A aventura do petróleo



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A aventura do petróleo

Isolados em alto-mar, na mais importante batalha de que o Brasil já participou, centenas de homens enfrentam uma rotina de trabalho árduo e perigoso

Revista Manchete, junho de 1976

Por Ricardo Noblat

No momento em que o petróleo se torna a mercadoria mais disputada do mercado internacional, o Brasil acelera seus esforços de pesquisa e prospecção e se lança aos mares à sua procura. Nessa tarefa, estão empenhados centenas de homens, em 20 plataformas espalhadas ao longo do litoral brasileiro. Numa delas, na costa de Sergipe, MANCHETE viveu toda a intensidade da batalha pela conquista do petróleo.
Espremido entre duas costeletas, Júlio Herman, 37 anos, 18 de Petrobrás, entra na Penalva, cumprimenta todo mundo com uma semicontinência e se acomoda num canto. A lancha parte contra o sol, em direção ao alto-mar, e os homens observam com fastio a costumeira exibição de Zé Peixe, prático do porto de Aracaju: ele se agarra a uma das bóias que demarcam o estreito canal, orienta a passagem da Penalva e volta à terra nadando, com braçadas largas, mas num estilo pouco acadêmico.

Velão, um negro de 26 anos, cheio de salamaleques casa dez cruzeiros numa aposta:

— Eu digo que com meia hora de viagem o Velho Charles ameaça se jogar no mar.

— Eu digo que ele passa dos 40 minutos – explica Rebouças, 27 anos, um mulato serelepe.

Carlos da Silva Filho, 25 anos, o Velho Charles, baiano da linha de Oxóssi, da aldeia do caboclo da Pena Branca, “pela graça de todos os santos”, testemunha a aposta, encostado na murada da lancha, entupido por toda sorte de remédios contra enjôo. Com vinte minutos de viagem, ele se levantará do seu canto, gritará “vou me jogar” e terá de ser seguro por dois ou três homens. Tem sido sempre assim, há um ano e meio, desde quando ele começou a trabalhar nas prospecções marítimas de petróleo.

A Petrobrás-III é pouco mais que um traço vertical na linha do horizonte. Uma das 20 unidades de perfuração que pontilham as costas brasileiras, uma das cinco plantadas no litoral de Sergipe, ela é uma plataforma auto-elevável, comprada pela Petrobrás no início do ano passado. Mede 67 metros de comprimento por 63 de largura e tem 60 metros de altura, do nível do mar ao alto de sua torre. Suas três pernas medem 131 metros cada uma, e ela tem capacidade para operar com até cem metros de profundidade, perfurando poços de até 7.500 metros.

Em um ano e meio de operação, entre Alagoas e Sergipe, a Petrobrás-III já perfurou quatro poços, encontrando petróleo em dois deles. Está agora perfurando mais um, a uma hora de lancha do porto de Aracaju, para desespero do Velho Charles. Do mar sergipano é extraída, anualmente, toda a produção de petróleo da plataforma continental brasileira, o que já equivale a mais ou menos 15% da produção total de mar e terra. Foi em 1968, numa manhã muito clara de setembro, que o petróleo marítimo jorrou pela primeira vez no Brasil.
Manobra perigosa: homens içados aos grupos

A Penalva encosta na Petrobrás-III, o guindaste arria uma cesta e, numa manobra onde há sempre muito risco, os homens começam a ser içados em pequenos grupos. Do alto da plataforma, um negro de 1,82 metro de altura, 79 quilos bem socados, 43 anos de idade e 22 de Petrobrás, observa a operação atentamente. Seu nome é Alfredo Oliveira Cerqueira, baiano, pai de três filhos, católico praticante.

Alfredo já ocupou numa sonda todos os postos diretamente ligados à prospecção de petróleo até chegar ao que ocupa hoje, o de mestre encarregado da plataforma Petrobrás-III. Ele é a autoridade máxima ali, no meio do mar. Ao seu comando, obedecem cerca de 80 operários e técnicos, divididos em duas turmas de 40, que passam 14 dias trabalhando no mar, em turnos de 12 horas de serviço por 12 horas de descanso. Eles têm outros 14 dias de folga em terra, com suas famílias.

Ali, acompanhando a manobra de içamento dos homens que chegaram na Penalva, Alfredo relembra a única ocasião que em sua vida de comandante da Petrobrás-III se sentiu derrotado e impotente. Foi num dia qualquer do mês de julho de 1974. Repetia-se a mesma operação que ele agora observa atentamente. Alfredo conversava com alguns operários quando ouviu um grito:

— Caiu um homem da cestinha.

Imediatamente, ele começou a distribuir ordens, enquanto a população da Petrobrás-III se debruçava na murada da plataforma e assistia à agonia do homem lá embaixo – em mar revolto.

— Desça a cesta até o nível das águas – gritou Alfredo.

O guindasteiro obedeceu, por alguns minutos a cesta roçou na crista das ondas, mas o homem não a alcançou.

— Joguem as bóias em torno dele.

Foram lançadas todas as bóias disponíveis, mas o vento e o movimento do mar só fizeram afastá-las do homem.

— Desçam uma corda – ordenou Alfredo, dissimulando sua aflição, tentando manter a serenidade do comandante.

A corda de pouco adiantou porque, a essa altura, o homem já desaparecera por debaixo do casco da plataforma.

— Mandem a lancha manobrar pelo outro lado, é para lá que as ondas o levam.

A lancha manobrou inutilmente: não encontrou nem vestígio do homem. O corpo nunca apareceu. E à bordo da plataforma, alguns homens choraram, um cozinheiro sofreu um ataque de histeria e Alfredo sonhou, por muitas noites, com um náufrago boiando nas ondas do mar.

Uma plataforma não é, apenas, uma torre de prospecção, embora esta seja a imagem mais comum. A Petrobrás-III, como todas as outras, se compõe de um equipamento de perfuração (torre, mesa rotativa, bombas de lama, tanques de lama, unidade de cimentação, grupos geradores de energia), silos para armazenamento de gases sólidos, laboratórios, almoxarifados, alojamentos, refeitórios, enfermaria e salão de jogos.

A comida é farta e variada. Gumercindo Ferreira Chaves, 26 anos, inspetor da cozinha, não exagera quando oferece:

“Prefere um camarão à francesa ou vai de filé a tornedor?”

Nesse dia, no almoço e no jantar, foram servidos bife com batata dorê, rabada e bife à caçarola; salada completa e omelete mista; carré de porco ao forno; peru à brasileira; sopa de legumes com arroz temperado; farofa, feijão e vagem refogada na manteiga.

No café-da-manhã, mingau de aveia, arroz-doce com bananas da terra, ovos fritos e cozidos, pão, queijo, bolos, leite, geléia e frutas variadas.

“Quer conhecer as minhas três mulheres? Se quiser, elas estão no meu camarote.”

Gordo, bonachão, as sobrancelhas em permanente desalinho, Pedro Barros, 46 anos de idade, 22 de Petrobrás, é um dos dois sondadores do turno das dez da manhã às dez da noite. Sondador é o comandante do setor de perfuração. Aciona 36 controles diferentes e chefia uma equipe formada por um torrista (o sujeito que fica no alto da torre orientando o encaixe dos tubos que são medidos no poço), quatro plataformistas (operários que lidam com tubos e ferramentas), dois mecânicos de manutenção, um eletricista e um guindasteiro. As três mulheres de Pedro Barros são três morenas, seminuas, recortadas de uma revista e pregadas nas paredes do seu quarto.

“Cada noite eu durmo com uma e todas parecem muito satisfeitas”, explica Pedro Barros, ou Tambor de Graxa, como é chamado por seus homens. A abstinência sexual por um período de 14 dias no mar não constitui problema angustiante para os habitantes da Petrobrás-III – embora o número de mulheres que povoam as paredes dos camarotes pareça indicar exatamente o contrário. Na verdade, como argumenta Deodato Souza Melo, 38 anos de idade, 18 de Petrobrás, exercendo a arriscada função de torrista, “o trabalho é tão grande que não nos sobra muito tempo para pensar nessas coisas”.

Deodato, como os outros do seu turno, pega no serviço às dez horas da manhã. Almoça em pé, ao redor dos tubos e ferramentas. Lancha nas mesmas condições, no fim da tarde. Larga às dez da noite, toma um banho, janta, às vezes vê um pouco de televisão, quase nunca vai ao salão de jogos, e se mete na cama, o que se transforma, invariavelmente, na grande aspiração de qualquer operário de uma plataforma depois de 12 horas de trabalho, praticamente, ininterruptas.

Os que não conseguem consumir as doze horas de descanso dormindo, se postam diante do aparelho de televisão em cores ou lançam linhas ao mar e pescam guaricemas e vermelhos. Poucos se trancam no salão de jogos que, certamente, nos próximos dias, deverá ser mais procurado, por estar recebendo brinquedos eletrônicos.

“Saiam de perto. Vou puxar a chave” – ordena Mário Pereira Trappel, o Mário Miséria, 41 anos de idade, há 13 na Petrobrás como sondador.
Trabalhar na Petrobrás é “acertar na loteria”

Mário aciona a alavanca, um olho na máquina o outro nos seus homens; uma corrente puxa, violentamente, a chave de flutuação que se parece com um gigantesco alicate; a chave arrocha um tubo no outro e vibra, perigosamente, a poucos metros da cabeça dos plataformistas. Do alto, o torrista orienta a manobra aos gritos, o suor escorrendo pelo seu rosto, uma expressão inalterada de medo, porque Deodato tem menos de uma semana de trabalho na Petrobrás-III e ainda não está adaptado ao serviço.

Os plataformistas retiram a cunha que se parece com uma malha colocada em torno do tubo, e ele desce para o fundo do poço empurrado pela Catarina – um bloco de passeio com um enorme guincho que retira e põe qualquer coisa dentro do poço. O termo técnico é mesmo bloco de passeio, mas são raríssimos os operários, em qualquer unidade da Petrobrás, em terra ou no mar, que sabem disso. Para eles, a peça é mesmo a Catarina – e Catarina foi uma louca que vivia rondando a sonda que perfurou o poço de Lobato, na Bahia, em 1939, o primeiro poço brasileiro a jorrar petróleo.

Como sondador, Mário Miséria ganha salário-base de Cr$ 6 mil que, com adicionais, gratificações e horas extras, salta para Cr$ 12 mil. Com pequenas diferenças que levam em conta, basicamente, o tempo de serviço na Petrobrás, esse é o salário médio dos sondadores. Torristas ganham pouco mais da metade, os plataformistas se situam na faixa dos dois mil e quinhentos. Aparentemente, os salários satisfazem, principalmente por serem pagos numa região onde a oferta de empregos é pequena e os ordenados muito baixos. Assim, trabalhar para a Petrobrás, como disse o Velão, satisfeito com a aposta ganha em cima de pouca resistência do Velho Charles, “é como acertar na Loteria Esportiva”. Guilherme Couto Lopes, 24 anos, três de Petrobrás, não concorda:

“Já estou cheio de disso tudo. Não há oportunidade pra a gente subir, ser promovido. Veja meu caso: sou plataformista, sei tudo que um plataformista deve saber, sei, por prática, o que um torrista faz e com que segurança até mesmo o que um sondador deve fazer e fico aqui marcando passo. Mas quando precisam de um sondador, por exemplo, vão buscar lá fora, noutras companhias.”
Muitos se preocupam com os destinos da empresa

Seresteiro, boêmio, um riso largo e simpático sempre no rosto, Walter Lima, 50 anos de idade, 20 na Petrobrás, encarregado da manutenção dos motores, pensa de outra forma. E, inegavelmente, parece representar a grande maioria dos empregados da Petrobrás-III, quando afirma:

“Esta empresa é a grande mãe de todos nós. Paga bem, nos dá as melhores condições de trabalho e assiste nossas famílias quando estamos confinados aqui no mar.”

Nacionalista exacerbado, entre eufóricas exaltações à nossa fauna e à nossa flora e exercícios de futurologia que o levam a prever o Brasil, dentro de poucas décadas, como o país mais desenvolvido do universo, Walter Lima manifesta sua maior preocupação:

— Este negócio de contrato de risco, na minha opinião, pode não dar certo. Isso pode acabar nas mãos dos gringos. E ainda por cima, li num jornal que pensam em pôr as ações da Petrobrás à venda nas principais bolsas de valores do mundo. Tomara que isso não aconteça.

Um diálogo por detrás de outra porta:

Operário — “... meu pai foi deputado estadual, me deu uma boa educação, sou um plataformista, sei que sou um homem humilde, sem muita instrução, mas nunca roubei nada e não seria agora que roubaria cigarros.”

Alfredo, o encarregado da plataforma: “Eu sei, eu acredito nisso, mas foi a queixa que ele aí me fez e eu tinha de lhe chamar para uma conversa.”

Operário: “Mas seu Alfredo, eu nunca tirei o cigarro dele, pelo contrário: Já dei muitos cigarros que ele me pediu.”

Alfredo: “Vamos dar esse caso por encerrado. A plataforma deve ser a nossa casa. Na verdade, ela é a nossa casa por quase metade do ano. Somos todos pais de família, todos responsáveis, não vamos nos gastar nessas futricas. Lembro que, no ano passado, um de vocês se queixou de que tinha sido roubado um relógio. Mandei o Fritz revistar todo mundo e o relógio não foi encontrado. Vamos parar com essas coisas. Vocês sabem que se eu pegar realmente alguém roubando aqui dentro mando desembarcar.”

Esse, o episódio do relógio e alguns outros são pequenas anormalidades, segundo Alfredo, muito raras e que não comprometem a disciplina geral na Petrobrás-III. São compreensíveis entre homens ilhados em alto-mar, submetidos a um duro regime de trabalho e correndo, em muitos casos, perigo de vida quase rotineiro. Alfredo os comanda com bons modos mas também com bastante firmeza, “senão a autoridade poderia se desregrar e o trabalho talvez não rendesse o esperado”, justifica Franz Lizt, piauiense de 37 anos de idade, 19 de Petrobrás e substituto eventual de Alfredo.

Porque os custos da busca e da exploração do petróleo no mar são muito mais elevados que os custos dessa mesma operação em terra, o rendimento do trabalho, certamente, é a questão mais sensível numa plataforma como a Petrobrás-III. Computadas todas as despesas, cada uma das plataformas em atuação no mar brasileiro custa à Petrobrás, por dia, cerca de 20 mil dólares. Em dezembro de 1974, quando 225 poços tinham sido construídos na nossa plataforma continental, a Petrobrás calculava em torno de Cr$ 4.650 o custo médio do metro perfurado.

É muito variável o tempo que se passa desde o início da perfuração de um poço até o momento em que ele entra em produção normal. Pode ir de 45 dias até seis meses. Na costa de Sergipe, o tempo médio tem sido de 90 dias, de acordo com Dênio Roberto de Brito França, superintendente-adjunto da Região de Produção do Nordeste.

A Petrobrás-III perfura seu quinto poço desde o dia 14 de maio deste ano. Ela chegou flutuando ao local, rebocada por embarcações desde o litoral alagoano. Numa operação denominada jack up, ela foi colocada no lugar onde deveria cavar o poço, suas pernas foram baixadas e fincadas no fundo do mar e ela elevou-se. De imediato, foi dado início à perfuração: brocas de 36 polegadas cavaram até aos 160 metros de profundidade. Depois foram descidos tubos de 80 polegadas e cimentados. Brocas de 26 polegadas aprofundaram o poço até 700 metros e foram descidos e cimentados, agora, tubos de 20 polegadas.

Brocas e tubos cada vez menores continuarão perfurando e revestindo o poço até que ele atinja a profundidade de 3.300 metros. Então os geólogos, através do exame do material colhido, determinarão a existência ou não de petróleo. Se o resultado for negativo, o poço será vedado e a Petrobrás-III partirá para novas áreas. Se for positivo, os homens da Petrobrás-III descerão novos tubos, este de sete polegadas, e farão a completação do poço para entrar em produção. Quando forem embora, virão outros homens, de uma outra unidade, que farão o poço produzir.

Sujos de graxa, escorregando no piso molhado, a roupa ensopada de suor, olhos atentos à movimentação perigosa das ferramentas, aqueles homens, em torno da mesa rotativa, no trabalho de mudarem brocas e introduzirem tubos no poço, unem-se, não somente pela complementaridade das tarefas que executam. Nem porque trabalham numa mesma empresa. Nem, sequer, porque dividem o isolamento de 14 dias de um horizonte líquido, sem uma nesga de terra. Maior do que todas essas algemas parece ser a da sensação do encontro do petróleo – fugaz momento de íntima emoção que quase nunca se exterioriza, mas que é vivido intensamente por aqueles homens.



O gordo e bonachão Pedro Barros, sondador, enxuga o suor do rosto com as costas da mão direita e explica:

“Encontrar ou não petróleo num poço não nos aumenta o salário nem o diminui. Mas embora quase todos nós já trabalhemos nisso há mais de dez anos, o momento em que se determina a existência de petróleo num poço que acabamos de perfurar é o mais feliz das nossas vidas. É sempre uma coisa nova que nos leva a esquecer os turnos de 12 horas de trabalho, os perigos constantes, todos os riscos. Eu só gostaria de dividir aquele instante com minha mulher e meus filhos.”


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