W. G. Sebaldes história natural



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II

Como deveria começar essa história natural da destruição? Com panorama dos pressupostos técnicos, organizacionais e políticos realização de um grande ataque aéreo? Com uma descrição científica do fenómeno até aí desconhecido das tempestades de fogo? Com registo patográfico das maneiras de morrer características ou com estudo de psicologia dos comportamentos sobre os instintos de liga e regresso? Nossack escreve que não havia camas para a torrente e pessoas que, depois dos ataques a Hamburgo, inundava tudo Ilenciosa e inexoravelmente e em pequenos regatos levava o desassucego às mais remotas aldeias. Mal conseguiam alojamento num Itio, continua Nossack, os fugitivos partiam de novo, para seguir viagem ou tentar regressar a Hamburgo, ou para salvar qualquer coisa ou para a busca persistente dos familiares, ou pela negra razão que compele um assassino a voltar ao local do crime. Fosse pelo que fosse, todos os dias se movimentava uma multidão incontável de gente. Bõll viria a sugerir mais tarde que estas experiências de desenrizamento colectivo estão na origem do gosto pelas viagens.


República Federal, esse sentimento de não ser capaz de permanecer.




mais repugnantes ainda eram as moscas. Grandes, de um verde

num sítio, de estar sempre a querer mudar. Os movimentos de sintilante, como nunca ninguém vira. Aos molhos, rodopiavam no refluxo das populações bombardeadas, de uma perspectiva reforçada, acasalavam nos restos de muros, aqueciam-se, exaustas, foram também uma espécie de ensaio de iniciação à sociedade instaladas, nos estilhaços das vidraças. Quando já não podiam voar, instável que viria a formar-se nas décadas a seguir à catástrofe, seguiam-nos a rastejar pelas mais estreitas fendas, sujavam tudo, e o cujos auspícios o desassossego crónico se tornou uma virtude cardin. u zunido, a zoada, era a primeira coisa que ouvíamos ao acordar. Foi Abstraindo do comportamento transtornado das próprias pessoas. sim até Outubro. Este quadro da multiplicação de espécies que a alteração mais evidente da ordem natural das cidades nas semanas normalmente são eliminadas de todas as maneiras é um raro ataque devastador foi sem dúvida o súbito e descomunal lento da vida numa cidade devastada. Poupada ao confronto directo aumento de criaturas parasitas que medravam nos cadáveres mais repelente fauna das ruínas, a maioria dos sobreviventes, sepultar. A notória escassez de comentários e observações relativos a seguida para toda a parte pelo menos pelas moscas, para não falar do facto explica-se pela tácita instauração de um tabu, bem compreendo o fedor ... da podridão e decomposição que, como escreve, pensarmos que os Alemães, que se tinham proposto sanear íossack, pairava sobre a cidade. Quase nada nos chegou sobre higienizar a Europa, se viam agora a braços com o temor crescente daqueles que sucumbiram à pura náusea de existir durante as semanas afinal, serem eles o povo de ratazanas. Neste romance de Bõll, qi nos meses que se seguiram, à destruição, mas pelo menos a figura ficou tanto tempo por publicar, há uma passagem em que uri, narradora central de Der Engel schwigt, horroriza-se com a ideia de ratazana das ruínas fareja o caminho de saída de um monte de escombros. que retomar a vida e nada lhe parece mais natural do que simplesmente ir para a rua; e numa conhecida e bela história de Wolfgaj lente desistir, descer as escadas e sair para a noite. Borchert um rapaz que está de guarda ao cadáver soterrado do irra larcadamente, continua a faltar nos heróis de Bõll, décadas passadas, consegue banir a sua aversão aos ratos mediante a convicção de q legítimo desejo de viver. Esta falta, que se lhes cola como um estigma, dormem durante a noite. À parte disso, na literatura desse tempo só ia no novo mundo do sucesso, é o legado de uma existência passada encontra, tanto quanto sei, uma referência a este tema, uma passagem das ruínas e considerada vergonhosa. Um comentário de Kingston de Nossack sobre os reclusos, nos seus fatos listrados, chamados IcCloughry sobre o espectáculo terrível e profundamente perturvador remover os restos do que já foram pessoas, que na zona de morte ador dos milhões de desalojados vagueando sem destino aparente no lança-chamas conseguiam chegar aos cadáveres que jaziam no meio daquela devastação inaudita permite perceber como, no fim de abrigos contra ataques aéreos, tão densa era a nuvem de moscas e guerra, muitos deles estiveram realmente perto da extinção em volta deles, tão espessa a camada de vermes do tamanho de dedos. grandes cidades destruídas. Ninguém sabia onde parava essa gente, no chão das caves e nas escadas. As ratazanas e as moscas mandava embora as luzes nas ruínas, depois do anoitecer, mostrassem que na cidade, As ratazanas, atrevidas e gordas, passeavam-se pelas ruas. avia quem tivesse entrado para lá. Encontramo-nos na necrópole




de um povo estrangeiro, incompreensível, arrancado à sua personalidade. brancos desta gente, segundo Dagerman, eram como os peixes que idade cívica e à sua história, atirado para o estado de evolução da superfície em busca de ar. Victor Gollancz, que no Outono de recolectores nómadas. Situemo-nos pois diante da silhueta difusa percorreu durante mês e meio a zona de ocupação britânica, que, ao longe, por trás das hortas, se ergue acima do cais do caminkbretudo Hamburgo, Dússeldorf e o Ruhr, fez uma série de reportagem de ferro ... e corresponde às ruínas calcinadas da cidade, para a imprensa britânica em que dá informações pormenorizadas uma paisagem de pequenos montes de escombros cor de cimento, carências alimentares, subnutrição, edemas da fome, emaciação, de tijolo vermelho pousando em grandes nuvens naqueles lugares sermatoses e o rápido aumento dos casos de tuberculose. É também vida, uma única criatura humana a remexer no lixo, uma paragem ollacz quem fala de profunda letargia como marca mais saliente da eléctrico no meio de nenhures, pessoas que aparecem de repente e da populaçãoo das grandes cidades nesse tempo. People drift about with quais, como escreve Bõll, nada se sabe, parecem não vir de lado i eh lassitude», escreve, «that you are always in danger of running nhum, «invisíveis, inaudíveis [...] do nível do nada [...] espectros em down when you happen to be in a car as pessoas deslocam-se sem caminho e objectivo. não se entendem: formas com trouxas e tal lassidão que, indo de carro, se está sempre em risco de as atropelar. caixas e caixotes. Voltemos com eles para a cidade onde vivem. lar. O mais impressionante nas reportagens que Gollacz fez pelas ruas onde os montões de entulho chegam ao primeiro andar, de um país vencido talvez seja um pequeno artigo intitulado «The Misery fachadas queimadas. Vemos pessoas que acenderam peques Boots que fala do calçado roto dos Alemães, ou melhor, de fogueiras ao ar livre (como se estivessem na selva, escreve Nossackj tigo em si e sim as fotografias que o ilustraram quando foram publicadas, onde cozinham a sua comida ou fervem a roupa. Chaminés de fogo ;formadas em livro. as reportagens deste autor que, nitidamente fascinado espreitam entre restos de paredes, fumo que se dispersa lentamente, uma velha com um lenço na cabeça e uma pá de carvão na mão! Devia ser este o aspecto da pátria em 1945. Stig Dagerman descrev vida dos habitantes das caves numa cidade do Ruhr: comida detestada feita com vegetais murchos, sujos, e uns pedaços de carne duvidosa. e descreve o fumo, o frio e a fome reinantes nessas cavernas subterrâneas com o chão sempre cheio de água onde crianças com tosse iam chapinhar os seus sapatos rotos. Dagerman descreve salas em que as vidraças partidas das janelas foram substituídas pelas louças e onde a escuridão é tal que as crianças não podem ler os seus manuais. Em Hamburgo, diz Dagerman, falou com um tal Herr Schumai empregado bancário que já vivia debaixo do chão há três anos.


pelo tema, as tirou no Outono de 1946. Imagens como estas, que mostram a guerra, os terrenos de Colónia em ruínas estavam transformados nam visível sob uma forma concreta o processo de degradação, pela densa vegetação que rebentara — como pacíficos caminhos tecem seguramente a essa história natural da destruição, como Sol irais muito marcados, abriam-se as ruas nesta nova paisagem. Ao Zuckerman preferiu chamar-lhe. O mesmo quanto à passagem. das insidiosas catástrofes que hoje proliferam, a capacidade Engel schwieg em que o narrador observa que é possível dizer a da regeneração da natureza parece não ter sido afectada pela tempestada destruição pelo crescimento da vegetação que cinge os montões de fogo. Com efeito, no Outono de 1943, poucos meses após o escombros. «Era uma questão botânica. Este monte de escombn -ande fogo, em Hamburgo muitas árvores e arbustos, particular-ficou despido e calvo, pedra bruta, alvenaria acabada de talhar [...] se lente castanheiros e lilaseiros, apresentam uma segunda floração, uma ervinha, ao passo que noutros sítios nasceram lindas árvores uanto tempo teria levado a florestação dos montes de ruínas de todo encantadoras arvorezinhas em quartos de dormir e cozinhas. No país se o Plano Morgenthau de substituição da indústria pela agricultura,

na altura, plano americano tivesse sido realmente executado?

A vida da sociedade, esse outro fenómeno natural, pelo contrário,

despertou de novo com surpreendente rapidez. A capacidade que as

essoas têm para esquecer o que não querem saber, para não ver o que

diante dos olhos raras vezes foi tão posta à prova como nesses

tempos da Alemanha. Decidiram, primeiro por puro pânico,

prosseguir como se nada fosse. O relato de Kluge sobre a destruição

Halberstadt começa com a história de Frau Schader, empregada do

cinema, que vai para o trabalho com uma pá da protecção civil logo a

seguir aos bombardeamentos, na esperança de limpar o entulho

antes da sessão das duas. Na cave encontra várias partes de

rostos recozidas, que arruma lançando-as, de momento, na caldeira.

Nossack, quando regressou a Hamburgo poucos dias

aos do ataque, conta ter visto uma mulher a limpar as janelas de uma

sala que se erguia solitária e ilesa num deserto de ruínas. Pensámos

estar perante uma louca, escreve, e continua: O mesmo aconteceu

uando vimos umas crianças a arranjar e varrer um jardim. Era tão

concebível que contámos a outras pessoas, como se fosse um prodígio.



um dia chegámos a um subúrbio que estava inteiramente intacto.



As pessoas estavam sentadas nos alpendres a tomar café. Era con agiCa de Strauss. Nossack, a quem as fachadas vazias de um filme, uma coisa absolutamente impossível. A estranheza de amburgo pareciam arcadas triunfais, ruínas dos tempos romanos ou Nossack resulta de se ter visto confrontado com o que, do ponto, cenários para uma ópera fantástica, contempla de um monte de vista dos que foram afectados, devia parecer uma falta de sensibibilidade. escombros uma zona devastada de que já só se aproveita o portal do lado moral a raiar a desumanidade. De uma colónia de insectos do convento. Ainda em Março tinha lá ido a um concerto, se conta que se enche de tristeza pela destruição do ninho. uma cantora cega tinha cantado: Die schwere Leidenszeit beginMas da natureza humana, espera-se um certo grau de empatia. E pegar nun abermals, começa de novo o pesado tempo das penas. Com isso a mesa do café do pequeno burguês do costume nos alpendres, complicidade, segura, apoiada no cravo, os seus olhos mortos. em Hamburgo, no fim de Julho de 1943, é algo de medonhamente abssurdo. Usavam além das ninharias pelas quais já temíamos, além, talvez, do escandaloso, na mesma medida em que o era a refeição dos alemães. sítio onde agora nos encontramos. Agora, quando já não há à nossa mais de Granville, com roupas humanas e talheres, comendo, ha um mais que um mar de pedras. A ligação de que aqui se fala de semelhante. Por outro lado, manter as rotinas diárias sem olhar a mais extrema profanidade e o sagrado através de uma vivência de nvasão catastrófica, desde pôr ao lume uma chaleira para fazer o são musical é um estratagema que sempre se revela eficaz. Uma terra até ao respeito por rituais culturais mais elevados, é o meio mais colinas de tijolos, por baixo os sepultados, por cima as estrelas; a natural e comprovado de manter saudável o humano entendimento de última coisa que mexe são as ratazanas. À noite, récita da Iphigenie, Situa-se neste contexto o papel que a música desempenhou. íotou Max Frisch em Berlim. Um observador inglês recorda-se de evolução e colapso do império alemão. Sempre que era preciso ir na récita de ópera nessa mesma cidade imediatamente a seguir a gravidade do momento, chamavam uma grande orquestra, sessar-fogo. In the midst of such shambles only the Germans, regime fez seu o gesto afirmativo do finale sinfónico. As coisas com uma admiração de dupla face, could produce a mag-mudaram quando o tapete de bombas começou a cobrir as cidades. ficentfull orchestraandacrowdedhouse ofmusic lovers Nomeio alemãs. Alexander Kluge lembra-se de a Radio Roma transmitir tanto entulho, só os Alemães conseguiriam apresentar tão magnífica ida na noite anterior ao ataque a Halberstat. Estivemos sentados orquestra completa e uma casa cheia de melómanos. no quarto do meu pai diante de um aparelho de madeira castanha com u usaria censurar os auditores que nesse tempo, de norte a sul do país, mostrador luminoso onde se liam os nomes das emissoras ouviam com os olhos a brilhar elevar-se bem alto a música, estrangeira, a ouvir a música distorcida, secreta, vinda de longe do momento de gratidão de se terem salvado. Mas também é lícito pergontava aquela história séria que o nosso pai resumiu em curtas frases, perguntar se não dilataria o seu peito o orgulho perverso. de pensarem que alemãs, e os seus amantes foram encerrados no túmulo. Ninguém na história humana do mundo jamais tocara assim e ninguém antevéspera do ataque arrasador a Darmstadt, conta um sobrevivente aportou o que os Alemães suportaram. A crónica destas coisas é a que ouviu na rádio uma ária do sensual mundo rococó da música, história da vida do compositor alemão Adrian Leverkúhn, passada ao


editores, escreve, ainda aqui estou. Sobre a Alemanha abate-se a

desolação, nos escombros das nossas casas da cidade os ratos engordam.

à custa dos cadáveres... Thomas Mann dá-nos, com Doktor danos

uma exaustiva crítica histórica de uma arte cada vez mais

inclinada para uma visão apocalíptica do mundo, ao mesmo tempo

confessa o seu envolvimento. Do público para quem foi pensado

te romance, poucos o terão entendido na altura, estavam por demais

ocupados em descansar das festividades, com a lava ainda quente

debaixo dos pés. Ninguém se metia na complicada questão das

relações entre ética e estética com que se debatia Thomas Mann. E no

intanto ela teria assumido um significado fundamental, como se vê.

na escassez de transposições literárias da destruição das cidades.



temas.

Além de Heinrich Bõll, cujo melancólico romance de ruínas, Der tgel schwieg, permaneceu mais de quarenta anos fora do alcance do público leitor, apenas Hermann Kasack, Hans Erich Nossack e Peter Mendelssohn escreveram, no fim da guerra, sobre o tema da distruição das cidades e da sobrevivência num país em ruínas. Nessa obra, os três autores acharam-se unidos através deste interesse comum. Kasack e Nossack mantiveram contactos regulares mais ou menos a partir de 1942, durante o trabalho para Die Stadt hinter der yom A cidade por trás do rio e Nekyia, respectivamente; por sua vez, Mendelssohn, que vivia exilado em Inglaterra e dificilmente se terá apercebido de todo o real alcance da destruição quando voltou à Alemanha pela primeira vez, em Maio de 1945, terá visto, sem dúvida, pelo mestre-escola Zeitblom, inspirado no seu ghost-writer com base nessas impressões, que a obra de Kasack, que saiu na Santa Barbara, quando a cidade de Diirer e Pirckheimer foi feita e primavera de 1947, era um documento de época da maior actualidade.



ainda nesse Verão escreve uma recensão altamente entusiástica,


cinzas e Munique, ali ao lado, atingida também. Prezados amigos:




procura uma editora inglesa para o livro, deita ele próprio mãos ha um bocado de folha ou de arame, ali umas lascas de madeira, que


metiam em sacos presos à cintura, como amostras para um herói.

tradução , em 1948, inicia, no âmbito deste trabalho com Kasack,



redacção do seu romance Die Kathedrale A catedral], o qual, írio• Nas galerias comerciais sem tecto, uma oferta de tralhas como as obras de Kasack e Nossack, representa uma incursão literal versas em magro sortido: Aqui estão casacos e calças, cintos com

no cenário da destruição total. Para além das muitas tarefas que tinham,


velas prateadas, gravatas e lenços coloridos, ali um conjunto de sapatos.a desempenhar enquanto esteve ao serviço do governo militar sapatos e botas de todos os tipos, muitos em estado duvidoso. Além, reconstrução da imprensa alemã, Mendelssohn redigiu um fragmento. Cavides com fatos amarrotados de diversos tamanhos, blusas e jaquetas, narrativa em língua inglesa que sob a forma de fragmento de camponês fora de moda à mistura com meias esburacadas, pmantinha ainda quando o publicou, no princípio de 1983, na isposissão, camisas, chapéus e redes para o cabelo, tudo a monte. A própria versão alemã. O texto chave deste grupo é sem dúvida condições de vida e económicas reduzidas, que nessas passagens se Stadt hinter der Strom, obra em geral considerada de significado ma. serviam com evidência as bases empíricas da narrativa, não constituem conseito para a época, e durante muito tempo tida como balanço definem ora uma imagem completa do mundo das ruínas, são antes elevo sobre a loucura do regime nacional-socialista. Com um um tentos do grande plano de mitificação de uma realidade que, no seu livro, escreve Nossack, a literatura alemã recuperou o seu nível, crua, impede a descrição. As esquadrilhas de bombardeiros uma literatura que se criou aqui, que brotou das nossas ruínas imbémpadas, parecem coisas surreais. Como se inspirados por Indra, cuja Toda uma outra questão é a de saber em que sentido a ficção crueldade na destruição ultrapassa as forças demoníacas, os homens.Kasack exprime a situação alemã da época e qual a filosofia extraplageiros da morte ergueram-se para arrasar os pavilhões e as casas das laddeiras. dessa situação. O quadro que representa a cidade por trás de grandes cidades com força cem vezes maior que nas guerras em que a vida, por assim dizer, se passa debaixo da terra, mortíferas anteriores, a tiros e golpes de apocalipse. Formas em todos os seus aspectos, uma comunidade destroçada. Das máscaras verdes, membros de uma seita secreta que soltam um cheiro nas ruas da zona, apenas as fachadas restavam de pé, por isso, mufiento a gás e talvez se destinem a simbolizar os mortos. Para quem olhasse de fora via o céu através das filas de janelas vazias. são introduzidas com exagero alegórico, em disputa, impossível afirmar que também o relato da vida sem vida depois do poder que, empolados para um tamanho sobrenatural, levava a população daquele reino intermédio é inspirado na situação, clamam um domínio blasfemo até caírem, invólucros vazios e farça económica e social real no período entre 1943 e 1947. Não há culpados, deixando para trás um fedor diabólico. Esta encenação quase to nenhum, os peões percorrem com indiferença as ruas em ruínas. berberguiana, inspirada nos aspectos mais duvidosos da fantasia como se já não reparassem na desolação em seu redor... E ou expressionista, torna-se, nas passagens finais do romance, uma tentativa. havia que nas habitações devastadas, agora destituídas da sua finalidade, de dar sentido ao que não tem , a certa altura, o mais antigo, procuravam no entulho restos do recheio, respigando dos cacl)ensador do reino dos mortos de Kasack refere que durante algum



tempo os trinta e três iniciados concentraram as suas forças em abj stamos pois no meio da província pedagógica alemã que vai da visão e alargar à via da reincarnação a região do sector asiático, tanto ealista de Goethe a Stefan George, passando por Stauffenberg e separada, e parecem estar a intensificar os seus esforços no sentido < immler. Se este modelo de uma elite, activa fora e acima do Estado, incluir o Ocidente no círculo ascensional do espírito e do corpo. Eg aardiã do saber secreto, ressurge apesar de tão completamente com-intercâmbio de boas intenções asiáticas e europeias, até aqui apenas rometido na prática social, para levar, àqueles que escaparam à pontual e esporádico, reconhece-se bem numa série de fenómenos! desstruição total apenas com a vida, luz sobre o suposto sentido De outras declarações do Mestre Mago, que representa a mais metafisico da sua experiência, então estamos perante uma profunda instância da sabedoria no romance de Kasack, resulta que terá qi destinação ideológica que vai muito além da consciência de cada um haver milhões de mortos nesta grande operação «para dar espaço a os autores e que somente o olhar firme posto na realidade pode com que depois irão renascer. Inúmeras pessoas foram chamadas para abalançar.

raramente para que pudessem ressurgir, quando for a altura, Não podemos deixar de reconhecer que Nossack, apesar da sua

sementeira, recém-nascidos apócrifos num espaço vital a que a propensão para o exagero filosófico e para a falsa transformação,

não tinham acesso. A escolha das palavras e dos conceitos em dependência, foi o único escritor da época que fez uma tentativa de

mensagens como esta, que não são raras na epopeia de Kasack, nos ;relatar da forma mais directa possível aquilo que na realidade viu.

com alarmante clareza que a linguagem secreta, pretensamente ci certo que no seu relato da destruição de Hamburgo irrompe por

encentivada pela emigração interna era em muito idêntica ao código ezes a retórica da fatalidade, mas o discurso sobre o rosto do homem

mundo intelectual fascista. Para o leitor de hoje, é penoso ver santificado pela passagem à eternidade e acaba por dar às coisas.

Kasack, bem ao estilo do seu tempo, passa por cima da pavorosa regra de pendor de conto de fadas, de alegoria, mas em geral preocupa-se com

A realidade, da catástrofe colectiva servindo-se de filosofísmos pseuc sobretudo com a mera factualidade, a estação do ano e o tempo que

humanistas e extremo-orientais, com grande despesa de jargão, o ponto de vista do observador, o barulho ruminante da aproximação

bolista, e como ele alinha, por meio do articulado de conjunto da nação das esquadrilhas, o vermelho dos fogos no horizonte, a situação, de

romance, na comunidade superior dos puros espíritos que preservarão física e mental dos fugitivos das cidades e o cenário ardido, as

a memória da humanidade enquanto arquivistas da cidade por trás chaminés estranhamente ainda de pé, roupa posta a secar no caixilho.

Também Nossack sucumbe, em Nekyia, à tentação de fazer da janela de uma cozinha, uma cortina rasgada que sai a esvoaçar de

parecer os reais horrores da época mediante truques de abstracção na varanda vazia, um sofá de sala com uma cobertura de croché e

logro metafísico. Nekyia é, tal como Die Stadt hinter der Strom,< incontáveis outras coisas para sempre perdidas, o entulho que os

relatos de uma viagem ao reino dos mortos, e tal como em Kasac, berra, a medonha vida nova que mexe por baixo dele e a súbita

também aí há professores, mentores, mestres, antepassados e antepal avidez das pessoas por perfume. O imperativo moral, para pelo menos

de comesso,a, muita disciplina paternalista e muitas trevas pré-natais. Um escritor, ter que descrever o que aconteceu naquela noite de





Julho em Hamburgo levou-o a renunciar a uma maior elaboração. Um exemplo dificilmente superável disso mesmo são as páginas e

seu jeito desapaixonado, o discurso denuncia um acontecimento imaginado, em que Peter de Mendelssohn se esforça penosamente do

terrível de tempos pré-históricos. Numa cave à prova de bomba cabmento narrativo de Die Kathedrale, inédito durante muito tempo,

um grupo de pessoas morreu queimado porque as portas encravaram pensando melhor, ainda bem) e que também após a publicação pouco

depósito de carvão ao lado pegou fogo. Foi assim: Todos tinham iteresse despertou. Começa com o herói da história, Torstenson, terá

fugido das paredes quentes para o meio da cave. Ali foram encontrados, de uma cave enterrada em escombros na manhã seguinte,

todos juntos. Foram desidratados pelo calor. Aqui, o tom lesado ataque aéreo. Transpirava, o pulso latejava-lhe nas frontes.

que a narrativa é feita é o do mensageiro na tragédia. Nossack só fez do céu, pensou, isto é horrível, já não sou nenhum jovem; hé

que esses mensageiros são muitas vezes enforcados. meninos, de cinco anos. isto não me tinha afectado nada. mas agora, começando sobre a queda de Hamburgo está inserida a parábola de uarenta e um, com saúde, as capacidades intactas, praticamente ileso

homem que afirma que tem que contar como foi e aqueles que enquanto o mundo à minha volta parece morto, as minhas mãos

ouvem matam-no por causa do frio mortal que dele se desprende. imergem, os meus joelhos fraquejam e preciso de todas as minhas forças

por norma, aqueles que conseguem extrair algum significado para me arrancar a este monte de ruínas. A verdade é que para

metafísico da destruição são poupados a tão terrível destino. estar tudo morto na volta dele; o silêncio era total; chamou um para a

função é menos perigosa do que do que a de memória concreta. mil vezes, se havia ali alguém, mas das trevas não obteve nenhuma resposta.

estudo que Elias Canetti dedicou ao diário do Dr. Hachiya, losta. E assim continua, oscilando entre estas facadas na gramática

Hiroxima, à pergunta sobre o significado de sobreviver a um estilo mal decalcado, sem deixar de citar toda a espécie de horror.

catástrofe tão generalizada é dada resposta com um texto que, coilores, como que a mostrar que o autor não se furta a descrever a realidade.

as notas de Hachiya, é de uma precisão e responsabilidade notável da destruição nos seus mais drásticos aspectos. Mas mantém-se



Se fizesse algum sentido pensar, escreve Canetti, que forma fominante uma fatal tendência para o melodramático. Torstenson

criatura hoje indispensável a uma pessoa que sabe e que vê, cabeça de uma velha desfigurada e entalada à força num caixilho.

O mesmo se pode dizer sobre a descrição de Nossack, sin janela partida, e teme que, às escuras, as suas botas cardadas, no

lar em toda a sua obra, da derrocada da cidade de Hamburgo. escorreguem na tepidez que vai escorrendo de um peito de mulher

da verdade, adoptado, pelo menos para longas passagens, em toda esfacelado. Torstenson teme, Torstenson viu, Torstenson pensou,

sua objectividade despretensiosa, revela-se, face à destruição total, teve a impressão, duvidou, debateu-se, não se convenceu — desta persepção

único fundamento legítimo para prosseguir o trabalho literário. Pál )ectiva egomaníaca, mantida a custo pelo vibrante mecanismo

contrário, a produção de efeitos estéticos ou pseudo-estéticos a pari "ornanesco, somos obrigados a seguir uma trama que vai claramente

das ruínas de um mundo aniquilado é um processo que retira à litl buscar a sua trivialidade grandiloquente aos argumentos escritos por

criatura a sua legitimidade. Thea von Harbou para Fritz Lang, particularmente o da megapro-




dução Metropolis. A petulância do homem tecnológico é pois um afia das massas, o desfile dos exércitos vitoriosos na cidade destraída,

temas principais do romance de Mendelssohn. Torstenson, joga a entrada da população sobrevivente na catedral, tudo traz o sinal

arquitecto — ressonâncias de Heinrich Tessenow e do seu brilhantismo. marca LangHarbou, bem como a permanente intensificação do

aluno Albert Speer, apesar do desmentido do autor, não são do erro, de um kitsch que viola todos os critérios literários.

cidência — construiu a gigantesca catedral que é agora o único edifício. orstenson, que no princípio do romance conhece um rapaz órfão, em

conheci-o ainda de pé no campo de ruínas. A segunda dimensão da narrativa, eVe tropeça numa rapariga de dezassete anos acabada de sair de uma cena

erótica. Torstenson procura Karena, seu primeiro amor, a bela penal. Quando se conhecem na escadaria da catedral sob um

do coveiro que provavelmente jaz agora sob as ruínas. Karena, com >i resplandecente, os farrapos do vestido dela escorregam dos seusossos.

a Maria de Metropolis, é uma santa pervertida pelo poder dominar e Torstenson observa-a, assim se lê, calma e exaustiva

Torstenson lembra-se do seu primeiro encontro em casa do livre lente. Era uma rapariga suja, sórdida, cheia de nódoas negras, com

Kafka; Kafka, como o necromante Rotwang no filme de Lang, v ibelo preto desgrenhado mas, na sua juventude, insinuante e esbelta,

numa casa toda torta, cheia de livros e portas falsas. Naquela noite ela como uma deusa dos bosques da antiguidade. Muito come.é

inverno, recorda Torstenson, Karena trazia um capuz que parecia ividentemente, vem-se a saber que a rapariga se chama Afrodite, a

arder por dentro. O forro vermelho e as madeixas louras de cabelo lominoso, e (frisson adicional) é uma judia grega de Salónica.

nos lados do seu rosto fundiam-se numa grinalda de chamas orstenson, que a princípio concebe a ideia de dormir com esta beldade,

emoldurar-lhe o rosto, calmo e imperturbável, parecendo até sol, acaba por a levar ao rapaz alemão, numa espécie de cena,

levemente — uma espécie de reprodução da santa Maria iliatória, para que ela lhe ensine o segredo da vida, também esta,

Catacumbas que mais tarde se transforma num robô ao serviço odemos pensar, reflexo das últimas tomadas de cena de Metropolis,

Fredersen, o senhor de Metropolis. Karena comete uma traição sen filmadas no pórtico de uma grande catedral. Não é fácil resumir toda

Semelhante, ao colocar-se, quando Torstenson vai para o exílio, do lado lascívia e kitsch racial arquigermânico (com a melhor das intenções,

novo detentor do poder, Gossensass. Segundo Mendelssohn, o liv há que admiti-lo) que Mendelssohn coloca diante do leitor. Seja como

devia acabar com a partida de Torstenson para o mar numa barcional, a ficcionalização integral do tema da cidade destruída está em

das usadas para limpar as ruínas e aí, enquanto o entulho vai para Mendelssohn nos antípodas da sobriedade prosaica que Nossack

fundo, vê em toda a cidade no leito marinho, inteira e incólume, qu >rocura nas melhores passagens do seu relato, Der Untergang A perder na

Atlântida. Tudo o que à superfície está destruído está aqui intacto: tocada. Nossack consegue abordar com deliberada contenção os pormenores.

tudo o que lá em cima ficou de pé, sobretudo a catedral, falta cá. el permenores desencadeados pela Operação Gomorra, ao passo que em

baixo. Torstenson desce uma escada na água e entra na cidad telssohn se entrega a mais de duzentas páginas de cega verborreia.

afundada, é preso e tem que defender a sua vida diante de uma contribuída Abordagem literária muito diferente da realidade da destruição,

— outra visão fantástica, muito ao gosto de Thea von Harbou. embora igualmente pobre, é a que surge no final da novela de Arno




Schmidt Aus dem Leben eines Fauns Da vida de um fauno, da em 1953. Pode parecer pouco delicado apontar a dedo um escritor que mais tarde veio a ser um meritório presidente da Academia e ainda maior a relutância em atentar contra a reputação do descomprometido dos artistas da palavra. Não obstante, creio pôr um ponto de interrogação na dinâmica acção linguística com Schmidt encena aqui o espectáculo de um ataque aéreo. Seg a intenção do autor seria patentear o turbilhão da destruição graças artifício da linguagem levada ao absurdo, mas eu, pelo menos consigo ver o ponto a que supostamente ele quer chegar, a vida no terrível momento da sua desintegração, se ler um excerto como Um bidão de álcool soterrado soltou-se, rolou para fora como de mica de mão quente e desfez-se num pandemónio (de que jorram riachos de fogo: um polícia atónito mandou parar da direita e parou o serviço). Uma gorda nebulosa pairava sobre o alçou a pança esférica e arrotou a cabeça de um pastel com um riso gutural: vá lá!, e agitando braços e pernas emaranhados, voltou automaticamente para nós e expeliu feixes inteiros de tubos de quentes; interminavelmente, a virtuose, até que os arbustos próximos, se curvaram numa vénia profunda e desataram a pairar. Não vê o que se está a descrever, só vejo o autor, zeloso e ao mesmo encarniçado, nos seus floreados linguísticos. É característico amador curioso que desenvolveu determinado processo produzir s sempre a mesma coisa e também Schmidt, mesmo neste caso extremo, mantém fiel à sua bitola: dissolução caleidoscópica dos contornos! visão antropomórfica da natureza, tirada do ficheiro, uma outra raridade lexical, grotesco e metáforas, humor e onomatopeias, vulgar e o erudito, violência, tumulto e barulho. Não creio que minha aversão ao vanguardismo demonstrativo do estudo de


Tudo Abre as horas da destruição resulte de uma atitude fundamentalmente

commservadora em matéria de forma e linguagem, pois, ao contrário



; exercício de dedos, as notas descontínuas de Jácki no romance

pod


Hubert Fichte Detlevs Imitationen Grúnspan O verdete, imitações

Detlev durante a sua investigação sobre o ataque a Hamburgo

parecem-me um método literário plausível, provavelmente porque


muralmente,


têm carácter abstracto e imaginário, mas concreto e documental.

com o documental, que tem em Der Untergang, de Nossack, um

recursor, que a literatura alemã do pós-guerra cai em si e começa

o estudo de um material que não se compara à estética passada.

screve-se em 1968, o ano em que o ataque a Hamburgo faz o seu


aniversário. Jãcki encontra na biblioteca da escola médica de

ppendorf um pequeno volume espesso, de papel amarelo compota,

interior à reforma monetária. Título: Resultados da investigação

armazél natómico-patológica após os ataques a Hamburgo em 1945.

trinta ilustrações e onze gravuras. No parque — Vento frio nos

lases. Ao fundo, mesa, chávenas, mijadouro, por onde andam as

feiiichas à noite —, Jácki folheia o livro da biblioteca: b. Autópsia de

cadáver reduzido. Para exame havia portanto cadáveres reduzidos

pelo calor com o fenómeno concomitante da decomposição mais ou

menos plenos avançada. Não era possível seccionar estes cadáveres reduzidos,

com bisturi ou tesoura. Primeiro era preciso retirar as roupas, o que


dada a excepcional rigidez dos corpos, normalmente só se conseguia

cortando ou rasgando, danificando certas partes do corpo.

cabeças e extremidades, conforme a secura das articulações, con

conseguiam-se muitas vezes separar sem dificuldade, isto quando tinham

içado ligadas ao corpo durante a recuperação e o transporte. Desde

que as cavidades corporais não tivessem já sido expostas por destruídas.

De momento, era preciso usar tesoura de ossos ou serra para se





parar a pele endurecida. A solidificação e redução dos órgãos internos, respectivamente da catástrofe e do despropósito das reacções impedia o corte com lâmina; muitas vezes conseguia-se arrani flexas de Frau Schrader, para quem a derrocada do lado direito da inteiros certos órgãos, particularmente os do peito, como traquj ja... não tem uma ligação significativa ou dramatúrgica com o filme


Berta Wagner. GerhtW Webr Cari Roddate, Wemer fiWerer, Otto Wsmtekc



DríshtKJdi Gtrharâ Menísl < Musrtt Willf Schmtdi-Geninrr HertHmgsgrufpe: Ertch voa Neutser SP16LLEITUNG GUSTAV UCICKY

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