A traduçÃo audiovisual como ferramenta de apoio à aquisiçÃo de uma língua estrangeira


A Tradução de Programas estrangeiros para as crianças (dobragem vs legendagem)



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3.2. A Tradução de Programas estrangeiros para as crianças (dobragem vs legendagem)

“Subtitles offer a way into worlds outside of ourselves. They are a complex formal apparatus that allows the viewer an astounding degree of access and interaction. Subtitles embed us”.


Egoyan e Balfour (2004:30)
Portugal é um país que, tradicionalmente, sempre optou pela legendagem como modalidade preferencial de Tradução Audiovisual. As razões desta opção prendem-se principalmente com factores económicos, uma vez que a legendagem é menos dispendiosa que a dobragem. No nosso país, até recentemente, existia apenas legendagem aberta interlinguística, situação agora alterada com a existência de legendas interliguísticas fechadas (oferecidas via teletexto) essencialmente direccionadas para públicos surdos.

À semelhança do que acontece com a programação em geral, e segundo Pereira (2007:153), o tratamento de programas comprados no estrangeiro para o público infanto-juvenil segue também uma política de imperativos economicistas, por parte das três cadeias televisivas generalistas, orientado por critérios como o orçamento, o stock de programas de cada estação e as tendências de mercado. A escolha de séries já testadas noutros mercados, ligadas a um forte merchandising, é a prática seguida pelos canais privados.

Numa tentativa de perceber quais os critérios para a selecção dos programas infanto-juvenis, tentar aferir as razões para os horários vigentes e perceber os critérios de categorização de programas (o que é infantil? juvenil? que idades estão contempladas em cada caso?) e se estes factores são tidos em conta na hora de escolher entre a dobragem e a legendagem, Teresa Paixão, Directora de Programas Infantis da RTP2, (Entrevista apêndice 2) afirma que os critérios de horários não têm a ver com quem escolhe os conteúdos, são da responsabilidade do Director de Programas que faz a grelha, tendo sempre em atenção a informação de várias fontes.

Procurando saber por que motivo, na actualidade, muitos programas para o público infanto-juvenil passaram a ser dobrados quando eram legendados (por exemplo, Postman Pat, Bob the Builder, ou mesmo o Noddy) Teresa Paixão (ibid.) responde que em primeiro lugar se destinam a crianças que ainda não sabem ler e acrescenta que “sabemos que a maioria dos meninos os vê só com acompanhamento dos pais para lhes lerem as legendas. E porque é hoje quase impossível, com os privados, concorrer sem dobrar”.

Indagada sobre quem decide o tipo de prática a adoptar, uma vez que a dobragem implica mais custos e é mais morosa, a Directora de Programas da RTP2 (ibid.) responde que lhe cabe a ela mesma a decisão sobre quais os programas que se dobram e os que se legendam. Teresa Paixão realça que “custa mais dinheiro mas dá mais empregos, a técnicos de som, a actores, a adaptadores musicais. É mais demorado mas isso é um problema de planeamento”.

À pergunta mais abrangente sobre a política existente no campo do audiovisual, na escolha entre a dobragem ou a legendagem, esta profissional de televisão salienta que existem ambas na RTP, dizendo que “dobram-se uns produtos, legendam-se outros. O contrato de concessão de serviço público também recomenda que haja produção nacional, programas perceptíveis pelos públicos a que são destinados”.

Outro factor ainda merece uma breve reflexão, a da qualidade da legendagem oferecida. Em termos globais, a modalidade da legendagem, deve oferecer, de acordo com Neves (2007:11) “modelos de português escrito que sirvam para o desenvolvimento de técnicas de leitura da língua portuguesa, reforçar conhecimentos linguísticos (…) e oferecer oportunidades de enriquecimento cultural e linguístico a todos os níveis”. Esta autora destaca algumas características básicas, nomeadamente, a correcção formal da língua portuguesa escrita, a mensagem sintética mas completa e a adequação do tempo de leitura. Segundo esta investigadora, estas directrizes são muito úteis na criação de legendas para crianças em idade de aprendizagem da leitura e estrangeiros com fraco domínio da língua portuguesa.

Com isto em mente, será de pensar ainda sobre o papel acrescido da legendagem enquanto instrumento de aprendizagem não só de uma língua estrangeira como também da própria língua materna. Este debate fica em aberto, sendo ele merecedor de uma reflexão mais aturada num contexto diferente do deste trabalho.



CAPÍTULO 4. DA TRADUÇÃO À TRADUÇÃO AUDIOVISUAL

It can be argued that all theories of translation – formal, pragmatic, chronological – are only variants of a single, inescapable question. In what ways can or ought fidelity be achieved? What is the optimal correlation between the A text in the source language and the B text in the receptor language?

Steiner (1975/1992:275)

A tradução é definida de formas diferentes por diferentes autores. Não pode ser considerada uma tarefa mas antes um processo que envolve a língua, a cultura e o contexto. Representa uma viagem comunicativa entre culturas. A tradução trabalha no espaço entre línguas, fornecendo pistas como cada cultura faz a sua representação verbal do mundo. A tradução é uma actividade humana fundamental, é um processo em que a linguagem torna “locale” o estrangeiro.

Segundo Schleiermacher (2001:27), no momento em que se assimila o discurso do outro, transformando-o no seu próprio entendimento, cria-se uma nova realidade, uma língua-cultura outra, a do contexto de chegada. Esta concepção ampla do fenómeno da tradução dissolve os limites entre diversos conceitos: o de tradução, de interpretação e de comunicação. De acordo com o filósofo, a tradução tem por objectivo comunicar um conhecimento.

Para Nord (1997:4), a tradução, à luz de uma teoria funcionalista, pode ser vista como uma actividade humana, realizada por agentes que desempenham papéis determinados e possuem objectivos específicos de comunicação. Para esta autora (ibid.:5-6), o tradutor é um intérprete cultural, mesmo que isso não seja sempre perceptível; os tradutores possibilitam a comunicação entre membros de diferentes ambientes culturais, preenchem as lacunas derivadas das diferenças de comportamento verbal e não-verbal, para que emissor e receptor possam comunicar entre si.

Jakobson (2000 [1959], 114) identifica três formas de interpretar um signo verbal, nomeadamente, de forma intralinguística, interlinguística e intersemiótica. Estas três formas designam-se tradução. Nas palavras deste autor (ibid.), a tradução intralinguística “is an interpretation of verbal signs by means of other signs of the same language”, a tradução interlinguística “is an interpretation of verbal signs by means of some other language” e, por fim, a tradução intersemiótica “is an interpretation of verbal signs by means of signs of nonverbal sign systems.”

Esta forma tripartida de ver a tradução é particularmente pertinente no contexto audiovisual uma vez que o texto de partida é multi-modal e que as transposições possíveis são obrigatoriamente de carácter intersemiótico, podendo ser simultaneamente interlinguísticas ou intralinguísticas. Será esta a principal característica da tradução audiovisual.

Retomando uma discussão antiga, Karamitroglou (2000:1) prefere a expressão “Audiovisual translation” em detrimento de expressões como “screen translation” ou “film translation”. Segundo este autor, a expressão “Tradução Audiovisual” representa o uso simultâneo dos canais acústico e visual. Refere, “I prefer audiovisual translation because it emphasises the audio-visual dimensions of the communicative mode”.

Segundo Diaz Cintas (2003), urge encarar a tradução numa perspectiva flexível e heterogénea. A definição de tradução deve abarcar um amplo conjunto de realidades empíricas que tenha em conta que vivemos numa sociedade imersa pela voragem audiovisual, levando até às últimas consequências a expressão “uma imagem vale mais que mil palavras”. Nas palavras deste autor (ibid.:34)


El tradicional concepto de fidelidad formal, tan venerado por los estructuralistas de la lingüística de los años 60, ha de ser revisado y flexibilizado para el caso de la subtitulación y demás modalidades de traducción audiovisual. El one-to-one translation approach pierde toda su validez en nuestro terreno y el concepto de equivalencia formal se debe entender desde una perspectiva mucho más flexible que en otras esferas de la traducción.
4.1. A tradução como instrumento promotor de interculturalidade

