W. G. Sebaldes história natural



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do por um tal Willi Ruppert ao serviço das autoridades municipais, encontram-se inúmeras fotografias, entre as quais as duas imagens da Kàmmererstrasse aqui reproduzidas. Dir-se-ia que esta destruição total não foi o fim horrendo de uma aberração colectiva, mas, por assim dizer, a primeira fase de uma reconstrução de sucesso. Reportando-se a uma conversa com os directores do IG-Farben em Frankfurt, em Abril de 1945, Robert Thomas Pell dá conta do seu espanto ao ouvir alemães afirmarem a sua intenção de reconstruir o país maior e mais forte do que nunca foi no passado, com uma curiosa mistura de auto- comiseração, justificação servil, inocência ofendida e obstinação — I intenção essa em que nunca recuaram depois, como facilmente se vê I pelos postais ilustrados que quem hoje viaja pela Alemanha pode adquirir nos quiosques de Frankfurt e enviar da metrópole do Meno I para o mundo inteiro. A já lendária e, de certo modo, verdadeiramente admirável reconstrução alemã após a devastação praticada pelo inimigo.






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FRA UWT - GESTERN + HETE



go de guerra, uma espécie de segunda liquidação, em fases sucessivas, da sua própria história passada, impede de olhar para trás, quanto mais não seja pelo trabalho desenvolvido e pela criação de uma nova realidade,

sem rosto que orienta a população para o futuro e lhe impõe silêncio sobre o passado. Tão-poucos e esparsos são os testemunhos alemães desse tempo sobre o qual ainda não passou uma geração que na colectânea de reportagens que Hans Magnus Enzensberger publicou em 1990 com o título Europa in Trúmmern [Europa em ruínas], apenas há artigos de jornalistas e escritores estrangeiros, trabalhos até então completamente ignorados na Alemanha. Os poucos relatos feitos em língua alemã vêm de antigos exilados ou de individualidades de fora, como Max Frisch. Os que ficaram na Alemanha e que, como por exemplo Walter von Moio e Frank Thiess na lamentável controvérsia contra Thomas Mann, gostavam de dizer que, enquanto outros foram ocupar lugares confortáveis na América, eles não abandonaram a pátria no seu momento difícil, abstinham-se de comentar o decurso e o desfecho da destruição, e talvez houvesse nisso algum receio de que pintar um quadro demasiado próximo da realidade levasse as forças de ocupação a desconfiar deles. Contra a opinião geral, esta falta de relatos contemporâneos não encontrou compensação depois de 1947 e do esforço consciente de renovação da literatura do pós-guerra, da qual seria de esperar alguma elucidação sobre o verdadeiro estado das coisas. Enquanto a velha guarda dos chamados emigrantes internos afirmava ter estado envolvida na resistência passiva e dava de si uma nova visão, como observa Enzensberger, invocando ideias de liberdade e a herança humanista estrangeira em intermináveis abstracções ociosas, a geração mais nova, de autores acabados de regressar, estava tão embrenhada numa vivência própria da guerra em cuja descrição, aliás, se deixava puxar sempre para o sentimentalismo e a lamúria, que parecia não ter olhos para o horror evidente e omnipresente desse tempo. Mesmo a muito citada literatura das ruínas, que programaticamente se propunha um sentido objectivo das realidades, vocaciona
da, como salientou Heinrich Bõll, sobretudo para o que... encontrámos no regresso a casa, revela-se, a um exame mais atento, um instrumento já sintonizado pela amnésia individual e colectiva, provavelmente condicionado por processos pré-conscientes de auto-censura a velar um mundo que já não cabe em nenhum conceito. Uma espécie de tácito acordo vinculativo para toda a gente determinou que era impossível descrever o verdadeiro estado de aniquilamento material e moral em que se encontrava todo o país. No sentir da esmagadora maioria da população alemã, os aspectos mais negros do último acto da destruição tornaram-se uma espécie de tabu, como um segredo de família vergonhoso pelo qual as pessoas nem no seu foro privado podiam responder. De todas as obras literárias criadas até ao fim dos anos 40, talvez somente Der Engel schwieg [O Anjo Silenciado]9 de Heinrich Bõll, proporcione uma imagem aproximada da profundidade do abismo que então ameaçava quem verdadeiramente olhasse as ruínas em redor. Da sua leitura ressalta desde logo que precisamente esta história, que parece marcada por uma irremediável melancolia, estava para além do que o público leitor da época podia suportar, como bem viram a editora e também o próprio Bõll, pelo que só foi publicada em 1992, quase cinquenta anos mais tarde. Na verdade, o capítulo dezassete, que relata o combate com a morte de Frau Gompertz, é de um tão radical agnosticismo que mesmo hoje não é de ânimo leve que podemos abordá-lo. O sangue negro, viscosamente coagulado, que jorra nestas páginas em espasmódicos borbotões, sai da boca da moribunda e se derrama sobre o seu peito, mancha o lençol, vem da beira da cama fustigar o chão para aí formar uma poça que rapidamente alastra, este sangue retinto e, como Bõll expressamente acentua, muito negro, é símbolo dos acedia cordis que jogam contra a vontade de sobreviver, essa depressão lívida, já sem remédio, em que os Alemães confrontavam,



dos que com tal fim tinham necessariamente que cair. Para além do sucesso. Entre os pressupostos do milagre económico alemão Heinrich Bõll, apenas alguns poucos autores, como Hermann Kasack, contam-se não só as enormes somas do investimento ao abrigo do Hans Erich Nossack, Arno Schmidt e Peter de Mendelssohn estiveram com o Plano Marshall, o eclodir da Guerra Fria e o desmantelamento dos dà altura de romper o tabu que pairava sobre a destruição externa. iomplexos industriais antiquados, executados com uma eficiência interna, mas, como iremos demonstrar, em geral de um modo assaz agem pelas esquadrilhas de bombardeiros, mas também outras coisas: discutível. E anos mais tarde, quando os historiadores começaram a xenofovia étinica laboral incontestada aprendida na sociedade totalitária, a documentar a queda das cidades alemãs para a história da guerra e Para Poupar a cidade da improvisação logística de uma economia ameaçada por a história nacional, isso em nada alterou o facto de as imagens de todos os lados, a experiência no emprego da chamada mão-de-obra capítulo medonho da nossa história nunca terem transposto o limiar da pstrangeira e derradeiro desfecho, que muito poucos lamentaram, da consciência nacional. Por regra, essas compilações, publicadas por edialisada questão histórica que se consumiu em chamas entre 1942 mais ou menos obscuras — por exemplo, Feuersturm iibef 945 juntamente com os prédios centenários de habitação e comércio Hamburg Tempestade de fogo sobre Hamburgo, de Hans Brunswigfm Nuremberga e Colónia, em Frankfurt, Aachen, Braunschweig e foi publicado em 1978 pela editora do Anuário Automóvel deFurzburg Na génese do milagre económico estiveram estes factores Hamburgo—curiosamente como que afastadas do seu objecto de pesares ou menos identificáveis. Mas o catalisador foi uma dimensão que, serviam acima de tudo para sanear ou remover um conhecimento puramente imaterial: uma torrente de energia psíquica que ainda hoje incompatível com anormal compreensão das coisas sem procurarem secou e cuja nascente se encontra no segredo bem guardado de um entendimento claro da espantosa capacidade de auto-anestesia de cadáveres em que assentam as fundações do nosso Estado, um segredo colectivo que parecia ter saído da guerra de extermínio sem males. que manteve os Alemães unidos a seguir à guerra e ainda hoje assim psíquicos dignos de nota. A quase total ausência de perturbação mantém, mais estreitamente do que qualquer objectivo positivo, do que na vida íntima da nação alemã permite concluir que o novo sentido da realização da democracia, jamais logrou alcançar. Talvez a sociedade federal renegou a experiência adquirida na sua história ante oportuno não esquecer esse contexto, agora que o projecto da criador segundo um mecanismo perfeito de recalcamento que lhe permitiu da grande Europa, que já falhou duas vezes, entrou numa nova fase aceitar a sua emergência da degradação absoluta como verdade factual na esfera de influência do Deutschmark — a história tem maneiras mas ao mesmo tempo desligar-se por completo do seu acervo desde de se repetir. — Parece alargarse precisamente até aos limites do ter emoções, quando não averbar mais uma página gloriosa por ter superado. ocupado pela Wehrmacht no ano de 1941. do tudo com êxito e sem sinais de fraqueza. Enzensberger refere a este

propósito que a misteriosa energia dos Alemães não se compreende A questão de saber se e como justificar estratégica e moralmente o se nos recusarmos a aceitar a ideia de que eles elevaram os seus Planos Para os bombardeamentos, apoiado por grupos no seio da Royal defeitos a virtudes. A inconsciência, acrescenta, foi a condição do Air Force e desencadeado a partir de Fevereiro de 1942 com a







otilização de efectivos jamais vistos em pessoal e material bélico, nunca foi, tanto quanto sei, objecto de debate aberto na Alemanha depois de 1945, sobretudo, sem dúvida, porque um povo que tinha matado ou enviado para a morte nos seus campos milhões de pessoas dificilmente poderia exigir às potências vitoriosas que explicassem a lógica política e militar que ditara a destruição das cidades alemãs. Também não é de excluir que muitos dos que sofreram os ataques aéreos, come indicam, por exemplo, as fontes referidas por Hans Erich Nossack no seu relato da destruição de Hamburgo, apesar da sua fúria impotente mas encarniçada contra esta óbvia loucura, encarassem a tempestade de fogo como um justo castigo ou mesmo um acto de retaliação de um poder mais alto que não podiam contestar. Com excepção das reportagens da imprensa nacional-socialista e do serviço de radiodifusão do Reich, que usavam sempre o mesmo tom, falando de sádicos ataques terroristas e de bárbaros bandidos do ar, os protestos contra a longa campanha destruidora desencadeada pelos Aliados devem ter sido raros e esporádicos. Foi com mudo fascínio, segundo diversos relatos, que os Alemães enfrentaram a catástrofe em curso. «Não era a altura escreveu Nossack, de fazer miúdas distinções, como entre amigo el inimigo. Em contraste com a reacção largamente passiva dos Alemães ao derrube das suas cidades, que eles sentiram como uma fatalidade inevitável, na Grã-Bretanha o programa de destruição foil desde o princípio discutido a fundo. Não apenas Lord Salisbury ej George Bell, bispo de Chichester, afirmaram repetidamente e com insistência, na Câmara dos Lordes e em público, que a estratégia de ataque em primeira linha contra populações civis não é defensável! nem moralmente nem pelas leis da guerra, como o aparelho militar responsável se encontrava dividido nas suas posições quanto a esta nova maneira de fazer a guerra. A permanente ambivalência na avaliação

da guerra de extermínio acentuou-se ainda mais após a capitulação incondicional. Quando os relatos e imagens dos efeitos dos bombardeamentos de superfície começam a aparecer em Inglaterra, desperta a repugnância perante o que era infligido, por assim dizer, às cegas. «In the safety of peace, escreve Max Hastings, the bomber's part in the war was one that many politicians and civilians would prefer to forget. Na segurança da paz, o papel dos bombardeamentos na Guerra é algo que muitos políticos e civis prefeririam esquecer.] A retrospectiva histórica também não trouxe uma clarificação do dilema ético. A literatura de memórias veiculava novos conflitos entre facções e o veredicto dos historiadores que tentavam manter um equilíbrio realista oscilava entre admirar a organização de tão brutal empresa e criticar a vacuidade e a abjecção destas acções levadas a cabo sem mercê e, já para o fim, contra todo o bom senso. A origem da estratégia chamada de área bombing reside na posição extremamente marginal em que se encontrava a Grã-Bretanha em 1941. A Alemanha estava no auge do seu poder, o seu exército tinha conquistado todo o continente, alimentava a ideia de avançar sobre a África e a Ásia, e os Britânicos, privados da possibilidade real de intervenção, viram-se simplesmente entregues ao seu destino insular. Ante esta perspectiva, Churchill escreveu a Lord Beaverbrook afirmando que só havia uma maneira de obrigar Hitler a recuar no confronto «and that is an abso-lutely devastating exterminating attack by very heavy bombers from this country upon Nazi homeland [que é um ataque de extermínio absolutamente devastador com bombardeiros muito pesados deste país sobre a pátria nazi.]. Nessa altura, estavam longe de se encontrar reunidos os pressupostos para uma operação desta natureza. Faltava a base de produção, os aeródromos, os programas de formação para as tripulações dos bombardeiros, material explosivo




eficaz, bem como um novo sistema de navegação, e não havia qualquer espécie de experiência aproveitável. Até que ponto a situação era desesperada, revelam-no os bizarros planos que começaram a ser postos em prática a sério nos primeiros anos 40. Por exemplo, apareceu um plano que pretendia lançar estacas de ferro sobre os campos para impedir as ceifas e um glaciologista no exílio, Max Perutz, realizou experiências para o Projecto Habbakuk, que consistia em produzir um transportador aéreo gigantesco e impossível de afundar feito de uma espécie de gelo reforçado artificialmente chamado pykrete. Não menos fantásticas foram as tentativas, nessa mesma altura, de construir uma rede defensiva de raios invisíveis, ou os complicados cálculos feitos na Universidade de Birmingham por Rudolph Peierls e Otto Frisch, que viriam a trazer a construção da bomba atómica para o domínio do possível. Perante este panorama de ideias que raiavam a implausibilidade, não é de admirar que a estratégia de área bombing, muito mais fácil de entender, acabasse por avançar, sancionada pela decisão governamental de Fevereiro de 1942 to destroy the morale of the enemy civilian population and, in particular, of the industrial workers destruir o moral da população civil do inimigo e em especial dos operários industriais], apesar de, dada a pouca precisão com que eram atingidos os alvos, permitir que se desenhasse uma espécie de frente móvel a toda a largura e comprimento do território inimigo. Esta directriz não resultou, ao contrário do que se costuma dizer, de um desejo de pôr rapidamente termo à guerra mediante o recurso maciço aos bombardeamentos; foi antes, e principalmente, a única possibilidade de intervenção. A crítica que mais tarde viria a ser feita à brutal utilização deste programa de destruição (também do ponto de vista das baixas aliadas) dirigia--se sobretudo ao facto de ele ter sido mantido quando já era possível


realizar ataques aéreos selectivos e com outra precisão, por exemplo, a fábricas de rolamentos, instalações petrolíferas e depósitos de combustível, nós rodoviários e artérias vitais que a breve prazo, como nota Albert Speer nas suas memórias, teriam podido paralisar todo o sistema de produção. Na crítica à ofensiva dos bombardeamentos é também referido que ainda na Primavera de 1944 era visível que, apesar dos incessantes ataques aéreos, o moral do povo alemão se mantinha nitidamente intacto, a produção industrial registava danos quando muito marginais e o fim da guerra não estava mais perto um dia sequer. A meu ver, porém, os objectivos estratégicos da ofensiva não foram modificados e as tripulações dos bombardeiros, em muitos casos de rapazes acabados de sair da escola, continuaram a ser expostas à roleta russa que custou a vida a sessenta por cento deles por razões a que a história oficial deu pouca atenção. Por um lado, um empreendimento com as dimensões materiais e organizativas da ofensiva dos bombardeamentos, que A. J. P. Taylor calculou ter absorvido um terço de toda a produção britânica de material de guerra, teve em tão grande medida uma dinâmica própria que as correcções de rota e as restrições a curto prazo foram sendo mais ou menos excluídas, sobretudo numa altura, ao cabo de três anos de construção intensiva de fábricas e unidades de produção de materiais, em que o empreendimento tinha atingido o seu ponto de desenvolvimento mais alto, isto é, o máximo da sua capacidade destrutiva. Uma vez fabricado o material, deixar simplesmente as máquinas e a sua valiosa carga pousadas sem uso nos aeródromos do oeste da Inglaterra ia contra o seu instinto económico. Além disso, a decisão de prosseguir com a ofensiva foi provavelmente motivada pelo inestimável valor da propaganda, tão útil para elevar o moral britânico, dos relatos diários de destruição sistemática nos jornais ingleses num momento em que estavam cortados





todos os outros contactos com o inimigo no continente europeu. Com alternativas estratégicas, como, por exemplo, a interrupção do base nestes motivos, nunca se pôs a questão de exonerar do seu cargo de abastecimento de combustível, deviam parecer condenadas a parecer SirArthurHarris(comandante-em-chefedoBomberCommand), diverças maneiras de manobras de diversão. A guerra dos bombardeamentos continuou a defender intransigentemente a sua estratégia quando toda guerra sob forma pura, evidente. Desenvolvê-la contra a razão permite, indicava que já tinha deixado de funcionar. Alguns comentadores afirmam pensar que as vítimas da guerra, como escreve Elaine Scarry no seu nam também that 'Bomber'Harris had managed to secure a peculiafivr0 invulgarmente perspicaz The Body in Pain, não são vítimas hold over the otherwise domineering, intrusive Churchill que Jabatidas como via para determinado fim, são, no verdadeiro sentido Bombardeiro Harris conseguiu, curiosamente, ter mão sobre os termos, essa via e esse fim. minador e metediço Churchill]17, pois apesar de por várias vezes ter

Now, right before us, comenta Vaughan Thomas com uma tremura audível na voz, lies darkness and Germany Agora, mesmo à nossa frente, a escuridão e a Alemanha.]. Na gravação, em que a


exprimido os seus escrúpulos quanto ao horrível bombardeamento de A maior Parte das várias fontes disponíveis sobre a destruição das cidades indefesas, o primeiro-ministro tranquilizava-se, obviament de dcidades alemães muito dispersas e regra geral fragmentárias, desta-sob a influência dos contra-argumentos que Harris lhe avançava, constam Por serem estranhamente cegas à experiência devido a uma ideia de que se tratava de, como ele dizia, aplicar uma justiça poética. perspectiva de uma estreiteza extrema, unilateral ou excêntrica. Por ca mais alta, that those who have loosed these horrors upon mankin a Primeira reportagem em directo de um ataque a Berlim will now in their homes and persons feel the shattering strokes of jusfue Home Service da BBC difundiu uma desilusão para quem retribution para que aqueles que soltaram tais horrores sobre dela espera uma visão do acontecimento tirada de um ponto de mira humanidade sintam agora em casa e na sua pessoa os golpes dilace distanciada Como aPesar do Perigo constantemente presente, quase antes da justa paga.. Na verdade, muita coisa leva a crer que, nada digno de ser noticiado se passava nessas excursões nocturnas, o Harris à cabeça, o Bomber Command tinha o homem que, segunddrePórter wilfred Vaughan Thomas) teve que se haver com um míni-Sòlly Zuckerman, acreditava na destruição pela destruição, de conteúdos reais. Somente a emoção de vez em quando presente portanto em perfeita sintonia com o princípio intrínseco da guerra na sua voz Permite afastar uma pressão de tédio. Ouvimos o que pesa alcançar a completa aniquilação do inimigo juntamente com as dos caças-bombardeiros Lancaster descolando ao escurecer e logo a suas habitações, a sua história e o seu ambiente natural. Elias Canettf euir sobrevoando o Mar do Norte, a espuma branca junto à linha de

relacionou o fascínio do poder na sua expressão mais pura com ele. número crescente das suas vítimas acumuladas. Neste mesmo sentido, foi precisamente pelo seu interesse ilimitado na destruição que a



posição de Sir Arthur Harris se mostrou inatacável. O seu plano pardduracao do v0 foi obviamente muito encurtada, a tripulação é sucessivos ataques devastadores, levado sem compromisso até aos ouvintes durante a viagem até às primeiras baterias de era de uma lógica esmagadoramente simples: em comparação, as reaiJluzes da Linha Kammhuber: Scottie, o engenheiro de voo, que antes



da guerra era projeccionista em Glasgow; Sparky, o artilheirc

Conolly, «the navigator, an Aussie from Brisbane o navegador,

australiano de Brisbane]; «the mid-upper gunner who was in advertis

ing before the war and the rear gunner, a Sussex farmer o artilheiro

da meia-cauda, que trabalhava em publicidade antes da guerra e

artilheiro da cauda, um lavrador do Sussex]. O comandante permanece no anonimato. We are now well out over the sea and look

ing out ali the time towards the enemy coast Agora já estamos

sobrevoar o mar alto, sempre a olhar para a costa inimiga]. Trocam-se

diversas observações e instruções técnicas. De vez em quando ouve-se

também o zumbido dos potentes motores. À aproximação da

cidade, os acontecimentos precipitam-se. Cones de luzes dos projectores, entremeados pelas salvas luminosas das antiaéreas, estendem-se até aos aparelhos, um caça é abatido. Vaughan Thomas procura

transmitir adequadamente o clímax dramático, fala de uma aqui vamos nós, largar as nossas bombas sobre Berlim. Mas a seguir

search lights, in hundreds, in cones and clusters. It's a wall of ligh a este prelúdio não vem realmente mais nada. Tudo acontece demasiado

with very few breaks and behind that wall is a pool of fíercer lighl do depressa. O aparelho está já a sair da zonaalvo. A tensão dos tri-

glowing red and green and blue, and over that pool myriads of fiarei pulantes dilui-se numa súbita loquacidade. Not to much nattering

hanging in the sky. Thafs the city itself! ... It's going to be quit Pouca conversa, adverte o comandante. By God, that looks like a

soundless, continua Vaughan Thomas, the roar of our aircraft ií bloody good show Meu Deus, isto é um espectáculo e tanto, diz

drowning everything else. We are running straight into the mos ainda um outro. Best I've ever seen Do melhor que já vi, outro.

gigantic display of soundless fireworks in the world and here we g E depois, passado algum tempo, um terceiro, em tom mais baixo,

to drop our bombs on Berlin. muralha de luzes de kikbusca, às cente quase com uma espécie de temor: Look at that fire! Oh boy!

nas, em cones e em bateria. É uma muralha de luz com muito pouco Olhem-me este fogo! Ena! Houve muitos desses grandes incêndios

brechas e por trás dessa muralha há um charco de luz mais forte, lembro-me de o ver de nessa época. Ouvi uma vez um antigo artilheiro da aviação

vermelha, verde e azul, e sobre esse charco miríades de faróis suspensos estar no seu lugar junto à escotilha da cauda ainda se via Cluna

no céu. E a própria cidade! ... Tudo se passa bastante em silêncio, arder quando já sobrevoavam a costa holandesa, uma mancha de fogo

rugido do nosso avião afoga tudo o resto. Corremos a direito para na noite como a cauda de um cometa imóvel. De certeza que de

mais gigantesca demonstração do mundo de fogo de artifício sem sorr Erlangen ou Forchheim era possível ver Nuremberga em chamas e



dos montes sobranceiros a Heidelberg o clarão sobre Mannheim mainava como compensação, segundo um esquema arbitrário. Os que Ludwigshafen. O príncipe, Hesse esteve na noite de 11 de Setembro tinham escapado à catástrofe não eram de confiança, testemunhas datadas de 1944 no extremo do seu parque a olhar para Darmstadt ao longe ondas de cegueira parcial. O texto que Alexander Kluge escreveu, O clarão foi-se tornando cada vez maior, até abrasar todo o céu a sul na verdade só em 1970, O ataque aéreo a Halberstadt de 8 de Abril atravessado por relâmpagos vermelhos e amarelos. Um prisioneiro coloca finalmente a questão dos efeitos do chamado moral no Pequeno Forte de Theresienstadt lembra-se claramente de ver, di ombing citando um psicólogo militar americano que depois da guerra,




esteve em Halberstadt com sobreviventes e colheu a impressão da

janela da sua cela, o clarão com reflexos vermelhos de Dresden

arder, a uma distância de 70 quilómetros, e de ouvir o impacto surdo a população, embora visivelmente mostrasse um desejo inato das bombas como se estivessem a atirar para uma cela próxima sacos, perdera a capacidade psíquica de recordar, em especial. dentro


com vários quintais de peso. Friedrich Reck, que os fascistas mandavam,


o perímetro das ruínas da cidade. Ainda que esta conclusão, subjaram para Dachau pouco antes da guerra por ter dito coisas suberrialistas por uma pessoa pretensamente real, possa ser um dos artifícios sivas e lá morreu de tifo, anotou, num diário cujo valor como testemunha pseudodocumentalista a que Kluge costumava entregar-se, tem o cunho contemporâneo nunca é demais exaltar, que durante o ataque, a razão de ser ao identificar o síndroma, atendendo a que os relatos aéreo a Munique, em Julho de 1944, o chão tremeu e as ondas ddos que vieram de lá com nada mais que a vida são em geral desconpressão fizeram saltar as janelas até Chiemgau. Sendo estes sinais,

têm um estranho tom errático, em tudo tão diferente dos registos ricos, da catástrofe que assolou todo o país, nem sempre é sim normal da memória que facilmente sugerem invenção e divagações, porém, averiguar a natureza e alcance da destruição. A necessidade, esta espécie de inveracidade dos relatos das testemunhas oculares do saber contrapunha-se à tendência para fechar os sentidos. Foi por bém igualmente dos meandros estereotipados de que muitas vezes um lado, circulava desinformação em catadupas, por outro, aíe servem. A realidade da destruição total, incompreensível nas suas histórias verdadeiras excediam a capacidade de entendimento de cadafextrema contingência, dilui-se em fórmulas enredadas, como presa um. Diz-se que houve 200 000 mortos em Hamburgo. Reck escreveria. chamas, noite fatal, consumiu-se nas labaredas, o inferno que não pode acreditar em tudo o que ouve, pois disseram-lhe muitas à solta, vimos o inferno à nossa frente, o terrível destino das coisas sobre o estado de espírito gravemente perturbado destas normidades alemãs e outras semelhantes. A sua função é encobrir e neu-agidos de Hamburgo [...] da sua amnésia e da maneira como vagabun-tralizar vivências que escapam ao entendimento. A frase Naquele dia estavam vestidos só com o pijama, tal como estavam quando fugiram terrível em que a nossa bela cidade foi arrasada que o investigador das suas casas a cair. Nossack descreve o mesmo. a catástrofe de Kluge encontrou em Frankfurt e Fúrth, em dias não se conseguiam informações seguras. O que se contava não impportava e Wúrzburg, tal como em Halberstadt, na realidade não entrava em pormenores. Nitidamente, com o choque do que tinham )asa de um gesto de defesa contra a memória. Mesmo a entrada do vivido, a faculdade de recordar estava em parte suspensa ou funilário de Victor Klemperer sobre a queda de Dresden fica dentro dos


limites das convenções verbais. Pelo que hoje sabemos desta cidade, parece improvável que quem tenha estado na Terra: Brilhou no meio das faúlhas e tenha visto o panorama da cidade pudesse sair de lá com o juízo intacto. A capacidade aparentemente ilesa de a linguagem normal continuar a funcionar que mostram, a maioria dos relatos de testemunhas oculares levanta dúvidas quanto autenticidade das vivências que recordam. A morte pelo fogo, espaço de poucas horas, de uma cidade inteira com os seus edifícios árvores, os seus habitantes, animais domésticos, equipamentos e afins.



Dentro de poucos minutos tudo ardia nos cerca de vinte quilómetros quadrados da área alvo em incêndios gigantescos, tão rapidamente ateados que um quarto de hora depois da queda das primeiras ombas toda a atmosfera era um mar de chamas até onde a vista alcançava. E passados mais cinco minutos, cerca da uma hora e vinte, elevou-se uma tempestade de fogo de uma intensidade que até então julgaria impossível. O fogo, que se erguia a dois mil metros no ar, jogava o seu oxigénio com tal força que as correntes de ar atingiram violência de um furacão e ressoavam como poderosos órgãos com

constituições de toda a ordem hde inevitavelmente ter sobrecarregado todos os registos abertos. ao mesmo tempo Tudo arde. assim podendo
co
lhido as capacidades de pensar e de sentir naqueles que conseguira horas No seu auge, a temPestade levantou coberturas e telhados sem nada
escapar. Portanto, os relatos das testemunhas oculares têm apenas hoje casas, aterradas. ao ar vigas e tabuletas inteiras, ár árvores do
valor limitado, precisam de ser completados. o que levou Pessoas à Sua frente Como tochas. Por tras das
sinóptico artificial pode revelar fachadas em derrocada as labaredas disparavam com a altura de casas,

rolavam como um vagalhão pelas ruas com uma velocidade No pino do Verão de 1943, durante uma persistente vaga de quilómetros Por hora. giravam nas praças abertas com o ritmo. a Royal Air Force, apoiada pela .a esquadrilha aérea americana, tipho de uma valsa de fogo Em alguns Canais a água ardl. os vldros desencadeou uma série de ataques a Hamburgo. O objectivo destas baças janelas dos eléctricos derreteram, o açúcar armazenado ferveu.

conhecida como Operação Gomorra foi arrasar e reduzir a cinzas civis das pradarias. os que tinham fugido dos Seus aberes, não viram mais possível salvar a cidade. No ataque da madrugada de 27 de Julho aniquilaram grotescamente contorcidos, nas bolhas espessas formadas iniciado à uma hora da manhã, foram lançadas dez mil toneladas de bombas, no asfalto derretido. Não se sabe realmente quantos perderam a vida mas explosivas e incendiárias sobre a zona residencial densamente nessa noite nem quantos enlouqueceram antes de a morte os levar.


povoada a leste do Elba que incluía os bairros de Hammerbroo Hamm Norte e Sul, Billwerder Ausschlag, bem como partes


guando rompeu o dia, a luz estival não foi capaz de penetrar no ígreme de chumbo que pairava sobre a cidade. O fumo elevava-se a

St. Georg, Eilbeck, Barmbek e Wandsbek. Seguiu-se o processo numa altura de 800 metros e alastrava Como uma grande nuvem. conhecido, todas as portas e janelas foram arrancadas dos caixilhos demulindo em forma de bigorna. Um calor trémulo, que os pilo-mediante bombas explosivas de quatro mil libras, a seguir ateados dos bombardeiros contaram ter sentido trespassar os flancos dos últimos andares dos prédios com misturas ígneas leves enquanto continuava a elevarse dos montes de Pedras fumegantes bombas incendiárias com 15 quilos de peso caíam nos andares inferiores ! reluzentes- Bairros residenciais, uma rede de ruas de uns duzentos





quilómetros de extensão, ficaram totalmente destruídos. Por toda parte havia cadáveres horrivelmente desfigurados.


Os fugitivos, cujo número ascendia a um milhão e um quarto, dispersaram-se até aos confins mais extremos do Reich. luziam ainda chamas de fósforo azuladas, outros estavam queimados data de 20 de Agosto de 1943, na passagem já citada acima, com uma cor castanha ou roxa e reduzidos a um terço do seu tamanho. Reck descreve um grupo de quarenta a cinquenta desses, Jaziam dobrados em poças da sua própria gordura derretidos que procuravam tomar de assalto um comboio numa estação. por vezes já em parte solidificada. Nos dias que se seguiram, na Baviera, Enquanto isso, cai uma mala de cartão na plataforma, interior da zona de morte. foi interditado e quando as brigadas de coasgase e mostra o seu conteúdo. Brinquedos, um estojo de unhas, condenados e de internados nos campos puderam iniciar a limpeza, roupa interior chamuscada. E por último o cadáver queimado de Agosto, após o arrefecimento dos escombros, foram encontrar reduzido como uma múmia, que a mãe semienlouquecida ainda sentadas à mesa ou encostadas às paredes, vencidas pelo cansasso, consigo, restos de um passado ainda intacto há alguns dias, monóxido, e noutros sítios carne e ossos aos pedaços ou montes impensável que Reck tenha inventado esta cena terrível. Por toda parte a corpos cozidos na água a ferver que jorrara de caldeiras rebentadas. A alemanha, de uma maneira ou de outra, as notícias de horror dos Outros ainda tinham sido a tal ponto calcinados e reduzidos a cinzas.acontecimentos de Hamburgo devem ter sido difundidas por fugitivos num braseiro de mil graus ou mais, que foi possível tirar de lá um estado entre o desejo histérico de sobreviver e a mais pesada apatia. restos mortais de famílias com vários membros em cestos da rouplia. O diário de Reck é no mínimo um testemunho de que, apesar do O êxodo dos sobreviventes de Hamburgo iniciara-se ainda bloqueio noticioso impeditivo de informações pormenorizadas, na própria noite do ataque. Começou, escreve Nossack, uma viagem impossível conhecer a maneira terrível como as cidades alemãs incessante de todas as ruas das imediações ... sem que se soubessem a ser destruídas. Um ano mais tarde Reck descreve também

ezenas de milhares de pessoas acampadas nos terrenos da aximilianplatz após o último grande ataque a Munique. E escreve inda: Na estrada principal próxima circula uma torrente interminável de fugitivos, velhas viúvas alquebradas que carregam às costas, enfiadas num pau comprido, trouxas com os seus últimos averes. Pobres desalojados com as roupas queimadas, nos olhos ainda permanece o pasmo do turbilhão de fogo, das explosões tudo despedaçam, dos sepultados ou dos ignominiosamente asfixiados numa cave. O que estes relatos têm de notável é a sua raridade. De facto, parece que nenhum escritor alemão, com Nossack pomo única excepção, se mostrou disposto ou capaz de passar ao



papel algo de concreto sobre o decurso e os efeitos da gigantesca jorizon, escrever um relato a que chamou Sobre a história natural da prolongada campanha de destruição. E continuou a ser assim depois estruição. Na sua autobiografia escrita décadas mais tarde, Lord de terminada a guerra. O reflexo quase natural suscitado pelos senti Zuckerman refere que este projecto se gorou. My first view of

momentos de vergonha e pelo desejo de desafiar os vencedores era cah


ologne, diz ele, cried out for a more eloquent piece than I could

e virar costas. Stig Dagerman, que no Outono de 1946 foi correspondente ;ver have permitten A minha primeira visão de Colónia requer uma gente na Alemanha para o jornal sueco Expressen, escreve q eça mais eloquente do que eu poderia escrever. Quando, nos anos Hamburgo que levou, num comboio circulando à velocidade normal ! o interroguei sobre este assunto, Lord Zuckerman já não se lembrava



um quarto de hora a atravessar a paisagem lunar entre Hasselbrook

tirava dos pormenores do que pretendera escrever então, só lhe resta-



serca de um dedo cortado que encontrara em cima de um monte e escombros.


Landwehr, e em toda aquela desolação, talvez o mais horrendo campo. a a imagem da catedral enegrecida erguendo-se num deserto de

de ruínas de toda a Europa, não vira uma única criatura humana O comboio, escreve Dagerman, ia cheio, como todos os comboios Alemanha, mas ninguém olhava pelas janelas. Ele foi identificado como estrangeiro porque olhou pelas janelas.



Janet Flanner, que escrevia para a New Yorker, fez idênticas observações em Colónia, que, lê-se numa das suas reportagens, jaz e escombros e na solidão da total destruição física ... sem formas . junto às margens do seu rio. O que lhe resta de vida, lê-se ainda desloca-se penosamente ao longo das ruas e travessas cheias de entulho: uma população diminuída, vestida de negro — muda como a cidade. Este mutismo, esta maneira reservada e alheada constitui motivo por que sabemos tão pouco do que os Alemães pensaram viram na meia década entre 1942 e 1947. As ruínas em que viviam eram a terra incógnita da guerra. Solly Zuckerman previu esta ciência. Como todos os que estiveram directamente envolvidos em discussões sobre a mais eficiente estratégia de ataque e que por guisa tinham um certo interesse profissional nos efeitos do área bombin foi ver a cidade arrasada de Colónia na primeira ocasião possível Quando regressou a Londres ainda ia esmagado pelo que tinha visto! combinou com Cyril Connolly, que era então o editor do jontij





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