W. G. Sebaldes história natural



Baixar 1.25 Mb.
Página5/7
Encontro18.09.2019
Tamanho1.25 Mb.
1   2   3   4   5   6   7
=


despertador, ao guincho de uma serra circular, às trovoadas e aos foguetes de S. Silvestre. Outra carta, passada ao papel em viagem, muito à pressa, de um fôlego, desabafa fragmentos de memória de noites passadas nos abrigos subterrâneos e túneis do metro de Berlim, imagens paradas, comentários soltos de pessoas que falam continuamente das jóias que têm que salvar ou na feijoada que deixaram em casa a salgar no alguidar de folha; uma mulher com as mãos muito apertadas sobre a Bíblia no seu regaço e um velho agarrado a um candeeiro de mesa de cabeceira que por qualquer razão inconcebível tinha trazido consigo. Este chegar a si, prender consigo, são marcados com duplo ponto de exclamação nesta carta em que muitas passagens são ilegíveis. E: a minha tremura, o meu medo, a minha raiva — e sempre na minha cabeça.

De Zurique chegou-me uma dúzia de páginas de Harald Hollenstein que, como filho de uma alemã e de um suíço, passou infância em Hamburgo e tem coisas a contar do quotidiano nacional -socialista. Se Entras Aqui Como Bom Alemão, estava escrito em 9 caracteres rúnicos numa placa de esmalte à entrada das lojas, Heil HitW Será A Tua Saudação, lembra-se Hollerstein. Conta também

horizonte de chamas erguendo-se no escuro do céu. Vi fascinado o jogo de cores, o amarelo e vermelho das chamas misturando-se no fundo escuro do céu nocturno e separando-se de novo. Nunca mais vi amais

intensa de toda a guerra. Fiquei muitos minutos na rua a fitar essa sinfonia de cores que mudavam lentamente. Nem na obra dos pintores vi depois cores tão ricas, tão luminosas. E se eu próprio me tivesse tornado pintor... teria passado a vida inteira à procura dessas cores puras. Sem querer, ao lermos estas linhas, perguntamo-nos porque é que ninguém descreveu o incêndio das cidades alemãs, ao contrário do grande fogo de Londres ou do incêndio de Moscovo. Corre o boato, escreve Chateaubriand nas suas Memórias de além-túmulo, que o Kremlin foi minado... Propagam-se diversos incêndios que se alimentam uns dos outros, se juntam. A torre do arsenal arde como uma vela alta no meio de um altar em chamas. O Kremlin é apenas uma ilha negra onde vão quebrar-se as vagas de chamas. O céu, com o clarão reflectido das chamas, ilumina-se como uma aurora boreal. Na cidade à sua volta, prossegue Chateaubriand, ouve-se a derrocada de abóbadas de pedra, os campanários, de onde correm com rios de metal derretido, vergam-se, vacilam e ruem. Soalhos, vigas e telhados desabados mergulham ruidosos e crepitantes, num Flégeton onde forcam uma onda rutilante e soltam milhões de chispas douradas, descrição de Chateaubriand não é um relato de testemunha ocular,










mas uma pura reconstrução estética. Imaginar em retrospectiva a cidade. Mas há tempos fui a Sheffield, visitar um senhor de idade. panoramas de catástrofe das cidades alemãs em chamas. está fora por causa das suas origens judias, foi forçado a deixar Sonthofen.



sua terra natal no Allgàu e partir para Inglaterra. A esposa, que veio da



questão por causa do terror que muitos sentiram, e talvez nunca tenham



ham verdadeiramente ultrapassado. O rapaz nascido em Hamburgo] para Inglaterra logo a seguir à guerra, foi criada em Stralsund. Parteira

de profissão, esta mulher resoluta tem um forte sentido prático e não é dada a floreados fantásticos. No Verão de 1943, a seguir à tempes-tanos num transporte colectivo. Lá, «havia um abrigo construído É tade de fogo sobre Hamburgo, estava, então com dezasseis anos, a meio do campo, à prova de bomba, disseram, de betão com cobertun prestar serviço como auxiliar voluntária na estação de Stralsund quando




tinham andado para a Suíça quando começam os grandes ataques. Mas mãe conta-lhe mais tarde o que viu. Teve que ir para a zona dos pântanos, .


inclinada... Aí procuraram abrigo 1400 pessoas após a primeira noitf de terror. O abrigo recebeu uma carga em cheio e desfez-se. O qui aconteceu a seguir deve ter tido dimensões apocalípticas... No exterior, centenas de pessoas, entre elas a minha mãe, aguardavam ser levadas para um campo perto de Pinneberg. Para chegarem aos camiões, tinham que passar por cima de montes de cadáveres, alguns totalmente dilacerados, que jaziam no campo entre os restos do antiabrigo à prova de bomba. Muitos não conseguiam evitar o vómito diant verem esse quadro, outros sucumbiam ao pisarem os cadáveres, ou outros caíam inconscientes. Contou a minha mãe.»

Estas memórias em segunda mão e com meio século são bastante horríveis, e no entanto apenas uma pequena parte do que não sabe mos. Muitos dos que fugiram para as partes mais remotas do Reich a seguir aos ataques a Hamburgo ficaram em estado de demência Numa das citadas lições menciono uma nota do diário de Friedricíi Recks em que ele conta que viu, numa estação de comboios da Alt Baviera, o cadáver de uma criança cair da mala de uma dessas mulheres tresloucadas de Hamburgo quando aquela se abriu. Embora não se perceba, como disse nos meus comentários algo confusos, por q razão iria Reck inventar tão grotesca cena, também é difícil inserir num qualquer quadro da realidade, por isso se suspeita da sua autenticidade.

chegou um comboio especial com refugiados, a maior parte deles ainda completamente fora de si, incapazes de prestar quaisquer informações, aturdidos ou soluçando e gritando de desespero. E várias das mulheres que iam nesse transporte de Hamburgo, soube desta vez em Sheffield, levavam realmente nas suas bagagens os filhos mortos nos ataques, sufocados pelo fumo ou de qualquer outra maneira. Não sabemos em que se tornaram essas mães que fugiram com tais bagagens, se e como voltaram a ter uma vida normal. Mas esses fragmentos de memória talvez mostrem que é impossível resolver a profundidade do trauma na alma daqueles que vieram do epicentro da catástrofe. O direito de calar reivindicado pela maioria destas pessoas e tão inviolável como o dos sobreviventes de Hiroxima, dos quais Kenzaburo Oe diz, nas suas declarações de 1965 sobre esta cidade, que mesmo passados vinte anos sobre a explosão da bomba muitos ainda não conseguiam falar do que aconteceu naquele dia92.

Um dos que tentaram fazê-lo escreveu-me dizendo que há anos alimentava o projecto de escrever um romance sobre Berlim para saldar as contas com as suas memórias de infância. Uma dessas impressões

Provavelmente a vivência chave — era um bombardeamento da Cldade. Estava deitado num cesto de lavandaria, o céu lançou uma



Uz tísica sobre o corredor; naquele crepúsculo vermelho, a minha

mãe encostou ao meu o seu rosto aterrorizado; e enquanto me levavam para a cave, as traves do telhado por cima de mim levantaram-se no ar e balouçaram. O autor destas linhas é Hans Dieter Scháfer, hoje docente de estudos germânicos em Regensburg. Ouvi pela primeira vez o seu nome quando, em 1977, fez uma declaração pública sobre o mito da Hora Zero, nomeadamente sobre as continuidades pessoais e historiográficas lançadas por este começar de novo que durante tanto tempo ninguém pôs em questão. Essa declaração, a despeito do seu formato relativamente sucinto, é um dos mais importantes trabalhos sobre a literatura alemã do pós-guerra e logo após a sua publicação levou os estudos literários a operar o apuramento do verdadeiro conteúdo das obras produzidas entre 1945 e 1960. Contudo, a iniciativa de Schãfer não foi bem acolhida pela ger-manística estabelecida, que já de si tinha muito a esconder e há muito tinha o pé em falso e tratava-se de atacar a imagem de um autor acreditado que ainda hoje se vê a braços com cartas maldosas. Scháfer planeou também exumar os horrores da sua infância, frequentou bibliotecas e arquivos, encheu muitas pastas de material, topografou os locais de acção num guia de viagem Grieben de 1933, voou muitas vezes para Berlim. «O avião, observa no texto sobre o fracasso do seu projecto, pairava sobre a cidade, era um fim de tarde de Agosto e portanto o Múggelsee cintilava com uma luz purpúrea ao passo que o Spree estava já às escuras; lembro-me de que o anjo na coluna da vitória parecia mover as suas asas de ferro e levantar os olhos para mim com malévola curiosidade; escurecia na base da torre da televisão na Alexanderplatz, as montras das lojas respiravam o crepúsculo denso; e a escuridão foi-se instalando lentamente para oeste, até Charlottenburg, via-se a água dos lagos com um brilho suave; quanto mais nos aproximávamos de terra, mais freneticamente corriam as


intermináveis colunas de trânsito; voltei-me para o outro lado e vi patos voando por cima do jardim zoológico, formando uma espécie de arado. Um pouco mais tarde postei-me diante da entrada, como perdido. Os elefantes esticavam as suas correntes metálicas sob as árvores escuras, lá em cima, na noite, ocultavam-se ouvidos que me sentiram chegar.

O Zoo tem sempre que ser uma das peças principais na descrição dos muitos momentos, horas e anos de terror infantil. No entanto, ao escrever, diz Scháfer, «nunca consegui evocar as recordações medonhas em toda a sua força. «Quanto mais determinação punha na minha busca [...] melhor compreendia como é difícil a memória emergir. Quanto ao jardim zoológico, o material editado por Scháfer sobre Berlin in Zweiten Weltkrieg [Berlim na Segunda Guerra Mundial]97 dá uma ideia do que ele teria em mente. O capítulo Bombardeamento aéreo 22-26 de Novembro de 1943 contém excertos de dois livros (Mit Faltem beganns Mein Leben mit Tieren in Breslau, Múnchen und Berlin [Começou com Borboletas — a minha vida com animais em Bratislava, Munique e Berlim], de Katharina Heinroth, Munique, 1979, e Tiere Mein Abenteur. Erlebnisse in Wildnis und Zoo [Animais — a minha aventura. Vivências na selva e no zoo], de Lutz Heck, Viena, 1952), em que é dada uma imagem da devastação provocada no jardim zoológico por esses ataques. Bombas incendiárias e latas de fósforo pegaram fogo a quinze dos pavilhões do zoo. A casa dos antílopes e a das rapaces, o edifício da administração e a casa do director arderam completamente, a casa dos macacos, o edifício de quarentena, o restaurante principal e o templo dos elefantes indianos ficaram em ruínas ou muito danificados. Morreu um terço dos cerca de dois mil animais do efectivo. Veados e macacos ficaram em liberdade, as aves saíram




pelos telhados de vidro estilhaçados. Constou-se, escreve Heinroth, «que os leões à solta andaram a rondar junto à igreja do Memorial Kaiser Guilherme, mas na verdade foram esturrados e sufocados nas suas jaulas. No dia seguinte o belo edifício de três andares do aquário e o pavilhão de trinta metros dos crocodilos foram também destruídos por uma bomba, juntamente com a selva artificial. Ali jazem agora, escreve Heck, sob pedaços de cimento, terra, estilhaços de vidro, palmeiras derrubadas e troncos de árvores os grandes répteis gritando de dor, em água com a altura de um pé ou estirados na escada de acesso, enquanto o clarão do fogo na cidade moribunda de Berlim se avista por um portão arrancado dos gonzos. Os trabalhos de limpeza também foram terríveis. Nos dias que se seguiram, os elefantes que tinham perecido nos dormitórios das suas jaulas tiveram que ser desmanchados ali mesmo, no local, e Heck fala de homens rastejando no interior da caixa torácica dos paquidermes e revolvendo montes de entranhas. Estas imagens de horror enchem-nos de uma particular repulsa porque estão para além dos relatos de rotina, estereotipados, das experiências de dor humana, que são em certa medida censuradas. E pode ser que o horror que cai sobre nós quando lemos estas passagens seja também despertado por nos lembrarmos de que os jardins zoológicos, que devem a sua instalação em toda a Europa à necessidade de demonstrar poder real ou imperial, deviam ser ao mesmo tempo algo como uma imitação do Jardim do Paraíso. Acima de tudo, o facto de o relato da destruição do zoo de Berlim, que verdadeiramente devia exigir demasiado ao leitor comum, não ter chocado deve-se provavelmente ao facto de vir da pena de gente que não perde a razão em situações extremas, nem sequer o apetite, já que, conta Heck, «as caudas de crocodilo, cozidas em grandes panelas, sabiam a carne de galinha gorda, acrescentando mais adiante que


«os presuntos de urso e as salsichas de urso foram para nós iguarias.

O material constante das digressões acima é pois indicador de que as nossas atitudes perante as realidades de uma época em que a vida urbana da Alemanha foi quase completamente destruída têm sido muito irregulares. Pondo de parte as reminiscências de família, as tentativas episódicas de fazer literatura e o conteúdo de livros de memórias como os de Heck e Heinroth, só podemos falar de negação ou aversão constantes. O comentário de Schãfer sobre o seu projecto abandonado aponta nessa direcção, bem como a afirmação de Wolf Biermann, citada por Hage, de que podia escrever um romance sobre a tempestade de fogo de Hamburgo em que o relógio da sua vida parava às seis e meia durante anos. Nem Schãfer, nem Biermann, nem muitos outros que poderíamos citar, cujos relógios de vida pararam nessa hora, chamaram a si a recapitulação das experiências traumáticas por que passaram por motivos que talvez residam em parte nos factos, em parte na constituição psicossocial das pessoas atingidas. Seja como for, não é fácil contestar a tese que diz que ainda não fomos capazes de trazer para a consciência pública, sob a forma de exposição histórica ou literária, os horrores da guerra aérea. A literatura que trata demoradamente do bombardeamento das cidades alemãs e que foi trazida ao meu conhecimento após as lições de Zurique pertence, sintomaticamente, à categoria das obras desaparecidas. Die unversagte Stadt [Cidade indomada], o romance de Otto Erich Kiesel publicado em 1949 e nunca mais reeditado, cujo título levanta logo dúvidas, não vai além, como escreve Volker Hage no seu artigo para o Spiegel, do interesse histórico local e toda a sua estrutura e feitura fica abaixo do nível a que a derrocada da Alemanha nos últimos anos da guerra devia ser tratada. Mais difícil de apreciar é o


destruição à escala industrial, no sentido que lhe dá Alexander Kluge, foram também resultado de um mito da queda e da destruição cuja propagação foi sendo cada vez mais desenfreada desde o auge do expressionismo. O seu mais fiel paradigma é o filme de Fritz Lang, de 1924, Kriemhilds Rache [A vingança de Kriemhild], em que todo o poder armado de um povo avança semiconsciente para as fauces da perdição para no fim se erguer num estupendo espectáculo pirómano, numa clara antecipação da retórica fascista sobre a batalha final. E enquanto Lang convertia em Babelsberg as visões de Thea von Harbou em imagens reprodutíveis para o público cinéfilo alemão, a logística da Wehrmacht, uma década antes da tomada do poder por Hitler, trabalhava já na sua própria fantasia heróica com um argumento verdadeiramente aterrador que previa a aniquilação do exército francês em solo alemão, a devastação de vastas zonas do país e grandes baixas entre a população101. O verdadeiro desfecho desta nova Batalha de Armínio, o campo de ruínas final, não era imaginável sequer para o criador e principal advogado do extremismo estratégico, Coronel von Stúlpnagel, e ninguém, nem mesmo os escritores encarregados de preservar a memória colectiva da nação, nos permitiu mais tarde, precisamente por partilharmos a mesma culpa comum, evocar a recordação de imagens tão humilhantes como, por exemplo, as do Altmarkt de Dresden, onde, em Fevereiro de 1945, 6865 cadáveres foram queimados numa fogueira por um comando SS com experiência em Treblinka102. Ainda hoje tudo o que tem a ver com as cenas de horror da derrocada tem algo de ilegal, quase de voyeurismo, algo que estas minhas notas não conseguiram evitar por completo. Por isso não estranhei que um professor de Detmold me tivesse dito há tempos que em novo, nos anos imediatamente a seguir à guerra, via muitas vezes fotografias dos cadáveres espalhados pelas
ruas depois da tempestade de fogo que saíam de trás dos balcões de um alfarrabista de Hamburgo e eram agarradas e olhadas do modo como o costuma ser a pornografia.

Resta-me enfim comentar mais uma carta que me chegou através da redacção da Neuen Zurcher Zeitung, em meados de Junho do ano passado, vinda de Darmstadt, até hoje a última carta sobre o tema da guerra aérea, que tive que ler várias vezes de seguida, pois a princípio não acreditava nos meus olhos, dado que defende a tese de que o objectivo dos Aliados para a guerra aérea era separar os Alemães da sua herança e origens através da destruição das suas cidades, abrindo assim caminho à invasão cultural e americanização generalizada que efectivamente se verificou a seguir à guerra. Esta estratégia deliberada, continua a carta de Darmstadt, foi delineada por judeus a viver no estrangeiro, na verdade graças ao conhecimento da psicologia humana, das culturas e mentalidades estrangeiras adquirido na sua itinerância. Este texto, escrito num tom tão enérgico quanto formal, encerra exprimindo a esperança de que eu envie para Dramstadt a minha opinião competente sobre as teses expostas. Não conheço o autor da carta, um tal Dr. H., nem sei qual a actividade profissional que exerce ou se está ligado a algum grupo ou partido da extrema-direita, nem tenho nada a dizer quanto à cruzinha que acrescenta à sua assinatura, tanto manuscrita como em versão de computador, a não ser que gente da laia do Dr. H., que vê por toda a parte maquinações contra os interesses vitais da Alemanha, em geral gosta de pertencer a um tipo qualquer de ordem ou associação. Se, por causa da sua ascendência burguesa ou pequeno-burguesa, não podem elevar-se, como a aristocracia da casa, ao nível de representantes da elite conservadora da nação, tratam de alinhar com os defensores espirituais, quase sempre autonomeados, do Ocidente cristão ou da



herança do povo. A necessidade de se diluir numa corporação que se legitima invocando uma lei mais alta foi notória na conjuntura da direita conservadora e revolucionária dos anos 20 e 30. De Stern des Bundes, de George, sai uma linha recta que liga à ideia do futuro Reich como criação de uma nova liga de homens, ideia que Rosenberg propaga no seu Mythus des XX. Jahrhunderts [Mito do Século XX, publicado no ano da graça de 1933; e a formação das das SS destinava-se desde o princípio a servir não apenas o exercício directo do poder mas também a captação de uma nova elite cuja lealdade incondicional fosse, como a da nobreza hereditária, garantida. A rivalidade entre os aristocratas da Wehrmacht e os arrivistas e carreiristas pequeno-burgueses que, como Himmler, o criador de galinhas, se arvoravam em protectores da pátria, é sem dúvida um capítulo importante na história social, em grande parte ainda por fazer, da corrupção dos Alemães. Em que medida o Dr. H. e a sua misteriosa cruzinha entram nesta companhia é uma questão que deve ficar em aberto. Talvez a sua classificação completa seja como espectro vindo desse desgraçado tempo. Tanto quanto pude descobrir, tem mais ou menos a minha idade, portanto não pertence à geração que esteve directamente sujeita à influência nazi. Soube também que em Darmstadt não é conhecido como imbecil notório (o que poderia servir de desculpa para as suas teses bizarras); pelo contrário, parece dispor de saúde mental e ter uma situação publicamente respeitável. Por outro lado, é certo que a coincidência entre delírios fantásticos e uma vida escorreita marcou a particular linha de falha que na primeira metade do século XX se abriu na cabeça dos Alemães. Nunca esta linha de falha se deixou ler tão bem como no fluxo de correspondência trocada entre os responsáveis nazis que, na sua curiosa mistura de suposto interesse pelas coisas com loucura, deixou uma marca fantasmagórica nas
ideias que o Dr. H. confiou ao papel. Quanto às «teses propriamente ditas que o Dr. H. oferece, com evidente orgulho na sua acutilância, mais não são que um derivado do chamado « Protocolo dos Sábios de Sião, o falso pseudodocumental posto a circular na Rússia czarista que denunciava uma Internacional judia puxando os cordelinhos conspirativos, com aspirações ao poder mundial e a destruir povos inteiros. A variante mais virulenta deste ideologema foi a lenda do inimigo invisível, omnipresente, que corrompia a população por dentro, com que se deparava em toda a parte na Alemanha a seguir à Primeira Guerra Mundial, das mesas de cerveja à imprensa e à indústria da cultura ou mesmo aos órgãos do Estado, chegando por fim a atingir o poder legislativo. De forma pública ou oculta, esse inimigo era identificado com a minoria judaica. É evidente que o Dr. H. não podia importar estas acusações de culpa sem as modificar, dado que muito antes do início da campanha de guerra aérea dos Aliados já a retórica da denúncia levara a que, em todo o território sob tutela alemã, os judeus tivessem sido privados dos seus direitos, dos seus bens, exilados e sistematicamente aniquilados. À cautela, limita as suas suspeitas aos judeus que vivem no estrangeiro. E quando, num curioso aparte, atesta que aqueles que dá como responsáveis da destruição da Alemanha agiam não tanto por ódio mas por terem um conhecimento especial das culturas e mentalidades estrangeiras, confere-lhes as mesmas motivações do génio subversivo das mutações, Dr. Mabuse, do filme de Fritz Lang com o mesmo nome. Mabuse, de proveniência incerta, adapta-se a todos os meios. Vemo-lo na primeira sequência no papel do especulador Sternberg, que causa um crash da bolsa mediante manipulações criminosas. À medida que o filme decorre aparece como jogador em casinos ilegais, chefe de uma quadrilha de criminosos, empresário de uma fábrica de dinheiro falso, agitador das
massas e revolucionário, bem como, com o nome ominoso de Sandor Weltmann, hipnotista com poderes até mesmo sobre aqueles que recorrem a todas as suas forças para lhe resistir. Numa cena significativa de uns escassos segundos, a câmara mostra-nos, na porta de casa deste especialista em quebrar vontades e destruir almas, a placa onde se lê: Dr. Mabuse — Psicanálise. Como os judeus estrangeiros imaginados pelo Dr. H., Mabuse também não tem sentimentos de ódio. Só lhe interessa o poder e o prazer de o conquistar. Com o seu particular conhecimento do psiquismo humano, entra na cabeça das suas vítimas. Arruina aqueles que se sentam com ele à mesa de jogo, arrasa o conde Told, rouba-lhe a mulher e leva o seu opositor, o advogado Von Wenk, à beira da morte. Von Wenk, que no argumento de Thea von Harbou representa o tipo do nobre prussiano que espera manter a burguesia na ordem em caso de crise, consegue finalmente quebrar a resistência de Mabuse com a ajuda de um contingente do exército (a força de polícia sozinha não basta!), salva a condessa e com ela a Alemanha. O filme de Fritz Lang constitui o paradigma da xenofobia que se apoderou dos Alemães a partir do final do século XIX. O que o Dr. H. escreve sobre os especialistas judeus das almas supostamente por trás da estratégia de destruição das cidades alemãs remete para esta histerização do nosso feitio colectivo. De um ponto de vista actual, podemos ser tentados a menosprezar as declarações do Dr. H. como absurdos de alguém que nunca há-de melhorar. Absurdas são, sem dúvida, mas nem por isso menos hediondas. É que se alguma coisa está na base do sofrimento incomensurável que nós, Alemãs, infligimos ao mundo é esta linguagem insidiosa, feita de ignorância e ressentimento. A maioria dos alemães sabem hoje, pelo menos assim se espera, que fomos nós que provocámos a destruição das cidades em que vivíamos. Dificilmente alguém duvidará ainda de que o Marechal
da Força Aérea Gõring teria erradicado Londres do mapa se lho tivessem permitido os seus recursos técnicos. Speer mostra Hitler, em 1940, num jantar na chancelaria do Reich, a fantasiar sobre a destruição total da capital do império britânico: «Já viram um mapa de Londres? A construção é tão densa que uma só brigada incendiária bastaria para destruir toda a cidade, como aconteceu há duzentos anos. Gõring há-de deitar fogo às mais diversas partes da cidade de Londres com bombas incendiárias de um tipo completamente novo, tudo a arder por todo o lado. Milhares de fogos. Hão-de cobrir tudo numa única fogueira gigantesca. Gõring tem a ideia correcta sobre isso: as bombas explosivas não resultam, mas pode-se fazer a coisa com bombas incendiárias: destruição total de Londres! Que podem fazer os bombeiros deles depois de desencadeado? Esta visão fumegante da destruição anda a par do facto de os progressos realmente pioneiros em matéria de bombardeamentos — Guernica, Varsóvia, Belgrado, Rotterdam — terem sido obra dos Alemães. E quando pensamos nas noites de fogo em Colónia, Hamburgo e Dresden, temos também que chamar à memória que logo em Agosto de 1942, quando a frente avançada do 6.° exército atingiu o Volga e muitos eram os que sonhavam instalar-se, depois da guerra, nos jardins de cerejeiras junto ao Don tranquilo, a cidade de Estalinegrado, que nessa altura, como mais tarde Dresden, abarrotava de refugiados, foi atacada por 1 200 bombardeiros e durante esse ataque que tanto animou as tropas alemãs estacionadas na margem oposta, 40 000 pessoas perderam a vida103.



s



o
«A literatura alemã tem em Alfred Andersch um dos seus mais sadios e originais talentos.

Alfred Andersch, texto de badana redigido pelo próprio.



Ao longo da sua vida, não faltou ao romancista alemão Alfred Andersch o sucesso nem o fracasso. Até 1958, ano da sua «emigração para a Suíça, ocupou uma posição chave no movimento literário emergente na República Federal como chefe de redacção radiofónica, director do jornal Texte & Zeichen e principal Feature-Mann (assim se proclamou junto da mãe1) da Alemanha. Mais tarde, em parte com intenções programáticas, em parte involuntariamente, foi-se sempre aproximando do centro. Para alguns, determinadas ideias como periferia, separação, dégagement e evasão definiram a imagem de si que Andersch desenvolveu e pôs a circular, para outros, essa imagem nada alterava o facto de ele, como demonstra o material biográfico agora disponível, ser na verdade mais sedento de sucesso e mais dependente dele do que a maior parte dos seus congéneres escritores. Das cartas para a mãe ressalta que Andersch tinha da sua
própria obra uma opinião tudo menos modesta. A emissão sobre Júnger vai ser uma pequena sensação; o artigo sobre o anti-semi-tismo que escreveu em 1950 é «a melhor coisa que já fiz ... muito melhor do que Professor Mamlock, de Friedrich Wolf; em Munique considera-se «o homem do futuro»; a editora dará uma grande recepção» na Feira do Livro de Frankfurt pela publicação do seu romance Sansibar [Zanzibar] para o qual, além disso, como informa a sua mãe na mesma carta, o Professor Muschg, «o maior historiador da literatura que temos no momento [...] escreveu uma crítica maravilhosa. A seguir Andersch está outra vez com uma grande peça para a rádio», a escrever uma grande história nova ou tem «pronta uma grande emissão de rádio. E quando Ein Liebhaber des Halbchattens Um amante da penumbra sai em folhetim no Neue Zúrcher Zeitung, a mamã é informada de que «este jornal exigente [...] só aceita o melhor. Afirmações semelhantes qualificam não só o impulso justificativo que rege a relação de Andersch com a mãe mas também o seu próprio anseio de sucesso e aceitação pública, em franco contraste com a ideia de heroísmo privado e anónimo que ele, sendo um dos chamados emigrantes internos, gosta de propagar nos seus livros. Grande» é a palavra operacional que Andersch utiliza sempre para se qualificar e apresentar. Queria ser um grande escritor, escrever grandes obras, ir a grandes recepções e eventualmente atirar o mais possível para a sombra toda a concorrência, como por exemplo em Milão, «onde a Mondadori, escreve Andersch narrando o seu êxito, deu uma recepção em minha honra e do escritor francês Michel Butor» note-se a ordem dos nomes) na qual ele, Andersch, esteve vinte minutos a falar em italiano e recebeu aplausos estrondosos, ao passo que Butor, que a seguir falou em francês, ao que parece, teve mesmo que ficar sem aplausos.
O modelo de grande escritor que orientou Andersch desde o princípio na sua conduta e preferências interiores é, reconhecidamente, o de Ernst Júnger, que emergiu da época hitleriana que ajudara a instalar como destacado isolacionista e defensor do Ocidente. Em matéria de sucesso e fama literários, Thomas Mann era o exemplo abalizado. Sobre este ponto, são conclusivas as reminiscências de Hans Werner Richter, que diz de Andersch: «Era ambicioso. Não ambicioso como outros, não, a sua ambição apontava para muito mais longe. Os pequenos sucessos afiguravam-se-lhe perfeitamente naturais, não atentava neles especialmente, o seu fito era a fama, e não uma fama qualquer. Tinha-a por certa. O seu fito era a fama que vai mais longe, muito mais longe que o tempo, o espaço e a morte. Falava disso sem entraves e sem ponta de ironia. Uma vez, logo no princípio, ainda editávamos os dois Der Ruf[0 grito], disse a uma grande roda de colegas e amigos que não só alcançaria Thomas Mann como lhe passaria à frente. Os presentes calaram-se, desconcertados. Ninguém disse uma palavra, Fred foi o único que não sentiu este silêncio perplexo, por certo tomou-o como concordância. Efectivamente, a princípio os cálculos de Andersch pareciam estar a dar certo. Kirschen der Freiheit [Cerejas da liberdade] suscitou forte controvérsia e foi um grande sucesso, nem só por essa razão. Em muito pouco tempo», escreve Stephan Reinhardt, o nome de Andersch [...] andava em todas as bocas na República Federal. Andersch também recebeu, como ele próprio comunicou ao seu director, o comissário Beckmann, cartas de aprovação dos «espíritos mais notáveis do país. Na linha do sucesso, seguiu-se Sansibar. O eco foi sonoro, os louvores praticamente unânimes. As dúvidas foram declaradas improcedentes, os pontos nevrálgicos do texto passaram despercebidos. Houve quem imaginasse que o Terceiro Reich tinha sido poeticamente esmagado. Só quando se
tornaram evidentes, com a publicação do romance Die Rote [A Ruiva], as falhas conceptuais e estilísticas de Andersch a crítica se dividiu em dois campos. Koeppen qualificou o livro como um dos romances menos dignos de leitura deste século, Reich-Ranicki, por sua vez, qualificou-o de mistura desinteressante de mentiras e kitsch9. A princípio, o sucesso comercial — pré-publicação seriada no Frankfurter Allgemeine Zeitung, elevado número de vendas, conversações sobre planos para a passagem a filme — permitiu a Andersch ignorar os ataques, tomá-los como produtos de jornalistas invejosos, tanto mais que Reich-Ranicki não exercia então a influência que viria a ter um par de anos mais tarde. Nada abalado, embora já a esforçar-se por ser um tanto mais realista, Andersch trabalhou no sentido de consolidar o seu direito à fama. Os escritos menores da primeira metade dos anos 60 — peças radiofónicas, contos, ensaios, crónicas de viagem — assim o demonstram. Quando finalmente é publicado, no final de 1967, Efraim, de novo a crítica se polariza. De um lado, comentários hiperbólicos ao livro como obra «da mais alta inteligência artística» e romance do ano, do Outro, os críticos que realmente deram o tom e deixaram de ter papas na língua. Rolf Becker, Joachim Kaiser e Reich-Ranicki denunciaram, entre outras coisas, o estilo pretensioso do romance, falaram de kitsch, de vigarice. Andersch levou tanto a peito este acolhimento desfavorável que ainda dois anos depois, como conta o seu biógrafo, «proibiu que o seu nome fosse associado a uma exposição do Conselho para a Alemanha Indivisa, organizada por Mareei Reich-Ranicki. Qualquer presença numa exposição organizada por esse cavalheiro, escreveu Andersch, «será por mim considerada difamatória. Não são de admirar estas reacções cheias de ressentimento, se pensarmos no que separa as altas aspirações literárias de Andersch e a crítica que faz dele um remendão. Até nem haveria
nada a dizer contra os protestos de Andersch, não fosse ele ter-se enterrado de novo na primeira oportunidade. Por exemplo, quando Reich--Ranicki louvou Mein Verschwinden in Providence [O meu desaparecimento em Providence] e incluiu um seu conto na antologia Verteidigung der Zukunft [Defesa do futuro], imediatamente Andersch escreveu uma epístola conciliatória ao tão abominado cavalheiro, por certo na esperança de, pelo menos, obter um acolhimento mais favorável para a publicação próxima de um importante trabalho, Winterspelt. A crítica que Reich-Ranicki publicou no Frankfurter Allgemeine Zeitung e com que Andersch pensou poder contar, quatro dias depois do libelo impiedoso de Rolf Michael no Zeit de 4 de Abril de 1974, era também muito negativa e terminava com uma frase em que se dizia que o livro não valia o esforço da leitura: foi para Andersch a derradeira afronta e, segundo conta o seu biógrafo, levou--o a pensar em pôr Reich-Ranicki em tribunal. «Winterspelt, escreve Reinhardt, devia dar-lhe a fama... e agora isto!.

Esta breve sinopse do sucesso e insucesso do escritor Andersch sem dúvida nos leva a colocar a questão das críticas contraditórias. Andersch é um dos mais importantes autores das décadas do pós-guerra, como entretanto se passou a admitir a despeito das críticas acerbas da época, ou não é? E se não é, onde foi que ele falhou? Os defeitos da sua obra são apenas argoladas estilísticas ocasionais ou estas são sintomas de um malaise instalado mais profundamente? A germanística que, ao contrário da crítica da época, poucas objecções encontrou para pôr à obra de Andersch, tratou esta questão do modo que lhe é característico, como quem pisa ovos. Pelo menos uma meia dúzia de monografias ocuparam-se entretanto de Andersch, mas ainda está por saber que espécie de escritor foi ele na realidade. Em particular, ninguém (nem os críticos que se pronunciaram sobre ele) procurou reflectir sobre
o comprometimento de Andersch, que salta à vista, e os efeitos dessa opção para a literatura. Vem ao espírito uma velha frase (de Hõlderlin, se não estou em erro) que diz que o conteúdo de uma obra de arte nunca deve sair da sua moldura. Por conseguinte, cabe aqui dizer alguma coisa sobre as decisões que Andersch tomou em vários momentos de viragem da sua vida e a transformação dessas decisões em trabalho literário. Em Kirschen der Freiheit, o tom apologético domina a necessidade que por vezes assalta o autor de se confessar sem reservas. A memória opera muito selectivamente, trechos decisivos são por vezes omitidos, certas imagens cuidadosamente retocadas. Isso vai contra a objectividade que se anuncia no subtítulo, Ein Bericht» [Um Relato]. As meras três páginas em que Andersch descreve o trimestre que passou prisioneiro no campo de Dachau (até Maio de 1933) são estranhamente lacónicas e vazias. A ordem do texto justifica-o inserindo as páginas em questão no ponto em que Andersch é preso pela segunda vez numa cela da sede da polícia em Munique e pensa, em pânico, nos meses que passou em Dachau. É quase como se temesse, nessa altura ou mais tarde, chamar à memória o que sem dúvida viu por lá. O episódio, se assim se pode chamar, dos dois judeus, Goldstein e Biswanger, «abatidos na fuga (Como uma chicotada o estampido chegou até ao lugar onde estávamos, sentados nas tábuas entre as barracas a comer a sopa da noite) tem de certo modo o carácter de um tampão da memória capaz de relegar os pormenores terríveis do funcionamento do campo. Mas a admissão do medo que lhe tomou a nuca nessa tarde da esquadra, e que o deixou pronto, como escreve, «a dizer tudo o que quisessem tirar de mim, traz consigo a marca da autenticidade e é um dos momentos mais impressionantes do livro, que Andersch não estraga com maneirismos. Qualquer que seja a avaliação que se faça do livro, o que diz nesta passagem não deixa dúvidas de que Andersch, ao
contrário da grande maioria dos seus homólogos da época, no Outono de 1933 já não podia ter mais ilusões sobre a verdadeira natureza do regime fascista. Basta este «privilégio» para que a sua emigração interna nos anos seguintes surja a uma luz assaz dúbia.

Se aceitarmos o que Andersch diz, que ao tempo da sua prisão «a ideia de fugir para o estrangeiro, por causa da sua juventude e inexperiência, nem por momentos lhe entrou na cabeça, se aceitarmos também que logo após a sua libertação se achou num estado de paralisia interior que o deixou incapaz de pensar em emigrar, mesmo assim não se percebe porque não aproveitou as várias oportunidades que teve mais tarde, entre 1935 e 1939, de ir à Suíça e mesmo de ficar por lá. Numa entrevista dada dois anos antes da sua morte, constata pela primeira vez que procedeu mal nessa altura. «O que eu devia ter feito e não fiz: podia ter emigrado. Numa ditadura, a emigração interna é a pior de todas as possibilidades. O que esta confissão ainda não nos diz é as razões que o levavam a querer ficar. Além disso, não sabemos se Andersch em algum sentido se conta entre os emigrantes internos, mesmo tendo em atenção que não era muito difícil entrar para essa comunidade. Muita coisa sugere que a emigração interna de Andersch foi na verdade um processo altamente comprometedor de se adaptar às circunstâncias vigentes. Em Kirschen der Freiheit fala da sua fuga de domingos e feriados para a estética que lhe permitiu «festejar o reencontro com a minha própria alma perdida no fulgor dos azuis de Tiepolo. Durante a semana, este jovem sensível trabalhava «no sector de contabilidade de uma editora e à parte isso ignorava a sociedade que, como ele diz, montou à minha volta a organização do Estado totalitário. Tendo em conta que a editora Lehmann, na rua Paul Heyse, onde Andersch trabalhava, estava na primeira linha da nova política nacional e tratava de questões de raça e higiene racial, é


de recear que não tenha sido nada fácil ignorar a prática totalitária em franca difusão. Stephan Reinhardt tem razão ao qualificar a editora Lehmann de embrião e incubadora do racismo, abstendo-se porém de perguntar como seria possível conciliar o trabalho em tal sítio com uma personalidade de emigrante interno que afinal bem podia ter arranjado emprego num centro de jardinagem, talvez mais adequado à sua crescente necessidade de «mergulhar na natureza, de vitalidade, de criação, registada sem ironia pelo seu biógrafo.

A mais importante omissão no romance evocativo de Andersch Kirschen der Freiheit é a história do seu encontro com Angelika Albert. Conta Reinhardt que em Maio de 1935 Andersch casou com Angelika, oriunda de uma família judia alemã, para a proteger das consequências das Leis de Nuremberga, que entraram em vigor em Setembro desse ano, mas concede também que a aura erótica e o ambiente em que Angelika vivia — os Albert eram uma família da grande burguesia com certa reputação — poderão ter levado Andersch a desejar este casamento. Antes do mais, o argumento de que Andersch teria querido proteger Angelika não colhe, pois em Fevereiro de 1942, depois de entretanto ter estado separado dela e da filha que entretanto veio ao mundo, tratou logo de pedir um divórcio que foi concedido um ano depois, a 6 de Março de 1943. Não é preciso explicar melhor o perigo a que Angelika ficava exposta numa altura em que a mera entrada em vigor das leis raciais já tinha sido ultrapassada pela aplicação da Solução Final. Aliás, em Junho de 1942 Idl Hamburger, mãe de Angelika, já tinha sido transferida, para Theresienstadt, do campo de judeus do de Knorrstrasse, e nunca mais de lá voltou. Stephan Reinhardt comenta candidamente que Andersch deve ter sofrido muito com o divórcio, mas não dá quaisquer informações sobre as consequências desse sacrifício. Em contrapartida, o leitor imparcial da
biografia de Reinhardt notará que nesse ano Andersch tratou sobretudo de dar um novo rumo à sua vida. Queria absolutamente ser escritor e para tal apresentou repetidamente a sua candidatura para entrar para a Reichsschrifttumskammer, a Câmara de Literatura do Reich, condição prévia de qualquer publicação literária. Entre os documentos necessários estava um certificado da ascendência do cônjuge. Andersch enviou a sua candidatura ao comissário para a cultura do distrito de Hessen-Nassau a 16 de Fevereiro de 1943 e escreveu «divorciado sob a rubrica estado civil três semanas antes de declarado o seu divórcio. Para Stephan Reinhardt, a quem devemos estas perturbadoras revelações, a coisa resolve-se mencionando uma conversa com Martin, o irmão de Andersch, que dá a entender que o divórcio, como já referimos, lançou Andersch num estado de grave conflito moral, mas que, por outro lado, a sua evolução pessoal era mais importante para ele.

Não é fácil descobrir o que seria exactamente essa evolução pessoal. É de duvidar que Andersch estivesse em vias de se dedicar ao maquis e à oposição interna. Em 1941-1942, a Alemanha estava no auge do seu poder, não estava à vista o fim do Reich de Mil Anos. Portanto, o que Andersch andava então a passar ao papel, por exemplo, no conto Der Techniker [O Técnico], fala muito de mando, sangue, instinto, força, alma, vida, carne, herança, saúde e raça. Deste conto em que ele parece «trabalhar a sua experiência com a família Albert é possível inferir como decorria a evolução literária de Andersch. A pintora Gisele Groneuer, com quem Andersch planeava já uma vida artística em comum na altura em que estava separado de Angelika e que, como escreve Reinhardt, lhe deu um novo impulso, forçou-o a reconhecer o seu potencial criativo. Dadas as circunstâncias, talvez não seja de todo irrelevante o facto de ela ter boas relações com os funcionários locais do Partido, o que lhe permitiu fazer três exposições em Priim, Luxemburgo




e Coblença. O que teria resultado, sob que outros auspícios que não os da queda do Terceiro Reich, do trabalho conjunto do casal de artistas Groneuer/Andersch, é questão que fica em aberto. Contudo, para concluir esta história de associação e separação germano-judia e germano--germânica, cabe dizer aqui que a 8 de Outubro de 1944, quando era prisioneiro de guerra, Alfred Andersch solicitou às autoridades de Campo.
Ruston, Louisiana, que lhe fossem devolvidos os seus papéis e manuscritos confiscados. O principal argumento da sua petição reza o seguinte: «Prevented from free writing, up to now, my wife being a mon-grel of jwish [sic] descent [...] and my own detention in a German con-centration-camp for some time, these papers and diaries contain the greatest part of my thoughts an




Impedido até agora de escrever livremente, e dado a esposa ser criatura de ascendência judia, e a minha própria , tencão num campo de concentração alemão, estes papéis e diários contêm a maior parte dos meus pensamentos e planos coligidos nos anos de opressão. O que choca neste documento é o penetrante sentido de justiça do homem, a espantosa descrição de Angelika como «criatura de ascendência judia, mais ou menos inspirada na perversão alemã,







1   2   3   4   5   6   7


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal