A guisa de prefácio



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KLONIX

A GUISA DE PREFÁCIO

Este livro é totalmente ficcional. Personagens, situações e o enredo é fruto exclusivo da minha imaginação. Mas eu tomei a liberdade de entremear locais reais, como universidades e uma ou outra entidade. E se o fiz foi apenas como a complementação da ideia central. Da mesma forma, se cito trabalhos de um ou outro pesquisador real faço a menção de seu nome e a sua autoria como respeito ao esforço alheio.

Quando comecei a elaborar este texto eu o fiz com a intenção de colocar nele as minhas visões pessoais a respeito de vários assuntos que fazem parte integrante da história aqui contada.

Se fosse me definir, eu colocaria que sou apenas um abusado. Um abusado que foi a fundo na pesquisa histórica no sentido de tentar encontrar respostas a diversas perguntas que desde a adolescência eu me fazia. No meio evangélico onde fui criado, as respostas vinham sob a forma de sofismas sem nexo. Eu até entendo esta postura, pois eu considero a religião como uma gota de irracionalidade em um oceano totalmente racional. Ou, copiando Oscar Wilde, “só o que é compreendido está certo”.

A abrangência desta estória caminha em dois sentidos. Primeiro, a possibilidade de que nós não somos únicos seres viventes e inteligentes no infinito universo. E segundo, a tentativa de busca das nossas origens. Pois, por mais que sejam apresentadas tentativas de provas a respeito desta origem, elas caem por terra no momento em que são analisadas e observadas sem máscaras e paradigmas.

Não vou entrar neste mérito aqui. As vertentes que se somam são de conhecimento público. Porém eu não conluio com nenhuma delas. Prefiro manter a minha posição de descrente. Porque a se acreditar em criacionismos e evolucionismos não se está trabalhando com racionalidade, mas com um espírito muito mais voltado ao partidarismo ou, o que é pior, ao sectarismo. E nenhum processo científico passa por estas duas correntes.

Foi assim que trilhei caminhos complexos onde me vi na obrigação de separar com cuidado o trigo e o joio. Mas que me deram uma base ao menos curiosa de interpretar a possibilidade de não sermos produtos terrestres, nascidos de um sopro nas ventas de um bonequinho de barro e muito menos sermos um produto nascido de uma sopinha de letras que gerou um ovo, que gerou um bichinho, o qual, através de uma magia que nem o criador desta bobagem conseguiu entender de forma clara, se reproduziu e deu origem a todas as espécies animais, homem inclusive.

Eu vou mais além. Eu não pretendo me imiscuir em discussões intermináveis a respeito de sabermos quem nasceu primeiro: se foi o ovo ou se foi a galinha.

Eu aproveitei um enredo para colocar nele e na boca dos personagens as minhas posições pessoais. Que podem ser polêmicas, mas creio que darão algo para ser pensado. Tanto a respeito de nós mesmos como também e inclusive com a possibilidade de sermos até controlados por forças muito maiores sem que tenhamos ainda percebido de forma nítida este controle. Esta monitoração não vem de agora. Mas ela aconteceria desde que o primeiro homem foi colocado aqui nesta bolota azul e louca. Isto seria possível ou seria apenas um devaneio? Eu deixo que os leitores decidam...

Meus personagens principais são Juliano e Vilma. Dois pesquisadores que trabalham com a história humana e que são financiados por uma fundação americana. Este pano de fundo estabelece a estrutura do que se segue. Pois eles serão as testemunhas de toda uma saga que surgiu a um tempo indefinido no calendário universal. A saga dos seres viventes no cosmo.

E antes que me chamem de visionário ou outra designação, vale aqui mencionar também que nunca tive qualquer contato com extraterrestres (ou se tive algum, não notei se era um deles!) nem nunca vi um disco voador, mesmo sendo partidário de que estas existências sejam viáveis, possíveis e compreensíveis, já que o cosmo ainda é um grande mistério para nós, humildes inquilinos desta bolota azul.

O volume de anotações para a composição deste texto é bastante volumosa. Eu mergulhei a fundo em várias publicações, livros, escritos, opiniões, textos antigos, etc. Não para detalha-los aqui. Mas sim para assentar as bases das ideias expostas. E curiosamente nesta busca eu observei que muitos estudiosos modernos mudaram o foco de suas pesquisas e hipóteses. Aqueles que anteriormente se mostravam descrentes com certas interpolações hoje concordam, ao menos em parte, com as possibilidades demonstradas nesta obra de ficção. Pois é deles a fonte principal onde bebi a água cristalina de certas polêmicas abertas e que jamais foram contestadas.

Porque eu entendo que a história tradicional nada mais é que uma sucessão de fatos. Sucessão esta que necessita ser contada para manter a choldra devidamente controlada. E eu não concordo com isto. Aliás, esta minha postura eu coloco como lema da fictícia Fundação Terence Shelbi, mantenedora de arquivos polêmicos e desenvolvidos pelos seus pesquisadores ao redor do globo.

Assim esclarecido, deixo que os leitores se divirtam. Ou que me condenem a uma fogueira medieval ou me absolvam por entenderem que ao menos eu tentei...

Um mistério, mesmo que desvendado, sempre deixa algo de dúvida no ar. Não existem mistérios totalmente desvendados. Sempre vai haver um novo caminho que trará outra visão a respeito. São nesta linha que se desenvolvem as pesquisas sobre temas por vezes já semisepultados em nossa história. Quando Howard Carter descobriu o túmulo intacto de Tutancâmon, jamais poderia supor que aquela tumba de um faraó menino, cujo reinado nada teve de brilhante, iria causar a revolução que causou e ainda causa no meio arqueológico. Pois sempre haverá alguém que, através de um estudo mais aprofundado, poderá trazer á luz um ou outro fato cuja existência havia sido despercebida ou esquecida.

Como no caso do faraó menino, muitas seriam as facetas que ressuscitam os mais diversos aspectos temáticos. Seja na ciência, na história, na vida e, principalmente, naqueles casos onde o nosso conhecimento e a nossa experiência não atingiram ainda o estágio de abertura de mentes para avaliar todas as possibilidades envolvidas no assunto.

Nós somos, por vezes também, vítimas de nosso orgulho. Principalmente por não acreditarmos que alguém, em algum lugar, pode nos dar a resposta que procurávamos. Porque quem achou aquela resposta está longe de nossa sapiência. Ou, em sua simplicidade, não se atreveu a revelar o que sabia. Somente quando conseguimos entrevistar esta pessoa que ela revela aquela pequena ponta que faltava em nosso conhecimento.

Na média, é fato comum considerarmos quem se aprofunda em assuntos relativos a vidas extraterrestres como um visionário, um aproveitador, ou, pior, como alguém que nada mais tem a fazer. E ao invés de aproveitar o seu tempo em alguma atividade “útil,” se embrenha por estes caminhos que poderão levá-lo ao nada.

A pergunta fica, entretanto no ar: existe ou não existe? O universo é um deserto de inteligência, ou existe muito mais lá do que pode supor a nossa vã filosofia?

Lembrando Carl Sagan: SE O UNIVERSO TIVESSE SIDO CONSTRUÍDO APENAS PARA A NOSSA HUMANIDADE, TERIA SIDO UM DESPERDÍCIO INFINITO.

Aqui vamos nós. Sem tentar fazer proselitismo de um assunto que não interessa a maioria dos mortais. Apenas tentando oferecer um pouco de lazer. Um lazer que não faz mal, pois ler ainda é a melhor forma de criarmos argumentos para dizer não.

Deixo que o leitor leia, pense e tire as suas conclusões.

