Êxitos e fracassos em psicanálise



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XX CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE

Barbárie, Terrorismo e Psicanálise1


Fernando Linei Kunzler2

Resumos


O autor partindo do 11 de setembro de 2001, da barbárie da morte do
jornalista Tim Lopes e de uma propaganda de alimentos em que seres humanos
são os invólucros-comestíveis, faz duas perguntas: é possível inscrever estas
violências no aparelho psíquico e, do ponto de vista deste aparelho,
não estaríamos caminhando para trás, não estaríamos voltando a ser bestas?

El autor partiendo del 11 del septiembre, de la barbárie de la muerte del


periodista Tim Lopes y de una propaganda en que seres humanos son
las tapas de comidas, hace dos preguntas: es posible inscribir dichas
violencias en el aparato psiquico y del punto de vista de este aparato no
estaríamos caminando hacia atraz, no estaríamos retornando a ser bestias?

The author connecting  september 11, journalist Tim Lopes's death and an  advertisement


in wich human are food wraps, ask two questions: is it possible to inscript
those violences in a psychic apparatus and, in a point of view of this
apparatus, won't  us coming back to be animals?

Palavras Chave:


Barbárie, terrorismo, inscrição psíquica, Freud -Fliess carta 52
Barbarismo, terrorismo, inscripción psiquica, Freud -Fliess carta 52
Barbaric, terrorism, psychic inscription, Freud -Fliess letter 52.
Visamos correlacionar de um lado, o 11 de setembro de 2001, a morte de Tim Lopes e uma propaganda de alimentos, e de outro, a psicanálise, em seu específico aspecto da inscrição, em um aparelho psíquico.

Quando o mundo foi sacudido, em 11 de setembro, pelo lançamento de aviões nas duas Torres do World Trade Center, em Nova York, e no Pentágono, em Washington, muito se escreveu, muito se profetizou sobre os riscos de uma hecatombe ou até de um novo ‘totalitarismo’ (Arendt, H. - 1997), nesse caso dos ‘talibãs’, como o foi nos casos de Stálin e Hitler.

Tim Lopes, jornalista que se infiltrou num baile Funk da favela carioca Vila Cruzeiro, para realizar uma reportagem sobre tráfico de drogas e exploração sexual de menores, depois de ter sido descoberto, foi preso (seqüestrado), deram-lhe tiros nos pés, foi torturado, julgado, condenado à morte, executado com um sabre e seu corpo, após ter sido esquartejado, foi queimado, visando ao seu total esfumar-desaparecer.

Os “outdoors”, as propagandas na televisão e as revistas exibem um novo tipo de propaganda - “A SADIA ESTÁ DE ROUPA NOVA” - em que seres humanos, adultos e crianças, vestem roupas que são embalagens de Lasanha à bolonhesa, Pizza de calabresa, “nuggets”, etc.


INSCRIÇÃO PSÍQUICA
Tomaremos como modelo de inscrição psíquica a que foi proposta por Freud na “carta 52” de sua correspondência com Fliess (Freud, S. 1895). Ali ele propôs a hipótese de “que nossos mecanismos psíquicos teriam se formado por um processo de estratificação em que o material presente, em forma de traços da memória, estaria sujeito, de tempos em tempos a um rearranjo segundo novas circunstâncias — a uma retranscrição”.

Imaginou um esquema constituído por quatro tipos de neurônios, de acordo com específicos aspectos de funcionalidade:

Os primeiros seriam neurônios W {Wahrnehmungen (percepções)}, responsáveis pelas percepções feitas pelos nossos órgãos dos sentidos e pela consciência que se ligaria a eles, mas sem a possibilidade de conservar qualquer traço do que acontecera, pois a consciência e a memória seriam mutuamente excludentes. Estaríamos aqui numa simples percepção, sem registro psíquico, sem inscrição psíquica das coisas em si {das Ding}.

Os segundos seriam neurônios Ws {Wahrnehmungszeichen (indicação da percepção)}. Nestes haveria o primeiro registro psíquico das percepções, embora ainda praticamente incapazes de assomar à consciência e se disporiam, conforme as associações, por simultaneidade.

Nos terceiros neurônios, os Ub {Unbewusstsein (inconsciência)} haveria o segundo registro psíquico, disposto de acordo com outras relações (talvez causais). Os traços Ub provavelmente corresponderiam a lembranças conceituais, igualmente sem acesso à consciência.

Já nos quartos neurônios, os Vb {(Vorbewusstsein) (pré-consciência)}, haveria a terceira transcrição psíquica, ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego reconhecido como tal. Os investimentos {Bezetzung} provenientes de Vb tornar-se-iam conscientes de acordo com determinadas regras sendo que essa consciência secundária do pensamento seria posterior no tempo e, provavelmente, se ligaria à ativação alucinatória das representações verbais.


Com a pergunta de se é possível inscrever estas violências no aparelho psíquico ou se somente se fica numa “Wahrnehmungen”, no sentido de uma simples percepção, sem registro psíquico, sem inscrição psíquica, examinemos as questões iniciais.

Quanto ao 11 de setembro, podemos pensar que os pilotos suicidas sendo conhecedores dos ‘segredos’ da aviação, tinham a noção de que das quase 100 toneladas de combustível de cada avião usado como projétil-bomba, somente 30% explodiria e que as restantes incandesceriam o que encontrassem pela frente. Assim não só abalariam as estruturas norte-americanas, mas, quem sabe, principalmente esfumariam uma grande quantidade de seres humanos, impedindo seu sepultamento!

Quanto a Tim Lopes, um fato em comum entre o que fizeram com ele e o 11 de setembro é de que também trataram de esfumar-desaparecer qualquer vestígio seu!

Esse comum esfumar-desaparecer de quase três mil seres humanos nas Torres e de Tim Lopes faz repensar a existência de um ritual. Qual? Valendo-nos do passado, retornemos 26 séculos, chegando ao século V a.C. e focalizemos a Antígona de Sófocles.

Antígona, filha de Édipo e de sua mãe, Jocasta, acompanhou o pai, após ele se cegar, através da Grécia, durante dez anos. Enquanto ela e Édipo chegavam a Colono, cidade que foi pressentida por Édipo como o lugar onde findariam suas provações (onde finalmente morreria), dois de seus outros filhos incestuosos, o primogênito Polinice e Etéocles, disputavam o trono de Tebas. Enquanto isso, o cunhado de Édipo, Creonte, se tornara regente de Tebas. Creonte havia sido informado por um oráculo de que o lugar onde Édipo fosse sepultado seria abençoado. Édipo desaparece nas profundezas da terra, local somente conhecido pelo rei de Atenas, Teseu. Antígona, após tentar inutilmente saber do local do enterro do pai, volta a Tebas para tratar de ajudar seus irmãos a fazerem um acordo quanto à divisão do poder. Nesse acordo alternariam o poder anualmente. Enquanto um governasse, o outro permaneceria no exílio. Mas Etéocles desrespeita a combinação, não entregando o poder na vez de Polinice que faz uma aliança com os argivos com a intenção de derrubar Etéocles. Como conseqüência, ambos irmãos acabam mortos num duelo fratricida. Creonte decreta que, dos dois irmãos mortos, somente a Etéocles sejam permitidos os rituais fúnebres e homenagens póstumas. Polinice, embora traído na combinação de alternância de poder, ficaria sem receber nada disso e tampouco poderia ser enterrado, porque fora traidor ao fazer aquela aliança com os argivos. Também Creonte decretava que, se alguém desobedecesse e enterrasse Polinice, seria punido com a morte. Antígona não obedece e é condenada a morrer sufocada dentro de uma caverna. O dar guarida sepulcral a Polinice levou-a à morte.

Já se questionou a sanidade de Antígona, ela já foi considerada como defensora da Justiça; contudo nessa abordagem psicanalítica, nos restringiremos ao significado de Édipo ser enterrado.

Em “O sepultamento do Complexo de Édipo” (1924) - {sugiro “sepultamento...” como melhor tradução para o “Untergang...” que “dissolução...”, porque no “sepultamento...” transparece mais literalmente um dos sentidos do “Untergang” que é o de “naufrágio”}, - Freud asseverou: “O complexo de Édipo revela cada vez mais seu significado como fenômeno central do período sexual da primeira infância. Depois cai sepultado, sucumbe à repressão como dizemos”.

Então estaríamos aqui nos primórdios do armamento do aparelho psíquico por parte do recalcamento {Uhrverdrängung}. Nesse sentido, entende-se que, só com o sepultamento de Édipo (por sua façanha incestuosa), ele teria paz, porque, simultaneamente, ao ir ao fundamento {zugrunde gehen} (Kunzler, F. - 2005), estaria sendo criado, intrapsiquicamente seu sucessor, o superego. Agora parece mais fácil captar o significado da frase: ‘Creonte havia sido informado por um oráculo de que o lugar onde Édipo fosse sepultado seria abençoado’


DISCUSSÃO FINAL

O ataque às Torres e a morte de Tim Lopes, mergulha-nos agora em um sinistro pensar: do ponto de vista de aparelho psíquico, estamos caminhando para trás! Quando há o esfumar de seres humanos, seu não sepultamento, seja provocado por mortíferos aviões, seja por outros modos como fizeram com Tim Lopes, o que se parece querer já é outra coisa. Logo que surgiu a notícia de seu desaparecimento, chamaram a atenção os apelidos dos quatro principais suspeitos: Maluco (Elias Maluco), Capeta (Claudino dos Santos Coelho), Boizinho (Ângelo Ferreira da Silva) e Ratinho (Cláudio Orlando do Nascimento).

É simplesmente de outra denúncia que estamos tratando não só com seres marginalizados, mas enlouquecidos, endiabrados e animais? Não estamos criticando seus tristes apelidos, seguramente adquiridos em seu viver diário, porém sim pensando sobre isso.

O repensar do ritual macabro de assassinato de Tim Lopes comporta a conclusão de uma franca e clara bestialização do ser humano. Só falta ficarmos sabendo que os ‘malucos-bestializados-capetas’, após todo o ritual de morte, da queima, comeram seu corpo, retornando ao que parecia estar extinto entre nós, os ditos civilizados: o canibalismo! Nos julgamentos públicos que estão ocorrendo, desde maio deste ano, de dois dos quatro principais responsáveis por tais barbarismos, veio à tona mais um tenebroso detalhe - teriam acendido cigarros nas brasas dos restos incandescentes de Tim Maia. É hábito comum o fumar após a ingestão de algo!

Dito isso, abordemos a propaganda da Sadia. Nesse mundo, volto a dizer, bestializado, que tipo de apetite se estará tentando despertar com os modelos humano-invólucro-comestíveis da Sadia?

Estes fatos suscitam o temor de estarmos sob o risco de deixarmos de ser seres humanos, de estarmos voltando a ser simples animais vertebrados, que, segundo a teoria da evolução darwiniana, nos antecedeu.



Estaríamos, dessa maneira, destruindo os registros psíquicos, as inscrições psíquicas, o aparelho psíquico, em suma, a humanidade! Estaríamos retrocedendo a ser coisas!

BIBLIOGRAFIA


Arendt, H. Origens do Totalitarismo, Companhia das Letras, São Paulo 1997.

Dicionário Alemão - Português de Leonardo Tochtrop - 5ª edição 1968, Editora Globo S. A. - Porto Alegre - Rio Grande do Sul, Brasil.

Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, {ESB} Imago Editora, Rio de Janeiro - Brasil, 1974.

Freud, S. Obras completas, Amorrrortu editores S. A. {AEd} Buenos Aires Argentina, 1993.

Freud, S. Aus den Anfängen der Psychoanalyse, 1887 – 1902 Briefe an Wilhelm Fliess S. Fischer Verlag, Hamburg Germany 1962.

Freud, S. Studienausgabe, Fischer Taschenbuch Verlag, {FTVerlag} Frankfurt am main, Dezember 2000.

Graves R. Los Mitos Griegos, Editorial Losada, S.A. Buenos Aires Argentina, 1967.

Kunzler, F. Violência, Morte e Inscrição, Cruzamentos 2 - Pensando a Violência, Editora Escuta Ltda. São Paulo, Brasil, 2005.

Pe. H. Koehler, S. J. Pequeno Dicionário Escolar Latino-Português - Editora Globo S. A. - Porto Alegre, Rio Grande do Sul - Brasil, 1960.



Revista Veja - A Sadia está de Roupa Nova, Editora Abril - edição 1758, 03 de julho de 2002.

1 Mesa Redonda dia 14/11/2005 das 08:30 às 10:30 hs com os colegas Roosevelt Moisés Smeke Cassoria (SBPSP) e Ney Couto Marinho (SBPRJ).

2 Membro Titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA) . E-mail: fkunzler@terra.com.br






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