A viajante do tempo



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PARTE VII

SANTUÁRIO


35 - PRISÃO DE WENTWORTH
Sir Fletcher Gordon era um homem baixo e corpulento, cujo colete de seda listrada caía-lhe como uma segunda pele. De ombros curvos e barriga saliente, parecia um grande pernil sentado na cadeira de espaldar oval do governador.

A cabeça careca e o rosado intenso de sua compleição não ajudavam a desfazer essa impressão, embora poucos pernis pudessem ostentar olhos azuis tão brilhantes. Ele virou o maço de papéis sobre sua escrivaninha com o dedo indicador, lenta e deliberadamente.

- Sim, aqui está - disse, após uma pausa interminável para ler uma página. - Fraser, James. Culpado de assassinato. Condenado à forca. Agora, onde está a Autorização de Execução? - Fez nova pausa, remexendo os papéis como um míope. Enfiei os dedos com força no cetim da minha pequena bolsa, esforçando-me para manter uma expressão impenetrável.

- Ah, sim. Data de execução, 23 de dezembro. Sim, ainda o temos. Engoli em seco, relaxando as mãos que agarravam a bolsa, dividida entre exultação e pânico. Então, ele ainda estava vivo. Por mais dois dias. E estava perto, em algum lugar no mesmo prédio que eu. O conhecimento desse fato alvoroçou o sangue em minhas veias com uma descarga de adrenalina e minhas mãos tremeram.

Sentei-me mais para a frente na cadeira de visitas, tentando parecer comoventemente suplicante.

- Posso vê-lo, sir Fletcher? Só um instante, no caso de ele... ele querer mandar uma mensagem à sua família?

Disfarçada de uma amiga inglesa da família Fraser, achara razoavelmente fácil ser admitida em Wentworth e ao gabinete de sir Fletcher, governador civil da prisão. Era perigoso pedir para ver Jamie; sem a minha história de cobertura, ele poderia muito facilmente descobrir quem eu realmente era se eu aparecesse de repente, sem aviso. Na verdade, eu mesma poderia me entregar; não tinha certeza, em absoluto, que poderia manter meu precário autocontrole se o visse. Mas o próximo passo era evidentemente descobrir onde ele estava; naquele enorme e superpovoado viveiro de coelhos, as chances de encontrá-lo sem saber para onde se dirigir eram praticamente nulas.

Sir Fletcher franziu o cenho, pensando. Obviamente, ele considerava um aborrecimento este pedido de uma mera conhecida da família, mas não era um homem insensível. Finalmente, sacudiu a cabeça com relutância.

- Não, minha querida. Não, receio que realmente não possa permitir isso. Estamos superlotados no momento e não temos instalações adequadas para permitir entrevistas particulares. E o homem no momento está — consultou sua pilha de papéis outra vez - em uma das celas grandes na ala oeste, com diversos outros criminosos condenados. Seria extremamente perigoso para a senhora visitá-lo lá, ou simplesmente visitá-lo. O homem é um prisioneiro perigoso, sabe; estou vendo aqui que nós o estamos mantendo acorrentado desde que chegou.

Agarrei minha bolsa outra vez; desta vez, para não agredi-lo. Sacudiu a cabeça outra vez, o peito gordo subindo e descendo com sua respiração laboriosa.

- Não, se fosse um membro da família dele, talvez... - Ergueu os olhos, piscando. Cerrei o maxilar com força, determinada a não deixar transparecer nada em minhas feições. Sem dúvida, uma leve demonstração de agitação seria razoável, nas circunstâncias.

- Mas talvez, minha querida... - Pareceu atingido por uma súbita inspiração. Levantou-se com dificuldade e dirigiu-se a uma porta interna, onde um soldado uniformizado montava guarda. Murmurou alguma coisa para o sujeito, que balançou a cabeça uma única vez e desapareceu.

Sir Fletcher retornou à sua escrivaninha, parando no meio do caminho para retirar uma jarra de vinho e copos da parte de cima de um armário. Aceitei sua oferta de clarete; estava mesmo precisando.

Estávamos no meio do segundo copo quando o guarda retornou. Entrou sem bater, colocou uma caixa de madeira sobre a escrivaninha, junto ao cotovelo de sir Fletcher, e virou-se para sair marchando outra vez. Percebi seu olhar demorando-se em mim e recatadamente abaixei os olhos. Estava usando um vestido emprestado de uma conhecida de Rupert na cidade vizinha e, pelo perfume que saturava o vestido e pela bolsinha de seda combinando com ele, eu fazia uma boa idéia de qual era a profissão daquela senhora em particular. Esperava que o guarda não reconhecesse o vestido.

Esvaziando seu copo, sir Fletcher colocou-o sobre a escrivaninha e puxou a caixa para si. Era uma caixa simples e quadrada de madeira rústica, com uma tampa de correr. Havia letras escritas a giz na tampa. Eu podia lê-las, mesmo de cabeça para baixo. FRAYSER, diziam.

Sir Fletcher deslizou a tampa, espreitou dentro da caixa por um instante, em seguida fechou-a e empurrou-a na minha direção.

- Os objetos pessoais do prisioneiro - explicou. — Normalmente, nós a enviamos para quem o prisioneiro designar como o parente mais próximo, após a execução. Este homem, entretanto — sacudiu a cabeça -, recusou-se a dizer qualquer coisa sobre sua família. Algum desafeto, sem dúvida. Não é incomum, é claro, mas lamentável, nas circunstâncias.

Hesito em fazer o pedido, sra. Beauchamp, mas achei que talvez, já que conhece a família, poderia se encarregar de entregar os pertences dele à pessoa adequada?

Não me considerei em condições de falar, mas concordei com um aceno da cabeça e enterrei o nariz no copo de clarete.

Sir Fletcher pareceu aliviado, por conseguir livrar-se da caixa ou à idéia da minha partida iminente. Recostou-se em sua cadeira, chiando levemente ao respirar, e sorriu abertamente para mim.

- É muita bondade sua, sra. Beauchamp. Sei que isso só pode ser um dever doloroso para uma jovem sensível e agradeço muito a sua bondade em aceitá-lo, asseguro-lhe.

- N-não há de quê — balbuciei. Consegui levantar-me e pegar a caixa. Media aproximadamente vinte por quinze centímetros, com dez ou doze de altura. Uma caixa pequena, leve, para conter os pertences da vida de um homem.

Eu sabia o que ela continha. Três linhas de pescar, cuidadosamente enroladas; uma cortiça com anzóis presos; um pedaço de sílex e um de metal; um caco de vidro, as bordas desgastadas pelo uso; diversas pedras pequenas que pareciam interessantes ou proporcionavam uma boa sensação entre os dedos; um pé seco de toupeira, carregado como um amuleto contra reumatismo. Uma Bíblia — ou talvez o tivessem deixado ficar com ela? Esperava que sim. Um anel de rubi, se não tivesse sido roubado. E uma pequena cobra de madeira, esculpida em cerejeira, com o nome SAWNY gravado na parte de baixo.

Parei junto à porta, agarrando-me ao batente para me firmar.

Sir Fletcher, que me acompanhava educadamente até a porta, numa fração de segundo estava ao meu lado.

- Sra. Beauchamp! Está se sentindo tonta, minha querida? Guarda, uma cadeira!

Podia sentir o suor frio aflorando nos lados do meu rosto, mas consegui sorrir e fazer um aceno descartando a necessidade de uma cadeira. O que eu mais queria era sair dali — precisava de ar fresco, em grandes quantidades. E precisava ficar sozinha para chorar.

- Não, estou perfeitamente bem - disse, tentando parecer convincente. - É que... está um pouco abafado aqui, eu acho. Não se preocupe, vou ficar bem. Meu cavalariço está me aguardando lá fora, de qualquer modo.

Forçando-me a ficar empertigada e a sorrir, tive uma idéia. Talvez não ajudasse, mas não faria mal tentar.

- Ah, sir Fletcher...

Ainda preocupado com minha aparência, era todo cavalheirismo e atenções.

- Sim, minha querida?

- Ocorreu-me... Como é triste para um homem nesta situação estar alienado de sua família. Achei que talvez... se ele quisesse escrever para eles... uma carta de reconciliação, talvez? Eu teria prazer em entregá-la a sua mãe.

- Você é a consideração em pessoa, minha querida. — Sir Fletcher mostrava-se alegre, agora que ficou claro que, afinal de contas, eu não iria desmaiar em seu tapete. — É claro. Vou mandar perguntar. Onde está hospedada, minha querida? Se houver uma carta, eu a enviarei à senhora.

- Bem - eu estava me saindo melhor com um sorriso, embora ele parecesse petrificado em meu rosto. - Isso é meio incerto no momento. Tenho vários parentes e amigos na cidade, com quem receio terei que alternar minha estada, para ninguém ficar ofendido, entende? - Consegui esboçar um sorriso.

- Assim, se isso não for perturbá-lo demais, será que meu cavalariço poderia vir perguntar sobre a carta?

- Claro, claro. Excelente idéia, minha querida! Excelente!

E com um olhar rápido de volta à sua jarra de vinho, segurou meu braço para me escoltar até o portão.

- Está melhor, dona? - Rupert empurrou para trás a cortina dos meus cabelos para espreitar meu rosto. - Está parecendo uma barriga de porco mal-conservada. Tome, é melhor beber mais um gole.

Sacudi a cabeça ao frasco de uísque oferecido e sentei-me, tirando o trapo molhado que ele colocara sobre meu rosto.

- Não, estou bem agora. - Escoltada por Murtagh, que se disfarçara de meu cavalariço, mal esperei ficar fora da vista da prisão para deslizar de cima do meu cavalo e vomitar na neve. Permaneci ali, chorando, com a caixa de Jamie agarrada ao peito, até Murtagh me obrigar a me recompor fisicamente e montar, conduzindo-me em seguida a uma pequena hospedaria na cidade de Wentworth onde Rupert encontrara alojamentos. Estávamos num quarto no andar de cima, de onde o vulto do edifício da prisão mal era visível na penumbra cada vez mais fechada.

- Então o rapaz está morto? - O rosto largo de Rupert, parcialmente oculto pela barba, era grave e compassivo, sem nenhum traço do seu habitual ar fanfarrão.