Mesmo que concorde com o dito de Groucho Marx:



DESDE O MOMENTO EM QUE PEGUEI O SEU LIVRO

ATÉ O INSTANTE EM QUE O DEIXEI NA MESA, FUI TOMADO DE UM RISO CONVULSIVO. UM DIA, COM CERTEZA, EU O LEREI.

Theo Renato



LIVRO I

KLONIX – CAPÍTULO 1

A empresa que fazia o percurso entre as duas cidades verificara que o ônibus que saíra do Rio não chegara ao seu destino. Tentou buscar informações em vários lugares, como a Polícia Rodoviária, a administradora da estrada e o Corpo de Bombeiros. Ninguém pôde dar uma informação sequer. Segundo a concessionária, o veiculo havia passado no pedágio na hora costumeira e nada de especial havia sido notado. As câmaras de televisão haviam captado a passagem do mesmo na hora aproximada e normal. Nada fora observado que pudesse estabelecer algum tipo de anormalidade.

O fato é que o ônibus havia como que desaparecido entre o primeiro e o segundo pedágio. Várias buscas começaram na região, inclusive perguntando aos moradores das localidades em busca de alguma pista. Um contingente de mais de cem pessoas foi acionado para buscar alguma resposta ao desaparecimento misterioso do veículo. Este grupo era composto de policiais rodoviários, policiais militares das regiões, polícia civil e Corpo de Bombeiros. Afora voluntários que se ofereceram para ajudar de alguma forma.

O trecho em questão tinha cerca de cem quilômetros, o que vale dizer que em qualquer estradinha secundária haveria a hipótese da descoberta, ou ao menos, de algum fato que pudesse dar algum esclarecimento ao fato do desaparecimento do veículo e dos passageiros.

Ao mesmo tempo o serviço reservado da Polícia Militar entrou em ação para buscar outro viés no caso: a possibilidade de sequestro do ônibus e dos passageiros, seguido de roubo. Não seria esta a primeira vez que o transporte de passageiros e cargas havia sido vítima deste tipo de ocorrência naquele trecho da estrada.

Na matriz da empresa os telefones não paravam de tocar. Alguém havia comunicado á imprensa o desaparecimento misterioso do ônibus e os repórteres ficaram ávidos para obter alguma resposta. Ao mesmo tempo, equipes foram enviadas à estrada, à busca de informações. Em pouco tempo o assunto começava a surgir em telejornais especiais nas TVs.

A direção da empresa e a diretoria da concessionária da estrada emitiram um comunicado conjunto mostrando á imprensa que nada poderia ser dito a respeito, haja vista que tudo ainda estava envolto em mistério. Mas que tão logo recebessem algum informe, este seria passado de imediato.

Na altura de Piraí, um trabalhador agrícola da região, que ouvira qualquer coisa a respeito, encontrou em uma estrada de terra o ônibus tão procurado, logo após uma curva. Aparentemente o ônibus entrara por ali e, sem qualquer explicação, estacionara no local e sua viagem não continuara. Este personagem procurou de imediato a Polícia Rodoviária e comunicou o que vira. Um destacamento foi ao local e constatou o fato. Logo o comando da PR foi acionado e várias pessoas envolvidas com a busca acorreram à pequena estradinha. O mistério tornava-se ainda maior, pois nenhum passageiro fora encontrado no local.

Uma equipe de peritos veio ao local em busca de algo que pudesse determinar o ocorrido. Mas pouco ou nada puderam fazer. O que presenciavam era inédito e incompreensível. Mesmo assim, continuaram as buscas pelo local. A hipótese aberta seria – embora sem sustentação – que os passageiros do ônibus haviam sido colocados sobre outro veículo e levados para algum local desconhecido. Muito embora os rastros de pneus deste outro veículo não estivessem marcados no chão úmido da estrada de terra. E não havia rastros de pegadas, principalmente junto à porta de saída do veículo.

Há cerca de cem metros do local foi encontrado o corpo do motorista da empresa. Não havia sinais de violência. Era como se o mesmo tivesse morrido de morte súbita. O corpo foi encontrado deitado de bruços em um matagal próximo. A perícia constatou que nada havia sido levado do morto. Todos os seus pertences estavam com ele, como o celular, a carteira com seus documentos e o dinheiro que levava em um dos bolsos das calças. O corpo foi enviado para o necrotério para autópsia e verificação da causamortis.

A imprensa, a princípio, foi afastada do local até que a perícia concluísse seus trabalhos. Depois, já liberado o local, o mesmo se transformou em assunto do dia nos noticiários. Porém nada pôde ser passado aos repórteres. Pois nada havia a ser comentado. Apenas o mistério que envolvia aquele desaparecimento dos passageiros e o cadáver do motorista intato.

KLONIX – CAPÍTULO 2

O desaparecimento dos passageiros do ônibus se transformara em um mistério sem solução. Um helicóptero da polícia sobrevoou o local na tentativa de descobrir o paradeiro dos passageiros. Literalmente toda a área compreendida entre os dois pedágios, considerada uma faixa em torno de cem quilômetros, foi vasculhada. Centenas de pessoas foram interrogadas. E o mistério continuava persistente. Fora solicitada uma varredura por satélite na região e nem assim pode se descobrir alguma pista que levasse a um motivo para o desaparecimento total e sem vestígios, daquelas pessoas.

O motorista, identificado como Miguel da Silva Santos ao que tudo indicava, havia morrido sem motivo aparente. Não foram encontrados sequer vestígios de alguma marca de bala ou qualquer ferimento ou qualquer outra evidencia de sua morte. Aparentemente ele simplesmente morreu. Como se uma tomada fosse desligada.

O assunto ganhava manchetes inclusive internacionais. Alguns visionários, através da Internet, haviam dito que os passageiros do veículo tinham sido “abduzidos” por alienígenas. Mas não explicavam porque o motorista não havia sido incluído na abdução.

Por fim, depois de terem sido envidados todos os esforços, uma comissão militar ocupou-se do caso. E a notícia começou a perder espaço na mídia em função de outras notícias mais importantes.

Finalmente o caso foi arquivado como insolúvel e somente alguns mais curiosos ainda persistiram em tentar achar alguma pista a respeito daquela viagem malograda. Todos os caminhos buscados para a solução de enigma haviam esbarrado em um muro de incompreensão. E nada mais poderia ser analisado, a não ser a visão excêntrica da possibilidade de uma abdução. Sem dar motivos para tanto, o caso passou a fazer parte da casuística ufológica. E, como tal, deixou de ser prioridade para a imprensa em geral...

KLONIX – CAPÍTULO 3

Juliano era um pesquisador nato e incansável. Depois de formado em História, havia lecionado durante um tempo até que uma ONG americana o havia convidado para um trabalho de pesquisa a respeito de povos antigos contemporâneos de grandes civilizações, mas que nunca haviam formado propriamente uma nação e que, por motivos desconhecidos, haviam desaparecido sem deixar qualquer vestígio. As lendas e histórias da antiguidade se achavam repletas de referências destes pequenos povos, às vezes até tribos sem muita expressão. Tinha passado quase dez anos em uma busca incansável pelas origens de determinadas tribos, principalmente no Oriente Médio e na região do sul da Ásia. Viajara para aqueles locais por várias vezes. Tivera a oportunidade de conhecer a majestade de determinadas nações, perfeitamente delineadas pelas obras, muitas em ruínas, que conhecera. Muitas das quais completa e aparentemente fora de propósito. O que lhe propiciou também a chance de desenvolver um trabalho mais direcionado para a observação já defendida por vários autores, de que em ocasiões diferentes ao longo da historia, o homem havia mantido contatos com seres de outras dimensões e de outros locais do universo. E que estes, por razões nunca compreendidas, haviam deixado a terra.

Juliano, no entanto, se perguntava se este abandono havia realmente acontecido, ou se estes “seres” ainda mantinham contato com a velha terra. Pelo que pesquisara de forma intensa e exaustiva, havia se convencido de que aqueles prováveis contatos de antanho se continuavam. Entretanto, as conquistas tecnológicas associadas às convicções religiosas e até mesmo ao ceticismo e ao ateísmo renascidos, a par com as mais estapafúrdias teorias, haviam tirado o foco da humanidade para este aspecto, cuja importância era espelhada sob as mais diversas formas na antiguidade.

Quando tomou conhecimento do sumiço dos passageiros do ônibus, resolveu conhecer mais de perto todos os aspectos relacionados com o evento. Principalmente onde, supostamente, os passageiros haviam desaparecido. Através de conhecidos e amigos, teve acesso a toda a documentação relativa ao fato. Não deu muita importância ao que se publicara a respeito. Mas concentrou a sua analise na documentação do episódio. E observou que havia algo a mais naqueles desaparecimentos. Seu faro de pesquisador o remeteu à hipótese de um rapto alienígena.

Lembrou-se de uma tribo que desaparecera em determinada localidade na sul da Península do Sinai. Esta tribo era composta por cerca de duzentas e cinquenta pessoas. Durante uma noite, ela simplesmente sumiu, nunca mais se tendo noticia dela. Através da incessante procura, em um escrito descoberto entre vários papiros egípcios, verificou que aquela tribo era mencionada. E que, naquela escrita, era revelada a forma pela qual a tribo, sem deixar vestígios, desaparecera da face da terra. Pelo que leu a respeito, em determinada noite, um clarão surgiu no espaço, vindo do norte. Como o vento correu em direção ao deserto, clareando as dunas e revolvendo a areia. Ao chegar ao acampamento daquele povo, o clarão estacou a sua marcha. E, depois de se concentrar em um ponto, fez uma subida e sumiu no espaço.

Alguns mercadores, no dia seguinte foram ao local. Encontraram as tendas armadas, a comida ainda nos recipientes, os animais ainda amarrados aos postes, mas nenhum ser humano fora encontrado. Como se aquele clarão os tivesse destruído.

Com a descoberta daquela história um tanto incrível, Juliano passou a coletar informações a respeito de pessoas e grupos de pessoas que, em diversos momentos da história, havia desaparecido sem vestígios. E, por mais incrível que parecesse, os casos eram muito mais do que ele mesmo poderia imaginar. Ele estimou que cerca de um milhão de pessoas houvesse “desaparecido” desde os tempos de Cristo. E que, em todos os casos, nenhum vestígio foi deixado.

Ao saber a respeito do caso do ônibus, Juliano não podia deixar de enfocar esta probabilidade. Mas o problema ressurgia a partir do momento em que, mesmo no local do desaparecimento, não havia um só vestígio desta possibilidade. Além disto, e era o mais intrigante, o fato de o motorista ter morrido ou ter sido morto abria uma lacuna na hipótese de rapto alienígena. Por outro lado, nada pôde ser aventado pelos investigadores. Curioso por excelência, o pesquisador principiou a se interessar pelo caso. As notícias que lera eram desencontradas e não faziam qualquer nexo.

Juliano passou a explorar uma faceta que ainda não havia sido observada: quem eram, realmente, os passageiros, quais as suas idades, o que faziam e como se comportavam. Tentou, desta forma, estabelecer um parâmetro médio para o grupo, de tal forma que, ao fechar a pesquisa pudesse ter um quadro mais claro a respeito dos mesmos e, buscar alguma explicação dentro de seu ponto de vista.

Por mais que procurasse alguma pista, Juliano não conseguia chegar a algum dado. Entretanto, seu faro como pesquisador lhe propiciou uma grande surpresa: andando pelos arredores onde acontecera o desaparecimento, conheceu um pequeno agricultor, que lhe falou a respeito de alguns fatos estranhos que aconteceram naquela noite. Disse-lhe o homem que naquela noite, ainda bem cedo, notou que seus dois cachorros estavam inquietos. Por vezes latiam sem razão e em outras ocasiões, fugiam para dentro de casa, uivando e com os rabos caídos entre as pernas. Perto da meia-noite, notou que os cachorros haviam se escondido em um galpão da propriedade. Ele saiu em busca dos animais, querendo levá-los para dentro de casa. Foi quando, olhando para o céu, viu uma sombra arredondada que pouco se destacava do negrume do céu, naquela noite sem luar. Notou que a sombra se aproximava da terra de forma lenta. Assustado, correu para casa fechando a porta, mas ficou à espreita através de uma fenda da janela entreaberta. E viu que aquela sombra, se aproximando da terra, diminuíra de tamanho. Pelo que pôde observar, ela desceu mais ou menos sobre o lugar onde poderia estar o ônibus. Ali ficou parada por cerca de uns cinco minutos, quando se elevou e, com uma velocidade incrível, ela desapareceu na noite escura. O agricultor, logo após ter presenciado aquilo, notou que seus cachorros haviam se acalmado. Curioso, resolveu ir até o local logo que amanheceu. E o que viu, foi exatamente o que foi encontrado pelos policiais e por aqueles que lá estiveram. Apenas o ônibus vazio. E dava a entender que não se movimentara mais. Mas que seus passageiros haviam simplesmente sumido no ar. No meio da conversa disse a Juliano que havia algo mais. E que se o historiador fosse com ele até o local, lhe mostraria o que encontrara. Disse também que quando a polícia esteve no local, preferiu calar a boca. Afinal, nunca se sabe o que pode acontecer com a gente.

Juliano foi até o local com o colono que, lá chegando, mostrou-lhe o que havia descoberto. Uma marca recente na base um tronco de árvore das proximidades mostrava um sinal semelhante à letra ômega grega, com cerca de dez centímetros tanto na altura quanto na largura, nitidamente feito recentemente e com uma técnica que Juliano não pôde precisar. Na curva superior do sinal, um arco a encobria, com alguns pontos que complementavam o desenho. Juliano, tomando da câmera, tirou várias fotos daquela marca. Voltaram para a casa do agricultor e Juliano lhe perguntou se ele tinha um machado para que pudesse retirar aquela marca da árvore. O colono foi em busca de seu machado e, com Juliano, voltou ao local. Não lhes foi difícil retirar aquele sinal da árvore. O pesquisador pediu-lhe que não mencionasse para ninguém o que havia encontrado. Deu-lhe algum dinheiro e prometeu ao colono que voltaria na próxima semana para conversarem um pouco mais.

Juliano estava eufórico. Retornando para a casa, trancou-se em seu escritório e, observando a marca na lasca de árvore sobre sua mesa, tentou relembrar onde vira aquele desenho, ou pelo menos algum que fosse similar a ele. Em sua memória havia um registro que lhe indicava já ter visto algo semelhante em algum lugar. Não lembrava se fora em algum livro, em algum monumento, onde tivesse sido. Mas aquele sinal e as imagens gravadas em sua câmera lhe eram familiares. O problema agora seria encontrar a origem daquela simbologia. E Juliano iria passar um bom tempo em sua tentativa de achar algum símbolo similar àquele nos milhares e milhares de símbolos existentes nas mais diversas culturas que conhecera. Seria um trabalho de garimpo, mas nem assim o pesquisador iria desistir. E Juliano passou um bom tempo folheando livros e mais livros, em sua busca que, inclusive, poderia resultar infrutífera.

KLONIX – CAPÍTULO 4

Juliano lembrou-se que aquele símbolo, longe de ser grego, apesar da semelhança com um ômega, tinha algo que lhe chamara a atenção: aquela série de pontos poderia ter uma relação com o número de planetas do sistema solar. Observou que, abaixo do arco eram encontrados quatro pontos: Mercúrio, Venus, Terra e Marte. E abaixo do formato de ômega, mais cinco pontos, que representariam os planetas restantes. Esta divisão poderia fazer sentido. Aquela letra Ômega poderia representar o arco formado pelo Cinturão de Asteroides. Ou: Bracelete Brilhante. Talvez em algum dos escritos sumérios pudesse encontrar alguma similitude. Lembrou-se que um escritor russo, criado na Palestina, havia estudado profundamente os costumes, o idioma e a religião suméria. Depois de cerca de vinte anos de estudos, elaborara uma teoria um tanto ou quanto estapafúrdia a respeito de um planeta desconhecido pela astronomia que orbitaria a Terra a cada três mil e seiscentos anos. Sabia que o tal escritor exagerara um pouco em suas pesquisas, mas havia um fato marcante em seus estudos: ele conseguira identificar, através da análise de gravuras sumérias, claramente os nove planetas do sistema solar. Como também o Bracelete Brilhante, ou seja, o Cinturão de Asteroides. Esta identificação era nítida nas gravuras mostradas em seus livros. Em uma de suas viagens, Juliano vira algumas delas em museus. E relembrou com um susto que aqueles nove pontos eram uma constante, sempre que os sumérios tentavam mostrar o firmamento.

Era uma tênue pista que poderia ser desenvolvida, muito embora soubesse de antemão que uma ideia desta natureza seria de imediato desprezada. Mesmo consciente deste risco, partiu em busca de mais informações a respeito, tanto em alguns livros que tinha como através da Internet. E verificou que tinha certo sentido o que buscava.

Intimamente estabeleceu que quem fizera aquilo com os passageiros eram elementos de fora do nosso sistema solar. Mas, por que deixariam aquela marca na árvore? E mais: por que não haviam levado também o motorista, encontrado morto nas proximidades? Seu raciocínio o levou a ponderar que o motorista não fora levado por duas razões: ou morrera de susto ou de alguma síncope fulminante ou poderia ser um deles que havia trazido o ônibus até o local da abdução. Como já não tinham mais a necessidade dele, eles causaram a sua morte, aparentemente natural.

Mas a marca na árvore era incompreensível. Tomou novamente a lasca de madeira tirada da árvore e fitou-a. O sinal havia sido estampado por um processo que ele não conhecia. Dava a impressão de ter sido feito através de calor. Mas um calor perfeitamente dirigido, pois não chamuscara um milímetro sequer de seu entorno. Teve uma ideia de imediato: iria contatar um químico industrial amigo seu e, sem revelar-lhe a origem, solicitaria a ele que desse uma olhada e tentasse dar uma explicação razoável para aquela gravação.

KLONIX – CAPÍTULO 5

O químico industrial, amigo de Juliano, depois de observar longamente a lasca da árvore com o símbolo, perguntou onde aquela peça tinha sido encontrada. Juliano divagou a respeito, dizendo que um amigo dele fora quem a encontrara e que não sabia a origem. O técnico, então, foi com Juliano ao seu laboratório para que pudesse observar melhor a gravação do símbolo. Acendeu uma lâmpada forte e com uma lupa potente passou a examinar detidamente a peça. Usou de outros processos que não danificariam o desenho e, por fim, dirigiu-se a Juliano: - você sabe que eu trabalho com química industrial há mais de vinte anos. Já fiz centenas de perícias judiciais e já passaram em minhas mãos as mais diversas e complexas situações. Mas não consigo atinar como este símbolo foi gravado nesta madeira. Não foi por processo eletrolítico, químico, por queima ou qualquer outro processo mais conhecido. Veja: não há o menor sinal de queima. Nem mesmo residual. Também não encontrei resíduos que pudessem nos levar a alguma conclusão. Quem fez esta marca conhece profundamente um processo que, ao que tudo indica, é desconhecido pela química industrial atual. Eu imagino o que aconteceria se quem fez esta gravação passasse a usá-la comercialmente. Seria um sucesso estrondoso, pois além de delinear com perfeição todas as bordas, deixa a superfície interna perfeitamente lisa e sem qualquer marca. Há de se convir que esta gravura foi lavrada em um pedaço de madeira verde. Toda a madeira, por mais que se aplique polimento, quando observada por uma lupa potente, nos revela até os eventuais microdentes da ferramenta. Espere um pouco. Eu vou tentar observar esta superfície em um microscópio.

Foi até um armário e de lá tirou um microscópio laboratorial. Depois de afastar a base do mesmo, improvisou uma forma de colocar a superfície em uma posição que permitisse o foco. Tentou a duzentas vezes de aumento e fez questão que Juliano também observasse. Nada havia de riscos, arranhões ou sinais semelhantes. O conjunto celular da madeira aparecia nítido no visor do aparelho. Tentou aumentar para trezentas e cinquenta vezes. E o resultado foi semelhante à tentativa anterior. Nada pudera ser encontrado que desse uma pista de como aquilo fora gravado.

Voltou-se para Juliano: - pelo que estou vendo, não conhecemos na química industrial e nem mesmo em processos industriais de gravação uma perfeição a este nível. Diga-me uma coisa. Onde este seu amigo encontrou esta peça?

Juliano respondeu-lhe que não sabia. Disse apenas que encontrara aquilo e o havia entregado para que pudesse verificar o seu significado, já que o conhecia como pesquisador. E que não lhe revelara a origem da lasca de madeira.

O químico votou-se para Juliano e, em tom de brincadeira, disse-lhe: - isto é coisa feita pelo demo ou então por algum extraterrestre. Não acredito que em nosso mundo, apesar de tão avançado, se conseguiria uma perfeição deste nível.

Juliano, assustado, quase revelou a origem daquele pedaço de madeira. Desconversou com o amigo, que lhe convidou para um café em sua casa. E ambos, depois de acondicionarem a peça na caixa improvisada por Juliano, abandonaram a oficina.

Mais tarde, após deixar a casa do amigo, Juliano exultava. Sua ideia inicial, de rapto alienígena dos passageiros do ônibus começava a fazer sentido para ele. E aquela gravura era um troféu que muitos pesquisadores no campo da exobiologia e da ufologia dariam um braço para conquistar. Talvez fosse a única prova real de que poderia haver outros seres, e extraterrestres, contatando a humanidade. Ao chegar à sua casa, o pesquisador guardou com cuidado a caixa com aquela relíquia. Escondeu-a bem escondida, de vez que, embora confiasse no amigo, lembrou-se de um ditado antigo que diz que precaução e água benta não fazem mal a ninguém. Voltou ao computador e continuou a pesquisar na Internet a respeito daquela simbologia. Agora, com aquela informação em mãos, poderia ser uma noite longa.

KLONIX – CAPÍTULO 6

A simbologia pesquisada por Juliano não lhe trouxe nenhum resultado. Mas o pesquisador lembrava-se de já ter visto aquela marca em algum lugar. Ou, ao menos, bastante parecida com aquilo.

Por outro lado, sabia que a mente humana por vezes nos trai de uma forma inexplicável. Lembrou-se da ocasião em que dava aulas de história e sua mente o traiu desta forma. Perguntado por um aluno, não conseguia lembrar-se do nome do imperador romano que convocou o concílio de Nicéia. O nome de Constantino não lhe vinha à memória de forma alguma. Só depois de algum tempo é que pôde lembrar-se daquele imperador. Assim pensando, desligou o computador e desistiu por um tempo de pensar no assunto. Muito embora este não saísse de sua mente.

Na manhã seguinte, Juliano esteve no escritório local da ONG para quem trabalhava. Levava consigo as fotos do símbolo encontrado e a lasca de madeira. De imediato procurou o presidente da entidade em seu gabinete. Ao entrar, foi recebido pelo mesmo com efusão: - então, Juliano. Quando você estará pronto para sua ida à Turquia, para desenvolver aquele trabalho referente aos curdos?

Juliano, sentando-se, respondeu: - eu creio que as passagens podem ser compradas. Mas antes eu gostaria de lhe mostrar uma coisa. Ele tirou de sua pasta as fotos que representavam o símbolo encontrado.

O presidente da ONG olhou detidamente as fotos e perguntou: - mas, Juliano, o que é isto? Alguma nova simbologia que você descobriu?

Juliano acenou negativamente com a cabeça: - não. Eu vou lhe explicar. Mas, prepare-se, pois nem eu mesmo estou conseguindo dormir por causa desta marca. E contou-lhe o que acontecera com o ônibus, seus passageiros, com aquela marca, como a encontrara e a respeito da lasca de madeira que tirara da árvore com o símbolo original. O presidente da organização ouvia a tudo boquiaberto. Não interrompeu o pesquisador durante a sua exposição. E Juliano dissertou a respeito de tudo, sem lhe esconder qualquer detalhe.

Quando Juliano terminou de falar, o presidente da ONG ficou como que sem palavras. E Juliano aproveitou a oportunidade: - o que eu necessito agora é consultar uma das maiores sumidades em cultura suméria. Eu já lia alguns livros dele. Claro que não concordo com a maior parte de suas teorias. Acontece, no entanto, que ele, além de conhecer profundamente a religião e a cultura sumérias, é um grande conhecedor, também, das culturas que eram periféricas aos sumérios. Por outro lado, foi o descobridor de um fato que hoje já é indiscutível no meio científico. Que os sumérios conheciam o nosso sistema solar, a partir do momento em que o representavam em seus desenhos. Veja. E lhe mostrou algumas reproduções de cenas da vida suméria, onde claramente se via os nove planetas do sistema solar, inclusive com certa relação de seus tamanhos.

Juliano continuou: - pois bem. O símbolo que encontrei também apresenta os mesmos nove sinais. Além disto, há uma divisão clara entre eles. Os quatro primeiros sinais estão acima deste ômega estilizado. Que, teoricamente, poderiam significar os quatro planetas internos – aqueles que ficam aquém do Cinturão de Asteroides. E os outros cinco, os planetas exteriores: Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Talvez até o ômega estilizado pudesse significar o Bracelete Brilhante sumério, o nosso Cinturão de Asteroides. Não sei. Mas eu creio que um contato com este pesquisador pudesse revelar algum dado importante. É. Eu sei. A organização jamais iria entrar em uma polêmica com referência a sinais deixados por alienígenas. Entretanto, eu creio que este sinal encontrado, caso possa ser mais bem desvendado, com certeza nos trará uma visão nova a respeito. Se a memória não me enganar, eu já vi algo semelhante em algum lugar. Já fiz de tudo para lembrar onde eu o vi. Mas a memória me é falha. Mas eu tenho a impressão que foi em algum lugar no Oriente Médio.

O presidente perguntou: - e o que você precisa para isto?

Juliano prontamente respondeu: - eu gostaria de ir aos Estados Unidos, onde mora atualmente este pesquisador. Aliás, já entrei em contato com ele via Internet e ele disse-me em um e-mail que estaria pronto a me receber, tão logo chegasse a New York. Assim...

O presidente sorriu: - pois bem, Juliano. Vou providenciar as suas passagens. Quando você pretende embarcar?

Juliano estava exultante: - tão logo esteja com as passagens nas mãos. Eu não estou certo, mas creio que meu visto americano ainda está válido.

A reunião foi encerrada com o presidente pedindo-lhe que passasse no dia seguinte para pegar as passagens e o dinheiro para que pudesse ficar um tempo nos Estados Unidos.

Após sair da ONG, Juliano procurou um amigo seu na redação de um grande jornal da cidade. Ao encontrá-lo, convidou-o para almoçar. E, no almoço, disse-lhe que estivesse preparado. Havia um furo de reportagem para ele. Algo de sensacional e que iria, inclusive, mudar alguns conceitos. Disse-lhe também que estava embarcando para os Estados Unidos, sem revelar exatamente porque, mas logo que retornasse, o procuraria e lhe explicaria o assunto e do que se tratava.

Quando chegou a sua casa, Juliano ligou o micro e passou em e-mail para que o estudioso da cultura suméria o aguardasse, pois estava embarcando para New York e pediu um horário para conversarem.

KLONIX – CAPÍTULO 7

Vilma acabara de chegar a sua casa quando o celular tocou. Era Juliano que queria encontrá-la para lhe mostrar algo totalmente sem sentido.

Vilma tinha se formado em História com Juliano. Ainda na faculdade tiveram um breve namoro. Mas o trabalho de ambos acabou por separá-los. Principalmente depois que Juliano passara a viajar pelo mundo, atrás de suas pesquisas. Uma forte amizade, entretanto ainda os unia. Eram como amigos e confidentes. Como o assunto da pesquisa de Juliano sempre a atraiu, ela acompanhava de longe o que o pesquisador realizava. Normalmente, em seus retornos, ele trazia para ela uma ou outra lembrança de onde estivera. Agora ele a convidava para que se encontrassem, dizendo que havia algo de novo a lhe mostrar. Ela colocou uma roupa simples, e, pegando a chave do carro, saiu em direção à casa de Juliano.

Quando lá chegou, o pesquisador a aguardava com uma taça de vinho nas mãos. Depois, levou-a a seu escritório e, assim que se acomodaram Juliano falou-lhe: - bem. Vilma. Eu sou um eterno curioso. Aliás, se eu não fosse assim, jamais estaria fazendo o que faço. Talvez continuasse dando aulas em algum colégio de periferia. Minha curiosidade, entretanto, trouxe um fato um tanto insólito. Eu vou dizer para você o que aconteceu.

E Juliano narrou-lhe com detalhes o que havia descoberto em relação ao desaparecimento dos passageiros, em sua viagem noturna. Depois de contar-lhe todo o acontecido, mostrou à Vilma, além das fotos tiradas no local, a lasca de madeira com o símbolo gravado.

Enquanto isto, falou-lhe: - eu levei esta lasca de madeira para que um amigo meu, que é químico industrial, desse uma olhada. E ele me confirmou que, pelos processos industriais conhecidos, jamais seria possível uma gravação desta em madeira. O que você acha de uma coisa destas?

Vilma observou detidamente, tanto as fotos quanto a lasca de madeira. Depois, tentou manifestar a sua opinião: - logo de cara, para mim, parece coisa destes malucos que vivem correndo atrás de discos voadores, contatos de terceiro grau e coisas semelhantes. Vindo de você, das duas uma: ou você acabou enlouquecendo, ou está mostrando algo que eu não saberia como definir. Como eu acho que você ainda não está totalmente louco, vamos olhar mais de perto. Eu já vi uma gravura semelhante em algum lugar. Não lembro se em um livro, em algum museu, não lembro. Mas tenho a certeza de que esta marca é minha conhecida.

Juliano atalhou: - eu estive lendo alguns livros de um escritor que é considerado um dos maiores conhecedores da civilização suméria. Segundo ele, a despeito de suas teorias um tanto ou quanto meio estapafúrdias, os sumérios sempre representaram os nossos nove planetas em suas representações e em suas gravações. Se formos considerar o que este pesquisador nos diz em seus livros, esse símbolo nos mostra claramente nossos planetas. Veja: os quatro interiores, Mercúrio, Vênus, Terra e Marte, e os quatro exteriores: Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Se assim for verdade, este ômega estilizado poderia ser o Cinturão de Asteroides, que também já era conhecido dos sumérios.

Vilma estava atônita: - realmente esta sua interpretação faz sentido. Mas, por que esta marca apareceu próxima ao desaparecimento daquelas pessoas?

Juliano respondeu: - aí é que está o problema. Eu li todo o inquérito. Na realidade, as marcas dos pneus do ônibus mostram que o mesmo parou naquele ponto do chão de terra da estrada. Porém, em determinado lugar, elas nos remetem a uma situação complexa. Dali em diante não existe sequer um rastro do que poderia ter acontecido. Se os passageiros tivessem desembarcado, içados por um guindaste ou coisa semelhante, com certeza uma operação deste tipo deixaria suas marcas. Há outra incógnita: o motorista do ônibus apareceu morto. Não aconteceu um latrocínio, pois seu dinheiro, seu celular e documentos foram encontrados com ele. Além disto, há um fato que deixou a empresa sem saber o que poderia ter acontecido: aquele motorista, em que pese estar dirigindo um ônibus da empresa, não era funcionário dela. E mais: os funcionários na rodoviária do Rio, todos, sem exceção, disseram que não era o mesmo motorista que saíra com o ônibus de lá, mas alguém extremamente parecido. Segundo o depoimento deles, o motorista que saiu com o ônibus era mais baixo e mais magro e era já velho conhecido deles. A empresa confirmou que, pelos seus dados, aquela viagem teria como motorista justamente o motorista descrito pelos funcionários que o viram na partida. Entretanto, o motorista que deveria estar dirigindo o ônibus também desapareceu. Outro fato curioso e sem explicação: ninguém, até agora, reclamou o corpo. Nem mesmo a família do outro motorista, pois um de seus parentes esteve no necrotério e confirmou que aquele cadáver não era seu conhecido. O corpo ainda se encontra no necrotério e, provavelmente será enterrado como indigente, dado que a empresa não irá se responsabilizar pelo seu enterro.

Vilma o cortou: - porra, Juliano. Realmente isto é um mistério. E a polícia já concluiu o inquérito?

- pelo que sei, não. Mas você sabe como é: depois de um tempo, vão dar o assunto como insolúvel e o inquérito vai apodrecer em alguma prateleira de um arquivo.

Vilma perguntou: - e o que você pretende fazer com tudo isto?

Juliano lhe respondeu: - antes de tudo, quero buscar algum informe a respeito desta marca. Tanto que estou embarcando em mais uns dias para New York, para entrevistar e mostrar a este pesquisador da civilização suméria o que tenho em mãos.

Vilma deu uma risada: - é. Trabalhar para uma ONG com dinheiro é outra coisa... E depois de falar com este escritor?

Juliano acenou com a mão: - bem, daí em diante eu não sei. Talvez sepulte o assunto. Ou talvez continue a colher dados a respeito. Ei. Você toparia ir comigo ao necrotério para conversar com o legista que realizou a necropsia no corpo?

Vilma novamente sorriu: - humm, necrotério! Não é um programão, mas como é você quem pede, eu topo...

E Juliano ainda propôs à amiga: - Vilma. Você iria comigo aos Estados Unidos?

Vilma sorriu incrédula: - Eu? Claro! Claro! Mas como e quando?

Juliano deu a resposta: - eu deverei estar embarcando em cerca de dez ou quinze dias. Devo ficar por lá umas duas semanas. O que significa que você deve providenciar tudo em dez dias. Será que dá tempo?

Vilma estava radiante; - claro que sim. Amanhã mesmo já vou providenciar a renovação de um visto que tirei e não usei. Creio que não haverá problemas...

Ainda ficaram por algum tempo falando a respeito do acontecimento com o ônibus e os seus possíveis desdobramentos. Antes de Vilma sair, Juliano marcou com ela: - amanhã, por volta das nove horas, eu passo em sua casa para irmos ao necrotério.

KLONIX – CAPÍTULO 8

Durante aquela noite, cerca de uma hora da manhã, dois vigias estavam na portaria do necrotério e conversavam. Notaram a chegada de dois homens que se apresentaram como da polícia. Quando solicitaram as identificações dos dois chegados, um deles levantou a mão e imediatamente os dois vigias caíram em um sono profundo.

No segundo andar, o médico, Dr. Amílcar, e um ajudante conversavam e não repararam qualquer movimento. O auxiliar chegou a comentar: - pô, Doutor Amílcar. Eu já trabalho aqui há mais de dez anos. E ainda, volta e meia, eu tenho a impressão de que um ou outro vulto caminha nestes corredores. Principalmente à noite, quando tudo está calmo.

E o legista riu da colocação do funcionário: - é. Eu sei. Mas não se preocupe. Estas sombras não fazem mal algum. Eu também, no início, via um monte de coisas. Até que me acostumei com elas. Hoje elas são minhas amigas e não me perturbam mais. Por vezes até vêm até mim para conversarmos um pouco.

Mais tarde, quando acordaram, os vigias da portaria não avaliavam o que se sucedera durante o tempo em que dormiam. Somente no dia seguinte iriam saber o que acontecera naquele necrotério. Que os deixaria sem ação e sujeitos a uma punição por terem dormido durante a hora do trabalho.

KLONIX – CAPÍTULO 9

Quando Juliano e Vilma chegaram ao necrotério, encontraram dois carros da polícia estacionados na entrada. Chegaram á recepção e procuraram conseguir uma entrevista com o diretor do estabelecimento. Pela forma com que haviam sido recebidos pelo atendente na portaria, tudo indicava que o momento não seria o mais adequado, mesmo assim, insistiram na tentativa de conversar com o responsável pelo local. Depois de alguma espera o Doutor Demóstenes os recebeu.

Após as apresentações, como historiadores e pesquisadores, sentaram-se em torno de uma mesa e Juliano iniciou a falar: - Doutor Demóstenes. O que nos traz aqui pode ser interpretado inicialmente como uma bobagem. Mas por vezes a hipótese inicial de uma bobagem pode nos conduzir a um final completamente inusitado. Como lhe falei, trabalho como pesquisador em uma ONG que lida basicamente com a história humana. E eu, além disto, também realizo um trabalho voltado para um estudo que eu chamo de simbologia. Bem. Vamos ao que interessa.

E Juliano narrou-lhe, com certas reservas, a respeito do ocorrido com o ônibus e seus passageiros, o que havia conseguido de informações, sem, contudo, revelar-lhe a respeito do símbolo encontrado e da narrativa do colono que o levara a descobrir o novo enredo daquele acontecimento. Quando falou a respeito da autópsia do corpo do suposto motorista, o doutor Demóstenes quase pulou da cadeira: - um momento. Este corpo foi roubado do necrotério esta noite. Quem são vocês, realmente?

Juliano, a princípio, não entendeu o que o diretor lhe dizia: - o que? O corpo foi roubado? Mas como?

O diretor do necrotério insistiu: - sim. Isto mesmo. O corpo foi roubado. Não saiam daqui. Volto já. E saiu da sala.

Quando Juliano e Vilma o viram sair, observaram que ele havia fechado a sala por fora, prendendo-os em seu gabinete. Dois minutos depois, o Doutor Demóstenes voltava com dois policiais.

Novamente fechou a porta da sala, após entrar com os policiais e, com uma expressão séria e dura, comentou: - o corpo do tal motorista foi roubado do necrotério esta noite. E vocês vêm, pela manhã, procurar este mesmo corpo. Bom. Eu acho que vocês devem uma explicação. E que seja bem convincente. Afinal, roubar cadáveres é um crime previsto em nossa lei penal. Assim, seria melhor não resistir e tampouco se calarem.

Um dos policiais entrou no assunto: - em princípio, vocês estão detidos e serão levados para a delegacia. Lá vocês poderão contar direitinho o que aconteceu nesta noite.

Juliano reagiu: - esperem aí. Nós não temos nada com isto. Nossa finalidade é tentarmos ajudar a descobrir alguma faceta que não foi bem esclarecida naquele caso.

O doutor Demóstenes, cortou as palavras de Juliano: - mas sem dúvidas. Vocês podem dizer isto ao delegado. Por mim, podem levá-los...

Juliano e Vilma saíram, conduzidos pelos policiais até um carro da polícia, que os levou até a delegacia local.

Quando lá chegaram, o casal foi direto para a sala do delegado, o doutor Padilha. Ele era um delegado considerado duro, mas ponderado e com mais de trinta anos na função. E, ao ver o casal entrar em sua sala, acreditou até que fossem fazer alguma denúncia ou registrar uma ocorrência. Mas quando foi informado a respeito da presença dos dois em sua sala, sentou-se e, calmamente se preparou para interrogá-los.

Inicialmente se dirigiu a Juliano: - antes de começarmos, gostaria de saber seu nome e o que faz.

Juliano sacou de sua carteira de identidade e a passou para o policial: - meu nome é Juliano. Sou professor de história e trabalho em uma ONG que direciona o seu trabalho para a pesquisa histórica de povos antigos.

O delegado continuou: - senhor Juliano. Antes de tudo, explique-me porque o seu interesse no tal cadáver que desapareceu?

Juliano continuou impassível: - bem. Doutor. Como lhe disse sou pesquisador. Quando aconteceu aquele incidente em que os passageiros de um ônibus que fazia a linha Rio/Santos desapareceram, eu fiquei curioso com o assunto. Como estava em um período de folga na ONG onde trabalho, sem poder lhe explicar os porquês, interessei-me pelo assunto. Através de amigos e conhecidos, até mesmo dentro da polícia, tive a oportunidade de ler uma série de informações colhidas pelas autoridades a respeito. Confesso que foi mera curiosidade de um professor e pesquisador. A partir da leitura destes documentos, tomei conhecimento de que o tal motorista, cujo cadáver foi roubado do necrotério, não era o real motorista do ônibus e não trabalhava na empresa. E que, provavelmente, no percurso entre o Rio e o local do acidente usurpou o trabalho do motorista verdadeiro e funcionário da empresa. Aliás, dentro deste inquérito, mesmo sabendo deste fato, nenhuma autoridade conseguiu localizar o verdadeiro motorista. O que, para mim, já soara estranho.

O doutor Padilha o atalhou: - este caso foi um mistério que ficará, provavelmente, arquivado para sempre, pois nada temos em mãos para dar-lhe sequencia. Continue, por favor...

E Juliano retomou a sua fala: - bem. Doutor Padilha. Como um analista da história, já li e ouvi muito a respeito de tudo. E há determinados fenômenos descritos no desenvolvimento do homem que realmente embaraçam até mesmo os mais argutos observadores. Se formos considerar, inclusive, a própria noção de deuses, há momentos em que a história não consegue achar um caminho para explicar determinados acontecimentos na trajetória deles. Seria longa uma explicação mais detalhada. Mas eu espero que o senhor saiba do que estou falando.

O delegado concordou: - eu tenho uma ideia do que o senhor está falando. Particularmente eu não acredito que vocês seriam capazes até mesmo de patrocinar este roubo de cadáver. E digo por que. Vê-se que vocês dois são pessoas cujas atitudes frente ao nosso organismo policial diferem de qualquer outro que estivesse sob suspeita. Além disto, eu já estou em posse das gravações feitas durante a noite. E tenho o depoimento dos vigias que dormiam enquanto o roubo aconteceu. E eles disseram em depoimento que estavam na portaria quando dois homens entraram. E que um deles apenas levantou sua mão e os colocou em um sono profundo. Pela ficha funcional dos mesmos, eu não acredito que estejam mentindo. Mas, prossiga...

E Juliano retomou a palavra: - eu observo que há fatos que são inexplicáveis. Tanto em nossa história, como em nossa vida atual. E eu sempre fui um estudioso destes momentos. Bem. Com base no que eu havia lido a respeito, e olhe que não me preocupei em ler o que a imprensa publicou, criei para mim uma hipótese. Um tanto inacreditável, mas que poderia ser uma explicação para o fenômeno acontecido. Seria abrirmos a variante de um rapto. E um rapto dos passageiros. E nisto eu tenho de ser cauteloso, pois esta vertente estaria calcada em algo que a maior parte dos homens não aceita, não acredita e, ainda por cima, considera como uma paranoia. Mas que, ao longo do meu trabalho, encontrei diversas vezes ao longo da aventura humana na terra.

O delegado se mostrou interessado: - eu já pensei e li a respeito do que o senhor deve estar falando. Diga-me: o senhor acreditaria que teria sido um rapto alienígena?

Juliano limpou a garganta com um pigarro e respondeu: - bem. Doutor. Esta hipótese não deveria ser descartada. Muito embora eu saiba que raros serão os que entenderão este posicionamento. Que será difícil de ser colocado, pois eu imagino uma autoridade policial ou militar admitindo esta hipótese. Que é estapafúrdia para a maior parte de nosso povo. Mas, se observarmos por outro ângulo, há uma possibilidade acentuada. E justamente em função desta hipótese que acabamos sendo detidos.

O doutor Padilha, pela primeira vez sorriu: - mas vocês não estão detidos. Apenas foram conduzidos até aqui para prestar algum esclarecimento. E, particularmente, e não é o delegado que fala, mas o homem Padilha. Eu também dei uma longa espiada no inquérito daquele caso. E sou obrigado a concordar com o senhor. Realmente há muitos pontos em aberto. Mas, diga-me: porque o seu interesse em saber a respeito da autópsia?

Juliano deu a sua explicação: - ora, doutor Padilha. Se for observado que o motorista que foi encontrado morto não era o motorista real e empregado da empresa, lemos a indicação de que não houve realmente uma autópsia, mas penas uma verificação superficial. Ou, se foi constatado algum diferencial naquele corpo, provavelmente o legista simplesmente não colocaria esta informação no relatório da autópsia.

O delegado curvou o corpo em direção a Juliano: - como assim?

E Juliano praticamente sussurrou: - talvez até por comodismo, talvez até por medo do ridículo, talvez até por não acreditar que poderia ter constatado. Não sei. Mas eu tenho certeza de uma coisa. E esta foi a real razão que me levou a tentar conversar com este legista. Ele deve ter visto alguma coisa naquele corpo, que lhe perturbou a ponto de não lhe permitir seguir com a verdade da necropsia. Ou...

E o delegado o interrompeu: - ou...

Juliano baixou ainda mais o volume de sua voz: - ou, então, pode ter sido impedido por alguém. Que não sabemos exatamente quem...

Vilma a tudo ouvia. Sem saber precisar por que, via que o doutor Padilha era um homem compenetrado e sério. E que, de forma alguma, os iria reter por mais tempo em função da ação do doutor Demóstenes. Tentou apartear: - bem, doutor Padilha. Até agora eu fiquei ouvindo. Mas eu gostaria de participar, pois há um detalhe que precisaria ser esclarecido. Estes assim chamados fenômenos de desaparecimentos não são novos na nossa história. Inclusive na nossa história mais recente. É. Eu sei que o mundo é incrédulo a respeito. Mas se analisarmos apenas o que já aconteceu na região das Bermudas, somos obrigados a concordar que existe algo maior. Mesmo que ninguém queira aceitar estes fatos. Nem mesmo quando as forças armadas americanas confirmam desaparecimentos de navios, aviões e até esquadrilhas inteiras.

O doutor Padilha, por fim, levantou-se: - bem, professor Juliano. De minha parte eu creio que já estou satisfeito. E quanto à senhora... Vilma ah, sim... Professora Vilma. Eu nada tenho de palpável para detê-los mais. Assim, estão liberados. Ah, bem a propósito, professor Juliano, haveria como voltarmos a um contato? Não como policial, é claro. Mas eu fiquei deveras curioso a respeito de sua visão a respeito daquele desaparecimento.

E Juliano passou-lhe um cartão da ONG, onde constava o seu celular: - bem, doutor Padilha. Dentro de mais uns dias estaremos embarcando para os Estados Unidos, a trabalho. Ah, tome. Fique com o meu cartão. Nele tem o endereço e o telefone da ONG onde trabalho. Quanto a Vilma, esteja certo que fui eu quem a envolveu nesta confusão. E, a propósito, quando voltarmos de nossa viagem, voltarei a contatá-lo, doutor Padilha. Talvez eu traga alguma coisa a respeito que poderá lhe interessar...

O policial mostrou o seu interesse: - e o que seria?

Juliano sorriu para ele enquanto anotava o número do celular do doutor Padilha: - aguarde doutor. Não posso dizer-lhe agora, pois somente terei maiores informes durante esta viagem. Na volta eu o contato.

E o delegado os dispensou, levando-os até a saída da delegacia onde alguns repórteres faziam seu plantão. Nenhum deles se preocupou com Juliano e Vilma.

KLONIX – CAPÍTULO 10

Em uma estrada deserta no interior do Peru, em plena noite, uma velha caminhonete rodava com os faróis baixos e tremeluzentes. Era do tipo furgão, carcomido de ferrugem e sua cor branca apresentava o avermelhado constante da ferrugem que tomava conta da carroceria. Rodava com calma e perícia pela estrada que vai de Tarma a Lima.

No volante, um homem alto, aloirado e forte e, sentada no banco do carona, uma mulher também alta, de tez morena e extremamente bonita. Se fossem vistos por alguém, com certeza chamariam a atenção, pois estavam com vestes que contrastavam com o estado do veículo. Ambos estavam bem vestidos e com uma excelente apresentação. Estavam com roupas de frio, haja vista que estavam subindo em direção aos picos andinos da porção peruana da cordilheira que se estende por todo o oeste da América do Sul.

No compartimento de carga estava a razão para aquela situação insólita. Um saco de lona fortemente atado com fitas adesivas largas carregava o corpo de um homem. Esta carga seria deixada em um determinado lugar da cidade de La Oroya que ficava á margem daquela rodovia.

Ali o casal abandonaria o furgão com o corpo e entraria em outro veículo, seguindo em direção à capital, Lima. De onde tomariam destino desconhecido. Esta era a missão do casal. Desovar um corpo em uma pequena cidade peruana.

Este corpo, por caminhos desconhecidos, viera parar em Tarma, uma cidade a cerca de 250 quilômetros de Lima, do outro lado da Cordilheira dos Andes. Lá, uma pessoa também de fora do local, havia deixado a caminhonete com as chaves no contato, junto a uma esquina. O casal não tivera problemas em localizá-la. E agora rumavam para seu destino – a capital peruana – Lima – depois de deixarem o corpo no lugar predeterminado.

Não conversavam entre eles. Eram como se fossem dois desconhecidos em uma condução. Mas via-se nos semblantes, a determinação de ambos. Havia uma missão a ser cumprida. Para eles, isto bastava. Não havia motivação para que conversassem. E assim, mudos, seguiam pelas perigosas curvas da estrada que corta a cordilheira de leste para oeste.

KLONIX – CAPÍTULO 11

Quando saíram da delegacia, Juliano virou-se para Vilma: - desculpe Vilma. Eu jamais pensaria que iria colocar você nesta embrulhada.

Vilma, no entanto, sorriu para Juliano:- desculpar de que? Eu me meti nesta embrulhada, como você diz, porque quis. Bastava que eu lhe dissesse ontem que não viria ao necrotério e pronto! Eu não estaria embrulhada... O que importa agora é tentarmos entender o que houve com o corpo do tal motorista. Segundo o delegado, dois homens entraram no necrotério e, depois de anestesiar os porteiros, simplesmente levaram o corpo. Para onde? Por quê? Estas são as perguntas que estão sem resposta. E agora? Qual será o nosso próximo passo?

Juliano respondeu surpreso: - Nosso passo? O que você está querendo dizer?

Vilma voltou-se para ele sorrindo: - ora, Juliano. Então você acreditaria que, depois de ter sido presa por causa desta história, eu voltaria para casa e deixaria tudo para lá? Mas nem pensar! E, pelo jeito, você acaba de ganhar uma companheira nesta história toda. Ou será que eu estou enganada?

Juliano deu uma risada: - não. Não é isso. Claro que você é e será uma boa companhia. Mas eu estou prevendo que ainda teremos muitos sustos semelhantes. E eu não gostaria que você, bem, também levasse estes sustos...

Vilma continuou sorrindo: - sustos não me assustam. Não sei onde li isto, mas é uma verdade. E eu acabei por ficar curiosa a respeito disto tudo. Bem, Juliano, qual será o nosso próximo passo?

Juliano lhe respondeu: - vamos até a ONG. Conversaremos com o presidente e, com ele, vamos estabelecer um caminho a seguir.

Foram até as proximidades do necrotério, onde entraram no carro de Juliano e seguiram em direção ao edifício onde se situava a ONG. Não repararam, mas dois homens os haviam seguido com os olhos até o automóvel.

A fundação para a qual Juliano e Vilma prestavam serviços como pesquisadores na área de história tinha sua sede em um prédio luxuoso na Quinta Avenida em New York. Ali, dos três pavimentos mais altos e que pertenciam à fundação, se descortinava o pesado horizonte de concreto que contrastava com o céu nem sempre azul do clima nova-iorquino.

Seu fundador fora Terence Shelbi, um magnata apaixonado por história e arqueologia, e que se tornara milionário no período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais, quando a recessão americana atingiu o seu ponto mais negro. Shelbi, de forma quase profética previra os acontecimentos que redundariam no grande fiasco ianque de 1929 e tratou de aplicar todo o seu capital disponível em moedas estrangeiras, mesmo de países sem expressão mundial. Com a recessão avançando, os preços das casas e apartamentos despencaram a níveis jamais imaginados. E Shelbi, tendo convertido seus dólares em diversas moedas estrangeiras, dispunha de valores tais que lhe propiciaram a aquisição de centenas de imóveis dos mais diversos tipos.

Em sua visão, Shelbi sabia que a recessão americana teria seu momento de recuperação. E soube aguardar o momento certo. Com paciência. Com calma. Com ponderação.

Na sua forma de pensar, ele entendia que são nas grandes crises que um homem que dispusesse de algum capital poderia aproveitar os bons negócios que surgissem. E assim ele procedeu. Imóveis que lhe custaram dez mil dólares foram vendidos, na recuperação econômica por cerca de cento e cinquenta mil dólares. E foi na aplicação certa e bem direcionada que Shelbi viu o seu patrimônio crescer mais de seiscentos por cento em menos de cinco anos. E agora Shelbi podia se dedicar de corpo e alma ao seu passatempo predileto. O estudo da história e seus vínculos mais sutis e perturbadores.

Nasceu a Fundação Terence Shelbi. Através de convites, vários historiadores menos ortodoxos foram trazidos para colaborar com os trabalhos em vista. E uma pauta de atividades foi criada, que envolvia os mais variados aspectos arqueológicos e históricos em redor do mundo.

Foi na Fundação, por exemplo, que surgiram várias novas interpretações a determinados aspectos semiobscurecidos pela historiografia ortodoxa. Não se detendo em dogmas ou em posições mais direcionadas, os integrantes da Fundação tinham inteira liberdade de observar, criar processos teóricos, mergulhar a fundo nestas observações e, finalmente, mostrar que o axioma que servia de lema à Fundação tinha muito sentido:




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