A crise da ambição



Baixar 159.16 Kb.
Página1/3
Encontro01.10.2019
Tamanho159.16 Kb.
  1   2   3

A crise da ambição
Por cima uma laje/Embaixo a escuridão./ É fogo irmão!/ É fogo irmão!” 14
Crises sistêmicas da economia mundial refletem formas de ação individual e coletiva que não deixam dúvida sobre suas causas: a ambição.

Enquanto uma expressão exagerada da paixão, cujos efeitos também trazem resultados positivos, a ambição, como fator psicológico, não é considerada nas previsões dos agentes econômicos, centradas em dados de predomínio quantitativo.

O espiritismo, em sua expressão filosófica, ao tratar das causas dos conflitos humanos, oferece elementos capazes de elucidar e ajudar a superação das crises, pela mudança de seus antecedentes.

O presente trabalho analisa o tema apoiado nos fundamentos éticos e morais do espiritismo, que têm vasto campo para crescer nas relações humanas, entre as quais as econômicas e, nestas, as financeiras. Aqui está o eixo das crises que têm abalado o mundo dos negócios, com repercussões sociais graves e injustas.



*****

A mais vergonhosa contradição dos tempos recentes, em escala mundial, mantém suas chagas abertas. Ao tempo em que a maioria dos bancos centrais presta socorro ao setor financeiro – em seis meses o governo dos Estados Unidos, mais o Federal Reserve Board transferiram ao setor privado cerca de US$ 2 trilhões – a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO na sigla em inglês) denuncia que em 2009 o número de pobres e famintos no mundo cresceu de 100 milhões de pessoas, para 1,02 bilhão. Equivale a um sexto da população global. (1)



O emprego é outra vítima do sistema. Em 2009, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), entre 210 milhões e 239 milhões de pessoas estarão desempregadas, respectivamente, com aumentos equivalentes a 6,5% e 7,4%, sobre níveis de 2007. Significa que de 39 milhões a 59 milhões de pessoas passam a engrossar a estatística dos desocupados no mundo. A entidade deixa claro que esse quadro negativo deriva da mais recente crise econômica mundial.
Frame1
Está-se ante um fenômeno sistêmico da economia, institucionalizado pela omissão de dados reais de seus atores, mentiras, leniência, cumplicidade, práticas de altíssimos salários e prêmios a gestores, favorecedoras de subterfúgios, espertezas, prejuízos, instabilidades e incertezas, com o desaguar no desemprego e no aumento da pobreza. O fenômeno, que não pode ser atribuído ao acaso, muito menos a forças da natureza, persiste como a ludibriar os avaliadores de riscos, grandes instituições especializadas no ramo, com a aparente função de distinguir empresas e países com maior ou menor segurança para parcerias.

Esses efeitos passam batido da legislação reguladora dos países e da auditoria dos bancos, que têm deveres de proteção para com o público, pelas funções também públicas que desempenham.

A economia clássica, ao julgar-se uma ciência exata, procura dimensionar tendências por dados quantitativos, no que é desmentida pelos fatos. Inexiste, na ciência econômica, um indicador de limites para ofertas e demandas, ou seja, até que ponto um fenômeno passa do necessário ao especulativo, do útil à ambição. O desfecho desse processo costuma ser penoso, por contrariar leis naturais, escapáveis a um setor que se propõe a ser científico, mas cujo comportamento vislumbra a crença.

Haveria como um torpor generalizado nos agentes do mercado, sob uma falsa hipótese de que demandas e preços podem subir indefinidamente. Seria esse torpor, um sentimento natural, ou adquirido nas práticas do mercado? Quais fatores compõem a decisão de cada um, ante o presente e o futuro?

O elemento faltante desse universo é o psicológico, em linguagem ampla, ou espiritual, mais profundo e adequado. Seu significado repercute de forma direta nos rumos da economia e da sociedade, a merecer uma avaliação na medida de sua importância humana e social.

A matéria-prima agora são itens como ambição, paixão, egoísmo, vaidade, poder, sexo, vontade de empreender, à conta de motivações do ser humano. Regulações em diferentes setores da economia, se frouxas, de pouca transparência, podem respaldar aquelas forças do ser, com favorecimento às crises.



A literatura econômica apenas resvala nesses componentes psicológicos mas, com a crise aprofundada entre 2007 e 2009, há uma renascente preocupação de colocá-los à mesa das análises, entre diagnósticos e perspectivas. Sob o ponto de vista espírita, admitindo-se que ambição, paixão e outros comportamentos estimuladores de decisões refletem uma estrutura mental egoísta e materialista, ainda que dentro de um amplo espectro de manifestações, propõe-se a questão:
Uma visão imortalista e palingenésica da existência terá força para alterar os fundamentos do homem e estabelecer relações mais justas e estáveis na economia e na sociedade?
Desde David Hume (1711-1776) e Adam Smith (1723-1790), ambos escoceses e iluministas, até John Maynard Keynes (1883-1946), também britânico, há argumentações sobre a importância de fatores psicológicos na economia. Mais recentemente, dois economistas norte-americanos, Robert Shiller, da Universidade de Yale e George Arkelof, da Universidade da Califórnia, este Nobel de Economia/2001, reativaram o conceito de “espírito animal”, como componente e acionador de decisões humanas, com repercussões na economia.

Shiller e Arkelof escreveram o – Animal Spirits – com o desafiador subtítulo “Como a psicologia humana comanda a economia e porque ela é importante para o capitalismo global". Convicto de suas análises, Shiller, afirma que “Uma noção importante para a teoria econômica convencional é a ideia de que as pessoas são inexoravelmente egoístas, capazes de desrespeitar as leis e fazer qualquer coisa para maximizar seus lucros. Tem algo errado aí”. (2)

A temática cresce de importância com a mais recente crise, marcada pela quebra de históricas instituições financeiras dos Estados Unidos, detentoras dos títulos ‘podres’, os ‘subprimes’ e altamente expostas no conceito financeiro. O abalo maior ocorreu em setembro de 2008, com o pedido de concordata do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, fundado em 1850 por três judeus imigrantes da Alemanha.

De fato, tanto a economia norte-americana, como de vários outros países de maior renda, encontravam-se altamente “alavancadas”, no jargão econômico, sinônimo de elevado endividamento em relação às suas receitas líquidas.

O fator eminentemente financeiro, que sempre supõe maior exposição a riscos, expandiu-se nas operações entre empresas e destas para o público, em montantes desproporcionais à economia real, a indicar ampla aposta no futuro. Esse mecanismo de criação de ‘bolhas’ repete-se ao longo da história, infladas, na sua mais recente versão, pelo setor imobiliário, com estímulo dos bancos, sob a falsa hipótese de ganhos contínuos e ilimitados.



Do escambo à alavancagem

Ponho em alta dúvida ética o mandamento capitalista da alavancagem, nos últimos tempos eleita como essencial nas iniciativas comerciais e de investimentos. Empresas muito alavancadas são aquelas que assumem elevados compromissos, ante suas reais disponibilidades em ativos e obtenção de receitas. A estratégia é de operar com recursos de terceiros, bem acima dos próprios.

Uma complacência generalizada de fornecedores de recursos financeiros e de órgãos incumbidos de fiscalizar operações do tipo, convalidam a eleição do alto risco como algo normal. Legaliza-se, assim, o que mais à frente redundará em inadimplência, quebra de compromissos e tentativa de repasses de prejuízos.

E imaginar-se que tudo começou com o escambo! Trocar bens produzidos entre si, ou bens por serviços, marca o início das transações nas tribos. Sem moeda propriamente dita, o homem-agrícola buscava a simples sobrevivência, até que a produtividade criou o excesso de produção e abriu o caminho para a mercadoria, o bem levado ao mercado.

Não se pode negar que a transformação das primeiras moedas, como o gado e o sal, em moedas cunhadas, representaram um avanço na praticidade dos negócios. Mas as moedas também não seriam imunes às artimanhas do homem: tanto podiam ser falsificadas, como até hoje, quanto não representar, de fato, o valor de face. Ou seja, da moeda cunhada em ouro ou prata, passou-se para o cobre ou ligas metálicas diversas, ao tempo em que os valores inscritos nas cédulas não possuíam o respaldo em ouro. As cédulas careciam de lastro ou conversibilidade.

Observa-se ao longo da história que o ser humano tem sido ávido por ‘criar’ moeda, tarefa exclusiva do poder público. Essa avidez foi sempre perseguida pelo setor bancário, na prática do juro. A pessoa que se endivida além de uma proporção razoável, ante sua possibilidade de gerar renda própria, acredita no mesmo princípio dos bancos.

Essa distorção tomou dimensões gigantescas com a liberalidade financeira. O saque contra o futuro passou à condição de norma, tanto que em nenhum momento da história, como no presente, se exaltou com tal grandiloqüência a utilidade do crédito. Sua escassez, com a quebra de confiança do mercado, foi tida como catastrófica para os negócios.

Na economia norte-americana, que dita comportamentos mundiais, os exemplos de alavancagem denunciam extremada ambição, como se conclui destes números. Entre 1976 e 2008 o endividamento do setor privado cresceu de 112% para 295% do PIB dos Estados Unidos. Nesse meio, o setor financeiro saltou de 16% do PIB para 121%. (3) Significa que a economia virtual baseada em crédito e não raro virtual supera em larga medida a real, o que supõe altíssima exposição a riscos, na verdade, uma tendência de difícil reversão sem quebras no caminho.

Por detrás dessa e de outras crises, como a de 1929, detonada pela quebra da Bolsa de Nova York, que gerou a Grande Depressão, como se observa, está o ser humano, em sua complexidade corpo e espírito. É esse ser que nos momentos de confiança dispara tendências para um lado, o do consumo e do investimento, para em seguida tomar o rumo inverso, encolhendo-se, quando há desconfiança, agora com geração de instabilidades e perdas para pessoas e mercados.

A sequência desse quadro vem pela corrida dos sistemas em aperfeiçoar suas regulações, não sem antes necessitar de socorro de recursos públicos, em escandaloso expediente socializante. Foi chocante a notícia segundo a qual executivos de um grupo econômico prestes a quebrar viajou de avião fretado para Washington a fim de darem explicações sobre motivos da aventura com o dinheiro de seus clientes.




Mariotti: “O homem – finito leva

às catástrofes espirituais”

A dúvida que cerca estas questões tem razões práticas. O pressuposto da unicidade da existência, a oportunidade de desfrute dos prazeres materiais, o sentimento de ser melhor do que os outros, favoreceria o ímpeto criativo das pessoas e estaria na base do interesse de empreender.

De outra parte, a certeza da imortalidade e a sobrevalorização da vida espiritual, levaria o homem a um estado contemplativo, travado ante a criatividade, a produção de bens que a sociedade precisa. O abrir-mão de satisfações agora, para melhor colheita no mais além, conduziria a uma estagnação da sociedade, em seus diversos campos de manifestação? O Espírito Pascal(4), ao comunicar-se em Genebra, 1860, foi categórico: “O homem não possui senão aquilo que pode levar deste mundo”. Uma afirmação desafiadora.



Humberto Mariotti (5) receia o que chama de o homem-finito, sinalizador de “catástrofes espirituais”. O pensador espírita argentino faz esta reflexão: “Se o homem continuasse pensando em sua própria finitude, não há dúvida de que a civilização terminaria na mais terrível das catástrofes espirituais. Porque, se o homem-que-morre é quem deve reger o desenvolvimento humano, tudo será relativo e tenderá a malograr com a ideia do nada. Não haverá nenhum valor espiritual que se salve da morte definitiva. O homem finito, com seus afetos e aspirações, resultará em tragédia e fatalidade”.

Hume, Smith e Keynes

Adam Smith, autor de

Teoria dos Sentimentos Morais”



David Hume, em seu Tratado na Natureza Humana, citado por Eduardo Gianetti da Fonseca (5), afirma que “há três classes de bens que os agentes podem perseguir e que se tornam objetos de suas atividades autointeressadas: (I) a satisfação interna de nossa mente (bens da mente); (II) as vantagens externas de nosso corpo como, por exemplo, desfrutar a saúde, o sexo e a boa aparência (bens do corpo); e (III) o desfrute das posses que adquirimos por nossa própria indústria e boa sorte (bens externos)”. Para Fonseca, a teoria smithiana “é uma tentativa de explicar a primazia relativa de (III), ‘o desfrute das posses’, na sociedade moderna...”.

Adam Smith tenta formular na Teoria dos Sentimentos Morais, a natureza da ambição econômica. Ele questiona o porquê de tantos caminhos pedregosos para o homem que pratica a avareza, por exemplo, na busca de riqueza, do poder e da preeminência.

Significa admitir-se que tanto a mais recente, quanto as anteriores ou posteriores crises na economia, derivam da mesma cultura desse homem-histórico. A amostragem internacional que se seguiu ao noticiário dos últimos tempos, de vilania, procura do ganho fácil, crimes financeiros declarados ou encobertos, oferece a medida de que o homem, em visão genérica, tem dado passos bem curtos na direção do respeito ao próximo, à valorização do trabalho pessoal e ao próprio crescimento espiritual.

Cabe, assim, uma avaliação dos sistemas econômicos que têm prevalecido contemporaneamente.





Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande