Wanderley s



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Meditação 1

Intimidade nos relacionamentos é a zona delicada da convivência que apela para a virtude e o caráter, a fim de saber fazer dela o que se deve, e não o que se quer.



Meditação 2

Em círculos de trabalho, onde o afeto se resguarda sob a tutela do medo de relacionar, mantendo distância afetiva, alastra-se um campo fértil para a mentira, a mágoa e a insatisfação.



Meditação 3

O que você fez essa semana para enriquecer o tesouro da amizade no conjunto de teus companheiros de ideal?



Meditação 4

Evita reclamar cotas de atenção e generosidade alheia.

Com o tempo, se te aplicares, perceberás que é muito mais gratificante ser amável e querer bem a todos.

Exercita-te.



Meditação 5

Estabeleça em tua casa espírita o mural da fraternidade.

Expresse ali os bons sentimentos. Um bilhete motivante, um cartão terno, uma mensagem nobre de estímulo, a lembrança do natalício, uma frase edificante de valorização.

Mural do afeto, termômetro emocional do grupo.



Meditação 6

Aversões, afinidades, desafetos, simpatias, todas elas são lições emocionais, aulas do coração.

Quando surjam, pergunte: Senhor, como devo amar nessa ocasião?

Meditação 7

Descontração e júbilos festivos ensejam saúde à convivência.

Todavia, nenhum rumo de integração para o relacionamento é tão efetivo e prudente qual o de repartires idéias e emoções, sob a égide do trabalho espiritual com finalidades sempre elevadas.

Meditação 8

Mantém-te sereno ante as reações inesperadas e hostis daquele que ombreia contigo na tarefa de amor.

Muitas vezes não podes avaliar o esforço por ele despendido para guardar a integridade até aquele momento em que tombou na fragilidade.

Meditação 9

Para aqueles que desertam das tarefas doutrinárias por entre mágoas e desentendimentos, mentaliza sempre a condição do doente que resolveu abandonar o tratamento em franca rebeldia, e guarda-te em oração por ele.

Você sabe: a doença o acompanhará na condição de nova medicação aplicada pela dor; sendo assim, ele, em verdade, só precisa de apoio, orientação, estímulo e carinho.

Reprimendas são dispensáveis, quando já se adquiriu a luz dos conhecimentos espirituais.



Meditação 10

A estabilidade emocional de um grupo é medida pelo desejo individual de seus membros em cooperar nas soluções dos problemas que surgem habitualmente, evitando fixar a mente e o coração nos problemas existentes.



Capítulo 11

Resgatando os Sonhos

Cordialidade recíproca entre todos os membros.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 341

Na vida espiritual, a grande maioria dos que deixaram a carne carreiam consigo lastimável estado emocional de descrença e desvalor, em razão de perambularem pela vida física abatidos pelas provas e expiações dolorosas, que lhes subtrairam a capacidade de sonhar viver em paz e felizes.

As experiências provacionais na opressão, no sofrimento, nas privações, metas não atingidas, perdas “irreparáveis”, anseios reprimidos, doenças “incuráveis”, velhice frustrada, tudo isso nas mágoas e nas vielas da obsessão e da enfermidade reduzem a liberdade do homem, esgrimindo-o a regimes severos de disciplina e aprendizado.

Nessa conjuntura seus sonhos e ideais são soterrados por obrigações e necessidades de cada dia no amargor da realidade.

A função das provas, porém, entre outras, é ensinar a sonhar o que se deve e não matar o sonho.

Sonhar é pensar em crescer, ter metas, desejar progredir, encontrar soluções e vencer suas batalhas.

Sonhar é pensar sobre o futuro; quem não sonha não tem planos e nem anseios de progresso.

Somente sonham aqueles que se sentem úteis e produtivos, porque acalentam ideais.

Sem sonho as pessoas vivem sem aprender, passam sem construir.

O principal sonho a resgatar na Terra é o de ser feliz, pois as pessoas andam desacreditadas dessa possibilidade.

O tempo subjugado pela rotina retira imperceptivelmente da criatura os planos de vida e as ‘fantasias” de progresso, exigindo extrema capacidade de administrar as frustrações para conseguir viver e conviver ajustada aos parâmetros sociais exigidos, que, embora frágeis, tornam-se estacas de segurança e estímulo para que a desistência não tome conta da mente cansada e do coração vazio de esperanças palpáveis.

Nessa peregrinação de miseráveis sentidos, pobreza de valores e vivências é que muitas almas fazem o doloroso aprendizado dos bons costumes e da melhoria espiritual. Tolhidos muita vez do essencial, caminham vencendo séculos ou milênios de endurecimento no mal ou de recalcitramento ao bem.

Muitos deles aparecem em nossas noites de estudos públicos, tomam o passe e vão um tanto mais aliviados e confiantes, retomando suas lutas. Quando encontram grupos acolhedores e fraternos que se prestam ao serviço do amor incondicional e operante, deparam-se com um oásis dessedentador ante o deserto provacional de suas existências, resgatando forças “incompreensíveis” junto aos trâmites de sua rotina.

O afeto revitaliza em suas almas a coragem, o ânimo, a esperança, resgatando antigos valores adormecidos e espezinhados pela tormenta e pela sofreguidão.

Retomam também, ao longo de um tempo, a capacidade de sonhar colocando em ação os departamentos da imaginação e da criatividade, no desenvolvimento de metas sábias e harmonizadas com os novos conhecimentos e projetos de vida, sob a tutela da Imortalidade.

O estudo e o trabalho espíritas servem-lhes de investimento motivador da liberdade com responsabilidade, para a qual irão destinar, de agora para o futuro, todos os seus esforços possíveis na tentativa de dar sentido nobre e embelezador às suas vidas, até então, para eles, vazias e pobres.

Esse idealismo, essa paixão por um sonho de melhora espiritual é das mais preciosas dádivas a que pode entregar-se alguém, frente aos muitos sonhos lusórios e vácuos cultivados por maioria esmagadora da humanidade terrena, ante os apelos do materialismo e do prazer dos sentidos.

Razão pela qual, ante os quadros humanos de dor, o centro espírita deve ser aquele oásis de amor, paz e esperança aos viajantes cansados e oprimidos do caminho.

Repetindo a diretriz do Mestre vinde a mim que vos aliviarei, (1) a casa espírita, na pessoa de seus cooperadores e condutores, deve direcionar seus ambientes, quanto possível, para auxiliarem o homem a recuperar sua dignidade e sentir-se novamente um Filho de Deus.

Precisamos dar encanto aos nossos grupos. Encanto esse, acima de tudo, na vida interpessoal dispondo-nos ao cultivo da ternura, do respeito e carinho para que, antes do sonho, o ser sofrido e em provação, resgate a confiança no outro, reavivando suas sucumbidas esperanças nos valores humanos cristãos e renovando suas crenças falidas no amor e na felicidade.

Contínua e invariavelmente perguntemos a nós mesmos se estamos construindo as condições de encanto em nossos Círculos Espíritas, a fim de aferirmos o quanto estamos integrados com a proposta educativa da Doutrina Espírita.

Espiritismo é desafio educacional; e educação, entre vários significados, contempla o educador como incomparável guia e descobridor, auxiliando o próximo a reencontrar consigo mesmo e a retomar razões para viver, sonhar e “ser”.

Nesse prisma, a função do centro espírita será resgatar a capacidade de sonhar e instrumentalizar o homem de recursos morais-espirituais, que o auxiliem a tornar reais os seus ideais nas linhas do dever e da libertação incorruptível.

Daí o acerto da recomendação Kardequiana: “cordialidade recíproca entre todos os membros”. Um gesto de afeto, uma palavra amiga, um minuto de atenção será alívio e força para todos esses homens e mulheres que vivem amargurados pelos pesadelos da realidade provacional, constituindo-se, muita vez, em portal de entrada para novos e mais felizes dias no futuro...


(1) Mateus, capítulo 11, versículo 28

Capítulo 12

Divergência e Dissidência

Estas últimas reflexões se aplicam igualmente a todos os grupos que porventura divirjam sobre alguns pontos da doutrina. Conforme dissemos, no capítulo Das Contradições, essas divergências, as mais das vezes, apenas versam sobre acessórios, não raro mesmo sobre simples palavras. Fôra, portanto, pueril constituírem bando à parte alguns, por não pensarem todos do mesmo modo. Pior ainda do que isso seria o se tornarem ciosos uns dos outros os diferentes grupos ou associações da mesma cidade.



