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(1) O Livro dos Espíritos — questão 459



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(1) O Livro dos Espíritos — questão 459

Capítulo 26

Benefícios do Conflito

As reuniões espíritas oferecem grandíssimas vantagens, por permitirem que os que nelas tomam parte se esclareçam, mediante a permuta das idéias, pelas questões e observações que se façam, das quais todos aproveitam. Mas, para que produzam todos os frutos desejáveis, requerem condições especiais, que vamos examinar, porqüanto erraria quem as comparasse às reuniões ordinárias.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 324

Feliz e inspirada recordação do Codificador. Comparar as reuniões espíritas a qualquer ajuntamento seria perder seu caráter educativo, seus frutos desejáveis. Com muita propriedade ele se refere às condições especiais, concitando-nos a pensar sobre os cuidados na condução dos grupos.

Uma situação amiúde conturbadora das reuniões, sejam elas de que natureza for, são os conflitos entre seus componentes. O entrechoque de idéias gera as escaramuças, depositárias de alta dosagem de sentimentos nem sempre ajustados ao bem e ao crescimento grupal. Estabelecem-se elas rotineiramente como expressão tácita das diferenças, conquanto nem sempre sejam os conflitos administrados com objetivos salutares, na arregimentação da concórdia e do proveito possíveis, a que tais atritos podem oferecer.

A análise de semelhante tema será significativa a fim de conduzir-nos a uma outra face dos conflitos, geralmente desprezada, e que deve caracterizar os círculos da convivência espírita. Consideremo-los como sintomas que denunciam os misteres de ajustes entre seus membros, sendo que, quase sempre, surgem em razão da deficiência de comunicação que cria barreiras e bloqueia a criatividade.

A comunicabilidade de uma equipe determina sua fluência e produtividade. Quando tratamos de comunicabilidade intra-grupal, não damos ênfase à forma como são expressas as mensagens, mas, acima disso, aos sentidos de apreensão da mensagem, aos sentidos pessoais, individuais, a ela atribuídos. Raramente procura-se ouvir e ensejar participação verbal e operacional nos serviços de equipe, propiciando que se enraíze uma face oculta nos mesmos, desconhecida, subliminar, porém, altamente determinante sobre o processo de consolidação ou desestruturação do todo. O estudo dessa nuança será de grande relevância para a eficácia dos resultados e a superação dos empeços nas realizações levadas a efeito por composições de pessoas, seja para que fins se agrupem.

Condicionamentos milenares no egoísmo sedimentaram o conceito de oposição a tudo que se escape de identificar em harmonia com nossa ótica pessoal de vida. Quantos guardem entendimento diversificado são tomados como oponentes ou adversários nas relações interpessoais. Dificilmente nutrimos a mesma admiração pelos que contrariem nossos pontos de análise ou pelos que demonstrem insatisfação com nossas idéias, com nossos sentidos empregados ao entendimento dos fatos e dos conhecimentos.

As vivências sociais na religião e na política durante longo tempo estimularam ainda mais o caráter de indisposição declarada para quem não “reze pela nossa cartilha”. Nasce então o sectarismo como forma violenta de “resolver” as contendas, excluindo os contendores.

Conciliado com essa conotação de “ser contra” associou-se o sentimento de “gostar menos”, e os conflitos passaram a ser interpretados como uma “arena” na qual têm que haver vitoriosos e derrotados. Esse enfoque faz-nos perder o que mais precioso pode existir nos lances conflituosos: o aprendizado e a dilatação da criatividade na busca de soluções.

Por essa razão será imperativo que os dirigentes e as próprias equipes doutrinárias orientem-se sempre ao treino e ao desenvolvimento da inteligência emocional, em favor das condições especiais de uma vida relacional sadia e enobrecedora, procurando enfocar os embates como sinais e notas. Sinais que indicam rumos a serem seguidos e notas que avaliam nossas reações ante as provas da tribulação.

Será de bom alvitre o cultivo das habilidades que envolvam a “negociação” e a busca de soluções, da empatia, da liderança participativa. Quando agimos com disciplina emocional, recorrendo à assertividade, isto é, ao domínio sobre o cosmo emocional, os atritos são educativos e podem levar a profundas reciclagens. Isso porque, quase sempre, os embates da vida em grupo só ocorrem em razão dos processos conflitantes que carregamos conosco mesmos, optando por sentidos nem sempre harmonizados ao bom senso e consenso grupais, vindo a extravasar-se, circunstancialmente, como objetivos personalistas.

Ante semelhantes fatos, a atitude de “neutralidade” emocional e meditação serão indício de maturidade afetiva e reeducação dos sentimentos nas convivências tormentosas.

Os homens estiveram em desatinado conflito com Jesus, com suas idéias, com suas movimentações, embora Ele, pacífico e sereno, conduzia os provocantes a mergulharem em si mesmos e a descobrirem suas insatisfações, frustrações e as raízes de suas emoções perturbadoras, com as quais intentavam afetar o equilíbrio do Mestre.

Nos grupos doutrinários muitos asseveram a necessidade de unanimidade, determinando que amoráveis seriam as equipes sem problemas e que jamais tivessem de conflitar. Entretanto, dificilmente essa será a tônica de grupamentos sérios e autênticos.

Paulo, o missionário de Tarso, fala-nos do “bom combate”, aquele que vale a pena ser deflagrado para a introspecção, a auto-avaliação, o bom conflito.

Grupos sem conflitos não crescem tanto quanto poderiam e, porque não exista o desentendimento e os desacertos manifestados, nenhuma garantia há de que, intimamente, os componentes não estejam em “litígios”. Eis a importância da sinceridade fraterna, com pleno respeito pelas opiniões alheias, adotando lídima postura de alteridade ante os diferentes e as diferenças, buscando entender as razões subjetivas de cada componente para seu proceder, conhecendo-lhe com mais profundidade os dramas pessoais, sem o que ele será apenas mais um no aglomerado de pessoas. Essa é a tarefa que distingue um grupo que cria elos de afeto de uma reunião de criaturas que se ajuntam sem tecer a rede da fraternidade legítima.

Convenhamos que as tribulações surgem em razão das estruturas íntimas que carreamos para a vida de relações, chamando-nos algumas vezes a muita paciência e tolerância com o outro. Em verdade, a luta é toda nossa, pois ainda não conseguimos decretar a alforria desejada sobre muitas imperfeições, guardando expressivos limites na forma de interpretar as mensagens que compõem o nosso campo de ação doutrinário.

Assumamos em quaisquer circunstâncias de luta a diretriz do perdão, evitando magoar-se com as ações alheias em razão do incômodo que nos causem. Melhor perdoar a ter que carpir o arrependimento.

Ante as tribulações do conflito que não pudemos evitar, recolhamo-nos em atitude elevada, longe dos reflexos costumeiros das emoções conturbadas, e preparemo-nos para extrair suas lições.

Arrimemo-nos na oração nos instantes em que nos situarmos na zona dos conflitos, não perdendo os frutos do teste de abnegação e harmonia. Diluamos a angústia proveniente de semelhantes ocasiões fazendo um auto-exame leal com a consciência, procedendo a uma decisão incomum e educativa que venha somar nos destinos das tarefas às quais somos colaboradores, adotando a postura de humildade e desculpa, distante do orgulho dos pontos de vista pessoais, ensejando que a brisa da concórdia possa roçar os nossos corações no entendimento e fraternidade.

Façamos assim e saberemos extrair o grande benefício do conflito que é a sua capacidade de abalar nossas certezas.

Só os invigilantes e auto-suficientes têm certeza de tudo e não querem renunciar as suas verdades pessoais em busca de novos horizontes.

Habituando-nos paulatinamente a esse mister aprenderemos a arte sublime de debater com a vida e com todos, sem o exaurir desnecessário de forças interiores nos entrechoques da convivência, convertendo cada ocasião de conflito em convite à promoção pessoal, ainda que o outro não deseje o mesmo.


* * * *
Amigos queridos da direção de grupos,

Envidemos esforços pela renovação de conceitos em nossos conjuntos cooperadores.

Discordar com acerto é uma habilidade a ser cultivada na escola do centro espírita que ser-nos-á valoroso preventivo contra o dogmatismo e a perigosa monopolização cultural.

Temos observado que o melindre, essa doença de nossas mentes, tem sido álibi para que se evite dizer o que se pensa, excedendo-se em cuidados e protelação, suprimindo a sinceridade edificante que deveria constituir-se em uma das condições especiais prioritárias citadas pelo codificador em nosso trecho de análise.

Evidentemente, cuidar para verbalizar as críticas ou discordâncias é vigilância operante, contudo, evitar a verdade, a pretexto de prudência, é omissão conivente.

Nossos grupamentos precisam aprender a lidar com os momentos de aspereza ou alteração emocional com equilíbrio e resistência para que não se tornem “flores de estufa”, que ao primeiro golpe murcham em suas metas e desistem de seus ideais, acalentando profundas e doloridas mágoas.

Grupos que se amam verdadeiramente sabem dizer o que pensam, conflitar sem perder o amor uns pelos outros, conquanto isso custe ter que conviver com um “lado” que gostariam de já ter superado no campo das emoções.

Estejamos atentos com a santidade de superfície que tem dominado alguns conjuntos espíritas, que se desestruturam em fases de aferição. Decididamente, e sem receios, saibamos sondar a face oculta dos grupamentos doutrinários e oferecer condições aos demais para essa iniciativa, a fim de que ela não se transforme em sombra agradável para exploração obsessiva.

Os benefícios do conflito superado são muito extensos e fortalecedores, mas só serão possíveis se cuidarmos dessas condições especiais em fazer reinar entre os integrantes os valores do afeto, do estudo, da conversa franca, do tempo para conviver, da amizade respeitosa sem os excessos da intimidade, do trabalho operoso e do estudo libertador, primando pelo cultivo de laços genuinamente cristãos.

Sejam os dirigentes de equipes os primeiros a saberem externar com lucidez e ponderação os seus reclames, seus alertas, suas insatisfações, orientando aos demais como falar das emoções sem ter que extravasá-las em ações que geram mal-estar. Eis a habilidade da parcimônia, da conciliação, da contestação terna, que leva o grupamento a penetrar o sombrio mundo das insatisfações pessoais, escudados pela afabilidade e doçura reinantes, criando assim o bom conflito, doloroso, incômodo, porém, benéfico e promotor.



Capítulo 27

Homogeneidade no Grupo

Uma reunião é um ser coletivo, cujas qualidades e propriedades são a resultante das de seus membros e formam como que um feixe. Ora, este feixe tanto mais força terá, quanto mais homogêneo for. (...)



(...) Toda reunião espírita deve, pois, tender para a maior homogeneidade possível. Está entendido que falamos das em que se deseja chegar a resultados sérios e verdadeiramente úteis. Se o que se quer é apenas obter comunicações sejam estas quais forem, sem nenhuma atenção à qualidade dos que as dêem, evidentemente desnecessárias se tornam todas essas precauções; mas, então, ninguém tem que se queixar da qualidade do produto.”

O Livro dos Médiuns - capítulo 29 - ítem 331

Um dos requisitos mais valorosos na formação e desenvolvimento de grupos é a homogeneidade.

A palavra grupo em suas raízes etimológicas significa um nó, provindo esse gênero da língua Italiana.

O nó recorda os pontos de sustentação e fortalecimento de uma rede, e esse simbolismo nos remete aos grupos espíritas, que deverão ser como redes tecidas pelo sentimento que agrega e baliza todas as suas rotas educacionais no aprendizado espiritual.

Quando se menciona a terminologia homogêneo para grupos, logo vem à mente a idéia de igualdade, padronização. Contudo, seu significado é um tanto mais elástico e profundo, porque jamais obteremos características uniformes, uma vez que cada pessoa é um mundo em si.

Apregoar a qualidade de homogêneo condicionado a imposições é desrespeitar o fluxo dos valores latentes e adormecidos na intimidade de cada ser.

Grupos homogêneos são os que guardam uma certa atração para um ideal comum, um objetivo claro, e que têm uma visão compartilhada de seu futuro, de onde querem chegar, para onde se dirigem. Em torno desse ideal compartilhado, nascido de dentro para fora e constituindo as aspirações de todos, tem-se a chave da homogeneidade.

Esse comprometimento com uma meta, um programa, uma mentalidade estabelece laços no coração, conquanto a divergência de visões intelectivas e as diferenças temperamentais.

Aliás, os grupos só se tornarão harmoniosos na proporção em que prezem, no clima da mais pura fraternidade, as diferenças e as divergências, tomando-as sempre como pontos de aperfeiçoamento e sinais de aferição quanto às direções a se tomar, burilando relações e superando problemas.

Para que valores e necessidades pertinentes a cada criatura possam constituir nó de intercessão e interação entre seus membros, há de se ter o coração ajustado na faixa dos sentimentos evangélicos, únicos capazes de resguardar o clima da necessária segurança e do preciso entendimento, a fim de vencer os embates naturais que tentarão desatar os elos da rede.

Outro sentido não menos valoroso para a homogeneidade é o do resultado da habilidade em transpor os desajustes, provenientes das diferenças na vida interpessoal, propiciando uma convivência harmônica.

Homogeneidade afetiva com diversidade de idéias, sem que isso constitua óbice e fonte de perturbação: eis o caminho natural dos grupamentos que almejem crescer sob a luminosidade espiritual da alteridade.

A força mediadora entre o cérebro repleto de pensamentos e o coração vibrante de amor é a educação. Os grupos espíritas homogêneos são escolas de convivência. Não existem sem problemas, aversões, simpatias, antipatias, dúvidas, desavenças e frustrações, mas como estão aquinhoados com as luzes das diretrizes do Cristo, são regulados por uma consciência de dever e responsabilidade que, espontaneamente, aciona-lhes o campo afetivo para a vitória e a conquista de si mesmos pelas vias da assertividade, do perdão, da disposição sincera de amar e do desejo de aprender, educando as emoções a rumos superiores.

Dentro dessa perspectiva, as relações interpessoais, dada a solidez dos recursos morais, formam um feixe de corações unidos no idealismo superior, banhados pelos júbilos da convivência fraternal e enriquecedora.

Resultados de maior profundez de objetivos só poderão ser alcançados em grupos sérios. Essa homogeneidade é uma insígnia de tal conquista.

Corações que se respeitam, que cativam a amizade, que vibram com o sucesso uns dos outros, que se querem bem, apesar das diferenças, são o esteio de Sociedades Fraternais, que vão refletir em sua atmosfera espiritual os tesouros de afeto cultivados entre seus tarefeiros, em plena afinidade de busca para Deus.



Capítulo 28

Auto-Amor

Se o Espiritismo, conforme foi anunciado, tem que determinar a transformação da Humanidade, claro é que esse efeito ele só poderá produzir melhorando as massas, o que se verificará gradualmente, pouco a pouco, em conseqüência do aperfeiçoamento dos indivíduos.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 350

“Ser” - verbo que traduz o anseio evolutivo de existir em plenitude, feliz, dirigindo-se para Deus.

Escolhas malsucedidas, no entanto, afastaram-nos desse finalismo Divino, aprisionando-nos nos charcos asfixiantes da prova, da dor e do hábito infeliz.

O voluntário esquecimento de nossos deveres no peregrinar das reencarnações trouxe-nos de volta, na atual vivência carnal, o fruto amargo das semeaduras infelizes que plantamos sob a volúpia das ilusões.

Hoje, graças a esse descuido milenar, existe um abismo de sombras entre o “eu Divino” e a nossa realidade existencial, onde se acomodam os monstros do orgulho e do egoísmo.

Apesar da condição desditosa, a inesgotável Providência Divina estende-nos um aluvião de recursos de amparo em favor de nosso reerguimento, perante a própria consciência. O encontro com as diretrizes espíritas é um exemplo disso. Agora, iluminados pelos princípios estruturais do Espiritismo, somos novas criaturas em busca do Pai que “abandonamos”.

Sentir Deus! Eis o fundamento da transformação interior.

Renovar a forma de sentir é a senda libertadora em favor da auto-recuperação espiritual.

Conquanto as luzes que clareiam os raciocínios, ainda sentimos o peso coercitivo dos resultados da insanidade moral nas impérvias sentenças que lavramos contra nós no dobar do tempo. Os propósitos superiores de agora parecem ser esmagados ante a força cruel do passado ignominioso e voraz que reside nos porões da mente.

Desejos fugazes do bem consomem-se sob a mira certeira de sentimentos que não gostaríamos de sentir.

Desejamos amar a família, mas, muita vez, sentimo-nos manietados a estranhas fantasias que nos inclinam para a ilusão dos sentidos fora do lar.

Desejamos compromisso e louvor ao serviço doutrinário, todavia, em várias ocasiões, sentimo-nos vazios de idealismo, tombando nas armadilhas do desânimo e da deserção ou enredados na rotina de realizar por obrigação, sem gratificações de profundidade.

Desejamos a conduta moral elegante, contudo, muitas vezes, “vozes interiores” vaticinam culpas e limitações, levando-nos a acreditar em muralhas de imperfeições que jamais conseguiremos transpor.

Desejos louváveis não se harmonizam com os velhos sentimentos de cada dia. Expiação maior não pode existir, para o aprendiz sincero do Evangelho, qual a de ter os novéis e frágeis propósitos agredidos pelos libelos que a própria consciência inflige em razão de nosso ontem.

O bem que desejamos nem sempre conseguimos viver e manter, menos ainda senti-lo. Porém, tenhamos vigilância e fé. Essa é a trajetória “natural” de regresso ao encontro do ser.

Existir para Deus, em nosso caso, implica vencer todas essas “expiações do sentir”, palmilhando as veredas reeducativas da atitude em favor do renascimento do ser glorioso e magnânimo ergastulado sob a canga de nossas mazelas.

Jamais desistamos desse compromisso, pois que, inexoravelmente, esse “reencontro” se dará em algum momento, já que é um fatalismo das Leis Naturais e Universais.

A melhor opção nessa retomada espiritual é o amor na busca das expressões celestes adormecidas em nós. Referimos ao amor a si mesmo, contemplado por Jesus na essência de sua plataforma para a felicidade.

Nós, os espíritas, temos feito progressos consideráveis no que tange ao amor ao próximo, erguendo trincheiras do bem e da caridade. Temos produzido e realizado fartas semeaduras de bênçãos junto aos grupos de amor. Raras vezes, entretanto, temos sabido amar a nós próprios.

E existirá Amor maior a si que esse de saber lidar com essas sombras interiores que tentam empanar nossos anseios de Luz?

Aprendamos esse amor e sejamos mais felizes.

Amar nossa “sombra’, conquistando-a paulatinamente.

Tolerar nosso passado, sem as impiedosas recriminações.

Amar-nos, apesar do nosso passado de escolhas infelizes e decisões precipitadas, é fundamental para encetarmos um recomeço de vida espiritual rumo à liberdade.

Aprender o auto-amor é arar a terra mental para “ser”. Quando o lograrmos, recuperaremos a serenidade, o estado de gratificação com a vida, a compreensão de nós mesmos, porque o sentimento será então um espelho translúcido das potencialidades excelsas depositadas em cada um de nós pela “inteligência suprema do universo”.

Formou-se entre nós uma lamentável “cultura de sofrimento” fundamentada na Lei de Causa e Efeito, propalando a dor como situação insubstituível ao progresso. Acentua-se tal teoria com a supervalorização de fantasias sobre um passado de outras vidas no qual são destacados crimes e desvarios. As conseqüências de tal enfoque podem ser sentidas no quadro de baixa auto-estima e desacordo consigo mesmo em que se encontra grande parte do discipulado espírita.

Alimentando crenças de desmerecimento e menosprezo mais não fazemos que desamarmo-nos e impedir o crescimento pessoal e grupal.

O pior efeito de semelhante quadro psicológico é acreditar que não merecemos ser felizes, automatizando um sistema mental de cobranças intermináveis e uma autoflagelação, ambas, em várias ocasiões, sustentadas e induzidas por adversários espirituais astutos e vampiros da morbidez das sensações, gerando situações neuróticas de perfeccionismo e puritanismo quase incontroláveis.

Esse autodesamor é um subproduto do atávico religiosismo que edificamos no psiquismo, em séculos de superficialidade moral, cuja imagem condicionada na vida mental foi a de um ser pecador e miserável, indigno daquele paraíso onde esperávamos refestelar-nos com as vantagens dos céus. Ainda sob a forma de potente condicionamento, transpomos para as ambiências espiritistas tais reminiscências do “eu pecador”.

Allan Kardec assinala que o “aperfeiçoamento individual” é o fermento das transformações sociais, e isso exige cuidados pessoais dos quais, alguns deles, só dispensaremos ao outro na medida em que os aplicarmos a nós, sem que isso, em momento algum, signifique vaidade e preocupação personalista.


* * * *

Coração querido,

Piedade e complacência contigo mesmo.

Estais em lutas acerbas a ponto de desistir? Persevera e luta.

Busca na prece o que te falta: a força para continuar.

Caridade contigo é o desafio do auto-amor.

Sentes no imo da alma uma amargura incomensurável ante as faltas e deslizes a que descuidadamente te permitiste. Um sentimento avassalante de indignidade toma-te a alma, quando fazes o que não deverias ou deixas de fazer o quanto deverias. Conquanto as lutas, cuida para que essas sombras não empanem o brilho de Deus em ti, e confia na bondade do Pai que te confiará o necessário para a caminhada.

Vigia teu mundo emotivo. Ninguém é indigno de Deus, em situação alguma, ainda mais agora que já te encontras com rumo e norte para recomeçar.

Perdoa-te quantas vezes forem precisas e retoma teu programa de luz.

Sentir-se indigno da Bondade Paternal é sintoma de melhora e sinceridade de tua parte. Pior seria se errasses novamente e acolhesses com inconsciência a tua escorregadela infeliz.

Ainda te ocorrerá inúmeras vezes esse incômodo que, por fim, é o “anjo vigilante” de tua consciência advertindo-te com esse mal-­estar para que não sucumbas outra vez na mesma furna de invigilância.

Aceita-te tal qual és e prossiga.

Não asiles em ti o sentimento de hipocrisia induzido pela hipnose do orgulho, que tentará de todas as formas fazer-te desacreditar das escolhas ainda vacilantes e pouco sólidas na tua nova caminhada. Hipocrisia existe quando o desejo e a atitude são precedidos pela intenção deliberada, em contraposição ao que já conheces.

Logo mais, respeitando as investidas de tuas sombras, a quem deves também amar, perceberás a transformação e animar-te-á pelo esforço e sacrifício empenhados.

Desistir, nunca!

A auto-recuperação é um leito de convalescença na enfermaria da vida, exigindo teus cuidados sem interrupção.

Um dia, o curativo da oração. Outro, a injeção do ânimo. Em outro mais, a medicação amarga do enfrentamento de tuas doenças. Ainda à frente, a imperiosa necessidade do esculápio na pessoa de um amigo para orientar-te.

Terás recaídas, febres de ilusão, dores do desapego, cansaço de ansiar pela melhora, incômodos na cama das provações diárias, dificuldades para com necessidades básicas, o sono indisciplinado trazendo fadiga, o alimento que não desejarias causando-te a fome de esperanças, o banho limitado impedindo-te a sensação de leveza e bem-estar.

Apesar disso o tratamento está se concretizando, ainda que não percebas.

Por isso tenha paciência contigo, e não pare de amar-se.

O amor a si mesmo é uma lição profunda e difícil, porém, não impossível.

Comece já teu ministério de auto-amor e constatarás que esse aprendizado é a condição essencial na existência para o tão decantado amor ao próximo.

Convivendo bem contigo, serás bom companheiro e amigo de teus grupos espirituais, fazendo-te mais útil nas mãos da vida, para o cumprimento da Lei da felicidade na melhoria social, em torno dos teus e dos passos alheios.

Capítulo 29

Harmonização e Segurança

Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor e há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram.”



O Livro dos Médiuns – capítulo 29 — ítem 335

Remanescente de eras primárias do evolar humano, trazemos ainda hoje como reflexo marcante e dinâmico o vício da posse, como sendo complexo mecanismo desenvolvido pela alma na busca de segurança.

Agrilhoado a milenares impulsos da vida corporal, na medida em que adquire a razão, passa o homem a ter o instinto de posse não mais como motivação para buscar o atendimento de necessidades básicas, mas como garantia de bem-estar ante os desafios ameaçadores da vida e da estabilidade em sua jornada.

Acumular passa a significar proteção e defesa, e por longas e repetidas vezes o estágio nessa atitude conduziu a mente a fixar os valores da soberba, da tirania, da ilicitude e da ganância na direção dos excessos.

Hoje, quando nos referimos à segurança e à preservação, necessariamente associamos esses sentimentos a medidas exteriores tais como riqueza, dotes sociais, beleza e conforto, que são ícones para questões interiores no campo do existir humano.

Tais manifestações que ensejam a fugaz sensação de segurança e paz interior são fortes ilusões, escravizando a mente a padrões de comportamentos e “alijando” da alma a expressão do afeto isento das cargas emocionais primárias e empobrecidas de autêntico Amor.

Essa vivência da evolução permite-nos tecer considerações oportunas a nossa convivência, uma vez que segurança é o que mais almejamos junto àqueles com os quais partilhamos nossas vidas. Na ausência desse sentimento instala-se, ocasionalmente, o reflexo da injustiça, e o sentimento de injustiça é o desajuste do afeto que leva o coração a disparar a rebeldia, a mágoa e o ódio como hábitos longamente cultivados desde tempos imemoriais.

Asilando esse “sentir-se injustiçado” que se efetiva para cada individualidade, conforme seu temperamento e caráter, estabelece-se a desarmonia da razão que pode levar à adoção de ações reflexas desde a ira até o crime “não intencional’.

Em verdade, estamos estudando a intensa “capacidade de destruição” que tem o egoísmo, o qual nos é próprio no atendimento ao instinto de conservação natural. Instinto esse acrescido pelos excessos adquiridos em milênios de orgulho e vaidade, saciedade e ambição.

Não foi sem motivo a conhecida lição de Jesus, prevendo acontecimentos para os dias atuais, quando disse: “E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará”. (1)

Injustiça sentida, afeto embotado.

Muita vez, essa busca de segurança tem conotações sutis nas ações que carecem ser compreendidas, a fim de melhor nos posicionarmos uns frente aos outros. A necessidade de domínio e controle é outra forma costumeira de apresentar-se, seja no lar ou na profissão, na amizade e, igualmente, nas movimentações doutrinárias.

Ocorre que, quase sempre, onde tais sentimentos de posse comparecem, morrem a fraternidade e as relações ricas de permuta afetiva.

Controle e domínio, quando surgem em nossas lides, travestem­-se em normas e planos coletivos, hierarquia e interesses de grupos, sob a chancela de missões necessárias ou diretrizes de Mais Alto ao bom andamento dos destinos do Espiritismo ou no alcance de objetivos grupais e institucionais.

O resultado inevitável, nessas condições sociais, é a poda de valores substancialmente essenciais ao resgate do espírito da simplicidade, da despretensão e do respeito com o qual deveríamos tratar os assuntos da doutrina e, igualmente, a indiferença, o descrédito e o desamor com os quais tratamos uns aos outros nos assuntos da vida interpessoal. Tudo para sentir a segurança do controle das rédeas que, por sua vez, oferece a sensação de posse e realização pessoal.

Marca comum a grande maioria dos que se aferram a esse capítulo do egoísmo é o afastamento escolhido das necessidades humanas, no campo do amparo e da solidariedade, enquistando o coração na “frieza afetiva”, em crises de racionalização.

Por isso, se verdadeiramente queremos segurança e estabilidade, busquemo-la na vivência do afeto, e afeto não se desenvolve sem convivência e proximidade, sem permuta e disposição de aprender, sem servir e trabalhar. Eis porque as atividades assistenciais de nossa Seara, entre inúmeras vantagens, propicia ao homem solitário e inseguro vigorosos estímulos não encontrados em quase nenhuma experiência social.

Insistimos na vivência do afeto nos grupamentos da nova revelação, porque essa relação assegura a essência do Espiritismo em nós, o Amor.

Labutemos juntos pela humanização de nossas lides, para não nos perdermos em movimentações exteriores e improfícuas.

Amar a Casa mais que a Causa é “delírio” de nossa afetividade que acumula tesouros na terra onde as traças e a ferrugem tudo consomem(...)(2)

O afeto é o tempero das tarefas imunizando-nos contra excessiva valorização dos métodos, das formas e das condições de realizá-las, centrando nossas aspirações no ser humano que dela participa sem fascínio com a teoria, com os conflitos, com os problemas comuns a essas iniciativas. Quando nosso foco é o próximo e a necessidade de servir e aprender, nossos sentimentos serão excelente garantia de boa aplicação e aproveitamento nas atividades que cooperamos.

Evidentemente, com isso, não queremos incentivar a desorganização e os descuidos necessários ao bom andamento de nossos projetos de amor.

A clareza de Jesus em destacar que seus discípulos seriam conhecidos por muito se amarem (3) não deixa margens a dúvidas sobre as anotações que ora descrevemos.

Perambular pelas adjacências das proposituras espíritas será forte tendência de todos nós, Espíritos em busca da remissão consciencial. Entretanto, os conteúdos exarados pela “Plêiade Verdade” são por demais esclarecedores ao assinalar que a caridade, entendida como o sublime mecanismo de intercâmbio e solidariedade relacional, é a prioridade de nossos projetos espirituais em quaisquer formas como se estruturem.

Humanização da Seara, eis a meta!

Sem caridade não teremos jamais a educação, e sem educarmo­-nos fugimos do objetivo primacial do Espiritismo e iludimo-nos com o velho instinto de posse no acúmulo de vitórias transitórias junto aos púlpitos do verbo eloqüente, do assistencialismo superficial, do controle personalista, em improdutiva atividade a qual, inadvertidamente nomeamos como sendo trabalho, zelo e dedicação, e terminamos afogados no fascínio sobre os méritos pessoais, em sofrível crise de personalismo...

Não é por Outro motivo que aqui, nos planos da vida imortal, lamentavelmente temos amparado em nome do Amor muitas almas distraídas de seus deveres, junto aos campos do serviço espírita da Terra. Carreiam para cá extensa quota de enganos acerca de sua realidade espiritual, supondo-se, em grande maioria, detentores de cabedais ou créditos que não fizeram por merecer. Justificando medidas e ações, decisões e escolhas, com “criativo’ e frágil desculpismo e dotados de arrogância e autoritarismo, quando percebem que não se encontram na vida espiritual tão seguros quanto pareciam no mundo físico, descobrem, pouco a pouco, as vertiginosas armadilhas que desenvolveram contra si próprios, passando por longo estágio de perturbação e inconformação até resgatarem a humildade, para reconhecerem que, em verdade, serviram a si mesmos e não ao Senhor da Vinha, amargando doloroso sentimento de culpa e arrependimento que, somente em novas e mais promissoras oportunidades, em outras reencarnações, poderão expurgar a preço de testemunhos e dores, labor e esforço, na conquista do triunfo sobre si.

Segurança, portanto, é sinônimo de “acúmulo” de bens interiores. Talvez por isso Allan Kardec considera em nosso tópico de análise que há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que compõem agregados menos numerosos, deixando entender a importância de relações sólidas, sadias e venturosas para o bem de todos. Cria-se assim melhores condições para uma lídima segurança, em razão de permitir-nos maior introspecção que identifique necessidades de profundidade e, também, dilatarmos o patrimônio da cooperação uns com os outros, ante a extensão de nossas mazelas milenares.

Busquemos a segurança, a conservação íntima e pessoal no bem do próximo, pautando nossas vidas pela abnegação e devotamento.

Sigamos em nosso favor as felizes recomendações da questão 922 de O Livro dos Espíritos, estabelecendo-as como os pilares de uma reencarnação segura e vencedora:

“A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de felicidade comum a todos os homens?

Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranqüila e a fé no futuro.”




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