A viajante do tempo


- O RESGATE DA ALMA DE UM HOMEM



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39 - O RESGATE DA ALMA DE UM HOMEM
De manhã, como de costume, fui verificar como Jamie estava, esperando que ele tivesse conseguido comer alguma coisa. A poucos passos de seu quarto, Murtagh saiu de uma alcova na parede, barrando meu caminho.

- O que foi? - perguntei, assustada. — O que está acontecendo? - Meu coração disparou e as palmas da minha mão ficaram úmidas de repente.

Meu pânico deve ter sido óbvio, porque Murtagh sacudiu a cabeça para me tranqüilizar.

- Não, ele está bem. - Encolheu os ombros. - Ou tão bem quanto tem estado. - Me fez dar meia-volta segurando delicadamente meu cotovelo e começou a me levar novamente pelo corredor. Pensei com um instante de choque que essa era a primeira vez que Murtagh deliberadamente me tocava; sua mão em meu braço era leve e forte como a asa de um pelicano.

- O que há com ele? - perguntei. O rosto marcado do homenzinho permaneceu inexpressivo como sempre, mas as pálpebras enrugadas tremeram nos cantos.

- Ele não quer vê-la no momento - disse.

Parei onde estava e retirei bruscamente o braço de sua mão.

- Por que não? - quis saber.

Murtagh hesitou, como se escolhesse as palavras cuidadosamente.

- Bem, é que... ele decidiu que seria melhor para você deixá-lo aqui e voltar para a Escócia. Ele...

O resto de suas palavras perdeu-se no corredor quando passei bruscamente por ele.

A porta pesada fechou-se com um leve baque atrás de mim. Jamie cochilava, de bruços na cama. Estava descoberto, vestido apenas com uma túnica curta dos noviços; o braseiro de carvão no canto deixava o aposento confortavelmente aquecido, embora enfumaçado.

Ele deu um salto quando o toquei. Os olhos, ainda embaciados de sono, estavam fundos e seu rosto assombrado por pesadelos. Tomei sua mão entre as minhas, mas ele retirou-a violentamente. Com um olhar quase de desespero, fechou os olhos e enterrou o rosto no travesseiro.

Procurando não demonstrar nenhum sinal de minha própria perturbação, puxei um banco silenciosamente e sentei-me perto de sua cabeça.

- Não vou tocá-lo — eu disse —, mas você precisa conversar comigo. — Esperei vários minutos enquanto ele permaneceu imóvel, os ombros encolhidos defensivamente. Finalmente, suspirou e sentou-se, movendo-se devagar e penosamente, lançando as pernas para fora da cama.

- Sim - disse sem rodeios, sem olhar para mim. - Sim, creio que precisamos. Já devia ter feito isso antes... mas fui covarde o suficiente para esperar que não precisasse. — Sua voz era amarga e ele mantinha a cabeça abaixada, as mãos entrelaçadas frouxamente em volta dos joelhos. - Não me achava um covarde, mas sou. Devia ter feito Randall me matar, mas não o fiz. Eu não tinha nenhuma razão para viver, mas não fui corajoso o suficiente para morrer. - Sua voz definhou e falou tão baixo que eu mal podia ouvi-lo. - E eu sabia que teria que vê-la uma última vez... contar-lhe... mas... Claire, meu amor... meu amor.

Pegou o travesseiro da cama e abraçou-o como se quisesse se proteger, um substituto pelo conforto que não podia buscar em mim. Descansou a fronte sobre ele por um instante, reunindo forças.

- Depois que você me deixou em Wentworth, Claire - ele disse em voz baixa, a cabeça ainda abaixada -, ouvi seus passos, distanciando-se nas pedras do lado de fora e disse a mim mesmo, vou pensar nela agora. Vou me lembrar dela; do toque de sua pele, do perfume de seus cabelos e da sensação de seus lábios nos meus. Pensarei nela até aquela porta se abrir outra vez. E pensarei nela amanhã, quando estiver no cadafalso, para me dar coragem no fim. Entre o momento em que a porta se abrir e o momento em que deixar este lugar para morrer simplesmente não pensarei em nada - ele concluiu num sussurro, as mãos se fechando e depois relaxando.

Na pequena masmorra, fechara os olhos e ficara à espera. A dor não era insuportável, desde que ele permanecesse quieto, mas ele sabia que logo iria piorar. Temendo a dor, ainda assim ele já lidara com ela muitas vezes antes. Ele a conhecia, como conhecia sua própria reação a ela, e estava resignado a suportá-la, esperando apenas que ela não excedesse suas forças muito cedo. A perspectiva de violação física, também, era apenas uma questão de leve repugnância agora. O desespero era, a seu próprio modo, também um anestésico.

Não havia nenhuma janela no quarto pela qual julgar a hora do dia. Era fim de tarde quando ele foi levado para a masmorra, mas não podia confiar em sua noção do tempo. Quantas horas ainda se passariam até o alvorecer? Seis, oito, dez? Até o fim de tudo. Pensou com um humor sombrio que Randall ao menos lhe fizera o favor de desejar a morte.

Quando a porta se abriu, erguera os olhos, esperando - o quê? Havia apenas um homem, de constituição esbelta, bonito e um pouco desarrumado, a camisa de linho rasgada e descabelado, apoiado contra a porta de madeira, observando-o.

Após uns instantes, Randall atravessou o quarto sem falar e ficou parado ao lado dele. Encostou a mão por um momento no pescoço de Jamie, depois se inclinou e libertou a mão presa à mesa com um puxão no prego que deixou Jamie à beira do desmaio. Um copo de conhaque foi colocado diante dele e a mão firme de Randall ergueu sua cabeça e ajudou-o a bebê-lo.

- Ele ergueu meu rosto depois, entre suas mãos, e lambeu as gotas de conhaque dos meus lábios. Quis esquivar-me dele, mas eu dera minha palavra, de modo que apenas fiquei imóvel.

Randall segurou a cabeça de Jamie por um instante, olhando especulativamente dentro de seus olhos, depois o largou e sentou-se em cima da mesa, ao seu lado.

- Ficou ali sentado por um bom tempo, sem dizer nada, apenas balançando uma perna para a frente e para trás. Eu não fazia a menor idéia do que ele queria e não estava disposto a imaginar. Estava cansado e um pouco nauseado da dor em minha mão. Assim, após algum tempo, apenas descansei a cabeça nos meus braços e desviei o rosto. - Ele suspirou pesadamente.

- Depois de um instante, pude sentir sua mão em minha cabeça, mas não me movi. Ele começou a acariciar meus cabelos, muito delicadamente, sem parar. Não havia nenhum som a não ser a pesada respiração do sujeito e o estalido do fogo no braseiro, e eu acho... acho que adormeci por alguns instantes.

Quando acordou, Randall estava em pé diante dele.

- Está se sentindo um pouco melhor? — Randall perguntou num tom longínquo, gentil.

