A viajante do tempo



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29 - MAIS HONESTIDADE
À noite, depois de terminada a ceia, geralmente nos sentávamos na sala de estar com Jenny e Ian, conversando amigavelmente sobre assuntos diversos ou ouvindo as histórias de Jenny.

Esta noite, entretanto, foi minha vez. Eu deixei Jenny e Ian arrebatados ao contar-lhes sobre a sra. MacNab e os soldados ingleses.

- "Deus sabe muito bem que os garotos foram feitos para apanhar ou não os teria criado com tanta parte do diabo." - Minha imitação da Vovó MacNab fez todos desatarem em gargalhadas.

Jenny limpou as lágrimas de tanto rir.

- Meu Deus, é bem verdade. E ela sabe melhor do que ninguém. Quantos garotos ela teve, Ian, oito?

Ian balançou a cabeça.

- Sim, no mínimo. Não consigo nem me lembrar do nome de todos eles; parecia sempre haver um ou dois MacNab por perto para irmos caçar, pescar ou nadar, quando Jamie e eu éramos crianças.

- Vocês cresceram juntos? — perguntei. Jamie e Ian trocaram longos olhares cúmplices.

- Ah, sim, nós nos conhecemos - Jamie disse, rindo. - O pai de Ian era o administrador de Lallybroch, como Ian é agora. Em diversas ocasiões durante a minha imprudente juventude, eu me vi lado a lado com o sr. Murray aí, explicando para um ou outro de nossos respectivos pais como as aparências podem ser enganadoras ou, quando isso fracassava, como as circunstâncias alteram um caso.

- E quando isso não funcionava - Ian disse -, eu me vi em um número igual de ocasiões debruçado sobre a cerca juntamente com o sr. Fraser aqui, ouvindo-o esgoelar-se enquanto eu esperava a minha vez.

- Nunca! — retrucou Jamie, indignado. — Eu nunca gritei.

- Chame aquilo do que quiser, Jamie - seu amigo respondeu -, mas você fazia um bocado de barulho.

- Vocês dois podiam ser ouvidos a quilômetros de distância - Jenny interpôs. — E não somente os gritos. Podia-se ouvir Jamie argumentando o tempo todo, até chegar à cerca.

- Sim, você devia ter sido advogado, Jamie. Mas não sei por que eu sempre deixava que você argumentasse — disse Ian, sacudindo a cabeça. — Você sempre acabava nos metendo em mais confusão do que já estávamos.

Jamie começou a rir de novo.

- Está falando da torre?

- Estou. - Ian voltou-se para mim, fazendo um sinal para oeste, onde a antiga torre de pedra erguia-se da colina atrás da casa.

- Essa foi uma das melhores argumentações de Jamie - continuou, revirando os olhos. - Ele disse a Brian que não era civilizado usar a força física para fazer um ponto de vista prevalecer. O castigo físico era bárbaro, ele disse, e antiquado ainda por cima. Surrar alguém só porque havia cometido um ato com cujas ramificações, foi assim mesmo, com cujas ramificações você não concorda, não era em absoluto uma forma construtiva de punição....

A essa altura, todos havíamos desatado a rir.

- E Brian ouviu tudo isso? — perguntei.

- Ah, sim. — Ian balançou a cabeça. — Eu só fiquei lá, em pé ao lado de Jamie, balançando a cabeça toda vez que ele parava para respirar. Quando finalmente as palavras de Jamie se esgotaram, seu pai tossiu um pouco e disse: "Compreendo." Em seguida, virou-se e ficou olhando pela janela por alguns instantes, agitando a correia de couro e balançando a cabeça, como se estivesse pensando. Nós ficamos ali de pé, lado a lado, como Jamie disse, suando. Finalmente, Brian virou-se e nos disse para segui-lo até a estrebaria.

- Deu uma vassoura, uma escova e um balde a cada um e apontou em direção à torre - Jamie disse, continuando a história. - Disse que eu o havia convencido do meu ponto de vista e que, portanto, ele havia se decidido por uma forma de castigo mais "construtivo".

Os olhos de Ian reviraram-se lentamente para cima, como se seguisse as pedras ásperas da torre de baixo para cima.

- Aquela torre tem vinte metros de altura — disse-me — e dez metros de diâmetro, com três andares. - Soltou um suspiro. - Nós varremos tudo, de cima para baixo, e esfregamos tudo. Levamos cinco dias e até hoje, toda vez que tusso, posso sentir o gosto de palha de aveia estragada.

- E você tentou me matar no terceiro dia -Jamie disse - por ter metido a gente naquilo. — Tocou a cabeça com cuidado. — Fiquei com um corte enorme acima da orelha, onde você me atingiu com a vassoura.

- Ah, bem - Ian disse despreocupadamente —, isso foi depois de você ter quebrado meu nariz pela segunda vez, de modo que ficamos quites.

- Você pode confiar num Murray para manter um registro — Jamie disse, sacudindo a cabeça.

- Vejamos - eu disse, contando nos dedos. - Segundo você, os Fraser são teimosos, os Campbell são sorrateiros, os MacKenzie são charmosos, porém dissimulados, e os Graham são burros. Qual a principal característica dos Murray?

- Você pode contar com eles numa briga - Jamie e Ian responderam juntos e depois riram.

- É verdade - disse Jamie, recobrando-se. - Você só torce para que eles estejam do seu lado. — E os dois homens prorromperam em acessos de riso outra vez.

Jenny sacudiu a cabeça para o irmão e o marido com ar de desaprovação.

- E nós ainda nem tomamos nenhum vinho - disse. Deixou sua costura de lado e levantou-se com esforço. - Venha comigo, Claire; vamos ver se a sra. Crook fez biscoitos para acompanhar o porto.

Voltando pelo corredor quinze minutos depois com bandejas de comes-e-bebes, ouvi Ian dizer:

- Então você não se importa, Jamie?

- Me importo com quê?

- Que tenhamos nos casado sem o seu consentimento, eu e Jenny, quero dizer.

Jenny, andando à minha frente, parou de repente junto à porta que dava na sala de estar.

Ouviu-se um leve resfolegar do sofá de dois lugares onde Jamie se espalhara, os pés em cima de uma almofada daquelas usadas para se ajoelhar em igreja.

- Como eu não lhe disse onde estava e você não tinha nenhuma idéia de quando eu voltaria, se é que voltaria, não posso culpá-lo por não esperar.

Eu podia ver Ian de perfil, inclinado sobre o cesto de lenha. Seu rosto longo e amável tinha um ar ligeiramente preocupado.

-Bem, não achava direito, especialmente sendo eu aleijado... Ouviu-se um resfolegar mais alto.

- Jenny não poderia ter um marido melhor, mesmo que você tivesse perdido as duas pernas e os braços também - Jamie disse bruscamente. A pele clara de Ian ruborizou-se levemente, constrangido. Jamie tossiu e tirou as pernas da almofada, inclinando-se para pegar uns gravetos que haviam caído do cesto.

- Como você veio a se casar, então, considerando-se seus escrúpulos? ---- perguntou, um dos cantos da boca curvando-se para cima.

- Tenha piedade, homem - Ian protestou. - Acha que eu tive alguma escolha na questão? Contra uma Fraser? - Sacudiu a cabeça, rindo para seu amigo.

-- Ela veio até mim no campo uma vez, quando eu tentava consertar uma carroça que perdera a roda. Arrastei-me de baixo da carroça, todo coberto de sujeira, e a vi parada ali, parecendo um arbusto coberto de borboletas. Olhou-me de cima a baixo e disse... - Parou e coçou a cabeça. -Bem, não sei exatamente o que ela disse, mas acabou com ela me beijando, sem se preocupar com o fato de eu estar imundo, e dizendo: "Muito bem, então, nos casaremos no Dia de São Martinho." - Abriu as mãos num gesto cômico de resignação. — Eu ainda estava explicando por que não podíamos fazer tal coisa, quando me vi diante do padre, dizendo: "Eu a aceito, Janet..." e fazendo um monte de juramentos inverossímeis. Jamie balançou-se para a frente e para trás, rindo.

- Sim, sei como é - ele disse. - Faz com que você sinta um frio na barriga, não é?

Ian sorriu, todo o acanhamento esquecido.

- Isso e tudo o mais. Eu ainda sinto essa sensação, sabe, quando vejo Jenny de repente, parada contra o sol na colina, ou segurando o pequeno Jamie, sem olhar para mim. Eu a vejo e penso: "Meu Deus, não é possível que ela seja minha, não pode ser verdade." - Sacudiu a cabeça, os cabelos castanhos caídos na testa. - E então, ela se vira e sorri para mim... - Ergueu os olhos para seu cunhado, um amplo sorriso no rosto.

- Bem, você sabe do que estou falando. Posso ver que é a mesma coisa com você e sua Claire. Ela é... muito especial, não?

Jamie balançou a cabeça, concordando. O sorriso não deixou seu rosto, mas alterou-se de certo modo.

- Sim - disse suavemente. - Sim, é.

Enquanto comíamos e bebíamos, Jamie e Ian continuaram com as reminiscências de sua infância compartilhada e de seus pais. O pai de Ian, William, morrera logo depois da primavera, deixando Ian para administrar a propriedade sozinho.

- Lembra do dia em que seu pai veio nos pegar na fonte e nos fez acompanhá-lo até o ferreiro para que víssemos como se conserta a trava da carroça?

- Sim e ele não conseguia entender por que a gente continuava se remexendo e contorcendo...

- E ficava perguntando se precisávamos ir ao banheiro...

Os dois homens riam tanto que não conseguiam terminar de contar a história, então olhei para Jenny.

- Sapos — ela disse, sucintamente. - Cada um deles tinha cinco ou seis sapos dentro da camisa.

- Ah, meu Deus - Ian exclamou. - Quando um deles subiu pelo seu pescoço e pulou fora de sua camisa para dentro da fornalha, achei que eu ia morrer.

- Não posso imaginar por que meu pai não torceu meu pescoço em diversas ocasiões - Jamie disse, sacudindo a cabeça. - É um milagre eu ter sobrevivido.

Ian olhou com um olhar pensativo para seu próprio filho, perto da lareira, laboriosamente empenhado em empilhar blocos de madeira. - Não faço a menor idéia de como vou lidar com isso, quando chegar a hora de eu ter que surrar meu próprio filho. Quero dizer... ele é, bem, tão pequeno. - Fez um gesto desalentado na direção da pequena e robusta figura, absorta em sua tarefa.

Jamie examinou seu homônimo comicamente.

- Sim, com o tempo ele será tão traquinas quanto eu e você fomos. Afinal, até eu devo ter parecido pequeno e inocente um dia.

- Parecia, sim - disse Jenny inesperadamente, vindo colocar uma caneca de cidra na mão de seu marido. Deu uns tapinhas na cabeça de seu irmão.

- Você era adorável quando era um bebê, Jamie. Lembro-me de ficar olhando-o no seu berço. Não devia ter mais do que dois anos, dormindo com o dedo na boca e nós concordávamos que jamais tínhamos visto um garoto tão bonito. Você tinha bochechas rechonchudas e lindos cachos ruivos.

O belo garoto adquiriu um interessante tom rosado e tomou sua cidra de um gole só, evitando os olhares.

- Mas não durou muito - Jenny disse, os dentes brancos reluzindo num sorriso malicioso para seu irmão. — Que idade você tinha quando levou sua primeira surra, Jamie? Sete?

- Não, oito - Jamie disse, empurrando mais um toco de lenha na pilha fumegante de brasas. - Meu Deus, como doeu. Doze golpes no traseiro e ele não afrouxou nem um pouco, do começo ao fim. Ele nunca afrouxava. — Sentou-se sobre os calcanhares, esfregando o nariz com os nós dos dedos. Suas faces estavam afogueadas e seus olhos brilhavam com o esforço.

- Quando terminou, papai saiu um pouco e sentou-se numa pedra enquanto eu me recobrava. Então, quando parei de berrar e passei a choramingar baixinho, ele me chamou. Pensando nisso agora, lembro-me exatamente de suas palavras. Talvez possa usá-las com o pequeno Jamie, Ian, quando chegar a hora. - Jamie cerrou os olhos, relembrando.

- Ele me colocou entre seus joelhos, me fez olhar para ele e disse: Essa é a primeira vez, Jamie. Terei de fazer isso de novo, talvez cem vezes, até você se tornar um homem. Riu um pouco e continuou: "Meu pai fez isso comigo pelo menos tantas vezes e você é tão teimoso e cabeça-dura quanto eu era."

- Ele disse: "Às vezes, vou ousar dizer que tive prazer em bater em você, dependendo do que fez para merecer. Na maioria das vezes, não vou gostar. Mas eu o farei mesmo assim. Então, lembre-se, rapaz. Se sua cabeça inventar travessuras, seu traseiro vai pagar por isso." Em seguida, me deu um abraço e disse: "Você é um menino corajoso, Jamie. Vá para casa agora e deixe sua mãe confortá-lo." Abri a boca para dizer alguma coisa e ele disse, com a mesma rapidez: "Não, sei que você não precisa, mas ela precisa. Vamos, vá até ela." Então, voltei para casa e mamãe me deu pão com geléia por causa disso.

Jenny desatou a rir de repente.

- Eu só me lembro — ela disse — que papai costumava contar essa história a seu respeito, Jamie, sobre a surra que lhe deu e o que você disse para ele. Disse que, depois que o mandou de volta para casa, você andou até a metade do caminho, depois parou de repente e ficou esperando por ele.

- Quando ele foi ao seu encontro, você ergueu os olhos para ele e disse: "Eu só queria perguntar, papai. Você gostou desta vez?" E quando ele respondeu que não, você balançou a cabeça e disse: "Ótimo. Porque eu também não gostei muito."

Todos rimos juntos, depois Jenny ergueu os olhos para seu irmão, sacudindo a cabeça:

- Ele adorava contar essa história. Papai sempre disse que você ia acabar matando-o, Jamie.

A alegria desapareceu do rosto de Jamie e ele abaixou os olhos para as grandes mãos pousadas sobre os joelhos.

- Sim - disse em voz baixa. - E acabei mesmo, não?

Jenny e Ian trocaram olhares de espanto e eu abaixei os olhos para o meu próprio colo, sem saber o que dizer. Fez-se um silêncio total por um instante, a não ser pelos estalidos do fogo. Então, Jenny, com um rápido olhar para Ian, colocou seu copo de lado e tocou o joelho de seu irmão.

- Jamie - ela disse. — Não foi culpa sua.

Ele ergueu o rosto para ela e sorriu, um pouco desoladamente.

- Não? De quem foi, então? Ela respirou fundo e respondeu:

- Minha.


- O quê? — Fitou-a, atônito, sem conseguir compreender.

Ela ficara um pouco mais pálida do que o normal, mas permaneceu controlada.

- Eu disse que a culpa foi minha, tanto quanto de qualquer outra pessoa. Pelo... pelo que aconteceu a você, Jamie. E ao papai.

Ele cobriu a mão de Jenny com a sua e afagou-a delicadamente.

- Não fale bobagem, menina — disse. - Você fez o que fez para tentar me salvar; você tem razão, se não tivesse ido com Randall, ele teria me matado aqui mesmo.

Ela examinou o rosto de seu irmão, as sobrancelhas franzidas numa ruga de preocupação.

- Não, não me arrependo de ter levado Randall para dentro de casa, nem mesmo se ele... bem, não. Mas não foi isso. - Respirou fundo outra vez, procurando ser forte.

- Quando eu o levei para dentro, trouxe-o para o meu quarto. E... eu não sabia bem o que esperar, eu nunca... estivera com um homem. Mas ele parecia muito nervoso, todo afogueado e como se ele próprio não estivesse muito seguro, o que me pareceu estranho. Ele me empurrou para a cama e depois ficou lá em pé, esfregando-se. No começo, pensei que eu o havia realmente machucado com meu joelho, embora na verdade não o tenha atingido com tanta força assim. - A cor subia ao seu rosto e ela lançou um olhar de esguelha a Ian antes de voltar a olhar apressadamente para o colo.

- Agora eu sei que ele estava tentando... ficar excitado. Eu não queria deixá-lo pensar que eu estava com medo, de modo que me sentei ereta na cama e olhei para ele fixamente. Isso pareceu enfurecê-lo e ordenou-me que virasse de costas. Mas eu me recusei e continuei a olhá-lo.

Seu rosto estava da cor de uma das rosas na soleira da porta.

- Ele... desabotoou a calça e eu... bem, eu ri dele.

- Você fez o quê? - Jamie exclamou, incrédulo.

- Eu ri. Quero dizer... - Seus olhos encontraram os do irmão com certo desacato. - Sabia bastante bem como um homem é. Já o vira nu várias vezes e Willy e Ian também. Mas ele... — Um sorrisinho apareceu em seus lábios, apesar de seus evidentes esforços para reprimi-lo. — Ele parecia tão engraçado, com o rosto vermelho e esfregando-se tão freneticamente e ainda assim só...

Ouviu-se um som estrangulado partindo de Ian e ela mordeu o lábio, mas continuou corajosamente.

- Ele não gostou quando eu ri, e eu pude notar, de modo que ri ainda mais. Foi quando ele se atirou em cima de mim e rasgou meu vestido. Dei-lhe uma bofetada e ele me deu um soco no queixo, suficientemente forte para me fazer ver estrelas. Em seguida, gemeu um pouco, como se isso lhe desse prazer, e começou a subir na cama ao meu lado. Estava quase desmaiada, mas ri outra vez. Com dificuldade, fiquei em pé e eu... eu o ridicularizei e insultei. Disse que sabia que ele não era homem de verdade e não conseguia lidar com uma mulher. Eu...

Inclinou a cabeça ainda mais para a frente, de modo que os cachos escuros ocultassem suas faces ardentes. Falava em voz muito baixa, quase um sussurro.

- Eu... abri os pedaços da minha roupa e eu... escarneci dele com meus seios. Disse-lhe que sabia que ele tinha medo de mim, porque não podia tocar em uma mulher, mas apenas divertir-se com animais e rapazinhos...

- Jenny - Jamie disse, sacudindo a cabeça, abismado. Ela ergueu a cabeça para olhar para ele.

- Bem, foi o que fiz — ela disse. — Foi tudo em que consegui pensar e pude ver que ele ficou fora de si, mas também era claro que ele... não podia. Olhei direto para suas calças e ri de novo. Então, ele me agarrou pela garganta, me estrangulando, e eu bati com a cabeça na coluna do dossel da cama e... e quando acordei, ele havia ido embora, e você com ele.

Seus lindos olhos azuis estavam rasos d'água quando segurou as mãos de Jamie.

- Jamie, você pode me perdoar? Sei que se eu não o tivesse enfurecido daquele jeito ele não o teria tratado como tratou, e depois papai...

- Ah, Jenny, querida, mo cridh, não. - Ele estava de joelhos ao seu lado, puxando sua cabeça contra o ombro. Ian, do outro lado, parecia ter sido transformado numa estátua de pedra.

Jamie balançava-a suavemente enquanto ela soluçava.

- Não chore, pombinha. Você agiu certo, Jenny. Não foi culpa sua e talvez nem minha tampouco. - Afagou suas costas.

- Ouça, mo cridh. Ele veio aqui para nos fazer mal, seguindo ordens. E não teria feito a menor diferença quem ele tivesse encontrado aqui ou o que você ou eu pudéssemos ter feito. Ele pretendia causar problemas, sublevar o campo contra os ingleses, para seus próprios fins e do homem que o contratou.

Jenny parou de chorar e empertigou-se.

- Sublevar o povo contra os ingleses? Por quê? Jamie fez um gesto, impaciente com a mão.

- Para descobrir quem apoiaria o príncipe Carlos, se houvesse uma nova rebelião. Mas eu ainda não sei de que lado o patrão de Randall está, se ele quer saber quem são os seguidores do príncipe para poder vigiá-los, e talvez confiscar suas propriedades, ou se ele - o patrão de Randall - pretende seguir o príncipe e quer que as Highlands se revoltem e estejam preparadas para a guerra quando chegar a hora. Eu não sei e agora não importa mais. - Tocou carinhosamente os cabelos de sua irmã, tirando-os da testa e alisando-os para trás.

- Tudo que importa é que você não foi ferida e eu estou em casa. Logo estarei de volta definitivamente, mo cridh. Eu prometo.

Ela levou a mão dele aos lábios e beijou-a, o rosto afogueado. Tateou no bolso em busca de um lenço e assoou o nariz. Em seguida, olhou para Ian, ainda petrificado ao seu lado, uma expressão magoada e enraivecida no olhar.

Ela tocou-o suavemente no ombro.

- Você acha que eu deveria ter lhe contado. Ele não se mexeu, mas continuou olhando-a.

- Sim - disse, a voz baixa. - Acho.

Ela colocou o lenço no colo e tomou as mãos de Lan nas suas.

- Ian, querido, não lhe contei porque não queria perder você também. Meu irmão fora embora e meu pai também. Não queria perder o sangue do meu próprio coração também. Porque você é mais precioso para mim até mesmo do que lar e família, meu amor. — Lançou um sorriso de viés para Jamie. - E isso não é pouco.

Olhou Ian nos olhos, suplicando, e eu pude ver amor e orgulho ferido lutando em seu rosto. Jamie levantou-se e tocou meu ombro. Saímos do aposento silenciosamente, deixando-os juntos diante do fogo quase apagado.

Era uma noite clara e o luar inundava o quarto, infiltrando-se pelos altos postigos das janelas. Eu não conseguia dormir e achei que talvez fosse a luz que também mantinha Jamie acordado; ele ficou deitado, imóvel e muito quieto, mas eu sabia pela sua respiração que ele não estava dormindo. Virou-se de costas e eu o ouvi dar uma risadinha contida e abafada.

- O que está achando engraçado? - perguntei, serenamente. Virou a cabeça para mim.

- Ah, acordei-a, Sassenach? Desculpe. Só estava me lembrando de umas coisas.

- Eu não estava dormindo. - Aproximei-me dele com um movimento rápido. A cama obviamente fora feita para a época em que toda a família dormia junta em um mesmo colchão; o gigantesco colchão de penas deve ter consumido toda a produção de centenas de gansos e deixar-se flutuar sem rumo era como cruzar os Alpes sem uma bússola. - Do que estava se lembrando? - perguntei, depois que cheguei ao seu lado a salvo.

- Ah, de meu pai, de um modo geral. Das coisas que ele dizia. Dobrou os braços embaixo da cabeça, fitando pensativamente as vigas grossas que cruzavam o teto baixo.

- É estranho - disse -, quando ele estava vivo, eu não prestava muita atenção nele. Mas depois que ele morreu, o que ele me disse passou a ter muito mais influência. — Deu outra risadinha. — Eu estava pensando na última vez em que ele me deu uma surra.

- Foi engraçado, é? — observei. - Alguém já lhe disse que você tem um senso de humor muito estranho, Jamie? - Tateei em meio às cobertas à procura de sua mão, em seguida desisti e afastei-as. Ele começou a acariciar minhas costas e eu me aninhei junto a ele, emitindo pequenos sons de prazer.

- O seu tio não batia em você quando você fazia por merecer? - perguntou com curiosidade. Reprimi uma risada diante do pensamento.

- Meu Deus, não! Teria ficado horrorizado com a idéia. Tio Lamb não acreditava em bater em crianças. Ele achava que era preciso conversar com elas e fazê-las entender, como adultos. - Jamie emitiu um ruído escocês na garganta, indicando desdém pela ridícula idéia.

- Isso explica suas falhas de caráter, sem dúvida - ele disse, dando uns tapinhas no meu traseiro. — Disciplina insuficiente na juventude.

- Que falhas de caráter? - quis saber. O luar estava bastante claro para que eu pudesse ver seu sorriso.

- Quer que eu liste todas?

- Não. - Enfiei o cotovelo em suas costelas. - Conte-me sobre seu pai. Que idade você tinha? - perguntei.

- Ah, treze, quatorze, talvez. Magro e alto, com espinhas. Não me lembro por que estava apanhando; nessa época, é mais provável que tenha sido algo que eu disse do que algo que tenha feito. Tudo que me lembro é que nós dois estávamos furiosos. Essa foi uma das vezes em que ele teve prazer em me bater. — Puxou-me para ele e aninhou-me em seu ombro, o braço ao meu redor. Afaguei sua barriga bem delineada, brincando com seu umbigo.

- Pare com isso, faz cócegas. Quer ouvir ou não?

- Ah, quero ouvir. O que faremos se um dia tivermos filhos: argumentar com eles ou dar-lhes uma surra? - Meu coração acelerou um pouco diante da idéia, embora não houvesse nenhum indício de que isso pudesse ser mais do que uma pergunta de retórica. Sua mão prendeu a minha, mantendo-a quieta sobre sua barriga.

- É simples. Você argumenta com eles e, quando acabar, eu os levo para fora e lhes dou uma surra.

- Pensei que você gostasse de crianças.

- Eu gosto. Meu pai gostava de mim, quando eu não estava agindo como um idiota. E ele me amava também, o bastante para me desancar quando eu estava sendo idiota.

Virei-me de bruços.

- Está bem, então. Conte-me.

Jamie sentou-se e ajeitou os travesseiros mais confortavelmente, antes de recostar-se, os braços atrás da nuca outra vez.

- Bem, ele me mandou para a cerca, como de costume. Ele sempre me fazia ir à frente, para que eu pudesse sentir a mistura adequada de terror e remorso, enquanto esperava por ele, segundo me disse. Mas ele estava tão furioso, que veio logo atrás de mim. Eu estava debruçado na cerca, sendo surrado, cerrando os dentes e resolvido a não emitir nenhum som. Não ia lhe dar o prazer de saber o quanto estava doendo. Meus dedos estavam cravados na madeira, o suficiente para arrancar-lhe lascas, e eu podia sentir meu rosto ficando vermelho por estar prendendo a respiração. — Inspirou fundo, como se quisesse compensar aquela falta de ar, e expirou lentamente.

- Em geral, eu podia saber quando estava para terminar, mas desta vez ele não parou. Tudo que eu podia fazer era manter a boca fechada; eu rosnava a cada golpe e podia sentir as lágrimas aflorando, por mais que eu piscasse, mas me mantive firme, como se fosse uma questão de vida ou morte. - Jamie estava despido até a cintura, quase brilhando à luz da lua, coberto de uma penugem prateada, como uma geada. Podia ver sua pulsação cardíaca logo abaixo do esterno, batimentos firmes e regulares embaixo da minha mão.

- Não sei por quanto tempo isso continuou. Provavelmente, não muito tempo, mas me parecia uma eternidade. Finalmente, ele parou por um instante e gritou para mim. Estava possesso de raiva e eu mesmo estava tão furioso que a princípio mal consegui entender o que ele dissera. Mas depois, entendi.

- Ele berrou: "Droga, Jamie! Não consegue gritar? Você já é crescido e eu pretendia nunca mais bater em você outra vez, mas quero ouvir um bom grito de você, rapaz, antes de parar de uma vez por todas, para que eu pense que finalmente consegui causar alguma impressão em você!" - Jamie riu, perturbando o batimento ritmado de sua pulsação cardíaca.

- Fiquei tão transtornado com aquilo, que me empertiguei, girei nos calcanhares e gritei-lhe: "Bem, por que não disse isso antes, seu velho idiota? AAAAIIIII"

- Quando dei por mim, estava no chão, com os ouvidos zumbindo e uma dor no maxilar, onde ele me dera um soco. Ele estava acima de mim, ofegante, e com a barba e os cabelos todos arrepiados. Estendeu o braço, agarrou minha mão e me levantou.

- Em seguida, deu uns tapinhas no meu queixo e disse, ainda respirando com esforço: "Isso foi por ter chamado seu pai de idiota. Pode ser verdade, mas é falta de respeito. Vamos, vamos tomar banho para jantar." E ele nunca mais me bateu. Ainda gritava comigo, mas eu gritava de volta e era de homem para homem, depois disso.

Riu, relaxado, e eu sorri no calor de seu ombro.

- Gostaria de ter conhecido seu pai - eu disse. - Ou talvez tenha sido melhor assim — eu disse, ocorrendo-me um pensamento. — Ele poderia não ter gostado de você se casar com uma inglesa.

Jamie abraçou-me com mais força e puxou as cobertas sobre meus ombros nus.

- Ele iria achar que eu finalmente adquiri algum juízo. - Afagou meus cabelos. — Ele teria respeitado minha escolha, quem quer que fosse, mas você - virou-se e beijou minha testa meigamente -, ele teria gostado muito de você, minha Sassenach. — E eu entendi o grande elogio que aquelas palavras significavam.




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