Sacudi a cabeça e respirei fundo.

- Ainda não.

Depois de ouvir minha história, Rupert ficou andando devagar pelo quarto, cerrando e descerrando os lábios, enquanto pensava. Murtagh permanecia sentado, imóvel, como de costume, sem nenhum sinal de agitação nas feições. Ele daria um excelente jogador de pôquer, pensei.

Rupert voltou, deixando-se afundar na cama ao meu lado com um suspiro.

- Bem, ele ainda está vivo e isso é o que importa. Mas não faço a menor idéia do que devemos fazer em seguida. Não temos como entrar no lugar.

- Sim, temos - Murtagh disse, subitamente. - Graças à idéia da moça sobre a carta.

- Mmmmhum. Mas apenas um homem. E apenas até o gabinete do governador. Mas já é um começo. - Rupert tirou sua adaga e coçou a espessa barba com a ponta, distraidamente. - É um lugar desgraçadamente grande para procurar.

- Sei onde ele está — eu disse, sentindo-me melhor com o planejamento e com a constatação de que meus companheiros não estavam desistindo, por mais impraticável que nossa operação pudesse parecer. - Ao menos sei em que ala ele está.

- Sabe, então? Humm. - Recolocou a adaga na bainha e retomou suas passadas pelo quarto, parando para perguntar: — Quanto dinheiro tem, dona?

Remexi no bolso do meu vestido. Eu tinha a sacola de Dougal, o dinheiro que Jenny me obrigara a aceitar e meu colar de pérolas. Rupert rejeitou as pérolas, mas pegou a sacola, despejando uma fileira de moedas na palma da mão espaçosa.

- Será o suficiente - disse, fazendo-as retinir experimentalmente na mão. Virou-se para os gêmeos Coulter.

- Vocês dois e Willie venham comigo. John e Murtagh podem permanecer aqui com a moça.

- Aonde vão? - perguntei.

Guardou as moedas na bolsa em sua cintura, conservando uma, que atirou pensativamente no ar.

- Ah — exclamou vagamente. - Acontece que há uma outra estalagem, no outro lado da cidade. Os guardas da prisão vão lá quando estão de folga, porque é mais perto e a bebida é um centavo mais barata. — Lançou a moeda no ar para tirar cara ou coroa e, virando a mão, pegou-a entre dois nós dos dedos.

Observei-o, com uma idéia cada vez mais clara de suas intenções.

- É mesmo? - eu disse. - Por acaso eles também jogam cartas lá?

- Eu não sei, dona, não sei - respondeu. Atirou a moeda no ar mais uma vez e bateu as duas mãos, pegando-a, depois abriu as mãos, para mostrar as palmas vazias. Sorriu, os dentes brancos na barba negra.

- Mas temos que ir ver, não é? - Estalou os dedos e a moeda apareceu outra vez entre eles.

Pouco depois de uma hora da tarde seguinte, passei novamente por baixo do portão corrediço e provido de estacas afiadas que guardava a entrada de Wentworth desde a sua construção no final do século XVI. Tinha perdido muito pouco do seu aspecto ameaçador nos duzentos anos seguintes e eu toquei a adaga no meu bolso para ganhar coragem.

Sir Fletcher devia estar agora absorvido em sua refeição do meio do dia, segundo as informações que Rupert e seus assistentes espiões haviam extraído dos guardas da prisão durante sua incursão à noite passada. Chegaram cambaleando, os olhos vermelhos e cheirando a cerveja, pouco antes do raiar do dia. Tudo que Rupert conseguiu dizer em resposta às minhas perguntas foi: "Ah, dona, para ganhar basta ter sorte. Mas para perder, é preciso habilidade!" Depois, enroscou-se no canto e foi dormir profundamente, deixando-me frustrada, andando de um lado para o outro no quarto, como fizera a noite inteira.

No entanto, acordou uma hora depois, com os olhos e a mente claros, e explicou os rudimentos do plano que eu estava prestes a pôr em execução.

- Sir Fletcher não permite que ninguém ou nada perturbe suas refeições - disse. — Qualquer um que queira falar com ele tem que ficar esperando até ele acabar sua comida e bebida. E depois da refeição do meio-dia, tem o hábito de se retirar para seus aposentos para uma soneca.

Murtagh, disfarçado de meu cavalariço, chegara quinze minutos antes e fora admitido sem dificuldade. Provavelmente, seria conduzido ao gabinete de Fletcher e solicitado a esperar. Enquanto estivesse lá, deveria dar uma busca no escritório, primeiro para encontrar uma planta da ala oeste e, depois, uma possibilidade remota, para encontrar as chaves que pudessem abrir as celas.

Demorei-me um pouco, olhando para o céu para avaliar as condições do tempo. Se eu chegasse antes de Fletcher sentar-se para almoçar, poderia ser convidada a juntar-me a ele para o almoço, o que seria altamente inconveniente. Mas os parceiros de jogos de Rupert entre os guardas asseguraram-lhe que os hábitos do governador eram imutáveis; o sino para anunciar o almoço era tocado pontualmente à uma hora e a sopa servida cinco minutos depois.

O guarda de serviço na entrada era o mesmo do dia anterior. Pareceu surpreso, mas cumprimentou-me educadamente.

— Tão constrangedor — eu disse —, mandei meu cavalariço trazer um pequeno presente para sir Fletcher, como agradecimento pela sua gentileza comigo ontem. Mas descobri que o tolo veio sem ele e assim fui obrigada a segui-lo com o presente eu mesma, na esperança de alcançá-lo. Ele já chegou? - Mostrei o pequeno embrulho que trouxera e sorri, pensando que ajudaria se eu tivesse covinhas. Como não tinha, me contentei com uma brilhante exibição de dentes.

Pareceu o suficiente. Fui admitida e conduzida pelos corredores da prisão em direção ao gabinete do governador. Embora esta parte do castelo fosse decentemente mobiliada, não havia como negar que se tratava de uma prisão. Havia um cheiro característico no lugar, que eu imaginava ser o cheiro do medo e da infelicidade, embora provavelmente não passasse do fedor de imundícies antigas e ausência de canos de esgoto.

O guarda deixou que eu o precedesse pelo corredor, seguindo-me discretamente com cuidado para não pisar no meu manto. E isso foi ótimo, porque virei o corredor em direção ao gabinete de Fletcher alguns passos à sua frente, bem a tempo de ver Murtagh pela porta aberta, arrastando a figura desacordada do guarda do gabinete para trás da enorme escrivaninha.

Dei um passo para trás e deixei cair o pacote no chão de pedra. Ouviu-se um barulho de vidro estilhaçado e o ar encheu-se do aroma asfixiante de conhaque de pêssego.

- Ah, meu Deus — exclamei —, o que foi que eu fiz?

Enquanto o guarda chamava um criado para limpar a sujeira, diplomaticamente murmurei alguma coisa sobre aguardar por sir Fletcher em seu escritório particular, deslizei para dentro e apressadamente fechei a porta atrás de mim.

- Que diabos você fez? - perguntei rispidamente a Murtagh. Ergueu os olhos do corpo que ele vasculhava, indiferente ao tom da minha voz.

- Sir Fletcher não guarda chaves em seu gabinete — informou-me em voz baixa -, mas este sujeitinho aqui tem um molho. - Retirou a enorme argola do casaco do guarda, com cuidado para que as chaves não retinissem.

Caí de joelhos atrás dele.

- Ah, bom serviço! - exclamei. Olhei para o soldado prostrado; ao menos, ainda respirava. - E quanto à planta da prisão?

Ele sacudiu a cabeça.

- Também não, mas meu amigo aqui me contou alguma coisa enquanto esperávamos. As celas dos condenados ficam neste mesmo andar, na metade do corredor oeste. Mas há três celas e não pude perguntar mais do que isso. Ele já estava ficando desconfiado.

- É o suficiente, espero. Tudo bem, me dê as chaves e saia.

- Eu? É você quem deve sair, dona, e agora mesmo. - Lançou um olhar para a porta, mas não se ouvia nenhum ruído do outro lado.

- Não, tem que ser eu — disse, estendendo as mãos para as chaves outra vez. - Ouça - insisti, com impaciência. - Se o encontram perambulando pela prisão com um molho de chaves, e o guarda aqui inerte como um peixe, estamos os dois perdidos. Como vamos explicar o fato de eu não ter gritado pedindo ajuda? — Arranquei as chaves da mão dele e enfiei-as no bolso, com alguma dificuldade.

Murtagh ainda parecia cético, mas pusera-se de pé.

- E se você for apanhada?

- Eu desmaio - disse rispidamente. - E quando acordar, finalmente, direi que eu o vi aparentemente matando o guarda e saí correndo apavorada, sem a menor idéia para onde estava indo. Me perdi buscando ajuda.

Ele assentiu devagar.

- Sim, está bem. - Dirigiu-se para a porta, depois parou.

- Mas por que eu... ah. - Atravessou a sala rapidamente até a escrivaninha e abriu uma gaveta atrás da outra, remexendo o conteúdo com uma das mãos e atirando objetos no chão com a outra.

- Roubo — explicou, voltando para a porta. Abriu uma fresta e espreitou o corredor.

- Se é roubo, não deveria levar alguma coisa? — sugeri, olhando à volta, em busca de alguma coisa pequena e fácil de ser levada. Peguei uma pequena caixa de rapé esmaltada. — Isto, talvez?

Fez um gesto impaciente para mim para que a recolocasse no lugar, ainda espreitando pela pequena abertura.

- Não, dona! Se for encontrado com algum objeto de sir Fletcher, é crime para enforcamento. Tentativa de roubo é apenas açoite ou mutilação.

- Ah. - Devolvi a caixa apressadamente ao seu lugar e posicionei-me atrás dele, espreitando por cima de seu ombro. O corredor parecia vazio.

- Eu vou primeiro — disse. — Se eu encontrar alguém, os atrairei para fora daqui. Conte até trinta, depois vá. Nós a encontraremos na pequena floresta ao norte. - Abriu a porta, em seguida parou e voltou.

- Se for apanhada, lembre-se de jogar as chaves fora. - Antes que eu pudesse falar, ele passou pela porta como uma enguia e desceu o corredor, movendo-se silenciosamente como uma sombra.

Pareceu uma eternidade até encontrar a ala oeste, esgueirando-me pelos corredores do velho castelo, espreitando pelos cantos e escondendo-me atrás de colunas. Mas vi apenas um guarda no caminho e consegui evitá-lo recuando até um canto, comprimindo-me contra a parede com o coração disparado até ele passar.

No entanto, quando encontrei a ala oeste, não tive dúvidas de que estava no lugar certo. Havia três portas grandes no corredor, cada qual com uma minúscula janela com barras de ferro, pela qual eu não conseguia mais do que um frustrante vislumbre da cela.

- Sem pensar dirigi-me à cela do meio. As chaves na argola não estavam identificadas, mas tinham tamanhos diferentes. Obviamente, apenas uma das três maiores serviria na fechadura à minha frente. Naturalmente, era a terceira. Respirei fundo quando ouvi o clique da fechadura, depois limpei o suor das mãos na saia e abri a porta.

Procurei freneticamente entre a massa fétida de homens na cela, tropeçando em pés e pernas estendidas, empurrando corpos pesados que se deslocavam do meu caminho com uma indolência enlouquecedora. A agitação ocasionada pela minha entrada repentina espalhou-se; os que estavam dormindo em meio à imundície no chão começaram a se sentar, acordados pelo ondulante murmúrio de espanto. Alguns estavam algemados às paredes; as correntes rangiam e chocalhavam na semi-escuridão conforme se moviam. Agarrei um dos homens de pé, um escocês de barba castanha num tartã esfarrapado, verde e amarelo. Os ossos do seu braço sob minha mão estavam assustadoramente junto à pele; os ingleses não desperdiçavam nenhuma sobra de comida com seus prisioneiros.

- James Fraser! Um homem grande, ruivo! Ele está nesta cela? Onde ele está?

Ele já se deslocava para a porta com os outros que não estavam acorrentados, mas parou por um instante para me fitar. Os prisioneiros agora haviam percebido o que se passava e atravessavam a porta aberta num fluxo arrastado, espreitando e murmurando uns com os outros.

- Quem? Fraser? Ah, eles o levaram hoje de manhã. - O homem deu de ombros e empurrou minhas mãos, tentando livrar-se de mim.

Segurei-o pelo cinto com tal força que o fiz parar onde estava.

- Para onde o levaram? Quem o levou?

- Não sei para onde; foi o capitão Randall que o levou, um monstro mal-encarado, é o que ele é. — Com um safanão impaciente, livrou-se de mim e dirigiu-se para a porta com passos determinados por um propósito há muito acalentado.

Randall. Fiquei parada, perplexa, por um instante, empurrada pelos homens em fuga, surda aos gritos dos acorrentados. Finalmente, consegui sair do meu estupor e tentei pensar. Geordie observara o castelo desde o amanhecer. Ninguém deixara o castelo de manhã, a não ser um pequeno grupo da cozinha que saíra em busca de suprimentos. Portanto ainda estavam ali, em algum lugar.

Randall era um capitão; provavelmente não havia ninguém com mais autoridade na guarnição de uma prisão, a não ser o próprio Fletcher. Assim, Randall certamente poderia usar as dependências do castelo de modo a criar para si um local onde pudesse torturar um prisioneiro como bem lhe aprouvesse.

E sem dúvida tratava-se de tortura. Ainda que fosse terminar em enforcamento, o homem que eu vira em Fort William era um felino por natureza. Ele não resistiria a brincar com aquele camundongo em particular, tão certo como dois e dois são quatro.

Respirei fundo, afastando da mente com determinação qualquer pensamento do que poderia ter acontecido desde a manhã e corri para a porta eu mesma, esbarrando violentamente em um soldado inglês que entrava apressado. O sujeito cambaleou para trás e tentou manter o equilíbrio com vários passinhos em ziguezague. Eu mesma perdi o equilíbrio e me choquei com o batente da porta, ficando com o lado esquerdo dormente e batendo a cabeça. Agarrei-me ao batente da porta para me apoiar, o tilintar de sinos repicando nos meus ouvidos com ecos das palavras de Rupert: Se tiver um momento de surpresa, dona, use-o!

Era difícil dizer, pensei atordoada, quem estava mais surpreso. Tateei desvairadamente pelo bolso onde estava a adaga, amaldiçoando minha estupidez por não ter entrado na cela já armada.

O soldado inglês, uma vez recuperado o equilíbrio, fitava-me espantado com a boca aberta, mas pude sentir que meu momento de surpresa já escapara de minhas mãos. Abandonando o bolso fugidio, inclinei-me e arranquei a adaga da minha meia em um movimento que continuou para cima com toda a força que pude arregimentar. A ponta da faca atingiu o soldado bem embaixo do queixo enquanto ele levava a mão à cintura. Suas mãos ergueram-se a meio caminho da garganta, depois, com um olhar de surpresa, cambaleou para trás até a parede e deslizou por ela em câmara lenta, conforme a vida esvaía-se de seu corpo. Como eu, ele fora investigar sem se dar ao trabalho de sacar a arma primeiro e esse pequeno descuido custara-lhe a vida. A graça de Deus salvara-me deste erro; não podia cometer mais nenhum. Sentindo muito frio, passei por cima do corpo que se contorcia, tendo o cuidado de não olhar.

Retornei correndo pelo caminho por onde viera, até a curva junto às escadas. Havia um lugar ali junto à parede de onde eu não poderia ser vista de nenhum dos lados. Apoiei-me na parede e me permiti um momento de náusea e tremor.

Limpando as mãos suadas na saia, tirei a adaga do bolso. Agora, era minha única arma; não tive nem tempo nem estômago para recuperar a faca que levava na meia. Talvez fosse melhor assim, pensei, esfregando os dedos no corpete; houve bem pouco sangue e encolhi-me diante da idéia do jato que se seguiria se eu tivesse retirado a faca.

Com a adaga firmemente segura na mão, espreitei cautelosamente o corredor. Os prisioneiros que inadvertidamente libertara haviam ido para a esquerda. Não tinha a menor idéia do que pretendiam fazer, mas certamente iriam manter os guardas ocupados. Sem nenhum motivo para preferir uma direção em relação a outra para a minha busca, fazia sentido me afastar de qualquer tumulto que estivessem causando.

A luz que penetrava pela fenda da alta janela caía enviesada sobre mim; portanto, aquele era o lado oeste do castelo. Eu tinha que manter minha orientação enquanto me deslocava, já que Rupert estaria esperando por mim perto do portão sul.

Escadas. Forcei minha mente entorpecida a pensar, tentando raciocinar onde deveria ficar o local que estava procurando. Se você quisesse torturar alguém, provavelmente iria querer privacidade e isolamento de som. Ambas as considerações apontavam para uma masmorra isolada como o lugar mais provável. E as masmorras em castelos como aquele em geral ficam no subsolo, onde toneladas de terra abafavam qualquer grito e a escuridão escondia todas as crueldades dos olhos dos responsáveis.

A parede arredondava-se numa curva no final do corredor; eu alcançara uma das quatro torres do castelo - e as torres tinham escadas.

A escada em espiral abria-se em outra curva, os degraus triangulares mergulhavam em lances que davam vertigens e enganavam os olhos, fazendo torcer os tornozelos. O mergulho da luz relativa do corredor para a escuridão do poço das escadas tornava ainda mais difícil avaliar a distância de um degrau para o outro e escorreguei várias vezes, esfolando os nós dos dedos e arranhando as palmas das mãos nas paredes de pedra quando tentava me equilibrar.

A escadaria proporcionava uma vantagem. De uma janela estreita que impedia que o vão das escadas ficasse em total escuridão, eu podia ver o pátio principal. Ao menos, eu agora podia me orientar. Um pequeno grupo de soldados estava alinhado em perfeitas fileiras vermelhas para inspeção, mas não, aparentemente, para testemunhar a execução sumária de um rebelde escocês. Havia um cadafalso no pátio, negro e assustador, mas desocupado. A visão do cadafalso foi como um soco no estômago. Amanhã de manhã. Desci as escadas ruidosamente, indiferente aos cotovelos arranhados e aos dedos dos pés machucados.

Alcançando o pé das escadas com um farfalhar de saias, parei para ouvir. Um silêncio mortal em toda a volta, mas pelo menos aquela parte do castelo estava sendo usada; havia tochas nos candelabros de parede, transformando os blocos de pedra em poças vermelhas e bruxuleantes, cada qual dissolvendo-se na escuridão antes que a poça da tocha seguinte se filtrasse em luz outra vez. A fumaça desprendida pelas tochas pairava em redemoinhos cinzas ao longo do teto abobadado do corredor.

Havia um único caminho a tomar a partir dali. Eu o segui, a adaga pronta na mão. Era estranho caminhar silenciosamente pelo corredor. Eu já vira outras masmorras, como turista, visitando castelos históricos com Frank. Mas nessas ocasiões os sólidos blocos de granito estavam despidos do seu ar ameaçador pela luz ofuscante de tubos fluorescentes presos aos arcos do teto. Lembrei-me de ter me esquivado dos aposentos pequenos e úmidos, ainda naquela época, depois de já estarem desativados há mais de cem anos. Vendo os remanescentes de métodos antigos e horripilantes, as portas grossas e as algemas enferrujadas nas paredes, pude, pensei, imaginar os tormentos dos que foram mantidos prisioneiros naquelas celas assustadoras.

Eu teria rido agora da minha ingenuidade. Havia coisas, como Dougal dissera, que a imaginação simplesmente não podia alcançar.

Passei na ponta dos pés por portas de sete centímetros de espessura, trancadas com pesados ferrolhos; eram grossas o suficiente para abafar qualquer som que viesse lá de dentro. Agachando-me junto ao chão, procurei uma fresta de luz debaixo de cada porta. Os prisioneiros eram deixados para apodrecerem na escuridão, mas Randall iria precisar ver o que estava fazendo. O chão era pegajoso e encardido, coberto com uma grossa camada de poeira. Tudo indicava que aquela parte da prisão não estava em uso atualmente. Mas as tochas indicavam que alguém estava ali.

A quarta porta no corredor mostrava a luz que eu procurava. Parei para ouvir, ajoelhando-me no chão com o ouvido de encontro à fenda, mas não ouvi nada além de fogo crepitando.

A porta não estava trancada. Abri uma pequena fresta e espreitei cautelosamente para dentro. Jamie estava lá, sentado no chão, encostado na parede, curvado sobre si mesmo com a cabeça entre os joelhos. Estava sozinho.

A cela era pequena, mas bem iluminada, com um braseiro que de certa forma dava ao lugar um ar aconchegante e onde queimava um fogo vivo. Para uma masmorra, era notavelmente confortável; as lajes de pedra do assoalho estavam bastante limpas e havia um pequeno catre encostado a uma das paredes. O aposento ainda estava mobiliado com duas cadeiras e uma mesa, abarrotada de inúmeros objetos, inclusive uma grande jarra de metal e copos de chifre. Era uma visão surpreendente, depois de ter visto ratos correndo de um lado para o outro e paredes úmidas de infiltrações. Ocorreu-me que talvez os oficiais da guarnição tivessem mobiliado aquele lugar quente e agradável como um refúgio onde pudessem receber as companhias femininas que conseguissem convencer a visitá-los dentro da prisão; obviamente, tinha a vantagem da privacidade que os alojamentos não ofereciam.

- Jamie! — chamei baixinho. Ele não levantou a cabeça nem me respondeu e senti um calafrio de medo. Parando apenas o tempo suficiente para fechar a porta atrás de mim, atravessei o aposento rapidamente até ele e toquei em seu ombro.

- Jamie!

Ele ergueu os olhos; seu rosto estava lívido, barbado e brilhante com uma fina camada de suor frio que ensopara seus cabelos e sua camisa. O aposento cheirava a vômito e medo.

- Claire! - exclamou, falando com voz rouca entre os lábios rachados e secos. — Como você... tem que sair daqui agora mesmo. Ele vai voltar logo.

- Não seja ridículo. - Avaliei a situação o mais rápido possível, na esperança de que a concentração na tarefa mais urgente diminuísse a sensação de estrangulamento me ajudasse a desfazer a enorme bola de gelo na boca do meu estômago.

Ele estava acorrentado à parede pelo tornozelo, mas fora isso não estava algemado ou amarrado. Mas um pedaço de corda entre a miscelânea de objetos sobre a mesa obviamente fora usado; havia marcas em seus pulsos e cotovelos.

Eu estava intrigada com seu estado físico. Estava obviamente em estado de choque e cada contorno do seu corpo bradava de dor, mas eu não conseguia ver nenhum dano aparente. Não havia sangue ou qualquer ferimento visível. Caí de joelhos e comecei a experimentar metodicamente as chaves da minha argola no aro em tomo de seu tornozelo.

- O que ele fez com você? - perguntei, mantendo a voz baixa por medo da volta de Randall.

Jamie oscilava ali sentado, os olhos fechados, o suor aflorando em centenas de minúsculas pérolas em sua pele. Ele obviamente estava prestes a desmaiar, mas abriu os olhos por um instante ao ouvir minha voz. Movendo-se com extremo cuidado, usou a mão esquerda para erguer o objeto que segurava no colo. Era sua mão direita, quase irreconhecível como um apêndice humano. Grotescamente inchada, agora era apenas uma bolsa inflada, manchada de vermelho e roxo, os dedos balançando-se em estranhos ângulos. Um fragmento branco de osso projetava-se da pele rasgada do dedo médio e um fio de sangue tingia os nós dos dedos, inchados e disformes.

A mão humana é uma delicada maravilha de engenharia, um sistema intricado de articulações e roldanas, servido e controlado por uma rede de milhões de minúsculos nervos extremamente sensíveis ao toque. Um único dedo quebrado é suficiente para fazer um homem forte arriar de joelhos com uma dor tão forte a ponto de provocar náusea.

- Pagamento - Jamie disse - pelo seu nariz. Com juros. - Fitei aquela visão por um instante, depois disse numa voz que não reconhecia como minha:

- Vou matá-lo por isso.

A boca de Jamie retorceu-se ligeiramente enquanto um lampejo de humor forçou-se na máscara de dor e tontura.

- Eu segurarei seu manto, Sassenach — murmurou. Seus olhos fecharam-se outra vez e seu corpo sucumbiu contra a parede, incapaz de continuar seu protesto contra a minha presença.

Voltei a trabalhar na fechadura do tornozelo, contente de ver que minhas mãos já não tremiam. O medo desaparecera, substituído por uma ira gloriosa.

Eu experimentara todas as chaves da argola duas vezes e não conseguira encontrar nenhuma que abrisse a fechadura. Minhas mãos estavam ficando suadas e as chaves escorregavam pelos meus dedos como peixinhos quando comecei a experimentar as mais prováveis outra vez. Minhas imprecações murmuradas entre dentes acordaram Jamie de seu estupor e ele inclinou-se lentamente para trás para ver o que eu estava fazendo.

- Não precisa encontrar uma chave que gire na fechadura — ele disse, apoiando um ombro contra a parede para manter-se ereto.- Se uma entrar até o fim da haste, você pode fazer o fecho saltar com uma boa pancada na argola da chave.

- Você já viu este tipo de fechadura antes? - Eu queria mantê-lo acordado e falando; ele iria ter que andar se conseguíssemos sair dali.

- Já estive preso a uma. Quando me trouxeram para cá, acorrentaram-me numa cela grande com muitos outros prisioneiros. Um rapaz chamado Reilly estava acorrentado ao meu lado; um irlandês. Disse que já havia estado na maioria das prisões da Irlanda e resolvera tentar a Escócia para mudar de cenário. - Jamie esforçava-se para conversar; percebia tão bem quanto eu que precisava despertar. Conseguiu esboçar um sorriso fraco. - Me contou muita coisa sobre trancas, fechaduras, esse tipo de coisas. Mostrou-me como podíamos quebrar as que estávamos usando, se tivéssemos um pedaço reto de metal, o que não tínhamos.

- Conte-me. - O esforço para falar estava fazendo com que ele suasse copiosamente, mas parecia mais alerta. Concentrar-se no problema da fechadura parecia ajudar.

Seguindo suas instruções, encontrei uma chave apropriada e enfiei-a completamente na fechadura. Segundo Reilly, uma pancada forte sobre a chave forçava a outra extremidade com força contra as engrenagens, soltando-as. Olhei à minha volta, procurando um objeto adequado para bater.

- Use a marreta que está em cima da mesa, Sassenach — Jamie disse. Percebendo um tom sinistro em sua voz, olhei do seu rosto para a mesa, onde havia uma marreta de tamanho médio, de madeira, com o cabo enrolado em barbante alcatroado.

- Foi isso que... - comecei, horrorizada.

- Sim. Prenda o aro contra a parede antes de bater.

Segurando o cabo cuidadosamente, peguei a marreta. Era difícil conseguir posicionar o aro de ferro corretamente, de modo que um dos lados ficasse contra a parede, já que isso exigia que Jamie cruzasse a perna acorrentada por baixo da outra e pressionasse o joelho contra a parede mais distante dele.

As duas primeiras pancadas que desferi foram tímidas e fracas demais. Reunindo toda a determinação que conseguia, desfechei um golpe na ponta arredondada da chave com toda força. A marreta escorregou da chave e atingiu Jamie de raspão, mas com bastante força no tornozelo. Recuando, ele perdeu seu precário equilíbrio e caiu, instintivamente estendendo a mão direita para se apoiar. Emitiu um gemido sobrenatural quando seu braço direito dobrou-se em baixo do corpo e seu ombro bateu no chão.

- Ah, droga - exclamei, cansada. Jamie desmaiara, não que eu pudesse censurá-lo. Aproveitando sua momentânea imobilidade, virei seu tornozelo de modo que o aro ficasse bem firme e bati tenazmente na chave enfiada na fechadura, sem aparentemente nenhum resultado. Eu estava remoendo pensamentos sombrios sobre serralheiros irlandeses, quando a porta atrás de mim abriu-se subitamente de par em par.

O rosto de Randall, como o de Frank, raramente demonstrava o que ele estava pensando, apresentando, ao invés disso, uma fachada impassível e inescrutável. No momento, entretanto a serenidade habitual do capitão o abandonara e ele ficou parado na soleira da porta, com o queixo caído e uma expressão no rosto não muito diferente do homem que o acompanhava. Um homem muito grande, num uniforme manchado e esfarrapado, seu assistente tinha a testa inclinada sobre os olhos, o nariz achatado e os lábios proeminentes e flácidos, características de alguns tipos de retardamento mental. Sua expressão não se alterou enquanto olhava por cima dos ombros de Randall, não demonstrando nenhum interesse em particular nem em mim, nem no homem inconsciente no chão.

Recobrando-se, Randall entrou no aposento e inspecionou o aro de metal em torno do tornozelo de Jamie.

— Pelo que estou vendo, andou danificando propriedade da Coroa, minha jovem. Isso é crime passível de prisão por lei, como você sabe. Sem falar na tentativa de ajudar um prisioneiro perigoso a escapar. — Havia uma centelha de divertimento em seus olhos cinza-pálidos. - Teremos que arranjar alguma coisa adequada a você. Enquanto isso... - Com um puxão, obrigou-me a levantar. Puxou meus braços para trás, amarrando meus pulsos com a corda.

Lutar era obviamente inútil, mas pisei nos seus dedos do pé com toda a força, simplesmente para dar vazão a um pouco da minha frustração.

— Aaai! — Virou-se e deu-me um empurrão, de modo que minhas pernas bateram na cama e eu caí, parcialmente deitada no cobertor áspero. Randall inspecionou-me com uma soturna satisfação, esfregando a ponta arranhada de sua bota com um lenço de linho. Fitei- o com ódio e ele soltou uma risadinha.

- Você não é nenhuma covarde, tenho que admitir. Na verdade, você combina bem com ele — com um gesto da cabeça, indicou Jamie, que começava a se remexer um pouco - e não posso lhe fazer um elogio melhor do que este. - Apalpou cuidadosamente a garganta, onde se via uma mancha escura pelo colarinho aberto. - Ele tentou me matar, com uma das mãos, quando eu o desamarrei. Aliás, quase conseguiu. Pena que eu não tenha percebido que ele é canhoto.

- Uma atitude despropositada da parte dele - retorqui.

- Sem dúvida - disse Randall, balançando a cabeça. — Não creio que você vá ser tão descortês, não é? Mesmo assim, por via das dúvidas... -Voltou-se para o enorme criado, que estava simplesmente parado na soleira da porta, os ombros arriados, aguardando ordens.

- Marley — disse Randall. - Venha aqui e dê uma busca nesta mulher para ver se encontra alguma arma. - Observou com um ar divertido, enquanto o sujeito tateava desajeitadamente pela minha pessoa, finalmente encontrando e retirando minha adaga.

- Não gosta do Marley? - perguntou o capitão, observando-me enquanto eu tentava me esquivar dos dedos grossos que me apalpavam com intimidade demais. - É uma pena. Tenho certeza de que ele está muito interessado em você.

- O pobre Marley não tem muita sorte com as mulheres - continuou o capitão, um brilho malicioso nos olhos. - Não é, Marley? Nem as prostitutas o querem. - Fitou-me com um olhar significativo e um sorriso malévolo. - Grande demais, é o que dizem. — Ergueu uma das sobrancelhas. — O que é uma opinião interessante, vinda de uma puta, não é? — Ergueu a outra sobrancelha, deixando bem claro o que pretendia dizer.

Marley, que começara a arfar ruidosamente durante a busca, parou e limpou um fio de saliva do canto da boca. Afastei-me o máximo que pude, enojada.

Randall, observando-me, acrescentou:

- Imagino que Marley iria gostar de diverti-la em particular em seu alojamento, quando tivermos terminado nossa conversa. Claro, mais tarde talvez ele resolva compartilhar sua sorte com os amigos, mas isso é ele quem decide.

- Ah, não quer assistir? - perguntei com sarcasmo. Randall riu, genuinamente se divertindo.

- Posso ter o que chamam de "gostos depravados", como imagino que já saiba a esta altura. Mas, por favor, me dê algum crédito por princípios estéticos. - Lançou um olhar ao imenso ordenança, desengonçado em suas roupas imundas, a barriga caindo por cima do cinto. Os lábios flácidos e protuberantes mastigavam e balbuciavam constantemente, como se buscassem algum fragmento de comida, e os dedos grossos e curtos remexiam-se nervosamente na virilha das calças manchadas. Randall estremeceu delicadamente.

- Não - disse. - Você é uma mulher adorável, apesar da língua ferina. Vê-la com Marley... não, acho que não quero ver isso. Além da aparência, os hábitos pessoais de Marley deixam muito a desejar.

- Os seus também - eu disse.

- Pode ser. De qualquer forma, não terá que se preocupar com eles por muito tempo. - Parou, olhando-me desdenhosamente. - Eu ainda gostaria de saber quem você é, sabe. Uma jacobita, é óbvio, mas de quem? Dos Marischal? Dos Seaforth? Provavelmente dos Lovat, já que está com os Fraser. - Randall cutucou Jamie delicadamente com a ponta bem lustrada da bota, mas ele continuou inerte. Eu podia ver seu peito erguendo-se e abaixando-se com regularidade; talvez ele tivesse simplesmente saído do estado de inconsciência e adormecido. As olheiras sob seus olhos evidenciavam que ele não tivera muito descanso ultimamente.

- Até ouvi dizer que você é uma bruxa — continuou o capitão. Seu tom de voz era descontraído, mas obervava-me atentamente, como se eu pudesse de repente transformar-me numa coruja e sair voando. - Houve um certo tumulto em Cranesmuir, não foi? Algo a ver com uma morte? Mas sem dúvida tudo isso não passa de superstições tolas.

Randall olhou-me especulativamente.

- Talvez possa me convencer a fazer um acordo com você - disse, repentinamente. Inclinou-se para trás, parcialmente sentado em cima da mesa, desafiando-me.

Ri amargamente.

- Não posso dizer que esteja em condições ou com disposição de barganhar no momento. O que pode me oferecer?

Randall olhou para Marley. Os olhos do idiota estavam fixos em mim e ele balbuciava baixinho.

- Uma escolha, ao menos. Conte-me, e me convença, de quem você é e quem a mandou para a Escócia. O que está fazendo e que informações mandou para quem. Diga-me isso e eu a levarei a sir Fletcher, ao invés de entregá-la a Marley.

Mantive os olhos firmemente desviados de Marley. Eu vira os cacos podres de dentes embutidos em gengivas pustulentas e a simples idéia de ele me beijar, quanto mais... sufoquei o pensamento. Randall tinha razão; eu não era covarde. Mas também não era boba.

- Você não pode me levar a Fletcher — eu disse —, e eu sei disso tão bem quanto você. Levar-me a ele e arriscar-se a que eu lhe conte sobre isso? - Meu gesto com a cabeça abrangeu o quartinho escondido, o fogo aconchegante, a cama onde eu estava sentada e Jamie deitado aos meus pés. - Quaisquer que sejam seus defeitos, não imagino que sir Fletcher fosse aturar, oficialmente, que seus oficiais torturassem prisioneiros. Até mesmo o exército inglês tem que ter alguns padrões de conduta.

Randall ergueu as duas sobrancelhas.

- Tortura? Ah, isso. - Acenou negligentemente indicando a mão de Jamie. — Um acidente. Caiu em sua cela e foi pisoteado pelos outros prisioneiros. As celas estão superlotadas, sabe. - Sorriu desdenhosamente.

Permaneci em silêncio. Embora Fletcher pudesse ou não acreditar que os danos à mão de Jamie tivessem sido causados por acidente, era bastante improvável que ele acreditasse em qualquer coisa que eu dissesse, uma vez desmascarada como espiã inglesa.

Randall me observava, os olhos alertas a qualquer sinal de fraqueza.

- E então? A escolha é sua.

Suspirei e fechei os olhos, cansada de olhar para ele. A escolha não era minha, mas dificilmente eu poderia dizer a ele a razão.

- Não importa - eu disse, cansada. - Não posso lhe contar nada.

- Pense um pouco no assunto. - Levantou-se e passou cuidadosamente por cima do corpo inerte de Jamie, tirando uma chave do bolso. - Posso precisar da ajuda de Marley por um instante, mas depois eu o mandarei de volta para o seu alojamento, e você com ele, se não quiser cooperar. - Inclinou-se, abriu a argola no tornozelo de Jamie e levantou o corpo inconsciente com uma impressionante exibição de força para alguém de constituição tão delgada. Os músculos de seus antebraços sobressaíram-se por baixo do tecido fino da camisa imaculadamente branca ao carregar Jamie, a cabeça pendente, até um banco no canto do quarto. Indicou o balde próximo com um movimento da cabeça.

- Acorde-o - ordenou secamente ao silencioso brutamontes. A água fria bateu na parede de pedra do canto do quarto e espalhou-se no chão, formando uma poça suja. - Outra vez - Randall comandou, inspecionando Jamie, que gemia baixinho, a cabeça movendo-se contra as pedras da parede. Encolheu-se e tossiu sob a segunda enxurrada.

Randall deu um passo à frente e pegou Jamie pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás, sacudindo-a como um animal afogado, de modo que gotas de água fétida salpicaram as paredes. Os olhos de Jamie eram apenas dois traços embaciados. Randall atirou a cabeça de Jamie para trás com repugnância, limpando a mão na lateral da calça ao se virar. Seus olhos devem ter percebido a tremulação de um movimento, porque ele começou a se voltar para Jamie outra vez, mas não a tempo de se preparar para o bote repentino do enorme escocês.

Os braços de Jamie envolveram o pescoço de Randall. Impossibilitado de usar a mão direita, agarrou o pulso direito com a mão esquerda hábil e puxou, o antebraço firmado na traquéia do inglês. Quando Randall ficou roxo e começou a afrouxar, ele soltou a mão esquerda o tempo suficiente para dar uma estocada no rim do capitão. Mesmo enfraquecido como Jamie estava, o golpe foi suficiente para fazer os joelhos de Randall fraquejarem.

Largando o capitão lânguido, Jamie girou nos calcanhares para enfrentar o monstruoso ordenança, que até então ficara observando os acontecimentos sem o menor lampejo de interesse no rosto abobalhado. Embora sua expressão se mantivesse quase inerte, ele na verdade se moveu, pegando a marreta da mesa quando Jamie começou a caminhar em sua direção, segurando o banco por uma das pernas na mão esquerda. Um certo ar de aborrecimento aflorou ao rosto do ordenança quando os dois homens começaram a cercar um ao outro, devagar, à procura de uma oportunidade.

Com uma arma mais adequada, Marley tentou primeiro, brandindo a marreta na direção das costelas de Jamie. Jamie desviou-se e simulou um ataque com o banco, forçando o monstrengo para trás, em direção à porta. A próxima tentativa, um golpe assassino para baixo, teria rachado o crânio de Jamie se tivesse acertado o alvo. Ao invés disso, o banco se partiu, uma das pernas e o assento arrancados.

Com impaciência, Jamie estraçalhou o restante do banco contra a parede no arremesso seguinte, reduzindo-o a um porrete pequeno, porém mais manejável; um taco de madeira de uns sessenta centímetros com a ponta lascada e dentada.

O ar na cela, sufocante com a fumaça das tochas, estava parado, exceto pela respiração arquejante dos dois homens e o baque ocasional, surdo e doloroso, de madeira em carne humana. Com medo de falar e perturbar a precária concentração de Jamie, coloquei os pés em cima da cama e encolhi-me contra a parede, tentando ficar fora do caminho.

Era evidente para mim - e pelo leve sorriso de expectativa, também para o ordenança - que Jamie estava se cansando rapidamente. Já era surpreendente que ele estivesse conseguindo ficar em pé, quanto mais lutar. Estava claro para nós três que a luta não poderia durar muito mais; se tivesse alguma chance por menor que fosse, teria que ser logo. Com estocadas curtas e fortes da perna do banco, avançou cautelosamente para Marley, forçando o grandalhão a recuar para o canto, onde os movimentos dele seriam restringidos e ele ficaria imprensado. Percebendo isso por algum instinto, o ordenança deu uma guinada para a frente com um violento arremesso horizontal da marreta, na expectativa de forçar Jamie para trás.

Ao invés de dar um passo para trás, Jamie avançou e recebeu todo o impacto do golpe no lado esquerdo, enquanto descia o porrete com toda a força na têmpora de Marley. Atenta à cena que se desenrolava diante de mim, eu não prestara atenção ao corpo de Randall, deitado de barriga para baixo no chão junto à porta. Mas, quando o ordenança cambaleou, os olhos embaciados, ouvi o arrastar de botas no chão de pedra e uma respiração entrecortada rangeu no meu ouvido.

- Lutou muito bem, Fraser. - A voz de Randall era rouca por causa do estrangulamento, mas controlada como de costume. - Mas custou-lhe algumas costelas, não é?

Jamie apoiou-se contra a parede, respirando em grandes arfadas, ainda segurando o bastão, o cotovelo apertado com força contra o lado do corpo. Seus olhos abaixaram-se para o chão, medindo a distância.

- Nem tente, Fraser. - A voz não se alterou. - Ela estará morta antes que você dê dois passos. - A lâmina fina e fria da faca deslizou pela minha orelha; pude sentir a ponta espetando de leve o canto do meu maxilar.

Jamie avaliou a situação com olhos imparciais por um instante, ainda amparado pela parede. Com um esforço repentino, endireitou-se dolorosamente e ficou em pé, oscilando. O porrete caiu com um baque surdo no chão de pedra. A ponta da faca espetou uma fração infinitesimal a mais de profundidade, mas fora isso Randall manteve-se imóvel enquanto Jamie lentamente deu alguns passos até a mesa, inclinando-se cuidadosamente no caminho para pegar a marreta com cabo recoberto de barbante. Segurou-a, pendente entre dois dedos, diante dele, deixando clara sua intenção de não atacar.

A marreta bateu com estardalhaço na mesa diante de mim, o cabo girando com força suficiente para carregar a ponta pesada até quase a borda da mesa. Ficou ali parada, escura e maciça, no carvalho, uma ferramenta sólida, simples. Um cesto de junco de pregos pequenos para serem usados com a marreta misturava-se à confusão de objetos no outro extremo da mesa; algo talvez esquecido pelos carpinteiros que mobiliaram o quarto. A mão ilesa de Jamie, os dedos retos e elegantes coroados de ouro sob a luz, agarrou a borda da mesa com força. Com um esforço que eu podia apenas imaginar, sentou-se lentamente em uma cadeira e deliberadamente espalmou as duas mãos diante dele na superfície marcada da madeira, a marreta a pequena distância.

Seu olhar estava travado ao de Randall durante a dolorosa travessia do quarto e não hesitou agora. Balançou a cabeça levemente em minha direção sem olhar pára mim e disse:

— Solte-a.

A mão que empunhava a faca pareceu relaxar um pouco. A voz de Randall era irônica e curiosa:

- Por que o faria?

Jamie agora parecia com total domínio de si mesmo, apesar do rosto lívido e do suor que escorria livremente pelo seu rosto como lágrimas.

— Você não pode segurar uma faca em duas pessoas ao mesmo tempo. Mate a mulher ou saia de perto dela e eu o mato. - Falou em voz baixa, um fio metálico sob o sereno sotaque escocês.

- E o que me impediria de matar vocês dois, um de cada vez?

Eu teria chamado a expressão no rosto de Jamie de um sorriso apenas porque seus dentes estavam à mostra.

— E decepcionar o carrasco? Um pouco difícil de explicar quando chegar de manhã, não? — Indicou o monstrengo inconsciente no chão com um movimento da cabeça. - Deve se lembrar de que teve que mandar seu ajudante me amarrar com corda antes de você quebrar minha mão.

- E daí? - A faca permanecia firme junto à minha orelha.

- Seu ajudante não vai lhe ser útil ainda por um bom tempo. - Isso era incontestavelmente verdadeiro; o monstruoso ordenança estava caído de cara no chão no canto do aposento, respirando com difíceis e ruidosos roncos. Concussão grave, pensei, mecanicamente. Possível hemorragia cerebral. Eu não podia me importar menos se ele morresse diante dos meus olhos.

- Você sozinho não pode comigo, mesmo só com uma das mãos. -Jamie sacudiu a cabeça devagar, avaliando o tamanho e a força de Randall. — Não. Sou maior e um lutador muito melhor. Se não tivesse a mulher aí com você, eu tiraria essa sua faquinha- e a enterraria em seu pescoço. E você sabe disso. É por esse motivo que ainda não a machucou.

- Mas eu a tenho. Você mesmo poderia ir embora, é claro. Há uma saída, bem perto. Isso deixaria sua mulher - você disse mesmo que ela era sua mulher? — para morrer, é claro.

Jamie encolheu os ombros.

- E eu também. Eu não conseguiria ir muito longe, com toda a guar-nição no meu encalço. Levar um tiro a céu aberto deve ser melhor do que ser enforcado aqui, mas não o suficiente para fazer diferença. — Uma breve careta de dor atravessou seu rosto e ele prendeu a respiração por um instante. Quando voltou a respirar, foi em arfadas superficiais, ofegantes. Qualquer que fosse o choque que o estava protegendo do pior da dor, estava claramente se esgotando.

- Então, parece que chegamos a um impasse. — O tom do inglês bem-educado de Randall era descontraído. - A menos que você tenha alguma sugestão?

- Eu tenho. Você me quer. - A voz fria escocesa era direta. - Deixe a mulher ir e terá a mim. - A ponta da faca moveu-se ligeiramente, dando um pequeno corte na minha orelha. Senti uma pontada e o fluxo quente do sangue.

- Faça o que quiser comigo, não lutarei, embora deixe que me amarre, se achar necessário. E não falarei sobre isso, amanhã. Mas primeiro faça com que ela saia da prisão em segurança. - Meus olhos estavam fixos na mão arruinada de Jamie. Uma pequena poça de sangue sob o dedo médio estava aumentando e percebi com um choque que ele estava pressionando o dedo deliberadamente na mesa, usando a dor como um estímulo para se manter consciente. Estava barganhando para salvar a minha vida usando a única coisa que lhe restava - ele próprio. Se ele desmaiasse agora, essa única chance estaria perdida.

Randall relaxara completamente; a faca descansava negligentemente no meu ombro direito enquanto ele analisava a oferta. Eu estava ali diante dele. Jamie deveria ser enforcado ao amanhecer. Mais cedo ou mais tarde, dariam pela falta dele e o castelo seria revistado. Embora uma certa dose de brutalidade fosse tolerada entre oficiais e cavalheiros - tenho certeza de que se estenderia a açoites e mãos quebradas — as outras inclinações de Randall provavelmente não seriam ignoradas. Independente da condição de Jamie como prisioneiro condenado, se ele proclamasse, do cadafalso, pela manhã, que sofrera abusos e torturas nas mãos de Randall, suas acusações seriam investigadas. E se o exame físico comprovasse a veracidade de suas alegações, a carreira de Randall estaria terminada e provavelmente sua vida também. Mas com Jamie jurando silêncio...

- Me dá sua palavra?

Os olhos de Jamie pareciam duas chamas azuis no rosto macerado. Após um instante, ele balançou a cabeça lentamente:

- Em troca da sua.

A atração de uma vítima ao mesmo tempo completamente avessa e completamente complacente era irresistível.

- Feito. - A faca saiu do meu ombro e ouvi o sussurro de metal embai-nhado. Randall passou lentamente por mim, deu a volta à mesa, pegando a marreta no caminho. Ergueu-a, questionando ironicamente:

- Me permite um pequeno teste de sua sinceridade?

- Sim. - A voz de Jamie era tão firme quanto suas mãos, espalmadas e imóveis sobre a mesa. Tentei falar, proferir algum protesto, mas minha garganta se ressecara a ponto de obrigar-me ao silêncio.

Movendo-se sem pressa, Randall inclinou-se por cima de Jamie para pegar um prego delicadamente do cesto de junco. Posicionou a ponta com cuidado e bateu a marreta, cravando o prego na mão direita de Jamie e pregando-a na mesa com mais quatro marretadas certeiras. Os dedos quebrados torceram-se e estenderam-se, como as pernas de uma aranha pregada num quadro de coleção.

Jamie urrou de dor, os olhos arregalados e inexpressivos com o choque. Randall recolocou a marreta sobre a mesa com cuidado. Segurou o queixo de Jamie na mão e virou sua cabeça para cima.

- Agora, beije-me - disse suavemente e abaixou a cabeça para a boca de Jamie, que não ofereceu nenhuma resistência.

O rosto de Randall quando ergueu a cabeça era sonhador, os olhos afáveis e distantes, a boca longa enviesada num sorriso. Um dia eu amei um sorriso como aquele e aquele olhar sonhador me excitara em expectativa. Agora, me enojava. As lágrimas escorriam pelo canto da minha boca, embora eu não me lembre de ter começado a chorar. Randall permaneceu por um instante em seu transe, fitando Jamie. Em seguida, estremeceu, lembrando-se, e retirou a faca mais uma vez da bainha.

A lâmina cortou descuidadamente as cordas em torno dos meus pulsos, esfolando a pele. Eu mal tive tempo de esfregar os pulsos para restabelecer a circulação do sangue nas mãos até ele me obrigar a ficar em pé segurando-me pelo cotovelo e me empurrar em direção à porta.

— Espere! — Jamie falou atrás de nós e Randall virou-se com impaciência.

- Podemos nos despedir? - Era uma afirmação, mais do que uma pergunta e Randall hesitou apenas um instante antes de assentir e me dar um empurrão de volta em direção à figura imóvel à mesa.

O braço bom de Jamie rodeou com força meus ombros e eu enterrei meu rosto molhado em seu pescoço.

— Você não pode fazer isso — murmurei. — Não pode. Eu não vou deixar.

Sua boca era quente no meu ouvido.

— Claire, vou ser enforcado pela manhã. O que acontecer comigo daqui até lá não importa mais. - Afastei-me e fitei-o.

- Importa para mim! - Os lábios tensos tremeram quase num sorriso e ele ergueu a mão livre e colocou-a na minha face úmida.

— Sei que importa, mo duinne. E é por isso que você deve ir agora. Para que eu saiba que há alguém que ainda se importa comigo. - Puxou-me para junto dele outra vez, beijou-me ternamente e sussurrou em gaélico: - Ele deixará você partir porque acha que você está sozinha e desamparada. Sei que não está. - Soltando-me, disse em inglês: - Eu a amo. Agora, vá.

Randall parou enquanto me apressava pela porta.

- Voltarei logo.

Era a voz de um homem afastando-se relutantemente de seu amante e tive uma ânsia de vômito.

Delineado em vermelho pela luz da tocha atrás dele, Jamie inclinou a cabeça cortesmente em direção à mão pregada na mesa.

- Pode ter certeza de que vai me encontrar aqui.

Black Jack. Um apelido comum para canalhas e crápulas no século XVIII. Um dos principais componentes da ficção romântica, o nome invocava charmosos assaltantes de estrada, com chapéus de plumas e espadas arrojadas. A realidade caminhava ao meu lado.

Ninguém nunca pára para pensar no que se baseiam os romances. Tragédia e terror, modificados pelo tempo. Acrescente-se um pouco de arte à redação e voilà!, um enredo emocionante, capaz de fazer o sangue correr mais rápido nas veias e as mocinhas suspirarem. Meu sangue estava correndo rápido, sem dúvida, e nunca uma donzela suspirou como Jamie, segurando sua mão destruída.

- Por aqui. - Era a primeira vez que Randall falava desde que deixáramos a cela. Indicou uma alcova estreita na parede, sem tochas de iluminação. A saída, da qual falara a Jamie.

Agora, eu já recobrara domínio suficiente de mim mesma para falar e o fiz. Dei um passo para trás, para que a luz da tocha caísse em cheio sobre mim, porque eu queria que ele se lembrasse do meu rosto.

- Você me perguntou, capitão, se eu era uma bruxa - eu disse, a voz baixa e firme. - Vou responder-lhe agora. Sim, sou uma bruxa. Bruxa e eu lanço sobre você a minha maldição. Você se casará, capitão, e sua mulher terá um filho, mas não viverá o suficiente para ver seu primogênito. Eu o amaldiçôo com conhecimento, Jack Randall. Eu lhe dou a hora de sua morte.

Seu rosto estava oculto nas sombras, mas o brilho em seus olhos disse-me que ele acreditava em mim. E por que não o faria? Pois eu falava a verdade e eu sabia. Eu podia ver as linhas do mapa genealógico de Frank como se tivessem sido desenhadas nas linhas de argamassa entre as pedras da parede, e os nomes listados ao lado de cada uma.

- Jonathan Wolverton Randall — eu disse devagar, lendo nas pedras. -Nascido em 3 de setembro de 1705. Morto em... - Ele fez um movimento convulsivo em direção a mim, mas não rápido o suficiente para me impedir de falar.

Uma porta estreita no fundo da alcova abriu-se com um rangido das dobradiças. Esperando uma escuridão ainda maior, meus olhos ficaram cegos por um lampejo ofuscante de luz sobre neve. Um rápido empurrão por trás me lançou de cabeça, aos tropeções, diretamente numa espécie de montes de neve acumulada pelo vento. A porta fechou-se com um estampido atrás de mim.

Eu estava caída numa vala, atrás da prisão. Os monturos de neve à minha volta deviam encobrir depósitos de alguma coisa — o lixo da prisão, sem dúvida. Havia algo duro embaixo do monte de neve no qual eu havia caído; madeira, talvez. Erguendo os olhos para a muralha que se erguia verticalmente acima de mim, pude ver estrias e córregos de água suja descendo pelas pedras, marcando o caminho dos refugos despejados de uma porta de correr a uns doze metros acima. Ali deviam ficar os cômodos da cozinha.

Rolei sobre o próprio corpo, preparando-me para levantar e me vi fitando um par de olhos azuis. A cara era quase tão azul quanto os olhos e tão dura quanto o toco de madeira pelo qual eu o confundira. Sufocando e aos tropeções, consegui ficar em pé e cambaleei de volta para a muralha da prisão.

Abaixe a cabeça, respire fundo, disse a mim mesma com firmeza. Você não vai desmaiar, você já viu pessoas mortas antes, muitas, você não vai desmaiar - Meu Deus, ele tem olhos azuis como — você não vai desmaiar, droga!

Minha respiração finalmente desacelerou e, com ela, minha pulsação desenfreada.

Quando o pânico cedeu, obriguei-me a voltar à patética figura, limpando as mãos convulsivamente na saia. Não sei se foi compaixão, curiosidade ou simplesmente choque o que me fez olhar outra vez. Visto sem a brusquidão da surpresa, não havia nada de assustador no homem morto; nunca há. Por pior que seja a maneira como um homem morre, somente a presença de um ser humano em sofrimento é aterradora; uma vez morto, o que resta é apenas um objeto.

O estranho de olhos azuis fora enforcado. Não era o único habitante da vala. Não me dei ao trabalho de escavar o monte de neve, mas agora que sabia o que continha, podia ver com clareza os contornos de membros congelados e as cabeças suavemente arreeedondadas sob a neve. Pelo menos uma dúzia de homens jazia ali, esperando por um degelo que tornaria mais fácil o seu enterro ou por uma remoção mais rude pelos animais ferozes da floresta próxima.

O pensamento me arrancou da minha imobilidade pensativa. Eu não tinha tempo a perder em meditações à beira de sepulturas ou mais um par de olhos azuis, arregalados e sem visão, iria ficar olhando para cima, para a neve que caía.

Precisava encontrar Murtagh e Rupert. Talvez aquela porta dos fundos escondida pudesse ser usada. Obviamente, não era fortificada ou protegida por guardas como os portões principais e outras entradas da prisão. Mas eu precisava de ajuda, e rápido.

Olhei para cima, para a borda da vala. O sol já estava bem baixo, filtrando-se por uma camada de nuvens logo acima dos topos das árvores. O ar estava pesado de umidade. Provavelmente iria nevar outra vez ao cair da noite; o céu estava encoberto por nuvens espessas a leste. Restava talvez uma hora de luz.

Comecei a seguir a vala, não querendo escalar os lados rochosos e íngremes enquanto não fosse necessário. A vala estreita e funda fazia uma curva logo depois da prisão e dava a impressão de que descia em direção ao rio; provavelmente o escoamento da água da neve derretida carregava o lixo da prisão. Eu estava quase na curva da alta muralha quando ouvi um som leve atrás de mim. Girei nos calcanhares. O som fora produzido por uma pedra que caíra da borda da vala, deslocada pela pata de um enorme lobo cinzento.

Como alternativa aos itens soterrados na neve, eu tinha determinadas características desejáveis, do ponto de vista de um lobo. Por um lado, eu me locomovia, era mais difícil de ser apanhada e oferecia a possibilidade de resistência. Por outro, eu era lenta, desajeitada e, acima de tudo, não estava congelada, não oferecendo, assim, perigo de dentes quebrados. Eu também cheirava a sangue fresco, tentadoramente quente naquele esgoto enre-gelado. Se eu fosse um lobo, pensei, não hesitaria. O animal chegou a uma decisão ao mesmo tempo em que cheguei à minha própria conclusão quanto às nossas relações futuras.

Havia um americano no hospital de Pembroke chamado Charlie Marshall. Era um sujeito agradável, amistoso como todos os americanos e muito divertido quando o assunto era animais de estimação. Os seus eram os cachorros. Charlie era sargento na unidade K-9. Ele fora atingido, juntamente com dois dos seus cachorros, pela explosão de uma mina na periferia de um vilarejo perto de Aries. Ele lamentava a perda dos cachorros e freqüentemente me contava histórias sobre eles quando eu me sentava ao seu lado durante os escassos momentos de descontração no meu turno.

Mais objetivamente, ele também me contara uma vez o que fazer, e o que não fazer, se um dia fosse atacada por um cachorro. Era muita bondade chamar de cachorro a assustadora criatura que vinha escolhendo seu caminho cuidadosamente pelas pedras do barranco, mas esperava que ainda compartilhasse alguns traços básicos de caráter com seus descendentes domesticados.

- Cão malvado - disse com firmeza, fitando um olho amarelo. — Na verdade - disse, recuando lentamente em direção à muralha da prisão -, você é um cão absolutamente horrível. (Fale alto e com firmeza, ouvi Charlie dizendo.) - Provavelmente o pior que já vi - eu disse, alto e com firmeza. Continuei a recuar, subindo, uma das mãos estendida para trás para sentir a muralha de pedras e, uma vez lá, fui me deslocando de lado, em direção à curva a uns dez metros.

Desamarrei os laços na minha garganta e comecei a apalpar o broche que prendia meu manto, ainda dizendo ao lobo, em voz alta e firme, o que pensava dele, de seus ancestrais e de sua família imediata. O animal parecia interessado na ladainha, a língua relaxada e os dentes à mostra, como um cachorro. Não parecia ter pressa; mancava levemente, pude notar quando se aproximou, e era magro e sarnento. Talvez tivesse dificuldade em caçar e a enfermidade é que o atraía à pilha de lixo da prisão para catar comida. Eu certamente esperava que assim fosse; quanto mais doente, melhor.

Encontrei minhas luvas de couro no bolso do meu manto e calcei-as. Em seguida, enrolei o manto várias vezes em torno do braço direito, abençoando a espessura do veludo. "Eles procuram atacar a garganta", Charlie instruíra-me, "a menos que seu treinador lhes ensine de outra forma. Continue a olhá-lo nos olhos; você verá quando ele decidir atacar. Esse é o seu momento."

Eu podia ver inúmeras coisas naquele perigoso globo ocular amarelo, inclusive fome, curiosidade e especulação, mas ainda não uma decisão de saltar.

