Ao longo da costa atlântica portuguesa, concretamente entre a península de Setúbal e Viana do Castelo, podemos encontrar vário



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* Contra-Reforma
Perante todas estas convulsões religiosas e políticas, com inequívocas consequências sociais, a Igreja Católica actuou no sentido de travar a expansão do Protestantismo. Surge a Contra-Reforma como movimento de reacção, a partir de meados do século XVI, cujas primeiras manifestações se verificaram na renovação das ordens religiosas, com o aparecimento dos «clérigos regulares», que passaram a centrar a sua actuação no apostolado, no ensino e na assistência aos carenciados. Nesta fase de renovação, destaca-se a criação da Ordem dos Jesuítas.
Mas o que verdadeiramente marca esta fase da vida da Igreja Católica é sem dúvida o Concílio de Trento (1545-1563). “O Concílio de Trento, iniciado em 1545, tornar-se-ia um marco de capital importância no desenrolar ulterior da confissão católica, cujos efeitos perduram até hoje. É certo que falhou no que era para muitos o seu objecto primordial: a reunificação dos cristãos, separados após a excomunhão de Lutero, em 1520. O Papa Paulo III, que, após muitas hesitações o convocou, organizou também a Inquisição, a partir de 1542, para travar o avanço das ideias protestantes, que ameaçavam a própria Itália. (…) Respondia às aspirações de então. Acabavam as incertezas teológicas, apontavam-se caminhos seguros para atingir Deus, respondendo-se portanto aos anseios dos fiéis, cansados de dúvidas e enredos nas lutas de facções ou ideias. Eles precisavam de uma doutrina clara, afirmativa, tranquilizadora.”62.
Muito haverá para explorar relativamente ao Protestantismo, Contra-Reforma e inerente Concílio de Trento, no entanto, corremos neste momento o perigo de nos desviarmos do fio condutor deste sub capítulo: o enquadramento histórico do Culto do Senhor Jesus dos Milagres. Assim sendo, destacaremos apenas os factores que implicitamente condicionaram este fenómeno religioso.
Com o Protestantismo propõe-se aos crentes uma nova forma de relacionamento com Deus. Pretende-se um relacionamento «directo», através da leitura da bíblia, logo a função do clero, entidade intermediária, é desprestigiada. O culto a outras entidades divinas, nomeadamente santos, santas e a mãe de Jesus Cristo, passa a ser desvalorizado, defende-se mesmo a abolição das imagens dos locais de culto. Nenhuma destas propostas poderia ter eco na religião popular portuguesa. A sua tradição cultural não permitiria uma mudança tão abrupta. O culto a várias entidades divinas é ancestral. As formas de religiosidade sempre foram colectivas e pouco introspectivas, próprias de um povo pouco instruído que sempre valorizou o fantástico e a vertente cénica envolta em rituais, prolongadas encenações, proporcionadora de momentos catárticos quer a nível individual ou colectivo.
Por seu turno, as grandes medidas preconizadas na Contra-Reforma, onde inserimos o Concílio de Trento, foram ao encontro do sentimento religioso popular português da época. Defende-se o culto dos santos e santas, da mãe do filho de Deus, da Santíssima Trindade, bem com a veneração das imagens e relíquias. Na sessão XXV, a 3 de Dezembro de 1563, declarou-se que as relíquias são dignas de serem veneradas, quando não associadas a qualquer superstição e depois de aprovadas pelo bispo. O corpo de um santo, ou um fragmento seu, continuava a agir miraculosamente. As esculturas e pinturas passaram a assumir uma função pedagógica, dando, deste modo, a conhecer episódios, factos ou acontecimentos religiosos (a mensagem é transmitida pelo imediatismo da imagem e não pela reflexão dos textos).
Nesta ordem de ideias, não será inverosímil admitir que, o corpo social português ao tomar conhecimento que, em terras distantes, se “maltratam” imagens tenha assumido a função de salvador das mesmas. Bastará para o provar analisar as lendas que suportam a nova camuflagem de certos cultos em Portugal, a partir do século XVI. A título de exemplo o Senhor Jesus das Cruzes, o Senhor Jesus de Matosinhos ou o Senhor Jesus do Carvalhal. No próximo sub capítulo retomaremos a esta problemática. Depois de descortinado o espaço geográfico e o contexto histórico, há que ter presente as lendas que se crê terem dado origem a este fenómeno social total de raiz popular: o culto a Jesus Cristo ao longo da costa atlântica, em cuja dinâmica religiosa se insere o culto do Senhor Jesus dos Milagres.
Vale ainda a pena mencionar que a postura dos membros do clero foi debatida e ratificada durante este Concílio de Trento. Mas na prática, a conduta do clero regular português não se alterou significativamente; este continuou a ser visto como incapaz de uma adequada actuação pastoral, apesar da publicação do catecismo63. Distante das comunidades, comodista, sendo alguns deles manifestamente incultos, levando, por vezes, uma vida pouco exemplar, apenas se fazia notar em determinadas manifestações públicas da liturgia (as romarias, as procissões ou os jubileus), momentos onde predominavam as formas exteriores de culto.
Em Setembro de 1564, no decorrer do reinado de D. Sebastião, foi publicado um alvará que dava todo o apoio à execução dos decretos emanados do Concílio de Trento quer a nível dogmático, litúrgico ou disciplinar. Portugal foi o único país que aprovou integralmente as normas deste concílio; esta postura contribuiu para o condicionamento da produção artística a todos os níveis, a longo prazo. Como facilmente constatamos, a Igreja e o poder político português actuavam em uníssono. A paz do Estado e da Igreja encontravam-se estreitamente solidárias na unidade da crença, tendo como suporte de apoio aos seus fins a Inquisição.
As políticas sociais e as práticas religiosas características da sociedade portuguesa dos séculos XVI ao XVIII não se conseguiam destrinçar. As ordens eclesiásticas centravam em si a caridade aos necessitados, o socorro aos pobres, o auxílio aos doentes, a formação humanística e universitária, além da instrução catequética, a prática da eucaristia, o controle de jejuns e actos de penitência, a difusão da reza do rosário e a gestão de relíquias. Como refere Sérgio Gorjão: “O poder da Igreja durante todo o séc. XVII e XVIII é enorme, verdadeiramente um Estado dentro do Estado, com legislação, hierarquias e tribunais próprios, respondendo em obediência a uma entidade supra nacional: o Papa. Coroa e Igreja são indissociáveis, sobretudo após o concílio tridentino cujas normas foram, integralmente, aceites em Portugal. O Estado e a Igreja articulavam a sua acção de forma mutualista, embora tecnicamente coubesse ao Estado a última palavra em diversas matérias. Com o período joanino, a Igreja não perde terreno, mas o Estado ganha maior desempenho e revela a sua posição de forma mais determinada. Se por um lado vemos o reforço do poder político do Estado, ao nível cultural, a sociedade mantém-se profundamente religiosa e orientada a partir do púlpito.”64
As confrarias, ainda hoje com uma função social bem marcante no universo sociológico português, assumiram um papel de destaque em muitas comunidades, focando a sua actuação nas práticas e nas exigências religiosas e sociais de cada momento. Assim sendo, para além de enquadrarem a vida religiosa e social dos leigos e de auxiliarem material e espiritualmente os mais necessitados, também promoveram a realização das festividades religiosas comunitárias, assegurando momentos de grande vivência colectiva. A sua conduta proporcionou o desenvolvimento de manifestações cultuais onde imperava a afirmação social e política dos seus membros, criando oportunidades de exercício de poder e de exibição social.
Muitas destas confrarias encontravam-se associadas ao culto de Cristo. O ciclo litúrgico da vida de Jesus Cristo, especialmente a Quaresma, Paixão e Semana Santa, eram momentos propícios a uma forte exteriorização da afectividade popular. Nestes momentos, onde ocorria, e ainda ocorre, a evocação dos sofrimentos de Cristo, pretendia-se despoletar a piedade e a afectividade do temperamento popular português, com o intuito de provocar a reflexão sobre as consequências do pecado e a necessidade do arrependimento (constante da espiritualidade afectiva ante e pós-tridentina). No culto de Jesus Cristo sofrente pretende-se passar a mensagem da conversão dos pecadores e do aperfeiçoamento dos crentes, através do desprezo dos bens do mundo e da prática das virtudes da humildade, da obediência e resignação.
Entidade divina, associada ao sofrimento na Cruz, também ela convida a actos de fé e esperança ao assumir o estatuto de filho divino. A devoção a Cristo propaga-se no seio da religião popular portuguesa. “Os séculos XVII e XVIII foram também marcados pelo crescimento da devoção popular ao crucifixo. Muitos situavam-se em ermidas e oratórios no exterior dos povoados, onde as povoações os visitavam, principalmente durante as celebrações da Paixão. O sucesso das narrativas dos milagres que eram atribuídos a algumas figuras de Cristo contribuiu para o incremento da sua importância. Com efeito, o acréscimo do fervor religioso e do número de visitantes, atraídos pela aura dos milagres, possibilitou o enriquecimento dos referidos lugares de culto. Muitos dos administradores preocuparam-se em dignificar os templos e as imagens de acordo com os níveis de devoção. Estes eram construídos e decorados ao encontro das preferências estéticas do momento, o que fornecia novos motivos para a visita dos romeiros (…) Pode, pois, afirmar-se que muitos dos responsáveis de santuários procuravam alimentar o dinamismo das peregrinações através de uma renovação constante dos espaços sagrados e da sua ornamentação. No Bom Jesus de Bouças (Matosinhos), que ainda em 1692, no dia da sua festa principal, teria acolhido mais de 20 000 visitantes, em 1726, uma parte dos múltiplos rendimentos da sua irmandade eram aplicados à criação de um novo retábulo e de um novo trono para a imagem principal, profusamente decorados com talha barroca. As obras no interior da igreja prolongar-se-iam até à segunda metade do século XIX. Outras vezes, eram inovações arquitectónicas mais profundas que constituíam o meio preferido para dar novo alento a devoções já existentes. (…) Alguns santuários de natureza cristológica tiveram origem numa forma de piedade muito particular, desenvolvida no século XVIII. Referimo-nos a painéis ou pinturas de Cristo, localizadas em locais de passagem dos fiéis, de modo a captar a sua atenção e proporcionar a adoração. Foi assim que nasceu o Santuário do Senhor Jesus dos Milagres de Leiria, em 1731 (...) a atribuição dos milagres pressupostamente ocorridos por intermédio de um destes painéis, estimulou a vinda de peregrinos, captados pela fama destes prodígios. As suas oferendas possibilitaram a construção do templo.”65Envolto em relíquias e crucifixos, festas e devoções, santuários e grandes igrejas, congregações e confrarias, é assim que o homem português, dos séculos XVII e XVIII, vive o maravilhoso cristão.

* Barroco
A apoiar este forte sentido de teatralidade que o acompanha do berço ao túmulo, surge o barroco. “Nesta linha, o barroco não é só uma manifestação artística, como também um reflexo da mentalidade e da política. O conceito de «barroco», entendido de uma forma mais lata, torna-se um instrumento de poder e de condução da sociedade. A sociedade torna-se numa espécie de grande espectáculo em que todos têm a sua função, estabelecendo-se elos indissociáveis e hierarquias entre os elementos dessa sociedade e um poder superior, de natureza divina”66
Repositório das vivências sociais das comunidades e da sua cultura popular, os locais de culto em honra a Jesus Cristo, que nesta época surgem por toda a costa atlântica a norte do Tejo, vão ser construídos, noutros casos reconstruídos ou readaptados, recorrendo ao movimento artístico do momento, ou seja, ao barroco.
Ao longo da nossa investigação partimos para o terreno com o intuito de observar os fenómenos sociais em torno dos Senhor Jesus em estudo, tais como: a festa, o cumprimento de promessas, a relação dos devotos com as imagens, os locais de culto, etc. Vários fenómenos sociais têm uma estrutura comum, como referiremos oportunamente. Mas, neste momento, impõe-se abordar o estilo que mais se evidencia a nível arquitectónico e decorativo nos santuários seleccionados: o estilo barroco. Pareceu-nos que há medida que os templos se vão situando mais a norte do país, mais vão evidenciando o estilo barroco.
Do nosso Corpus de análise, para o estudo comparativo, constam os seguintes Senhor Jesus: Senhor Jesus das Cruzes (Barcelos), Senhor Jesus de Fão (Fão), Senhor Jesus de Matosinhos (Matosinhos), Senhor Jesus dos Aflitos (Valadares), Senhor Jesus da Pedra e Senhor Jesus dos Milagres (Gulpilhares), Senhor Jesus das Barroquinhas (Aveiro), Senhor Jesus da Pedra de Óbidos (Óbidos), Senhor Jesus do Carvalhal (Bombarral) e Senhor Jesus das Chagas (Sesimbra). Todos os locais de culto em análise evidenciam características deste estilo, deixando assim transparecer a vitalidade social e religiosa do tempo. A nível arquitectónico, concretamente quanto à planta adoptada, foi-nos possível verificar que alguns templos são idênticos, ou muito semelhantes, quer a nível exterior ou interior.
É prática corrente afirmar-se que a grande maioria dos locais de culto, em Portugal, são sincréticos. Para tal contribuíram dois factores determinantes: a progressiva construção destes templos ao longo do tempo, condicionada em grande medida pelo factor de ordem financeira (a construção era custeada em grande parte, ou totalmente, por donativos dos fiéis e pelos rendimentos que as confrarias iam auferindo ao longo dos anos); a conjugação de formas e técnicas tradicionais a inovações importadas, contribuindo para o aparecimento de templos com características próprias da identidade da religião nacional. Além disso, devemos ter sempre em consideração que os locais de culto, ao serem construídos, foram ao encontro da necessidade do cumprimento de certos ritos religiosos. Logo, podemos afirmar que a própria prática/ identidade religiosa condicionam a construção de um templo. Nesta ordem de ideias, o templo personifica uma manifestação de cultura.
Apesar do sincretismo, mais ou menos evidenciado, a nossa observação permitiu-nos concluir que o estilo Barroco. No interior, a presença da talha dourada, sugerindo o brilho e a cor, bem como do azulejo que conduz para a ampliação de espaços e dinamização cromática, está presente em todos os templos, com maior ou menor preponderância. Os símbolos naturalistas, nomeadamente, os cachos de uva, as parras, as folhas de acanto e os anjos, também estão patentes nestes espaços. O chamamento físico dos sentidos e dos sentimentos complementam-se, podendo eventualmente provocar impacto emocional, com a observação de imagens. De destacar que um dos principais objectivos das imagens era que se tornassem o mais apelativas e naturais possível, pois pretendia-se o imediatismo da transmissão da mensagem. Os elementos estéticos utilizados tinham como principal função representar a realidade de uma forma emotiva, apelando e invocando os sentimentos católicos. Por vezes, surgem em altares laterais telas alusivas à Paixão de Cristo que, ocasionalmente, se apresentam demasiado pesadas e sombrias.
A complementar a decoração interior, é frequente depararmo-nos com a presença de vários painéis votivos. Elaborados por pintores regionais, ilustram e relatam um acontecimento considerado milagroso, devido à intervenção do Senhor Jesus. Tal acontece na igreja do Senhor Bom Jesus de Fão e no santuário do Senhor Jesus dos Milagres.
Dado que se pretendia transmitir a noção de proximidade com Deus, adoptou-se, na generalidade dos templos, por construir uma cúpula a encimar o altar. A cúpula tem como propósito retratar a noção de céu/paraíso e sugerir a comunicação entre a terra e o céu. Além das cúpulas, é também comum observarmos tectos pintados, sendo então possível vislumbrar cenas sagradas alusivas à vida de Santos ou à Santíssima Trindade.
Em suma, podemos afirmar que, no seu interior, a igreja de características maioritariamente barrocas apresenta uma unidade rica e calorosa, na medida em que se tenta conjugar os altares, pinturas, esculturas, mobiliário, trabalhos em estuque e outros ornamentos de forma a criar uma atmosfera de deslumbramento e fascínio.
No que concerne à arquitectura, chegámos à conclusão de que se adoptou, em termos de construção, a forma de cruz latina e de estilo romano. Em alguns dos templos visitados, verificámos essa característica; a título de exemplo, a igreja do Senhor Bom Jesus de Fão e igreja do Senhor de Matosinhos. Sabemos que no reinado de D. João V foram vários os arquitectos conhecedores deste novo estilo arquitectónico, nomeadamente italianos, que vieram para Portugal, e que participaram na construção de prestigiados locais de culto. No caso do nosso estudo podemos referir Nicolau Nasoni que participou na restauração do templo do Senhor Jesus de Matosinhos. Mas também temos que ter em consideração que parte dos templos a que dedicámos o nosso estudo foi construída por comunidades rurais com escassos recursos financeiros, sendo de todo inviável recorrer a arquitectos para a elaboração das plantas. Se por um lado, não havia recursos para convidar arquitectos credenciados e conhecedores do estilo na sua forma erudita, por outro, também não existia vontade de cooperar com alguém cujos traços não fossem ao encontro dos gostos e desejos da comunidade popular. De igual modo, se deve ter em linha de conta que os agentes sociais da comunidade rural, local onde inicialmente tiveram origem os fenómenos religiosos de que o nosso estudo se ocupa, se posicionam no centro do mundo; logo, a sua opinião relativamente ao seu templo sagrado permite inferir que o consideram o mais belo de todos, apesar de construído por mestres e mão-de-obra locais. A linguagem e preferência estéticas estão claramente associadas à realidade social e hábitos culturais em que se enquadram.
Caso exemplificativo do que acima tentamos demonstrar é o do Santuário do Senhor Jesus dos Milagres. De acordo com os nossos informantes, o templo foi construído com donativos dos que por aqui passaram e por contribuições dos habitantes locais ao longo dos tempos. O santuário foi erguido com a mão-de-obra e esforço dos elementos da comunidade. Veio um mestre do Juncal orientar a construção, mas não há certezas absolutas relativamente ao autor do projecto. Nenhum dos informantes nega a sua beleza e sumptuosidade. Um folheto informativo, redigido por responsáveis paroquiais, realça as suas semelhanças com o Convento de Mafra.

* Absolutismo
Já aqui se referiu a importância da Contra-Reforma associados ao Barroco, como movimento propiciador para a devoção da imagem de Cristo Crucificado e como reacção ao Protestantismo. Torna-se agora pertinente abordar a contribuição do Absolutismo no seu incremento e desenvolvimento.
Vários historiadores, entre eles Veríssimo Serrão, advogam que após a recuperação da independência, em 1640, Portugal teve dificuldades em ocupar uma posição de credibilidade no quadro político europeu da época. Esta dificuldade também se sentiu junto da Santa Sé. ” O campo mais difícil de actuação para os nossos diplomatas foi, sem dúvida a cidade papal, devido à influência política que a Espanha ali exercia. Os interesses da Cúria Romana a nível internacional coincidiam com os de Filipe IV, pelo que as nossas primeiras embaixadas estavam de antemão condenadas ao fracasso. Bem podia D. João IV invocar, como o fez com insistência, a velha fidelidade da coroa portuguesa ao trono de S. Pedro.”67 Esta situação manteve-se durante vários anos, apesar de a nível interno a religião (popular) continuar muito activa e a moldar os comportamentos sócio-religiosos das comunidades (alheias à política internacional do Estado).
No início do século XVII, Portugal iniciou um novo percurso diplomático junto da Santa Sé. “ Roma foi sempre para D. João V o verdadeiro fiel da balança na Europa. Na época em que o papado buscava fazer-se ouvir junto das grandes potências, para impor a contenção dos conflitos que ameaçavam o equilíbrio europeu, a coroa joanina utilizou essa imensa força espiritual para robustecer a sua posição externa. Salienta Eduardo Brasão que o nosso país fora dos poucos em que a heresia não retalhara a unidade do corpo nacional, pelo que a fidelidade a Roma decorria do facto de Estado e Igreja constituírem um bloco homogéneo de pensamento e de acção. (…) Foram satisfeitos os pedidos de D. João V para a concessão do barrete de Cardeal a religiosos que gozavam do seu favor.68” José Castro partilha idêntica opinião, na sua obra Portugal em Roma refere: “O interêsse de Clemente XI pelos assuntos portugueses foi enorme não só pelo que respeita ao clero regular e secular como também pelas considerações prestadas à Família Real (…) Foi neste ano, a 4 de Dezembro de 1716, que promoveu à primeira dignidade de primeiro Patriarca de Lisboa o bispo do Pôrto, Dom Tomás (…) O Papa confirmou e ampliou a referida Bula com outra «Gregis Domini Cura» de 3 de Janeiro de 1717, e ampliou ainda mais os privilégios da Patriarcal com outra «Ineffabili Divinae Majestatis» de 4 de Março do mesmo ano, e ainda por outra de 27 de Setembro de 1720 lhe concedeu as quartas partes dos arcebispos e bispados do Reino (…) El-Rei mandou em 1712 a Roma, a prestar obediência ao Papa, o seu Embaixador Extraordinário Marquês de Fontes.”69
Esta postura político-religiosa relativamente à Santa Sé levou a que no reinado de D. João V, em Portugal, fossem apoiadas e patrocinadas todas as manifestações religiosas, incluindo a construção de templos de apoio ao culto. A situação económica do país favorecia esta postura por parte do Estado; Portugal recebia periodicamente avultadas quantias de ouro provenientes do Brasil. Temos como exemplo mais significativo, a nível da religião institucional, a construção do convento de Mafra. A nível da religião popular, as comunidades rurais apelavam aos bispos das dioceses a construção ou reconstrução dos locais de culto. Em alguns casos já naquele local se praticavam actos religiosos; a título de exemplo, o Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, o Santuário do Senhor Jesus da Pedra em Óbidos e o Santuário do Senhor Jesus das Barrocas em Aveiro. As autoridades eclesiásticas e, ou régias davam o seu aval e por todo o país surgiram novos templos, ou templos com novas configurações. João Gonçalves Gaspar, autor de um livro sobre a igreja do Senhor das Barrocas, partilha idêntica opinião e refere: “Se a autorização para se construir a igreja não demorou muito a ser superiormente concedida, também o início das obras não se atrasou em demasia… sinal de que não houve desânimos no percurso nem faltaram meios materiais para o sonho se tornar realidade. Aliás, dentro do entusiasmo nacional e da política magnânima de el-rei D. João V, Aveiro também se encontrava entusiasmado numa febre de construções, ampliações, beneficiações e restauros, de que os conventos da urbe foram os grandes beneficiários.”70
Relativamente ao Santuário do Senhor Jesus da Pedra, em Óbidos “Os principais mecenas foram D. Tomás de Almeida, primeiro Cardeal Patriarca de Lisboa, o rei D. João V, (…), e ainda o Cardeal D. Nuno da Cunha e Ataíde, Inquisidor Geral e o próprio D. José Dantas Barbosa.”71.
No que diz respeito ao Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, inicialmente construiu-se uma ermida, em 1732, era então governada a diocese de Leiria pelo Dr. Eugénio Boto da Silva, em substituição do bispo D. Álvaro d’Abranches e Noronha. Ao tomar conhecimento da dinâmica do culto, que segundo os registos que consultámos foi progressivamente aumentando72, várias iniciativas foram tomadas no sentido de orientar e institucionalizar o culto. Em 1750, o bispo D. João de Nossa Senhora da Porta perante a construção de uma capela-mor eleva este templo a igreja paroquial, criando, consequentemente uma nova paróquia.
Com efeito, podemos afirmar que a conjuntura deste momento contribuiu e caucionou, de uma forma decisiva, o incremento da vivência religiosa ao nível das representações, das práticas e das sociabilidades. Referimo-nos, evidentemente, a uma vivência religiosa popular praticada, fundamentalmente, em comunidades rurais e com uma postura diferente da religião institucional. Neste domínio não se colocava em causa a doutrina da Igreja. Aqui vivia-se a religião da continuidade com estereótipos, tradições e convenções próprias. Aqui a reprodução oral encarrega-se de a transmitir às gerações vindouras. Com o seu calendário e rituais próprios, a religião popular garante a estabilidade e continuidade cultural.



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