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 349

Tema sempre oportuno é o amor que devemos uns aos outros em nossos círculos doutrinários de Espiritismo.

O conteúdo esclarecedor da Doutrina Espírita é meio, éinstrumento pedagógico, a fim de que alcancemos a essência evolutiva do ser, que é o Amor. Por essa razão, os laços de simpatia e cordialidade deverão estar sempre acima das questões de interpretação intelectiva.

Merece ser analisado nesse tema a questão da “ética da diversidade”, que deve orientar as atitudes entre cômpares de um mesmo ideal doutrinário.

As vivências sucessivas nos terrenos da religião sulcaram a mente humana com hábitos que até hoje refletem na convivência rotineira. Entre eles destacamos a ação discriminatória a quem não se alinhe filosoficamente aos princípios estatuídos por uma ordem religiosa.

Tachados de hereges e dissidentes, muitos corações ao longo da história sofreram o cáustico da dor, tão somente pelo fato de divergir no campo das idéias e dos costumes. Assim criou-se uma mentalidade de uniformização doutrinária intocável, inquestionável, e quantos ousassem divergir estariam sob influência maléfica de forças contrárias.

Verificamos os resquícios desse hábito enfermo nos ambientes espíritas, nos quais muitos relacionamentos emparelharam-se com as questões do religiosismo, alavancando todas as associações mentais pertinentes a essa experiência.

Desse modo, em nossas fileiras de aprendizado, o ato saudável de divergir adquiriu uma conotação pejorativa, uma atitude própria de “obsedados”, dissidentes e personalistas, estabelecendo o conceito de que divergir significa oposição. Contudo, pensar diferente não deveria significar que se ama menos ou que se está contrário a alguém ou a alguma instituição. Nem todos que divergem têm intenções dissidentes ou contrárias.

A divergência de idéias é uma necessidade a quaisquer grupos ou pessoas que desejem o crescimento real. Onde todos pensam uniformemente há muito campo para o radicalismo de opiniões, à dissimulação de sentimentos e à fragilidade de elos emocionais para formação de relações sadias. Saber conviver com opiniões contrárias é saber emitir idéias sem a carga emocional da vaidosa pretensão.

Por isso, atentemos para o debate honesto e equilibrado, através do qual empreende-se a convivência fraterna em clima de pontos de vista diversos, e estimula-se a ação solidária em busca de pontos convergentes e de um relacionamento harmônico, não afetado pelo ato de discordar.

Propugnar por um alinhamento ideológico em regime de unanimidade é arar terreno para que a cada dia estejamos distantes da verdadeira união a que todos almejamos. O que precisamos é aprender a conviver em regime de diversidade, prestigiando as diferenças e os diferentes com os nossos melhores sentimentos, principalmente se deles discordamos.

A ética da diversidade, a alteridade, é o próprio ensino de Jesus quando nos indaga: que galardão há em amar somente os que vos amam? (1)

Pergunta essa que merece a maior atenção de nossos grêmios espíritas-cristãos, diante do desafio de disseminarmos para à sociedade os padrões éticos de uma “nova humanidade”, ante o alvorecer desse terceiro milênio.

A verdadeira unificação só se fará privilegiando a “ética das diferenças”, elegendo o respeito com todos os livres pensadores e segmentos que se estruturam em nossos grupos, respeitando-se e solidarizando-se.

Essa ética, que é a do Evangelho, propÕem-nos: amai os vossos inimigos (2), orai pelos que vos perseguem e caluniam (3); enfim, é o amor alteritário, altruísmo vivido e exemplificado acima de tudo para com os que divergem de nosso entendimento.

Se guardamos as mais nobres intenções na escola do amor, e se divergimos no entendimento, exerçamos na intimidade esse aprendizado da alteridade aos que comungam conosco as rotas de ação e entendimento.

O grande desafio do programa unificador para o próximo século é a convivência alteritária sob o pálio do Amor fraterno. Nesse tempo compreender-se-á que caminhos dissidentes nem sempre são caminhos oponentes, mas, antes de tudo, alternativas de labor e aprendizado na escola diversificada da vida.

Não podemos deixar de ressaltar, conforme Allan kardec destacou em “Os cismas”, nas suas Obras Póstumas”, que há dissidências ocasionadas por personalismos e vaidade, com ingentes carências afetivas direcionadas para o destaque pessoal. Retifiquemos, porém, nossa visão, pois nem todos que enxergam a Doutrina por óticas diversas às nossas ou que implementam programas com propostas fora dos padrões costumeiros, necessariamente, escolheram essa trilha para serem opositores contumazes e exclusivistas em busca de realce e glórias individuais.

Atentemos para essa questão sutil do amor.

Amar os diferentes.

Ética da diversidade.

Amor aos divergentes.

Jesus, o modelo, foi a grande referência. Sempre, por onde passou, externou pujante amor a todos, enriquecendo Seu caminho de lições alteritárias com muita abertura para acolher os divergentes de toda estirpe, sem exclusões e sem dissidências, conquanto tenha Ele divergido dos caminhos humanos durante todo o Seu ministério.
(1) Mateus, capítulo 5, versículo 46

(2) Mateus, capítulo 5, versículo 44

(3) Mateus, capítulo 5, versículo 44

Capítulo 13

Paixão e Amor

Ausência de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã.”



O Livro dos Médiuns – capítulo 29 - ítem 341 — 4º Parágrafo

O alimento afetivo é essencial para o equilíbrio do ser humano. Sua função junto ao complexo psico-físico do ser é de evidentes e comprovados efeitos a partir da neurofisiologia do organismo corporal. A permuta afetiva produz a dinamização de substâncias neuroquímicas e a produção de endorfinas, gerando mensagens de prazer para o corpo que com elas se delicia em sensações agradáveis e revitalizantes. Igualmente, a corrente sangüínea é irrigada de adrenalina produzindo calor, daí a expressão “calor humano” quando se refere aos intercâmbios do coração.

Como se não bastasse, a vida mental é plenamente reciclada em cada ato de amor libertador, porque o afeto é a seiva reguladora do “sistema humoral” da criatura, nutrindo os neurônios de cargas psico­afetivas para o equilíbrio mental.

Apesar de sua função vital para a felicidade, a humanidade terrena estagia nos primeiros degraus do aprendizado relativo a questões da vida afetiva. A escola da convivência encontra-se ainda na infância de suas lições acerca do uso nobre do afeto, analisado sob as lentes do Espírito imortal.

A construção de relações libertadoras e sadias para a felicidade e a paz exigem a boa utilização desse potencial, em quantidade e qualidade adequadas à personalidade de cada criatura, nos grupos de nossa atuação. Nessa perspectiva, torna-se imperioso averiguar as diferenças marcantes entre amar e apaixonar, no quadro das afeições do coração, para que obtenhamos melhores noções na aferição de nossas expressões de afetividade.

Na Terra toma-se um como sinônimo do outro e diz-se “amar loucamente” quando se está apaixonado. Mas a paixão atrofia o livre-arbítrio, hipnotiza o raciocínio e perturba o comportamento, enquanto o Amor liberta, amplia o discernimento e gera harmonia no ser.

A paixão é um fenômeno atrelado à gênese do egoísmo, enquanto o Amor é a etapa das relações em que existe a renúncia espontânea do “eu”.

Consideremo-la como um dique rompido que permite às energias emocionais provocarem intensa evasão, quando não são contidas pela disciplina e pela conduta ética superior. Havendo o descontrole nos reinos do sentimento, automaticamente serão ativados os mecanismos da atração magnética e os implementos psico-fisicos do “sistema sexual”.

“Paixões relâmpagos” costumam atormentar as mentes que se permitem fantasias de ventura ou o prazer em instantes de crise na guarda moral de si mesmas.

Paixões fulminantes sempre serão caminhos perigosos para o encontro com o verdadeiro amor, e não será demais lembrar que elas são um capítulo infeliz de histórias que, comumente, terminam em decepções e muita mágoa que deixam doloridas feridas afetivas.

A paixão é como um colapso das forças do coração colocando a criatura refém de si mesma, nos domínios da afeição sem limites, atordoando a razão e enfraquecendo a vontade, causando uma pane biológica na vida hormonal e neurocerebral, tema esse que tem merecido estudos da neurociência na compreensão da química fisiológica.

Sabe-se na Terra que os processos afetivos são responsáveis diretos pela harmonia ou desajustes na vida dos neurônios. O estudo das sinapses - conexão entre os neurônios - tem revelado ao homem que a quantidade de neurotransmissores - elementos químicos mensageiros - é fator determinante para variados quadros dos distúrbios do humor, desde a depressão branda a psicoses graves.

O homem e a mulher apaixonados alteram significativamente a produção de tais substâncias responsáveis pelo fenômeno do apaixonamento, preenchendo os espaços sinápticos de dopamina e noradrenalina, causando extraordinário bem-estar físico, outras vezes produzindo a “morfina natural” ou as endorfinas, levando a reações incomparáveis de saúde e vitalidade. Sua ação altera o cosmo bio­fisiológico, contudo, passado o efeito desse colapso de “afeto biológico”, os reflexos do estado anterior retornarão podendo mesmo alterar o funcionamento da vida neuronial, a partir de processos energéticos que são detonados na vida mental extracerebral em razão dessa “pane dos sentimentos”.

Seja pela decepção ou porque acabou o “fogo fátuo” do “amor apaixonado”, dois resultados pouco construtivos ficam dessa experiência: o intenso desejo de uma nova experiência melhor sucedida na sua conclusão, ou ainda a mágoa prolongada seguida de reclusão nas questões do Amor. Ambas, conseqüências infelizes para o equilíbrio e a maturação dos relacionamentos.

A paixão afetiva sentida em qualquer época da vida, seja na juventude ou mesmo na velhice, ainda é um sintoma de imaturidade espiritual, um fenômeno primário enquistado nos refolhos da mente em milenares degraus da evolução dos processos do sentir. Seu benefício passageiro, quase sempre sem as condições de continuidade, denuncia sua pouca utilidade para o crescimento no campo das experiências da maturação emocional.

O verdadeiro Amor, ao contrário de tudo isso, é uma construção lenta, feita dia após dia, é um desenvolvimento efetivado pela entrega integral e a responsabilidade com os deveres assumidos junto ao outro. É uma parceria que tende a crescer, na medida em que o par ou grupo cultivam os valores da cooperação espontânea, do apoio incondicional, da valorização mútua, do diálogo e outros tantos caminhos que fazem da relação uma amizade preciosa e boa de viver, sem os ímpetos infantis e arriscados da paixão.

Vigiemos nossas expressões de afeição, seja em qual direção for.

Nas experiências espíritas, convenhamos que existe um tipo de paixão que torna imperativo a disciplina: é a paixão idólatra na qual canalizamos excessiva dose de afeto a pessoas de nossa admiração ou a práticas, às quais nos devotamos nas rotinas doutrinárias, incentivando assim o misticismo e a mitificação em atos de “fé impulsiva”, na sustentação de carências pessoais. Tais lances da convivência em nossos núcleos espirituais podem incentivar o desequilíbrio, se não houver vigilância.

Confundindo mais uma vez a paixão com Amor, apegamo-nos excessivamente a essas situações, permitindo um predomínio de sentimentos para com esse ou aquele coração ou atividade, sobrecarregando-os com frustrações e projeções de necessidades individuais, desenvolvendo uma idolatria que pode raiar ao fanatismo e às ações inferiores, se não comparecer a educação e a responsabilidade.

Tudo em excesso é pernicioso para o crescimento espiritual.

A única paixão justificável nos quadros da espiritualização é a de aprender e servir.

Como nos encontramos nos primeiros degraus da escola do amor, cuidemos de nossos relacionamentos no grupamento espírita e verifiquemos se não estamos caminhando para esses excessos dispensáveis. Evitemos confundir admiração e afeto com ilusão e carências, respectivamente. Tenhamos siso e aprendamos que mesmo o amor, o nosso amor ainda impuro, solicita muita disciplina e atenção para não permitir os golpes surpreendentes dos desejos inferiores que ainda carregamos.

Por isso costumamos destacar a convivência espírita como uma escola abençoada no burilamento da afetividade, porque nela, mais que em outros ambientes, somos chamados à lucidez da atitude através das sábias recomendações do Evangelho e do Espiritismo, em favor da integridade de nossa consciência. Talvez devido a isso, o Codificador, em nossa referência de apoio acima, destacou a necessidade de cuidarmos de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã, quando enumerou as condições morais essenciais para atrair a simpatia dos bons Espíritos.

Capítulo 14

O Teste dos Cargos

Alguns julgam que o título de sócio lhes dá o direito de impor suas maneiras de ver. Daí, opugnações, uma causa de mal-estar que acarreta, cedo ou tarde, a desunião e, depois, a dissolução, sorte de todas as sociedades, quaisquer sejam seus objetivos.”



O Livro dos Médiuns - capítulo 29 - ítem 335

As motivações para a presença de alguém no centro espírita são sutis e pessoais. O estudo dessas razões íntimas levam-nos a enxergar as expectativas e interesses de cada qual, espelhando a variedade de necessidades de quem recorre aos serviços doutrinários. Esse estudo será sempre de grande utilidade aos dirigentes para adequar as tarefas e melhor atender as demandas espirituais de profundidade dos que se albergam sob o teto espírita.

O freqüentador de ontem assume hoje a posição de cooperador, e o cooperador de hoje será amanhã o condutor de grupos ou multidões, estendendo o benefício de sua experiência a uma mais ampla gama de projetos. Nesse caminho de crescimento e promoção individual serão encontrados os mais variados testes de aferição no que tange ao aprendizado. As responsabilidades que assumem os trabalhadores conduzem-nos a vivências íntimas de libertação e amadurecimento com as quais a criatura dilatará seu patrimônio nos rumos da auto-realização, da felicidade.

Contudo, até que o aprendiz ajuste o seu campo mental e afetivo aos alvitres do serviço, absorvendo-lhe a essência e finalidade maior, ocorrem desvios naturais e toleráveis que refletem na obra as deficiências do obreiro.

Atinemos para uma das situações que se apresentam como teste valoroso e que, no entanto, tem levado algumas almas bem intencionadas a quedas e distrações lamentáveis. É o teste dos cargos.

Allan Kardec não se furtou de aplicar sobre ele a sua lente de observações sensatas e meticulosas. Vejamos que em nosso ítem de apoio, no capítulo 29 de O Livro dos Médiuns, o Codificador constata a relação existente entre o título de sócio e a visão pessoal que pode estabelecer perturbações ao conjunto, quando o cargo é utilizado para fazer valer direitos.

Os cargos em si mesmos não são o problema. Eles são necessários para a disciplina, a ordem e o progresso das instituições. A relação de apego travada com os cargos é que podem constituir graves problemas para nossas Sociedades.

Em muitos casos, temos observado um processo sutil de apego aos cargos, representando a expectativa subliminar de prestígio e reconhecimento, como forma de compensar a frustração advinda de fracassos e metas não atingidas em várias vivências do ser humano. Não logrando o sucesso desejável em outras áreas, a criatura encontra na posição de comando o “lugar sonhado” para ser bem sucedido e valorizado. Não se sentindo bom pai, bom filho ou boa mãe, bom profissional ou bom colega, bom chefe ou bom vizinho, não alcançando vôos de simpatia junto à convivência, ou ainda não obtendo êxito nos degraus da formação cultural, procura nos cargos a proeminência, a situação de destaque junto aos grupamentos doutrinários, compensando suas frustrações não superadas.

Interessante analisar que existem corações com vivências opostas, bem sucedidos em todas as áreas, no entanto asilando profunda necessidade de projeção pessoal que lhes leva ainda assim a recorrer às faixas dos rótulos: esse é o problema do personalismo.

Na verdade, nessas condições referidas, alguns desses casos são companheiros com baixa auto-estima, não se sentem amados, queridos, e parecem encontrar essa “sensação’ de Amor e respeito no trono das honrarias temporais; alguns foram educados para a vitória nas passarelas do materialismo, onde desfilariam com seus títulos e méritos; outros são realmente Espíritos afeiçoados à vaidade das posições exteriores, com as quais já se acostumaram ao longo dos séculos; outros ainda são apenas os que se iludiram com essa possibilidade de projeção, já que não foram felicitados com a auto-realização nas lições da vida.

A rotina desses corações torna-se algo enfermiço na medida em que vivem seus dias, porque, não encontrando no lar, na profissão e na convivência a alegria e o bem-estar, fogem cada vez mais para a sombra da hierarquia, procurando “descansar” das refregas e descompensações hauridas nesses ambientes, onde seu valor pessoal é recebido com indiferença ou desdém. No centro espírita, porém, ele é “alguém”! É como se a linguagem de seu sentimento dissesse “aqui eu posso, aqui eu sou”. Por sua vez, aqueles enqüadrados nas vivências personalistas serão motivados, cada vez mais, a dependerem de cargos para a continuidade de sua “rotina espírita”, chegando mesmo a afastarem-se da dinâmica doutrinária se não lograrem as honras que se julgam credores.

Evidentemente que nessas situações, a despeito do valor que terá o cargo e o encargo para essas criaturas, as suas possibilidades são escassas para uma direção alvissareira, valorativa das habilidades alheias, ponderada e democrática.

O campo de aprendizado será amplo, mas a atenção dessas criaturas terá que se voltar, sobretudo, para a melhora das condições afetivas. Se o grupamento dirigido não contar as qualidades desejáveis no quadro das virtudes, situações provacionais poderão surgir na aferição dos valores coletivos. Essa tem sido a situação espiritual de muitos grupos sob a égide da filosofia espírita: condutores assumindo ares de onipotência, com os quais se compensam nas necessidades e interesses pessoais, e dirigidos acatando a insensatez em nome de sua “diretriz experiente”, somente porque o companheiro do cargo tenha algumas dezenas de anos como tarefeiro.

O teste dos cargos é uma aferição de desprendimento e humildade. Trazemos no psiquismo milenar experiências muito graves nesse setor.

O processo de hierarquia religiosa nos últimos vinte séculos consolidou hábitos de acentuado egoísmo. As próprias instituições estruturam-se para alimentá-lo através de concessões e privilégios.

O encanto com as posições temporais tem sido vereda de fortalecimento do personalismo e rota de fuga para os frustrados de vários matizes. Razão pela qual, considerando a concepção espírita de hierarquia, assumir responsabilidade junto a rótulos de poder significa teste de competência e abnegação.

Relativamente a cargos e posições de destaque nas fileiras espiritistas, foquemo-los como acréscimo de deveres e ensejo de fazer o bem em mais ampla escala. Naturalmente, com tais posturas o “transbordamento afetivo” poderá vir à tona. Nessa hora façamos continuados auto-exames na verificação de nossas decisões e sentimentos, esforçando-nos sempre para transformar esse tipo de satisfação pessoal em relações afetuosas e devotamento ao bem coletivo, a partir das funções e obrigações da hierarquia, a nós confiada. Carecemos muito de exemplos nesse terreno.

Tem faltado, sobremaneira, atitudes lúcidas de desprendimento das formalidades e cerimônias que incensam o personalismo junto a ocasiões de congraçamento e festa, e também na rotina das instituições, quando então esse exemplo de abnegação pessoal contagiaria outros para que, mais adiante, quando viessem a assumir essas mesmas responsabilidades, respaldassem no exemplo de seus antecessores.

Porém, ainda hoje, temos que assinalar com lamento que, com raras exceções, semelhante atitude anda longe de nossos grêmios de amor.

Falta-nos coragem, talvez um pouco mesmo de criatividade para assumir a escolha de diluir a excessiva aura dos cargos, diminuindo a sua expressividade perante o respeito alheio, deixando crescer o afeto nas relações, acima de quaisquer distanciamentos que possam provocar as convenções.

Estejamos atentos a esses ensejos e encetemos em nós mesmos o compromisso de estar acima das convenções, recordando a profunda e excelente advertência de Jesus, que constitui o melhor e mais feliz projeto para aproveitamento seguro e libertador nas provas do mando: “(...) antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. “(1)

E o Mestre lionês, objetivando segurança e fidelidade na Sociedade Espírita de Estudos Parisienses, não deixou de assinalar em seu regulamento um artigo de essencial valor para todas as agremiações que se orientam sob a tutela do Espiritismo com Jesus, assim expressando-se: “Artigo 5º - Para ser sócio titular, é preciso que a pessoa tenha sido, pelo menos durante um ano, associado livre, tenha assistido a mais de metade das sessões e dado, durante esse tempo, provas notórias de seus conhecimentos e de suas convicções em matéria de Espiritismo, de sua adesão aos princípios da Sociedade e do desejo de proceder, em todas as circunstâncias, para com seus colegas, de acordo com os princípios da caridade e da moral Espírita. (2)




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