A viajante do tempo



Baixar 3.14 Mb.
Página22/37
Encontro02.07.2019
Tamanho3.14 Mb.
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   37

Hamish encolheu os ombros não dando importância à ameaça. Sem dúvida, havia algo mais importante em sua mente.

- John - começou, enrugando as sobrancelhas claras, absorto em pensamentos. —John disse...

- John o cavalariço, John o cozinheiro ou John Cameron? -Jamie perguntou.

- O cavalariço. — Hamish sacudiu a mão, afastando essa distração. - Ele disse, hã, que para casar...

- Mmm? -Jamie fez um ruído encorajador, mantendo o rosto discretamente desviado para o outro lado. Revirando os olhos para cima, seul olhar encontrou-se com o meu, enquanto eu espreitava por cima do palheiro. Abri um amplo sorriso para ele, fazendo com que mordesse o lábio para não rir em resposta.

Hamish inspirou fundo e soltou o ar de repente, lançando as palavras como uma explosão de chumbos de caça.

- Ele-disse-que-temos-que-servir-uma-mulher-como-um-garanhão-faz-com-uma-égua-e-eu-não-acreditei-mas-é-verdade?

Mordi o dedo com força para não rir alto. Não estando tão bem localizado, Jamie enfiou os dedos nos músculos da perna, ficando com o rosto tão vermelho quanto Hamish. Pareciam dois tomates, sentados lado a lado num fardo de feno para serem julgados num concurso de frutas e legumes do condado.

- Hã, sim... bem, de certa forma... - disse, com a voz estrangulada. Em seguida, recuperou o autocontrole.

- Sim - disse com firmeza. - É verdade.

Hamish lançou um olhar horrorizado para a baia mais próxima, onde o cavalo baio descansava, com mais ou menos uns trinta centímetros de seu aparelho reprodutor projetando-se de sua bainha. Olhou em seguida, incrédulo, para seu próprio colo e tive que enfiar um bolo do tecido da minha roupa na boca até onde foi possível.

- Há uma diferença, sabe — Jamie continuou. A vermelhidão começava a esmaecer em seu rosto, embora ainda houvesse um tremor sinistro em torno de seus lábios. - Para começar, é mais... delicado.

- Então, você não as morde no pescoço? - Hamish tinha a expressão séria e concentrada de alguém que tomava sérias anotações. - Para fazer com que fiquem quietas?

- Hã... não. Nem sempre, de qualquer forma. — Exercitando sua nada desprezível força de vontade, Jamie resolveu enfrentar corajosamente suas responsabilidades de esclarecimento.

- Há uma outra diferença também - disse, tendo o cuidado de não levantar os olhos. - Você pode fazer isso frente a frente, ao invés de por trás. Como a mulher preferir.

- A mulher? — Hamish pareceu em dúvida a respeito dessa nova informação. - Acho que eu iria preferir por trás. Não acho que iria querer alguém olhando para mim enquanto eu estivesse fazendo algo assim. E difícil... - perguntou - é difícil não dar risada?

Ainda estava pensando em Jamie e Hamish quando fui para a cama naquela noite. Puxei as colchas grossas, sorrindo para mim mesma. Senti uma corrente de ar frio vindo da janela e aguardava com ansiedade o momento de entrar embaixo das cobertas pesadas e aninhar-me no calor de Jamie. Imune ao frio, parecia carregar uma pequena fornalha dentro de si próprio e sua pele era sempre cálida; às vezes, quase quente, como se ele queimasse com mais intensidade em resposta ao meu próprio toque frio.

Eu ainda era uma estranha e uma forasteira, porém não mais uma hóspede no castelo. Enquanto as mulheres casadas pareciam mais amistosas, agora que eu era uma delas, as moças mais jovens pareciam se ressentir do fato de eu ter retirado de circulação um jovem solteiro e disponível. Na Verdade, observando o número de olhares glaciais e cochichos disfarçados, Perguntava-me quantas das solteiras do castelo haviam achado o caminho de uma alcova isolada com Jamie MacTavish durante seu curto período de residência.

Não mais MacTavish, é claro. A maioria dos habitantes do castelo sempre soube quem ele era e, quer eu fosse uma espiã inglesa ou não, eu agora também conhecia a necessidade do nome falso. Assim, ele se tornou Fraser publicamente e eu também. Era como a sra. Fraser que eu era recebida no aposento acima das cozinhas onde as mulheres casadas costuravam e embalavam seus bebês, trocando experiências e conhecimento, bem como avaliando acintosamente a minha própria cintura.

Por causa das minhas dificuldades anteriores em conceber, não considerara a possibilidade de gravidez quando concordei em me casar com Jamie e aguardei com certa apreensão até minha menstruação ocorrer na época. Meus sentimentos desta vez foram de total alívio, sem nada da tristeza que geralmente a acompanhava. Minha vida já estava mais do que complicada no momento, sem o acréscimo de um bebê. Pensei que Jamie talvez tivesse sentido uma pontinha de pesar, embora também ele tenha se declarado aliviado. A paternidade era um luxo que um homem em sua posição não podia desfrutar.

A porta se abriu e ele entrou, ainda esfregando a cabeça com uma toalha de linho, a água pingando de seus cabelos molhados e formando manchas escuras em sua camisa.

- Por onde andou? - perguntei, atônita. Por mais luxuoso que o Leoch pudesse ser em comparação com as residências da vila e do campo, não possuía instalações para banho além de uma tina de cobre que Colum usava para mergulhar as pernas doloridas e outra um pouco maior usada pelas mulheres que achavam que o trabalho de enchê-las valia pela privacidade que se obtinha. Qualquer outra limpeza pessoal era feita por partes, usando uma bacia e um jarro d'água, ou fora, no lago ou numa câmara pequena, de chão de pedra, que ficava perto do jardim, onde as jovens costumavam ficar nuas, deixando que suas amigas jogassem baldes de água sobre elas.

— No lago - respondeu, pendurando a toalha molhada cuidadosamente no parapeito da janela. — Alguém - disse com raiva — deixou a porta da baia aberta, assim como a porta da estrebaria também e Cobhar foi nadar no fim do dia.

— Ah, então foi por isso que você não apareceu para o jantar. Mas cavalos não gostam de nadar, gostam? — perguntei.

Ele sacudiu a cabeça, passando os dedos pelos cabelos para secá-los.

- Não, não gostam. Mas são como as pessoas, cada um é diferente do outro. E Cobhar gosta dos brotos das plantas aquáticas. Ele estava lá comendo na beira do lago quando um bando de cães da vila apareceu e correu atrás dele, fazendo com que entrasse no lago. Tive que afugentá-los e depois entrar no lago para tirá-lo de lá. Espere até eu colocar as mãos em Hamish — disse, ameaçadoramente. - Vou ensiná-lo a não deixar portões abertos.

- Vai contar a Colum? - perguntei, sentindo uma repentina compaixão pelo acusado.

Jamie sacudiu a cabeça, remexendo na bolsa em sua cintura. Retirou um pãozinho e um pedaço de queijo, aparentemente roubado da cozinha no caminho para o quarto.

- Não - disse. — Colum é muito severo com o garoto. Se soubesse que ele foi tão descuidado, não o deixaria montar por um mês. Não que pudesse mesmo, depois da surra que ia levar. Meu Deus, estou faminto. -Deu uma mordida feroz no pão, espalhando farelos.

- Não venha para a cama com isso - eu disse, eu mesma deslizando para baixo das cobertas. - O que pensa fazer com Hamish, então?

Engoliu o restante do pão e sorriu para mim.

- Não se preocupe. Vou arrastá-lo até o lago pouco antes do jantar amanhã e atirá-lo lá dentro. Quando ele conseguir chegar à margem e se secar, o jantar já terá acabado. — Terminou o queijo em três mordidas e lambeu os dedos sem nenhuma cerimônia. - Ele que vá para a cama molhado e com fome para ver como é - concluiu sombriamente.

Espreitou esperançosamente na gaveta da escrivaninha onde eu às vezes guardava maçãs ou outros pequenos pedaços de alimentos. Mas não havia nada ali esta noite e ele fechou a gaveta com um suspiro.

- Acho que consigo sobreviver até o desjejum amanhã cedo — disse filosoficamente. Tirou as roupas rapidamente e enfiou-se sob as cobertas, ao meu lado, tremendo. Embora as extremidades estivessem frias com seu mergulho no lago gelado, seu corpo ainda estava agradavelmente quente.

- Hum, é bom ficar aconchegado com você — murmurou, aninhando-se junto a mim. — Está com um cheiro diferente. Andou mexendo nas plantas hoje?

- Não — eu disse, surpresa. - Achei que fosse você... quero dizer, o cheiro. - Era um aroma pungente, de ervas, não era desagradável, mas não era familiar.

- Eu estou cheirando a peixe - ele observou, cheirando as costas da mão. - E a cavalo molhado. Não — aproximou-se ainda mais, cheirando. — Não, também não é você. Mas é aqui perto.

Saiu da cama e puxou as colchas, procurando. Nós o encontramos sob meu travesseiro.

- Que diabos...? - Peguei-o e imediatamente soltei-o. — Ai! Tem espinhos!

Era um pequeno maço de plantas, arrancadas grosseiramente pelas raízes e amarradas com um pedaço de fita negra. As plantas estavam murchas, mas um cheiro penetrante ainda era exalado pelas folhas caídas. Havia uma flor no buquê, uma prímula esmagada, cujo talo espinhoso havia picado meu dedo.

Suguei o sangue do dedo ferido, virando o maço com mais cuidado com a outra mão. Jamie permaneceu imóvel, fitando-o por um instante. De repente, pegou-o e, dirigindo-se à janela aberta, atirou-o na noite. Ao voltar para a cama, limpou vigorosamente a terra que se soltara das raízes das plantas, arrastando-a para a palma da mão, e atirou-a também pela janela, como fizera com o maço de plantas. Fechou a janela com uma pancada forte e voltou, limpando as mãos.

-Já se foi — disse, desnecessariamente. Entrou de novo sob as cobertas. - Volte para a cama, Sassenach.

- O que era aquilo? — perguntei, deitando-me ao seu lado.

- Uma brincadeira, eu acho - disse. - De mau gosto, mas apenas uma brincadeira. - Ergueu-se em um dos cotovelos e apagou a vela. - Venha cá, mo duinne — disse. - Estou com frio.

Apesar do desconcertante mau agouro, dormi bem, segura na proteção dupla da porta trancada e dos braços de Jamie. Quase ao amanhecer, sonhei com campinas cobertas de capim e cheias de borboletas. Amarelas, marrons, brancas e cor de laranja, giravam ao meu redor como folhas do outono, pousando na minha cabeça e nos ombros, deslizando pelo meu corpo como chuva, as patinhas minúsculas fazendo cócegas na minha pele e as asas aveludadas batendo como ecos fracos do meu próprio coração.

Flutuei suavemente para a superfície da realidade e descobri que as patas das borboletas no meu estômago eram as mechas flamejantes da cabeleira emaranhada, macia e ruiva de Jamie, e que a borboleta presa entre minhas coxas era sua língua.

- Hum - murmurei, algum tempo depois. — Bem, para mim está tudo bem, mas e quanto a você?

- Em menos de um minuto se você continuar desse jeito — disse, afastando minha mão com um sorriso. — Mas é melhor eu deixar para mais tarde. Sou um homem lento e cauteloso por natureza, sabe. Posso pedir o favor de sua companhia esta noite, senhora?

- Pode — respondi. Coloquei os braços atrás da cabeça e fitei-o com um olhar semicerrado e desafiador. — Se estiver querendo me dizer que está tão decrépito que já não consegue mais de uma vez por dia.

Olhou-me com os olhos estreitados de onde estava na borda da cama. Só vi um lampejo branco quando ele se lançou e me vi pressionada com força no colchão de penas.

- Sim, bem - ele disse nos cachos do meu cabelo —, não vai dizer que não a avisei.

Dois minutos e meio depois, ele gemeu e abriu os olhos. Esfregou o rosto e a cabeça vigorosamente com ambas as mãos, fazendo as mechas mais curtas ficarem espetadas como um porco-espinho. Em seguida, uma imprecação gaélica abafada, deslizou relutantemente para fora dos cobertores e começou a se vestir, tremendo no ar frio da manhã.

- Será que você não podia - perguntei esperançosamente - dizer ao Alec que está doente e voltar para a cama?

Ele riu e inclinou-se para beijar-me antes de tatear embaixo da cama, em busca de suas meias.

- Poder eu posso, Sassenach, mas duvido que qualquer coisa menos do que varíola, a peste ou um grave ferimento serviria como desculpa. Se eu não estivesse sangrando, Alec estaria aqui num instante, arrastando-me do meu leito de morte para ajudá-lo com os parasitas.

Olhei para suas pernas longas e elegantes enquanto ele puxava a meia para cima cuidadosamente e dobrava á beirada.

- Grave ferimento, hein? Eu poderia arranjar alguma coisa nesse sentido - eu disse, ameaçadoramente.

Gemeu ao agachar-se para pegar a outra meia.

- Bem, cuidado onde você lança suas flechas mágicas, Sassenach. — Tentou dar uma piscadela maliciosa, mas acabou apenas estreitando os olhos para mim. - Se mirar muito para cima não vou servir nem para você.

Arqueei uma das sobrancelhas e enfiei-me de novo sob as cobertas.

- Não se preocupe. Nada acima do joelho, prometo.

Deu uns tapinhas numa das saliências mais volumosas das cobertas e partiu para a estrebaria, cantando um pouco alto demais uma ária de "Lá em cima, entre as urzes". O refrão flutuou de volta pelo vão da escada.

Sentado com uma garota, seguranâo-a em meus joelhos— Quando uma abelha me picou, bem acima do joeeeelho-Lá em cima, entre as urzes, na cabeceira do Bendikee!

Ele tinha razão, pensei: ele realmente não tinha ouvido para música.

Relaxei temporariamente num estado de saciada sonolência, mas levantei logo depois para ir fazer o desjejum. A maioria dos habitantes do castelo já havia feito sua refeição matinal e partido para o trabalho; os que ainda estavam no salão saudaram-me com bastante cordialidade. Não houve nenhum olhar de esguelha, nenhuma expressão de hostilidade velada, de alguém imaginando como sua maldosa brincadeira havia funcionado. Mesmo assim, observei os rostos.

A manhã foi passada sozinha nos jardins e nos campos com minha cesta e minha pazinha. Meu estoque de algumas das ervas mais populares estava quase no fim. Em geral, o pessoal da vila recorria a Geillis Duncan quando precisava de ajuda, mas ultimamente vários pacientes da vila tinham aparecido no meu consultório e o tráfego de panacéias andava intenso, talvez a doença de seu marido estivesse mantendo-a ocupada demais para cuidar de seus clientes regulares.

Passei o final da tarde no meu consultório. Havia poucos pacientes; apenas um caso persistente de eczema, um polegar deslocado e um rapaz da cozinha que derramara uma panela de sopa quente em uma das pernas. Depois de aplicar uma pomada anestésica e lírio-azul, e de recolocar e en-faixar o polegar, dediquei-me à tarefa de moer algumas raízes duras como pedra em um pequeno almofariz do falecido Beaton.

Era um trabalho tedioso, mas adequado àquela espécie de tarde preguiçosa. O tempo estava bom e pude ver sombras azuis estendendo-se por baixo dos olmos a oeste quando subi na minha mesa para olhar para fora.

Do lado de dentro, os frascos de vidro brilhavam em fileiras bem ordenadas, pilhas bem arrumadas de bandagens e compressas nos armários ao lado. O armário do boticário fora completamente limpo e desinfetado e agora guardava estoques de folhas secas, raízes e cogumelos, cuidadosamente acondicionados em sacos de gaze de algodão. Respirei fundo os cheiros penetrantes e condimentados do meu santuário e expirei com um suspiro de satisfação.

Em seguida, parei de moer as ervas e coloquei o pilão de lado. Eu estava satisfeita, percebi com um choque. Apesar da miríade de incertezas da minha vida ali, apesar do aborrecimento do mau agouro, apesar da dor funda e constante da saudade de Frank, eu na realidade não estava infeliz. Muito pelo contrário.

Senti-me imediatamente envergonhada e desleal. Como eu podia estar feliz, quando Frank devia estar enlouquecido de preocupação? Presumindo que o tempo de fato continuava sem mim - e não via por que não o faria - eu devia estar desaparecida há mais de quatro meses. Eu o imaginava vasculhando a zona rural escocesa, chamando a polícia, aguardando algum sinal, alguma palavra minha. A essa altura, ele já devia ter praticamente perdido as esperanças e, em vez disso, devia estar aguardando a notícia de que meu corpo fora encontrado.

Coloquei o almofariz sobre a mesa e fiquei andando para cima e para baixo na minha sala estreita, esfregando as mãos no avental em um espasmo de culpa, tristeza e arrependimento. Eu devia ter fugido há mais tempo. Devia ter tentado regressar com mais afinco. Mas eu tentei, lembrei a mim mesma. Tentara diversas vezes. E veja o que aconteceu.