Sem dizer nada, Jamie assentiu e levantou-se. Randall o havia despido, tendo cuidado com a mão ferida, e levado-o para a cama.

- Eu dera a minha palavra de que não iria resistir a ele, mas também não pretendia ajudar, de modo que apenas fiquei ali parado, como se fosse feito de madeira. Pensei em deixar que ele fizesse o que quisesse, mas eu não teria nenhuma participação naquilo. Manteria uma distância dele, ao menos mentalmente. - Randall sorriu e segurou a mão direita de Jamie, apertando-a o suficiente para fazê-lo cair na cama, sentindo-se enjoado e tonto com a súbita pontada de dor. Randall ajoelhou-se no chão ao seu lado e ensinou-lhe, em alguns minutos arrasadores, que a distância é uma ilusão.

- Quando se ergueu, pegou a faca e passou-a pelo meu peito, de um lado ao outro. Não foi um corte profundo, mas sangrou um pouco. Observou meu rosto por um instante, depois estendeu o dedo e molhou-o no sangue. — A voz de Jamie era instável, tropeçando e gaguejando de vez em quando. - Lambeu o meu sangue do seu dedo, com pequenas lambidas com a língua, como um gato se limpando. Sorriu um pouco, depois, muito delicadamente, inclinou a cabeça para o meu peito. Eu não estava amarrado, mas não poderia me mexer. Eu apenas... fiquei ali, enquanto ele usava sua língua para... Não doeu, mas era uma sensação muito estranha. Após algum tempo, levantou-se e limpou-se cuidadosamente com uma toalha.

Observei a mão de Jamie. O rosto virado, era o melhor indicador de seus sentimentos. Ele cerrava-a convulsivamente na beirada da cama enquanto falava.

- Ele... ele me disse que eu... eu era delicioso. O corte havia praticamente parado de sangrar, mas ele pegou a toalha e esfregou-a com força em meu peito para abrir o ferimento outra vez. - As articulações da mão apertada no catre eram nós de ossos exangues. - Ele desabotoou as calças, espalhou o sangue vivo sobre si mesmo e disse que agora era a minha vez.

Depois, Randall segurou sua cabeça e ajudou-o a vomitar, limpou seu rosto delicadamente com uma toalha e lhe deu um pouco de conhaque para ajudar a tirar o mau cheiro da boca. Assim, alternando crueldade e delicadeza, pouco a pouco, usando a dor como arma, ele destruiu todas as barreiras da mente e do corpo.

Eu queria fazer Jamie parar de falar, dizer-lhe que ele não precisava continuar, não devia continuar, mas mordi o lábio com força para me calar e apertei minhas próprias mãos, com força, para me impedir de tocá-lo.

Então, ele me contou o resto da história; os lentos e deliberados açoites, entremeados de beijos. A dor aguda das queimaduras, administradas para arrancá-lo de uma inconsciência desesperadamente desejada para enfrentar novas humilhações. Contou-me tudo, com hesitações, às vezes com lágrimas, muito mais do que eu poderia suportar ouvir, mas eu o ouvi até o fim, silenciosa como um confessor. Erguia os olhos rapidamente para mim, depois os desviava.

- Eu poderia ter agüentado ser ferido, por pior que fosse. Eu esperava ser... usado e achei que poderia agüentar isso também. Mas eu não podia... Ele não apenas me machucou, ou me usou. Ele fez amor comigo, Claire. E me machucou muito enquanto o fazia, porque para ele isso era amor. E ele me fez corresponder... maldito seja! Ele fez com que eu me excitasse com ele! - Sua mão agarrou-se à cama, sacudindo-a com fúria.

- Na primeira vez, ele foi muito cuidadoso comigo. Usou um óleo e levou muito tempo esfregando-o por todo o meu corpo... pelas minhas partes, suavemente. Eu não podia deixar de ficar excitado assim como não pude deixar de sangrar quando ele me cortou. — A voz de Jamie estava cansada e cheia de desespero. Ele ficou em silêncio e me olhou pela primeira vez desde que entrei no quarto.

- Claire, eu não queria pensar em você. Eu não suportava ficar ali nu e... daquele jeito... e me lembrar de que eu a amava. Era blasfêmia. Quis varrê-la da minha mente e apenas... existir, enquanto tivesse que viver.

Mas ele não permitiria. - Seu rosto estava molhado, mas ele não estava chorando agora.

- Ele falava. Durante todo o tempo, ele falava comigo. Em parte, eram ameaças e, em parte, palavras de amor, mas em geral ele falava de você.

- De mim? - Silenciosa há algum tempo, minha voz saiu da garganta tensa, parecendo um grasnido. Ele balançou a cabeça, olhando para o travesseiro outra vez.

- Sim. Ele tinha muito ciúme de você, sabe.

- Não, eu não sabia.

Ele balançou a cabeça outra vez.

- Ah, sim. Perguntava-me... enquanto me tocava... perguntava-me: "Ela faz isso com você? Sua mulher pode excitá-lo assim?" — Sua voz tremia. - Eu não respondia... nem poderia. Então, ele perguntava como eu achava que você se sentiria de me ver... de me ver... — Mordeu o lábio com força, sem conseguir continuar.

- Ele me feria um pouco, depois parava e me amava até eu começar a ficar excitado... então, me machucava com força e me possuía enquanto me feria. E o tempo todo falava de você e a mantinha diante dos meus olhos. Eu resisti, mentalmente... tentei me manter longe dele, manter minha mente separada do meu corpo, mas a dor atravessava, sem cessar, toda barreira que eu erguia. Eu tentei, Claire... Deus, como eu tentei, mas...

Ele afundou a cabeça entre as mãos, os dedos pressionando as têmporas com força. Falou bruscamente.

- Eu sei por que Alex MacGregor se enforcou. Eu faria o mesmo, se não soubesse que é um pecado mortal. Se ele me condenou em vida, não fará o mesmo comigo no céu. - Houve um instante de silêncio enquanto ele lutava para se controlar. Notei automaticamente que o travesseiro em seus joelhos estava manchado de suor e quis me levantar para trocá-lo para ele. Ele sacudiu a cabeça devagar, ainda olhando fixamente para os pés.

- O... tudo está interligado para mim agora. Não posso pensar em você, Claire, nem mesmo em beijá-la ou tocar sua mão, sem sentir o medo e a dor e a náusea voltarem. Fico aqui deitado sentindo que vou morrer sem o toque de suas mãos, mas quando você me toca, acho que vou vomitar de vergonha e nojo de mim mesmo. Não posso nem mesmo vê-la agora sem... — Pousou a testa nos punhos cerrados, os nós dos dedos enfiados com força nas órbitas. Os tendões de seu pescoço estavam retesados de tensão e sua voz veio abafada.

- Claire, quero que você me deixe. Volte para a Escócia, para Craigh na Dun. Volte para o seu lugar, para seu... marido. Murtagh a levará em segurança, eu contei a ele. - Ficou em silêncio por um instante e eu não me movi.

