Via armada: quadro político e panoramas na América Latina Fred Maciel1 Resumo



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Via armada: quadro político e panoramas na América Latina

Fred Maciel1



Resumo: A América Latina presenciou um quadro quase geral de instabilidade e insatisfação das camadas populares durante a segunda metade do século XX. Tentativas legais e democráticas de reverter o quadro de opressão e exclusão foram colocadas em prática pelas massas populares latino-americanas, mas mostraram-se ineficazes. A luta armada passou a ser a opção mais concreta de realização dos anseios populares. Portanto, tomando como base a experiência nicaragüense na Revolução Sandinista, por ser claro exemplo do uso da luta armada como meio eficiente de contestação, discutiremos aspectos referentes à escolha da via armada como opção de luta, seus aspectos políticos e direcionamentos estratégicos.
Palavras-chave: via armada – sandinismo – América Latina.

A história da América Latina não pode ser pensada sem a devida compreensão dos inúmeros movimentos sociais que sacudiram o continente tornando-o polêmico em diversas discussões no âmbito historiográfico. Nesse plano, a segunda metade do século XX presenciou um quadro quase geral de instabilidade e insatisfação das camadas populares, em decorrência dos governos autoritários que exploravam grande parte da população e excluíam a participação das mesmas em decisões de caráter nacional. Experiências insurrecionais como o bogotazo2 de 1948 e os cordobazo e rosariazo3 entre 1969 e 1981 servem de exemplo de dito panorama político-social. Diante desse quadro, a experiência da Nicarágua e de seu movimento sandinista são de grande importância para uma análise dos direcionamentos da opção pela via armada na América Latina.

Ao conseguir derrubar a ditadura da família Somoza, o movimento unido em torno da Frente Sandinista de Liberación Nacional (FSLN) evocou com mais força, vinte anos após a Revolução Cubana de 1959, a possibilidade de se almejar uma nova realidade, mais justa e igualitária. Primeiramente, a FSLN deve ser compreendida não só como vanguarda política, mas também como vanguarda militar, no campo da luta armada. Analisando estudos a respeito da Revolução Sandinista4, pode-se perceber que a FSLN soube aproveitar as contradições objetivas da estrutura sócio-econômica do país em proveito de sua estratégia revolucionária; estratégia essa que somente teve o predomínio insurrecional a partir de 1978, quando da unificação das três tendências existentes entre os sandinistas. Dito de outra forma, a FSLN elencou forças sociais heterogêneas coadunando-as em torno de um alvo comum: liquidar o governo da família Somoza para assim desobstruir o caminho da emancipação do país em face do imperialismo, ou seja, afirmar a autodeterminação nacional (posteriormente, após a vitória revolucionária, traduzida em pluralismo político e econômico e não-alinhamento internacional).

Ademais, sendo o governo Somoza um verdadeiro hiato entre Estado e sociedade, o embate insurrecional, oriundo de uma crise revolucionária articulada nas relações de poder, explodiu como uma guerra de praticamente toda a sociedade contra o poder pessoal da família Somoza, em prol de uma reorientação do processo de desenvolvimento nicaragüense.

Nesse sentido, Carlos María Vilas (1986, p. 71) aponta a essencial aproximação da direção sandinista com as massas trabalhadoras, futuros agentes da revolução:
A arbitrariedade do exercício do poder político-militar da ditadura, o caráter indiscriminado da repressão, são sentidos de maneira mais direta e generalizada nas classes populares e convertem a rebeldia ativa e a participação na luta revolucionária em uma questão defensiva, de via ou morte.
Portanto, pode-se inferir que o sandinismo chegou ao poder, ou melhor, à vanguarda do movimento de libertação nacional em um cenário político de ordem debilitada e carente de alternativas programático-partidárias, conduzindo um projeto abrangente, porém pouco preciso, de democratização sob a hegemonia popular.

O que diferenciou a insurreição sandinista dos outros casos é a articulação da insurgência das massas com o papel diretor de uma organização revolucionária que, dando continuidade à ação quase espontânea e direta da população, aumentando sua eficácia operativa e seu grau organizativo, além de condensar inúmeras contradições que organicamente nutriam os protestos populares, ratificou sua condição de vanguarda e conduziu o povo ao triunfo insurrecional.

Apesar disso, releva-se que o rechaço à exploração social e à opressão política não implicam, ou pelo menos não implicaram na Nicarágua, na incorporação espontânea ou automática das massas à forma de luta revolucionária ou até mesmo na aceitação da idéia de real necessidade de uma mudança revolucionária. Da mesma maneira, pode-se analisar que uma crise econômica ou atividades repressoras também não são suficientes para a aderência popular à opção revolucionária. Explosões e irrupções violentas podem surgir por meio de impulsos pessoais, mas são politicamente intransitivas em um quadro mais amplo. O elemento essencial é a existência de uma articulação entre massas e uma organização revolucionária; por meio dela abrem-se as possibilidades de uma luta eficaz, de vitalidade transformadora.

A revolução, nesse meio, assume o comando de um processo motorizado pela contradição nacional-democrática (VILAS, 1986, p. 103). Mas é importante não esquecer que a primazia do político nos movimentos de libertação (e por conseqüência na constituição do campo nacional-popular) envolve uma questão de representação. Em dita relação de identidade social, análises apontam para um critério pretensamente classista. Contudo, a representação transfigura-se como uma relação política e não sociológica; apesar de dita relação política poder abranger defasagens sociológicas. Essa discussão é especialmente relevante nos movimentos político-sociais latino-americanos, visto que nesses movimentos “muitas vezes o sujeito histórico que desenvolve a luta não coincide com o conteúdo da luta nem com os métodos utilizados, misturando-se assim vários sujeitos, diferentes anseios e combinando-se diversos métodos de luta” (LÓPEZ et al., 1979, p.13). Sendo assim, na Nicarágua, a FSLN recolheu elementos de consciência popular, provenientes de Sandino e avivados por outros símbolos nacionais como Rubén Dario5 e Zeledón6, para atuar em um terreno que julgavam propícios para a luta revolucionária. A necessidade e a legitimidade da luta armada foram constantemente pregadas, como nas palavras de Sandino entoadas por combatentes: “A soberania de um povo não se discute: se defende com as armas na mão” (SANDINO apud RAMIREZ, 1981).

Nessa orientação em direção à luta armada cabe uma pequena discussão sobre a revolução e a cultura política não só na Nicarágua, mas também em toda a América Latina. Sabe-se que a idéia de revolução é, e foi, um poderoso componente da cultura política da América Latina. Segundo José Luiz Beired (1996), o primeiro momento de legitimação da revolução na América Latina provém do processo em que a mesma adquiriu sua soberania política. Ou seja, a libertação nacional, e os movimentos provenientes dessa, é o marco fundador da forma revolucionária entre os latino-americanos. Na lógica política revolucionária pregada, o discurso assumido é o de refundar a sociedade, redefinindo os lugares dos atores políticos e sociais; percebe-se então um recorte entre dois campos antagônicos: a nação em si, e seus inimigos, opositores de uma proposta nacional. De acordo com esta idéia, pode-se notar que são categorias morais e não políticas as que marcam dita delimitação. Além disso, tem-se praticamente uma imposição à luta armada, uma vez que ocorre um esvaziamento da esfera política como campo de disputa de interesses e dá-se uma sobreposição da lógica peculiar à guerra.

Portanto, a estrutura orgânica da FSLN definiu-se, antes de tudo, como a representação de um ator político que se caracterizava pelo desenvolvimento de uma atividade específica – a luta armada – em um ambiente já definido – o quadro hostil e repressor do regime somozista, e por um objetivo – a obtenção do poder. Em dito período tratado, a FSLN era uma organização político-militar altamente centralizada, construída sob enlaces verticais rígidos e comandada por uma direção baseada na hierarquia militar. Nota-se que essa visão de organização centralizada, reduzida e hierarquizada não foi alheia ao contexto de desenvolvimento de sua atividade revolucionária opositora. A hostilidade do quadro ao seu redor – imbuído de repressão – exigiu uma coesão organizativa, sem a qual a eficiência das atividades sandinistas seria questionável. A partir da segunda metade de 1978, especialmente após a reunificação das três tendências, coube à FSLN efetivar uma lógica de preenchimento do vazio político-ideológico-social que a ditadura impôs ao seu redor. Daí a inevitável incorporação de uma estratégia política à sua ação militar.



Ruptura institucional: a via armada
A opção pela via armada perpassa antes de tudo por um caráter político. Caráter este que determinou toda a seqüência estratégica que culminaria na vitória de 19 de julho de 1979. De acordo com Alain Touraine (1989, p. 381), a luta armada contra Somoza foi muito menos uma guerrilha do que uma guerra de libertação nacional ou mesmo uma guerra de criação nacional, já que o país era muito pouco integrado. Assim, a lógica central do movimento insurrecional seria uma luta antiimperialista. Isto infere que as ditas guerras de libertação nacional traduzem-se em movimentos sociais populares levados, naturalmente, a dar prioridade à luta contra um inimigo externo – quase sempre o imperialismo – e, ao mesmo tempo, também contra um poder político a serviço desta dominação externa. Nesse sentido, a maioria de ditos movimentos traz consigo traços nacionalistas, multiclassistas e antimodernizadores.

Nesse momento da discussão, cabe expor a respeito do fim político da guerra revolucionária e o uso da luta armada, não se limitando à Nicarágua. Tomemos como princípio o conceito de guerra revolucionária como uma guerra civil de classes caracterizada politicamente pela enfrentamento armado. Nesse sentido, percebe-se que a guerra é a própria política travestida com toda a violência de sua força (SAINT-PIERRE, 2000). Amparada nas relações de força, o objetivo final traduz-se no aniquilamento inimigo, no caso nicaragüense o Estado repressor da família Somoza. Nesse confronto pela hegemonia política, dá-se também um confronto de valores e a opção revolucionária exige uma ação que só pode ser violenta. Com isso, a guerra – nesse caso revolucionária – é, como ponderou Clausewitz, a “continuação da política por outros meios”.

Ao analisarmos a situação nicaragüense, transparece que a via pacífica ou diplomática poderia ser possível, contudo, o processo político-institucional durante a ditadura Somoza já estava tão agravado e agudizado, que nos parece que a luta armada foi inevitável.

Sabe-se que as ações coletivas portadoras de violência são as que apelam, conjuntamente, para a defesa de uma comunidade e para a luta contra um inimigo comum, definido como estrangeiro. Na América Latina, especificamente, comumente viu-se os movimentos sociais transformarem-se em violência política. O sociólogo francês Alain Touraine (1989) analisa de maneira interessante as expressões sociais das massas populares. Segundo o mesmo, na América Latina, a violência política aparece simultaneamente como o contrário dos regimes nacional-populares e, concomitantemente, como uma de suas tendências. No quadro da política latino-americana, tem-se ao mesmo tempo uma busca da hiperparticipação política e cultural das massas urbanas e o uso da violência como resposta à exclusão. Contudo, mesmo a violência estando inscrita na realidade através da repressão, Touraine aponta uma dificuldade de se passar do protesto à ruptura e/ou à violência revolucionária; isso porque apesar da exploração e da dominação, o sistema político latino-americano testemunha, de certa maneira, uma capacidade de integração. Desse modo, a transformação da violência social em revolução e poder revolucionário exige um quadro específico para o desenvolvimento de um caráter mais arraigado na necessidade de mudança.

No quadro geral da América Latina durante a segunda metade do século XX tem-se uma tendência, ou uma disposição para tal, que erige a idéia de revolução como necessidade primeira para um desvencilhamento do imperialismo (ou neo-imperialismo, como vários autores costumam tratar). Na conjuntura política do continente, percebe-se que foi a imagem da Revolução Cubana apresentada um dos fatores de empolgação dos simpatizantes revolucionários e da juventude latino-americana. Contudo, esse mesmo entusiasmo traz consigo generalizações a partir da experiência guerrilheira, levando a subestimar ensinamentos do processo revolucionário propriamente dito. O sentimentalismo da busca por mudanças invariavelmente leva à tendência em simplificar o trabalho revolucionário, ante a dificuldade de seu processo criador. Como expõe Miguel Urbano Rodrigues (1968, p. 3): “Raro é o revolucionário que não chega à idéia da necessidade da Revolução pelos caminhos do sentimento”. Mas o que quero mostrar é o equívoco costumeiro de alguns líderes ou grupos revolucionários da América Latina: baseando-se na experiência cubana, erigiram em modelo o caminho (a luta armada), transplantaram a forma (a guerrilha), e tomaram ambas pelo resultado alcançado (a revolução socialista). Portanto, diante dos equívocos, faz-se necessário apontar que a criação de focos guerrilheiros exige, para a possibilidade de significativos resultados e eficiência, a existência prévia de focos políticos. Ou seja, a existência de um movimento armado não pode, e não deve, significar a desnecessidade igualmente de um movimento de massas; visto que o primeiro eventualmente só terá significado desde que o segundo já se traduza em realidade (RODRIGUES, 1968). Pontuei essas considerações para que fique mais claro as possibilidades de luta existentes no período tratado, de forma a possibilitar traçar paralelos com a opção pela via armada na Nicarágua, permitindo analisar o processo a luz da conjuntura continental de tentativas revolucionárias.

Assim, retornando à análise da luta nicaragüense, o movimento sandinista adotou a opção armada alicerçado em fatores desestabilizadores comuns a toda América Central: rigidez dos sistemas políticos, agravamento da polarização econômica e social, transformações ideológicas em curso e tensa conjuntura internacional. A “política das armas” (ROUQUIÉ, 1994) da FSLN, exercida sob a forma de um partido-exército, buscou uma resposta imediatista à desilusão com relação às opções democráticas, fruto de uma “consciência desesperada” (TORRES RIVAS, 1987) que emergiu como conseqüência da vitória cubana em 1959.

Até mesmo as divergências internas da FSLN, muito mais flutuações estratégicas do que oposições políticas e/ou ideológicas, se inserem nessa análise de solução rápida ao conflito interno do país. Isto porque ditos fracionamentos táticos agregam diferentes formas de luta, de vários segmentos sociais, que se uniriam somente no momento da etapa final da insurreição.

De maneira geral, considera-se que no fim da década de 70, especialmente após 1978, a política não só nicaragüense, mas também de todo o istmo, se reduzia à guerra (ROUQUIÉ, 1994; MIRES, 2005; RAMIREZ, 1999). Mobilizações populares e violências esporádicas demonstraram a crescente militarização centro-americana. É importante ter esse quadro aclarado devido à dimensão dos conflitos da América Central: não se pode compreender sua envergadura, duração e vicissitudes sem ter em conta sua dimensão internacional, intimamente ligada aos fatores nacionais e regionais.

Nesse sentido, percebe-se que os movimentos inspirados pelo impulso e exemplo da Revolução Cubana tiveram por objetivo derrubar ditaduras pessoais, corporativas ou partidistas. Na emergência de um ambiente de conflito armado, a brutalidade do movimento opositor do Estado, a contra-insurreição, deu às guerrilhas e às milícias uma repercussão popular de grandes dimensões, até mesmo inesperada.

O período de germinação revolucionária corresponde a um momento de crescimento econômico acelerada na América Central. Como expõe Alain Rouquié (1994, p. 86):


En cuanto a las condiciones sociales, las sublevaciones de masas y la aparición de los movimientos armados no se pueden atribuir a la desesperación de uma miseria secular, a la cólera popular ante el estancamiento o la falta de desarrollo, incluso a las “privaciones relativas” debido a una brusca recesión. En realidad, el periodo de germinación revolucionario nace del encuentro entre un crecimiento acelerado que trastorna las relaciones sociales con trabas políticas aparentemente insuperables. Los “veinte gloriosos” de la economía centroamericana, el periodo más brillante del desarrollo del istmo en el siglo XX, confirman la hipótesis de Tocqueville: cuando la economía mejora, las injusticias se vuelven más insoportables, las reivindicaciones más conscientes y la situación puede devenir en revolucionaria.
Portanto, segundo as predições de Rouquié, o fim do dinamismo econômico não é à causa direta ou indireta dos enfrentamentos armados, senão sua conseqüência. Ao analisarmos com maior atenção dita situação, no caso nicaragüense, percebe-se que, na realidade, foi a alta conjuntura dos veinte gloriosos que criou as condições que permitiram as explosões e avanços insurrecionais (para não dizer propícias7), não só por razões políticas evidentes mas também devido ao caráter desestabilizador da modernização acelerada.

Ou seja, as transformações econômicas setoriais provocaram transtornos e geraram tensões de tal forma que a rigidez dos sistemas institucionais não estava em condições de canalizar e integrar as mesmas. Isso porque dita modernização gera desequilíbrios na trama social do setor urbano e conflitos sociais no campo (na área rural, em virtude das transformações na agricultura).

Em países como El Salvador e Guatemala, a pauperização rural tornou-se uma das “fontes” de apoio e estímulo à mudanças político-sociais. Expulsados ou despojados de suas terras por empresas agrícolas capitalizadas, os pequenos camponeses se proletarizaram total ou parcialmente. Dissuadidos pelo desenvolvimento da agroexportação (com atuação direta dos Estados Unidos), a maioria dos camponeses tornaram-se um fomento às guerrilhas rurais. Contudo, na Nicarágua o problema agrário repercutiu de maneira mais amena comparando-se com os países vizinhos. Em função de uma menor concentração de propriedades e de uma burguesia débil, tal fator cumpriu papel relativamente modesto nos conflitos sociais que deram origem à Revolução Sandinista.

Todavia, mesmo sendo a análise acima exposta recorrente e comum à maioria dos estudos a respeito da Nicarágua, há autores que expõe um ponto de vista distinto. Destaca-se Carlos Vilas. Para o mesmo, o desenvolvimento desigual da classe operária (incluindo-se nela a fração de camponeses que proletarizaram-se devido à modernização capitalista) gerado pelo capitalismo agroindustrial interferiu no avanço da luta revolucionária. Contudo, Vilas ressalta que não se pode falar de crise econômica na Nicarágua da década de 1970. É inegável que na segunda metade da década de 70 houve um processo gradativo de pauperização das massas populares, que sem dúvida desempenhou um papel dinamizador na integração de ditas massas à luta revolucionária. No entanto, tais aspectos não são suficientes para a configuração de uma crise econômica. Além disso, uma crise de aspecto econômico não possui muito significado em si mesma se não existirem condições políticas para transformá-la em um fator que impulsione a revolução. Nas palavras de Carlos Vilas (1986, p.56): “A nossa posição sugere que, a meados de 1977, se abre na Nicarágua uma verdadeira crise revolucionária, da qual a crise econômica desencadeada em 1978 – e não antes – será um capítulo ou dimensão”. Ou seja, a queda da ditadura Somoza foi produto de uma crise política revolucionária que, em determinado momento, ativou uma crise econômica. O aspecto econômico teve parcela no fomento à insurreição, mas associado a outros fatores, que em conjunto fortaleceram a FSLN e caminharam até uma ampla transformação:


A nova dinâmica da economia, as contradições introduzidas por ela no seio das classes proprietárias, a veloz e intensa alteração das condições de vida das massas e, por outro lado, as transformações do sistema político regional seriam conjugadas através do desenvolvimento de novas modalidades de luta popular que culminariam, em 1979, no derrocamento da ditadura somozista. (Ibid. p. 13)
Portanto, apesar de análises que o deixam em segundo plano, entendemos que o caráter econômico teve significativa parcela de participação na constituição do quadro geral da Nicarágua, e também da América Central, no qual a luta armada e os movimentos de tendência insurrecional emergiram com considerável intensidade.

A questão da necessidade da luta armada também foi pregada no âmbito de uma estratégia continental, através da Organização de Solidariedade aos povos da América Latina, África e Ásia. Na Declaração Final da I Conferência da OLAS8, realizada em 1967 na cidade de Havana em Cuba, especificamente nos artigos V, VI e VII, a luta armada foi pontuada como linha fundamental da Revolução na América Latina:


V – Que a luta armada constitui a linha fundamental da revolução na América Latina.

VI – Que todas as demais formas devem servir e não retardar o desenvolvimento da linha fundamental de luta armada.

VII – Que para a maioria dos países do Continente o problema está em organizar, iniciar, desenvolver e culminar a luta armada e isso constituiu a tarefa imediata e fundamental do movimento revolucionário.
Porém, dita posição pode ser questionada e colocada em choque com preposições marxistas-leninistas, tão defendidas e cultuadas por líderes revolucionários latino-americanos, uma vez que de acordo com Marx e Lenin a revolução não poderia ser feita sob medida, nem realizada de fora para dentro. Essa posição simplista da OLAS também se enquadra em uma das maiores críticas de Ernesto ‘Che’ Guevara, na qual condenava a tendência mecânica em transformar a América Latina em uma uniformidade que jamais foi9. Então, um problema fica evidenciado nessa perspectiva de luta revolucionária da segunda metade do século XX: a confusão entre a questão dos caminhos da revolução e a questão das formas de luta. Sabe-se que não há uma maneira de “fazer” a revolução, mas várias. Entramos mais uma vez no ponto referente à criação das condições objetivas e subjetivas para o desencadeamento da ação revolucionária: a simplificação do processo está muitas vezes ligada à tendência em separar reforma e revolução, de modo que ou se fica no imobilismo ou se limita a luta pela via armada. Entender a necessidade de ruptura do sistema é essencial, mas a aplicação da luta armada perpassa igualmente pelo trabalho político das massas e pela preparação organizada de todo o processo, levando em consideração todas as particularidades do país ou região, de forma a não simplesmente aplicar modelos prévios e estáticos. A Nicarágua deu provas da importância da organização e da consideração das especificidades locais (ainda que a FSLN tenha notado esses aspectos após erros em anos de luta) na escolha da luta armada.

A opção pela via armada foi mais intensamente defendida pelos terceiristas, adeptos da Tendência Insurrecional. Diferentemente dos dois outros grupos (Tendência Proletária e Guerra Popular Prolongada), os terceiristas defendiam um ritmo “mais acelerado” no processo insurrecional. Segundo Humberto Ortega (1980), era necessário capitalizar a rápida radicalização que emergira na sociedade nicaragüense. Tratava-se de agir conforme expõe Orlando Núñez Soto (1988):


En América Latina no se puede esperar que las condiciones objetivas originen lãs contradicciones, y que, a su vez, engendren la consciencia marxista a partir de la cual queremos que se guíe nuestra lucha revolucionaria (...) No es posible posponer la toma del poder en beneficio del proletariado hasta el día ilusorio en que acuda a nosotros un ejército de trabajadores luciendo el uniforme de proletario...

A luta armada mostrava-se como a única opção eficiente para o objetivo político e geral da maioria da população, catalisada pela liderança estratégica da Frente Sandinista de Liberación Nacional. A guerra revolucionária que se pretendia só poderia ter como fim estratégico o aniquilamento total do inimigo10 – no caso nicaragüense, a opressora ditadura somozista, desmobilizando-o militarmente e acabando com sua vontade de resistência. E, é nesse cenário sócio-político que a insurreição popular emergiria como tática primordial e final da guerra revolucionária. No próximo capítulo, trataremos especificamente da insurreição como instrumento do movimento revolucionário, suas origens e aplicações históricas, bem como seus princípios e bases estratégicas.




Referências bibliográficas

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LÖWY, M. O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999
MIRES, F. La rebelión permanente: las revoluciones sociales em América Latina. Delegación Coyoacán: Siglo Veintiuno, 2005.
ORTEGA SAAVEDRA, H. 50 anos de luta sandinista. São Paulo: Quilombo, 1980.
RAMIREZ, S. Adiós Muchachos: una memoria de la revolución sandinista. México: Aguilar, 1999.
RODRIGUES, M.U. Opções da revolução na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
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SAINT-PIERRE, H. A política armada: fundamentos da guerra revolucionária. São Paulo: UNESP, 2000.
TORRES-RIVAS, E. Centroamérica: la democracia posible. San José (Costa Rica): EDUCA; FLACSO, 1987
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VILAS, C. Nicarágua hoje: análise da Revolução Sandinista. São Paulo: Vértice, 1986.


ZIMMERMANN, M. A revolução nicaragüense. São Paulo: UNESP, 2006.

1 Graduando em História; Faculdade de História, Direito e Serviço Social – Unesp/campus Franca.

2 Episódio que envolveu inúmeros protestos e motins após o assassinato do líder liberal e candidato a presidente Jorge Eliécer Gaitán em 9 de abril de 1948 na cidade de Bogotá, Colômbia. Acontecimentos posteriores desencadearam um período de repressão por parte do governo, conhecido como “La Violencia”, que durou aproximadamente até 1958.

3 Em referência à série de movimentos de protesto na Argentina contra a ditadura de Juan Carlos Onganía. Ocorrido em 29 de maio de 1969 na cidade de Córdoba, o Cordobazo teve um efeito multiplicador de manifestações violentas contra o governo militar, sendo fator determinante para o debilitamento e posterior destituição de Onganía do poder. O Rosariazo teve espaço entre os meses de maio e setembro de 1969, na cidade de Rosario, envolvendo greves e diversas manifestações.

4 Especialmente ZIMMERMANN, Matilde. A Revolução Nicaragüense. São Paulo: Unesp, 2006; VILAS, Carlos. Nicarágua, hoje. São Paulo: Vértice, 1986; ORTEGA SAAVEDRA, Humberto. 50 anos de luta sandinista. São Paulo: Quilombo, 1980 e RAMÍREZ, Sérgio. Adiós Muchachos. México: Aguilar, 1999.

5 Poeta nicaragüense que viveu de 1867 a 1916, de importante faceta social e cívica. Alguns de seus poemas foram cantados por inúmeros combatentes sandinistas.

6 Benjamín Zeledón, político e militar nicaragüense; lutou contra o governo conservador de Adolfo Díaz, que era apoiado pelos EUA, morreu em combate em 1912. Foi uma grande influência de luta para Sandino.

7 Evitamos o uso do termo “propício” ou “condições propícias” para não cair exclusiva e unicamente em uma análise marxista, limitando ou restringindo a análise aqui proposta.

8 O texto completo da Declaração Final da I Conferência da OLAS foi consultado no livro: LÖWY, Michael. O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999. Especificamente o capítulo A Declaração da OLAS (1967).

9 Ver: ‘CHE’ GUEVARA, Ernesto. Textos revolucionários. São Paulo: Centro Editorial Latino-Americano, 1980.

10 A respeito da aniquilação total do inimigo, pode-se remeter à idéia de guerra total, exposta por Eric Hobsbawm em: Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.





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