- Criatura nojenta - continuei -, não ouse saltar na minha garganta! -Tive outras idéias. Eu havia envolvido meu braço direito em várias voltas frouxas do meu manto, deixando a maior parte pendurada, mas conseguindo um acolchoamento suficiente, eu esperava, para impedir que os dentes da fera penetrassem em meu braço.

O lobo era magro, mas não emaciado. Calculei que devia pesar um pouco menos de quarenta quilos; menos do que eu, mas não o suficiente para me dar uma grande vantagem. A balança definitivamente pendia para o lado do lobo; quatro pernas contra duas proporcionavam mais equilíbrio na escorregadia crosta de neve. Esperava que o fato de apoiar minhas costas contra a parede ajudasse.

Uma sensação de vazio às minhas costas disse-me que eu havia chegado à curva. O lobo estava a uns seis metros de distância. Esse era o momento. Raspei a neve sob os meus pés o suficiente para me dar firmeza e esperei.

Nem cheguei a ver o lobo sair do solo. Eu podia jurar que estava vigiando seus olhos, mas se a decisão de saltar tivesse sido registrada ali, fora seguida depressa demais pela ação para que eu pudesse notar. Foi o instinto, e não o pensamento, que ergueu meu braço quando uma mancha cinza-esbranquiçada arremessou-se sobre mim.

Os dentes cravaram-se no acolchoamento com uma força que machucou meu braço. Era mais pesado do que eu imaginara; eu não estava preparada para aquele peso e meu braço afrouxou-se. Planejara atirar a fera contra a parede, talvez o deixando desacordado. Ao invés disso, arremessei o corpo contra a muralha, esmagando o lobo entre os blocos de pedra e meu quadril. Lutei para envolvê-lo com a parte solta do meu manto. Garras rasgaram minha saia e arranharam minha coxa. Arremeti o joelho com uma força assassina no seu peito, extraindo um uivo estrangulado. Somente então percebi que os queixumes vinham de mim e não do lobo.

Estranhamente, eu já não estava nem um pouco aterrorizada, embora tivesse ficado apavorada quando o lobo estava me perseguindo. Só havia espaço em minha mente para um único pensamento: vou matar este animal ou ele me matará. Portanto, eu iria matá-lo.

Chega-se a um ponto, numa intensa luta física, em que uma pessoa se abandona ao uso desenfreado de força e recursos corporais, ignorando os custos até a luta acabar. As mulheres encontram este ponto no parto; os homens na batalha.

Passado esse ponto, você perde todo medo da dor ou do ferimento. A vida se torna muito simples nesse ponto; você fará o que está tentando fazer ou morrerá na tentativa e, na verdade, não importa muito o desfecho.

Eu vira este tipo de luta durante meu treinamento nas enfermarias, mas nunca o experimentara antes. Agora, toda a minha atenção concentrava-se nas mandíbulas agarradas ao meu antebraço e no demônio contorcendo-se e lançando as garras no meu corpo.

Consegui bater a cabeça do animal contra a muralha, mas não com força suficiente. Eu estava cansando rapidamente; se o lobo estivesse em boas condições, eu não teria tido nenhuma chance. Não tinha muita agora, mas tentei aproveitar o pouco que restava. Joguei-me sobre o animal, prendendo-o sob o meu corpo e extraindo todo o ar de seus pulmões num sopro putrefato. Ele se recobrou quase imediatamente e começou a se contorcer sob o meu corpo, mas o segundo relaxamento me permitiu arrancá-lo do meu braço, uma das mãos grampeada por baixo de seu focinho molhado.

Forçando meus dedos nos cantos de sua boca, consegui mantê-los fora dos dentes carnívoros e cortantes. A saliva escorria pelo meu braço. Eu estava deitada, o corpo achatado sobre o animal. A curva da muralha da prisão estava a cerca de meio metro à minha frente. Tinha que dar um jeito de chegar até lá, sem libertar a fúria que empurrava e se contorcia sob mim.

Arrastando os pés no chão, pressionando o corpo para baixo com todas as minhas forças, avancei pouco a pouco, o tempo todo me esforçando para manter as presas do animal longe da minha garganta. Não pode ter levado mais do que alguns minutos para transpor aqueles cinqüenta centímetros, mas parecia que eu passara ali a maior parte de minha vida, lutando e presa àquela fera cujas garras traseiras arranhavam minhas pernas, procurando uma boa oportunidade de rasgar minha barriga.

Finalmente, pude ver do outro lado da curva. O ângulo rombudo da pedra estava diretamente diante do meu rosto. Agora, era a parte mais difícil. Eu tinha que manobrar o corpo do lobo de modo que pudesse colocar as duas mãos sob o focinho; jamais teria a força necessária com apenas uma das mãos.

Rolei bruscamente para fora e o lobo imediatamente escorregou para o pequeno espaço livre entre meu corpo e a muralha. Antes que pudesse ficar de pé, atingi-o com o joelho com todas as forças que consegui reunir. O lobo grunhiu quando meu joelho chocou-se contra o lado do seu corpo, prendendo-o, ainda que apenas por alguns instantes, contra a parede.

Agora, eu tinha ambas as mãos sob suas mandíbulas. Os dedos de uma das mãos estavam na verdade dentro de sua boca. Podia sentir a ferroada esmagadora sobre os dedos enluvados, mas ignorei o fato enquanto forçava a cabeça peluda para trás, e para trás, e novamente para trás, usando o ângulo da muralha como ponto de apoio de uma alavanca que era o corpo do animal. Achei que meus braços iriam se quebrar, mas essa era a única chance.

Não houve nenhum ruído audível, mas eu senti a reverberação pelo corpo todo quando o pescoço se quebrou. Os membros tensos - e a bexiga - imediatamente relaxaram. Com o esforço insuportável nos braços agora relaxados, caí, tão fraca quanto o lobo moribundo. Podia sentir o coração da fera fibrilando sob minha face, a única parte do seu corpo ainda capaz de lutar contra a morte. O pêlo áspero fedia a amônia e cabelo molhado. Queria me afastar, mas não conseguia.

Creio que devo ter adormecido por um instante, por mais estranho que isso possa parecer, tendo um animal morto como travesseiro. Abri os olhos e vi as pedras esverdeadas da prisão a poucos centímetros do meu nariz. Somente o pensamento do que deveria estar ocorrendo do outro lado daqueles muros me fez levantar.

Arrastei-me com dificuldade pelo resto da vala, o manto pendurado em um dos ombros, tropeçando em pedras escondidas sob a neve, batendo as pernas dolorosamente em galhos semi-enterrados. Subconscientemente, devia saber que lobos geralmente andam em bandos, porque não me lembro de ter ficado surpresa com os uivos que reverberavam da floresta atrás e acima de mim. Se tiver sentido alguma coisa, foi um ódio mortal ao que parecia uma conspiração para me frustrar e me atrasar.

Exausta, virei-me para ver de onde vinha o som. Já estava em campo aberto a essa altura, longe da prisão; não havia nenhuma muralha onde me apoiar, nem nenhuma arma à mão. A sorte me ajudara com o primeiro lobo; não havia nem uma chance em mil de que eu pudesse matar outro animal de mãos vazias - e quantos mais deveria haver? O bando que eu vira alimentando-se ao luar no verão reunia pelo menos dez lobos. Podia ouvir na memória os ruídos de seus dentes raspando e o estalido de ossos quebrando-se. A única pergunta agora era se eu sequer me daria ao trabalho de lutar ou se iria apenas deitar-me na neve e desistir. Essa opção parecia extraordinariamente atraente, levando-se em conta todas as circunstâncias.

No entanto, Jamie abrira mão de sua vida, e consideravelmente mais do que isso, para me tirar da prisão. Eu devia a ele ao menos tentar.

Mais uma vez, procurei me afastar, continuando a descer o valão. A luz definhava; logo a ravina se encheria de sombras. Duvidava que isso me ajudasse. Os lobos indubitavelmente tinham uma visão noturna melhor do que a minha.

O primeiro predador apareceu na borda da vala como seu antecessor; uma figura desgrenhada, imóvel e alerta. Foi com uma espécie de choque que percebi que dois outros já estavam na ravina comigo, avançando devagar, os passos dos dois quase sincronizados. Eram quase da cor da neve na luz do crepúsculo — cinza sujo - e quase invisíveis, embora se movessem sem nenhuma tentativa de se esconder.

Parei onde estava. Correr era obviamente inútil. Curvando-me, retirei um galho morto de pinheiro do meio da neve. A casca estava escura da umidade e áspera até através das minhas luvas. Brandi o galho acima da cabeça e gritei. Os animais pararam, mas não recuaram. O que estava mais próximo abaixou as orelhas, como se protestasse contra o barulho.

- Não gosta? — berrei. - Dane-se! Para trás, maldito, desgraçado! -Pegando uma pedra semi-enterrada, atirei-a contra o lobo. Não o atingiu, mas a fera correu para o lado. Encorajada, comecei a atirar mísseis freneticamente; pedras, galhos, bolos de neve, tudo que eu podia pegar com uma única mão. Berrei até minha garganta ficar dolorida com o ar frio, uivan-do, esganiçada, como os próprios lobos.

No começo, pensei que um dos meus projéteis tivesse atingido o alvo. O lobo mais próximo ganiu e pareceu ter um espasmo. A segunda flecha passou a uns trinta centímetros de mim e vi a minúscula mancha em movimento antes de alojar-se com um ruído surdo no peito do segundo lobo. Esse animal morreu ali mesmo onde estava. O primeiro, não atingido mortalmente, esperneava e debatia-se na neve, não mais do que um torrão contorcendo-se na crescente escuridão.

Fiquei parada estupidamente por algum tempo, depois ergui os olhos por instinto para a margem da ravina. O terceiro lobo, sabiamente procurando passar despercebido, desaparecera de volta à floresta, de onde um uivo arrepiante se elevou.

Eu ainda fitava as árvores escuras quando a mão de alguém agarrou meu cotovelo. Girei nos calcanhares com um grito sufocado e deparei-me com o rosto de um estranho. Maxilares estreitos e um queixo pontudo, mal disfarçado por uma barba rala, era realmente um estranho, mas seu xale de xadrez e sua adaga o identificavam como um escocês.

- Ajude-me - eu disse, desmaiando em seus braços.





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