A viajante do tempo



Baixar 3.14 Mb.
Página19/37
Encontro02.07.2019
Tamanho3.14 Mb.
1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   ...   37

22 - ACERTOS DE CONTAS
Chegamos a Doonesbury bem depois do anoitecer. Era uma parada de carruagens de bom tamanho, com uma hospedaria adjacente, felizmente. Dougal fechou os olhos de desgosto ao pagar o estalajadeiro; seriam necessárias muitas moedas de pratas extras para garantir seu silêncio quanto à nossa presença.

O dinheiro, entretanto, também garantiu uma boa refeição, com bastante cerveja. Apesar da comida, o jantar foi sombrio, quase todo transcorrido em silêncio. Ali sentada em meus trajes arruinados, recatadamente coberta com a camisa extra de Jamie, eu obviamente caíra em desgraça. Exceto por Jamie, os homens comportavam-se como se eu fosse completamente invisível e até mesmo Jamie não fez mais do que empurrar o pão e a carne para mim de vez em quando. Foi um alívio finalmente subir para o nosso quarto, apesar de pequeno e confinado.

Afundei na cama com um suspiro, sem me preocupar com o estado das roupas de cama.

- Estou exausta. Foi um longo dia.

- Sim, é verdade. - Jamie abriu o colarinho e os punhos e desafivelou o cinto de sua espada, mas não continuou a se despir. Puxou a tira de couro da bainha da espada e dobrou-a, flexionando o couro e ponderando.

- Venha dormir, Jamie. O que está esperando?

Aproximou-se e ficou de pé ao lado da cama, balançando o cinto devagar de um lado para o outro.

- Bem, moça, receio que ainda tenhamos um assunto para acertar entre nós antes de dormir. - Senti uma repentina pontada de apreensão.

- O que é?

Não respondeu de imediato. Em vez de sentar-se na cama a meu lado, puxou um banco e sentou-se diante de mim.

- Você compreende, Claire, que todos nós quase fomos mortos esta tarde?

Abaixei os olhos para a colcha, envergonhada.

- Sim, eu sei. Minha culpa. Sinto muito.

-- Sim, então você compreende. Sabe que se um dos nossos homens tivesse agido assim, colocando todos os demais em perigo, provavelmente teria as orelhas cortadas, ou seria chicoteado, ou mesmo simplesmente morto?

Empalideci.

- Não, não sabia.

- Bem, sei que ainda não está familiarizada com nossos costumes e isso a desculpa um pouco. Ainda assim eu lhe disse para ficar escondida e, se você tivesse obedecido, nada disso teria acontecido. Agora os ingleses estarão em nosso encalço por toda a parte; agora, vamos ter que ficar escondidos durante o dia e viajar durante a noite.

Fez uma pausa.

- E quanto ao capitão Randall... sim, essa é uma outra história.

- Ele estará especialmente à sua procura, quer dizer, agora que sabe que está aqui? — Ele assentiu distraidamente, fitando o fogo na lareira.

- Sim. Ele... a questão com ele é pessoal, entende?

- Sinto muito, Jamie — eu disse. Jamie descartou meu pedido de desculpas com um gesto da mão.

- Ah, se fosse apenas a mim que você tivesse prejudicado com isso, eu não diria mais nada. Mas já que estamos conversando — lançou-me um olhar penetrante -, vou lhe dizer que quase me matou ver aquele animal com as mãos em você. - Desviou o olhar para o fogo, a expressão sombria, como se revivesse os acontecimentos da tarde.

Pensei em contar-lhe sobre as... dificuldades de Randall, mas temia que fosse piorar as coisas. Queria desesperadamente abraçar Jamie e suplicar-lhe que me perdoasse, mas não ousava tocá-lo. Após um longo momento de silêncio, ele suspirou e levantou-se, batendo o cinto de leve na perna.

- Muito bem - disse. - É melhor acabar logo com isso. Você causou danos consideráveis ao contradizer minhas ordens e vou castigá-la por isso, Claire. Lembra-se do que lhe disse quando a deixei pela manhã? - Eu me lembrava muito bem e rapidamente levantei-me na cama para que minhas costas ficassem contra a parede.

- O que quer dizer?

- Sabe muito bem o que quero dizer — respondeu com firmeza. -Ajoelhe-se junto à cama e levante suas saias, moça.

- Não vou fazer isso! - Agarrei com as duas mãos o pé do dossel da cama e fui me encolhendo mais para o canto.

Jamie observou-me por um instante com os olhos apertados, decidindo o próximo passo. Ocorreu-me que não havia nada que pudesse impedi-lo de fazer o que quisesse comigo; pesava mais uns quarenta quilos do que eu. Mas, por fim, ele resolveu conversar, em vez de agir, e cuidadosamente colocou o cinto de lado, antes de arrastar-se pelas cobertas e sentar-se ao meu lado.

- Veja bem, Claire... - começou.

- Eu já pedi desculpas! — explodi. - E sinto muito mesmo. Nunca mais farei isso!

- Bem, essa é a questão — disse devagar. — Talvez faça. E isso é porque você não leva as coisas tão a sério quanto elas são. Acho que você vem de um lugar onde tudo é mais fácil. De onde você vem, não é uma questão de vida ou morte desobedecer ordens ou tomar decisões por conta própria. Na pior das hipóteses, pode causar algum desconforto a alguém, ou ser um pouco inconveniente, mas provavelmente não vai matar ninguém. - Observei seus dedos alisarem as pregas do kilt de xadrez em tons de marrom, enquanto arrumava os pensamentos.

- A dura verdade é que um ato simples pode ter conseqüências muito sérias em lugares e tempos como estes, especialmente para um homem como eu. - Deu uns tapinhas no meu ombro, vendo que eu estava à beira das lágrimas.

- Sei que você jamais me colocaria em perigo ou a ninguém mais de propósito. Mas pode facilmente fazê-lo sem intenção, como fez hoje, porque você não acredita em mim quando lhe digo que algumas coisas são perigosas. Está acostumada a pensar por conta própria e eu sei - olhou-me de viés — que não está acostumada a que um homem lhe diga o que fazer. Mas tem que aprender a agir assim, pelo bem de todos nós.

- Está bem - eu disse devagar. - Eu compreendo. Tem razão, é claro. Tudo bem; seguirei suas ordens, mesmo que não concorde com elas.

- Ótimo. - Levantou-se e pegou o cinto. - Agora, saia da cama e acabaremos logo com isso.

Abri a boca, indignada.

- O quê?! Eu disse que seguiria suas ordens!

Suspirou, exasperado, em seguida sentou-se novamente no banco. Olhou-me sem piscar.

- Agora, ouça. Você diz que me compreende e eu acredito. Mas existe uma diferença entre entender com a mente e realmente saber, lá no fundo. - Assenti, com relutância.

- Muito bem. Agora, eu vou ter que puni-la e por duas razões: primeiro, para que você realmente saiba. - Sorriu, de repente. - Posso dizer-lhe pela minha própria experiência que uma boa surra faz você ver as coisas sob uma luz mais séria. — Agarrei a coluna de madeira com mais força.

- A outra razão — continuou - é por causa dos outros homens. Notou como se comportaram esta noite? Eu notei; o ambiente estava tão desagradável no jantar que foi um alívio vir para o quarto.

-- Existe uma coisa chamada justiça, Claire. Você agiu mal com todos eles e terá que sofrer por isso. - Respirou fundo. - Sou seu marido; é meu dever resolver isso e é o que pretendo fazer.

Eu tinha fortes objeções a essa proposição em diversos níveis, qualquer que fosse a justiça dessa situação - e eu tinha que admitir que em parte ele tinha razão - meu senso de amor-próprio ofendia-se profundamente diante da idéia de levar uma surra, por quem quer que fosse e por qualquer que fosse a razão.

Senti-me profundamente traída pelo fato de que o homem do qual eu dependia como amigo, protetor e amante pretendesse fazer tal coisa comigo. E minha noção de autopreservação estava aterrorizada diante da idéia de me submeter à compaixão de um homem que manejava uma espada de sete quilos como se fosse um mata-moscas.

- Não vou permitir que bata em mim - disse com firmeza, agarrando-me à coluna do dossel da cama.

- Ah, não? - Ergueu as sobrancelhas ruivas. - Bem, vou lhe dizer, menina, acho que não tem muita escolha. Você é minha mulher, quer goste ou não. Se quisesse quebrar seu braço, deixá-la a pão e água ou trancá-la num quartinho por vários dias - e não pense que não me sinto tentado -, eu poderia, quanto mais esquentar o seu traseiro.

- Vou gritar!

- É provável. Se não antes, certamente durante. Espero que a ouçam até a fazenda mais próxima; você tem bons pulmões. - Riu de forma abominável e atravessou a cama em meu encalço.

Soltou meus dedos com alguma dificuldade e puxou-me com firmeza, arrastando-me para a beirada da cama. Chutei sua canela, mas não causei nenhum dano, já que estava sem sapatos. Grunhindo levemente, conseguiu me colocar com o rosto para baixo na beira da cama, torcendo meu braço para trás para me manter na posição.

- Eu pretendo cumprir minha palavra, Claire! Agora, se cooperar comigo, consideraremos as contas acertadas com doze pancadas.

- E se eu não cooperar? - perguntei com a voz trêmula. Ele apanhou o cinto e bateu-o contra a perna com um desagradável som estalado.

- Então, terei que colocar um joelho em suas costas e espancá-la até meu braço doer e vou avisá-la, você vai se cansar muito antes de mim.

Virei-me rapidamente para encará-lo, os punhos cerrados.

- Seu bárbaro! Seu... seu sádico! - disse entre dentes, furiosa. - Está fazendo isso por seu próprio prazer! Nunca o perdoarei por isso! - Jamie parou, girando o cinto.

Retorquiu sem se alterar:

- Não sei o que é um sádico. E se eu a perdôo por esta tarde, imagino que vá me perdoar também, assim que puder sentar-se outra vez.

- Quanto a meu prazer... — Seu lábio contorceu-se. - Eu disse que teria que castigá-la. Eu não disse que não ia gostar. - Fez sinal com o dedo dobrado para mim.

- Venha cá.

Relutei em deixar o santuário do meu quarto na manhã seguinte e fiquei fazendo hora, amarrando e desamarrando fitas e escovando os cabelos. Não falara com Jamie desde a noite anterior, mas ele notou minha hesitação e instou-me a sair com ele para o desjejum.

- Não precisa temer enfrentar os outros, Claire. Eles vão zombar um pouco de você, é provável, mas não será nada demais. Levante o queixo. -Bateu de leve sob meu queixo e eu mordi sua mão, com força, mas não profundamente.

- Oooh! - Retirou os dedos depressa. - Cuidado, menina, não sabe onde eles andaram. — Deixou-me, dando uma risadinha, e foi comer.

Devia estar mesmo de bom humor, pensei amargamente. Se era vingança o que ele queria na noite anterior, ele a tivera.

Fora uma noite extremamente desagradável. Minha relutante aquiescência durara precisamente até o primeiro estalo abrasador do couro na pele. A isso seguiu-se uma luta curta e violenta, que deixou Jamie com o nariz sangrando, três belos arranhões em um dos lados do rosto e um pulso com uma mordida profunda. Como era de se esperar, isso me deixou esmagada contra as cobertas encardidas, com um joelho nas costas, surrada quase até a morte.

Jamie, que o diabo carregue sua maldita alma escocesa, provou ter razão. Os homens foram contidos em seus cumprimentos, mas mostraram-se bastante amigáveis; a hostilidade e o desprezo da noite anterior desapareceram.

Quando eu me servia de ovos no aparador, Dougal aproximou-se e passou um braço paternal pelos meus ombros. Sua barba espetou minha orelha quando sussurrou em tom confidencial:

- Espero que Jamie não tenha sido muito duro com você ontem à noite, dona. Parecia que estava sendo assassinada, para dizer o mínimo.

Meu rosto ficou vermelho e quente e eu me virei para que ele não notasse. Após os insolentes comentários de Jamie, decidira manter a boca fechada durante toda a provação. Entretanto, no calor do acontecimento, eu teria desafiado a própria Esfinge a ficar de boca fechada enquanto sentia a ponta do couro brandido por Jamie Fraser.

Dougal virou-se para falar com Jamie, sentado à mesa, comendo pão e queijo.

- Ora, Jamie, não precisava quase matar a moça. Um lembrete delicado teria sido o suficiente. - Deu uma palmada com firmeza no meu traseiro para ilustrar, fazendo-me encolher involuntariamente. Olhei-o furiosa.

- Um traseiro empolado nunca causou danos permanentes a ninguém - disse Murtagh, com a boca cheia de pão.

- Não, é verdade — disse Ned, rindo. - Venha sentar-se aqui, dona.

- Prefiro ficar de pé, obrigada - respondi com dignidade, fazendo todos desatarem em gargalhadas. Jamie evitou fitar-me nos olhos, cortando diligentemente um pedaço de queijo.

Houve mais algumas chacotas bem-humoradas durante o dia e cada um dos homens arranjou uma desculpa para dar uma palmada no meu traseiro em falsa solidariedade. No cômputo geral, entretanto, foi suportável e de má vontade comecei a considerar que Jamie talvez tivesse razão, embora eu ainda quisesse estrangulá-lo.

Já que sentar estava fora de questão, ocupei a manhã com pequenos afazeres como fazer bainhas e pregar botões, que podiam ser feitos no peitoril da janela, com a desculpa de precisar de luz para costurar. Após o almoço, que comi de pé, todos foram para os seus quartos descansar. Dougal decidira que esperaríamos até ficar completamente escuro antes de partir para Bargrennan, a próxima parada em nossa jornada. Jamie seguiu-me para nosso quarto, mas fechei a porta com firmeza na sua cara. Que dormisse no chão outra vez.

Ele fora bastante diplomático na noite anterior, colocando o cinto de volta na cintura e deixando o quarto sem falar nada assim que terminou. Voltara uma hora mais tarde, depois que apaguei a luz e fui para a cama, mas teve o bom senso de não tentar deitar-se na cama comigo. Após espreitar no escuro onde eu permanecia imóvel, suspirou fundo, enrolou-se no seu xale e foi dormir no chão perto da porta.

Furiosa, transtornada e fisicamente desconfortável demais para dormir, eu passara a maior parte da noite acordada, remoendo o que Jamie dissera e com vontade de me levantar e chutá-lo em algum ponto sensível.

Se eu fosse objetiva, o que não estava com a menor disposição de ser, eu teria admitido que ele tinha razão quando dizia que eu não levava as coisas com a devida seriedade. Mas ele estava errado quando dizia que era porque as coisas eram menos precárias no lugar de onde eu vinha - onde quer que fosse. Na realidade, pensei, o mais provável é que o contrário é que fosse verdadeiro.

Esta época ainda era, de muitas maneiras, irreal para mim; algo saído de uma peça teatral ou de um desfile de fantasias. Comparadas às visões de guerra mecanizada, em massa, de onde eu vinha, as pequenas batalhas que eu vira - alguns poucos homens armados de espadas e mosquetes -pareciam-me pitorescas em vez de assustadoras.

Eu estava tendo problemas de escala. Um homem morto por um mosquete estava tão morto quanto outro atingido por um morteiro. A questão é que o morteiro matava impessoalmente, destruindo dezenas de homens, enquanto o mosquete era disparado por um único homem que podia ver os olhos daquele a quem matava. Isso era homicídio, parecia-me, e não guerra. Quantos homens eram necessários para fazer uma guerra? O bastante, talvez, para que não tivessem que ver uns aos outros? E no entanto aquilo obviamente era guerra — ou ao menos uma questão séria - para Dougal, Jamie, Rupert e Ned. Até mesmo o pequeno Murtagh de cara de fuinha tinha razões para uma violência além de sua inclinação natural.

E quanto às razões? Um rei em vez de outro? Um Hanover em vez de um Stuart? Para mim, não passavam de nomes em um diagrama na parede da escola. O que eram, comparados a um mal inimaginável como o Reich de Hitler? Fazia diferença para os que viviam sob aquele reinado, suponho, embora as diferenças pudessem me parecer triviais. Ainda assim, quando o direito de uma pessoa viver como deseja foi considerado trivial? Uma luta para escolher o próprio destino valeria menos do que a necessidade de pôr fim a um grande mal? Revirei-me na cama, irritada, esfregando delicadamente meu traseiro dolorido. Olhei com raiva para Jamie, enrascado como uma bola junto à porta. Respirava regularmente, mas de leve; talvez ele também não conseguisse dormir. Esperava que não.

No começo, ficara inclinada a considerar toda essa notável desventura como um melodrama; coisas assim simplesmente não aconteciam na vida real. Já sofrera muitos choques desde que atravessara o círculo de pedra, mas o pior até o momento fora o desta tarde.

Jack Randall, tão parecido e tão terrivelmente diferente de Frank. O toque de sua mão em meus seios repentinamente formara um elo entre minha antiga vida e esta de agora, reunindo minhas realidades distintas com o estrondo de um trovão. E havia Jamie: seu rosto, paralisado de medo na janela da sala de Randall, tenso de raiva na beira da estrada, contorcido de dor diante de meus insultos.

Jamie. Jamie era real, é verdade, mais real do que qualquer coisa já fora para mim, até mesmo Frank e minha vida em 1945. Jamie, amante terno e pérfido patife.

Talvez esse fosse parte do problema. Jamie preenchia meus sentidos tão completamente que o ambiente em que vivia parecia quase irrelevante. Mas eu não podia mais me dar ao luxo de ignorá-lo. Minha imprudência quase o matara esta tarde e meu estômago revirou-se à idéia de perdê-lo. Sentei-me repentinamente, pretendendo ir acordá-lo e dizer-lhe para vir deitar-se na cama comigo. Mas quando meu peso recaiu por inteiro sobre os resultados de sua obra, depressa mudei de idéia e me virei com raiva sobre o estômago.

Uma noite passada assim, dilacerada entre acessos de raiva e filosofia, deixara-me exausta. Dormi a tarde toda e fui cambaleando, os olhos turvos, Para uma ceia leve quando Rupert me acordou pouco antes de escurecer.

Dougal, sem dúvida lamentando a despesa, adquiriu um outro cavalo Para mim. Um animal forte, embora deselegante, com um olhar bondoso e uma crina curta e espetada; imediatamente batizei-o de Cardo, o emblema heráldico da Escócia.

Não havia pensado nos efeitos de uma longa viagem a cavalo depois de uma surra grave. Olhei em dúvida para a sela dura do meu cavalo, compreendendo de repente o que me aguardava. Uma manta grossa caiu subitamente sobre a sela e o olho preto e brilhante como o de um rato de Murtagh piscou para mim do outro lado, com um ar de conspiração. Decidi que eu ao menos sofreria em silêncio digno e cerrei furiosamente os maxilares quando me ergui para a sela.

Parecia haver uma conspiração galante e não declarada entre os homens; revezavam-se parando a intervalos freqüentes para se aliviarem, permitindo que eu desmontasse por alguns minutos e sorrateiramente massageasse minhas doloridas nádegas. De vez em quando, alguém sugeria que parássemos para beber água, o que tornava necessário que eu parasse também, já que Cardo carregava as garrafas de água.

Prosseguimos assim sacolejando por algumas horas, mas a dor ficou cada vez pior, fazendo com que eu me remexesse na sela sem parar. Finalmente, resolvi mandar para o inferno o sofrimento digno, eu simplesmente tinha que desmontar por algum tempo.

- Ôoopa! - exclamei para o cavalo e desmontei. Fingi examinar sua pata dianteira esquerda, enquanto os outros cavalos paravam em círculo à nossa volta.

- Acho que entrou uma pedra no casco dele - menti. - Já tirei, mas acho melhor andar com ele um pouco; não quero que fique manco.

- Não, não podemos deixar que isso aconteça — disse Dougal. - Está bem, ande um pouco, mas alguém tem que ficar com você. É uma estrada bastante tranqüila, mas não posso deixá-la andando sozinha. - Jamie apeou imediatamente.

- Caminharei com ela - disse serenamente.

- Ótimo. Não se demorem muito. Temos que chegar em Bargrennan antes do raiar do dia. Vamos para o Javali Vermelho; o proprietário é amigo. - Com um aceno, reuniu os demais e partiram num trote ligeiro, deixando-nos no rastro de poeira.

Várias horas de tortura na sela não contribuíram para melhorar meu humor. Que caminhe comigo se quiser. Não iria falar com ele, aquele sádico brutamontes.

Não parecia particularmente um brutamontes à luz da lua crescente, mas depois de mais ou menos meia hora, comecei a caminhar com bem mais facilidade.

- Amanhã vai se sentir bem melhor - Jamie observou descontraída-mente. — Embora só vá poder se sentar facilmente depois de amanhã.

- E o que faz de você um especialista? - disse, lançando-lhe um olhar chispante. - Surra as pessoas freqüentemente?

- Bem, não - disse, sem se deixar perturbar pela minha atitude. — Foi a primeira vez que fiz isso. Mas tenho considerável experiência na outra ponta.

- Você? - perguntei, admirada. A idéia de alguém pegar um cinto para bater naquela montanha de músculos e tendões era inteiramente impensável.

Riu diante da minha expressão.

- Quando eu era um pouco menor, Sassenach. Já tive meu traseiro surrado mais vezes do que poderia contar, entre as idades de oito e treze anos. Foi quando fiquei mais alto do que meu pai e ele não pôde mais me fazer debruçar na cerca.

- Seu pai batia em você?

- Ah, muitas vezes. O professor também, é claro, e Dougal ou um dos outros tios de vez em quando, dependendo de onde eu estivesse e do que andara fazendo.

Comecei a ficar interessada, apesar da minha determinação de ignorá-lo.

- O que você fazia?

Riu outra vez, um som baixo mas contagiante no ar tranqüilo da noite.

- Bem, não me lembro de tudo. Diria que, de um modo geral, eu mereci. Ao menos, acho que meu pai nunca me bateu injustamente. — Caminhou sem falar por um minuto, pensando.

- Hum. Vejamos, houve uma vez por apedrejar as galinhas e outra por montar nas vacas e deixá-las agitadas demais para produzirem leite e depois por comer toda a geléia dos bolos, deixando os bolos para trás. Ah, e por deixar os cavalos saírem da estrebaria, eu não havia trancado o portão. Por atear fogo na palha do pombal, o que foi um acidente, não fiz de propósito. E por perder meus livros escolares, isso eu fiz de propósito, e... — Parou, encolhendo os ombros, enquanto eu ria mesmo contra minha vontade.

-- Esse tipo de coisas. Mas geralmente era por abrir a boca quando deveria mantê-la fechada.

Riu diante de uma lembrança.

- Uma vez minha irmã Jenny quebrou um jarro; eu a deixei irritada, caçoando dela, ela perdeu o espírito esportivo e atirou o jarro em cima de mim. Quando meu pai chegou e quis saber quem fizera aquilo, ela ficou com medo demais para confessar e simplesmente olhou para mim, com os olhos arregalados e assustados. Ela tem olhos azuis, como os meus, porém mais bonitos, com pestanas negras ao redor. - Jamie deu de ombros outra vez. -- De qualquer modo, eu disse a meu pai que tinha sido eu.

- Foi muito nobre de sua parte — eu disse, em tom sarcástico. — Sua rirmã deve ter ficado agradecida.

- Ah, sim, teria ficado. Só que meu pai estivera o tempo todo do outro lado da porta aberta e vira o que realmente acontecera. Assim, ela levou uma surra por perder a calma e quebrar o jarro e eu levei duas surras: uma por caçoar dela e outra por mentir.

- Isso não é justo! - exclamei, indignada.

- Meu pai nem sempre era amável, mas geralmente era justo - Jamie disse, imperturbável. — Disse que a verdade é a verdade e as pessoas deviam assumir responsabilidade pelos seus atos, o que está certo. — Lançou-me um olhar de esguelha.

- Mas disse também que fora um ato generoso de minha parte assumir a culpa, portanto, embora tivesse que me punir, eu podia escolher entre ser espancado ou ir para a cama sem jantar. - Riu melancolicamente, sacudindo a cabeça. - Meu pai me conhecia muito bem. Preferi a surra sem nenhuma dúvida.

- Você é um apetite ambulante, Jamie - eu disse.

- Sim — concordou sem rancor. - Sempre fui. Você também, glutão -disse à sua montaria. - Espere um pouco, até pararmos para descansar. -Sacudiu as rédeas, puxando o nariz fuçador do cavalo dos tentadores tufos de grama à margem da estrada.

- Sim, meu pai era justo - continuou - e também tinha consideração, embora eu certamente não desse o devido valor a isso na época. Ele não me deixava esperando por uma surra. Se eu fazia alguma coisa errada, era punido imediatamente, ou assim que ele descobrisse o que eu fizera. Ele sempre fazia questão que eu soubesse por que estava levando uma sova e se eu quisesse dar a minha versão, eu podia.

Ah, então é isso que você está pretendendo, pensei. Seu manipulador, procurando desarmar os ânimos. Duvidava que ele pudesse me fazer desistir de minha intenção decidida de estripá-lo na primeira oportunidade, mas ele podia tentar.

- Alguma vez venceu uma discussão? — perguntei.

- Não. Em geral, era um caso sem complicações, com o acusado condenado por sua própria boca. Mas às vezes conseguia reduzir um pouco a sentença. — Esfregou o nariz.

- Uma vez eu disse a ele que bater no filho era um método bem pouco civilizado de fazer valer sua vontade. Ele disse que eu tinha tanto bom senso quanto o poste a meu lado, se tanto. Disse que respeito pelos mais velhos era um dos pilares do comportamento civilizado e até eu aprender isso, era melhor me acostumar a olhar para os dedos dos pés quando um dos meus bárbaros mais velhos surrasse o meu traseiro.

Desta vez, ri com ele. A estrada era tranqüila, com aquela espécie de absoluto silêncio que ocorre quando estamos a quilômetros de qualquer outra pessoa. O tipo de tranqüilidade tão difícil de encontrar na minha própria época superpovoada, quando as máquinas haviam disseminado tanto a influência do homem, que uma única pessoa podia fazer o barulho de uma multidão. Os únicos sons ali eram o farfalhar das plantas, o pio ocasional de um pássaro noturno e as pancadas surdas das patas dos cavalos.

Eu caminhava com um pouco mais de facilidade agora, à medida que meus músculos contraídos começaram a relaxar com o exercício. Meus sentimentos irritadiços começaram a relaxar, também, ouvindo as histórias de Jamie, todas engraçadas e autodepreciativas.

- É claro que eu não gostava de apanhar, mas se tivesse escolha, preferia meu pai ao professor. Na maioria das vezes, na escola, o professor batia nas palmas de nossas mãos com uma correia com a ponta cortada em tiras, ao invés de bater nas nádegas. Meu pai dizia que se ele batesse na minha mão, eu não poderia fazer nenhum trabalho, ao passo que se me batesse no traseiro, ao menos não me sentiria tentado a ficar sentado, à toa.

- Normalmente, tínhamos um professor diferente a cada ano; não ficavam por muito tempo, em geral viravam fazendeiros ou se mudavam para paragens mais ricas. Os professores de escola recebem tão pouco, são sempre magros e famintos. Tive um gordo uma vez e nunca acreditei que fosse mesmo professor; parecia um disfarce. — Pensei no pequeno e gordo padre Bain e sorri, concordando.

- Lembro-me especialmente de um, porque ele nos fazia ficar de pé diante da turma com a mão estendida e começava a dar um longo sermão sobre seus erros antes de começar e depois entre um golpe e outro. Eu ficava lá parado, com a mão estendida, com uma dor lancinante, rezando para que ele parasse a lengalenga e prosseguisse logo, antes que eu perdesse a coragem e começasse a chorar.

- Imagino que isso é o que ele queria - disse, sentindo certa compaixão, a despeito de mim mesma.

- Ah, sim — disse com franqueza. — Mas levei algum tempo para perceber isso. E quando percebi, como sempre, não consegui ficar com a boca fechada. - Suspirou.

- O que aconteceu? - A essa altura, já havia esquecido completamente a minha raiva.

- Bem, um dia ele me mandou ficar lá de pé, o que sempre acontecia porque eu não conseguia escrever bem com a mão direita, sempre usava a esquerda. Ele me batia três vezes - levando quase cinco minutos para fazer isso, o filho-da-mãe - e continuava a me repreender por ser um grosseirão estupido, preguiçoso e teimoso, antes de me bater outra vez. Minha mão ardia insuportavelmente, porque era a segunda vez naquele dia, e eu morria de medo porque sabia que receberia uma terrível surra quando chegasse em casa. Essa era a regra; se apanhasse na escola, recebia outra surra assim que chegava em casa, porque meu pai achava que a educação era importante.

Seja como for, perdi a calma. — A mão esquerda fechou-se involuntariamente em torno das rédeas, como se protegesse a palma sensível. Parou e olhou para mim.

- Raramente perco a calma, Sassenach, e em geral me arrependo quando o faço. - E isso, pensei, era o mais próximo de um pedido de desculpas que eu iria conseguir.

- Arrependeu-se dessa vez?

- Bem, cerrei os punhos e fitei-o com raiva, - ele era um homem alto, esquelético, de uns vinte anos, eu acho, embora me parecesse bem mais velho. Então eu disse: "Não tenho medo de você e não vai conseguir me fazer chorar, por mais que me bata!" - Respirou fundo e soltou o ar lentamente. — Acho que foi um erro de decisão dizer-lhe isso enquanto ainda segurava a correia.

- Não me diga — comentei. - Ele tentou provar que você estava errado?

- Ah, sim, ele tentou. - Jamie balançou a cabeça, o rosto escuro contra o céu de nuvens claras. Sua voz soou com uma certa satisfação soturna na palavra "tentou".

- Então, ele não conseguiu?

Meneou os cabelos desgrenhados para a frente e para trás.

- Não. Pelo menos não conseguiu me fazer chorar. Mas certamente fez com que eu me arrependesse de não ter ficado com a boca fechada.

Parou por um instante, virando o rosto para mim. As nuvens haviam se apartado um pouco e o luar tocava os contornos de seu maxilar e de sua face, fazendo-o parecer dourado, como um dos arcanjos de Donatello.

- Quando Dougal estava descrevendo minha personalidade para você, antes de nos casarmos, por acaso ele mencionou que eu às vezes sou um pouco teimoso? - Os olhos puxados brilharam, muito mais como Lúcifer do que como Miguel.

Eu ri.


- Isso é dizer pouco. Pelo que me lembro, o que ele disse foi que todos os Fraser são teimosos como rochas e que você é o pior de todos. Na verdade - eu disse, um pouco secamente -, eu mesma já havia notado.

Sorriu, enquanto puxava o cavalo pelas rédeas contornando uma grande poça no meio da estrada e conduzindo o meu pela gamarra atrás dele.

- Mmmmhum, bem, não diria que Dougal está errado - disse, depois de passado o risco. — Mas se eu sou teimoso, também sou honesto. Meu pai também era assim e de vez em quando nos envolvíamos em discussões calorosas, das quais não podíamos sair sem o uso da força, terminando geralmente comigo debruçado sobre a cerca.

De repente, estendeu a mão para agarrar as rédeas do meu cavalo, enquanto o animal recuava e resfolegava.

- Ei, vamos! Quieto! Stad, mo dhu! — Seu próprio cavalo, menos assustado, somente puxava bruscamente e atirava a cabeça para trás, inquieto.

- O que foi? — Não via nada, apesar dos pontos iluminados pelo luar que salpicavam de manchas a estrada e o campo. Havia um bosque de pinheiros adiante e os cavalos não pareciam dispostos a se aproximar.

- Não sei. Fique aqui, em silêncio. Monte em seu cavalo e segure o meu. Se eu a chamar, solte a gamarra e corra para mim. - A voz de Jamie era baixa e descontraída, acalmando a mim e aos cavalos. Com um abafado "Seguir!" para o cavalo e um tapa no pescoço para fazê-lo ficar mais perto de mim, desapareceu no meio das urzes, a mão na adaga.

Agucei os olhos e os ouvidos para discernir o que ainda perturbava os cavalos; eles remexiam-se e batiam os cascos, as orelhas e as caudas agitando-se de um lado para o outro.

As nuvens agora haviam se esgarçado e se dispersado com o vento da noite, deixando apenas uns poucos rastros na frente de uma brilhante lua crescente. Apesar da claridade, eu não conseguia ver nada adiante na estrada ou no bosque ameaçador.

Parecia ser tarde da noite e uma estrada pouco convidativa para assaltantes, já bastante escassos em qualquer lugar das Highlands; havia tão poucos viajantes que não compensava preparar uma emboscada.

O bosque era escuro, mas não inerte. Os pinheiros rugiam baixinho para si mesmos, milhões de agulhas roçando o vento. Árvores muito antigas, os pinheiros, e misteriosas nas trevas. Gimnospermas, os pinheiros são árvores coníferas, espalhando suas sementes expostas, muito mais antigas e inflexíveis do que os carvalhos e álamos de folhas macias e galhos frágeis. Um lugar adequado para os fantasmas e espíritos malignos de Rupert.

Só você, disse zangada a mim mesma, conseguiria ficar com medo de um punhado de árvores. Mas onde estaria Jamie?

A mão que agarrou minha coxa me fez guinchar como um morcego assustado; uma conseqüência natural de tentar gritar com o coração na boca. Com a fúria irracional dos irracionalmente apavorados, reagi chutando-o no peito.

- Não se aproxime de mim assim sorrateiramente!

- Silêncio - ele disse -, venha comigo. Puxando-me da sela sem a menor cerimônia, colocou-me no chão e apressadamente amarrou os cavalos, que relincharam às nossas costas enquanto ele me conduzia para o "mato alto.

- O que é? - sussurrei, tropeçando cegamente em raízes e pedras.

- Silêncio. Não fale. Olhe para baixo e acompanhe meus pés. Pise onde eu pisar e pare quando eu tocá-la.

Devagar e mais ou menos em silêncio, aproximamo-nos no limite do bosque de pinheiros. Estava escuro sob as árvores, apenas migalhas de luz caíam na camada de agulhas no chão. Nem mesmo Jamie conseguia andar Silenciosamente sobre elas, mas o ruído de agulhas secas perdia-se no dos Verdes acima.

Havia uma brecha nesta forração de agulhas, uma enorme massa de granito erguendo-se do chão da floresta. Ali, Jamie colocou-me à sua frente, guiando minhas mãos e meus pés para escalar o inclinado monte de pedras. No topo, havia espaço suficiente para deitarmos de bruços, lado a lado. Jamie aproximou a boca do meu ouvido, mal respirando.

- Nove metros à frente, para a direita. Na clareira. Pode vê-los?

Quando os vi, pude ouvi-los também. Lobos, uma pequena matilha, oito ou dez animais, talvez. Nenhum uivo. A presa morta jazia na escuridão, um borrão negro com uma perna para cima, fina e vibrando sob o impacto de dentes dilacerando a carcaça. Ouvia-se apenas um ou outro rosnado ou latido baixo quando um filhote era violentamente afastado do pedaço de um lobo adulto, os sons alegres de quem se alimenta, mastigando, e o estalido de um osso quebrado.

Quando meus olhos ficaram mais acostumados à cena salpicada de luar, pude divisar várias formas peludas estendidas sob as árvores, saciadas e tranqüilas. Tufos de pêlos cinzas brilhavam aqui e ali, enquanto os que ainda estavam sobre a carcaça fuçavam e escavavam por pedaços mais tenros, negligenciados pelos comensais anteriores.

Uma cabeça larga, de olhos amarelos, surgiu de repente numa mancha de luz, as orelhas em pé. O lobo fez um barulho urgente, suave, algo entre um lamento e um rosnado, e fez-se um silêncio repentino sob as árvores abaixo.

Os olhos de açafrão pareciam fixos nos meus. Não havia nenhum medo na postura do animal, nem curiosidade, somente um alerta desconfiado. A mão de Jamie nas minhas costas alertou-me para não me mexer, embora eu não sentisse nenhuma vontade de correr. Eu poderia ter ficado presa aos olhos da loba — tinha certeza de que se tratava de uma fêmea, embora não soubesse por quê - durante horas, eu acho, mas ela agitou as orelhas uma vez, como se me descartasse, e inclinou-se novamente sobre sua caça.

Nós os observamos por alguns minutos, pacíficos à dispersa luz da lua. Finalmente, Jamie indicou com um toque no meu braço que era hora de partirmos.

Manteve a mão no meu braço para me apoiar enquanto fazíamos nosso caminho de volta pelo meio das árvores até a estrada. Era a primeira vez que eu voluntariamente deixava que ele me tocasse desde meu resgate em Fort William. Ainda encantados com a visão dos lobos, não falamos muito, mas começamos a nos sentir confortáveis um com o outro novamente.

Enquanto caminhávamos, considerando as histórias que ele me contara, não pude deixar de admirar o trabalho que fizera. Sem uma palavra de explicação ou desculpa direta, transmitira-me a mensagem que queria. Eu lhe dei justiça, dizia a mensagem, como fui ensinado. E lhe dei compaixão também, até onde pude. Embora não pudesse lhe poupar dor e humilhação, lhe ofereço minhas próprias dores e humilhações para que possa suportar melhor as suas.

- Você se importava muito? - perguntei repentinamente. - Quero dizer, de ser espancado. Você se recobrava rapidamente?

Apertou minha mão ligeiramente antes de soltá-la.

- Na maioria das vezes eu esquecia tudo tão logo terminava. Exceto da última vez. Esta levou algum tempo.

- Por quê?

- Ah, bem. Para começar, eu tinha dezesseis anos e já era um homem... eu achava. Depois, doeu muito.

- Não precisa me contar se não quiser - eu disse, notando sua hesitação. - É uma história dolorosa?

- Não tão dolorosa quanto o espancamento — disse, rindo. - Não, não me importo de contar-lhe. Mas é uma história longa.

- Ainda falta muito para chegarmos a Bargrennan.

- É verdade. Muito bem, então. Lembra-se que eu lhe disse que passei um ano no Castelo Leoch quando tinha dezesseis anos? Era um acordo entre Colum e meu pai, para eu conhecer o clã da minha mãe. Fui confiado a Dougal por dois anos e depois fui para o castelo por um ano, para aprender boas maneiras, latim e tudo o mais.

- Ah. Eu me perguntava por que você tinha morado lá.

- Sim, foi por isso. Eu era grande para a minha idade, ou alto pelo menos; já era um bom espadachim naquele tempo e montava melhor do que a maioria.

- E modesto, também.

- Não muito. Convencido como o diabo e até mais rápido com a língua do que agora.

- A mente afiada — eu disse, achando graça.

- Pode ser, Sassenach. Descobri que fazia as pessoas rirem com minhas observações e as tornei mais freqüentes, sem me importar muito com o que estava dizendo, ou a quem. Às vezes, eu era cruel com os outros rapazes, sem intenção, apenas por não conseguir resistir se atinasse com algo espirituoso para dizer.

Ergueu os olhos para o céu, para calcular a hora. Estava mais escuro, agora que a lua descera. Reconheci Orion flutuando perto do horizonte e senti-me estranhamente reconfortada com a visão familiar.

-- Então, um dia eu fui longe demais. Eu estava com dois outros rapazes descendo um corredor, quando vi a sra. FitzGibbons na outra extremidade. Ela carregava um cesto grande, quase tão grande quanto ela, que ia batendo para a frente e para trás conforme ela andava. Você sabe como ela é agora; era muito menor na época. - Esfregou o nariz, envergonhado.

- Bem, fiz uma série de comentários deselegantes com relação à sua aparência. Engraçados, mas muito grosseiros. Meus companheiros riram muito. Não percebi que ela também podia me ouvir.

Lembrei-me da rechonchuda senhora do Castelo Leoch. Embora eu nunca a tivesse visto de mau humor, não parecia ser o tipo de pessoa que pudesse ser insultada impunemente.

- O que ela fez?

- Nada... na hora. Eu não sabia que ela ouvira, até ela levantar-se no Conselho no dia seguinte e contar a Colum o que acontecera.

- Ah, meu Deus. - Eu sabia que Colum tinha a sra. Fitz em grande consideração e não achava que ele fosse aceitar facilmente qualquer irreverência dirigida a ela. — O que aconteceu?

- O mesmo que aconteceu a Laoghaire... ou quase. - Deu uma risadinha.

- Dei uma de valente e me levantei, dizendo que preferia receber minha surra com os punhos. Estava tentando me manter muito calmo e adulto a respeito de tudo aquilo, embora meu coração parecesse um martelo de ferreiro e eu tivesse me sentido um pouco tonto quando olhei as mãos de Angus; pareciam de pedra e eram enormes. Ouvi algumas risadas das pessoas reunidas no salão. Eu não era tão alto na ocasião quanto sou agora e pesava menos da metade. Angus poderia arrancar minha cabeça com um único soco.

- Bem, tanto Colum quanto Dougal franziram a testa para mim, embora eu ache que na verdade ficaram um pouco satisfeitos por eu ter tido a ousadia de pedir. Então, Colum disse não, se eu ia me comportar como criança, tinha que ser punido como tal. Fez um sinal com a cabeça e, antes que eu pudesse me mexer, Angus me colocou atravessado sobre seus joelhos, levantou a barra do meu kilt e me esfolou com seu cinto, diante de todo o Conselho.

