Wanderley s


(1) Esposa de Allan Kardec



Baixar 0.61 Mb.
Página3/10
Encontro11.06.2018
Tamanho0.61 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10

(1) Esposa de Allan Kardec

(2) Viagem Espírita de 1862 - discurso 1

SEGUNDA PARTE

Caminhos do Amor Convivência

Capítulo 1

Humanização na Seara Espírita

A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, (...)”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29, ítem 350

Expositores inspirados, que sensibilizam mentes e corações, derrapam, impacientes e raivosos, em pequenos incidentes de imprudência no trânsito das vias públicas, cinco minutos depois de deixar a tribuna espírita.

Sorrisos, abraços festivos, alegria e afeto efusivos dos encontros doutrinários arrefecem-se, inesperada e incompreensivelmente, alguns poucos minutos depois, quando ficamos a sós com as mesmas pessoas antes entusiasmadas.

Lidadores valorosos embrenham-se no cipoal de suas “folhas de vivências” doutrinárias, alienando-se do contato salutar e espontâneo, aguardando dos outros o aceno de idolatria ou de cordialidade que todos lhe devem, segundo sua interpretação, ante o pedestal de experiências, enquanto, tal colaborador, muita vez, não encontra motivação para emitir um essencial “bom dia” ao deparar-se nos ambientes sociais com alguém de seu grupamento.

Pais distribuem alimentos e carinho aos sofredores sociais em magnífica pôse de caridosos, no entanto, meia hora depois, no lar, são impotentes para beijar os seus próprios filhos com ternura. Tais atitudes que integram o cotidiano de muitos de nós, os espiritistas, merece uma avaliação oportuna.

Almas mais sensíveis, perante esse episódio de repentina transformação da postura afetiva, não conseguindo entender suas causas, atribuem à hipocrisia, incoerência e deseducação esse fenômeno comportamental.

Observa-se claramente, nos exemplos acima discriminados, uma lamentável defazagem entre a presença do obreiro espírita nos seus ambientes de espiritualização e suas lutas diuturnas além fronteiras do centro espírita.

Qual será a razão dessa alteração afetiva indesejável? Que tem faltado ao aprendiz espírita para transportar ao seu convívio social esses momentos de enlevo emocional desfrutados junto aos grêmios cristãos? Não estaríamos, ante tais circunstâncias, vivenciando um “afeto artificial” ou um “pseudo-afeto” dentro dos ambientes doutrinários? O que nos leva a essas mudanças súbitas de estado emocional?

As leiras de relacionamento espírita ensejam melhores expressões do afeto em razão da ausência de fatores sociais coercitivos que distanciam os homens. Seu caráter voluntário e não proibitivo suscita a boa-vontade e a espontaneidade, levando as criaturas a sentirem-se bem aceitas na sua colaboração, criando um clima para relações agradáveis e benfazejas.

Todavia, essa não é a realidade da sociedade escravizada por relações de conveniência, nas quais o interesse pessoal e grupal definem seus códigos de comunicação, sua linguagem e sua praxi. Assim, fica o aprendiz espírita com largo e intransferível desafio íntimo de saber como transportar, para semelhantes quadros de suas experiências, as “boas novas” que vem fruindo no contato com as tarefas doutrinárias.

Quando elegemos a humanização na seara espírita não avocamos somente a proposição de sermos mais afetivos. Tratamos sim de uma releitura sobre o foco dos objetivos assinalados para desempenho junto aos grêmios espíritas cristãos.

Hoje destaca-se o centro espírita como escola de Espiritismo, quando o futuro acena para que ele se promova à condição de escola do Espírito.

Tais terminologias podem aparentemente significar a mesma coisa, no entanto, existe uma ontologia, uma razão de ser em tais perspectivas que define posturas e propostas bem diversas. Como escola de Espiritismo, em muitos casos, os conteúdos doutrinários são mais valorizados que o homem, enquanto o foco na escola do Espírito converge as finalidades da agremiação para o “ser”, ou seja, sobre a complexidade existencial da criatura, suas necessidades, seus valores, suas habilidades.

Precisamos promover a casa espírita de mera escola de estudos sistematizados e planejados para um centro de convivência e treinamento para desenvolvimento dos traços morais da regeneração.

Ensinar Espiritismo sem auxiliar o Espírito a tornar-se um ser integral pode apenas significar transmissão de conteúdos, informação, conhecimento. Para isso, os ambientes de Amor e estudo espíritas haverão de transformar-se pelo jejum da indiferença e pela oração do afeto vivido. A pedagogia do afeto na educação do Espírito tem regime de urgência.

Ampliemos o raio de influência do Espiritismo em nós, dilatando suas concepções para além do cérebro, atingindo o sagrado templo do coração. Espiritismo na inteligência é informação; Espiritismo no sentimento é transformação.

Quando falamos em humanização, referimo-nos àcontextualização, que é oferecer aos profitentes espíritas os instrumentos para que possam fazer dessa informação espírita a sua transformação espiritual. Conhecimento no cérebro quando é contextualizado tem o nome de saber. E saber, em outras palavras, quer dizer aprender as respostas e os caminhos para desenvolver seus potenciais humanos na edificação da felicidade própria e daqueles que nos rodeiam. O saber é o conhecimento intelectivo que foi absorvido pelo coração.

