companhia, 1871, p. 20.

9 SCHULZ, John. O Exército na Política: Origens da intervenção militar, 1850-1894. São Paulo: EDUSP, 1994, p. 18.

10 Entre 1871 e 1889 apenas 6,06% dos homens que ocuparam ministérios eram militares, enquanto em 1886 apenas 1,6% dos congressistas eram profissionais das armas. Cf. CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro : Jorge Zahar , 2005, pp. 54-55.

11 Informação extraída do Quadro dos Presidentes e Vice-Presidentes da Província de Mato Grosso In.: CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1969, pp. 718-719.

12 Sobre isto cf. CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2005, p. 32.

13 Concluída apenas em 1914. Essa passou ligar a região onde posteriormente foi fundado o povoado de Porto Esperança, nas adjacências do rio Paraguai, à região onde também posteriormente foi formado o município de Três Lagoas, próximo aos limites do Estado de Mato Grosso ao de São Paulo, nas adjacências do rio Paraná. E a partir daí com São Paulo e Rio de Janeiro, através do mesmo tronco ferroviário, que se dirigia até a cidade paulista de Bauru. Embora a ligação ferroviária direta entre Mato Grosso e São Paulo, através de uma ponte ferroviária sobre o rio Paraná, viesse a ser construída apenas posteriormente. A ligação ferroviária entre Porto Esperança e a cidade de Corumbá foi concluída apenas na década de 1950. Finalmente, na década de 1930 foi estabelecido um ramal da Noroeste do Brasil ligando a cidade de Campo Grande com a cidade de Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai.

14 Decreto nº 431, de 2 de junho de 1891 apud: PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério do Exército. História Administrativa do Brasil. v. 7. Brasília : ENAP; Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército, 1994, p. 36. A partir de então ficaram extintos os antigos comandos de armas, estabelecendo subordinação direta entre os corpos das tropas e o Ministério da Guerra. PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério do Exército. História Administrativa do Brasil. v. 7. Brasília : ENAP; Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército, 1994, p. 36.

15 Decreto nº 431, de 2 de junho de 1891, extraído de PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério do Exército. História Administrativa do Brasil. v. 7. Brasília : ENAP; Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército, 1994, p. 36.

16 Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908 (artigo 1º).

17 PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. Organização e Administração do Ministério do Exército. História Administrativa do Brasil. v. 7. Brasília : ENAP; Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército, 1994, p. 127.

18 CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso (1889-1943). Campo Grande: Ed. UFMS, 2006, p. 44.

19 PALERMO, Miguel A. Nioac – evolução política e revolução de Mato-Grosso. Rio de Janeiro: Cruz Coutinho, 1896, p. 14 apud: CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso (1889-1943). Campo Grande: Ed. UFMS, 2006, p. 61 apud: PALERMO, Miguel A. Nioaque – evolução política e revolução de Mato-Grosso. Rio de Janeiro: Cruz Coutinho, 1896, p. 14.

20 CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso (1889-1943). Campo Grande: Ed. UFMS, 2006, p. 64.

21 Tabela VI, na páginas 9 e 10.

22 McCANN, Frank. Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937). São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 267.

23 CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso (1889-1943). Campo Grande: Ed. UFMS, 2006, p. 86.

24 McCANN, Frank. Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937). São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 153.

25 Informações baseadas nos relatórios que os presidentes do estado de Mato Grosso apresentaram ao poder legislativo entre 1889 e 1930.

26 Cf. Carta de 14 de dezembro de 1919 – Arquivo Histórico do Itamarati.

27 CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso (1889-1943). Campo Grande: Ed. UFMS, 2006, p. 35.

28 Embora geralmente não registrem as razões, abundam Ordens dos inspetores da 13ª RM para a composição de diligências para se dirigirem a localidades mato-grossenses. Como a Ordem do Dia Nº 31 de 30 de setembro de 1910 para que fosse enviados 50 praças “armadas, equipadas e municiadas”, sob o comando do segundo-tenente Amaro de Azambuja Villanova para Cáceres com 15 mil cartuchos de guerra para fuzil mauser.


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outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
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científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
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Conselho nacional
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