Ergueu os olhos novamente com uma coragem desesperadora e falou de maneira muito simples.

- Eu a amarei enquanto viver, mas não posso mais ser seu marido. E não serei menos que isso para você. — Seu rosto começou a desmoronar. — Claire, eu a desejo tanto que meus ossos tremem em meu corpo, mas Deus me ajude, tenho medo de tocar em você!

Comecei a me levantar para ir até ele, mas ele me fez parar com um sinal repentino da mão. Seu corpo estava dobrado, o rosto contorcido com a luta interior, e sua voz era sufocada e arquejante.

- Claire... por favor. Por favor, vá. Vou ficar muito enjoado e não quero que você veja. Por favor.

Ouvi a súplica em sua voz e compreendi que precisava poupar-lhe mais esta indignidade, ao menos. Levantei-me e, pela primeira vez em minha vida profissional, deixei um homem doente entregue a si mesmo, indefeso e sozinho.

Deixei seu quarto, entorpecida, e encostei-me na parede branca de pedra do lado de fora, refrescando o rosto afogueado contra os blocos maciços, ignorando os olhares fixos de Murtagh e do irmão William. Deus me ajude, ele dissera. Deus me ajude, tenho medo de tocar em você.

Empertiguei-me e fiquei parada. Bem, por que não? Certamente não havia mais ninguém.

Na hora em que o tempo começa a passar lentamente, ajoelhei-me na nave da capela de St. Giles. Anselmo estava lá, os ombros retos e elegantes sob o hábito, porém ninguém mais. Ele não se moveu nem olhou ao redor, mas o silêncio vivo da capela me envolveu.

Permaneci de joelhos por um instante, tentando absorver a silenciosa escuridão, acalmando o turbilhão em minha mente. Somente quando senti meu coração desacelerar e começar a bater ao ritmo da noite é que deslizei para um banco nos fundos da capela.

Fiquei sentada rígida, não conhecendo a forma e o ritual, as cortesias litúrgicas que facilitavam aos irmãos o acesso às profundezas de sua conversa sagrada. Eu não sabia como começar. Por fim, eu disse, silenciosamente, sem rodeios, que eu precisava de ajuda. Por favor.

Então, deixei que o silêncio jorrasse em ondas à minha volta, envolvendo-me como as dobras de um manto, confortando-me contra o frio. E esperei, como Anselmo me ensinara, e os minutos transcorreram, incontáveis.

Havia uma mesinha no fundo da capela, coberta com uma toalha de linho, onde estava a pia de água benta, e ao lado uma Bíblia e outras duas ou três obras de inspiração. Para serem usadas por fiéis para quem o silêncio era insuportável, creio eu.

O silêncio estava se tornando insuportável para mim e eu me levantei e peguei a Bíblia, levando-a de volta para o genuflexório comigo. Dificilmente eu seria a primeira pessoa a recorrer as sortes Virgilianae em momentos de confusão e dificuldades. Havia luz suficiente das velas para eu ler, virando as páginas delgadas cuidadosamente e esforçando-me para discernir as linhas de letras pretas e minúsculas.

"...e ele os flagelou com o azorrague e eles ficaram muito feridos." Não era de admirar que tivessem ficado, pensei. O que afinal seria azorrague? Em vez disso, tentei os Salmos.

"Mas eu sou um verme e nenhum homem... meu corpo está desfeito como água e todos os meus ossos estão desconjuntados; meu coração parece de cera; está derretido e misturado às minhas entranhas." Bem, sim, um diagnóstico competente, pensei, com alguma impaciência. Mas haveria algum tratamento?

"Mas não te afastes de mim, ó Deus; Senhor, apressa-te para me socorrer. Livra minha alma da espada; meu amado das garras do cão." Hum.

Voltei-me para o Livro de Jó, o preferido de Jamie. Certamente, se alguém estava em posição de oferecer um conselho útil...

"Mas a carne em seu corpo sofrerá e a alma dentro dele se lamentará." Mmm, sim, pensei, e virei a página.

"Ele está prostrado de sofrimento em sua cama e todos os seus ossos clamam de dor... A carne é consumida de seus ossos e desaparece; e seus ossos que não eram visíveis, projetam-se para fora." Exatamente, pensei. E depois?

"Sim, sua alma se aproxima do túmulo e sua vida dos seus destruidores." Não tão bom, mas o próximo trecho era mais alentador. "Se houver um mensageiro com ele, um intérprete, um entre mil, para mostrar sua honradez, então, ele tem piedade e diz: Livre-o do abismo, eu encontrei um resgate. Sua carne será mais viçosa do que a de uma criança; ele retornará aos dias de sua juventude." E qual seria o resgate, então, que recuperaria a alma de um homem e livraria meu amado das garras do cão?

Fechei o livro e os meus olhos. As palavras se confundiam, toldando-se com minha necessidade urgente. Uma tristeza avassaladora apoderou-se de mim quando pronunciei o nome de Jamie. E no entanto havia um pouco de paz ali, um abrandamento da tensão quando disse, inúmeras vezes, "O Senhor, em tuas mãos confio a alma de seu servo Jamie”.

Ocorreu-me o pensamento de que talvez fosse melhor para Jamie que estivesse morto; ele dissera que queria morrer. Eu estava moralmente certa de que se eu o deixasse entregue à própria sorte, logo estaria morto, quer pelas conseqüências da tortura e da doença, na forca ou em alguma batalha.

E eu não tinha a menor dúvida de que ele também sabia disso. Deveria fazer o que ele pedira? De jeito nenhum, disse a mim mesma. De jeito nenhum, disse com raiva ao sol irradiante no altar e abri o livro outra vez. Passou-se algum tempo até eu perceber que a minha súplica já não era um monólogo. Na realidade, só soube disso quando compreendi que havia respondido uma pergunta que não me lembrava de ter formulado. Em meu transe de insone tristeza, algo me fora solicitado, e eu não sabia exatamente o quê, e eu respondera sem hesitar:

— Sim, eu o farei.

Parei bruscamente de pensar, ouvindo o silêncio palpável. Então, mais cautelosamente, repeti, sem voz:

- Sim. Sim, eu o farei. - E um pensamento fugaz atravessou minha mente: As condições do pecado são as seguintes: primeiro, você tem que dar seu consentimento completo a isso... E as condições da graça também, veio em eco a voz tranqüila de Anselmo.

Havia um sentimento, não repentino, mas completo, como se tivessem me dado um pequeno objeto para esconder em minhas mãos. Precioso como a opala, liso como o jade, pesado como um cascalho do rio, mais frágil do que o ovo de um pássaro. Infinitamente imóvel, vivo como a raiz da Criação. Não um presente, mas um depósito em confiança. Para amar febrilmente, para guardar carinhosamente. As palavras falaram por si mesmas e desapareceram nas sombras dos arcos do teto.

Ajoelhei-me diante da Sua presença e deixei a capela, sem duvidar nem por um instante, na eternidade do momento em que o tempo pára, que eu tinha uma resposta, mas não fazia a menor idéia do que era. Sabia apenas que aquilo que eu guardava nas mãos era a alma de um ser humano; a minha própria alma ou a de outra pessoa, isso eu não sabia.

Não parecia ser a resposta a uma prece, quando acordei para a retomada do tempo comum pela manhã e encontrei um irmão laico de pé junto à minha cama, dizendo que Jamie estava ardendo em febre.

- Há quanto tempo ele está assim? - perguntei, colocando a mão experiente na fronte e na nuca, na axila e na virilha. Nenhum sinal de suor aliviando a febre; apenas a pele seca e distendida do persistente ressecamento, ardente de calor. Ele estava consciente, mas tonto e com as pálpebras pesadas. A origem da febre era evidente. A mão direita ferida estava inchada, com uma secreção malcheirosa ensopando as ataduras. Veios vermelhos sinistros subiam do pulso. Uma grave infecção, pensei comigo mesma. Uma terrível infecção, supurada, envenenando seu sangue, ameaçando sua vida.

- Eu o encontrei assim quando vim dar uma olhada nele depois das preces matinais - respondeu o irmão servente que fora me buscar. - Dei-lhe água, mas ele começou a vomitar logo depois do amanhecer.

- Deveria ter me chamado imediatamente - eu disse. - Bem, não importa. Traga-me água quente, folhas de framboesa e chame o irmão Polydore, o mais rápido possível. - Saiu assegurando-me de que iria providenciar um desjejum para mim também, mas descartei a oferta com um gesto da mão, enquanto pegava a jarra de água.

Em seguida, mergulhei a mão infeccionada em água recém-fervida, o mais quente que seria possível agüentar sem queimar a pele. Não dispondo de remédios à base de sulfa ou dos modernos antibióticos, o calor era a única arma contra infecção bacteriana. O corpo do paciente estava fazendo o melhor possível para fornecer este calor por meio da febre alta, mas a febre em si colocava um grave problema, desgastando os músculos e danificando as células cerebrais. O truque era aplicar bastante calor local para destruir a infecção, enquanto mantinha o resto do corpo suficientemente frio para evitar danos e suficientemente hidratado para manter as funções normais. Um maldito ato de equilíbrio de três vértices, pensei desoladamente.

Nem o estado de espírito de Jamie nem seu desconforto físico eram mais relevantes. Era uma luta direta para mantê-lo vivo até que a infecção e a febre fossem debeladas; nada mais importava.

Na tarde do segundo dia, ele começou a delirar. Nós o amarramos à cama com tiras macias para evitar que se arremessasse ao chão. Finalmente, como uma medida desesperada para reduzir a febre, pedi a um dos irmãos que me trouxesse lá de fora um grande cesto de neve, que arrumamos ao seu redor. Isso resultou em violentos tremores que o deixaram exaurido, mas que logo fez sua temperatura abaixar.

Infelizmente, o tratamento tinha que ser repetido de hora em hora. Ao pôr-do-sol, o quarto parecia um pântano, com poças de neve derretida pelo chão, pilhas de panos encharcados amontoados entre elas e vapores como os de gás de pântano erguendo-se do braseiro no canto. O irmão Polydore e eu mesma estávamos encharcados também, de suor, enregelados de água da neve e à beira da exaustão, apesar da ajuda de Anselmo e dos irmãos laicos. Antitérmicos como margarida-amarela, hidraste, gatária e hissopo haviam sido experimentados, sem resultado. O chá de casca de salgueiro, que poderia ajudar com seu componente de ácido salicílico, não podia ser consumido em quantidades suficientes para produzir o efeito desejado.

Em um de seus intervalos de lucidez cada vez mais raros, Jamie pediu-me para deixá-lo morrer. Respondi concisamente, como na noite anterior, continuando com o que estava fazendo:

- De jeito nenhum.

Quando o sol se pôs, ouviu-se o ruído de homens aproximando-se pelo corredor. A porta abriu-se e o abade, o tio Alex de Jamie, entrou, acompanhado do irmão Anselmo e de três outros monges, um deles carregando uma pequena caixa de cedro. O abade aproximou-se de mim e abençoou-me rapidamente, em seguida tomou minha mão nas suas.

- Nós vamos ungir o rapaz - disse, a voz grave e gentil. - Não tenha medo.

Virou-se para a cama e olhei desesperada e transtornada para Anselmo, em busca de uma explicação.

- A extrema-unção - explicou, aproximando-se de modo que sua voz baixa não perturbasse os monges reunidos em volta da cama. - Os últimos sacramentos.

- Extrema-unção! Mas é para pessoas que estão à morte!

- Sssh. - Afastou-me da cama. - Deveria ser chamado mais adequadamente de unção do doente, embora na verdade geralmente seja reservada para os que correm risco de vida. — Os monges haviam girado Jamie delicadamente de costas, acomodando-o cuidadosamente para que pudesse ficar deitado naquela posição com o mínimo de dor nos ombros feridos.

- O sacramento tem um duplo propósito — Anselmo continuou, murmurando em meu ouvido conforme os preparativos continuavam. — Primeiro, é um sacramento de cura; rezamos para que a saúde do sofredor seja restaurada, se este for o desejo de Deus para ele. A crisma, o óleo consagrado, é usada como um símbolo de vida e de cura.

- E o segundo propósito? — perguntei, já sabendo a resposta. Anselmo confirmou, balançando a cabeça.

- Se não for a vontade de Deus que ele se recupere, então ele é absolvido de seus pecados e nós o encomendamos a Deus, para que sua alma parta em paz. — Ele percebeu que eu me retesava em protesto e colocou a mão em meu braço, em sinal de advertência.

- Estas são as últimas cerimônias da Igreja. Ele tem direito a elas e toda paz que possam lhe trazer.

Os preparativos foram concluídos. Jamie continuava de costas, um lençol cobrindo recatadamente seus quadris, com velas acesas à cabeceira e ao pé da cama, que me faziam lembrar de forma extremamente desagradável de velas de defunto. O abade Alexander sentou-se ao lado da cama, acompanhado por um monge que segurava uma bandeja com um cibório coberto, dois pequenos frascos de prata contendo água benta e óleo perfumado, e uma toalha branca dobrada sobre cada braço. Como um maldito garçom de vinhos, pensei com raiva. O procedimento todo me enervava.

Os ritos foram conduzidos em latim, os versículos cantados pelo celebrante eram murmúrios suaves e tranqüilizadores aos ouvidos, embora eu não entendesse o significado. Anselmo murmurava em voz baixa para mim o significado de algumas partes da cerimônia; outras eram auto-explicativas. Em determinado momento, o abade fez um sinal a Polydore, que deu um passo à frente e segurou um pequeno frasco sob o nariz de Jamie.

Devia conter uma solução de amônia ou algum outro estimulante, porque ele fez um movimento brusco e virou a cabeça, os olhos ainda fechados.

— Por que estão tentando acordá-lo? — sussurrei.

- Se possível, a pessoa deve estar consciente a fim de concordar com a declaração de que ele se arrepende dos pecados que cometeu em sua vida. Além disso, se for capaz de recebê-lo, o abade lhe dará o sacramento da Eucaristia.

O abade tocou de leve o rosto de Jamie, virando sua cabeça para o frasco, falando-lhe em voz baixa. Deixara de lado do latim e falava no forte sotaque escocês de sua família, suavemente.

- Jamie! Jamie, meu rapaz! É Alex, rapaz. Estou aqui com você. Precisa acordar um pouco agora, apenas por um instante. Vou lhe dar a absolvição agora e depois a hóstia sagrada. Tome um pequeno gole agora, para que possa me responder quando for necessário. - O monge de nome Polydore segurou a caneca junto aos lábios de Jamie, cuidadosamente entornando umas gotas de cada vez, até que a língua e a garganta ressecadas pudessem aceitar mais. Seus olhos estavam abertos, ainda pesados de febre, mas agora suficientemente alertas.

O abade continuou, as perguntas em inglês, mas tão baixas que eu mal conseguia compreendê-las. "Renuncia ao diabo e a todos os seus atos?", "Acredita na Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo?" e assim por diante. A cada uma, Jamie respondia "Sim", num murmúrio rouco.

Uma vez consagrado o sacramento, Jamie relaxou com um suspiro, fechando os olhos mais uma vez. Eu podia ver suas costelas conforme o peito saltado movia-se com a respiração. Ele havia se consumido terrivelmente com a doença e a febre. O abade, pegando os frascos de água benta e de óleo sagrado, um de cada vez, fez o sinal-da-cruz sobre seu corpo, ungindo a testa, os lábios, o nariz, as orelhas e as pálpebras. Em seguida, ele fez o sinal-da-cruz com o óleo sagrado na cavidade do peito sobre o coração, na palma de cada um das mãos e no arco de cada pé. Ergueu a mão ferida com infinito cuidado, passando o óleo de leve sobre os ferimentos e recolocando-a sobre o peito de Jamie. Onde descansou sobre o talho lívi-do da cicatriz da faca.

A unção foi rápida e extremamente delicada, um toque de pena com o polegar rápido do abade. "Magia supersticiosa", dizia o lado racional do meu cérebro, mas estava profundamente emocionada pelo amor visível nos rostos dos monges enquanto rezavam. Os olhos de Jamie abriram-se mais uma vez, mas estavam muito calmos e seu rosto estava em paz pela primeira vez desde que deixáramos Lallybroch.

A cerimônia foi encerrada com uma curta prece em latim. Colocando a mão na cabeça de Jamie, o abade disse em inglês:

— Senhor, em Vossas mãos encomendamos a alma de Vosso servo, James. Curai-o, rogamos, se esta for a Vossa vontade, e fortalecei sua alma, para que ele seja pleno de graça e conheça a Vossa paz por toda a eternidade.

- Amém - responderam os outros monges. E eu também.

À noite, o paciente havia caído num estado de semiconsciência outra vez. À medida que as forças de Jamie se exauriam, tudo que podíamos fazer era acordá-lo para os goles dágua que o mantinham vivo. Seus lábios estavam rachados e descascados, de modo que não conseguia falar, embora ainda abrisse os olhos embaciados quando sacudido com firmeza. Já não nos reconhecia; seus olhos fitavam o vazio, depois gradualmente se fechavam enquanto ele virava a cabeça, gemendo.

Permaneci junto ao seu leito, olhando-o, tão exausta com os rigores do dia que não sentia nada além de um desespero entorpecido. O irmão Polydore tocou-me devagar, tirando-me do meu torpor.

- Não pode fazer nada mais por ele agora - disse, afastando-me dali com firmeza. — Tem que ir descansar.

- Mas - comecei a dizer, depois parei. Ele tinha razão, concluí. Havíamos feito tudo que era possível. Ou a febre cedia por si mesma dentro de pouco tempo ou Jamie morreria. Nem mesmo um corpo extremamente forte podia agüentar a devastação consumidora da febre alta por mais de um ou dois dias e restavam poucas forças a Jamie para sustentá-lo durante esta provação.

- Eu ficarei com ele - disse Polydore. - Vá para sua cama. Eu a chamarei se... — Não terminou a frase, mas fez sinal delicadamente para que eu seguisse na direção de meu próprio quarto.

Fiquei deitada, insone, na minha cama, fitando a viga do teto. Meus olhos estavam secos e febris, minha garganta doía, como se estivesse com febre também. Seria esta a resposta à minha prece, de que morrêssemos juntos ali?

Finalmente, levantei-me e peguei a jarra e a bacia da mesa junto à porta. Coloquei a pesada bacia de louça no centro do quarto, no chão, e enchi-a cuidadosamente, deixando a água transbordar e se transformar numa bolha trepidante.

Eu passara rapidamente pelo herbanário do irmão Ambrose antes de ir para o meu quarto. Desfiz os pequenos pacotes de ervas e espalhei o conteúdo no meu braseiro, onde as folhas de mirra exalavam uma fumaça aro-mática e nacos de cânfora queimavam em pequenas chamas azuis entre a incandescência vermelha dos pedaços de carvão.

Coloquei a vela atrás da superfície refletora da água, tomei posição à sua frente e preparei-me para evocar um fantasma.

O corredor de pedras estava frio e escuro, iluminado a intervalos pela luz fraca de lamparinas de óleo penduradas do teto. Minha sombra alongava-se à minha frente, sob os meus pés, quando passava embaixo de cada uma delas, estendendo-se até parecer mergulhar de cabeça e desaparecer na escuridão adiante.

Apesar do frio, eu estava descalça e usando apenas uma camisola de algodão rústico branco. Um pequeno invólucro de calor movia-se comigo por baixo da camisola, mas o frio das pedras subia pelos meus pés e pernas.

Bati uma vez, de leve, e abri a porta pesada sem esperar resposta.

O irmão Roger estava com ele, sentado ao lado da cama, rezando o terço com a cabeça baixa. O rosário de madeira chocalhou quando ele ergueu a cabeça, mas seus lábios continuaram a se mover silenciosamente por alguns segundos, terminando a ave-maria antes de reagir à minha presença.

Veio ao meu encontro junto à porta, falando em voz baixa, embora fosse óbvio que ele podia gritar que não iria perturbar a figura imóvel sobre a cama.

- Nenhuma alteração. Acabo de trocar a água do banho da mão. -Algumas gotas brilhavam nas laterais da pequena chaleira cheia outra vez e recolocada sobre o braseiro.

Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e coloquei a mão em seu braço em agradecimento. Era surpreendentemente sólido e cálido depois das fantasias da última hora e, de certa forma, reconfortante.

— Gostaria de ficar sozinha com ele, se não se importar.

- Claro. Vou para a capela. Ou deveria ficar por perto caso... - sua voz definhou, hesitante.

— Não - tentei sorrir de maneira tranqüilizadora. - Vá para a capela. Ou melhor ainda, vá para a cama. Eu não consigo dormir; ficarei aqui até o amanhecer. Se precisar de ajuda, mandarei chamá-lo.

Ainda em dúvida, virou-se para olhar para a cama. Mas era muito tarde e ele estava cansado; havia olheiras sob seus meigos olhos castanhos.

A pesada porta rangeu nas dobradiças e eu fiquei sozinha com Jamie. Sozinha e com medo, e com muita, muita dúvida em relação ao que eu pretendia fazer.

Parei ao pé da cama, observando-o por um instante. O quarto estava fracamente iluminado pelo braseiro e dois círios, cada um com cerca de um metro de altura, sobre a mesa em um canto do aposento. Ele estava despido e a luz minguada parecia acentuar as cavidades deixadas pela febre debilitante. A contusão multicor sobre suas costelas manchava a pele como um fungo que se propagava.

Um homem à beira da morte adquire uma tonalidade levemente esverdeada. No começo, apenas um pouco no maxilar, essa palidez vai se espalhando gradualmente pelo rosto e descendo para o peito, conforme a força da vida começa a se esvair. Já a vira inúmeras vezes. Bem poucas vezes, eu vira esse avanço mortal parar e reverter, a pele ficar rosada de sangue outra vez e o sujeito viver. Mais freqüentemente, porém... sacudi-me vigorosamente e me afastei da cama.

Tirei a mão das dobras da minha camisola e coloquei sobre a mesa os objetos que eu reunira na visita clandestina que fizera à oficina às escuras do irmão Ambrose. Um frasco de amônia. Um pacote de lavanda seca. Outro de valeriana. Um pequeno queimador de incenso de metal, no formato de uma flor aberta. Duas pelotas de ópio, de cheiro adocicado e pegajosas de resina. E uma faca.

O quarto estava fechado e abafado com a fumaça do braseiro. A única janela estava coberta com uma tapeçaria pesada, retratando a execução de São Sebastião. Olhei para o rosto do santo, voltado para cima, o peito cravado de flechas, perguntando-me uma vez mais o que levaria uma pessoa a escolher aquela decoração em particular para o quarto de um doente.

Apesar da maneira indiferente como fora colocada ali, a pesada tapeçaria de lã e seda barrava todas as correntes de ar, a não ser as muito fortes. Levantei sua parte inferior e sacudi-a, fazendo a fumaça do carvão sair pelo arco de pedra. O ar úmido e frio que entrou era revigorante e acalmou um pouco minhas têmporas que começaram a latejar quando eu fitava o espelho de água, recordando-me.

Ouvi um fraco gemido atrás de mim e Jamie remexeu-se na corrente de ar. Ótimo. Portanto, não estava profundamente inconsciente.

Deixando a tapeçaria voltar à sua posição na janela, peguei o queimador de incenso. Fixei uma das pelotas de ópio no pino do queimador e acendi-o com uma vela fina usada para acender as velas maiores nos castiçais. Coloquei-o na mesinha-de-cabeceira de Jamie, tomando cuidado para eu mesma não inalar os vapores enjoativos.

Não havia muito tempo. Precisava terminar meus preparativos rapidamente, antes que a fumaça do ópio o deixasse drogado demais para despertar.

Desatei o laço da frente da minha camisola e esfreguei rapidamente grandes porções da lavanda e da valeriana no meu corpo. Era um cheiro picante, agradável, peculiar e carregado de lembranças. Um aroma que, para mim, invocava a sombra do homem que usava este perfume e a sombra do homem atrás dele; sombras que traziam de volta imagens confusas de terror atual e amor perdido. Um aroma que, para Jamie, devia trazer de volta as horas de dor e raiva passadas em meio a suas ondas. Esfreguei o resto vigorosamente entre as palmas das mãos e espalhei os pequenos fragmentos pelo chão.

Inspirando profundamente para reunir coragem, peguei o frasco de amônia. Fiquei parada junto à cama por um instante, segurando-o, olhando para o rosto macilento, a barba espetada. No máximo, duraria mais um dia; no mínimo, apenas mais algumas horas.

- Muito bem, seu maldito escocês filho-da-mãe - eu disse baixinho. — Vamos ver até onde vai sua teimosia. — Levantei a mão machucada, escorrendo água, e coloquei de lado a vasilha onde estava mergulhada.

Abri o frasco e passei-o bem junto ao seu nariz. Ele resfolegou e tentou desviar a cabeça, mas não abriu os olhos. Enfiei os dedos nos cabelos na parte de trás de sua cabeça para impedir que desviasse o rosto e levei o frasco de novo ao seu nariz. Ele sacudiu a cabeça devagar, balançando-a de um lado para o outro como um boi acordado de seu repouso. Seus olhos abriram apenas uma estreita fenda.

- Ainda não acabei, Fraser - sussurrei em seu ouvido, tentando da melhor forma possível reproduzir o ritmo das consoantes reduzidas do modo de falar de Randall.

Jamie gemeu e encolheu-se. Agarrei-o pelos ombros e sacudi-o vigorosamente. Sua pele estava tão quente que quase o soltei.

- Acorde, escocês filho-da-mãe! Ainda não acabei com você! - Ele começou a lutar para apoiar-se nos cotovelos, num lamentável esforço de obediência que quase partiu meu coração. Sua cabeça ainda balançava para a frente e para trás e os lábios rachados murmuravam alguma coisa que soava como "por favor, agora não", incessantemente.

Sem forças, rolou para o lado e caiu de rosto no travesseiro outra vez. O quarto começava a se encher de fumaça de ópio e me senti ligeiramente tonta.

Cerrei os dentes e enfiei a mão entre suas nádegas, agarrando uma parte redonda. Ele gritou, um grito agudo e sem ar, e rolou dolorosamente de lado, curvando-se numa bola com as mãos juntas entre as pernas.

Eu passara a última hora em meu quarto, pairando acima do reflexo na água, evocando lembranças. De Black Jack Randall e de Frank, seu descendente. Homens tão diferentes, mas com semelhanças físicas tão surpreendentes.

Dilacerava meu coração pensar em Frank, lembrar de seu rosto e de sua voz, seus maneirismos, seu modo de fazer amor. Eu tentara apagá-lo de minha lembrança, quando fiz minha escolha no círculo de pedras, mas ele estava sempre lá, uma sombra nos recessos de minha mente.

Sentia-me nauseada por tê-lo traído, mas por fim forçara minha mente a livrar-se dele como Geilie me ensinara, concentrando-me na chama da vela, respirando a adstringência das ervas, acalmando-me até conseguir trazê-los da escuridão, ver as linhas de seu rosto, sentir outra vez o toque de sua mão sem chorar.

Havia um outro homem nas sombras, com as mesmas mãos, o mesmo rosto. Os olhos iluminados pela chama da vela, eu o trouxera para a luz também, ouvindo, observando, vendo a semelhança e as diferenças, construindo - o quê? Um simulacro, uma persona, uma impressão, uma pantomima. Um rosto sombreado, uma voz sussurrada e um toque amoroso que eu pudesse usar para enganar uma mente levada pelo delírio. E finalmente eu deixara meu quarto, com uma prece pela alma da bruxa Geillis Duncan.

Jamie estava deitado de costas agora, contorcendo-se levemente com a dor de seus ferimentos. Seus olhos estavam fixos e arregalados, sem nenhum sinal de reconhecimento.

Acariciei-o da maneira que tão bem conhecia, delineando a linha de suas costelas do esterno até as costas, de leve, como Frank teria feito, pressionando com força sobre a mancha dolorida, como tinha certeza que o outro faria. Inclinei-me e passei a língua devagar em volta de sua orelha, lambendo e sondando, e sussurrei:

- Lute contra mim! Revide, seu desgraçado!

Seus músculos retesaram-se e seu maxilar trincou-se, mas ele continuou olhando fixamente para o teto. Então, eu não tinha escolha. Teria que usar a faca. Eu sabia o risco que estava correndo, mas era melhor que eu mesma o matasse, pensei, do que ficar sentada ao seu lado, deixando-o morrer.

Peguei a faca que estava em cima da mesa e passei-a com firmeza de um lado ao outro de seu peito, ao longo da cicatriz recém-fechada. Ele arquejou com o choque e arqueou as costas. Pegando uma toalha, esfreguei-a asperamente no ferimento. Antes que eu pudesse fraquejar, forcei-me a correr os dedos pelo seu peito, lambuzando-os no sangue, que passei em seus lábios. Havia uma frase que eu não tive que inventar, tendo eu mesma ouvido dos seus lábios. Inclinando-me sobre ele, murmurei:

- Agora, beije-me.

Eu não estava absolutamente preparada para o que sobreveio. Ele me lançou do outro lado do quarto ao sair da cama. Cambaleei e caí contra a mesa, fazendo os círios oscilarem. As sombras correram e balançaram-se quando os pavios flamejaram e apagaram-se.

Eu havia batido as costas com força contra a borda da mesa, mas recuperei-me a tempo de me esquivar quando ele se arremessou sobre mim. Com um rosnado desarticulado, veio ao meu encalço, as mãos estendidas.

Ele era mais rápido e mais forte do que eu esperara, embora cambaleasse atabalhoadamente, batendo nos móveis. Encurralou-me por um instante entre o braseiro e a mesa e pude ouvir sua respiração arranhando sua garganta enquanto tentava me agarrar. Arremessou a mão esquerda sobre meu rosto; se suas forças e reflexos estivessem normais, o golpe teria me matado. Ao invés disso, dei um salto para o lado e seu punho cerrado raspou minha testa, derrubando-me no chão, atordoada.

Engatinhei para baixo da mesa. Tentando me alcançar, ele perdeu o equilíbrio e caiu sobre o braseiro. Brasas incandescentes espalharam-se pelo chão de pedra. Ele uivou quando seu joelho triturou pesadamente um pedaço de carvão em brasa. Peguei um travesseiro da cama e bati até apagar um punhado de fagulhas chamejantes que caíra sobre a coberta de cama que se arrastava pelo chão. Preocupada com isso, não notei sua aproximação, até que um golpe em cheio na minha cabeça me estatelou no chão.

O catre virou quando tentei me erguer, apoiando-me em sua estrutura com uma das mãos. Fiquei abrigada embaixo dele por um instante, tentando recuperar os sentidos. Podia ouvir Jamie caçando-me na penumbra, a respiração áspera e arquejante entre imprecações incoerentes em gaélico. De repente, avistou-me e atirou-se sobre a cama, os olhos enlouquecidos à luz turva.

É difícil descrever detalhadamente o que aconteceu em seguida, principalmente porque aconteceu várias vezes e todas as vezes se sobrepõem em minha lembrança. Parece que as mãos ardentes de Jamie fecharam-se em meu pescoço apenas uma vez, mas essa única vez continuou indefinidamente. Na realidade, aconteceu inúmeras vezes. Toda vez eu conseguia livrar-me de suas mãos e empurrá-lo, recuava novamente, esquivando-me e agachando-me em volta da mobília destruída. E de novo ele vinha em meu encalço, um homem arrancado das garras da morte pela fúria, praguejando e soluçando, cambaleando e chocando-se violentamente contra tudo à sua volta.

Privadas da proteção do braseiro, as brasas apagaram-se rapidamente, deixando o aposento negro como breu e povoado de demônios. Nos últimos estertores de luz, eu o vi agachado contra a parede, com uma juba de fogo e coberto de sangue, o pênis rígido contra os pêlos de sua barriga, os olhos azuis vidrados com um brilho assassino no rosto lívido e encovado. Um viking furioso. Como os demônios nórdicos que irromperam de seus navios ornados de carrancas de dragões na névoa da antiga costa escocesa, para matar, saquear e incendiar. Homens que matariam ainda que estivessem no fim de suas forças. Que usariam estas últimas forças para estuprar e semear sua violenta semente nos ventres dos conquistados. O minúsculo queimador de incenso não emitia nenhuma luz, mas o enjoativo cheiro de ópio entupia meus pulmões. Embora as brasas estivessem extintas, eu via luzes na escuridão, luzes coloridas que flutuavam nos cantos da minha visão.

Estava cada vez mais difícil me mover; parecia que estava tentando atravessar o mar e era perseguida por um peixe monstruoso. Erguia meus joelhos bem alto, correndo em câmara lenta, sentindo a água respingar no meu rosto.

Sacudi a cabeça, tentando livrar-me do pesadelo, e percebi que na realidade havia algo úmido em meu rosto e nas mãos. Não lágrimas, mas o sangue e o suor da criatura do pesadelo com quem me atraquei no escuro.

Suor. Havia algo de que eu devia me lembrar a respeito de suor, mas não conseguia. A mão do monstro agarrou meu braço, eu me desvencilhei e ela deixou uma película escorregadia na minha pele.

Girando e girando, a caça e o caçador. Mas havia algo errado, eu era a caça, perseguida por um animal de dentes brancos e afiados que se cravaram no meu antebraço. Golpeei-o e ele me soltou, mas as garras... girando e girando...

O demônio me imprensou contra a parede; podia sentir pedra atrás de minha cabeça e pedra embaixo dos meus dedos que tentavam se agarrar a ela. E um corpo duro como pedra pressionando-se com força contra o meu, o joelho pontudo entre os meus, pedra e osso, entre minhas próprias... pernas, mais rigidez de pedra... ah. Uma suavidade entre as dificuldades da vida, um frescor agradável em meio ao calor, conforto em meio à desgraça...

Caímos entrelaçados no chão, rolando sem parar, enredados nas dobras da tapeçaria que despencara, banhados nas correntes de ar frio que entravam pela janela. As névoas da loucura começaram a recuar.

Batemos contra alguma peça do mobiliário e ambos permanecemos imóveis. As mãos de Jamie estavam agarradas aos meus seios, os dedos dolorosamente cravados na carne. Senti gotas caindo no meu rosto, de suor ou lágrimas, eu não sabia, mas abri os olhos para ver. Jamie me olhava, o rosto impenetrável à luz da lua, os olhos arregalados, desfocados. Suas mãos relaxaram. Um dos dedos traçou o contorno do meu seio delicadamente, da curva ao mamilo, incessantemente. Sua mão moveu-se e segurou meu seio por inteiro, os dedos abertos como uma estrela-do-mar, macia como a mão de uma criança que está sendo amamentada.

- M-mamãe? - ele disse. Os cabelos da minha nuca eriçaram-se. Era a voz aguda, límpida, de um menino. - Mamãe?

O ar frio nos banhou, levando a fumaça doentia num redemoinho de flocos de neve. Estendi o braço e coloquei a palma da minha mão em sua face fria.

- Jamie, meu amor - eu disse, sussurrando através da garganta dolorida. - Venha, deite sua cabeça aqui, rapazinho. - A máscara estremeceu e desmoronou e eu abracei o corpo imenso com força contra o meu, nós dois tremendo com a força dos seus soluços.

Para nossa grande sorte, foi o inabalável irmão William quem nos achou pela manhã. Acordei zonza com o ruído da porta se abrindo e despertei inteiramente quando o ouvi pigarrear enfaticamente antes de dizer, com seu suave sotaque de Yorkshire:

- Bom dia para vocês.

O pesado fardo sobre mim era o corpo de Jamie. Seu cabelo secara em mechas de bronze e caía em caracóis sobre meus seios como as pétalas de um crisântemo chinês. A face pressionada contra meu esterno estava quente e ligeiramente pegajosa de suor, mas as costas e os braços que eu podia tocar estavam tão frios quanto minhas coxas, resfriados pelo ar de inverno que soprava sobre nós.

A luz do dia que penetrava pela janela sem cortina revelava toda a extensão da destruição que eu apenas percebera indistintamente na noite anterior; móveis e louças quebrados entulhavam o quarto e as duas velas maciças estavam atiradas ao chão como troncos caídos em meio a uma confusão de cortinas rasgadas e roupas de cama espalhadas. Pelo padrão das marcas dolorosamente impressas nas minhas costas, eu devia estar deitada sobre a tapeçaria de São Sebastião, a almofada de alfinetes humana; não era uma grande perda para o mosteiro.

O irmão William ficou parado, imóvel, na soleira da porta, jarra e bacia na mão. Com grande precisão, fixou os olhos na sobrancelha esquerda de Jamie e perguntou:

- E como se sente nesta manhã?

Houve uma pausa um tanto longa, durante a qual Jamie, com grande consideração, permaneceu onde estava, cobrindo a maior parte do meu corpo. Finalmente, no tom rouco de alguém ao qual fora concedida uma revelação, ele respondeu:

- Com fome.

- Ah, que bom - disse o irmão William, ainda fitando intensamente a sobrancelha. - Vou dizer ao irmão Josef. — A porta fechou-se silenciosamente atrás dele.

- Obrigada por não se mexer — observei. — Não gostaria que fôssemos responsáveis por dar pensamentos impuros ao irmão William.

Densos olhos azuis fitaram-me de cima.

- Ah, bem - disse criteriosamente. - Uma visão do meu traseiro não vai corromper os votos sagrados de ninguém; não nas condições atuais. Já o seu... - Parou para limpar a garganta.

- O que tem o meu? - perguntei.

A cabeça ruiva abaixou-se devagar para plantar um beijo em meu ombro.

- O seu colocaria um bispo em perigo.

- Mmmmhum. - Eu mesma, pensei, estava ficando boa em sons escoceses. - Seja como for, é melhor se mover agora. Acho que nem mesmo o tato do irmão William é infinito.

Jamie deitou a cabeça ao lado da minha com cuidado, em uma dobra da tapeçaria, de onde me olhou de viés.

- Não sei quanto da noite passada eu sonhei e quanto foi real. - Sua mão inconscientemente deslizou sobre o arranhão que atravessava seu peito. — Mas se metade do que acho que aconteceu tiver realmente acontecido, eu devia estar morto agora.

- Não está. Eu verifiquei. — Com alguma hesitação, perguntei: — Você desejaria estar?

Ele sorriu devagar, os olhos semicerrados:

- Não, Sassenach.

Seu rosto estava macilento e sombrio da doença e do cansaço, mas estava em paz, as linhas em volta da boca haviam desaparecido e seus olhos azuis estavam límpidos.

- Mas estou bem perto disso, queira ou não. A única razão para eu achar que não estou morrendo agora é porque estou com fome. Não estaria faminto se estivesse prestes a morrer, não acha? Parece um desperdício. — Um dos olhos fechou-se totalmente, mas o outro permaneceu semi-aberto, fixo em meu rosto com uma expressão cômica.

- Não consegue se levantar?

Ele pensou cuidadosamente na pergunta.

- Se minha vida dependesse disso, eu talvez conseguisse erguer a cabeça outra vez. Mas levantar-me? Não.

Com um suspiro, esgueirei-me de baixo dele e ajeitei a cama antes de tentar alavancá-lo para a posição vertical. Ele conseguiu ficar em pé apenas alguns segundos antes de seus olhos se revirarem para trás e ele cair atravessado na cama. Tateei freneticamente em seu pescoço para achar a pulsação e a encontrei, lenta e forte, logo abaixo da cicatriz de três pontas na base de sua garganta. Pura exaustão. Após um mês aprisionado e uma semana de intenso estresse físico e mental, fome, ferimentos, doença e febre alta, até mesmo aquela compleição vigorosa havia finalmente chegado ao fim de suas forças.

- O coração de um leão — eu disse, sacudindo a cabeça - e a cabeça de um boi. Pena que não tenha também o couro de um rinoceronte. — Toquei um vergão em seu ombro que se abrira e começara a sangrar de novo.

Ele abriu um olho.

- O que é um rinoceronte?

- Pensei que estivesse inconsciente!

- Estava. Estou. Minha cabeça está girando como um pião. Cobri-o com um cobertor.

- O que você precisa agora é de comida e descanso.

- O que você precisa agora - ele disse - é de roupas. - E fechando os olhos outra vez, adormeceu imediatamente.




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