Sim, veja. Estava casada com um fora-da-lei escocês, nós dois caçados por um sádico capitão dos dragões e vivendo com um monte de bárbaros, que matariam Jamie com a mesma rapidez com que olham para ele, se o considerassem uma ameaça à preciosa sucessão do seu clã. E o pior de tudo era o fato de que eu estava feliz.

Sentei-me, fitando desamparadamente a fileira de frascos e jarros. Eu estava vivendo um dia após o outro desde nosso retorno a Leoch, deliberadamente eliminando as lembranças de minha vida anterior. No fundo, sabia que logo teria que tomar algum tipo de decisão, mas eu a estava adiando, protelando a necessidade de um dia para o outro, de uma hora para a outra, enterrando minhas incertezas nos prazeres da companhia de Jamie - e nos seus braços.

Ouviu-se uma súbita pancada e um palavrão no corredor e levantei-me apressadamente, dirigindo-me à porta, a tempo de ver o próprio Jamie entrar aos tropeções, apoiado pela figura curvada do Velho Alec MacMahon de um lado e dos esforços bem-intencionados, porém magros e espigados, de um dos cavalariços do outro. Deixou-se cair no meu banco e estendeu o pé esquerdo com uma careta desagradável. A careta parecia ser mais de aborrecimento do que de dor, de modo que me abaixei para examinar o apêndice dolorido com relativa preocupação.

- Um leve estiramento - eu disse, após uma inspeção rápida. - O que você fez?

- Caí - Jamie respondeu laconicamente.

- Da cerca? - perguntei, provocando-o. Ele ficou vermelho.

- Não. De Donas.

- Você estava montando aquele animal? — perguntei incrédula. — Nesse caso, tem sorte de se sair dessa com um tornozelo distendido. - Fui buscar uma atadura e comecei a envolver a junta.

- Bem, não foi tão mal assim — disse o Velho Alec sensatamente. - Na verdade, rapaz, você estava se saindo muito bem com ele por algum tempo.

- Eu sei que estava — retorquiu Jamie, rangendo os dentes quando eu apertava a bandagem. - Uma abelha picou-o.

As sobrancelhas cabeludas ergueram-se.

- Ah, foi isso? O animal agia como se tivesse sido atingido pelo dardo de um elfo — confidenciou-me Alec. — Deu um salto com as quatro patas no ar e desceu, depois ficou completamente louco, saltando por todo o cercado como uma abelha numa garrafa. O rapaz continuou agarrado -disse, balançando a cabeça em direção a Jamie, que inventou uma nova expressão desagradável em resposta -, até que o enorme demônio amarelo saltou por cima da cerca.

- Por cima da cerca? Onde ele está agora? - perguntei, levantando-me e limpando as mãos.

-- A caminho do inferno, espero —Jamie disse, colocando o pé no chão e experimentando cuidadosamente colocar seu peso sobre ele. — E é bom que fique por lá. - Contraindo-se, sentou-se novamente.

- Duvido que o diabo faça uso de um garanhão ainda selvagem - Alec observou -, sendo ele próprio capaz de se transformar num cavalo quando necessário.

- Talvez Donas seja o próprio demônio — sugeri, divertindo-me.

- Eu não duvidaria — disse Jamie, ainda sentindo dor, mas começando a recuperar seu habitual bom humor. - O diabo geralmente é um garanhão negro, não é?

- Ah, sim - disse Alec. - Um grande garanhão negro, que viaja rápido como o pensamento entre um homem e uma mulher.

Riu alegremente para Jamie e levantou-se para ir embora.

- E por falar nisso — disse, piscando o olho para mim -, não espero você na estrebaria amanhã. Fique na cama, rapaz, e, hã... descanse.

- Por que será — perguntei, olhando o velho e rabugento chefe da estrebaria — que todo mundo acha que não temos mais nada na cabeça além de irmos para a cama?

Jamie experimentou colocar o peso do corpo sobre o pé outra vez, apoiando-se na bancada.

- Para começar, estamos casados há menos de um mês — observou. -Além disso - ergueu os olhos e riu, sacudindo a cabeça -, já lhe disse antes, Sassenach. Tudo que você pensa fica estampado no seu rosto.

- Caramba! — esbravejei.

A exceção de uma passada rápida no consultório para ver se havia alguma emergência, a manhã seguinte passei atendendo às necessidades um pouco exigentes do meu paciente solitário.

- Você devia estar descansando - eu disse em tom reprovador.

- E estou. Bem, meu tornozelo está descansando, ao menos. Está vendo?

Uma tíbia longa, sem meia, projetou-se no ar e um pé esbelto, ossudo, sacudiu-se de um lado para o outro. Parou bruscamente no meio do movimento, com um "ai" abafado do seu proprietário. Abaixou-o e delicadamente massageou o tornozelo ainda inchado.

- Isso vai ensiná-lo — eu disse, girando minhas próprias pernas para fora dos cobertores. - Agora venha comigo. Já está criando mofo na cama há bastante tempo. Precisa de ar fresco.

Ele sentou-se, os cabelos caindo no rosto.

- Pensei que tivesse dito que eu precisava descansar.

- Pode descansar no ar fresco. Levante-se. Vou arrumar a cama. Entre queixumes sobre minha insensibilidade e falta de consideração por um homem gravemente machucado, ele se vestiu e ficou sentado o tempo suficiente para eu amarrar o tornozelo enfraquecido antes de sua exuberância natural dominar outra vez.

- Está chovendo — disse, olhando rapidamente pelo postigo da janela, onde o leve chuvisco preparava-se para dar lugar a um grande aguaceiro. - Vamos para o telhado.

- Para o telhado? Ah, sem dúvida. Não poderia pensar numa recomendação melhor para um tornozelo estirado do que subir seis lances de escada.

- Cinco. Além do mais, tenho uma bengala. - Apresentou a bengala em questão, uma clava antiga de pilriteiro, tirando-a de trás da porta com um floreio triunfante.

- Onde conseguiu isso? — perguntei, examinando-a. De perto, era ainda mais desgastada, uma vara de madeira de lei, de cerca de um metro, machucada em diversos lugares e endurecida pelo tempo como um diamante.

- Alec a emprestou para mim. Ele a usa nas mulas; bate entre os olhos do animal com ela para fazê-lo prestar atenção.

- Parece bem eficaz — eu disse, olhando a madeira gasta. - Talvez eu a experimente algum dia. Em você.

Emergimos finalmente em um pequeno local coberto, logo abaixo do ressalto do telhado de ardósia. Um parapeito baixo protegia a borda daquele pequeno mirante.

- Ah, é lindo! — Apesar do temporal, a vista do telhado era magnífica; Podíamos ver a curva larga e prateada do lago e os penhascos elevados mais além, arremessando-se no sólido céu cinzento como punhos negros e recortados.

Jamie apoiou-se no parapeito, tirando o peso de seu pé machucado.

- É, sim. Eu costumava vir aqui às vezes, na primeira temporada que passei aqui no castelo.

Apontou para o outro lado do lago, todo perfurado sob os pingos fortes da chuva.

- Vê aquela fenda lá, entre aqueles dois penhascos?

- Nas montanhas? Sim.

- Aquele é o caminho para Lallybroch. Quando ficava com saudade da minha casa, às vezes vinha até aqui e ficava olhando para lá. Imaginava-me voando como um corvo através daquele desfiladeiro, vendo as montanhas e os campos, descendo do outro lado da serra, a mansão no fim do vale.

Toquei seu braço com ternura. -- Você quer voltar, Jamie? Virou a cabeça e sorriu para mim.

- Bem, estive pensando nisso. Não sei exatamente se quero voltar, mas

acho que devemos. Não sei o que encontraremos lá, Sassenach. Mas... sim.

Estou casado agora. Você é a dona de Broch Tuarach. Fora-da-lei ou não,

Eu preciso voltar, ainda que apenas pelo tempo suficiente para ajeitar as coisas.

Senti uma emoção intensa, composta de alívio e apreensão, à idéia de deixar Leoch e suas variadas intrigas.

- Quando partiremos?

Ele franziu a testa, tamborilando os dedos no parapeito. A pedra estava escura e escorregadia com a chuva.

- Bem, acho que temos que esperar a chegada do duque. É possível que ele cuide de meu caso como um modo de fazer um favor a Colum. Se ele não conseguir me inocentar, talvez consiga um perdão. Então, haveria bem menos perigo de voltar a Lallybroch.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   37


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande