A perda auditiva causada pelo diabetes



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UFPB-PRG XII Encontro de Iniciação à Docência



6CCMDMIMT01-P

A PERDA AUDITIVA CAUSADA PELO DIABETES
Aline Valeriano Moura(1); Rosália Filizola (2)

Centro de Ciências Médicas/ Departamento de Medicina Interna/ Monitoria




RESUMO

O Diabetes mellitus é um distúrbio metabólico que não tem cura, devendo ser controlado através do acompanhamento das glicemias dos pacientes. Devido à alta prevalência do Diabetes na população em geral, muitos estudos têm sido realizados na tentativa de identificar as suas possíveis complicações. Entre os vários problemas secundários provocados pelo diabetes, a perda auditiva está sendo cada vez mais reconhecida. Este artigo de revisão bibliográfica teve como finalidade analisar a associação entre a perda auditiva e o diabetes. Pudemos observar que, apesar do grande número de estudos realizados, a controvérsia ainda é grande, necessitando de mais pesquisas sobre o tema. No entanto, é inquestionável o fato de que o diabético apresenta algum grau de disfunção auditiva no decorrer de sua doença.


Palavras-chave: perda auditiva, Diabetes mellitus, angiopatia-neuropatia

INTRODUÇÃO

O Diabetes mellitus é uma das doenças mais antigas do conhecimento humano. Ele foi descrito na Índia no ano 400 antes de Cristo, e também tem relato nesta época nos papiros egípcios de Ebers. Os antigos médicos da Grécia foram os primeiros a empregar a palavra diabetes, significando “correr através de um sifão”; a palavra latina mellitus, significando doce, foi acrescentada mais tarde. Durante séculos após a descoberta da “urina doce”, os médicos diagnosticaram a doença testando o “adocicado” da urina dos pacientes, uma forma precursora das modernas análises laboratoriais de detectar glicose na urina(SKINNER; JAMES, 1991).



Diabetes mellitus é um distúrbio metabólico determinado geneticamente, associado com deficiência absoluta ou relativa de insulina e que, na sua manifestação clínica completa, é caracterizado por alterações metabólicas, complicações vasculares e neuropáticas. O principal objetivo do tratamento do paciente diabético é a prevenção das complicações crônicas, pois a doença não é curável e sim controlável. No Brasil é bastante elevada a incidência de complicações crônicas do diabetes. Estima-se que existam cinco milhões de indivíduos portadores de diabetes, sendo que metade desconhece o diagnóstico(MAYA; CAMPOS, 2005).

Na sua manifestação clínica completa, é caracterizada por alterações metabólicas, complicações vasculares e neuropáticas(FERREIRA et al., 2000). A angiopatia pode ocorrer tanto de maneira direta, interferindo com o suprimento para a cóclea pela redução do transporte através das paredes espessadas dos capilares, como indiretamente, pela redução no fluxo de uma estreita vasculatura ou, ainda, por causar degeneração secundária do oitavo nervo craniano(NAGERIS et al. 1998).

Nas complicações crônicas do Diabetes mellitus podem estar incluídas alterações nos olhos, rins, nervos cranianos, nervos periféricos, ouvidos etc. Especificamente no sistema auditivo, pode ocorrer atrofia do gânglio espiral, degeneração da bainha de mielina do oitavo nervo, diminuição do número de fibras nervosas na lâmina espiral, ou espessamento das paredes capilares da estria vascular e das pequenas artérias dentro do canal auditivo(TAYLOR; IRWIN, 1978).

Estudo realizado nos Estados Unidos mostrou que esta perda foi bem mais frequente entre portadores de diabetes do que na população geral. Cinquenta e quatro por cento dos diabéticos apresentaram uma pequena perda de audição para os sons agudos contra 32% das pessoas não diabéticas. As autoras do estudo encontraram um risco seis vezes maior de perda auditiva neurossensorial de alta frequência em diabéticos portadores de neuropatia periférica(JORGENSEN; BUCH, 1961).

A hipoglicemia por tempo prolongado pode causar danos permanentes na região cognitiva do cérebro, principalmente em crianças diabéticas dependentes de insulina(AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2009).

Quanto à incidência da perda auditiva em pacientes com Diabetes mellitus, observou-se que não há consenso na literatura, variando de zero a 93%(HUANG et al. 1992).

Atualmente, especialistas recomendam que pessoas com diabetes realizem exames regulares para monitorar alterações na visão, função renal, sensibilidade térmica e tátil e saúde cardiovascular. A continuidade das pesquisas para definir a natureza da conexão entre perda auditiva e diabetes pode mostrar que testes específicos para perda auditiva poderiam ser incluídos como parte desses cuidados de rotina(SKINNER, 1991).

Partir para uma revisão dos estudos disponíveis sobre a relação do diabetes como causa da perda auditiva seria de grande valia na tentativa de orientar a conduta dos pacientes diabéticos.


DESCRIÇÃO METODOLÓGICA

Foram feitas pesquisas em livros, revistas e artigos sobre a interferência dos níveis glicêmicos na função auditiva. Também foram utilizadas como fontes algumas publicações e sites disponíveis na internet.


REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Estudos, como o realizado por Marchiori & Gibrin (2003) têm tentado mostrar o mecanismo fundamental pelo qual os níveis de insulina e glicose poderiam acarretar alterações da percepção auditiva.

Jorgensen & Buch (1961), em um estudo dos ossos temporais de 32 indivíduos diabéticos, de várias faixas etárias, mostraram ser de maior interesse as alterações demonstradas nas preparações dos vasos sangüíneos da estria vascular quando coradas pelo PAS (ácido periódico reativo de Schiff – método de coloração que define bem membrana basal, matriz mesangial e hialinose). O estudo confirmou que a angiopatia não é generalizada, tendo a predileção por certos sistemas capilares da orelha interna, por exemplo, na estria vascular. Relataram que as alterações são típicas do diabetes, mas não específicas da doença, observando que na aterosclerose se reduz perifericamente, enquanto na angiopatia diabética aumenta de intensidade na região dos pequenos vasos.

Makishima e Tanaka (1971) utilizando ossos temporais de quatro indivíduos, encontraram também impregnação pelo ácido periódico de Schiff na espessura da parede dos capilares da estria vascular e do modíolo, o que foi considerado responsável por um estreitamento do lume desses vasos, sendo mais intensamente afetada a artéria auditiva interna.

Quando ocorrem alterações na liberação de insulina pelo pâncreas ou na sua ligação com seu receptor com alterações secundárias na glicemia, há prejuízo da obtenção de energia e conseqüente mau funcionamento da orelha interna.(JERGER, 1998). O metabolismo da glicose tem grande influência no ouvido interno, e tanto a hipoglicemia como a hiperglicemia podem alterar seu funcionamento normal. Os pacientes com alterações do metabolismo da glicose, como acontece no Diabetes, podem apresentar sintomas auditivos, vestibulares ou mistos.(BITTAR,1998).

Estudos desenvolvidos em 1997 por Dall’Igna et al. visaram investigar a via central e periférica, em pacientes com diabetes do tipo II. Os autores concluíram que o receptor coclear é o principal afetado nos pacientes diabéticos tipo II, e que não há comprometimento das vias auditivas centrais.

Perera & Licea (2003) viram que a freqüência da perda auditiva neurossensorial aumenta com a duração do diabetes, porém esta informação deve ser interpretada com cautela, já que poderia relacionar-se com a presbiacusia, própria da idade mais avançada, e não com o diabetes, embora outros estudos constatem também uma porcentagem importante de pessoas com idades inferiores a 60 anos.

Bezerra (2006) apresentou outro fator como sendo importante no estudo da relação entre diabetes e perda auditiva, que seria a presença de hipertensão arterial. A hipertensão está relacionada diretamente a um maior grau de resistência à insulina, e alguns medicamentos usados para o tratamento da hipertensão pioram essa resistência, favorecendo o aparecimento do diabetes.

Huang et al. (1992) & Goldsher et al. (1986) concluíram que a perda auditiva observada em indivíduos com Diabetes Mellitus é caracterizada como sendo neurossensorial, bilateral, simétrica e com grau mais elevado na região das freqüências altas. Já Lisowska et al. (2001) e Kurita et al. (1995) observaram que no Diabetes tipo 1, a ocorrência de perda auditiva está associada a fatores como idade, duração da doença e presença de neuropatia.

Com o objetivo de demonstrar alterações auditivas e centrais em pacientes portadores de Diabetes mellitus, Leda Vieira (USP, 1998) estudou 40 pacientes diabéticos e 40 indivíduos normais, sendo ambos subdivididos em dois subgrupos. Um deles, composto por 20 sujeitos com idades variando de 20-40 anos e outro com igual número de componentes de 41-60 anos. A duração da doença variou de 1-16 anos no subgrupo I (20-40 anos) e 3-38 anos (subgrupo II), com médias de 8,5 a 14,6 anos, respectivamente. Foram utilizadas audiometria tonal liminar, com discriminação de palavras monossílabas, com o intuito de avaliar audição periférica e de Tronco Cerebral, com finalidade de verificar comprometimento das vias auditivas centrais. Considerando a média de limiares auditivos nos dois subgrupos de diabéticos e controle, não foi detectada perda auditiva em nenhuma frequência através da análise de variância (Teste de Tuckey). As latências de ondas III, V e interpico I-V apresentaram-se maiores nos diabéticos de 20-40 anos em relação ao controle. Indivíduos com Diabetes mellitus de 41-60 anos mostram valores de amplitude de onda I e tolerância do intervalo I-V superiores quando comparados aos normais. Estes aumentos de latências de ondas III e V e interpico I-V sugerem acometimento auditivo cerebral em nível mais elevado, possivelmente na região caudal da ponte e médio cerebral.

Segundo Albernas (1995), o diagnóstico de problemas metabólicos que afetam a orelha interna é muito importante para os otorrinolaringologistas e endocrinologistas, uma vez que estes pacientes pioram ao serem tratados com medicamentos mais popularmente empregados no tratamento das afecções labirínticas, tais como a cinarizina e a flunarizina entre outros, que possuem ação vasoativa, aumentando o consumo de glicose pelas células nervosas e agravando o distúrbio metabólico.

Há outros autores, como Friedman & Schulman (1975), que acreditam ser a neuropatia a lesão primária da perda auditiva, argumentando que o material PAS positivo encontrado na parede dos vasos é muito inespecífico, sendo encontrado também em outras doenças. Eles realizaram um estudo audiométrico em 20 pacientes com neuropatia periférica diabética, usando como controle 32 pacientes sem Diabetes mellitus. Observaram que o limiar dos indivíduos com neuropatia periférica era sempre pior que o do grupo controle, em todas as freqüências. E também que o limiar dos pacientes com mais de 60 anos era pior em ambos os grupos. A perda auditiva encontrada por eles foi tipicamente neurosensorial, progressiva, mais intensa acima dos 60 anos.


CONCLUSÃO

O Diabetes mellitus é uma doença crônica que afeta o metabolismo como um todo e, apesar de vivermos em um mundo moderno, com tanta evolução da ciência, é de fundamental importância que os profissionais de saúde possam identificar e auxiliar no controle adequado da glicemia dos pacientes diabético para reduzir a incidência e gravidade de suas complicações.

Quanto à possibilidade do diabetes ser causador de perda auditiva, após a análise dos mais variados estudos, não se pôde afirmar que exista correlação nítida de causa e efeito. O acometimento dos vasos que irrigam a orelha interna e as alterações que ocorrem na estria vascular em pacientes diabéticos são fatos inquestionáveis e comprovados por diversos autores, que acreditam na relação entre perda de audição e diabetes, tais alterações são fortes indícios que o diabetes possa causar perda auditiva. Porém, há autores que não acreditam nessa relação, devendo esse tema ser mais estudado por todos aqueles que desejam proporcionar uma melhor qualidade de vida a seus pacientes diabéticos.

REFERÊNCIAS

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1) Bolsista, (2) Voluntário/colaborador, (3) Orientador/Coordenador, (4) Prof. colaborador, (5) Técnico colaborador.




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