Veronika Decide Morrer



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Veronika Decide Morrer


Veronika - Paulo Coelho


 

Primeiro capítulo do novo livro de


Paulo Coelho
que trata do limite entre a realidade e a loucura:
VERONIKA DECIDE MORRER
Disponível, em edições de papel, nas melhores livrarias.


Fonte digital:
Website de Paulo Coelho
www.paulocoelho.com.br


Copyright
© 2000 Paulo Coelho


Veronika Decide Morrer

ÍNDICE



O Autor
Primeiro Capítulo de Veronika Decide Morrer
Entrevista de Paulo Coelho a José Castello


PARABÉNS, PAULO COELHO!

«São Paulo 14-03-200 – O brasileiro Paulo Coelho e a chilena Isabel Allende foram dois dos vencedores da 48.ª edição do prêmio Bancarella, outorgado pelos livreiros italianos. O resultado, divulgado ontem, em Parma, levou em conta o sucesso de vendas de 'A Filha da Fortuna', de Isabel Allende, e 'Veronika Decide Morrer', de Paulo Coelho.»


[fonte: www.agestado.com.br]

Paulo Coelho

     


O escritor brasileiro Paulo Coelho nasceu em 1947, na cidade do Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou com diretor e autor de teatro, compositor, e jornalista.


     Paulo Coelho escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da música brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como ''Eu nasci há dez mil anos atrás'', ''Gita'', ''Al Capone'', entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.
     Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.
     Em 1982, editou ele mesmo seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, que não teve qualquer repercussão. Em 1985, participou do livro O Manual Prático do Vampirismo, que mais tarde mandou recolher, por considerar, segundo suas próprias palavras, ''de má qualidade''.
     Em 1986, Paulo Coelho fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, cuja experiência seria descrita em seu livro O diário de um mago. No ano seguinte (1988), publicou O Alquimista, que – apesar de sua lenta vendagem inicial, o que provocou a desistência do seu primeiro editor – se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos incluem Brida (1990), As Valkírias (1992), Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994), a coletana das melhores colunas publicadas na Folha de São Paulo, Maktub (1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996) e O manual do guerreiro da luz (1997).
     Fez também a adaptação de O dom supremo (Henry Drummond) e Cartas de Amor de um profeta (Khalil Gibran) Seu novo livro, Veronika decide morrer (1998) trata do tema da loucura e da necessidade de se encontrar uma alternativa para as pessoas que enfrentam, muitas vezes, os preconceitos dos outros – unicamente porque pensam diferente.
     Paulo Coelho vendeu, até junho de 1998, um total de 21 milhões de exemplares, e, de acordo com ''Le Nouvel Economiste'', está entre os 15 autores mais vendidos do mundo. Autor de um trabalho polêmico, tem críticos apaixonados – a favor em contra.
     O alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países, e vendeu, até o momento, 9.5 milhões de exemplares. Tem sido elogiado por pessoas tão diferentes como o prêmio Nobel Kenzaburo e a cantora Madonna, que o considera seu livro favorito. Já foi fonte de inspiração de vários projetos – como um musical no Japão, peças de teatro na França, Bélgica, USA, Turquia, Itália, Suíça. Agora é tema de duas sinfonias (Itália e USA), e teve seu texto ilustrado pelo famoso desenhista Moebius (autor, entre outros, dos cenários de O Quinto Elemento e Alien).
     Seus títulos já atingiram a lista de best-sellers nos seguintes países: ARGENTINA # 1, AUSTRALIA # 1, AUSTRIA # 1, BELGIUM # 1, BRAZIL # 1, BULGARIA, CANADA # 1, CHILE, COLOMBIA, CROACIA # 1, FRANCE # 1, GERMANY, GREECE # 1, ISRAEL # 1, ITALY # 1, MEXICO # 1, NORWAY # 1, POLAND, PORTUGAL # 1, PUERTO RICO, SLOVENIA # 1, SPAIN, SWITZERLAND # 1, TAIWAN, TURKEY # 1, UNITED KINGDOM, UNITED STATES , URUGUAY, YUGOSLAVIA # 1, VENEZUELA

Traduções

     Está traduzido para albanês, árabe, búlgaro, catalão, chinês, croata, tcheco, dinamarquês, holandês, Inglês, estoniano, finlandês, francês, galego, alemão, grego, hebreu, húngaro, islandês, italiano, japonês, coreano, lituano, letoniano, macedônico, norueguês, polonês, português (Portugal), rumeno, russo, eslovaco, esloveno, espanhol, sueco, mandarim, tailandês, turco, Urdo, yugoslavo.



Alguns premios literários

     ''Chevalier of Arts and Letters'' (France '96) ''Flaiano International Award'' (Italy '96) ''Super Grinzane Cavour Book Award'' (Italy '96) ''Prix Lectrices d'Elle'' (France '95) ''Golden Book'' (Yugoslavia '95, '96, '97) Finalist for the ''International IMPAC Literary Award'' (Ireland, '97)



Principais medalhas

     Cavaleiro das Artes e das Letras, Governo Francês, 1996 Comendador da Ordem do Rio Branco, Gov. do Brasil, 1998. Paulo Coelho é atualmente conselheiro dos programas da UNESCO ''Rotas da Fé'' e ''Diálogo Intercultural e convergências espirituais'', Crystal Award 1999 – World Economic Forum.



Informação Suplementar

     Data de nascimento: 24/8/47 as 00:05, RJ. Endereço Postal: Caixa Postal 43 003 22052 Rio de Janeiro/RJ Brasil Fax: (021) 521 3178

Agente:
Sant Jordi Asociados C/Lull 84, 1º , 1º Barcelona 08005 – Espanha
santjo@conecta.es

Veronika Decide Morrer
Paulo Coelho


Primeiro capítulo do novo livro de Paulo Coelho que trata do limite entre a realidade e a loucura.

     No dia 11 de novembro de 1997, Veronika decidiu que havia – afinal! – chegado o momento de se matar. Limpou cuidadosamente seu quarto alugado num convento de freiras, desligou a calefação, escovou os dentes e deitou-se.

     Na mesa de cabeceira, pegou as quatro caixas de comprimidos para dormir. Ao invés de amassa-los e misturar com água, resolveu toma-los um a um, já que existe uma grande distancia entre a intenção e o ato, e ela queria estar livre para arrepender-se no meio do caminho. Entretanto, a cada comprimido que engolia, sentia-se mais convencida: no final de cinco minutos, as caixas estavam vazias.
     Como não sabia exatamente quanto tempo ia demorar para perder a consciência, deixara em cima da cama um a revista francesa Homme, edição daquele mês, recém chegada na biblioteca onde trabalhava. Embora não tivesse nenhum interesse especial por informática, ao folhear a revista descobrira um artigo sobre um jogo de computador (CD-Rom, como chamavam) criado Paulo Coelho, um escritor brasileiro que tivera oportunidade de conhecer numa conferencia no café do hotel Grand Union. Os dois haviam trocado algumas palavras, e ela terminara sendo convidada por seu editor para jantar. Mas o grupo era grande, e não houve possibilidade de aprofundar nenhum assunto.
     O fato de haver conhecido o autor, porém, levava-a a pensar que ele era parte do seu mundo, e ler uma matéria sobre seu trabalho podia ajudar a passar o tempo. Enquanto esperava a morte, Veronika começou a ler sobre informática, um assunto pelo qual não tinha o mínimo interesse – e isto combinava com tudo o que fizera a vida inteira, sempre procurando o que estava mais fácil, ou ao alcance da mão. Como aquela revista, por exemplo.
     Para sua surpresa, porém, a primeira linha do texto tirou-a de sua passividade natural (os calmantes ainda não tinham dissolvido em seu estômago, mas Veronika já era passiva por natureza), e fez com que, pela primeira vez em sua vida, considerasse como verdadeira uma frase que estava muito em moda entre seus amigos: "nada neste mundo acontece por acaso".
     Por que aquela primeira linha, justamente num momento em que havia começado a morrer? Qual a mensagem oculta que tinha diante dos seus olhos, se é que existem mensagens ocultas ao invés de coincidências?.
     Embaixo de uma ilustração do tal jogo de computador, o jornalista começava sua matéria perguntando:
     "Onde é a Eslovénia?"

     "Ninguém sabe onde é a Eslovénia" pensou. "Nem isso."


     Mas a Eslovénia mesmo assim existia, e estava lá fora, lá dentro, nas montanhas a sua volta e na praça diante dos seus olhos: a Eslovénia era seu país.
     Deixou a revista de lado, não lhe interessava agora ficar indignada com um mundo que ignorava por completo a existência dos eslovenos; a honra de sua nação não lhe dizia mais respeito. Era hora de ter orgulho de si mesma, saber que fora capaz, finalmente tivera coragem, estava deixando esta vida: que alegria! E estava fazendo isso da maneira com que sempre sonhara – através de comprimidos, que não deixam marcas.
     Veronika procurara pelos comprimidos por quase seis meses. Achando que nunca iria consegui-los, chegara a considerar a possibilidade de cortar os pulsos. Mesmo sabendo que ia terminar enchendo o quarto de sangue, deixando as freiras confusas e preocupadas, um suicídio exige que as pessoas pensem primeiro em si mesmas, e depois nos outros. Estava disposta a fazer todo o possível para que sua morte não causasse muito transtorno, mas se cortar os pulsos fosse a única possibilidade, então não havia jeito – e as freiras que limpassem o quarto, e esquecessem logo a história, senão teriam dificuldades de aluga-lo de novo. Afinal de contas, mesmo no final do século XX, as pessoas ainda acreditavam em fantasmas.
     É claro que ela também podia atirar-se de um dos poucos prédios altos de Lubljana, mas e o sofrimento extra que tal atitude terminaria causando aos seus pais? Além do choque de descobrir que a filha morrera, ainda seriam obrigados a identificar um corpo desfigurado: não, esta era uma solução pior do que sangrar até morrer, pois deixaria marcas indeléveis em duas pessoas que só queriam o seu bem.
     "Com a morte da filha eles terminarão se acostumando. Mas um crânio esmagado deve ser impossível de esquecer".

     Tiros, quedas de prédio, enforcamento, nada disso combinava com sua natureza feminina. As mulheres, quando se matam, escolhem meios muito mais românticos – como cortar os pulsos, ou tomar uma dose excessiva de comprimidos para dormir. As princesas abandonadas, e as atrizes de Hollywood deram bastante exemplos a este respeito.


     Veronika sabia que a vida era uma questão de esperar sempre a hora certa para agir. E assim foi: dois amigos seus, sensibilizados com suas queixas de que não conseguia mais dormir, arranjaram – cada um – duas caixas de uma droga poderosa, que era utilizada por músicos de uma boate local. Veronika deixou as quatro caixas na sua mesa de cabeceira durante uma semana, namorando a morte que se aproximava, e despedindo-se – sem qualquer sentimentalismo – daquilo que chamavam Vida.

     Agora estava ali, contente de ter ido até o final, e entediada porque não sabia o que fazer com o pouco tempo que lhe restava.


     Voltou a pensar no absurdo que acabara de ler: como é que um artigo de computador pode começar com esta frase tão idiota: "Onde é a Eslovénia?"
     Como não achou nada mais interessante para preocupar-se, resolveu ler a matéria até o fim, e descobriu: o tal jogo tinha sido produzido na Eslovénia – este estranho país que ninguém parecia saber onde era, exceto quem morava ali – por causa da mão de obra mais barata. Há alguns meses atrás, ao lançar o produto, a produtora francesa dera uma festa para jornalistas de todo o mundo, num castelo em Vled.
     Veronika lembrou-se de ter escutado algo a respeito da festa, que fora um acontecimento especial na cidade: não apenas pelo fato de que o castelo tinha sido redecorado para aproximar-se ao máximo do ambiente medieval do tal CD-Rom, como também pela polemica que se seguira na imprensa local: havia jornalistas alemães, franceses, ingleses, italianos, espanhóis – mas nenhum esloveno tinha sido convidado.
     O articulista de Homme – que viera a Eslovénia pela primeira vez, certamente com tudo pago, e decidido a passar o seu tempo cortejando outros jornalistas, dizendo coisas supostamente interessantes, comendo e bebendo de graça no castelo – resolvera começar a matéria fazendo uma piada que devia agradar muito aos sofisticados intelectuais do seu país. Deve, inclusive, ter contado aos seus amigos de redação algumas histórias inverídicas sobre os costumes locais, ou sobre a maneira rudimentar como as mulheres eslovenas se vestem.
     Problema dele. Veronika estava morrendo, e suas preocupações deviam ser outras, como saber se existe vida após a morte, ou a que horas o seu corpo seria encontrado. Mesmo assim – ou talvez justamente por causa disso, da importante decisão que tomara – aquele artigo a estava incomodando.

     Olhou pela janela do convento que dava para a pequena praça de Lubljana. "Se não sabem onde é a Eslovénia, Lubljana deve ser um mito", pensou. Como a Atlântida, ou a Lemuria, ou os continentes perdidos que povoam a imaginação dos homens. Ninguém começaria um artigo, em nenhum lugar do mundo perguntando onde era o monte Everest, mesmo que nunca tivessem estado lá No entanto, em plena Europa, um jornalista de uma revista importante não se envergonhava em fazer uma pergunta daquelas, porque sabia que a maior parte dos seus leitores não sabia onde era a Eslovénia. E muito menos Lubljana, sua capital.


     Foi então que Veronika descobriu uma maneira de passar o tempo – já que dez minutos haviam transcorrido, e ainda não notara qualquer diferença em seu organismo. O último ato de sua vida ia ser uma carta para aquela revista, explicando que a Eslovénia era uma das cinco republicas resultantes da divisão da antiga Yugoslávia.
     Deixaria a carta como seu bilhete de suicídio. De resto, não daria nenhuma explicação sobre os verdadeiros motivos de sua morte.
     Quando encontrassem seu corpo, concluiriam que se matou porque uma revista não sabia onde era o seu país. Riu com a idéia de ver uma polemica nos jornais, com gente a favor e contra seu suicídio em honra da causa nacional. E ficou impressionada com a rapidez com que mudara de idéia, já que momentos antes pensara exatamente o oposto – o mundo e os problemas geográficos já não lhe diziam respeito.

     Escreveu a carta. O momento de bom humor fez com que quase mudasse de idéia a respeito da morte, mas já havia tomado os comprimidos, era tarde demais para voltar.


     De qualquer maneira, já tivera momentos de bom humor como esse, e não estava se matando porque era uma mulher triste, amarga, vivendo em constante depressão. Passara muitas tardes de sua vida caminhando, alegre, pelas ruas de Lubljana, ou olhando – da janela do seu quarto no convento – a neve que caia na pequena praça com a estatua do poeta. Certa vez ficara quase um mês flutuando nas nuvens, porque um homem desconhecido, no centro daquela mesma praça, lhe dera uma flor.
     Acreditava ser uma pessoa absolutamente normal. Sua decisão de morrer devia-se a duas razoes muito simples, e tinha certeza que, se deixasse um bilhete explicando, muita gente ia concordar com ela.
     A primeira razão: tudo em sua vida era igual, e – uma vez passada a juventude – a tendência era que tudo passasse a decair, a velhice começasse a deixar marcas irreversíveis, as doenças chegassem, os amigos partissem. Enfim, continuar vivendo não acrescentava nada; ao contrário, as possibilidades de sofrimento aumentavam muito.
     A segunda razão era mais filosófica: Veronika lia jornais, assistia TV, e estava a par do que se passava no mundo. Tudo estava errado, e ela não tinha como consertar aquela situação – o que lhe dava uma sensação de inutilidade total.

     Daqui a pouco, porém, teria a última experiência de sua vida, e esta prometia ser muito diferente: a morte. Escreveu a tal carta para a revista, deixou o assunto de lado, concentrou-se em coisas mais importantes e mais próprias para o que estava vivendo – ou morrendo – naquele minuto.


     Procurou imaginar como seria morrer, mas não conseguiu chegar a nenhum resultado.
     De qualquer maneira, não precisava se importar com isso, pois saberia daqui a poucos minutos.
     Quantos minutos?
     Não tinha idéia. Mas deliciava-se com o fato de que ia conhecer a resposta para o que todos se perguntavam: Deus existe?
     Ao contrário de muita gente, esta não fora a grande discussão interior de sua vida. No antigo regime comunista, a educação oficial dizia que a vida acabava com a morte, e ela terminou se acostumando com a idéia. Por outro lado, a geração dos seus pais e de seus avós, ainda freqüentava a igreja, fazia orações e peregrinações, e tinha a mais absoluta convicção que Deus prestava atenção no que diziam.
     Aos 24 anos, depois de ter vivido tudo que lhe fora permitido viver – e olha que não foi pouca coisa! – Veronika tinha quase certeza de que tudo acabava com a morte. Por isso escolhera o suicídio: liberdade, enfim. Esquecimento para sempre.
     NO fundo do seu coração, porém, restava a dúvida: e se Deus existe? Milhares de anos de civilização faziam do suicídio um tabu, uma afronta a todos os códigos religiosos: o homem luta para sobreviver, e não para entregar-se. A raça humana deve procriar. A sociedade precisa de mão-de-obra. Um casal necessita uma razão para continuar junto, mesmo depois que o amor deixou de existir, e um país precisa de soldados, políticos, e artistas.
     "Se Deus existe, o que eu sinceramente não acredito, entenderá que há um limite para a compreensão humana. Foi Ele quem criou esta confusão, onde há miséria, injustiça, ganância, solidão. Sua intenção deve ter sido ótima, mas os resultados são nulos; se Deus existe, Ele será generoso com as criaturas que desejaram ir embora mais cedo desta Terra, e pode até mesmo pedir desculpas por nos ter obrigado a passar por aqui."
     Que se danassem os tabus e superstições. Sua religiosa mãe dizia: Deus sabe o passado, o presente e o futuro. Neste caso, já lhe havia colocado neste mundo com plena consciência de que ela terminaria por se matar, e não iria ficar chocado com seu gesto.

     Veronika começou a sentir um leve enjôo, que foi crescendo rapidamente.


     Em poucos minutos, já não podia mais concentrar-se na praça do lado de fora de sua janela. Sabia que era inverno, devia ser em torno de quatro horas da tarde, e o sol estava se pondo rápido. Sabia que outras pessoas continuariam vivendo; neste momento um rapaz passava diante de sua janela, e a viu, sem entretanto ter a menor idéia de que ela estava prestes a morrer. Um grupo de músicos bolivianos (onde é a Bolívia? Por que os artigos de revistas não perguntam isso?) tocava diante da estátua de France Preseren, o grande poeta esloveno, que marcara profundamente a alma do seu povo.
     Será que conseguiria escutar até o fim a música que vinha da praça? Seria uma bela recordação desta vida: o entardecer, a melodia que contava os sonhos do outro lado do mundo, o quarto aquecido e aconchegante, o rapaz bonito e cheio de vida que passava, resolvera parar, e agora a encarava. Como percebia que o remédio já estava fazendo efeito, era a última pessoa que a estava vendo.
     Ele sorriu. Ela retribuiu o sorriso – não tinha nada a perder. Ele acenou; ela resolveu fingir que estava olhando outra coisa, afinal o rapaz estava querendo ir longe demais. Desconcertado, ele continuou seu caminho, esquecendo para sempre aquele rosto na janela.
     Mas Veronika ficou contente de, mais uma vez, ter sido desejada. Não era por ausência de amor que estava se matando. Não era por falta de carinho de sua família, nem problemas financeiros, nem uma doença incurável.
     Veronika decidira naquela tarde bonita de Lubljana, com músicos bolivianos tocando na praça, com um jovem passando diante da sua janela, e estava contente com o que os seus olhos viam e seus ouvidos escutavam. Mais contente ainda estava, por não ter que ficar vendo aquelas mesmas coisas por mais trinta, quarenta, ou cinquenta anos – pois iam perder toda a sua originalidade, e se transformar na tragédia de uma vida onde tudo se repete, e o dia anterior é sempre igual ao seguinte.

     O estômago, agora, começava a dar voltas, e ela sentia-se muito mal. "Engraçado, pensei que uma dose excessiva de calmantes me faria dormir imediatamente". Mas o que estava acontecendo era um estranho zumbido nos ouvidos, e a sensação de vomito.


     "Se vomitar, não morro".
     Decidiu esquecer as cólicas, procurando concentrar-se na noite que caia com rapidez, nos bolivianos, nas pessoas que começavam a fechar suas lojas e sair. O barulho no ouvido tornava-se cada vez mais agudo, e – pela primeira vez desde que tomara os comprimidos, Veronika sentiu medo, um medo terrível do desconhecido.
     Mas foi rápido. Logo perdeu a consciência.

     Quando abriu os olhos, Veronika não pensou: "isso deve ser o céu". O céu jamais utilizaria uma lâmpada fluorescente para iluminar o ambiente, e a dor – que apareceu uma fração de segundo depois – era típica da Terra. Ah, esta dor da Terra – ela é única, não pode ser confundida com nada.


     Quis mexer-se, e a dor aumentou. Uma série de pontos luminosos apareceram, e mesmo assim Veronika continuou entendendo que aqueles pontos não eram estrelas do Paraíso, mas conseqüências do seu intenso sofrimento.
     — Recuperou a consciência – escutou uma voz de mulher. – Agora você está com os dois pés no inferno, aproveite.
     Não, não podia ser, aquela voz a estava enganando. Não era o inferno – porque sentia muito frio, e notara que estava com tubos plásticos saindo da boca e do nariz. Um destes tubos – o que estava enfiado por sua garganta abaixo – lhe dava a sensação de sufocamento.
     Quis mexer-se para retira-lo, mas os braços estavam amarrados.
     — Estou brincando, não é o inferno – continuou a voz. – É pior que o inferno onde, aliás, eu nunca estive. É Villete.
     Apesar da dor e da sensação de sufocamento, Veronika – numa fração de segundo – entendeu o que havia acontecido. Tentara o suicídio, e alguém chegara a tempo para salva-la. Podia ter sido uma freira, uma amiga que resolvera aparecer sem avisar, alguém que se lembrara de entregar algo que ela já esquecera haver pedido. O fato é que tinha sobrevivido, e estava em Villete.

     Villete, o famoso e temido asilo de loucos, que existia desde 1991, ano da independência do país. Naquela época, acreditando que a divisão da antiga Yugoslávia se daria através de meios pacíficos (afinal, a Eslovénia enfrentara apenas onze dias de guerra), um grupo de empresários europeus conseguiu licença para instalar um hospital de doenças mentais num antigo quartel, abandonado por causa dos altos custos de manutenção.


     Aos poucos, porém, as guerras começaram: primeiro a Croácia, depois a Bósnia. Os empresários ficaram preocupados: o dinheiro para o investimento viera de capitalistas espalhados por diversas partes do mundo, cujos nomes nem sabiam – de modo que era impossível sentar-se diante deles, dar algumas desculpas, pedir que tivessem paciência. Resolveram o problema adotando práticas nada recomendáveis para um asilo psiquiátrico, e Villete passou a simbolizar – para a jovem nação que acabara de sair de um comunismo tolerante – o que havia de pior no capitalismo: bastava pagar para se conseguir uma vaga.
     Muitas pessoas, quando queriam livrar-se de algum membro da família por causa de discussões sobre herança (ou comportamento inconveniente), gastavam uma fortuna – e conseguiam um atestado médico que permitia a internação dos filhos ou pais criadores de problemas. Outros, para fugir de dívidas, ou justificar certas atitudes que podiam resultar em longos termos de prisão, passavam algum tempo no asilo e saiam livres de qualquer cobrança ou processo judicial.

     Villete, o lugar de onde ninguém jamais havia fugido. Que misturava os verdadeiros loucos – enviados ali pela justiça, ou por outros hospitais – com aqueles que eram acusados de loucura, ou fingiam insanidade. O resultado era uma verdadeira confusão, e a imprensa a toda hora publicava histórias de maus-tratos e abusos, embora jamais tivesse permissão de entrar e ver o que estava acontecendo. O governo investigava as denúncias, não arranjava provas, os acionistas ameaçavam espalhar que era difícil fazer investimentos externos ali, e a instituição conseguia manter-se de pé, cada vez mais forte.



     — Minha tia suicidou-se há alguns meses – continuou a voz feminina. – Ela passou quase oito anos sem vontade de sair do quarto, comendo, engordando, fumando, tomando calmantes, e dormindo a maior parte do tempo. Tinha duas filhas e um marido que a amava.
     Veronika tentou mover sua cabeça na direção da voz, mas era impossível.
     — Só a vi reagir uma única vez: quando o marido arranjou uma amante. Então ela fez escândalos, perdeu alguns quilos, quebrou copos e – por semanas inteiras – não deixava a vizinhança dormir com seus gritos. Por mais absurdo que pareça, acho que foi sua época mais feliz: estava lutando por alguma coisa, sentia-se viva e capaz de reagir ao desafio que se colocava diante dela.
     "O que eu tenho a ver com isso?" pensava Veronika, incapaz de dizer algo. "Eu não sou sua tia, não tenho marido!"
     — O marido terminou largando a amante – continuou a mulher. – Minha tia, pouco a pouco, voltou a sua passividade habitual. Um dia, me telefonou dizendo que estava disposta a mudar de vida: parara de fumar. Na mesma semana, depois de aumentar o numero de calmantes por causa da ausência do cigarro, avisou a todos que estava disposta a se matar.
     "Ninguém acreditou. Certa manhã, ela me deixou um recado na secretária eletrônica, despedindo-se, e matou-se com gás. Eu ouvi esta mensagem várias vezes: nunca a escutara sua voz tão tranquila, conformada com o próprio destino. Dizia que não era nem feliz nem infeliz, e por isso não aguentava mais.
     Veronika sentiu compaixão pela mulher que contava a história, e que parecia tentar compreender a morte da tia. Como julgar – num mundo onde se tenta sobreviver a qualquer custo – aquelas pessoas que decidem morrer?
     Ninguém pode julgar. Cada um sabe a dimensão do próprio sofrimento, ou da ausência total de sentido de sua vida. Veronika queria explicar isso, mas o tubo em sua boca fez com que engasgasse, e a mulher veio ajuda-la.
     Viu-a debruçando-se sobre o seu corpo amarrado, entubado, protegido contra a sua vontade e o seu livre arbítrio de destruí-lo. Mexeu de um lado para o outro com a cabeça, implorando com seus olhos para que tirassem aquele tubo, e a deixassem morrer em paz.
     — Você está nervosa – disse a mulher. — Não sei se está arrependida, ou se ainda quer morrer, mas isso não me interessa. O que me interessa é cumprir com minha função: no caso do paciente mostrar-se agitado, o regulamento exige que eu lhe aplique um sedativo.
     Veronika parou de debater-se, mas a enfermeira já lhe aplicava uma injeção no braço. Em pouco tempo estava de volta a um mundo estranho, sem sonhos, onde a única coisa que se lembrava era o rosto da mulher que acabara de ver: olhos verdes, cabelo moreno, e um ar totalmente distante – de quem faz as coisas porque tem que fazer, sem jamais perguntar por que o regulamento manda isso ou aquilo.

Primeira Entrevista de Paulo Coelho, concedida a O Estado de São Paulo, por ocasião do lançamento de Veronika

Sábado,
25 de julho de 1998



Escritor propõe 'loucura controlada' em novo livro

Paulo Coelho defende busca do `terceiro caminho', embora saiba que isso seja ainda pouco comum

JOSÉ CASTELLO

Entre 1965 e 1967, Paulo Coelho conheceu de perto o universo da loucura. Nesse período, ele foi internado por três vezes pela família na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio. Não houve motivo especial para essas internações, afora o fato de ele ter sido um rapaz que oscilava entre a timidez e a extroversão e fugia, assim, aos modelos vigentes de normalidade. Quando não se sabe o que fazer com a diferença, uma solução é encarcerá-la. Foi o que seus pais fizeram, decisão que os fez carregar, durante toda a vida, uma dolorosa culpa.

Agora, o escritor achou que chegara o momento, finalmente, de passar essa experiência a limpo. Pensou, primeiro, numa autobiografia em moldes tradicionais, chegou a rascunhar 50 páginas, mas as jogou no lixo. Recomeçou substituindo o gênero biográfico pela ficção e distribuindo pedaços de si mesmo entre os principais personagens do livro. O resultado é o romance que o leitor terá nas mãos.

Veronika Decide Morrer passa-se em Lubljana, a pequena capital da Eslovênia, onde Paulo Coelho já esteve por duas vezes: para lançar O Alquimista, em 1995, e depois para o lançamento de À Margem do Rio Piedra, em 1996. ''Mas em nenhuma das duas viagens passou pela minha cabeça que, um dia, eu escreveria um livro passado em Lubljana'', diz.

Pouco sabemos, no Brasil e em quase todo o mundo, a respeito da Eslovênia, uma das repúblicas resultantes da recente divisão da Iugoslávia, entre as quais a mais famosa é a Croácia, que a Copa da França acaba de apresentar ao mundo. Esse desconhecimento, porém, não o perturbou. No romance, Veronika, depois de ingerir os tranqüilizantes e enquanto espera a morte, põe-se a folhear uma revista. Encontra a publicidade de um jogo de computador que começa com uma pergunta: ''Onde é a Eslovênia?'' A mesma pergunta se repete, com ironia, na abertura de um artigo.

Veronika decide, então, que o último ato de sua vida será escrever uma carta para a revista explicando que a Eslovênia é uma das cinco repúblicas resultantes da divisão da Iugoslávia. A carta será seu bilhete de suicídio – e concluirão, assim, que ela se matou porque uma revista não sabia onde seu país ficava. Enquanto isso, os motivos verdadeiros, que ela mesma não sabe nomear muito bem, serão esquecidos.

O brasileiro Paulo Coelho pôde escolher a desconhecida Eslovênia como cenário de seu livro sem que isso fosse considerado um risco ou uma ameaça às vendas. Ele é, hoje, um cidadão do mundo e age como tal. Na semana passada, a reportagem de capa da revista semanal do Corriere della Sera foi dedicada a uma nova coleção de Gianni Versace inspirada no Guerreiro de Luz – um personagem de Paulo Coelho. Seus livros estão traduzidos em 39 idiomas. Ele já chegou às listas de mais vendidos de 18 países. Já vendeu 21 milhões de exemplares e está entre os 15 autores que mais vendem no mundo. O mundo é sua casa.

No dia 20, Paulo Coelho embarcará para a Nova Zelândia, em seguida para a Austrália, depois para o Japão, logo depois para Israel e, por fim, vai à Iugoslávia. Tem de estar de volta ao Rio em 8 de outubro, porque já tem duas entrevistas marcadas: uma com a TV francesa, que está realizando um documentário especial sobre ele e deseja gravar parte das entrevistas no Rio, e outra com a TV alemã.

Ficará poucos dias no País. Logo em seguida, ele viajará para o Leste europeu, onde já tem compromissos marcados na Polônia, na República Checa, na Eslováquia, na Eslovênia e na Bulgária. Por fim, antes de retornar ao Brasil para as festas de fim de ano, ainda vai à Finlândia e depois, a convite do Instituto Leon Tolstoi, à Rússia.

Paulo Coelho continua multiplicando, de forma acelerada, sua influência em todo o planeta. Na tarde do domingo, ele concedeu ao Estado o privilégio da primeira entrevista sobre seu novo livro. A conversa, por telefone, levou quase duas horas. Minha longa lista de perguntas se mostrou frágil e, às vezes, inútil, pois Coelho fala como quem medita, enganchando as idéias umas nas outras, divagando, preferindo a intuição à ordem, exatamente como faz, e prega, em seus livros.



Estado – Por que escrever um romance sobre a loucura?

Paulo Coelho – Todas as pessoas que ousam fugir dos padrões vigentes, das normas espirituais, sexuais, políticas, são sempre olhadas com certo temor pela sociedade, que tenta sempre reintegrá-las ao status quo e domesticá-las. Entre as grandes ousadias de hoje está o esforço, cada vez mais intenso, para integrar a busca espiritual com o desejo de realização pessoal. Há uma ligação, não muito clara, é verdade, entre as duas coisas. Esse espírito de insurreição contra os padrões vigentes é muito comum entre os jovens. Mas depois, quando eles envelhecem, passam a temer o desconhecido e aí, ou entram para a universidade, para instituições mais estabelecidas, buscando o alívio do saber competente, ou caem no extremo oposto e se apegam aos dogmas, às seitas, o que é igualmente uma falsa solução.



Estado – A saída estaria, então, na ''loucura controlada'' proposta em Veronika Decide Morrer?

Coelho – Exatamente. Mas essa escolha do terceiro caminho ainda é muito pouco comum. É mais fácil ser simplesmente louco, cortar os laços com a realidade e fazer o que bem se entende. Já a ''loucura controlada'', que é o enlouquecer sem perder a posse sobre si, implica esforço, derrotas, erros, ferimentos, experiências que fazem parte da vida e das quais não temos como fugir. É o andar sobre o fio da navalha – e ninguém anda sobre ele sem se cortar, sem sangrar. Mas é o único caminho.



Estado – Veronika inspira-se em sua experiência de juventude, quando você esteve internado na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio. Você chegou a pensar, em algum momento, em escrever uma autobiografia e não um romance?

Coelho – Apesar de ter vivido a experiência da loucura num manicômio, eu logo percebi que não poderia escrever uma autobiografia, pois o Paulo Coelho de hoje, um homem de 50 anos, não poderia falar da experiência vivida por um rapaz de 17. Cheguei a pensar nisso, mas logo vi que seria impossível. Então, resolvi valer-me, mais uma vez, da ficção, e assim minha experiência está dividida entre os diversos personagens do livro e não concentrada apenas em Veronika.



Estado – Você guardou muitas feridas dessas internações?

Coelho – Sinceramente, não. As experiências de encarceramento que tive na adolescência não me deixaram marcas. Guardo, sim, marcas das duas prisões de que fui vítima aos 26 anos, por causa de meu envolvimento com a Sociedade Alternativa. A acusação formal foi a de que eu e Raul Seixas estávamos distribuindo panfletos da Fundação de Krig-ha, como nós chamávamos a sociedade. E esses panfletos foram acusados de subversivos. Fui preso por alguns dias, depois me soltaram para me prender novamente, dessa vez ''não oficialmente'' – na verdade, essa segunda prisão não passou de um seqüestro. Como fiquei desaparecido, eles tiveram mais argumentos ainda para afirmar que eu não passava de um louco. Essa, sim, foi uma experiência de terror, de que carrego as marcas até hoje.



Estado – O controle do indivíduo descrito em Veronika Decide Morrer não seria uma experiência típica dos anos 60 e hoje em grande parte superada?

Coelho – O controle hoje é mais sutil. Nos meus tempos de juventude, ele era mais claro. Nos anos 80, ele foi desviado para o corpo, para a fitness. Dizer que todos devem ser saudáveis, ter um corpo perfeito, freqüentar academias e buscar o mesmo padrão de beleza é uma forma de controle. É uma forma também de separar o corpo da alma. Depois veio a geração yuppie, que passou a ser controlada pelo modelo do homem bem-sucedido, o que foi também uma falsa liberdade. Tudo o que escapa ao controle social, ainda hoje, desperta o desejo de normalização. Mas é verdade também que as pessoas estão mudando, estão ficando mais lúcidas. Hoje elas não têm mais vergonha, por exemplo, de dizer que acreditam em Deus.



Estado – A tecnologia, a informática, a Internet não multiplicam e fragmentam esses mecanismos de controle?

Coelho – Creio, ao contrário, que a Internet é libertária. Na Internet você tem seu canal de TV, seu jornal, a home page em que você publica o que bem deseja. Você pode conversar, trocar idéias, discutir de uma forma anárquica e eu só vejo aspectos positivos nessa anarquia. A Internet só se tornará negativa se conseguirem submetê-la a normas rígidas, a um controle centralizado. Enquanto não for assim, ela é positiva e tem a vantagem de romper a solidão em que estamos jogados. Na Internet, as pessoas encontram a sua tribo. Costuma-se criticar a Internet com o argumento de que as pessoas se tornam viciadas. Quando eu descobri o sexo, eu também tinha vontade de fazer sexo dez vezes por dia. Mas depois isso passa.



Estado – Você é considerado, hoje, um dos 15 escritores mais lidos no mundo. Qual é o segredo, afinal, desse sucesso que não pára?

Coelho – Você quer saber por que os leitores se identificam com o que eu escrevo? Certamente não é por causa de minhas respostas. Ao contrário do que algumas pessoas imaginam, eu não sou um guru. Eu sou um cara que faz as mesmas perguntas que elas fazem, não um sujeito que dá as mesmas respostas. As respostas são individuais. Mas as perguntas que fazemos hoje são as mesmas e precisamos dividir essa aflição. No momento em que você se sente sozinho, você se sente louco; quando você encontra um sujeito que faz as mesmas perguntas que você, ao contrário, você se sente bem melhor, ainda que continue a não ter respostas.



Estado – O que é, afinal, a "loucura positiva" de que você fala em seu livro? Isso não é romantizar a loucura?

Coelho – De modo algum. Meu livro é antidogmático. Tudo na vida tem seu avesso. Mesmo a busca espiritual tem, hoje, um grande perigo. A religião pode tornar-se fundamentalista e então levar o mundo a retroceder até a Idade Média ou pode ser uma busca aberta, com liberdade, e fazer o mundo avançar mil anos. Tudo na vida é uma faca de dois gumes. É sobre essa dualidade que trata Veronika Decide Morrer. Mas, com medo da dualidade, de se ferir com o fio da navalha, as pessoas preferem não pegar na navalha. Elas têm medo de se cortar e por isso caem na amargura.



Estado – O que, exatamente, você chama de amargura, termo que percorre todo o livro?

Coelho – Amargura é a paralisia, a letargia. Você pode seguir todos os caminhos e não se definir por nenhum ou pode não seguir nenhum e cair na letargia, na indiferença, na apatia. Nas duas opções, você está abrindo mão de escolher, de se arriscar. É o que está acontecendo hoje.



Estado – No romance, uma das experiências por que Veronika passa para libertar-se é a aceitação do ódio. O que ela significa?

Coelho – Oscar Wilde, que é um de meus gurus literários, dizia que a única forma de você escapar de uma tentação é cair nela. Se você reprime uma coisa, ela continuará o incomodando, envenenando-o e você estará sempre preso a esse veneno. Quando eu fiz meu segundo caminho espiritual, o Caminho de Roma, vivi pessoalmente essa experiência com o ódio. Escrevi sobre uma coisa que experimentei.



Estado – Por que você escreveu sobre o Caminho de Santiago, mas nunca escreveu sobre o Caminho de Roma?

Coelho – Quando eu fiz o Caminho de Roma, eu já tinha dois livros publicados, já era um escritor de sucesso. Então, viajei certo de que a viagem me renderia mais um livro. Para isso, tomei muitas anotações, desenhei mapas, tratei de registrar cada passo. Só que isso tudo, depois, me paralisou. Cheguei a escrever umas 50 páginas, que depois joguei fora. Tenho o hábito de jogar fora as coisas que não publico, para que depois não façam comigo o que têm o hábito de fazer com os escritores depois de mortos. Meu testamento, nesse aspecto, é específico: o que não estiver publicado quando eu morrer não será publicado jamais.



Estado – E por que você ficou paralisado?

Coelho – Foi uma viagem muito cheia de surpresas, durante a qual eu me vi numa mesquinhez total, me vi em contato com a maldade e fiquei muito assustado. Então, procurei minha guia e lhe perguntei: "Se eu vim até aqui para me purificar, por que estou me sentindo muito pior?" Ela me lembrou que, quando as luzes se acendem, temos de defrontar-nos com aranhas, monstros, todos os horrores que antes estavam escondidos e aquilo fazia parte do caminho. É essa experiência com a maldade, com o ódio, que agora eu transpus para Veronika.



Estado – Qual é a rota do Caminho de Roma?

Coelho – É uma rota nos Pirineus, que não tem nem início nem fim definidos e se forma por meio da intuição de cada peregrino. É um caminho meio circular, que volta sempre ao mesmo lugar, e quando você chega de volta ele já é outro. Enquanto o Caminho de Santiago é masculino, é em linha reta e desenrola-se no espaço, o Caminho de Roma é feminino, em círculos, e você o percorre em 70 dias guiado unicamente pelos critérios dos seus sonhos, sem nenhum outro roteiro.



Estado – Por que Veronika Decide Morrer se passa na Eslovênia?

Coelho – Não tenho a menor idéia. É a espontaneidade, e não o planejamento, que guia meus livros e por isso o projeto de escrever sobre o Caminho de Roma fracassou. Já estive duas vezes em Lubljana, a capital eslovena, mas já estive muitas vezes também em muitos outros lugares e nem por isso eu os escolhi. Quando você decide não planejar as coisas, você está jogando com o lado feminino que, em geral, ignoramos.



Estado – Outro tema importante em Veronika é a importância conferida à consciência da morte. Você a considera de fato um elemento decisivo para a individuação?

Coelho – A consciência da morte está um pouco mais presente hoje, com a aids, as novas pestes, mas ainda assim a maioria das pessoas a continua negando, a maioria ainda acha que quem morre é o vizinho. Você só vive integralmente se conserva a consciência de que essa encarnação vai acabar. Só assim saboreamos cada momento, que é de fato sagrado. Só assim temos coragem para dar os passos decisivos. Mas o hábito de separar o sagrado do profano é muito antigo, vem desde a Suméria. Se eu sei que vou morrer, e não sei como, e estou com vontade de telefonar para aquela pessoa que me parece tão inacessível, eu vou, telefono e estou pouco ligando para o que essa pessoa vai achar. A consciência da morte está diretamente ligada à consciência da vida. É isso o que, em meu livro, o Dr. Igor faz Veronika ver – mas, por favor, não vá contar aos leitores o desfecho do romance. Por que Veronika decide morrer? Simplesmente porque ela não tem consciência da morte. Se tivesse, optaria pela vida.



Estado – A idéia da amargura e do tédio como os grandes males contemporâneos percorre todo o livro. Por que vivemos tempos tão cheios de desgosto?

Coelho – O tédio toma conta das pessoas porque elas se sentem impotentes. Impotentes por quê? Ora, cada homem tem o poder que ele mesmo se confere. Há uma semana, eu estava andando pelo calçadão de Copacabana e vi um cara caído no chão. Eu já vi muitos caras caídos nas ruas de Copacabana, mas nesse dia eu cismei que não queria ver, enfureci-me e fui chamar a polícia. Quando cheguei ao posto policial, eu estava certo de que o policial ia reconhecer-me, ia saber que sou o Paulo Coelho. Isso, evidentemente, não ocorreu. "Você é alguma autoridade?", ele me perguntou, com má vontade. "Não, não sou", eu respondi. "Mas tem um cara caído no chão ali na frente e você vai tirá-lo de lá." E falei aquilo com tanta convicção, tanta autoridade, que o policial foi lá resolver. E por que ele foi? Porque você tem o poder que você se dá. E as pessoas, hoje, estão negando-se poder.



Estado – Seria um surto de timidez coletiva?

Coelho – Não é isso. Elas se negam o poder porque o poder implica responsabilidade. Mas as pessoas não querem arcar com esse preço, não querem ser responsáveis e preferem transferir o poder para o psicólogo, o guia espiritual, o guru...



Estado – Preferem transferir o poder para o Paulo Coelho...

Coelho – Só que isso não dá. Para começar, eu não tenho contato físico com as pessoas. Elas se limitam a ler meus livros e a ausência de contato físico é um empecilho para que essa transferência se realize. Se eu resolvesse dar cursos, fazer laboratórios, dar conselhos na televisão, abrir consultório, aí, sim, elas poderiam investir-me desse poder. Mas esse é um papel a que eu me recuso. Se eu fizesse isso, eu perderia a minha alma. A isso, até hoje, eu resisti. O que me salva é que me mantenho muito vigilante.



Estado – Você foi recebido pelo papa, foi contemplado com a Ordem do Rio Branco pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, recebeu a medalha de Cavaleiro das Artes e das Letras do governo francês, é conselheiro de programas da Unesco, entre muitas homenagens importantes. Isso, certamente, fortalece o ego. Mas não sufoca?

Coelho – Eu tenho tido tudo o que quero. Não posso reclamar de nada. Claro, sou um escritor profissional e tenho uma agenda de escritor profissional. E tenho de trabalhar, tenho de escrever. Recentemente, desejei ter, e tive, até um ano sabático, entre novembro de 1996 e outubro de 1997, um período em que eu só fiz o que me deu na cabeça, nada mais.



Estado – E o que lhe deu na cabeça?

Coelho – Eu fui à Polônia e minha editora me convidou para um jantar informal. Levou-me ao Café Bristol, no centro de Varsóvia. Aí eu disse: "Estou vivendo um ano sabático, só estou fazendo o que me dá na cabeça." E ela me perguntou: "E o que lhe está dando na cabeça agora?" Olhei para os lados, vi aquela agitação no café e respondi: "Eu queria trabalhar por uma semana como garçom neste restaurante." Para minha surpresa, ela chamou o gerente e, minutos depois, eu estava empregado. Durante uma semana, eu saía de meu hotel cinco-estrelas meio escondido e ia para o café trabalhar como garçom. Foi uma experiência muito rica. Quando viajamos, só costumamos visitar museus, monumentos, centros históricos, só visitamos coisas mortas! Mas eu, não. Eu estava trabalhando de garçom em um café polonês, estava experimentando a vida. Eu entendo as viagens assim. Entendi muito mais o que é o Japão cantando em um karaokê do que visitando um templo de Kyoto.



Estado – Há o mito de que você escreve com grande rapidez, em verdadeiros surtos criativos. É verdade?

Coelho – Eu escrevi Veronika Decide Morrer em dois meses, entre janeiro e fevereiro deste ano, em meu apartamento, no Rio. Já viajei para os Pirineus para escrever, já tentei refugiar-me em lugares românticos, mas isso comigo não funciona, pois eu não consigo concentrar-me. O essencial, para escrever, é ter a vida em torno de mim. Eu fico em casa, levo minha vida normal com minha mulher, atendo telefone, recebo fax, acesso a Internet e é assim, dentro de minha rotina, que produzo melhor. Existem dois mitos que eu não consigo entender: o do escritor que precisa refugiar-se numa montanha para criar e o do escritor que leva quatro ou cinco anos escrevendo um livro. Eu não consigo aceitá-lo. Seria o mesmo que um sujeito que precisasse de quatro ou cinco anos para ter um orgasmo. Quando escrevo um livro, eu escrevo sem parar. Mas preciso dos conflitos, dos telefonemas, das interrupções. Preciso da vida. Fico de cortinas fechadas, às vezes nem sei se é dia ou é noite. É uma entrega total. Só que não preciso abrir mão da vida para me entregar. E então aparece a inspiração, aparece a Eslovênia! Os personagens vão aparecendo, a Zedka, o Eduard, a Mari, o Igor e em cada momento um deles está no comando do livro e eu não sei explicar por quê. O livro vai impondo-se e só se realiza quando eu perco o controle sobre ele.



Estado – O que há de experiência pessoal, além da internação em um asilo psiquiátrico, em Veronika Decide Morrer?

Coelho – A vivência pessoal que transpus mais diretamente para o livro foi a experiência com a síndrome do pânico. Um dia, no início dos anos 70, eu estava em um cinema e, de repente, pirei. A experiência durou alguns minutos, mas foi muito forte e depois se repetiu outras vezes. Era um sentimento tão estranho que eu tinha medo de falar a respeito dele. Tempos depois, eu estava jantando em Nova York com uma namorada e, não sei por que, resolvi enfrentar o medo e falar. "Eu sei o que é isso", ela me disse, muito calma. "É estranhamento; eu também já tive!" Aquilo me aliviou muito, era alguém que aparecia para dar um nome e reconhecer o que eu estava vivendo. A partir dali, o pânico começou a passar.



Estado – Veronika Decide Morrer parece ser mais um romance escrito por um psicólogo que por um místico. Você já fez psicoterapia?

Coelho – Fiz psicanálise de grupo durante um ano, logo depois do último período de internação. Mas eu era muito jovem e fiz obrigado pela família, então não me parece ter funcionado muito. Não tenho sequer o hábito de ler sobre psicanálise, pois sou um homem muito concentrado no presente. Mas tenho respeito pelos psicanalistas.



Estado – Por que a preocupação em ganhar leitores no Leste Europeu, que, aliás, já se esboça em Veronika Decide Morrer?

Coelho – Os países do Leste Europeu nunca ousaram convidar-me para visitá-los, achando que eu não iria. Um dia, eu cheguei para a minha agente, Mônica Antunes, e disse: "Nós, aqui no Brasil, fazemos parte do clube dos excluídos. Os escritores mais importantes do mundo custam a nos visitar. Por que vamos agir da mesma maneira?" E pedi que ela sondasse se haveria um interesse, no Leste Europeu, pela minha visita. Imediatamente, os convites começaram a chegar. Antigamente, eu aceitava o jogo, mas agora tento ter uma atitude mais radical. Recentemente, exigi que meus livros fossem publicados na Índia e não importados da Inglaterra. Isso fez com que o preço de capa nas livrarias indianas baixasse de US$ 24 para US$ 1! Não quero dar uma de mocinho, mas realmente perder dinheiro não me importa, pois estou ganhando em dignidade.



Estado – O que você tem feito para divertir-se?

Coelho – Eu sou campeão de fliperama – e posso garantir que isso nunca vai virar um livro. Na última vez em que estive em Paris, um canal de TV chegou a me armar uma surpresa, só para me testar. Levaram para o estúdio uma máquina de fliperama e convidaram um dos melhores jogadores franceses para enfrentar-me ao vivo. Não fiz feio, perdi a primeira partida, mas ganhei a segunda. Eu mantenho a criança muito viva dentro de mim.



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