- Ah, Jamie!

- Mmmmhum. Deve ter notado que Angus é muito profissional em seu trabalho, não? Ele me deu quinze chicotadas e até hoje eu posso me lembrar exatamente onde cada uma bateu. - Estremeceu com a lembrança. — Fiquei com as marcas por uma semana.

Estendeu o braço e arrancou um maço de agulhas de um pinheiro próximo, espalhando-as como um leque entre o polegar e os dedos. O cheiro de terebintina intensificou-se repentinamente.

- Bem, também não permitiram que eu simplesmente saísse discretamente para cuidar dos meus machucados. Quando Angus terminou comigo, Dougal pegou-me pelo cangote e me levou para o outro extremo do salão. Então, fez com que eu percorresse todo o caminho de volta de joelhos no assoalho de pedras. Tive que me ajoelhar diante da cadeira de Colum e pedir perdão à sra. Fitz, depois a Colum, depois pedir desculpas a todas as pessoas no salão por minha grosseria e, finalmente, tive que agradecer a Angus pelo castigo. Quase me engasguei nessa hora, mas ele foi muito benevolente; estendeu a mão e me fez levantar. Em seguida, me fizeram sentar em um banco perto de Colum e fui ordenado a permanecer ali até o final do Conselho.

Curvou os ombros como se quisesse se proteger.

- Foi a pior hora que já passei. Meu rosto pegava fogo, assim como meu traseiro, meus joelhos estavam esfolados e eu não podia olhar senão para os meus pés, mas o pior é que estava com uma vontade terrível de urinar. Quase morri; preferia explodir a me molhar todo diante da multidão, depois de tudo que já passara, mas foi por pouco. Minha camisa ficou molhada de suor.

Prendi a vontade de rir.

- Não podia dizer a Colum qual era o problema? - perguntei.

- Ele sabia perfeitamente bem qual era o problema; como todos os demais no salão, pelo jeito que eu me contorcia no banco. As pessoas faziam apostas se eu ia agüentar ou não. - Encolheu os ombros.

- Colum teria me deixado ir, se eu tivesse pedido. Mas, bem, eu era teimoso. - Riu um pouco timidamente, os dentes brancos no rosto escuro. - Preferia morrer a pedir e quase morri mesmo. Quando finalmente Colum disse que eu podia ir, consegui sair do salão, mas só até a porta mais próxima. Atirei-me atrás da parede e esguichei um verdadeiro rio; achei que nunca mais ia parar.

Ele espalmou as mãos num gesto de autodepreciação, deixando cair o maço de agulhas de pinheiro. — Agora você sabe qual foi a pior coisa que já me aconteceu.

Não pude me conter; ri até ter que me sentar na beira da estrada. Jamie esperou pacientemente por um minuto, em seguida deixou-se cair de joelhos.

- Por que está rindo? - perguntou. - Não foi nada engraçado. - Mas ele mesmo estava sorrindo.

Sacudi a cabeça, ainda rindo.

- Não, não foi. É uma história terrível. É que... posso vê-lo sentado lá, Mimoso como uma mula, com os maxilares cerrados e soltando fumaça Pelos ouvidos.

Jamie bufou, mas riu um pouco também.

- Sim. Não é fácil ter dezesseis anos, não é?

-- Então você ajudou aquela garota Laoghaire porque teve pena dela -eu disse, quando consegui me recobrar. - Você sabia como era. Ficou surpreso.

- Sim, foi o que eu disse. É muito mais fácil levar um soco na cara aos vinte e três do que levar uma surra de correia no traseiro, em público, aos dezesseis anos. O orgulho ferido dói mais do que qualquer outra coisa e nessa idade é fácil feri-lo.

- Eu me perguntava por quê. Nunca vira ninguém sorrir na expectativa de ser esmurrado na boca.

- Não poderia fazê-lo depois.

- Humm. - Concordei, balançando a cabeça. - Pensei... - disse, depois parei, envergonhada.

- Pensou o quê? Ah, sobre mim e Laoghaire, quer dizer - falou, adivinhando meu pensamento. - Você, Alec e todo mundo, inclusive Laoghaire. Teria feito o mesmo se ela fosse feia. — Cutucou-me nas costelas. - Embora não espere que acredite nisso.

- Bem, na verdade eu os vi juntos naquele dia na alcova - me defendi - e alguém realmente o ensinou a beijar.

Jamie remexeu os pés na terra, envergonhado. Abaixou a cabeça timidamente.

- Ora, bem, Sassenach, não sou melhor que a maioria dos homens. Às vezes, eu tento, mas nem sempre consigo. Sabe aquela passagem de São Paulo, onde ele diz que é melhor casar do que arder? Bem, eu estava ardendo muito.

Ri outra vez, sentindo-me alegre como se eu mesma fosse uma menina de dezesseis anos.

- Então, você se casou comigo - caçoei - para evitar a chance de pecar?

- Sim. É para isso que serve o casamento. Transforma em sacramento coisas que de outro modo você teria que confessar.

Desabei outra vez.

- Ah, Jamie, eu realmente o amo!

Agora foi a vez de ele rir. Dobrou-se às gargalhadas, em seguida sentou-se na beira da estrada, chiando de tanto rir. Aos poucos, deixou-se cair de costas e ficou deitado na grama, ofegante e quase engasgando.

- Qual é o seu problema, afinal? - perguntei, fitando-o. Finalmente, ele se sentou, limpando os olhos lacrimejantes. Sacudiu a cabeça, arfando.

- Murtagh tinha razão em relação às mulheres. Sassenach, arrisquei minha vida por você, cometi roubo, incêndio criminoso, assalto e assassinato por sua causa. Em troca, você me xingou, insultou minha masculinidade, chutou-me nos testículos e arranhou meu rosto. Depois, bati em você até quase matá-la e lhe conto todas as coisas mais humilhantes que ja me aconteceram e você diz que me ama. - Colocou a cabeça nos joelhos e riu ainda mais. Finalmente, levantou-se e estendeu-me a mão, limpando os olhos com a outra.

- Você não é muito sensata, Sassenach, mas gosto de você assim mesmo. Vamos embora.

Estava ficando tarde - ou cedo, dependendo do ponto de vista, e era necessário seguir a cavalo, se quiséssemos chegar a Bargrennan ao amanhecer. A essa altura, eu já estava bastante recuperada para agüentar sentar-me na sela, embora os efeitos ainda fossem sentidos.

Cavalgamos num silêncio amistoso por algum tempo. Entregue a meus próprios pensamentos, considerei pela primeira vez com calma o que aconteceria se e quando eu conseguisse encontrar o caminho de volta ao círculo de pedras. Coagida a casar-me com ele e dependente dele por necessidade, inegavelmente eu passara a gostar muito de Jamie.

Mais importantes, talvez, eram seus sentimentos em relação a mim. Ligados inicialmente pelas circunstâncias, depois por amizade e finalmente por uma paixão física profunda e surpreendente, ainda assim ele nunca me fizera nenhuma declaração, mesmo informal, sobre seus sentimentos. Até agora.

Ele arriscou a vida por mim. Isso podia ter sido feito em respeito a seus votos matrimoniais; disse que me protegeria até a última gota de seu sangue, e eu acreditava.

Emocionei-me mais com os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas, quando repentinamente me confessara suas emoções e vida pessoal, com todos os seus defeitos. Se sentisse por mim o que eu achava que sentia, como se sentiria caso eu desaparecesse de repente? Os remanescentes do desconforto físico retrocederam conforme eu me debatia com esses pensamentos inquietantes.

Estávamos a uns cinco quilômetros de Bargrennan quando Jamie repentinamente quebrou o silêncio.

- Eu não lhe contei como meu pai morreu - disse, de repente.

- Dougal disse que ele teve um derrame cerebral, quero dizer, uma apoplexia - disse, surpresa. Imaginei que Jamie, também a sós com seus pensamentos, acabara pensando em seu pai, em conseqüência de nossa conversa anterior, mas não conseguia imaginar o que o levara a esse assunto em particular.

- Isso mesmo. Mas isso... ele... - Parou, considerando as palavras, depois encolheu os ombros, abandonando a precaução. Respirou fundo e exalou um suspiro. - Você deve ficar sabendo. Tem a ver... com muitas coisas - A estrada neste trecho era larga o suficiente para cavalgarmos confortavelmente lado a lado, desde que ficássemos atentos a pedras salientes; a desculpa que eu dera a Dougal sobre o meu cavalo não fora escolhida por acaso.

- Foi no forte - Jamie disse, escolhendo cuidadosamente seu caminho num trecho ruim da estrada. - Onde estivemos ontem. Onde Randall e seus homens me tiraram de Lallybroch. Onde me açoitaram. Dois dias depois da primeira vez, Randall me chamou a seu escritório. Dois soldados foram me buscar e me levaram da cela até sua sala, a mesma onde eu a encontrei; foi por isso que eu sabia aonde ir.

- Assim que saímos, encontrei meu pai no pátio. Ele descobrira para onde haviam me levado e fora ver se podia me libertar de alguma forma ou ao menos ver por si mesmo que eu estava bem.

Jamie cutucou levemente as costelas do cavalo com o salto da bota e estalou a língua, impelindo-o a andar mais depressa. Ainda não havia nenhum vestígio de luz do dia, mas o aspecto da noite mudara. O alvorecer não estava a mais de uma hora de distância.

- Eu não havia percebido até vê-lo o quanto eu me sentira solitário lá, ou apavorado. Os soldados não permitiram que ficássemos sozinhos, mas me deixaram falar com ele. - Engoliu em seco e continuou.

- Disse-lhe que sentia muito, sobre Jenny, quero dizer, e sobre toda a confusão. Mas ele me mandou calar e me abraçou com força. Perguntou se eu estava muito ferido, ele sabia que eu fora açoitado, e eu disse que ficaria bem. Os soldados disseram que tínhamos que ir e ele, então, apertou meus braços com força e disse-me para lembrar de rezar. Disse que iria me defender, independente do que acontecesse, e que eu devia manter a cabeça erguida e tentar não me preocupar. Beijou meu rosto e os soldados levaram-me. Foi a última vez que eu o vi.

Sua voz mantinha-se firme, mas um pouco rouca. Eu mesma sentia um nó na garganta e o teria tocado se pudesse, mas a estrada se estreitara numa ravina e fui forçada a ficar atrás dele por um instante. Quando ficamos lado a lado outra vez, ele havia se recobrado.

- Assim - disse, respirando fundo -, fui ver o capitão Randall. Ele mandou os soldados saírem, para que ficássemos sozinhos, e me ofereceu um banco. Disse que meu pai oferecera pagamento de fiança pela minha liberdade, mas que a acusação que pesava sobre mim era grave e eu não podia ser libertado sob fiança sem uma permissão por escrito do duque de Argyll, em cuja circunscrição nos encontrávamos. Imaginei que era para lá que meu pai estava indo, então, para falar com Argyll.

- Enquanto isso, Randall continuou, havia a questão do segundo açoite ao qual eu fora sentenciado. - Parou um minuto, como se não soubesse como continuar.

- Ele... estava estranho, pensei. Muito cordial, mas com alguma intenção subjacente que eu não compreendia. Continuava a me observar, como se esperasse que eu fizesse alguma coisa, embora eu continuasse sentado. imóvel.

- Praticamente se desculpou comigo, dizendo que lamentava muito que nosso relacionamento tivesse sido tão difícil até o momento e que desejava que as circunstâncias tivessem sido diferentes, e assim por diante. - Jamie sacudiu a cabeça. — Não conseguia imaginar sobre o que ele estava falando; dois dias antes, fizera o possível para me matar de chicotadas. Quando finalmente chegou ao ponto, foi bastante brusco.

- O que ele queria? - perguntei. Jamie olhou para mim, depois desviou o olhar. A escuridão escondia suas feições, mas achei que parecia constrangido.

- A mim - disse, sem rodeios.

Dei um salto tão violento de surpresa, que o cavalo arremessou a cabeça para trás e relinchou, em protesto. Jamie estremeceu outra vez.

- Foi muito claro a respeito. Se eu... ah, se eu me entregasse a ele, cancelaria o segundo açoite. Se não... então, eu desejaria nunca ter nascido, disse.

Senti-me enjoada.

- Eu já estava desejando algo assim - disse, com uma centelha de humor. - Minha barriga ardia como se eu tivesse engolido vidro moído e, se não estivesse sentado, meus joelhos teriam batido um no outro.

- Mas o que... - Minha voz soou rouca. Limpei a garganta e comecei outra vez. - Mas o que você fez?

Suspirou.

- Bem, não vou mentir para você, Sassenach. Eu considerei a proposta. Minhas costas ainda estavam tão em carne viva das primeiras chicotadas que eu mal conseguia agüentar uma camisa e sentia-me tonto, toda vez que me levantava. A idéia de passar por tudo aquilo outra vez, amarrado e impotente, esperando a próxima chicotada... - Estremeceu involuntariamente.

- Eu não fazia realmente nenhuma idéia - disse amargamente —, mas achei que ser molestado seria menos doloroso. Muitos homens morrem sob o açoite às vezes, Sassenach, e pela expressão no seu rosto, achei que eu seria um deles, se essa fosse a minha escolha. - Suspirou outra vez.

- Mas... bem, eu ainda podia sentir o beijo do meu pai no meu rosto e Pensei no que ele dissera e... bem, eu simplesmente não poderia fazer aquilo. Não parei para pensar o que a minha morte significaria para meu Pai - Soltou o ar num riso canhestro, como se achasse alguma coisa levemente divertida. - E depois, além disso, pensei, o sujeito já havia violentado minha irmã. Não permitiria que acontecesse comigo também.

Não achei graça. Podia ver Jack Randall outra vez, sob uma luz nova repugnante. Jamie esfregou a nuca, depois levou a mão ao arção.

- Assim, reuni o pouco de coragem que me restava e disse não. Também disse isso em alto e bom som, chamando-o de todos os nomes obscenos de que pude me lembrar, a plenos pulmões.

Seu rosto se contorceu num esgar.

- Tive medo de mudar de idéia se pensasse muito; quis ter certeza de não haver possibilidade de reconsideração. Embora eu suponha - acrescentou pensativamente — que não exista maneira diplomática de recusar uma proposta como essa.

- Não - concordei secamente. - Acho que não ficaria satisfeito, não importa como você falasse.

- Não ficou mesmo. Esbofeteou-me na boca, para me fazer calar. Caí no chão - ainda estava um pouco fraco — e ele ficou parado ao meu lado simplesmente olhando para baixo, fitando-me. Tive o bom senso de não tentar me levantar, de modo que fiquei simplesmente caído ali até ele chamar os guardas para me levarem de volta para a cela. — Sacudiu a cabeça. -Sua expressão permaneceu imutável; apenas disse quando eu saía: "Vejo você na sexta-feira", como se tivéssemos um encontro marcado para discutir negócios ou algo assim.

Os soldados não levaram Jamie de volta à cela que ele compartilhava com três outros prisioneiros. Ao invés disso, foi colocado numa solitária, para aguardar a sexta-feira sem nenhuma distração, a não ser a visita diária do médico da guarnição, que vinha fazer curativos em suas costas.

- Não era um bom médico —Jamie disse —, mas era um homem bondoso. No segundo dia que ele veio, juntamente com a gordura de ganso e o carvão, levou-me uma pequena Bíblia que pertencera a um prisioneiro que morrera. Disse que entendia que eu era papista e, quer eu achasse ou não algum conforto na palavra de Deus, ao menos poderia comparar minhas provações com as de Jó. - Riu.

- Por estranho que pareça, eu realmente encontrei certo conforto. O Senhor também teve que suportar o flagelo; e pude refletir que pelo menos eu não seria arrastado e crucificado depois. Por outro lado - disse sensatamente - Nosso Senhor também não foi forçado a ouvir propostas indecentes de Pôncio Pilatos.

Jamie guardara a pequena Bíblia. Vasculhou no seu alforje e estendeu-a a mim para que a examinasse. Era um volume surrado, de capa de couro, de cerca de doze centímetros de comprimento, impresso em papel tão delicado que as páginas eram transparentes. Na folha de rosto, estava escrito ALEXANDER WlLLIAM RODERICK MACGREGOR, 1733. A tinta estava desbotada e manchada e a capa entortada, como se o livro tivesse se molhado em mais de uma ocasião.

Revirei o pequeno livro na mão, curiosa. Apesar de pequeno, deve ter sido difícil para ele conservá-lo, pelas viagens e aventuras dos últimos quatro anos.

- Eu nunca o vi lendo-o. — Devolvi-lhe o livro.

- Não, não é por isso que o guardo - disse. Enfiou-o de novo no alforje alisando a borda da capa com o polegar ao fazê-lo. Deu uns tapinhas no alforje distraidamente.

- Tenho uma dívida com Alex MacGregor. Pretendo pagá-la um dia.

- De qualquer modo — continuou, voltando à história -, a sexta-feira finalmente chegou e eu não sei se fiquei triste ou contente. A espera e o medo eram quase tão piores do que eu imaginava que a dor seria. Mas, quando chegou a hora... — Fez aquele seu gesto habitual de encolher os ombros, soltando a camisa nas costas. - Bem, você viu as cicatrizes. Sabe como foi.

- Só porque Dougal me contou. Disse-me que estava lá. Jamie balançou a cabeça, confirmando.

- Sim, ele estava lá. E meu pai também, embora eu não soubesse disso na época. Não conseguia pensar em nada além do meu próprio problema.

- Ah - eu disse devagar -, e seu pai...

- Mmm. Foi quando aconteceu. Alguns dos homens lá me disseram depois que acharam que eu estava morto, ou quase, e acho que meu pai pensou o mesmo. - Hesitou e sua voz estava rouca quando continuou. -Quando caí, segundo Dougal me contou, meu pai emitiu um pequeno som e levou a mão à cabeça. Em seguida, caiu como uma pedra. E não se levantou mais.

Os pássaros agitavam-se nas urzes, trinando e chamando das folhas ainda escuras das árvores. A cabeça de Jamie estava baixa, o rosto ainda invisível.

- Eu não sabia que ele estava morto - disse em voz baixa. - Só me contaram um mês depois, quando acharam que eu já estava forte o suficiente para suportar a notícia. Assim, eu não o enterrei, como um filho deveria ter feito. E nunca vi seu túmulo, porque tenho medo de voltar para casa.

- Jamie — eu disse. - Ah, Jamie, querido.

Após o que pareceu um longo silêncio, eu disse:

- Mas você não pode, não deve, se sentir responsável. Jamie, não havia nada que você pudesse ter feito; ou feito de modo diferente.

- Não? — disse. — Não, talvez não; embora eu pense se isso teria acontecido se eu tivesse feito outra escolha. Mas isso não altera muito o modo como me sinto, e eu sinto como se o tivesse matado com minhas próprias mãos.

- Jamie — repeti, e parei, sentindo-me impotente. Ele continuou em Silêncio por alguns instantes, depois se empertigou e ergueu os ombros outra vez.

- Nunca contei isso a ninguém — disse subitamente. — Mas achei que agora você deveria saber, quero dizer, sobre Randall. Tem o direito de saber o que existe entre ele e mim.

O que existe entre ele e mim. A vida de um homem de bem, a honra de uma jovem e um desejo lascivo e imoral que encontrava seu escape no sangue e no medo. E pensei, com um aperto no estômago, que agora havia mais um item na balança. Eu. Pela primeira vez, comecei a compreender o que Jamie sentira, agachado na janela da sala de Randall, com uma arma descarregada nas mãos. E comecei a perdoá-lo pelo que me fizera.

Como se lesse meus pensamentos, disse, sem me olhar.

- Você sabe... quero dizer, pode entender, talvez, por que achei necessário bater em você?

Esperei um instante antes de responder. Eu compreendia, sim, mas isso não era tudo.

- Compreendo — disse. - E no que diz respeito a isso, eu o perdôo. O que eu não posso perdoar - disse, a voz erguendo-se levemente a despeito de mim mesma - é o fato de você ter se divertido!

Ele inclinou-se para a frente na sela, agarrando-se ao arção, e desatou a rir. Alegrou-se com a liberação da tensão antes de finalmente atirar a cabeça para trás e virar-se para mim. O céu estava bem mais claro agora e eu podia ver seu rosto, marcado pelo cansaço, pela tensão e pelo júbilo. Os arranhões em sua face estavam negros à luz turva.

- Me diverti! Sassenach — disse, ofegante —, você não sabe o quanto eu me diverti. Você estava tão... Meu Deus, você estava linda. Eu estava com tanta raiva e você lutou tão bravamente. Eu odiava machucá-la, mas ao mesmo tempo queria continuar... Meu Deus - disse, interrompendo-se e assoando o nariz. - Sim, eu me diverti.

- Embora, falando nisso - continuou —, você tenha que me dar crédito por ter exercitado a moderação do meu ímpeto.

Comecei a ficar com raiva de novo. Podia sentir meu rosto afogueado na brisa fresca do alvorecer.

- Exercitado a moderação do seu ímpeto, hein? Tive a impressão que o que você estava exercitando era o seu braço esquerdo bom. Você quase me aleijou, seu escocês arrogante, filho-da-mãe!

- Se eu quisesse aleijá-la, Sassenach, você saberia - retorquiu secamente. - Estou falando de depois. Eu dormi no chão, se você se lembra.

Fitei-o com os olhos apertados, bufando.

- Ah, então foi essa a moderação, não é?

- Bem, não achei direito copular com você naquele estado, por mais que desejasse. E eu desejava ardentemente - acrescentou, rindo outra vez-— Uma pressão terrível nos meus instintos naturais.

- Copular comigo? — repeti, distraída pela expressão.

- Não poderia chamar isso de "fazer amor" naquelas circunstâncias, não é?

- Seja como for que chame a isso - eu disse sem me alterar -, ainda bem que não tentou ou agora estaria sentindo falta de algumas partes valiosas de sua anatomia.

- Esse pensamento me ocorreu.

- E se acha que merece elogios por ter tão nobremente se contido de não cometer estupro em seguida a uma agressão...- engasguei-me de raiva.

Cavalgamos uns oitocentos metros em silêncio. Então, ele soltou um suspiro.

- Vejo que não devia ter começado esta conversa. O que eu estava tentando fazer era dar um jeito de lhe perguntar se me permitiria compartilhar sua cama outra vez, quando chegarmos a Bargrennan. - Parou, envergonhado. - É meio frio no chão.

Cavalguei por uns bons cinco minutos antes de responder. Quando resolvi o que iria dizer, puxei as rédeas do cavalo, atravessando-o na estrada, para forçar Jamie a parar também. Bargrennan estava à vista, os telhados das casas apenas visíveis na aurora.

Fiz meu cavalo ficar paralelo ao dele, de modo que eu não ficasse a mais de trinta centímetros de Jamie. Fitei-o diretamente nos olhos por um minuto antes de responder.

- Me dará a honra de compartilhar minha cama, Oh senhor e mestre? - perguntei formalmente.

Obviamente suspeitando de alguma coisa, meditou um instante, depois assentiu, igualmente formal:

- Sim. Obrigado.

Erguia as rédeas para partir, quando eu o detive.

- Só uma coisa, senhor - eu disse, ainda formalmente.

-Sim?

Tirei a mão num gesto rápido do bolso oculto de minha saia e a luz da alvorada lançou faíscas da lâmina da adaga pressionada contra o seu peito.



- Se - eu disse entre dentes cerrados - você algum dia erguer a mão para mim outra vez, James Fraser, vou arrancar seu coração e fritá-lo para o desjejum!

Fez-se um longo silêncio, quebrado apenas pelos movimentos e rangidos dos cavalos e dos arreios. Então, ele estendeu a mão, a palma para cima.

- Me dê isso. — Quando hesitei, ele disse impacientemente: - Não vou usá-la em você. Me dê isso!

Segurou a adaga pela lâmina, para cima, de modo que o sol nascente atingisse a pedra-da-lua no cabo e a fizesse brilhar. Segurando a adaga como um crucifixo, recitou alguma coisa em gaélico. Reconheci as palavras da cerimônia de juramento no salão de Colum, mas ele as seguiu com a tradução em inglês para meu proveito:

- Juro sobre a cruz de meu Senhor Jesus e pelo ferro sagrado que empunho, que lhe dou minha fidelidade e lhe juro lealdade. Se algum dia minha mão for erguida contra você, por raiva ou rebeldia, peço que este metal sagrado possa perfurar meu coração. - Beijou a adaga na junção entre o cabo e a lâmina e devolveu-a a mim.

— Não faço ameaças vãs, Sassenach — disse, erguendo uma das sobrancelhas. — E também não faço promessas fúteis. Agora, podemos ir para a cama?





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   ...   37


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande