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(1) Mateus, capítulo 25, versículo 29



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(1) Mateus, capítulo 25, versículo 29

Capítulo 21

Melindre nos Centros Espíritas

Os antagonismos, que não são mais do que efeito de orgulho superexcitado, fornecendo armas aos detratores, só poderão prejudicar a causa, que uns e outros pretendem defender.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 348

Costuma-se asseverar que ele é a doença pertinaz de nossos meios espíritas.

Somente a criatura abnegada nos serviços do bem não padece suas injunções a ponto de se agrilhoar.

É o melindre — reação de apego doentio às nossas criações.

No campo moral podemos concebê-lo com as seguintes facetas:

- Personalismo magoado.

- Indicador de nosso contágio pelo egocentrismo.

- Rebeldia do orgulho.

Surge com mais assiduidade nos relacionamentos de pouca profundidade afetiva, nos quais escasseiam os valores da sinceridade, do diálogo e do bem-querer.

Sua faina consiste em minar as energias através da mágoa crescente, expressada em complexos mecanismos de tristeza, decepção, desânimo e revolta. E depois de alcançar as fibras mais sensíveis do sentimento, promove um “campo de guerra” nos pensamentos que penetra as faixas da fantasia e da obsessão.

Analisado por um prisma psicopatológico, o estágio agudo do melindre, processado em cólera muda ou manifesta, corresponde a uma fuga momentânea da realidade para uma incursão alienante em “quadro esquizofrênico” de rápida duração, no qual a mente raia pelos campos delirantes e persecutórios.

Há pessoas propensas a se melindrarem graças à posição íntima de se colocarem como vítimas da vida. Assediadas por “culpas de outras vidas”, que mais não são que seus desvarios de auto-piedade e pieguismo, elaboram um sensível sistema psíquico que as predispõe a se sentirem perseguidas pela “má sorte”, pelos “obsessores” e pela indiferença dos outros em relação a elas. No fundo são vítimas de si mesmas. São casos de desajuste reencarnatório em bases de rebeldia e inconformação com sua atual existência, promovendo uma insatisfação persistente com tudo e com todos, em lamentável egocentrismo de opiniões e interesses onde quer que se movimentem.

A atitude de suscetibilidade é a responsável pela grande maioria dos litígios, cismas, agastamentos e das querelas do relacionamento dentro das nossas casas espíritas.

Nisso encontramos mais uma forte razão para o urgente investimento na melhora emocional das relações interpessoais dos integrantes de nossas agremiações de amor.

O melindre é a resposta irracional da emoção demonstrando plena ausência de inteligência intrapessoal.

As criaturas educadas emocionalmente têm sempre respostas adequadas ao teste do melindre. Reagir com equilíbrio, elaborar soluções criativas aos impasses e agir com espontâneo amor são respostas de quem é dotado de farta inteligência emotiva, lograda em refregas nas vivências do Espírito que amadureceu para a vida, O melindre é a pobre resposta do sentimento agredido.

As casas espíritas compostas por relacionamentos de conteúdo moral elevado tais como a assertividade, a empatia, o conhecimento mútuo, a amizade favorecem uma convivência saudável e harmoniosa que ensejam defesas contra o “vírus” contagiante do orgulho ofendido.

Por longo tempo ainda estagiaremos sob os alvitres do amor próprio ferido, já que ainda não guardamos a suficiente abnegação e humildade para superá-lo integralmente. Nada mais natural que recebermos seus reflexos. Contudo, se já temos em nós a luz do Evangelho e do Espiritismo para guiar nossos passos, compete-nos empreender árdua luta para não permanecermos por tempo demasiado sob sua influência perniciosa, a fim de não permitirmos os dolorosos trâmites da subjugação e da perda energética seguida de doenças variadas, sobretudo, no sistema circulatório.

Enredados em suas malhas, procuremos meditar e orar, estudemos suas origens em nós e afastemos tudo quanto possa dar-lhe guarida por mais tempo.

Empreendamos nossos melhores esforços pela casa espírita mais fraterna e de relações honestas, sinceras, onde encontremos o clima desejável de confiança e afeto para dirimirmos as dúvidas naturais de nossa convivência, que também se encontra em aperfeiçoamento e aprendizado, não permitindo as brechas das imaginações doentias que são campo arado para a ofensa e a desavença.

Lembremos, por fim, que o futuro trabalhador do movimento espírita é, quase sempre, originado das experiências cotidianas de nossas Casas, onde muito experienciou nas sendas da suscetibilidade ferida. Ante esse fato, ficam para nós as indagações: qual terá sido o recurso de superação adotado pelo trabalhador nas questões melindrosas? Terá ele desenvolvido habilidades emocionais inteligentes para lidar harmoniosamente com tal imperfeição, ou apenas adquiriu o hábito de se insensibilizar e se tornar imune às agressões?

Precisamos dessas respostas, pois elas explicam e geram muitos fatos!



Capítulo 22

Casas ou Grupos?
Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor e a mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram. O silêncio e o recolhimento são mais fáceis e tudo se passa como em família. As grandes assembléias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõe; exigem sedes especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo desnecessários nos pequenos grupos.”

O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 335

Feliz e inspirada a fala do educador excelente e magno codificador do Espiritismo, Allan Kardec.

Casas ou grupos? O que atende melhor aos anseios de crescimento e desenvolvimento das potencialidades para “ser”?

As Casas pedem regulamentos, paredes e esforço físico. Os grupos são criados por relações, vivências e esforço moral

As Casas abrigam-nos das intempéries materiais, enquanto os grupos são recantos de estímulos contra as investidas dos reveses da alma.

As Casas formalizam os movimentos para fora, enquanto os grupos consolidam elos essenciais voltados para os valores íntimos.

As Casas têm chefes, os grupos têm líderes.

As Casas são estáticas; os grupos, dinâmicos.

As Casas são “dependências”; os grupos, autonomia.

As Casas são o corpo; os grupos, sua alma.

Casas priorizam a instituição; grupos laboram por mentalidades e idéias.

Casas são submissas a normas; grupos são expressões de criatividade e responsabilidade, harmonia e cooperação.

As Casas pedem hierarquia; os grupos apelam para a participação promocional.

As Casas podem servir de troféus à vaidade pessoal, enquanto os grupos são fontes inesgotáveis de serviço coletivo contra as artimanhas do personalismo.

As Casas reúnem pessoas, os grupos unem as pessoas.

Nas Casas as pessoas encontram-se, nos grupos elas convivem.

Nas Casas onde não encontramos grupos que se amam e respeitam pode-se desenvolver os ambientes de frieza afetiva e menor valor à individualidade, conquanto possam prestar relevantes serviços à sociedade.

O centro espírita, enquanto Casa, precisa reciclar seus paradigmas, contextualizar seus métodos, renovar sua forma de agir e decidir, agilizar suas atividades para atendimento dos inumeráveis e surpreendentes desafios que ora solapam as vidas humanas com dores acerbas.

A renovação dessa mentalidade deve iniciar-se pela formação de equipes, os grupos.

Relembremos a origem da palavra grupo que vem de “gruppo”, do italiano, que significa “nó”. No caso, um nó entre seus membros.

Entretanto, formar e manter os serviços de equipes é iniciativa que demanda preparo dos dirigentes.

Estamos num momento de ausência de horizontes, de respostas, de soluções. Notam-se os problemas, relacionam-se os obstáculos, estudam-se as causas de dificuldades, poucos, porém, conseguem trilhar os caminhos na operacionalização de melhora e driblar os empeços.

Precisamos ajudar os dirigentes a pensar, a encontrar essas respostas e soluções, ampliando-lhes horizontes, auxiliando-lhes em assessoria mental e afetiva pela promoção de intercâmbios salutares e bem planejados para empreendermos uma “nova” atividade na Seara, visando o fortalecimento pela formação de uma “rede de apoios’, de “oficinas de idéias’. O conhecimento que capacita o homem para transformações nasce da reflexão. Aprendamos a pensar pelo estudo vencendo o dogmatismo e a preguiça mental. Aprendamos a reinventar as informações que adquirimos transformando-as em saber operante, dinamizador das mudanças necessárias em direção ao crescimento individual e grupal.

O que faz uma oficina? Reparos, consertos, trocas de peças, regulagens, revisões.

Nos dicionários humanos a palavra oficina significa: “Lugar onde se verificam grandes transformações”. Esse é o sentido que melhor se ajusta a nossos conceitos.

Oficinas permanentes de idéias e intercâmbio tornam-se imprescindíveis nessa hora que passa, arregimentando “laboratórios de troca e reinvenção do agir”, fortalecendo as bases, estimulando os caminheiros, propondo metas, vencendo o marasmo em parcela considerável das Casas.

Como formar uma equipe? Como mantê-la? Como superar suas lutas? Quais as prioridades da casa espírita? Como trabalhar o afeto no Centro? Como elaborar e executar um planejamento? Como fazer uma avaliação? Podemos mudar tudo no Centro? Quais as macro-tendências atuais para os centros espíritas? Como motivar grupos? Quais tarefas cada grupamento tem condição de realizar? Como reestruturar um trabalho para a aquisição da qualidade? Por onde começar tudo?

Assim como mencionamos, na Parte 1ª dessa obra (1), que o centro espírita tem importante papel social no desenvolvimento do afeto, não podemos deixar de frisar que muitos Centros não passam de Casas; em razão disso, precisam transmudar-se em grupos para desempenhar semelhante missão.

Daí insistirmos com veemência pela criação de laços afetivos entre os membros das organizações espíritas, entendendo que nessa medida teremos a salvaguarda para os demais investimentos.

Mas então persiste a pergunta: Como trabalhar o afeto nas Casas?

Oficinas permanentes de idéias! Meditem!
(1) Referência à Parte 1ª “Pedagogia do Afeto na Educação do Espírito” no Capítulo 9, Centro Espírita e Afeto.

Capítulo 23

Calabouço dos Sentimentos

Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor e a mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram. O silêncio e o recolhimento são mais fáceis e tudo se passa como em família.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 335

Contava-se na Idade Média, em determinada região européia, que um suserano odiento tinha por vício separar homens apaixonados de suas mulheres amorosas, e deixá-los morrer em um calabouço, à mingua de água, pão e luz, para que pudesse amparar suas pobres viúvas solitárias e torná-las suas vassalas preferidas. Dizia-se que ele fez centenas de prisões, destruiu várias famílias e vivia refestalando­-se na sexualidade e cortesias insaciáveis de suas companhias femininas.

Certo dia, no entanto, quando foi descoberta a trama, as mulheres revoltadas, informadas de que o suserano era o criminoso de seus esposos, em inteligente armadilha, trancafiaram também o senhor no calabouço. Entretanto, a partir daí passaram a viver de insatisfações e tristeza até a morte, porque sentiram-se presas de um passado infeliz que jamais lhes saía da memória, vivendo por entre o ódio, a insegurança e a saudade.

Conquanto dramática, é bem essa a história de quase todos nós em assuntos da vida sentimental: o narcisismo, a volúpia sexual, o egoísmo e o prazer gerando medo e frustração, culpa e mágoas, dilacerando corações e arruinando lares e sonhos.

Por completa insanidade da razão, em crises de paixão e libidinagem, bastas vezes espezinhamos o amor alheio em impiedosas atitudes de desrespeito, separando homens honrados de mulheres fiéis, em tramas passionais, desleais e injustas, para depois, bem depois, caindo em si no despertamento consciencial, verificarmos os registros desditosos que instalamos no imo de nós próprios, em lances de sede de domínio e satisfação pessoal.

O suserano íntimo, no papel do egoísmo destruidor, é o condutor inconsciente e mantenedor dos calabouços de sofrimento, com o qual ferimos centenas ou milhares de almas nos desdobramentos das vidas sucessivas.

Por isso hoje muitos de nós purgamos a solidão reeducativa nos temas do amor, ainda que enleados em uniões esponsalícias ou afetivas.

Temos um “calabouço do sentimento” como aquisição consciencial de nossas decisões malsinadas em forma de graves lesões afetivas.

Sedentos por novas experiências nas vivências da afeição, renascemos presos aos calabouços provacionais da emoção, sem liberdade novamente para fazer o papel do suserano enlouquecido, conquanto ele ainda esteja, de alguma forma, mesmo aprisionado nas provas da inibição afetiva, querendo espezinhar e ferir, com extrema rebeldia aos novos quadros do hoje. A sua principal manifestação nesses casos é a doentia inveja e o profundo sentimento de abandono, inutilidade e insatisfação por que passam os que se encontram em tal teste corretivo, debandando para a depressão, a suscetibilidade, as neuroses de vários matizes, adiando ainda mais a edificação da felicidade pessoal pela fuga da auto-educação.

Eis bem o retrato dessa expiação dolorosa: a prisão subterrânea do medo e da insegurança encarcerando os sentimentos de amor e esperança, penalizando a criatura com a sede de afeto não correspondido e com a tristeza de viver sempre à espera de alguém que não sabe se existe ou dormita em algum lugar, à sua espera também, assim como ocorreu aos homens trancafiados pelo suserano. Doutras vezes são as vivências da sexualidade embaladas pela luxúria, dissociada da satisfação que, geralmente, termina em revolta, golpes de revide e autodesvalorização.

Os sonhos amorosos, as fantasias da união afetiva, o desejo do lar feliz estão por trás das grades imitadoras da paixão que não se consegue expressar, tornando-se “estranho amor emudecido”. Nessa prova as criaturas permanecem acorrentadas à inibição, baixa auto-estima, insatisfação com a vida, afiveladas a profundos e dolorosos sentimentos, tais como medo de amar, dúvidas e receios sobre suas emoções, descrença na felicidade, desmerecimento a seus ideais de amor e no sucesso afetivo. Pelos “odores psíquicos” que emanam, atraem assim outras criaturas perturbadas ou perturbadoras, em ambos os planos de vida, com as quais tecem elos de frustração e mágoas, dilatando sua solidão e exaurindo-se energeticamente em obsessões “cumulativas” ou mesmo abrindo portas mentais para “vinganças cruentas” de credores de outras épocas.

A origem de semelhante aferição reeducativa, portanto, está no menosprezo e indiferença de outrora recheados dos requintes de falsas promessas aos corações que permitiram confiar em nossos votos de fidelidade e carinho, que foram completamente desonrados.

O afeto não correspondido e o receio de amar no hoje são amargas doses de medicação preventiva ante as feridas emocionais acrisoladas no “centro de força” cardíaco do corpo espiritual, junto às sensíveis “engrenagens” da vida afetiva — verdadeira cirurgia de extirpação nos domínios da vida sentimental em razão das matrizes pré-existênciais e reminiscências de outras reencarnações.

Enclausurado em tal quadro, a criatura passa a viver por entre a desmotivação e a instabilidade nos deveres da rotina, carpindo uma “revolta muda” contra tudo e todos, estabelecendo constantes complicações nos relacionamentos e nas amizades, e, em chegando aos píncaros da resistência, se não se armou da profilaxia adequada, tomba nas neuroses fóbicas, nas alterações cíclicas de humor ou em psicoses graves.

Para a psiquiatria humana são esquizofrênicos irreversíveis, para a medicina do Espírito são doentes que precisam sair de si mesmos e aprender a dar sem ter, amar mesmo sem serem amados. Não logrando, poderão estar iniciando um ciclo provacional de longa duração.

Alma constrangida a sanções, será sempre muito suscetível de rancor com pequenas falhas alheias e com grande dificuldade ao perdão e ao auto-perdão, necessitando de muito apoio e carinho para suportar o peso de seu próprio narcisismo e da dor que carregará até reeducar­-se nos temas do Amor e do sexo.


* * * *
Amigos nas privações cármicas da afetividade:

O calabouço provacional de hoje quando bafejado pela luz do Espiritismo faculta ao “prisioneiro” o pão da misericórdia e a água da restauração, com os quais poderão as penas serem amenizadas e terem novas dimensões.

Se hoje te encontras nas lutas da solidão reeducativa, não fujas de tua oportunidade.

Ainda que entre dores e problemas, assume tua prova e liquida teu débito.

Aceita o amargo remédio da solidão e da abstinência no aprendizado da “saturação emocional”.

Não obtendo apoio familiar e social ante as imposições de tuas “penas reencarnatórias”, procura no grupo doutrinário a integração com a família espiritual que te será arrimo e suporte para os instantes mais difíceis.

Aprende as lições do respeito e do dever nos assuntos do Amor, porque também na casa das orações e estudos espirituais depararás inúmeras vezes com corações que ser-te-ão “príncipes de encanto” aos teus sonhos de afeto, podendo converter-se em “suseranos da ilusão”, mas cuida-te para não decepcionares a outros e a ti mesmo.

Confidencia a quem tenha condições de amparar-te, isso trará alívio e será o embrião de uma relação valorosa no teu recomeço; estarás assim confiando em alguém, e confiar em alguém é refazer os caminhos da libertação de ti próprio.

Não esqueça nunca da prece na qual buscarás o acréscimo de forças que te falte.

Apoia-te nessa família pelos laços do coração e vai “compensando” teus afetos com o esforço de amar, independentemente de ser amado. Muitas vezes terás tendência a exigir essa correspondência, contudo, vigia teu suserano que ainda teima em reinar e dilapidar, tenha siso e lucidez, e analisa o mal que te faz essa postura.

Caminha, chora, desabafa e prossegue sem desistires nunca. Se hoje está difícil, amanhã, se decidires por enfrentar corajosamente, poderá ser menos penoso intimamente, mesmo que não tenha teus anseios atendidos como gostarias. Talvez nada fique como queiras, entretanto, nem sempre terá que ser sofrido, ou infeliz a tua experiência renovadora. Deus espera-nos para a alegria e o Amor e pode promover infinitas formas de conduzir-nos a isso pelas sendas de Sua Inesgotável Misericórdia.

Misericórdia, porém, não é dispensada apenas por pura bondade Paternal, porque a Justiça Divina conta com as conquistas de seus filhos nos rumos do auto-aperfeiçoamento.


* * * *
Condutores e integrantes dos grupamentos espíritas:

Estejamos todos atentos a semelhantes gêneros provacionais como os que assinalamos.

Mesmo com a dramaticidade das palavras por nós escolhidas, ansiamos, sobretudo, em alertar sobre que tipos de assistência estamos sendo chamados no que tange à vida íntima de quantos têm batido às portas do centro espírita, compondo, muita vez, o quadro dos trabalhadores de nossos conjuntos de labor.

Em várias ocasiões temos ao nosso lado na faina doutrinária tais corações em semelhante sofrimento “purgatorial”, e carecemos de concepções mais intuitivas e de instrução mais lapidada para amealhar condições de orientação e apoio.

Jamais descuremos do amparo especializado da medicina humana, quando se fizer necessário.

Os avanços da psicoterapia com foco transpessoal, tomando por base o Espírito, é indicação para muitos deles.

Os serviços de promoção social e solidariedade são exercícios inevitáveis a esses “andarilhos emocionais” em busca de afeto e gratificação.

Providencia a desobsessão como medida extensiva de amparo aos vitimados na expiação além túmulo, jamais esquecendo que são eles os prisioneiros de outra época, trancafiados nos calabouços da decepção pelo doente encarnado que hoje pede socorro em tuas reuniões, amando-os muito como vítimas, e não verdugos inconseqüentes.

Chama sempre a atenção do reeducando quanto à vivência das lições evangélicas, das virtudes, e agrega-o aos esclarecimentos libertadores da Boa Nova.

Acima de tudo construa essa relação de confiança e respeitabilidade com teu assistido de agora, concedendo-lhe, como maior bênção nesse tipo de testes, a crença de que alguém o ama e o quer bem, a despeito de sua autodesvalorização.

Essa relação promissora é a revitalização da esperança e o estímulo para a continuidade que carece o prisioneiro dos calabouços afetivos.

Dá-lhe tudo que tens, assim como fez a viúva pobre do Evangelho (1), depositando nesse coração que esmola carinho e piedade a honra das atitudes nobres, ensejando-lhe uma mensagem, pelo exemplo, de que se pode amar sem possuir e gostar sem dominar, conclamando-o a comportamentos novos, íntegros moralmente.

Sê-lhes íntimo, mas ensina-lhes o limite. Sê-lhes afetuoso, mas ensina-lhes o amor fraternal.

Na condição de condutor de grupo ou integrante do mesmo, faze-te um irmão muito disposto a aceitar, compreender e incentivar.

É tudo que eles precisam para continuar sua prova redentora em busca da quitação consciencial e de um pouco de paz e crença em um futuro menos sombrio ante suas perspectivas, quase sempre, comprometidas pelas tenazes da amargura e do descrédito.

Ama-os, ama-os sempre e ensina-lhes a amar como devem, e permita-lhes sentir novamente, depois de séculos de secura no coração, a importância de uma família espiritual e dos laços de confiança.


(1) Marcos, capítulo 12, versículo 44

Capítulo 24

Amizade, Elixir dos Relacionamentos

As grandes assembléias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõe (...)”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 335

Encontra-se cada vez mais escassa, embora seja cada vez mais procurada.

Quase todos a querem receber, poucos a desejam dar.

Muitos querem que alguém seja seu amigo, poucos oferecem-se como amigos.

Amizade: a alma dos relacionamentos, o elixir da convivência saudável e produtiva.

Em muitos lances da experiência relacional, a amizade tem sido o campo de esperanças no começo de muitos encontros, quase sempre, vindo a constituir-se, com o tempo, como a zona da convivência na qual despejamos limitações e necessidades, convertendo os melhores elos em extenso campo de conflitos a administrar.

Basta uma leve decepção e o encanto do primeiro instante desfaz-se, convertendo-se em antipatia ou mesmo aversão. Por isso, a amizade pede cuidados para ter sua finalidade útil e edificante ao aprendizado espiritual.

Como manter-lhe então a longevidade? Como superar a rotina que costuma tomar conta das amizades? O que tem faltado para que os amigos consigam continuar atraídos na permuta?

Respondamos tais questões definindo inicialmente o que fazem duas criaturas afinadas entre si. Amigos compartilham. Eis uma expressão que sintetiza sua relação: um elo de compartilhamento.

Compartilhar é participar, ter parte em algo do outro, mas não tomar conta ou exigir esse algo do outro, o que nos faz penetrar no âmbito da ética da liberdade.

Amigos compartilham coisas, valores, vibrações, momentos, prazer, trabalho, dever, diversão, o saber, a experiência, as tarefas espíritas, o aprendizado evangélico, necessidades...

Variados relacionamentos nomeados como amizade têm compartilhado, via de regra, problemas, dificuldades, invalidando o motivo central que faz com que duas pessoas se busquem para tecer momentos de convívio, que seria o preenchimento, a satisfação, a compensação, a busca do crescimento pessoal.

A verdadeira amizade, para prolongar-se e vencer a rotina, tem que estar assegurada por um ideal que absorva os amigos ao tempo que enrijeça a relação.

Na casa espírita, por exemplo, onde inúmeras vezes as pessoas recorrem em busca de apoio e de quem as compreenda, carregando extensa dificuldade para expor suas dificuldades, o ponto de partida da amizade é a atitude de disponibilidade para o sagrado ato de ouvir. Em seguida vem a confiança - fio afetivo condutor das amizades — e então estabelece-se um elã de profundidade que, regado pelo ideal de servir e aprender, mantém muitos corações longamente unidos no tempo.

Fraternidade e trabalho pelo próximo são os adubos da amizade espírita.

Mas precisamos estudar com mais atenção e debater os porquês de nossas agremiações estarem tão pouco afeitas à formação de grupos de amigos, transformando em muitas ocasiões a casa de amor em locais “sacralizados’ de encontro com Deus, evitando o encontro entre humanos, guardando uma aura mística e sacra nas posturas, fazendo-nos recordar os templos de outrora nos quais nos encontrávamos para orar e, findo o ritual, cada qual retornava a seu caminho sem se conhecerem, sem se encontrarem para o diálogo, a troca. Outras vezes esse encontro toma maus rumos, graças a não terem seus componentes sido envolvidos pelo “Espírito evangélico”, escasso ou mesmo ausente no ambiente onde se deram tais encontros.

Eis um tema oportuno a nossas discussões debatedoras. Por que está escassa essa amizade em boa parte de nossas agremiações que cultuam o amor? Por que núcleos que laboram com a moral da fraternidade deixam uma lacuna ante os elos de seus membros? O que as agremiações doutrinárias podem empreender em favor da extensão de relações mais agradáveis?

Essa ausência de ternura entre os membros de um mesmo núcleo, guardando distanciamento, é empobrecedor para nossas realizações. Quando os componentes se amam, se conhecem, quando se estabelecem relações de confiança e respeito, as atividades ganham viço, estímulo, produtividade.

Os grandes grupos, nesse prisma, desfavorecem ainda mais por perderem a intimidade.

Grupos menores ensejam esse conhecimento mútuo e uma aproximação afetiva entre seus membros.

Ressaltemos aqui que, se a falta de proximidade pode constituir um obstáculo a nossas lides, o excesso dela também pode gerar outras tantas lutas. Intimidade nos relacionamentos é a zona delicada da convivência que apela para a virtude e o caráter, a fim de saber fazer dela o que se deve, e não o que se quer. Amigos que desejem a longevidade da relação cultivam limites, sem os quais a intimidade pode tornar-se um problema.

Amigos verdadeiros mantém-se na área dos vínculos afetivos, longe da possessão afetiva. O vínculo é uma relação que une sem fusão, sem subtração da individualidade, sem direitos especiais sobre o outro. Daí o motivo pelo qual a amizade autêntica é semelhante a um belo jardim, a exigir cuidados e mais cuidados na manutenção das flores da virtude e na fertilidade da terra do caráter, tornando os verdadeiros amigos cultores da arte do amor, na sua acepção de respeito ao outro, sem os infortúnios causados pela possessividade perturbadora.

Pessoas existem que fazem dos amigos um objeto de desejo e preenchimento de carências, quando então a relação marcha para o fracasso. Esperam tudo do outro e nada fazem, enquanto ser amigo é doar-se e interessar-se pelo outro.

Por isso ocupamo-nos em definir a amizade espírita nos limites da fraternidade e do trabalho nutridos pelo idealismo superior, porque elos com excessiva intimidade, costumeiramente, o temos na família, no ambiente profissional, na vizinhança e, quase sempre, debandam para a licenciosidade, a intromissão, a permissividade, o desrespeito, a perda da integridade moral e o mais lamentável: subtraem o caráter educativo que devem possuir os vínculos da autêntica amizade.

A amizade espírita é uma proposta de amizade voltada para a libertação e crescimento mútuo. Além de todos os ingredientes agradáveis do compartilhamento de amigos comuns, ela terá o objetivo de tornar-se um relacionamento de conscientização e desenvolvimento de valores.

Tecida pelo fio condutor da confiança, a amizade deverá manter-se nesse limite de segurança pelas vias da lealdade, do afeto, da lucidez e dos costumes para ter a garantia de longevidade e enobrecimento espiritual.

A primeira condição de longevidade dos relacionamentos é o dever da atitude responsável, inclusive nas amizades. Guardar a intimidade no patamar do equilíbrio ético. Compartilhar com vigilância, sempre atento à visão imortalista que deve inflamar os vínculos entre os que desfrutam da felicidade de saber que tal longevidade pode perdurar até no além-túmulo, só dependendo de nós aplicar-lhe o elixir do amor.

Capítulo 25

Elos Entre Dois Mundos

Imagine-se que cada indivíduo está cercado de certo número de acólitos invisíveis, que se lhe identificam com o caráter, com os gostos e com os pendores. Assim sendo, todo aquele que entra numa reunião traz consigo Espíritos que lhe são simpáticos. Conforme o número e a natureza deles, podem esses acólitos exercer sobre a assembléia e sobre as comunicações influência boa ou má. Perfeita seria a reunião em que todos os assistentes, possuídos de igual amor ao bem, consigo só trouxessem bons Espíritos. Em falta da perfeição, a melhor será aquela em que o bem suplante o mal. Muito lógica é esta proposição, para que precisemos insistir.”



O Livro dos Médiuns - capítulo 29 - ítem 330

Naquela manhã o medianeiro despertou irritadiço, colérico.

Enquanto preparava-se para a faina do dia, a tormenta mental incendiava-lhe os pensamentos com o rancor e a vindita. Pensava que, ao sair porta afora, se topasse novamente com o vizinho ranzinza e incômodo, não lhe toleraria um só gesto de atrevimento ou desdém.

Mas aconteceu que, ao sair, a primeira fisionomia que vislumbrou, em tom irônico, foi a dele. Tomam o elevador juntos. Inicia-se então uma guerra de dardos mentais. O medianeiro, espírita, perde a fleuma cristã e desborda em palavras infelizes. Houve tumulto e o desentendimento raiou às atitudes desequilibradas.

O dia passa e o servidor da Boa Nova encaminha-se a sua atividade noturna nas fileiras mediúnicas.

No interregno dos intercâmbios, o benfeitor amigo e atento solicita-lhe mentalmente preces, e que aguarde. A tarefa chega quase a seu final e o percipiente, incomodado, nada percebe com suas faculdades, ficando uma sensação de bloqueio.

Surge-lhe novamente o amigo espiritual e diz-lhe:

— Meu filho, tua tarefa nessa noite foi suspensa, pois quando alocamos a teu psiquismo, logo pela manhã, o adversário espiritual de teu vizinho, a fim de apaziguar-lhe as lutas que vive no lar, você expulsou o coração necessitado do atendimento em impensado descuido!


* * * *
Elos entre dois mundos. Intrigado com o tema, Allan Kardec recebe sublime e esclarecedora lição dos nobres “guias”, asseverando que a influência dos Espíritos sobre o mundo físico é maior que pensais. (1)

As Sociedades Espíritas são como um pronto socorro. A multidão sofrida pelos traumatismos de toda espécie recorre-lhe, entre os dois mundos, em busca de lenitivo, paz e esperança.

Como tens acolhido os desencarnados? Como dispensar afeto a quem não se vê na vida extrafísica, se não dispões a cativar os que ombreiam contigo na vida da carne? Que recepção terão os que vagueiam itinerantes em busca de rota e luz, se a ancoragem na casa espírita é feita entre farpas de discórdia e do entrechoque de idéias, em litígios enfermiços entre seus próprios trabalhadores?

Imagine como será guardar a expectativa de visitar alguém distante, que não vemos há muito tempo. Em lá chegando, constatamos um clima de desarmonia e infelicidade. Assim se sentem os “mortos” que asilam a esperança na alma atribulada, e têm a lamentável ocasião de presenciar as adversidades que mais lhes oneram o psiquismo e anulam as esperanças de novas sendas nas tarefas de socorro mediúnico.

A casa espírita é local “preparado” de interação e sinergia entre dois planos de vida. Consagremos as nossas melhores emoções, a fim de obtermos um quantum de ternura e fraternidade que sirva de abrigo aos sofredores em tempos de reparação e dor na vida espiritual. A casa de Jesus e Kardec deve ser um oásis de refazimento, ante o deserto das provações mundanas.

Estejamos certos, porém, que isso só amealharemos quando, no dia-a-dia, ampliarmos nossas noções sobre os elos que criamos e adulamos na conduta moral e afetiva, norteando as palavras, pensamentos e ações.

Afabilidade e doçura são expressões elevadas de caráter e espiritualidade, e, sobretudo, consistem em apanágio de paz e refazimento a quantos anseiam e experimentam a nossa companhia, dentro ou fora das nossas Casas de amor.

Habituem-se a essas virtudes no lar, na profissão, nas vias e, onde estiverem, essa será a garantia dos melhores elos que podemos concretizar entre os dois mundos.




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