A possibilidade de transmitir informação de forma massiva e literalmente para o mundo está directamente relacionada com a criação de uma área de intercâmbio comercial, baseado no mercado livre e de âmbito global. Assistimos, nas palavras de Diaz Fouces (2004), a uma nova dinâmica de alargamento das redes de comunicação cujo símbolo maior é a Internet, em que se assiste ao fenómeno de globalização. Este termo foi usado pela primeira vez pelo Professor da Harvard Business School, Theodore Levitt, no seu artigo The Globalization of Markets (1983), no qual afirmou que o marketing e a publicidade poderiam ser padronizados transculturalmente.

Como já vimos, a componente cultural é inseparável da prática da tradução. A análise feita por Snell-Hornby (1981) está presente no processo de traduzir, na tríade língua, sentido e expressão, apontando para uma perspectiva interdisciplinar da tradução.

As investigações levadas a cabo para estudar o fenómeno da tradução nas suas complexas e múltiplas dimensões contribuíram para o nascimento da Tradutologia, uma disciplina que estuda a tradução na sua globalidade e que, desde finais da década de oitenta, demonstrou o papel cultural da tradução; Bassnett e Lefevere (1998:138-39) referiram-se a este momento como uma cultural turn dizendo:


in these multifaceted interdisciplines, isolation is counter-productive (…) the study of translation, like the study of culture, needs a plurality of voices. And, similarly, the study of culture always involves an examination of the process of encoding and decoding that comprise translation.
Vários estudiosos contribuíram para o enriquecimento nas investigações acerca da Tradução, nomeadamente, Even-Zohar (1990) e Toury (1995), que afirmaram o papel de relevo da tradução na planificação da cultura. Outro académico, Venuti (1998), apresenta “Os Escândalos da Tradução” para salientar o papel da tradução na interface entre cultura fonte e cultura de chegada, referindo que determinadas estratégias de tradução manipulam a identidade e a diferença cultural. Deste modo, este conceito de identidade cultural é fundamental quando se comparam duas culturas ou quando estas entram em contacto, como acontece na tradução.

Constata-se, por conseguinte, que na sociedade global actual existe uma contribuição, directa ou indirecta, da tradução no que respeita à sobreposição ou apagamento das fronteiras culturais e políticas. Contudo, existe aqui um conflito; se por um lado temos um multilinguismo crescente, consequência, em grande medida, da “língua dos computadores”, o inglês, por outro lado, existe o princípio do pluralismo linguístico, ao qual compete assegurar e preservar a multiplicidade das filiações culturais (cf. Lothar Baier, La Croisée des Langues, 1997). Para muitos estudiosos, este conflito representa mais um obstáculo para a comunicação. A língua inglesa é já a língua-franca da Comunidade Europeia.




4.2. A tradução como ferramenta linguística na televisão
Partindo das premissas de Jakobson (op. cit.) verifica-se haver espaço para um número imenso de modalidades tradutológicas no contexto audiovisual. Esta realidade é particularmente visível na televisão onde, diariamente, se faz uso de várias soluções em que o texto se vê mediado por transformações linguísticas para que se torne acessível a todos. Hoje, no contexto televisivo português é comum encontrarmos tradução explícita e implícita, dos noticiários, aos filmes, aos programas de entretenimento e, claro está, aos programas infantis. Para além da legendagem, modalidade de tradução mais comum no panorama nacional, encontramos hoje na nossa televisão serviços de tradução na forma de interpretação, dobragem, sonorização, legendagem intralinguística (em teletexto), audiodescrição (para cegos) e comentário.

Cada uma destas modalidades oferece-se a inúmeras questões. Dado o teor deste trabalho, será de focalizar a atenção naquele que é um dos principais objectos deste estudo: a legendagem interlinguística, enquanto ferramenta educativa.

Retomando uma linha de pensamento várias vezes reiterada neste trabalho, o texto audiovisual, acompanhado por legendas interlinguísticas, é uma ferramenta pedagógica que pode melhorar as competências de compreensão oral dos aprendentes de uma segunda língua (Língua B). Do mesmo modo, a legendagem intralinguística, da língua falada, facilita a aprendizagem pois ajuda a visualizar o que se ouve.

Quanto às legendas interlinguísticas, podem aumentar as capacidades de compreensão e desenvolvimento cognitivo, aprofundando, por exemplo, os processos de tratamento da informação linguística. Contudo, os aprendentes necessitam de criar habituação e de desenvolver estratégias activas de percepção para utilizarem de forma eficaz o material legendado. Em países onde os telespectadores raramente são expostos a programas legendados, por exemplo, nos Estados Unidos, na Alemanha ou na Espanha, entre outros, os estudantes de línguas, quando são expostos pela primeira vez a legendas, experimentam, muitas vezes, sentimentos de frustração ou aborrecimento por considerarem as legendas factores invasivos na sua percepção do todo.

O principal argumento contra o uso de legendas é que são um elemento que distrai, encorajando os espectadores a olhar apenas para o texto escrito e, por conseguinte, desviando a atenção do espectador dos restantes factores presentes na imagem. No entanto, muitos europeus afirmam ter aprendido inglês através da sua exposição regular a filmes ou a programas de televisão legendados. Sendo assim, quanta desta aprendizagem pode ser atribuída à ajuda das legendas? Deve-se encorajar o uso de material audiovisual legendado como forma de impulsionar a aquisição de uma segunda língua ou uma língua estrangeira dentro e fora da sala de aula?

Uma resposta parcial a esta questão pode ser encontrada em estudos empíricos recentes (cf. Veiga, 2002; Neves, 2004, 2005; Bravo, 2008), que examinam a forma como as legendas interlinguísticas e intralinguísticas podem realmente melhorar a eficácia da apresentação audiovisual e desenvolver as competências linguísticas dos receptores.

O uso de legendas pode ser uma ajuda valiosa, ocorrendo uma aprendizagem incidental de uma língua por parte dos espectadores de filmes traduzidos legendados. No entanto, as maiores vantagens das legendas advêm do facto dos aprendentes de LE adoptarem estratégias de aprendizagem efectivas, que desempenham um papel fundamental na aquisição de uma língua e nas capacidades de aquisição (cf. Danan, 2004:69).

O material audiovisual, rico em contexto, é uma ferramenta poderosa, conhecida por ter um impacto motivador, afectivo e de gerar atenção no espectador (Baltova, 1994:510-11). A televisão, os filmes, vídeos e as imagens digitais expõem os jovens a grandes quantidades de informação (input) oral autêntico, que deverá contribuir para impulsionar a compreensão de audição em situação de interacção com falantes nativos.

Os media audiovisuais estão mais próximos da vida real por possibilitarem ao espectador visualizar a mensagem ao mesmo tempo que a ouvem (ibid.:1994:508).

Segundo Baltova (ibid.:509-513), a compreensão também é influenciada pela informação visual e pelo conhecimento cultural, por exemplo, a interpretação de expressões faciais. O efeito positivo de pistas visuais foi confirmado por uma experiência que envolveu 53 alunos (de nível intermédio) canadianos num programa de francês; no entanto, as pistas visuais não são necessariamente garante da compreensão do texto. As limitações do vídeo fazem com que se torne necessário encontrar técnicas, tais como a legendagem para melhorar a eficácia do vídeo.


4.3. A especificidade da legendagem

There are three fundamental issues in the field of screen translation, namely, the relationship between verbal output and pictures and soundtrack, between a foreign language/culture and the target language/culture, and finally between the spoken code and the written one.


Gambier (2003:172)

Importa fazer uma pequena referência ao modo como se definem as legendas expandido sobre as considerações tecidas nas secções anteriores. De acordo com Neves (2007:13-14), a legendagem é a tradução/tradaptação de falas e/ou som de um texto intersemiótico em modo escrito, onde co-existem o texto de partida e o texto de chegada. Há uma relação dinâmica entre todos os elementos da tradução (Neves, Powerpoint de aulas, 2008). Existem, do ponto de vista técnico, dois tipos de legendas, as legendas abertas (open subtitles) e as legendas fechadas (closed subtitles); as primeiras estão incluídas na legendagem cinematográfica, sendo parte integrante do filme ou, na legendagem televisiva, sendo parte integrante do programa televisivo. O segundo tipo de legendas engloba as legendas para surdos ou para os receptores com défice auditivo, na qual o espectador pode optar pela sua visualização no ecrã do televisor, ou então, legendas transmitidas via satélite que permite a diferentes comunidades com diferentes discursos visualizar o mesmo programa em simultâneo (Routledge Encyclopedia of Translation Studies, 2004:247).

Verifica-se que a legendagem intralinguística tem grande impacto em países onde a língua oficial é o inglês e onde existem poucas ou nenhumas importações de material de produção estrangeira; a dobragem é mais utilizada em países como a Alemanha, Itália, França e Espanha e países onde a língua oficial é o Espanhol; a técnica de voice-over (narração) está mais presente na Rússia, Polónia e outros países que não podem pagar a dobragem, que é mais dispendiosa que a legendagem.

Em suma, os países que utilizam maioritariamente a dobragem na Europa são a Áustria, a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha, a Suíça; os países que utilizam maioritariamente a legendagem são a Bélgica, o Chipre, a Croácia, a Dinamarca, a Finlândia, a Grécia, a Hungria, a Irlanda, a Islândia, o Luxemburgo, a Noruega, Portugal, a Eslovénia, a Suécia, os Países Baixos, o País de Gales e países cuja língua oficial é o inglês com poucas importações estrangeiras.

As regras gerais para a aplicação da legendagem são, em termos simplistas, a apresentação do discurso em duas linhas de texto com um máximo entre 32-40 caracteres e espaços, sendo que as legendas devem permanecer no ecrã num máximo de seis segundos, o “six-second rule”, proposto por Ivarsson e Carroll (1998). Hatim e Mason (2000 [1997]:431) mencionam que uma legenda de duas linhas deverá ter um mínimo de dois segundos e um máximo de sete segundos de leitura. As legendas são colocadas, por norma, no fundo do ecrã, centradas ou alinhados à esquerda.

A possibilidade de digitalizar a imagem revolucionou de forma significativa a profissão do tradutor/legendador; a mudança do analógico para o digital repercutiu-se na prática. De acordo com Diaz Cintas (in Gerzymisch-Arbogast 2005:16) assistimos a um maior dinamismo na circulação de material audiovisual, especialmente através da Internet. Esta era digital está a alterar a nossa percepção do mundo audiovisual e a forma como nos relacionámos com ele.

Para Diaz Cintas (ibid.:16-17), a praxis da legendagem sofreu uma transformação importante num período de tempo relativamente curto; o que hoje é considerado inovador e avançado amanhã poderá deixar de o ser. Esta situação acarreta vantagens e desvantagens; embora tenha facilitado o trabalho daqueles que trabalham em tradução, alteraram também, o perfil do legendador. Pressupõe-se, actualmente, que quem trabalhe no campo da legendagem possua conhecimentos técnicos e capacidades que lhe permitam uma rápida familiaridade com os novos programas. Isto implica uma constante actualização com as novas tecnologias da informação e da comunicação.

Os países anglófonos têm uma grande tradição no campo da legendagem para surdos e para as pessoas com défice auditivo, patente nas elevadas percentagens de legendagem nos programas audiovisuais (ex. de inglês para inglês) para estes grupos sociais.

Países com tradição na dobragem, tais como a Espanha, a França, a Alemanha ou a Itália, onde a legendagem tem sido historicamente marginalizada, têm vindo a aperceber-se do facto de que, para a sua distribuição em DVD, a maioria dos filmes comercializados e programas de televisão tanto são dobrados como legendados. A situação inversa, i.e. dobragem para DVD de filmes que eram originalmente comercializados apenas com legendagem, também tem vindo a acontecer, embora num número menos elevado pois é uma actividade significativamente mais dispendiosa. Alguns exemplos são a dobragem para inglês de filmes como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, A vida é Bela, O Tigre e o Dragão e Betty Blue.

A possibilidade de incorporar até 32 faixas de legendagem num só DVD tem contribuído para o aparecimento de novas realidades no audiovisual. Para além das legendas interlinguísticas, que implica a tradução de uma língua de partida para uma língua de chegada, os DVDs surgem agora com legendas intralinguísticas, também conhecidas por captioning no inglês americano, no qual não existe mudança de língua: um diálogo português é legendado em português (um bom exemplo disso é a oferta de dois DVDs falados em língua portuguesa – O Nascimento de Cristo e Atrás das Nuvens – acompanhados de legendagem intralinguística bem como de interpretação em Língua Gestual portuguesa e Audiodescrição para cegos).

Na televisão, as legendas intralinguísticas são transmitidas como um sinal independente, que pode ser activado acedendo à página de teletexto, sendo que a sua função social é ir de encontro às necessidades dos surdos e pessoas com défice auditivo, de forma a assegurar um amplo acesso à programação audiovisual. Consegue-se transformando o diálogo dos actores em discurso escrito que também engloba, entre outras coisas, toda a informação paratextual que contribui para o desenvolvimento da acção ou para a criação de atmosfera que este tipo de público, em particular, é incapaz de aceder através da banda sonora, tais como um telefone a tocar, alguém a bater à porta, o barulho de um carro a chegar entre outros.

Caimi (2002:30) faz uma síntese dos tipos de legendagem, as suas características, as suas funções e público-alvo. Retomando o tema central deste trabalho é importante realçar que, no que respeita às funções, a legendagem interlinguística (legendagem numa língua diferente do original do filme ou programa) representa a reprodução e a adaptação dos diálogos na língua dos receptores, tornando a Língua Estrangeira (LE) compreensível e útil para a aprendizagem e apreensão de vocábulos, tanto na LE como na LM (Língua Materna).

É importante referir que as legendas interlinguísticas são as legendas na L1 (Língua Materna), acompanhadas pela banda sonora em língua estrangeira. Quando são utilizadas como um recurso didáctico são uma ferramenta importante e que segundo o mesmo autor (ibid.:4), “the contact with a different linguistic and cultural context opens a window on cultural self-definition, which is processed in relation to what is perceived as different from one’s own cultural identity”.

Apesar das diferenças aparentes, ambos os tipos de legendas têm elementos em comum: ocorrem no mesmo contexto audiovisual, implicam a conversão de diálogo falado para texto escrito e em ambos os tipos a quantidade de diálogo tem de ser reduzida para ir de encontro às exigências técnicas e à capacidade de leitura dos espectadores.

A importância do papel da tradução audiovisual e particularmente da legendagem prende-se com o facto de a televisão desempenhar um papel muito importante na vida de muitos Portugueses (cf. Neves 2005:285). Os Portugueses têm vindo, gradualmente, a aumentar o tempo de visionamento de televisão. Este hábito de ver televisão está relacionado com as condições sócio-económicas do povo português e é consistente com as diferenças geográficas, ou seja, as pessoas que vivem em zonas menos desenvolvidas tendem a passar mais tempo a ver televisão do que aquelas que vivem nos grandes centros urbanos. De referir que os maiores consumidores de televisão se encontram entre as classes mais desfavorecidas. Tal justificará a seguinte situação:

“O Governo valoriza a importância da comunicação social e dos Media em geral como agentes de modernização da sociedade, prestadores de um importante serviço de informação e divulgação cultural” (Ministro da Presidência 2002:3, cit. Neves 2005:288). Assim sendo, será de se atribuir igual importância aos meios utilizados para tornar as mensagens veiculadas perfeitamente acessíveis a todos. Reforça-se aqui a noção de acessibilidade proposta por Gambier (2003): toda a tradução audiovisual nasce da necessidade de tornar uma mensagem acessível a quem, sem ela, não poderia aceder ao texto na sua totalidade. Esta será, em suma, a missão última de toda a tradução de pendor funcional.






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