Ao longo da costa atlântica portuguesa, concretamente entre a península de Setúbal e Viana do Castelo, podemos encontrar vário


Os Senhor Jesus da costa atlântica



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3. Os Senhor Jesus da costa atlântica

Conforme já referimos, entre a península de Setúbal e Viana do Castelo podemos encontrar vários locais de culto dedicados a Jesus Cristo73. Todos eles se caracterizam por na sua designação constar o nome Senhor Jesus, seguido da referência ao local onde se encontram ou ao mito de origem a que estão associados.




3.1 Os Senhor Jesus Irmãos

O Senhor Jesus das Cruzes, o Senhor Bom Jesus de Fão e o Senhor Jesus de Matosinhos, de acordo com a lenda, e pelos testemunhos orais recolhidos nos locais onde se encontram sedeados, são Senhores Jesus Irmãos. No norte do país narra-se o acontecimento na seguinte quadra popular:

«O Senhor de Matosinhos

Mandou dizer ó de Fão

Que dissesse ó de Barcelos

Que também é seu irmão”



Barcelos
O Senhor Jesus das Cruzes é cultuado em Barcelos, num templo no centro da cidade, com festa a 3 de Maio. Após algumas entrevistas no local e recolha de alguma bibliografia, ficámos a saber que existem duas versões quanto ao aparecimento da imagem neste local. Alguns informantes, sobretudo os mais idosos, referem que uma grande Cruz apareceu junto ao campo da feira a um sapateiro. «Por ser a figura de Deus», logo aí se construiu um templo e todos os anos se comemora o seu aparecimento com uma missa, uma procissão e uma feira. De acordo com essa lenda:

O Milagre das Cruzes aconteceu, a 20 de Dezembro de 1504, quando uma cruz apareceu no Campo da Feira a um sapateiro chamado João Pires.


Perante tal visão, o sapateiro correu a chamar os habitantes da vila. Estes, quando chegaram ao local, repararam que a cruz se tornou mais brilhante. Foi então que se descobriu que o Senhor da Cruz era irmão dos Senhores de Matosinhos e de Fão, os quais teriam sido lançados à água em terras distantes. A corrente marítima lançou um Senhor à praia de Matosinhos, outro à de Fão e o terceiro subiu o rio Cávado, ficando por Barcelos.
Para assinalar o aparecimento do Senhor da Cruz a Barcelos, nesse dia à tarde realizou-se uma procissão com todo o povo, clero e nobreza da vila. Resolveu-se então construir uma ermida em honra deste Senhor.

Uma outra versão refere que esta imagem veio de Flandres [região protestante] e que foi um mercador de Barcelos que a trouxe para este local.


A diversidade de relatos remete-nos para a tradição oral que possibilita a divergência em termos de conteúdo lendário. E se, actualmente, estas lendas já se encontram em suporte escrito, tal não aconteceu durante anos. A diferença dos relatos quanto à origem da imagem não afecta o culto que lhe é prestado, segundo se diz, desde 1504.
Em 3 de Maio de 2004, tivemos oportunidade de nos deslocar ao local para assistir aos festejos / comemorações dos 500 anos do Milagre das Cruzes. Pelo que nos foi dado a conhecer, a estrutura destes festejos foi semelhante à dos anos anteriores, tendo sido apenas mais participada a procissão a nível de entidades institucionais. Os festejos iniciaram-se no dia 30 de Abril e terminaram no dia 3 de Maio (Feriado Municipal). Como é característico da cultura popular compunham-se de uma componente profana, nomeadamente, espectáculos musicais, feira, actividades desportivas, folclore, fogo de artifício, etc. e de uma componente sagrada centrada, no dia 3, com duas missas no templo do Bom Jesus da Cruz e com a “ Grandiosa Procissão da Invenção da Santa Cruz”.
Fão

De acordo com a bibliografia consultada74, a construção do actual «mosteiro» remonta a 1710, ocorrendo a construção da torre em 1730. No entanto, já anteriormente este culto se praticava numa capela que existia neste local, no decorrer do século XVII. A lenda descrita pelos nossos informantes de Fão coincide com a versão apresentada em Barcelos.

“Diz o Povo que a Imagem do Senhor Bom Jesus, bem como a do Senhor da Cruz, de Barcelos, e a do Senhor de Matosinhos, foram lançadas ao mar (...) para se livrarem da fúria dos iconoclastas, que perseguiam o culto das imagens.
Consta que a Imagem do Senhor Bom-Jesus foi encontrada sem um braço, à beira rio, por uma pobre mulher que andava aos «gravetos», para o lume.
Mais tarde, foi achado, (...) o braço que faltava. (...) saltava da lareira todas as vezes que tentavam queimá-lo.
Nesse mesmo local, onde foi achada a imagem, se levantou em sua honra, uma pequena ermida e, mais tarde, a actual Capela.”75

O Senhor Bom Jesus de Fão tem o seu apogeu festivo no domingo de pascoela, ou seja, no domingo a seguir à Páscoa. A festa tem uma estrutura semelhante à de Barcelos, com uma duração de três dias. Composta por uma parte profana e sagrada, dela fazem parte várias iniciativas destacando-se o embelezamento do «mosteiro» do Senhor Bom Jesus de Fão com um tapete de flores.


Durante os dias de festa o «mosteiro» encontra-se permanentemente aberto aos visitantes, sendo possível o pagamento de promessas, bem como a subida à parte detrás do altar e a aproximação à imagem do Bom Senhor Jesus de Fão. No decorrer da nossa visita ao local foi-nos possível observar que os visitantes quando se aproximavam da imagem tomavam de uma forma sistemática e ritmada as seguintes atitudes: beijo no calcanhar da imagem; carícias na mão, cara e barba da imagem; toque ou puxão seguido de beijo na corda que envolve a imagem; colocação de dinheiro numa bandeja posicionada em frente à imagem para este efeito. Estamos pois perante um conjunto de rituais típicos da religião popular e cujas origens remontam a rituais ancestrais que ao longo dos tempos têm subsistido.
Além da missa realizada no último dia dos festejos, ou seja, no domingo, na segunda-feira, durante a manhã, realiza-se uma procissão aos enfermos. Conforme agendado, sai do «mosteiro» do Senhor Bom Jesus de Fão uma procissão onde se encontram representadas as ordens, irmandades, colectividades e entidades eclesiásticas da localidade De acordo com as informações recolhidas no local, esta procissão tem como propósito levar a comunhão aos acamados, que previamente a solicitam. Uma vez que de ano para ano os pedidos são diferentes, durante a procissão gera-se uma certa polémica e dúvida relativamente ao seu percurso e duração.
Convém ainda salientar que, de quatro em quatro anos, se realiza, nesta localidade, uma procissão em honra do Senhor Bom Jesus de Fão. Ao contrário das festividades em sua homenagem, esta tem data fixa, no dia 2 de Maio. Os nossos informantes foram bem claros quanto à calendarização da mesma. Esta realiza-se dia 2 para não coincidir com a de Barcelos, pois assim seria difícil poder assistir às duas festividades nos anos em que ambas se realizassem; também nos esclareceram que se celebram no início de Maio devido à Invenção da Santa Cruz.
Relativamente a este local e ao culto aqui praticado Moisés Espírito Santo escreveu: “Fão é uma das paróquias mais antigas do Minho. Tem um culto célebre, o do Senhor Jesus, perto do rio, irmão (como se diz) dos Senhores de Caminha, de Matosinhos, de Barcelos e de outros ao longo da costa, que «vieram do mar metidos numa caixa». 76”. Em Fão são célebres os Cavalos de Fão. De facto, “ Ao longo da costa marítima de Ofir alinham-se em curva duas séries de rochedos que têm a configuração dos modernos portos de abrigo; chamam a esses rochedos Cavalos de Fão.”77 Diz a lenda que o rei Salomão explorava minas de ouro em Ofir (interior de Fão) e que essa exploração terminou quando os barcos de Salomão abalroaram contra os Cavalos de Fão. Segundo a Bíblia (Iº Livro dos Reis 9:28, 10:11 e 22:49), Salomão tinha uma frota de barcos para ir buscar ouro a Ofir, em colaboração com o rei fenício de Tiro. “ ‘ Cavalo ’ era o nome que davam os Fenícios aos seus barcos; os rochedos – Cavalos de Fão são reminiscências dos barcos fenícios. O efeito destes rochedos é de apenas deixar acostar barcos de pequeno tamanho; em tempo de maré cheia os Cavalos de Fão são boas armadilhas costeiras, fazendo abalroar as embarcações intrusas que desconheçam a sua existência.”78
O autor relaciona os Cavalos de Fão - Ofir com outros topónimos fenícios dos arredores, nomeadamente Carcavelos (em fenício Karka-belus «domínio do senhor», feitoria). Defensor acérrimo da importância da relação entre os cultos populares e os topónimos que lhe são inerentes, uma vez que “A compreensão da significação dos topónimos é também (ou sobretudo) o terreno dos etnólogos e dos sociólogos. Os territórios referenciados por esses nomes são, antes de mais, espaços sociais, domesticados, apropriados e controlados pelos grupos que neles habitam. «Baptizar» um sítio é integrá-lo no território da comunidade e determinar o tipo de relacionamento com ele.”79, estabelece uma relação entre os topónimos Cavalos de Fão e Ofir, remetendo-nos assim, para os cultos populares ancestrais na cultura popular portuguesa.
O autor demonstra que os Fenícios se estabeleceram em Fão no milénio III a. C., deixando vestígios da sua civilização bem marcantes ao nível da toponímia. E se considerarmos que a sua presença na Península Ibérica se prolongou por dois milénios, muitos mais traços culturais permaneceram. No domínio da religião, sabemos que o culto de Tammuze, igualmente conhecido por Adónis, era praticado por este povo. Tammuze foi o deus – filho da Istar babilónica e fenícia que foi sacrificado pela salvação da humanidade e se cultuava com prantos na primavera junto aos rios.
Nesta ordem de ideias, parece-nos credível afirmar que neste local, em tempos feitoria de fenícios, prestava-se o culto a Tammuze – divindade ligada à água. E no labirinto das lendas seleccionadas para a nossa análise, estamos em crer que para o fenómeno religioso do Bom Senhor Jesus de Fão foram integrados elementos do antigo culto de Tammuze.

Matosinhos

“Professa a lenda que a imagem foi esculpida por Nicodemus (…) considerada uma cópia fiel da face de Cristo. Nicodemus teria lançado a imagem ao mar (...) esta teria ido dar à praia de Matosinhos, perdendo um braço. Um dia uma mulher que andava ao pé da praia a apanhar a lenha encontrou um pedaço de madeira. (…) atirou-o à lareira várias vezes, mas este pedaço saltava sempre para fora, até que a filha, muda de nascença, conseguiu proferir que aquele pedaço era o braço de Nosso Senhor das Bouças. E, de facto, aquele pedaço de madeira ajustava-se perfeitamente à imagem venerada pela população. No século XVI, a imagem foi transportada para a actual igreja, construída em sua honra.”80



No local onde foi encontrada a imagem foi construído um monumento-memória designado de Padrão do Bom Jesus de Matosinhos. Localizado no lugar do Espinheiro, data do século XVIII, e apresenta características barrocas. Constatámos que este padrão é constituído por um cruzeiro sob um alpendre. Uma das faces do cruzeiro encontra-se revestida por azulejos brancos, sobressaindo a imagem de Jesus Cristo a azulejos azuis.
O facto de aqui se encontrarem algumas velas acesas leva a crer que se praticam alguns cultos religiosos. Quando questionámos os transeuntes que por ali passam e moradoras de uma rua perto deste padrão sobre as práticas religiosas deste local, não obtivemos nenhuma resposta concreta. Todas as respostas foram direccionadas para as cerimónias religiosas da igreja do Bom Jesus de Matosinhos.
A poucos quilómetros de distância encontra-se a Igreja do Bom Jesus de Matosinhos. No seu interior encontram-se alguns dos mais representativos painéis de talha dourada de artistas do barroco nortenho. Apesar de Nicolau Nasoni estar ligado a esta igreja, este pintor e arquitecto, que marcou o barroco setecentista na cidade do Porto, apenas participou no seu restauro/ renovação. A igreja iniciou a sua construção no século XVI, apresenta características renascentistas, e desde então tem sido alvo de inúmeras alterações até à actualidade.
Relativamente à imagem de Cristo crucificado, a sua origem remonta ao século XII ou XIII. A tradição diz que a imagem é uma das mais antigas da cristandade. Trata-se de uma escultura em madeira oca, com cerca de dois metros de altura e bastante assimétrica e simbólica no olhar, dado que o olho esquerdo se dirige para o céu e o direito para a terra - numa clara dicotomia entre Deus e o Homem.
A festa em honra do Senhor de Matosinhos é de clara expressão a nível regional, o número de romeiros é avultado; e sempre assim foi ao longo dos tempos.


3.2 Junto à Foz do Douro existem mais Senhor Jesus Irmãos

Valadares
De acordo com a tradição oral, o Senhor dos Aflitos aqui venerado é irmão do Senhor de Matosinhos. Esta imagem de Jesus Cristo também foi lançada ao mar, vítima da iconoclastia que se vivia em paragens distantes. A costa atlântica e o povo português, assumem o espaço e função de salvadores e protectores das imagens condenadas nos países “hereges”.
No primeiro fim-de-semana do mês de Julho, na vila de Valadares, iniciam-se os festejos em honra do Nosso Senhor dos Aflitos. As festividades têm a duração de cerca de uma semana e iniciam-se com uma missa na capela do Divino, seguido do transporte da imagem da respectiva capela, que se situa na praia, para a igreja paroquial. Como é característico das festas, estas compõe-se de uma vertente profana, com a actuação de ranchos folclóricos, grupos musicais, feira e actividades desportivas, e de uma vertente religiosa através da celebração de missas e realização de procissões, aproveitando os crentes para cumprir as suas promessas. O mesmo sucede aqui em Valadares.


Gulpilhares – Miramar

Nesta praia deu à costa uma imagem de Jesus Cristo, há muitos anos atrás, «no tempo em que se fazia mal às imagens em certos sítios». Depois de recolhida foi colocada em terra, mas de imediato a imagem fugia para a rocha. «Era a imagem a pedir para se construir uma capela na rocha. E fez-se-lhe a vontade». No decorrer da nossa conversa, acrescentaram ainda que esta imagem é irmã da do Senhor de Matosinhos e da do Senhor dos Aflitos de Valadares, sendo as festas em sua honra em dias diferentes para se poder ir a todas.

Debruçando-nos sobre o mito da fundação do Senhor da Pedra, Henrique Manuel Moreira Guedes refere:

“A lenda do resgate milagroso de um capitão, vitimado pelo naufrágio do seu navio, faz-nos crer na possibilidade de a devoção ao Senhor da Pedra, ter surgido entre marinheiros e pescadores que, quando perdidos ou acossados por uma tempestade, invocam a protecção de Jesus Cristo. Quando avistavam a Pedra da Assureira sentiam-se a salvo, tomando-a como uma manifestação da protecção divina. Deste modo, é provável que tenham passado a invocar Jesus Cristo como o Senhor da Pedra” 81 .

A capela do Senhor da Pedra situa-se na praia de Miramar e está construída sobre a Pedra da Assureira. Relativamente ao topónimo Assureira, Moisés Espírito Santo considera que a sua origem está relacionada com o topónimo judaico - fenício Açor ‘rochedo ’.
Mas Moisés Espírito Santo leva bem mais longe o estudo do Senhor Jesus da Pedra de Gulpilhares. No seu livro Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa seguido de Ensaio sobre Toponímia Antiga, dedica-lhe um capítulo onde apresenta uma explicação etno-histórica para o facto religioso e social em análise. Depois de uma breve associação deste santuário aos prantos de Tammuze e à cultura fenícia e hebraica, este sociólogo das religiões advoga que: “É evidente que este e todos os outros cultos não têm origem nas capelas actuais; pelo contrário: muitas capelas derivam de antigos cultos, que no passado não necessitavam de templos. Uma lápide na parede da capela do mar diz claramente que esta se ergue num local onde se realizavam «ritos pagãos» ”.82
Na Pedra da Assureira, a Poente da capela do Senhor da Pedra, é possível observar a «pata do boi»; trata-se de uma marca, muito vaga, de uma ferradura gravada na rocha.”Diz-se que um barco carregado de animais naufragou e que um boi «se escapou e chegou ali milagrosamente», imprimindo a sua pata na rocha, história vulgar que todavia contém uma vaga reminiscência de um culto em que entram bois”83.
Inserido no santuário do Senhor da Pedra, junto à beira-mar existe ainda a capela do Senhor dos Amarrados, também designado por Senhor dos Milagres. Este pequeno local de culto é alvo de peregrinação complementar. E, enquanto o Senhor da Pedra – também designado de Senhor da Escuridão – é representado por um crucifixo, o Senhor dos Amarrados é representado por um Cristo vestido com uma túnica e com uma corda em volta da cintura e do pescoço.
Como podemos constatar este espaço é, por excelência, peculiar a nível paisagístico e mítico. E, como sistematiza Moisés Espírito Santo: “Qualquer ritual pode manter-se inalterado ao longo de milénios, perpetuado pela memória colectiva ligada ao espaço, mas a sua significação deteriora-se e adquire conteúdos anódinos e folclóricos. A «pata do boi» relaciona-se sem dúvida com holocaustos de bois sobre a pedra, no próprio local onde se encontra hoje a capela. Seriam os tais «ritos pagãos» a que se refere a lápide? Talvez aí tivesse existido algum bezerro sagrado, uma vez que tanto Yaveh como Baal foram representados por bezerros; a «pata do boi» seria então a marca do bezerro divino que representava Deus, que, por seu lado, habitava na pedra tal como o Senhor da Pedra mora hoje sobre ela. A actividade oracular a que se liga o santuário é idêntica à daquelas religiões antigas cujos santuários eram igualmente frequentados por bruxos, adivinhos e «filhos de profeta».

O Senhor da Pedra é herdeiro igualmente da terceira pessoa da tríade fenícia Thamuze / Adónis. O título de Senhor da Escuridão era também o de Tammuze, porque o seu nome significa «filho fiel das águas profundas», relacionado com os Infernos, e porque do seu suplício por ocasião das ceifas, o trigo renascia. O nome do outro Cristo, «Senhor dos Amarrados», também podia ser o seu porque foi amarrado a uma árvore, emasculado por amor de Isthar, que ele morreu. (…) Conjugando todos os elementos, concluímos sem dificuldade que o culto do Senhor da Pedra de Gulpilhares associado à fusão entre Yaveh, Baal e Adónis tem origem nas religiões fenícia e hebraica, sobretudo fenícia.”84


Todos os anos, no domingo de Pentecostes, ou domingo da Santíssima Trindade85, realiza-se a romaria do Senhor da Pedra, prolongando-se os festejos até à Terça-feira seguinte. A romaria composta por uma componente sagrada e por uma profana, assume as características de uma festa/ romaria típica da actual cultura popular portuguesa (tema que oportunamente desenvolveremos).

3.3 O Senhor Jesus das Barrocas – Aveiro
Actualmente a capela do Senhor da Barrocas situa-se no centro da cidade de Aveiro. No entanto, na época em que este templo foi construído, o mesmo não sucedia dado a configuração da cidade ser diferente. Assim sendo, o mito de origem está associado a um caminho antigo, entre Aveiro e Esgueira, apelidado de Barrocas e a um cruzeiro que aí se encontrava. João Gonçalves Gaspar refere que barrocas “É um topónimo bastante antigo; já em 1503 havia aí, num ermo entre Esgueira e Sá, uma propriedade rústica que era foreira do Mosteiro de Jesus. A designação veio-lhe da natureza geológica da zona a que o povo chamava barrocas ou barrocos, palavra que significará sítio de barro ou – na opinião do notável arabista Frei João de Sousa (…) - terá origem árabe e designará terrenos incultos cheios de cascalho e penedia.”86. No que concerne ao cruzeiro, o mesmo autor esclarece que este se encontrava junto a uma fonte e que se caracterizava por ser “lítico, modesto e popular; sobre a coluna, fixaram um Crucifixo, em cuja cruz, pela frente, gravaram uma data – 1707 – e no reverso escreveram: - SANCTUS DEUS, SANCTUS DOMINUS, SANCTUS IMMORTALIS, MISERERE NOBIS. + CHRISTUS NOBISCUM + STATE.”87. Esta inscrição em português assume o seguinte significado: Santo Deus, Santo Senhor, Santo Imortal, tem piedade de nós. + Cristo, permanecei connosco.
Ficamos então a saber que o topónimo deste lugar remonta ao século XVI, enquanto que o cruzeiro apresenta uma data do início do século XVIII. Curiosamente, o cruzeiro é considerado modesto e popular, contudo a inscrição nele gravada surge em latim, língua utilizada apenas pelas classes letradas. O facto deste cruzeiro, cuja devoção foi aumentando progressivamente, se encontrar no lugar das Barrocas deu origem ao Senhor das Barrocas.

O primeiro milagre ocorreu em 13 de Setembro de 1721. Custódio Fernandes encontrava-se bastante doente e, por sugestão de uma vizinha, pediu ao Senhor das Barrocas que o salvasse. Em troca, prometeu-lhe uma vela de cera com uma fita vermelha. Depois de lhe rezar e de beber o seu caldo de galinha, caiu num sono profundo88, do qual só acordou oito dias depois, mas perfeitamente recuperado. Relatou então, que nesse espaço de tempo fora levado até junto da imagem do Senhor das Barrocas e que foi ela que o salvou do perigo que corria.



A difusão deste milagre foi imediata, chegando inclusivamente a ser publicado na “Gazeta de Lisboa Occidental”, de 20 de Novembro de 1721. O Senhor das Barrocas passou a ser visitado por romeiros provenientes de diversas zonas do reino que aqui se deslocavam, na maioria dos casos, para agradecer os pedidos concedidos. A sua fama atingiu tal proporção, e inserido na dinâmica político-religiosa do reinado de D. João V, que, a 16 de Novembro de 1732, o cruzeiro foi trasladado para a capela do Senhor das Barrocas.
A par da construção da capela criou-se a confraria do Senhor das Barrocas encarregue de assegurar o culto (não só no dia da festa principal a 25 de Julho, como durante todo o ano) e de administrar as receitas, na sua maioria provenientes do pagamento de promessas. Foi ainda sua preocupação criar infra estruturas para receber os romeiros adequadamente, dado que muitos se deslocavam de longe até este local. Como afirma João Gaspar: “ A fama taumatúrgica do Senhor das Barrocas, decerto ampliada pela imaginação popular, não arrastou apenas nos arredores de Aveiro mas chegou também a variadíssimas terras do País; muitas pessoas constantemente aqui vinham de longe ou de perto, para rezarem e para se desobrigarem de promessas. (…) Também os mareantes conservavam grande fé no Senhor das Barrocas; quando se achavam em perigo no alto-mar, prometiam trazer-lhe uma das velas do barco, se Cristo os libertasse de tamanhas angústias. Favorecidos pelo Céu, apressavam-se a cumprir os seus votos, chorando de comoção e cantando o “Bendito”; assistiam devotamente à Missa na igreja e, em seguida, era a vela de pano arrematada, destinando-se ao culto o produto da venda. (…) Por iguais motivos, eram também levados painéis ou estampas – vulgarmente conhecidos por “ex-votos” – que representavam embarcações em perigo ou marinheiros a implorarem, aflitos a protecção divina.”89.
E, enquanto que em 1732, em Aveiro, se faz a trasladação do cruzeiro do Senhor das Barrocas para a capela construída em sua honra, nos arredores de um lugar – Casal dos Maios – perto de Leiria constrói-se uma ermida em sua homenagem. O Senhor das Barrocas, que neste lugar se manifestou «milagrosamente», passa e ter dois locais de culto.
A ermida que aqui mencionamos deu, em seguida, lugar a um santuário; e o local onde, segundo a lenda, ocorreram milagres por invocação ao Senhor das Barrocas é actualmente uma aldeia à qual foi atribuído o topónimo de Milagres. Aqui, em oposição ao Senhor das Barrocas de Aveiro, o culto continua a fazer parte identidade sócio-religiosa da comunidade. E o nosso estudo tem como objectivo principal analisar e compreender a forma de expressão e comunicação popular da comunidade rural com o seu Senhor Jesus. E se no fenómeno social em causa existem elementos que lhe conferem singularidade, também existem elementos comuns a outros Senhor Jesus.
O Senhor Jesus dos Milagres, objecto principal do nosso estudo, foi inicialmente uma «ramificação» deste Senhor das Barrocas de Aveiro.



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