Contextualizar, portanto, é humanizar a seara. Para contextualizar oferecendo condições aos nossos irmãos de obterem sua paz e suas “respostas Divinas”, precisamos rever esse foco da missão do centro espírita, evitando que se torne um lugar de “bancos frios” nos quais assentem “alunos” com largos cabedais intelectuais sobre a novel doutrina, mas com franca inabilidade para se amarem e transportarem esse Amor ao mundo social em que estagiam.

Contextualizar é descobrir horizontes, respostas, caminhos. Éconstruir o saber espírita através do auto-conhecimento, descerrando para si mesmo os enigmas da existência.

Podemos questionar qual utilidade terá para nós o aprofundamento nas encantadoras temáticas espíritas se, muitas vezes, em nada ou quase nada tais temáticas estão auxiliando-nos a sermos homens e mulheres de bem, escondendo a vida afetiva onde pulsamos com a nossa mais profunda realidade!

Preparados desde o berço para o sucesso material, raras vezes recebemos “aulas” sobre o Amor. Fomos treinados socialmente para esconder os sentimentos, camuflar as emoções. A educação afetiva, portanto, é o grande desafio no capítulo da transformação interior do “ser”. Ocorre, em verdade, que os seres humanos não estão preparados para serem “humanos”.

O século 21 será o tempo das habilidades pessoais, dilatando os valores humanos em contraposição ao século 20, que foi o período das habilidades técnicas e mecanicistas.

Sigamos os rumos apresentados pela UNESCO (1), que estabeleceu os quatro pilares da educação para o século 21 em aprender a ser, aprender a fazer, aprendera conviver, aprendera conhecer, e empreendamos uma nova era para nossas casas de amor definindo-as como lar espiritual para formação da família universal.

Uma nova e promissora vereda desponta-se na vida daqueles que fruem o ambiente do centro espírita. Na casa de Jesus e Kardec o Amor é lição primeira, e as relações abrem-se para o afeto. Não estando regulado por rígidas hierarquias, nem sob a tutela do frio institucionalismo, a casa espírita apresenta-se como escola social das relações sinceras e duradouras, verdadeiro núcleo de treinamento da convivência regenerativa. Nossa grande meta é o desenvolvimento da afabilidade e doçura nos corações, empreendendo uma campanha promissora por novas vivências nas agremiações espíritas, ricas de humanismo, nas quais acima de quaisquer fatores coloque-se sempre o homem em primeiro plano.

O amor, enquanto sentimento sublime, não carece aprendizado, está ínsito e abundante na alma humana, O mesmo não ocorre com a atitude amorosa, que torna imprescindível o estudo e o hábito. Saber externar esse sentimento dignificante na convivência exige equilíbrio, autoconhecimento, esforço reeducativo das tendências, desejo de melhorar-se e um ambiente que estimule a busca de semelhantes conquistas. E qual ambiente oferece tanto quanto os centros doutrinários? Qual grupamento instiga tanto a melhoria pessoal e íntima quanto as agremiações dirigidas sob as diretrizes de Jesus e Kardec?

Obviamente, quando proclamamos a necessidade de uma campanha por humanização nas leiras de serviço espírita-cristão é, tão somente, no sentido de um maior denodo em investimentos e iniciativas que ofereçam a seus profitentes melhores condições de entendimento e convivência em favor de uma fixação definitiva do caráter humanitário, já latente nos núcleos de tarefa.

Falta-nos empenhar com maior ostensividade e consciência no trabalho de arregimentação de relacionamentos de maior profundidade afetiva pela saúde de nosso conviver.

As organizações e suas tarefas não têm vida própria. Elas são aquilo que dela fazem seus integrantes. Razão pela qual a permuta relacional é a essência das instituições nas quais fazem parte todos os valores e limites do ser humano. Não é assim razoável desconsiderar ou mesmo tratar com indiferença a vida emocional desse intercâmbio, a fim de não alimentarmos ainda mais a ação mecânica e destituída de afeto e estímulo, consumindo os ideais superiores de muitos corações que ingressam nas fileiras de labor, sem permitir que o “encanto do Amor” e a alegria da amizade faça parte desse concerto de espiritualidade e crescimento pessoal.

Empenhemo-nos em estabelecer estudos, cursos, técnicas, jogos educativos e reciclagens contínuas junto aos grupos que dirigimos, objetivando mais humanização e menos institucionalização.

Igualmente, no campo individual, cada qual reconheça que humanizar é dar de si e não apenas aguardar as atenções alheias, guardando elevadas expectativas para com os outros.

Enquanto dirigentes, invistamos na melhoria das condições da vida interpessoal do grupo, elaborando programas saudáveis de convívio familiar e dilatemos os conhecimentos dos tarefeiros sobre a vida de relações, tratando temáticas específicas e adequadas às necessidades e demandas apresentadas na rotina das atividades.

Enquanto partícipes das sociedades doutrinárias, busquemos construir esse espaço de renovação para cada um de nós, oferecendo nossa cordialidade, ternura, atenção e carinho para os companheiros, enriquecendo os relacionamentos afins e dilatando as possibilidades de crescimento junto aos menos afins.

Um programa permanente, do individual ao coletivo, trará frutos auspiciosos tornando motivante a convivência. Esse é o piso elementar para que as responsabilidades assumidas no trabalho obtenham um melhor resultado e desempenho das capacidades e talentos individuais, reforçando o centro espírita à condição de ambiente cristão, mas acrescido da garantia insubstituível que faz do Cristianismo algo essencialmente celeste e universal: seu caráter humanitário, único capaz de promover o progresso dos homens em razão de preparar seu profitente para ser uma “carta viva” da paz e do amor, em plena sociedade de homens atormentados.

(1) Relatório Jacques Delors

Capítulo 2

Relações Sócio-Afetivas

Já vimos de quanta importância é a uniformidade de sentimentos, para a obtenção de bons resultados.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 335

As relações humanas estão intensamente marcadas pelos papéis sociais assumidos com finalidade de delimitar direitos e funções. Semelhante representatividade nos relacionamentos enseja o estabelecimento de “espaços”, disciplinando a ação humana ao melhor alcance de resultados na sociedade.

Por outro lado, em razão dos abusos morais, os papéis institucionalizados têm sido, muitas vezes, usados como chancela para acobertar erros clamorosos sob a conivência da aceitação social.

A família é um exemplo inconteste disso. Durante séculos delineou-se na sua estrutura antropológica as máscaras do pai-provedor, da mãe-reprodutora, do filho-herdeiro, estimulando em múltiplos núcleos domésticos a ganância e inconseqüência no homem, a submissão e subserviência na mulher e a preguiça e a luxúria nos filhos.

O institucionalismo revela a presença de intrincados processos éticos nos grupamentos.

Tomemos para análise a história das religiões na qual encontramos tais ocorrências em larga escala. O estabelecimento de uma relação entre o eu e o Divino foi construída sobre os alicerces frágeis do dogmatismo recheado de adoração exterior, criando a opressão do desamor na convivência social em nome da “filiação Divina”.

Os rótulos passaram a ser mais significativos que as expressões de afeto, insuflando a discriminação do sectarismo contra os que não absorviam os mesmos conceitos, sacramentados pelo poder de oficialização das forças religiosas dominantes. Nesse passo, a hierarquia e a soberba intelectual cristalizaram as diferenças entre o sagrado e o profano, instituindo padrões de exclusão e punição, deflagrando lamentáveis episódios nas sociedades terrenas dos últimos milênios.

Essa experiência enraizou-se no psiquismo humano que, ainda hoje, a despeito dos avanços culturais e tecnológicos, fazem do homem cibernético um “fantoche do religiosismo atávico” com altas doses de fé cega.

Somente com o advento das teorias sociais e psicológicas no início do século 20 o homem começou a desvendar com mais segurança e sensatez os elos entre ele e seu grupo e dele para consigo mesmo, permitindo assumir uma nova postura ante as interações sociais. Tal fato vem obrigando a religião a rever seu tradicional paradigma de relações com o Divino, deslocando-o para a tríade “eu, o próximo e Deus”, em contraposição ao modelo “eu e Deus”.

A identidade com Deus, com as Leis Naturais, tem como condição expressa esse processo de identificação do homem com seu próximo, através de um “construtivismo relacional” no qual irá, pouco a pouco, desenvolvendo as potencialidades Celestes no seu mundo íntimo e ensejando que seu meio, igualmente, possa fazer o mesmo.

Nesse cômputo histórico, verificamos que o Espiritismo há mais de um século preconiza, na Lei de Sociedade e na Lei de Amor, justiça e Caridade, as bases para um processo social de pleno reconhecimento do próximo como sendo o “outro” diferente do eu, portador de inexauríveis recursos para promoção pessoal ante os apelos do aprendizado na escola da convivência, convergindo suas relações para uma harmonia com as Leis Divinas, redefinindo a adoração para o campo interior, no crescimento das potências ínsitas no ser e adotando a religião cósmica do Amor como “o caminho, a verdade e a vida”.

Durante longas eras da evolução asilamos “modelos mentais” embalados por crenças dogmáticas, mitos, convenções, que, hodiernamente, pesam sobre as interpretações doutrinárias na convivência de nosso movimento social espírita. Nesse ínterim, o institucionalismo como traço determinante no psiquismo tem se ampliado em alguns de nossos ambientes de simplicidade, estabelecendo relações sociais superficiais, distanciando as criaturas das relações plenificadoras. Tais relações institucionalizadas priorizam e privilegiam o domínio e o controle, ensejando a disputa em detrimento da amizade e do respeito. Dessa forma, mais uma vez, apesar da lucidez dos conhecimentos que somos depositários, submetemo-nos a papéis representativos, rótulos e cargos bem ao gosto do nosso milenar personalismo, em profundas crises de “artificialismo afetivo”.

Oportuno, portanto, que alinhavemos alguns dos possíveis reflexos da ausência de relações afetuosas nos grupos, a título de estudarmos, posteriormente, quais seriam as medidas preventivas ou remediadoras a serem encetadas, como segue:

- Maior possibilidade de criação e manutenção das máscaras emocionais que escondem uma pseudo-harmonia.

- Campo para condutas estereotipadas provenientes de interpretações destituídas de bom senso.

- Ausência de ambiente para o debate crítico e avaliação sincera.

- Ambiente favorável para a hipocrisia e o puritanismo.

- Adubo para melindres.

- Ensejo para a adoção de “gurus” nos dois planos da vida gerando a idolatria.

- Larga porta para a desmotivação com o trabalho em razão de uma convivência, na maioria das vezes, desgastante e sem o enriquecimento das trocas.

- Desvalorização das habilidades cooperativas.

- Ambiente psiquicamente desagradável devido às opressões guardadas em silêncio.

- Ausência do diálogo como instrumento construtor de amizade sólida.

- Clima de desconfiança.

Trabalhemos e invistamos o quanto possível na melhoria das condições das relações sócio-afetivas entre nós, que desfrutamos das bênçãos do Espiritismo, superando papéis e utilizando-os somente como fator disciplinador e organizador de nossos grupos de Amor.

Estejamos acima dos direitos com os quais facilmente podemos nos iludir e fixemos a mente e o coração nos deveres infindáveis que os rótulos nos impõem.

A presença de pessoas afetuosas em nossas vidas nunca é esquecida, cria “marcas”, deixa lembranças para o futuro e é forte dose de estímulo ao idealismo superior no presente. Sobretudo, essas pessoas deixam saudades... E saudade é o sentimento de quem sente falta de alguém. Amigos verdadeiros deixam saudades...

A criação de relações afetivas enseja melhores condições para que a crítica, a competição, a dúvida e o diálogo se transformem em instrumentos construtores da paz e do equilíbrio grupal.

A criação de laços mais gratificantes e motivantes como a confiança, a simpatia, a amizade, a alegria, que geram o bem-estar para a convivência, são algumas das vantagens do afeto cristão nos relacionamentos. Alinhemos assim alguns outros reflexos dessas relações humanitárias:

- Enfoque centrado nos valores uns dos outros.

- Carinhosa indulgência com os limites e imperfeições no conjunto.

- Melhores chances de converter os conflitos em lições.

- Valorização e compartilhamento das idéias e movimentações no bem de uns pelos outros.

Allan Kardec na sua nobreza de caráter e grandeza de coração não era apenas um homem de finura e verniz social. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas tinha-lhe como o “bom humor em pessoa”, pródigo de simpatia e afeto. Ele fazia-se verdadeira tocha de carinho e ternura a iluminar os relacionamentos entre todos, e sua presença era reverenciada como a de um pai zeloso e amigo que preenchia o vazio do coração de quantos fruíam sua companhia. Jamais impressionou-se com os papéis de sua missão e fazia sempre questão da cortesia acima de modos típicos e consagrados do povo francês àquele tempo.

Ele mesmo, com muita felicidade, talvez pressentindo os destinos sombrios que poderiam tomar o movimento social em torno do Espiritismo, declarou: “A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário” (1), deixando entender que não bastaria o vínculo com a lição do Mestre sem a humanização dessas diretrizes na plenitude dos relacionamentos, o que seria repetir erros do religiosismo enquanto representatividade social, em desarmonia com a Verdade.

Finalizando, relembremos a saga sacrificial do Viajante do Cristo, Paulo de Tarso, que em eloqüente estado de integração no amor, deixa-nos vitoriosa recomendação em favor de nossas vidas espíritas-cristãs:

“Eu de muito boa vontade, me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado. “(2)
(1) O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 350

(2) Coríntios, Capítulo 2, versículos 12 a 15

Capítulo 3

Amor e Alteridade

As reuniões Espíritas oferecem grandíssimas vantagens, por permitirem que os que nelas tomam parte se esclareçam, mediante a permuta das idéias, pelas questões e observações que se façam, das quais todos aproveitam. Mas, para que produzam todos os frutos desejáveis, requerem condições especiais, que vamos examinar, porqüanto erraria quem as comparasse às reuniões ordinárias.”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29, ítem 324

O episódio cristão da traição de Judas encerra infindáveis leituras e lições às nossas considerações.

Jesus sabia que o fato ocorreria, mas nem por isso tomou uma atitude excludente.

Mesmo sabendo da diferente postura do apóstolo, manteve-se firme nos ideais de amá-lo incondicionalmente na sua peculiar diferença.

Isso é alteridade: o estabelecimento de uma relação de paz com os diferentes, a capacidade de conviver bem com a diferença da qual o “outro” é portador.

A ética da alteridade consiste basicamente em saber lidar com o “outro”, entendido aqui não apenas como o próximo ou outra pessoa, mas, além disso, como o diferente, o oposto, o distinto, o incomum ao mundo dos nossos sentidos pessoais, o desigual, que na sua realidade deve ser respeitado como é e como está, sem indiferença ou descaso, repulsa ou exclusão, em razão de suas particularidades.

Alteridade, portanto, torna-se aprendizado urgente para o futuro de nosso Movimento Social Espírita, considerando o lamentável processo de exclusão que vem ocorrendo na surdina das fileiras de serviço cristão e espírita, em função de uma homogeneidade utópica.

Conviver com os contrários e aprender a amá-los na sua diversidade constitui desafio ético aos grupamentos espiritistas no campo da alteridade, mesmo porque o mastro da nova revelação cristã preconiza a fraternidade como postura de base para relações pacíficas e mantenedoras do idealismo superior, em direção às clareiras de necessidades do homem do terceiro milênio.

A inclusão, em nome do Amor, é ação moral para nossa convivência, sem o que não faremos a dolorosa e imprescindível cirurgia de extirpação da egolatria, tão comum a todos nós — almas com pequenas aquisições nos valores essenciais da espiritualização.

Diferenças não são defeitos ou álibis para que decretemos o sectarismo e a indiferença, somente porque não compreendemos o papel dos diferentes na engrenagem da vida, executando uma “missão específica” que, quase sempre, só conseguiremos entender quando, decididamente, vencermos as etapas do processo de construção da alteridade.

Sem deixar de considerar as inúmeras variações que resultam das peculiaridades individuais, apresentemos algumas dessas etapas na caracterização do processo alteritário, tais como:

CONHECER A DIFERENÇA — é a fase de acolhimento do “outro”, despindo-se de preconceitos e “estereótipos éticos” pré-formulados, guardando abertura de afeto ao diferente e à sua diferença.

COMPREENDER A DIFERENÇA — criação de avaliações parciaís, não definitivas, que favoreçam a análise desse “outro”, buscando entender-lhe as razões, estudar-lhe os motivos até penetrarmos na essência de seu “ser”, compreendendo-o pela apreensão do “sentido” que ele tem para Deus, seu papel cooperativo no universo.

APRENDER COM A DIFERENÇA — é uma fase que une e permite acessibilidade mútua, receptividade aos sentidos do “outro”; propicia uma relação de aprendizado e o elastecimento de noções sobre como a diversidade do outro pode nos ensinar algo, buscando, se possível, aprender a amá-lo na sua particularidade.

Fácil concluir, portanto, que alteridade pode estar presente nos atos de solidariedade, empatia e respeito nas relações em sociedade, sem que, necessariamente, o Amor legítimo esteja na base de tais atitudes. Por outro lado o Amor é sempre rico de alteridade e não existe sem ela.

A faina doutrinária conduz-nos a contínuos relacionamentos com companheiros de entendimentos diversos e, inclusive, oponentes como ocorre na vida social, embora não devam as reuniões espíritas tornarem-se assembléias ordinárias, aderindo a relações de insana competição ou de cruel indiferença.

O processo de alteridade será valioso nas interações entre companheiros de ideal e ocasionará, parafraseando o Codificador, “grandíssimas vantagens”.

Investir no entendimento de semelhante questão auxiliar-nos-áa estabelecer uma auto-sondagem frente aos testemunhos da vida relacional, investigando em nós mesmos, a partir dos atritos e desencontros com o “outro”, as causas reais dos sentimentos que se assomaram no caleidoscópio do mundo emocional, efetuando uma viagem segura a um “outro diferente”, ainda não dominado e também desconhecido que reside em nossa intimidade.

Esse “outro diferente” é o “eu Divino” que resgataremos no aprendizado do auto-Amor, possibilitando-nos, a partir dessa conquista, excursionarmos ao mundo alheio, sem tisnar com as sombras do primarismo moral os elos de Amor que devemos entreter com todos e com tudo, em favor do soerguimento de um mundo melhor e com mais paz, uns perante os outros.

Não olvidemos, portanto, laborar por mais sólida preparação ética em nossos conjuntos doutrinários, tratando das temáticas que versem sobre a edificação de relacionamentos consistentes, com alteridade, estudando o significado de compreender e aceitar, reflexionando com demora no que seja saber criticar e discordar sem inimizade, sem oposição sistemática e dissidência declarada, sabendo discordar sem amar menos, apesar de pensar diversamente.

Mesmo que nos agastemos inicialmente pela ausência do hábito de conviver harmoniosamente com conflitos e tribulações da vida interpessoal, anelemos por novos comportamentos repletos de Amor e alteridade, aprendendo a maleabilidade, o altruísmo, a assertividade o domínio emocional e os imperativos de vigilância sobre os impulsos menos bons, que serão promissoras sendas na conquista da ética da alteridade.

Evidentemente, não fazemos apologia ao convívio no círculo estreito de desafetos, em climas adversos; privilegiemos os afins como quesito fundamental ao bom andamento dos compromissos assumidos, aprendendo que afinidades são “lembretes” de Deus, a fim de não esquecermos o desejo de amar, e estímulos para a alegria da amizade.

Contudo, não desconsideremos que o aprendizado do Amor autêntico, a sedimentação da conduta amorosa é arregimentada na “fusão” relacional com os menos afins, os que não nos atraem, com os quais superaremos, paulatinamente, pesada fortaleza de entraves emocionais, libertando-nos para vôos mais amplos pelos céus universais pulsantes de Amor Divino, na vitória sobre o egoísmo que ainda nos aprisiona.
* * * *
Amigo dirigente,

A responsabilidade que te cabe junto aos ofícios doutrinários é de inestimável valor.

Difundir esperança, promoção humana, delegação de responsabilidades e estímulo para viver são alguns dos inúmeros deveres a ti confiados, quando assumes os postos da direção espírita.

Pensa e medita em teus desafios.

Estás no cargo que te “onerará” com graves ocorrências na medida das tuas necessidades de aprendizado.

Não fujas da ocasião e faze o melhor que puderes.

Nos terrenos do afeto com aqueles que te rodeiam, vigia tuas manifestações de carinho e atenção avaliando os efeitos de tuas ações, continuadamente.

Alteridade para ti será o desafio de aceitares cada pessoa em tua experiência evolutiva, auxiliando-a a crescer e se libertar.

Se guardares contigo os preconceitos e estereótipos, ainda que manifestes afeto e reconhecimento aos que te rodeiam, certamente obliterarás o ciclo espontãneo das relações que devem vigorar em teus ambientes de esforço. As pessoas à tua volta nem sempre saberão traduzir a linguagem universal dos sentimentos que as envolvem, perceberão, porém, o “hiato”, a reserva com que são tratadas...

Afeto para ser Divino precisa ser espontâneo, autêntico, natural.

Se guardas dificuldades em entender esse ou aquele companheiro, se não admites determinadas expressões comportamentais que diferenciam de tua formação doutrinária, se não compreendes determinadas idéias que a ti parecem desconexas da proposta espírita, tenha muito discernimento para que não te aprisiones aos grilhões do personalismo que subtrai-te a alteridade, a capacidade de entendimento com o outro.

Os dirigentes espíritas conscientes na atualidade precisarão de muita alteridade para cumprir sua missão a contento.

Razão pela qual, mais que nunca, aprendas o que seja promover e delegar, a fim de permitires aos que te cruzam as vivências encontrarem o quanto antes, com o preparo elementar, os caminhos adequados de crescimento que nem sempre serão ao teu lado.

Liberta-te da idéia de uniformidade e ajuda cada qual a descobrir o seu caminho para Deus, sem jamais esquecer que cada criatura tem o seu Roteiro Divino.



Capítulo 4

Recepção, Atendimento e Integração

Uma Sociedade, onde aqueles sentimentos se achassem partilhados por todos, onde os seus componentes se reunissem com o propósito de se instruírem pelos ensinos dos espíritos e não na expectativa de presenciarem coisas mais ou menos interessantes, ou para fazer cada um que a sua opinião prevaleça, seria não só viável, mas também indissolúvel. A dificuldade, ainda grande, de reunir crescido número de elementos homogêneos deste ponto de vista, nos leva a dizer que, no interesse dos estudos e por bem da causa mesma, as reuniões espíritas devem tender antes à multiplicação de pequenos grupos, do que à constituição de grandes aglomerações.”



O Livro dos Médiuns – capítulo 29 - ítem 334

Grupos harmonizados entre si têm o coração aberto aos que chegam, e tornam-se “convites vivos” para que outros participem dos ágapes de sua instituição, já constituindo essa postura afetiva um benefício expressivo no atendimento às dores alheias.

Nesses dias de definição e reajustes, a família, que deveria cumprir seu papel de núcleo educacional das virtudes superiores, perdeu seu norte pela fragilidade moral de seus membros, ficando assim a criança e o jovem, mais tarde o próprio adulto, à mercê dos fatores circunstanciais da vida para asilarem-lhe em clima educativo e formar laços de afeto estimuladores.

Nessa hora da existência surge o centro espírita qual “salva­vidas” no tempestuoso mar das provações, apresentando uma proposta preenchedora de paz e estímulo a novos caminhos. A alma então começa procurar a si mesma. Travando o contato doloroso com sua intimidade, dilacerada, pobre, doente. Por isso, as instituições espíritas, na pessoa de seus dirigentes e trabalhadores, devem se dar conta da responsabilidade que é receber e encaminhar os corações que lhe batem à porta, famintos de luz e apoio.

Em verdade, em muitos casos, as agremiações espíritas têm “cumprido” o papel de lar e família de grande parte de seus freqüentadores. A dor que apresentam como “cartão de visita” nas noites de reunião é apenas o resultado de um processo de anos de solidão, desamparo, falta de orientação e carência de afeto familiar e social, adoecendo, por fim, a vida afetiva do ser.

Abracemos cada “pedinte” como nosso filho ou irmão, e ofereçamo-lhe a oportunidade de integrar a nossa família espírita, fazendo parte da nossa família espiritual, refestelando-se conosco dos banquetes de luz e Amor que o Espiritismo nos propicia, fortalecendo-o para regressar mais animado e esperançoso em dias melhores junto aos seus.

Passemo-lo o nosso bem-estar, contando as histórias felizes que inclinaram-nos às diretrizes espíritas.

Os líderes espíritas, porque possuem aguçado senso crítico, quase sempre, destacam a precariedade em que se encontram muitos serviços doutrinários, e apontam mudanças necessárias, o que é muito justo. Não podemos deixar, por nossa vez, de atestar o valor que têm as atividades doutrinárias, mesmo nessas condições, em se considerando que, para a grande maioria dos que as integram, elas são fonte inexaurível de paz, amparo, orientação e disciplina, tendo em vista a escassez de recursos morais-espirituais de seus lares ou de outros ambientes de suas vivências atuais.

Recepciona-os, valorizando.

Atende-os, orientando.

Integra-os, promovendo.

Valorização, orientação e promoção constituem um programa educacional de amplas possibilidades, e quando conseguimos vencer tais etapas sob o amplexo do afeto fraternal, ensejamos aos novos trabalhadores a coragem para o recomeço, para o “batismo” de um novo homem, para “reencarnar na encarnação” retomando seu planejamento original antes de seu regresso ao corpo carnal, resgatando seus sonhos...

O passo inicial para a composição de grupos fraternais ocorre naquele momento da recepção amiga eterna. Ali deixamos a primeira impressão de nossa família, de nosso grupamento. Nesse instante, estamos confortando a dor do peito oprimido e a um só tempo cativando o desabrochar do futuro trabalhador. Os elos da confiança se estabelecem e, daí para a amizade, basta somente um gesto de ternura.

Receber bem no centro espírita é nossa obrigação como espíritas, faz parte da moral cristã de abraçar a todos como irmãos e amigos, e, sobretudo, é o dever de qualquer instituição que se digna a prestar serviços junto a sociedade.

Valorizar o atendido é exprimir afeto e confiança, o que valerá por mil palavras. Além do que essa postura vai auxiliá-lo na autoconfiança em vencer suas mazelas que o levaram ao centro espírita.

Acolhido como ser pensante e com potencialidades a serem desenvolvidas, terá mais disposição para a sua própria transformação. Será então muito confortador e motivante saber que, mesmo suas experiências de vida mal sucedidas, seu conhecimento, suas parcas possibilidades, não lhe tornam indigno de contribuir e cooperar. Essa foi a plataforma educativa do Mestre Jesus, a pedagogia da esperança ante corações esfacelados pela volúpia do egoísmo e da derrocada moral.

Espontaneidade com moderação, preparo interior pela oração para espargir magnetismo salutar, conhecimento das necessidades alheias, disposição íntima de ser útil e servir, finura de trato, o sorriso afetuoso, são algumas das diretrizes dos recepcionistas fraternos.

O atendimento em nome do Amor será ministrado de conformidade com a necessidade. Evitar padronizações e chavões, procurar colocar o coração receptivo em estado de empatia, olhar as expressões verbais e físicas, procurar gravar as palavras que expressem os sentimentos da criatura para lhe conhecer os domínios do afeto, ajudar sem ilusões e imediatismos, ser claro no que a instituição poderá oferecer, estabelecer parcerias com organizações que possam atender outras necessidades do atendido, oferecer-lhe a luz dos conhecimentos espíritas no seu drama, eis alguns dos requisitos do atendimento fraternal.

Dessa forma a integração com os serviços será o natural reflexo do nível de melhora e envolvimento com os componentes da Casa. Quanto mais vínculos sólidos efetivarem-se nessa caminhada, desde o instante da chegada ao da melhora, mais interesse haverá do recém-atendido em manifestar desejo de cooperar, de realizar algo para auxiliar outros que como ele, agora, necessitam do amparo.

Recebendo com Amor, falamos do Evangelho.

Atendendo com carinho, divulgamos o Espiritismo.

Integrando com respeito, oferecemos à vida a chance de perpetuar o ciclo, multiplicando as fontes de doação.

O Codificador é de uma felicidade ímpar ao alertar para a necessidade de circunspecção na admissão de elementos novos na organização doutrinária, menos pelos receios de problemas e mais pelas necessidades do recém-chegado. Cremos que o trecho de Allan Kardec instrui-nos acerca da cautela em acolher bem, pois sabemos todos que parte das lutas enfrentadas pela instituição espírita, nos terrenos da convivência, advém da incapacidade de absorção consciente e responsável dos que passam a integrar seus quadros de serviço, sem receberem o preparo e a orientação precisa sobre a nova senda de experiências a que se engajaram.

Quanto melhor a acolhida, melhor será a integração, mais plena de consciência individual quanto aos novéis deveres assumidos, trazendo por conseqüência frutos mais valorosos e alegrias para todos.



Capítulo 5

Comportamentos Hipócritas

Garantimos que a uma sociedade espírita, cujos trabalhos se mostrassem organizados nesse sentido, munida ela dos materiais necessários a executá-los, não sobraria tempo bastante para consagrar às comunicações diretas dos Espíritos. Daí o chamarmos para esse ponto a atenção dos grupos realmente sérios, dos que mais cuidam de instruir-se do que de achar um passatempo. (Veja-se o número 207, no capítulo ”Da formação dos médiuns.)”



O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — ítem 347

Feliz advertência do Codificador para as frentes de serviços doutrinários hodiernos.

Verifica-se um excessivo interesse em “receber almas” pelas vias da mediunidade, constata-se um interesse exagerado pelo que fazem e dizem os Espíritos, despende-se enorme esforço para socorrer “os necessitados e sofredores” do além. Entretanto, o que temos organizado em favor dos “Espíritos na carne”, aqueles que, alguns deles, receberam o socorro espiritual e agora precisam da ajuda dos centros espíritas em plena reencarnação? Ou aqueloutros que um dia estarão fora da carne e que, se agora não forem bem socorridos nas suas necessidades, perambularão na erraticidade em dores pungentes? Enfim, que tempo temos disposto e com que nível de seriedade para atender as demandas do encarnado de nossa convivência?

Na natureza encontramos o mimetismo como sendo um instinto natural de defesa de alguns animais e vegetais. Os animais e pequenos insetos, usando da propriedade da camuflagem, metamorfoseiam-se confundindo com a natureza na preservação de suas vidas contra os ataques no ecossistema.

O homem, embora detentor da inteligência e com outros objetivos, também mimetiza seu comportamento através da hipocrisia, apresentando-se com várias personalidades, conforme o seu interesse, nos ambientes de sua convivência.

A hipocrisia é um dos mais atrasados comportamentos da jornada evolutiva na Terra.

Comportamento adquirido em milenares vivências, é o resultado inevitável da desarmonia existente entre o pensar, o sentir e o agir.

Herança doentia do egoísmo, ela pode se expressar sob três facetas mais comuns:

- Reações extemporâneas, instintivas e naturais, nas áreas específicas do aprendizado do ser nas quais ainda não detém maior soma de domínio e controle. São estados neuróticos superáveis.

- Ações deliberadas para compensação e atendimento de gratificações.

- Atitudes psicopáticas de dissimulação de “identidades psicológicas”, devido a patologias psíquicas ou estados limítrofes a essas.

Dessas facetas assinaladas, destacamos a primeira como sendo a mais apropriada ao nosso objetivo de estudo, reflexão e debate nos grupamentos que assumiram a proposta da restauração espiritual.

O mimetismo do comportamento faz parte da rotina de nossas agremiações, integrando nossas atitudes no cunho das atividades doutrinárias.

Não estamos nos referindo à hipocrisia intencional, mas aquela que ocorre em função de assumirmos o compromisso das mudanças interiores, e que nos leva ao sentimento de falsidade, de mentira, apesar dos esforços por melhorar. Nesse caso as condutas incoerentes com a ética Espírita-cristã são fruto de conflitos íntimos, sobre os quais não logramos ainda um maior grau de controle e elaboração mental, somados aos velhos reflexos condicionados da hipocrisia deliberada, vivida em outros tempos nas veredas do aprendizado terreno...

É um fato sutil e que envolve a grande maioria dos novos adeptos, e também aqueles que não se superaram no tempo resolvendo seus conflitos.

O verdadeiro espírita é concitado a mudança dos hábitos pelas seguras indicativas dos textos evangélico-doutrinários. Entretanto, a assimilação incoerente e dogmática dessas orientações fá-lo projetar-se a uma repentina e falsa reestruturação comportamental, para a qual não foi previamente preparado pelas valorosas orientações que poderiam ser ministradas pelos dirigentes da Casa em que presta seus serviços, através de ocasiões especiais ou do acompanhamento fraterno e dialógico.

Lançando-se a esforços hercúleos e sofridos, direcionados para focos errôneos, acaba por se desgastar na manutenção de um rígido e cerceador programa de vigilância e violentação de si mesmo. Não atingindo os patamares desejados no campo vivencial, passa então a dissimular seus conflitos e frustrações para não perder a convivência na Casa Espírita, porque se se revelar, “o que os demais vão pensar”?

Para agravar tal episódio, infelizmente ainda encontram insensíveis diretores, atendentes ou “amigos” do grupamento a imputar-lhe severos julgamentos face aos rol de suas lutas, asseverando tratar-se de obsessões de largo porte ou de invigilância declarada, colocações essas expedidas em tom de “hilariante ar de superioridade” que leva ainda mais o companheiro, em lutas consigo próprio, a uma maior autodesvalorização e sentimento de culpa.

É quando surgem os comportamentos hipócritas que minam as forças dos que guardam sinceridade nas intenções de melhorar, causando aflição e ansiedade em função dos circuitos mentais viciosos de autocobrança. As maiores fragilidades morais do Espírito são as mais atingidas, deixando um rastro de frustração e sentimento íntimo de deslealdade.

A ausência da devida atenção a esses quadros morais dos trabalhadores favorece um prolongamento dessa experiência, tornando-a exaustiva, enquanto esses dramas da vida íntima poderiam ser minimizados se obtivessem um espaço apropriado para atendimento no centro espírita.

A ação hipócrita incomoda; no entanto, a maioria expressiva dos recém ingressos na organização doutrinária não sabe o que fazer nesses momentos. Seu estado mental com o tempo pode perder as resistências e desaguar em desequilíbrios psíquicos ou no estabelecimento de comportamentos exóticos de defesa.

Eis um assunto para nossos debates. Como ajudar esses trabalhadores? O centro espírita tem arregimentado um programa para ensinar a transformação íntima? Tem havido clima nos grupos para que os tarefeiros possam dialogar construtivamente sobre seus conflitos? Ou temos nos iludido, transferindo responsabilidades pessoais para as ações obsessivas de desencarnados?

Muitos corações, não suportando o peso dos continuados embates íntimos, optam por abandonar tudo em fuga silenciosa, porém, desesperada...

Encontramos aqui em nosso plano quem não soube administrar seus conflitos e tombou na “morte escolhida”, depois de fazer do seu campo mental um vulcão efervescente de dúvidas, frustrações e desamor a si mesmo.

Nesse sentido anotamos o prejuízo causado pelos estereótipos comportamentais adotados em muitos núcleos, eleitos por seus dirigentes como sendo “marcas” de verdadeiros espíritas, gerando isso um nível mais acentuado de ansiedade em quem vive sinceramente na busca de seu auto-aperfeiçoamento, quando espera-se de todos nós o acolhimento afetuoso e indulgente, especialmente nos momentos de mais fragilidade dos novéis discípulos, estimulando-os, no clima da amizade, a sempre recomeçarem quantas vezes se fizerem necessárias.

Não lograremos êxito sempre. Vezes sem conta ainda sentiremos de uma forma, pensaremos de outra e agiremos antagonicamente a ambas.

A harmonia entre sentir, pensar e agir é o estado de plenitude para o qual todos nos destinamos. Até lá, vez que outra, ainda teremos comportamentos hipócritas não intencionais, que pelo incômodo causado servirão de fonte preciosa de auto-conhecimento para os que guardam a lealdade consciencial.

Errar em clima de lealdade é lição imperecível.

Lutemos com tenacidade para que o quanto antes alcancemos a autenticidade na conduta, a fim de não termos que pagar o ônus de carregar as pesadas máscaras da superficialidade e da mentira.

Desde que não cultivemos a “hipocrisia calculada”, caminhemos para frente guardando a certeza de que nossa harmonização com a verdade custará instantes de insatisfação e auto-desvalorização que não devem nos abater.

Acima de tudo, o mais importante é trabalhar e confiar ao tempo a solução de nossas experiências, porque, mesmo depois de vencida a etapa mais dolorosa, ainda teremos que lutar com aspectos muitíssimo sutis de sua presença em nossos atos.

Buscando estudar nossas reações, descobriremos nossas “personas” e as sublimaremos em regime de perseverança e convivência pacífica conosco mesmo.

A maturidade haurida na superação dos conflitos trazer-nos-ápaz, resistência e integridade de comportamento.

Para não desanimarmos, reflitamos no versículo citado, no qual até Pedro, a rocha do Cristianismo nascente, sucumbiu em involuntária hipocrisia dizendo: “não sou”. (1)





1   2   3   4   5   6   7   8   9   10


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal