W. G. Sebaldes história natural



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Verlcih d*r Ufa




aorta e carótida, diafragma, fígado ou rins aderentes. Órgãos que encontrassem em avançado estado de autólise ou completamente endurecidos por efeito do calor eram normalmente difíceis de serem cortados com bisturi; massas de tecido ou resíduos de órgãos podres, mol quebradiços, gordurosos, com borras de carvão, partiam-se, n pegavam-se, esboroavam-se ou soltavam-se. Aqui, na descria especializada do processo de destruição de um corpo já pela tempestade de fogo, está patente uma realidade de que o paralelismo linguístico de Schmidt nada sabe. O que a sua linguagem revê cada oculta é o que salta à vista no discurso dos trabalhadores do horror, entregues ao que lhes compete com firmeza e sem grande escrúpulos, como suspeita Jácki, talvez porque à margem da catástrofe pudessem ganhar uma ou outra coroa de louros. O momento, redigido ao serviço da ciência por um tal Dr. Siegfried Gnl abre as vistas para as profundezas de uma alma armada contra tudo O valor de elucidação destes autênticos achados, que tiram a co ficção, determina também o trabalho arqueológico de Alexand Kluge nas montureiras da nossa existência colectiva. O seu tema sobre o ataque aéreo a Halberstadt começa no ponto em que a aproximação do Capitol, comprovada pelos anos, que nesse dia de Abril via a exibição do filme Heimkehr Regresso a casa, com Pai Wessely e Attila Hõrbiger, é interrompida por um outro progrdB prioritário de destruição e Frau Schradder, a experiente empregada de cinema, procura arrumar as ruínas a tempo do início da sessão das horas. O tom quase humorístico desta passagem, a que já me resulta da extrema discrepância entre os campos de acção activistas,



em exibição. Igualmente irracional se mostra a mobilização de medidas de emergência praticáveis. Por outro lado, isto não segue companhia de soldados a quem mandaram desenterrar e classificar para Kluge, que seja inútil a pesquisa retrospectiva da história cadáveres, alguns muito mutilados, uns debaixo de terra, outros catástrofes. Pelo contrário, o processo de aprendizagem — e em covas identificadas, sem que seja claro o objectivo deste d esta razão de ser do texto compilado por Kluge trinta anos após os anos de trabalho nas circunstâncias reinantes. O fotógrafo de acontecimentos — é a única possibilidade de inverter as representante conhecido, mandado parar por uma força militar, que afirma que os ideais das pessoas no sentido de prever um futuro que não esta esteria. registar a cidade a arder, a sua cidade natal naquela desgraça, ocupado pela angústia que resulta do recalcamento da experiência, segue o mesmo rumo de Frau Schrader atrás do instinto profissional. li no mesmo sentido o pensamento de Gerda Baethe, professora a sua intenção de documentar o próprio fim não é absurda, primária, que figura no texto de Kluge. É certo, comenta o autor, que as fotografias que tirou, e que Kluge anexa ao seu texto, chegaram ra realizar uma estratégia da base como quer Gerda, teriam sido nós, o que na altura ele dificilmente poderia esperar. As vigilantes ;necessários professores determinados, todos como ela, todos , Frau Arnold e Frau Zacke, munidas de cadeiras ensinar duramente durante os vinte anos a partir de 1918 em todos lanternas de bolso, garrafas-termos, pacotes de pão, binóculos e a países que tinham entrado na guerra. A perspectiva, possível relhos de rádio, continuam a informar enquanto a torre sob os seus atos destas circunstâncias, de um outro desfecho histórico, entendimento parece mexer-se e o revestimento de madeira começa a arder. e, a despeito da sua tonalidade irónica, como um sério apelo a um Arnold entrega a alma sob um monte de escombros com um sino hiro que desafia todas as probabilidades. A descrição pormenorizada, ao passo que Frau Zacke passa horas com uma coxa partida I l Kluge dá organização social do mal, programada nos erros ser salva por pessoas que fugiam das casas do bairro de S. Martin história sempre recorrentes e constantemente potenciados, contém Doze minutos após o alerta de ataque aéreo é enterrada uma precisamente a conjectura de que um entendimento correcto do casamento na estalagem Zum Rock juntamente com as suas estrofes que estamos sempre a encenar é o pressuposto da organização, essa sociais e animosidades — o noivo vinha de uma prócoração locao social do bem. Por outro lado, custa a crer que forma família de Colónia, a noiva, natural de Halberstadt, das camadas sestimáticas de destruição que Kluge faz resultar do desenvolvimento das baixas. Esta e as incontáveis outras histórias que constituem o texto. furacões de produção industrial não chega para explicar o princípio. mostram como os indivíduos e os grupos, no meio da catástrofe, a esperança, A construção da estratégia de guerra aérea na sua compensação incapazes de avaliar o verdadeiro grau da ameaça e de ociosidade e inaudita, a profissionalização das tripulações dos bom-aos seus papéis habituais. Como no desenrolar acelerado ardeiros, funcionários treinados da guerra aérea, a superação da catástrofe, observa Kluge, o tempo normal e o emprego insensível problemas psicológicos de os manter despertos para o seu trabalho a tempo se disputavam mutuamente, a população de Halbersta fez da natureza abstracta da função, a questão de garantir o segundo Kluge, só com a cabeça de amanhã poderia ter concebir deSenrolar ordenado de um ciclo de operações com unidades






industriais de dimensão média a voar na direcção de uma cidade. a tecnologia que consiga que as bombas causem grandes incêndios tempestades de fogo, todos estes aspectos que Kluge encara do ponto de vista dos organizadores deixam perceber que entrou um somatório de informações, capital e trabalho no planeamento destruição que esta tinha que acabar por se verificar, sob a pressão) todo o potencial acumulado. Uma prova da irreversibilidade de evolução encontra-se numa entrevista de 1952 de Kunzert, jornal! de Halberstadt, ao brigadeiro Frederick Anderson, da oitg esquadrilha da Força Aérea dos EUa, que Kluge intercala no seu texto e na qual Anderson examina do ponto de vista militar a questão! saber se o desfraldar a tempo de uma bandeira branca feita com lençóis nas torres de S Martinho teria evitado o bombardeamento da cidade. Os esclarecimentos de Anderson culminam numa declaração nas nossas mãos e Parecem inrromper de súbito são uma espécie em que é visível o auge de irracionalidade notória a que leva precursoras do ponto em que temos que abandonar a argumentação racional. Refere que as bombas que tinham durante muito tempo, tomámos como a nossa história autónoma eram afinal uma mercadoria cara. Não podemos sem mais nada regressarmos à história da natureza? (O sol pesa sobre a cidade, sobre os montes ou em campo aberto o que tanto trabalho custou isso não sombra.) Nos dias seguintes, pelos caminhos fabricar em casa. A consequência das exigências de produção ; sobre a mistura de resíduos e através das ruas que Se Confundem, horrores, de que por mais que o desejem nem indivíduos nem com o mundo de ruínas e lue vagamente, têm a ver com a rede. pois podem dissociar-se, é a cidade arruinada que a fotografia inspira mas anterior- E impressionante o silêncio que pousa nestas ruas, no texto de Kluge nos põe diante dos olhos. A imagem está legível, ausência de actividade é enganadora, pois ainda ardem fogos nas cidades com uma citação de Marx: Vemos como a história da indústria deslocando-se por baixo do chão, de uma carvoeira para outra, a existência hoje concreta da indústria é o livro aberto da construção. bichos rastejantes. Algumas zonas da Cidade fedem. os profissionais de psiclogia humana, humana dada sensorialmente.. (itálicos e busca de cadáveres estão activos. Um cheiro a queimado mais acre, Kluge)". A história da indústria como livro aberto do pensamento lais Rendoso envolve a cidade, daqui a uns dias já será um cheiro do sentir humanos: pode a epistemologia materialista ou outra tioria, conhecida. Kluge olha aqui, em sentido literal e metafórico, de um conhecimento manter-se perante tal destruição ou será esta , alto Para espaço da destruição. O espanto irónico com que exemplo irrefutável de que as catástrofes que saem, por assim dizer,eSta nos factos que Premite-lhe manter a distância essencial ao



III


conhecimento. E no entanto, até neste escritor tão esclarecido sobre suspeita de que não somos capazes de aprender com a infelicidade nós próprios provocamos, de que somos incorrigíveis e continuamos a pisar os caminhos que vagamente têm a ver com a velha de ruas. O olhar de Kluge sobre a sua cidade natal destruída é, até, de toda a sua solidez intelectual, também o olhar fixo do anjo história do qual Walter Benjamin dizia que vê, de olhos arregalados, uma só catástrofe que acumula continuamente ruínas e mais ruínas, as arremessa aos seus pés. Gostaria de ficar por ali, de acordar os minutos e juntar os destroços. Mas sopra do Paraíso para aqui uma tempestade que se enredou nas suas asas e é tão forte que o anjo já não consegue fechar. Esta tempestade impele-o irresistivelmente para futuro a que vira as costas enquanto a pilha de detritos na sua frente,

As reacções suscitadas pelas lições de Zurique sugerem um posfáto,

cresce para o céu. Aquilo a que chamamos progresso é essa tempestade, o que pretendi expor em Zurique foi pensado apenas como uma
lírie em bruto de diversas observações, materiais e teses que, já o sustenta.

teriam que sofrer muitos aperfeiçoamentos e correcções. Em



articular, estava convencido de que o que eu afirmava, que a destruição,

das cidades alemãs nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial Ia, encontrara lugar na consciência da nação reconstituída, seria refúgio

do com exemplos que me haviam escapado. Tal não se verificou, pelo contrário, tudo o que me foi dito em dezenas de cartas confirmou minha convicção de que aqueles que nasceram depois, se quisessem confiar apenas no testemunho dos escritores, dificilmente poderiam primar uma ideia da extensão, natureza e consequências da catástrofe que os bombardeamentos aéreos fizeram cair sobre a Alemanha. É certo, que há um ou outro texto marcante, mas o pouco que a literatura textou, tanto na perspectiva da quantidade como da qualidade, não

qualquer relação com as experiências colectivas extremas. A realidade da destruição de quase todas as grandes cidades,




alemãs e de muitas outras mais pequenas que, podemos supor, dificilmente poderia ser ignorada na época e ainda hoje marca a fisionomia da Alemanha, surge, nas obras começadas depois de 1945, como silêncio auto-imposto, como uma ausência que marca também outros domínios do discurso, da conversa familiar à escrita da história. Parece-me digno de nota o facto de a corporação dos historiadores, alemães, que têm reconhecida a fama de serem dos mais activos, q ter até agora produzido, que eu saiba, um estudo exaustivo ou pelo menos de fundo sobre este tema. Apenas o historiador militar J Friedrich, no capítulo 8 do seu trabalho Das Gesetz des Krieges A da guerra, trata com rigor a evolução e consequências da estratégia de destruição dos Aliados. Significativamente, porém, a sua exposição, não despertou de modo algum o interesse que mereceria. Este escandaloso, que ao longo dos anos se foi tornando para mim, evidente, recordou-me que tinha crescido com a sensação de que ocultavam qualquer coisa, em casa, na escola e também por parte escritores alemães cujos livros lia na esperança de colher mais informação ma sob os acontecimentos monstruosos que ocupavam o pano fundo da minha vida.



Passei a minha infância e juventude numa zona a norte dos Alpes, largamente poupada aos efeitos imediatos das chamadas hostilidades. No fim da guerra tinha apenas um ano, por isso quase não tenho, tempo da destruição, impressões tiradas da experiência. E no entanto: ainda hoje, quando vejo fotografias ou documentários filmados do tempo da guerra sinto-me como se tivesse vindo dali, por assim dizer como se aqueles horrores por que não passei tivessem lançado sobre

mim uma sombra da qual nunca sairei inteiramente. a levou muitos de nós, mas a nossa magnífica paisagem natal ficou livro publicado em 1963 sobre a povoação de Sonthofen e seu merc Macta, florescente como sempre Ao ler esta frase, misturam-se do, comemorativo da sua elevação a cidade, lê-se o seguinte: Adiante dos meus olhos imagens de caminhos campestres, vales de rios



e pastagens de montanha com imagens da destruição e, perver mentalmente, são as últimas e não os idílios totalmente irreais da minha meninice que apelam em mim ao sentimento da minha terra, tal por representarem a realidade mais forte, mais determinante dos primeiros anos de vida. Sei hoje que nessa época, enquanto eu, no que chamavam o meu carrinho na varanda da casa de Seefel contemplava o claro azul do céu, pairava no ar uma cortina de fumo sobre toda a Europa, sobre as acções de retirada a leste e a oeste, sob as ruínas das cidades alemãs e sobre os campos onde queimavam número incontável de pessoas, gente de Berlim e Franfurt, Wuppertal e de Viena, de Wúrzburg e Kissingen, de Hilversumj Haia, Naumur e Thionville, Lyon e Bordéus, Cracóvia e Lodz, Szegj e Sarajevo, Salónica e Rodes, Ferrara e Veneza — quase não havia lugar na Europa de onde nesses anos não tivesse sido alguém deportado para a morte. Vi até nas mais remotas aldeias da ilha de Córsej placas memoriais onde se lê «morte à Auschwitz ou «tué par Allemands, Flossenburg 1944. O que também vi na Córsega me é permitida uma digressão —, na igreja pseudobarroca e coberta de pó de Morosaglia, foi o quadro que havia no quarto de dormir de meus pais, uma oleografia captando a beleza nazarena de Cristo início da sua paixão, sentado no azul nocturno, ao luar, no jardim Getsemani, em profunda meditação. Anos a fio esteve este pendurado por cima da cama dos meus pais, a certa altura desapareceu, provavelmente quando mudaram de mobília. E agora ali está ou pelo menos um precisamente igual, aqui, nesta igreja da aldeia Morosaglia, terra natal do general Paoli, encostado ao canto de um dos lados do altar, num canto escuro. Os meus pais contaram-me que em 1936, pouco antes do seu casamento, tinham comprado aquele quadro em Bamberg, onde o meu pai era sargento no regimento de cavalaria.

que o jovem Stauffenberg começara a sua carreira militar dez anos antes. Tais são os abismos da história. Está tudo misturado e quando :caímos em nós é tudo terrível, dá tonturas.

Contei numa das minhas narrativas que, quando me mudei com os

meus pais, em 1952, da minha terra natal, Wertach, para Sonthofen,

distante 19 quilómetros, nada me parecia mais prometedor do que



rever aqui e além terrenos vazios entre as filas de casas, pois, como

nessa passagem, no meu espírito, desde que tinha estado uma vez



em Munique, poucas coisas estavam tão nitidamente ligadas à palavras

como montes de ruínas, paredes caídas e janelas sem vidros

vistas, das quais se vê o céu. A 22 de Fevereiro e a 29 de Abril de

foram lançadas bombas sobre uma pequena povoação totalmente

insignificante, onde se fazia uma feira, Sonthofen, provavelmente

porque havia lá dois grandes quartéis de tropas de montanha e




de artilharia, bem como o chamado Ordensburg, uma das três màis cerca de quinhentas baixas e desaparecidos na guerra temidas de elite para a formação dos quadros da administração, criou-se uma centena de vítimas civis entre as quais, como tive imediatamente após a chegada dos nazis ao poder. Pelo que resta ocasião de registar, Elisabeth Zobel, Regina Salvermooser, Cario ao ataque aéreo a Sonthofen lembro-me de, pelos meus catorze já trasia, Konstantin Sohnczak, Seraphine Buchenberger, Cãzilie quinze anos, ter ido perguntar ao padre que dava aulas de religião hgenschuh e Viktoria Stúrmer, uma freira no hospital velho cujo liceu de Oberstdorf como conciliar as nossas representações ome religioso era madre Sebalda. Dos edifícios de Sonthofen providência divina com o facto de esse ataque não ter destruido e não recuperados até ao início dos anos 60 lembro-me em quartel nem o Hitler-Burg mas sim, e como se em lugar deles, a ia articular de dois. Um era a estação, fim da linha do caminho-de-ferro, ja paroquial e a igreja do hospital, mas já não me lembro do resto do corpo principal os serviços de electricidade do distrito usavam que então recebi. Do que há certeza é que, com os ataquei mo armazém para rolos de cabo, postes telegráficos e similares, ao

Resino tempo que no anexo quase intacto do edifício Gogl, o profes-

jr de música, dava todas as noites aulas a alguns dos seus alunos. Era

stranho ver-se, especialmente no Inverno, os alunos roçando arcos

violas e violoncelos na única sala com luz daquela casa em ruínas,

)como se fossem numa jangada à deriva nas trevas. A outra ruína de

le ainda me lembro era o chamado palácio Hertz, ao lado da igreja

rotestante, um palacete do virar do século de que não restava mais

ie o gradeamento de ferro do jardim e o piso de caves. Nos anos 50,

terreno, onde um par de belas árvores tinham sobrevivido à

itástrofe, estava inteiramente coberto de mato e nós, em crianças,

lassámos muitas tardes naquela selva criada pela guerra

fria. Lembro-me de que nunca me sentia à vontade a descer a escada

para a cave. Cheirava mal, a humidade, e eu receava sempre dar com

animal morto ou um cadáver humano. Uns anos mais tarde abriu

terreno do palácio Herz um self-service, uma construção térrea

orrenda, sem janelas, e o jardim outrora belo do palacete desapareceu

de vez sob um parque de estacionamento alcatroado. É este,

cuzido ao mínimo denominador comum, o último capítulo da



história do pós-guerra alemão. Quando vim de Inglaterra pela primeira





vez a Sonthofen, no fim dos anos 60, estremeci à vista do que mostra as vitualhas na parede exterior do restaurante (para efeitos publicitários, ao que parece). Mede uns seis por dois metros apresenta a vermelho, do vivo ao rosa, uma enorme travessa de carne frias, do género que então se servia em qualquer mesa de jantar no mal.

Mas não tenho obrigatoriamente que voltar à Alemanha, ao lugar onde nasci, quando quero ter presente o tempo da destruição. E vem-me muitas vezes à lembrança no lugar onde vivo. Muitos d mais de setenta aeródromos a partir dos quais se fez a campanha aniquilação da Alemanha encontram-se no condado de Norfolk. U dez são, como antes, instalações militares. Uns quantos estão em mãos de clubes aeronáuticos. Mas a maior parte deles foram abandonados a seguir à guerra. Cresce erva nas pistas, vêem-se as torres i controlo, casamatas e hangares ferrugentos meio arruinados na paisagem que se apresenta algo fantasmagórica. Sente-se ali as almas mortas daqueles que nunca regressaram das suas missões ou pereceram nos grandes incêndios. Vivo muito perto do aeródromo I var a entrar pelo menos um pouco na questão de saber porque é que Vou até lá muitas vezes passear com o meu cão. escritores alemães não queriam ou não podiam descrever a destruição




como seria aquilo, em 1944, em 1945, quando os aviões levantava

das cidades alemãs vivida por milhões de pessoas. Tenho plena

voo com a sua pesada carga e atravessavam o mar, rumo à Alemanha :onsciência de que as minhas notas avulsas não fazem jus à complecidade, anos antes de se iniciarem estas excursões, um Dornier lcade do assunto, mas creio que mesmo na sua forma imperfeita Luftwaffe despenhou-se num terreno perto de minha casa, durante u tempo de perspectivas sobre o modo como a memória, individual, colectiva,


ataque a Norwich. Um dos quatro membros da tripulação que perd


esta guerra cultural, lida com experiências que ultrapassam os limites da

razão da vida, o Tenente Bollert, fazia anos no mesmo dia que eu e Parece-me também, a ajuizar pelo correio que recebi, que a

a mesma idade do meu pai.

é tudo quanto a pontos de intersecção entre a minha vida e da história da guerra aérea. Sem qualquer significado em si, nem por




exposição das minhas indagações sobre a arrumação intelectual da aÇão alemã tocou um ponto sensível. Assim que os jornais suíços eram notícia das minhas lições de Zurique, logo me chegaram imediatamente

deixaram de me ocupar a cabeça e, de certo modo, acabaram por ter Perguntas da imprensa, rádio e televisão alemãs. Queriam saber se






podiam publicar excertos do que tinha exposto ou se estava disposto a listas. Por outro lado, continua a ser surpreendente que o material que
a continuar a discussão dessas coisas em entrevistas. Houve uma via tão estereotipada. Um dos problemas centrais dos
particulares que pediram para ver os textos de Zurique. Alguns desapareceram, chamado relato dos sobreviventes é a sua inerente insuficiência,
pedidos eram motivados pela necessidade de ver finalmente a notória falta de seriedade e peculiar vacuidade, a tendência para
Alemães apresentados como vítimas. Outras cartas afirmavam qui tinham ;sabido, para bater sempre a mesma tecla. O estudo do Dr. Schrõder
minha tese assentava em informação insuficiente, com indicação embora a psicologia da memória de vivências traumáticas. Isso perto das
fontes como as reportagens de Berlim feitas por Erich Kástner permíte-lhe tratar até o memorando absolutamente sinistro do anatomista
1946, colectâneas de materiais históricos locais ou investigação real) dos cadáveres reduzidos, Dr. Siegfried Grãff, que desempenha fonções
académicas. Uma professora jubilada de Greifswald que tinha lido um papel importante no romance de Hubert Fichte Detlevs
artigo do Neue Zúrcher Zeitung queixava-se de a Alemanha continuar mitationen Grunspan, apenas como um documento entre outros, que
dividida em duas. As minhas afirmações, escreveu, eram mais um ;e mostra imune ao cinismo dos profissionais do horror, exemplar.
prova de que no Ocidente ninguém sabe nem quer saber nada sobre patente no texto. Como disse, não duvido de que houve e há
cultura alemã. Na antiga RDA, nomeadamente, o tema da guerra aén nemórias da noite da destruição; só não acredito na forma, também
não era ignorado e todos os anos se comemorava o ataque a Dresdl iteraria, em que são articuladas e não acredito que tenham sido um
Essa senhora de Greifswald parecia não fazer a mínima ideia de coi actor digno de nota constitutivo da consciência pública da República
a retórica oficial do Estado leste-alemão explorava a queda dei 7ederal em qualquer sentido que não o da reconstrução.
cidade, como refere Gunther Jáckel no seu artigo91 para os Dresdnt Na carta de leitor do artigo de Volker Hage no Der Spiegel sobre
Heften sobre o 13 de Fevereiro de 1945. minhas lições de Zurique, o Dr. Joachim Schultz, da Universidade

De Hamburgo escreveu-me o Dr. Hans Joachim Schrõder refll ^ Bayreuth, refere que, ao examinar com os seus alunos os livros tendo-me parte do seu estudo de mil páginas, publicado por Niemej uvenis escritos entre 1945 e 1960, deparou com memórias mais ou em 1992, Die gestohlenen Jahre Erzãhlgeschichten wl nen°s pormenorizadas das noites de bombardeamento e que portanto Geschichteserzàhlung im Interview: Der Zweite Weltkrieg aus meus diagnósticos. apenas se aplica à literatura para crescidos. Não Sicht ehemaliger Mannschaftssoldaten Os anos roubados — históricos, esses livros, mas custa-me a admitir que num género destinado a contar da história em entrevista: a Segunda Guei esPecificamente ad usum delphini se encontre a dimensão necessária Mundial vista por antigos soldados, o capítulo sete, sobre a descrição da catástrofe alemã. A maior parte das cartas que recebi de Hamburgo, que, segundo o Dr. Schrõder, demonstra que também questlnavam-se a promover determinados interesses particulares. Raras colectiva dos alemães sobre os ataques aéreos não está tantas vezes, porém, ocorre o estilo sem rodeios com que um professor como eu pensava. Longe de mim duvidar de que as testemunhas da cidade da Alemanha Ocidental me escreveu uma longa epístola, da época. lembram de muitas coisas que podem vir a lume suscitada pela leitura da minha conferência de Colónia, que o







qual eu tinha falado em Colónia, pouco interessava. (o conterrâneo, da derrocada do Reich e da destruição das suas cidades.




Frankfurter Rundschau publicou. O tema da guerra aérea, sobre

nome não será revelado). Mas aproveitava a oportunidade, não sei primeiro me fazer alguns cumprimentos com mal disfarçado ranço para me acusar de maus hábitos de sintaxe. sentia-se particularmente irritado com o predicado no princípio, que considera o pricipal sintoma da crescente simplificação da língua. Neste vício a



enviados não podem ser a expressão do eco poderoso, ainda que sobe

Regra geral, trata-se mais de vivas reminiscências caracterizadas por esse modo de expressão que traduz (involuntariamente) determinada orientação social e disposição interior e que suscita em mim, sempre que com eles deparo, um imenso mal-estar. É o mundo esplêndido dos nossos montes, o olhar tranquilo sobre as belezas da nossa pátria, o






chama sintaxe asmática caio eu a cada três páginas, escreve santo Natal, o pastor alemão, que rejubila quando Dorle

e pede uma explicação do objectivo e sentido do meu contini atentado ao uso correcto da língua. Cita ainda alguns outros cabimentos de batalha linguísticos e apresenta-se como «inimigo de todos os glicanismos, embora conceda que felizmente tenho poucos. incluía uns quantos poemas e notas assaz peculiares títulos como Notícias de Herr K. e Mais notícias de Herr K., que tomei conhecimento com não pouca preocupação.

Breitschneider chama a sua mulherzinha para irem dar um passeio; fala-se das nossas vidas e sentimentos de outrora, evoca-se um belo convívio com café e bolos, repete-se que a avozinha encontra sempre que fazer em casa e no jardim, sabe-se de vários cavalheiros que vieram jantar e para uma saudável cavaqueira; o Karl está em Africa, o Fritz no leste, o petiz anda sempre nu pelo jardim; o nosso pensamento está agora com os nossos rapazes em Estalinegrado; a vovó



Encontrei também no correio que me foi dirigido exemplos de tod escreve de Fallingbostel, o papá despenhou-se na Rússia; esperemos

a espécie de peças literárias, umas sob forma manuscrita, outras d publicação privada para familiares e amigos. Quase parecem confumar a posição de Gerhard Keppner (de Seebruck) na sua carta leitor ao Spiegel. «Estamos perante, escreve Herr Keppner, ui povo de 86 milhões de pessoas, outrora reputado como povo de poc tas e pensadores, que passou pela pior catástrofe da sua jovefl história, com a extinção das suas cidades e o sofrimento de milhões à desalojados. Custaria a crer que estes acontecimentos não tivessef encontrado um eco literário forte. E de facto encontraram-no. Só q muito pouco foi publicado — literatura para a gaveta, portanto. Que senão os media ergueram esse tabu... e continuam a mantê-lo? Herr Keppner o que pensar, há nas suas observações, como em estas cartas de leitores, um leve tom de paranóia, os textos que me foram

enviadas


da fronteira alemã aguente a torrente das estepes; arranjar comida é o que está agora no primeiro plano; a mamã e a Hiltrud arranjaram quarto em casa de um padeiro; e assim por diante. É difícil definir o tipo de deformação que ressalta destas retrospectivas, mas deve ter a ver com o cunho particular da vida das famílias pequeno-burguesas na Alemanha. As histórias clínicas apresentadas por Alexander e Margarete Mitscherlich no seu Die Unfãhigkit zu trauern [Incapacidade de luto] levam pelo menos a supor uma certa ligação entre a catástrofe alemã consumada sob o fascismo de Hitler e a regulamentaÇão dos sentimentos íntimos na família alemã. Pelo menos, quanto mais destes relatos de vidas leio, mais evidente me parece a tese das aizes psicossociais da aberração que se desenvolveu em toda a eiedade com tão tremendas consequências. É certo que também há








neles intuições correctas, tentativas de autocrítica e momentos em primeiros ataques a Hamburgo. No imediato, escreve, não se passava a terrível verdade vem à superfície, mas quase sempre regressam a< nada. «No nosso bairro, nada. Somente uma vez o porto de Hamburgo

foi alvo. Os depósitos de combustível. Nessa noite, quando saímos da

cave de abrigo e viemos para a rua, eu ainda ébrio de sono porque já

Muitas das cartas e relatos que me chegaram desviavam-se, tinha sido acordado duas vezes, vimos, na direcção do porto, um ho-




tom coloquial inofensivo tão gritantemente desproporcionado para realidade da época.



estado sempre muito quieta durante os ataques aéreos, escreve sobl lo tão luminoso, vermelho tão carregado, laranja tão solar... Hoje, 55 o medo pânico com que mais tarde passou a reagir ao toque de um anos mais tarde, penso que essa visão foi para mim a vivência mais

padrão de base das recordações de família, mostravam vestígios de um desassossego e perturbação ainda hoje activos na consciência de autores. Uma senhora de Wiesbaden, que afirma que em criança tinha




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