UtilizaçÃo da toxina botulínica no tratamento de síndromes dolorosas use of botulinum toxin in the treatment of painful syndromes



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UTILIZAÇÃO DA TOXINA BOTULÍNICA NO TRATAMENTO DE SÍNDROMES DOLOROSAS
USE OF BOTULINUM TOXIN IN THE TREATMENT OF PAINFUL SYNDROMES
Enavlin Tomas de Sousa Costa1, Gabriela Lima de Souza Xavier¹, Alessandra Marques Cardoso²
RESUMO

A utilização da toxina botulínica tem sido avaliada no tratamento de síndromes dolorosas. Seu uso tem sido eficaz na redução e/ou eliminação da dor, como terapia primária ou como adjuvante para a terapia convencional. Isto significa que pode ser utilizada não apenas para o tratamento de espasmos e na estética, mas também para o tratamento de estados dolorosos.



Palavras-chave: toxina botulínica; tratamento da dor; síndromes dolorosas.
ABSTRACT

Botulinum toxin has been tested in the treatment of pain syndromes. Its use has been effective in reducing and/or eliminating the pain, as primary therapy or as an adjunct to conventional therapy. This means that not only can be used for treatment of spasms and esthetics, but also for the treatment of painful states.



Key words: botulinum toxin; pain treatment; painful syndromes.
INTRODUÇÃO

A toxina botulínica (TB) é produzida pelo Clostridium botulinum, bacilo Gram-positivo anaeróbio, produtor de esporos. A história do C. botulinum e da toxina botulínica tem início no final do século XVIII, com o relato de intoxicações alimentares após o consumo de linguiças de sangue e de carne, com a ocorrência de vários óbitos no Reino de Württemberg, Alemanha (BACHUR et al., 2009).

A esporulação desse micro-organismo produz a toxina que causa o botulismo, síndrome que causa visão dupla e borrada, pálpebras caídas, fala arrastada, dificuldade na deglutição, boca seca e fraqueza muscular. O botulismo infantil é o de maior notoriedade em todo mundo, sendo que os bebês com botulismo apresentam falta de apetite, letargia, constipação e diminuição do tônus muscular, sintomas esses que quando não tratados, podem evoluir para paralisia dos músculos respiratórios, braços, pernas e troncos e óbito (CDC, 2014).

A TB é considerada uma das substâncias mais letais conhecidas atualmente. Os esporos do C. botulinum podem ser encontrados em legumes, verduras, solo, fezes humanas e intestino de bovinos e aves e principalmente no mel. Há três formas de botulismo, o de origem alimentar, o de forma adquirida através da contaminação de feridas pela bactéria, e o infantil (SUGIYAMA, 1980; CERESER et al., 2008; BACHUR et al., 2009).

Há sete tipos diferentes desta toxina, sendo elas a A, B, C (c¹ e c²), D, E, F e G. Sendo que os tipos A, B, E e F são os mais frequentes causadores de botulismo. Na terapêutica de espasmos, dor e tratamentos estéticos, o mais utilizado é o tipo A, que possui ação mais potente que os demais tipos, podendo ser utilizados em doses menores. Apesar da toxina A ser amplamente usada, a toxina B também vem sendo empregada para fins estéticos (OSAKI; BELFORT, 2004; BACHUR et al., 2009 ROWLANDS, 2010).

O uso da TB para fins estéticos teve seu início na década de 90, quando se percebeu a melhora de algumas rugas em pacientes que eram tratados contra blefaroespasmo. E também foi relatada melhora na atenuação das linhas de expressão unilaterais em pacientes submetidos a tratamento para espasmo hemi-faciais. O uso da toxina do tipo A, mostrou-se um método seguro e consagrado para tratamento estético de rugas (GIMENEZ et al., 2010).

O principal mecanismo de ação da TB é o bloqueio da acetilcolina na junção neuromuscular sem, contudo, alterar a condução neural de sinais elétricos, e sem alterar a produção e armazenamento da acetilcolina, de modo que este mecanismo é capaz de causar a paralisia muscular. Entretanto, há estudos que revelam que a toxina botulínica age no bloqueio de outras substâncias, como o glutamato, substância P e o peptídeo relacionado com o gene da calcitonina. Tais substâncias estão envolvidas em processos inflamatórios e causam sensibilização nervosa, culminando em quadros dolorosos. São tais mecanismos de bloqueio que explicam a ação da toxina botulínica na redução/eliminação dos quadros dolorosos. A aplicação intramuscular da toxina, no local apropriado, provoca uma desenervação química parcial e diminuição da contratura, sem provocar paralisia completa (OSAKI; BELFORT, 2004; COLHADO; BOEING; ORTEGA; 2009; VERMA, 2013).

A partir do melhor entendimento do mecanismo de ação da TB, foi possível empregá-la em diversos campos da medicina, como mostra a tabela 1, a qual exemplifica a utilização da TB no tratamento de distonias, movimentos involuntários, contração muscular inapropriada e demais aplicações, demonstrando a eficácia e a versatilidade de tal composto (SPOSITO, 2009).



Tabela 1: Aplicações da toxina botulínica em medicina humana.

Distonias

Outros movimentos

Involuntários

Contração muscular inapropriada

Outras aplicações

Blefaroespasmo.

Espasmo hemifacial.

Espaticidade (AVC, paralisia cerebral, trauma craniano, esclerose múltipla).

Cosmética: rugas, linhas plastimais, assimetrias, remodelamento de contornos.

Distonia cervical.

Mioclonia palatal.

Estrabismo, nistagmo.

Sialorréia.

Distonia laríngea.

Tics motores e vocais.

Bruxismo.

Hiperidrose.

Distonia oromandibular, facial e lingual.

Tremores de membros, cabeça, voz e queixo.

Síndrome temporo-mandibular.

Hiperlacrimação e Ptose protetiva.

Distonias de membros.

Nistagmo e osciloscopia.

Rigidez dolorosa.

Salivação gustatória.

Distonias ocupacionais.




Dor de cabeça tensional.

Fissura anal;

Obesidade.









Espasmos lombares e lombosacrais.

Cotovelo do tenista e lesões do esporte.

Outras distonias focais e segmentares.




Radiculopatia decorrente de espasmo muscular.

Constipação; Rinorréia.







Espasmo faríngeo;

Espasmo do esfíncter de Oddi.



Migrânea.







Bexiga espástica neurogênica;

Discinergia detrusora.












Anismo/vaginismo.




Fonte: SPOSITO, 2009.

OBJETIVO

O presente estudo objetivou revisar a literatura científica especializada para evidenciar os significativos avanços da utilização da toxina botulínica no tratamento das síndromes dolorosas, abordando seu mecanismo de ação e os resultados exitosos no tratamento destas síndromes.


METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de revisão da literatura, no qual foi realizada uma busca por artigos científicos selecionados a partir do banco de dados do Google Acadêmico, ANVISA, CDC, Scielo, PubMed e Medline, do período de 1980 a 2014, totalizando 30 artigos. Esse levantamento abrangeu a literatura nacional e internacional, artigos originais gratuitos e disponíveis na íntegra, sendo utilizadas como descritores as palavras-chave: toxina botulínica e tratamento da dor. Foram adotados como critérios de inclusão os artigos cujo assunto principal fossem os temas: síndromes dolorosas, toxina botulínica e Clostridium botulinum.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

A aplicação da TB prova ser bastante viável nos casos de síndromes dolorosas, crescendo o seu uso médico, pois desencadeia baixa resposta imunológica e poucos efeitos colaterais. Em pacientes que obtiveram resposta ao tratamento, esta se mostrou bastante eficaz (VERMA, 2013).

Segundo COLHADO; BOIENG; ORTEGA (2009), a TB pode agir enfraquecendo a musculatura dolorosa, interrompendo assim o ciclo espasmo-dor, possibilitando ao paciente a realização de exercícios, que ajudam na recuperação a longo prazo. Este efeito de relaxamento da musculatura deve-se à capacidade da TB de inibir a liberação da acetilcolina, este processo ocorre devido a uma atividade proteolítica de proteína SANARE (Soluble N-ethylmaleimide-sensitive factor attachment protein-Receptor), a qual é essencial para a liberação da acetilcolina (SPOSITO, 2009).

Estudos revelam que a toxina botulínica age também como uma substância analgésica e anti-inflamatória, além do simples relaxamento muscular, como mecanismo de ação. Mostrando uma possibilidade de interação mais complexa entre a toxina com os tecidos periféricos (COLHADO; BOING; ORTEGA, 2009; SIM, 2011). A toxina age também nas substâncias e neurotransmissores envolvidos no processo inflamatório e na nocicepção (percepção de dor). Sendo estas, a norepinefrina, substância P, peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (PRGC) e o glutamato (SPOSITO, 2009).

A TB se mostra uma alternativa segura quanto ao tratamento de síndromes dolorosas, estudos mostram que seu uso vem crescendo na área médica. Várias publicações têm revelado a eficácia e segurança da toxina botulínica no tratamento de algumas síndromes, como Neuralgia do Trigêmeo, Neuralgia Pós-herpética, Síndrome Dolorosa Regional Complexa, Síndrome Dolorosa Miofascial e na Cefaleia (COLHADO; BOEING; ORTEGA; 2009).


  1. Uso da toxina botulínica para tratamento da Neuralgia do Trigêmeo

A Neuralgia do Trigêmeo (NT) se caracteriza por uma disfunção no nervo de mesmo nome, a qual ocasiona episódios de dores severas e excruciantes. Esta doença é, geralmente, unilateral, sendo que ocorre com maior frequência do lado esquerdo da face. O desenvolvimento desta pode estar relacionado com diversos tipos de fatores e patologias, tais como, infecções virais persistentes no gânglio trigemial, esclerose múltipla e tumores como o meningioma. É uma doença que afeta cerca de uma em 25.000 pessoas, sendo prevalente em idosos e indivíduos de meia idade (ZÚÑIGA et al., 2008; VERMA, 2013).

O tratamento convencional da NT baseia-se na utilização de medicamentos anticonvulsivantes, principalmente a base de carbamazepina. Estes possuem como efeitos colaterais sonolência, diplopia e instabilidade, podendo resultar também em comprometimento hepático, sendo necessário acompanhamento periódico através de exames laboratoriais, como hemogramas e provas de função hepática (FRIZZO; HASSE; VERONESE, 2004).

Em um estudo realizado com 12 pacientes portadores da NT, 10 deles obtiveram alivio imediato da dor após a aplicação da toxina, assim como desaparecimento das zonas de gatilho após duas semanas da aplicação da mesma. Evidenciando assim que a toxina botulínica pode beneficiar o tratamento da dor na NT (ZÚÑIGA et al., 2008).

Segundo um estudo realizado por TÜRK et al. (2005), com um grupo de oito pacientes (dois homens e seis mulheres), todos relataram diminuição da intensidade e da frequência da dor ocasionada pela NT. No presente estudo os pontos utilizados para a aplicação da toxina foram no arco do zigomático, sendo aplicadas unidades acima e abaixo do respectivo arco, sendo utilizados 50U de TB para o tratamento dos indivíduos.

Estudos já evidenciaram os efeitos benéficos da toxina em reduzir a frequência e a intensidade da dor em pacientes com NT. O mecanismo ainda não é bem definido, mas alguns estudos sugerem que o alívio se dá pela inibição da acetilcolina, ou que a toxina impeça a secreção de neuropeptídios nociceptivos, o que alivia a sensação de dor (BOHLULI et al., 2011).


  1. Uso da toxina botulínica para tratamento da Neuralgia Pós-Herpética

A Neuralgia Pós-Herpética (NPH) é caracterizada pela dor neuropática persistente distribuída em locais onde houve manifestação prévia de herpes zoster, sendo que a mesma manifesta-se aproximadamente três meses após o desaparecimento das lesões dérmicas do herpes zoster, como pode ser visto na figura 1 (SPÁTOLA, 2010).



Figura 1. Evolução do Herpes-zóster. Fonte: PORTELLA; SOUZA; GOMES (2013).

O tratamento da NPH é realizado através da administração de fármacos, dentre eles são utilizados os anticonvulsivantes e antidepressivos como tratamento de primeira linha, e os opioides como tratamento de segunda linha, através de bloqueios neurais, estimulação medular ou até mesmo excisão cirúrgica. Ainda, pode-se utilizar como tratamento profilático a administração de antivirais nos quadros de reativação do herpes-zoster (PORTELLA; SOUZA; GOMES, 2013).

Contudo, tais tratamentos podem gerar como efeitos colaterais turvação visual, retenção urinária, sedação, fadiga, vômitos e tonturas, ou até mesmo, em quadros de cefaleia pós-punção dural, como no caso da estimulação medular. Estes tratamentos possuem efeito significativo, geralmente, apenas quando associados. Perante isto, a TB surge como uma alternativa segura e eficaz na eliminação do quadro doloroso da NPH. A aplicação desta é realizada ao redor da região alodínia, sendo administradas doses fracionadas variando de 2,5 a 7,5U (PORTELLA; SOUZA; GOMES, 2013; TALARICO, 2014).

Em um relato de caso de uma paciente de 72 anos, a qual sofria com a neuralgia pós-herpética, a mesma foi submetida a uma associação de medicamentos para tratamento desta síndrome, sendo estes amitriptilina, tramadol e gabapentina. A dose estipulada inicialmente não amenizou o quadro da dor, gerando a necessidade de aumentar a dose da terapêutica, resultando em diversos efeitos colaterais, os quais influíram na suspensão dos medicamentos. Empregou-se então, a toxina botulínica, resultando em tratamento eficaz da síndrome, com ausência de efeitos adversos (SPÁTOLA, 2010).





  1. Uso da toxina botulínica para tratamento da Síndrome Dolorosa Regional Complexa

A Síndrome Dolorosa Regional Complexa (SDRC) é uma síndrome de causa idiopática, na qual há uma exacerbação da resposta nervosa frente a um estímulo externo, sendo que pode haver lesão nervosa ou não, ocasionando uma inflamação neurogênica. Suas manifestações clínicas incluem dor, edema e disfunções de motricidade (LAURETTI et al., 2005; GASPAR; ANTUNES, 2011).

Por ser uma doença de causa idiopática, emprega-se uma gama variada de medicamentos e terapias no tratamento desta. O tratamento farmacológico baseia-se na utilização de AINE’s (Anti-inflamatórios não esteroides), antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes e relaxantes musculares nos casos de alterações de tônus, dentre eles há o baclofeno e a tiazanida, por exemplo (GASPAR; ANTUNES, 2011).

Entretanto, a utilização da TB como coadjuvante no tratamento da SDRC mostrou-se eficaz, ocasionando relaxamento da musculatura afetada, recuperação parcial do membro afetado, melhorando, assim, a disfunções de motricidade e reduzindo a dor. Em estudo realizado com duas pacientes que sofriam de SDRC do Tipo I, relatou-se melhora do tônus muscular e atenuação da dor após a utilização da TB, sendo que ambas haviam utilizado anteriormente como terapêutica a amitriptilina (antidepressivo), juntamente com uma série de bloqueios ganglionares, os quais não resultaram na melhora do quadro (LAURETTI et al., 2005).


  1. Uso da toxina botulínica para tratamento da Síndrome Dolorosa Miofascial

A Síndrome Dolorosa Miofascial (SDM) é caracterizada pela presença de feixes musculares tensos, nos quais há pontos de intensa dor, de forma que, quando estes pontos são estimulados há a geração tanto de dor regional como a distância. Esta síndrome pode ser ocasionada por traumatismos, sobrecarga, inflamações e modificações do tônus muscular (VIANNA, 2005).

Utiliza-se no tratamento farmacológico desta síndrome, os AINE’S, antidepressivos tricíclicos, opiáceos e miorrelaxantes. Os tratamentos convencionais utilizados para a SDM são na maioria das vezes insatisfatórios, podendo aumentar as chances de o paciente desenvolver nefropatias devido uso prolongado de analgésicos e anti-inflamatórios (SANDE; PARIZZOTO; CASTRO, 1999; COLHADO; BOEING; ORTEGA, 2009).

A TB possui a capacidade de bloquear a ação da acetilcolina, neurotransmissor que transmite mensagens elétricas enviadas pelo cérebro até as fibras musculares. É este neurotransmissor que está envolvido no desenvolvimento da SDM, de forma que, com o bloqueio do mesmo, ocorre a melhora no quadro doloroso da respectiva síndrome (VIANNA, 2005).

Em um estudo realizado por LINDERN et al. (2003), com um grupo de 90 pacientes, 60 fizeram uso da TB e 30 de solução fisiológica. Os resultados evidenciaram que 91% dos pacientes que utilizaram a TB obtiveram como resultado melhora na dor; apesar dos pacientes apresentarem efeitos colaterais como dificuldade de deglutição e paralisação do músculo da face, tais efeitos foram reversíveis em um prazo estimado de quatro semanas.

UNNO; SAKATA; ISSY (2005) compararam o efeito da TB com a bupivacaína. O estudo concluiu que a utilização da toxina foi mais eficaz do que a do anestésico, apesar da TB representar um tratamento com maior custo, o tempo de duração do efeito desta é maior em relação ao efeito do anestésico local. Ademais, a toxina foi capaz também de diminuir a intensidade da dor. Ressalta-se que para o tratamento desta síndrome utiliza-se 4 U/kg da TB.



Segundo VIANNA (2005), o uso da TB em pacientes com SDM, tem se mostrado suficiente para uma melhora no quadro de dor crônica apresentada pelos pacientes com essa síndrome. A melhora na qualidade de vida dos pacientes é evidente, quando se compara tratamentos anteriores ao uso da toxina botulínica.


  1. Uso da toxina botulínica para o tratamento da Enxaqueca

A migrânea ou enxaqueca é caracterizada, segundo a Sociedade Internacional das Cefaleias, como uma cefaleia primária, ou seja, ela não possui uma causa orgânica definida. Ainda, sua classificação divide-se em dois subtipos importantes, a migrânea sem aura e a migrânea com aura. Define-se aura como um conjunto de sintomas neurológicos, tais como fadiga, náusea, rigidez de pescoço, visão borrada e palidez, sendo que estes podem ocorrer antes ou no início da enxaqueca (PERES; ZUKERMAN; ANDRADE, 2003; SOCIEDADE BRASILEIRA DE CEFALEIA, 2006).

Usualmente, utiliza-se para tratamento das enxaquecas, antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canais de cálcio, anticonvulsivantes e beta-bloqueadores, entretanto o uso da toxina botulínica tem se mostrado efetivo no tratamento das enxaquecas crônicas (PERES; ZUKERMAN; ANDRADE, 2003).

Em um estudo duplo-cego realizado com um total de 228 indivíduos, no qual 117 receberam tratamento com toxina botulínica e 111 com placebo, observou-se uma diminuição 30% maior na frequência da enxaqueca no grupo que utilizou TB do que naquele que utilizou placebo (KREUTZ; HEINECK, 2001).

Em comparação aos demais tratamentos para enxaqueca, a TB demonstrou menor quantidade de efeitos colaterais, apresentando maior tolerância e aumento de qualidade de vida dos pacientes. Em um estudo comparativo realizado entre a toxina e o topiramato, observou-se que a TB teve um efeito de maior duração no alívio da dor do que o topiramato. Destaca-se ainda que a utilização do topiramato resultou em maior quantidade de efeitos colaterais, sendo estes mais graves, em relação à toxina. Enquanto a TB apresentou como efeito colateral fraqueza muscular das pálpebras, testa e pescoço, o anticonvulsivante resultou em déficits cognitivos, parestesias e depressão (KREUTZ; HEINECK, 2001).

Apesar de ser um tratamento invasivo, como a figura 2 evidencia, mais oneroso que os demais e possuir efeitos adversos como fraqueza muscular, dor no pescoço, tontura e ptose palpebral (queda da pálpebra superior), a toxina botulínica tem se mostrado efetiva e mais segura no tratamento das enxaquecas crônicas (MENEZES et al., 2007).



Figura 2. Distribuição dos sítios de injeção. Fonte: MENEZES et al., 2007.

A tabela 2 sumariza os resultados apresentados e discutidos em nosso estudo, à luz da literatura especializada.



Tabela 2. Relação entre local da dor e resultados obtidos após o tratamento com a toxina botulínica.


  1. DOENÇA

    LOCALIZAÇÃO DA DOR

    TRATAMENTO CONVENCIONAL

    EFEITO DA TOXINA

    EFEITO COLATERAL

    AUTORES

    Neuralgia do Nervo Trigêmeo

    Nervo trigêmeo.

    Não relatado.

    Alívio imediato da dor.

    Não

    ZÙÑIGA et al., 2008.

    VERMA, 2013.



    Neuralgia Pós-Herpética


    Locais onde houve manifestação do herpes zoster.

    Anticonvulsivantes, antidepressivos, bloqueio neural, estimulação medular, excisão cirúrgica.

    Alívio da dor.

    Não

    SPÁTOLA, 2010.

    PORTELLA;

    SOUZA;

    GOMES, 2013.



    TALARICO, 2014.

    Síndrome Dolorosa Regional Complexa

    Músculo esquelético, principalmente membros superiores.

    AINE’s, antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes e relaxantes musculares.

    Melhora do tônus e alívio da dor.

    Não

    LAURETTI et al., 2005.

    UNNO; SAKATA; ISSY, 2005.

    GASPAR; ANTUNES, 2011.


    Síndrome Dolorosa Miofascial

    Musculatura da face.

    AINE’s, antidepressivo tricíclico, opiáceos e miorrelaxantes.

    Maior duração do efeito analgésico, diminuição da dor.

    Não

    VIANNA, 2005.

    COLHADO; BOIENG; ORTEGA, 2009.



    Enxaqueca

    Diversos pontos da cabeça.

    Antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canais de cálcio, anticonvulsivantes e beta-bloqueadores.

    Diminuição da frequência e maior duração do alívio da dor.

    Fraqueza muscular, dor no pescoço, tontura e ptose palpebral.

    KREUTZ, 2001.

    PERES; ZUKERMAN; ANDRADE, 2003.

    MENEZES et al., 2007.

    Uso da toxina botulínica no Brasil

No Brasil, o uso da toxina botulínica é permitido pelo Ministério da Saúde e ANVISA, desde 1997, e se tornou popular nos anos 2000, pela comercialização da primeira marca do medicamento, o BOTOX® (CARVALHO; GAGLIANI, 2014).

Um informe da ANVISA (2007) regulamenta o uso da TB do tipo A, sendo que para o uso terapêutico, devem existir ensaios clínicos que respaldem o uso da mesma. As doses aprovadas para a indicação terapêutica variam entre os diferentes produtos comercializados no país. Os efeitos adversos, se constatados, devem ser notificados à Gerência de Farmacovigilância.


CONCLUSÃO

A partir da literatura científica pesquisada, observou-se que o uso da toxina botulínica se mostra bastante eficaz no tratamento das síndromes dolorosas. Quando comparada aos tratamentos convencionais de tais síndromes, a TB é uma alternativa mais segura, com menos efeitos colaterais e com impacto na melhoria na qualidade de vida dos pacientes.

Os efeitos colaterais são raros, e ainda que existam, são transitórios, não acarretando maiores problemas aos pacientes portadores de dores crônicas. Mais pesquisas a respeito da aplicação da toxina botulínica no tratamento da dor são necessárias, uma vez que existem poucos estudos elucidando a utilização da mesma. Entretanto, os estudos existentes revelam que TB pode ser empregada no tratamento das doenças cuja sintomatologia é a dor crônica.
REFERÊNCIAS

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1 Graduandas do Curso de Biomedicina da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. enavlin_nana@hotmail.com; ibib-lima@hotmail.com.

² Orientadora; Doutora e Mestre em Medicina Tropical e Saúde Pública - Microbiologia (UFG); Professora Adjunta do Departamento de Biomedicina e Farmácia da PUC Goiás; Biomédica da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás. alemarques5@yahoo.com.br.





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