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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

IGOR MACEDO FERNANDES

O Arquétipo do Malandro:

Zé Pelintra como Imagem do Trickster Nacional

Rio de Janeiro

2005

IGOR MACEDO FERNANDES


O Arquétipo do Malandro:

Zé Pelintra como Imagem do Trickster Nacional

Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de formação em Psicologia. Orientador Prof. Carlos Bernardi

Rio de Janeiro

2005


IGOR MACEDO FERNANDES


O Arquétipo do Malandro:

Zé Pelintra como Imagem do Trickster Nacional

Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de formação em Psicologia. Orientador Prof. Carlos Bernardi

Aprovada em

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________________

Prof. Carlos Bernardi

_____________________________________________________

Prof. Luiz Granato



AGRADECIMENTOS

Primeiramente, gostaria de agradecer à professora Rita Segato pela gentileza de ter-me enviado de Brasília um exemplar de seu livro que na época estava esgotado. Livro esse que foi imprescindível para o desenvolvimento desse trabalho.


Gostaria também de agradecer ao meu orientador Carlos Bernardi pelas dicas dadas ao longo deste trabalho, atenção, pelos diversos livros emprestados sem os quais seria difícil embasar alguns capítulos e pela divulgação desse texto junto aos seus alunos.
Agradeço também a minha namorada Vanessa por ter tido a paciência e compreensão durante alguns momentos em que estive ausente na elaboração desta monografia e pela formatação de algumas partes da mesma.
À minha colega de monografia Adriana que tornou meu trabalho visível para a ABNT.
À minha avó Risete e meu avô Neco por terem me motivado para isto e me contado diversas histórias sobre Zé Pelintra.
E, por fim, a todas as pessoas que me deram alguma força, dicas e incentivos para que este trabalho fosse concluído.

RESUMO

Este trabalho tem como proposta fazer uma aproximação entre o personagem Zé Pelintra, Exu do panteão umbandista, e o arquétipo do trickster. A partir de pesquisas bibliográficas foi feito um resgate da história do Malandro Divino, sua origem nordestina e sua chegada à capital federal, na época, o Rio de Janeiro. Conta como se deu sua incorporação na Umbanda como um Exu além de fazer uma análise sociológica da malandragem. Por fim, vê-se que Zé Pelintra é mais do que simplesmente um trickster e que sua vida acaba servindo de exemplo para milhares de pessoas de origem humilde do nosso país. Entretanto, sua vida foi marcada pelo arquétipo do trickster e por essa razão é feita a proposta de que tenhamos essa figura tipicamente brasileira como símbolo de um trickster nacional.



Palavras chave: Zé Pelintra, Religiões afro-brasileiras, arquétipos, trickster.

ABSTRACT

The objective of this paper is to link the character Zé Pelintra, Exu from the Umbanda pantheon, and the trickster archetype. The author tries to make a conection between the Jung theory of archetypes and the Orixas’ religion to present the resemblences and differences without reducing one for another. To reach such objective, makes use of book researches, remake the history of Zé Pelintra and at last suggests the use of this character as a symbol of a brazilian trickster.


Keywords: Zé Pelintra, afro-brazilian religion, archetypes, trickster

SUMÁRIO


Introdução 7

1 – Exu: a divindade e seu mito 10

2 – Zé Pelintra e a malandragem – origem e história 16

2.1 – A incorporação na umbanda como um Exu 21

2.2 – Pedro Malasartes, uma breve análise sociológica da malandragem 23

3 – Jung e o arquétipo do trickster 26

4 – Arquétipo-divindade: Um diálogo entre as teorias 32

5 – Zé Pelintra e o arquétipo do trickster 39

Considerações finais 45

Referências bibliográficas 47

Introdução

Inicialmente, a idéia inicial para o presente trabalho era falar sobre as divindades afro-brasileiras especificamente pela linha da Umbanda. Tal escolha devia-se ao fato de minhas raízes estarem profundamente mergulhadas nessa religião dita tipicamente brasileira por conta de uma longa tradição familiar. No entanto, crescer “vendo” e falando com os caboclos, pretos-velhos, exus, pombas-gira, ciganos e demais guias desse panteão, não satisfaziam minha curiosidade por tal fenômeno. Perguntar, questionar, buscar respostas era minha vida nesse mundo espiritual. Desde pequeno eu tinha perguntas a serem respondidas e a medida em que fui ganhando mais maturidade os “por quês” foram ficando mais elaborados. Por que os espíritos incorporam? Quem são estes espíritos? De onde vieram? Para onde estão indo? Por que precisam de nós? Não me bastava saber que haviam espíritos como me falavam. A grande luta entre ciência e religião já se encontrava em curso na minha mente desde cedo.

Aprendi a admirar os Mestres espirituais mesmo não tendo certeza de suas existências de fato. Procurava nunca deixar de ouvi-los ainda que em dúvida de qual a procedência do conselho, se de minha família material ou espiritual, pois de qualquer forma, eram conselhos de família e deveriam visar o meu bem. Assim, aprendi também que os conselhos espirituais, bem como os de família, também são falíveis. “O que os fazem tão humanos?” – e mais um questionamento nascia.

Quando entrei para o curso de psicologia as dúvidas se intensificaram e momentos de pura incredulidade racionalista me acometeram. Os Mestres haviam se tornado estruturas psicológicas e nada mais. Entretanto, algo não queria deixar essa nova crença substituir a antiga, pelo menos não por completo. Minhas dúvidas ainda não estavam sanadas.

Quando conheci a teoria de Carl Gustav Jung, as questões ganharam uma nova possibilidade de discussão. Vislumbrei na Psicologia Analítica uma possibilidade de resposta. Não que Jung referendasse a questão espírita, até muito pelo contrário, acabou por destruir a vida de sua prima em uma análise de sua suposta mediunidade que foi reduzida a um transtorno psiquiátrico, tendo esta que mudar até de cidade para tentar restabelecer um mínimo de qualidade de vida, uma vez que em sua terra natal as pessoas já olhavam-na como doente ou charlatã. Mas, como a professora Rita Segato, vi uma possibilidade de diálogo entre as teorias.

Falar sobre todas as divindades, como era a idéia original, demandaria muito mais tempo e certamente não caberia em um trabalho de conclusão de curso. Há centenas de livros inteiros dedicados a essa discussão e ainda assim esta, ainda bem, não se encerra. Resolvi, então, dedicar-me a uma delas, Exu. Porque Exu dentre todas era a que eu mais me identificava, que mais eu gostava de falar quando estes incorporados em alguém. Exu pela sinceridade muitas vezes ácida dessas entidades que eu tanto invejava. Definitivamente, Exu. Porém, Exu no Candomblé é uma divindade. Na Umbanda são muitos. Eis, que paradoxalmente com Exu que traz a sombra, surgiu a luz. Zé Pelintra sugeriu meu orientador Carlos Bernardi. Idéia acatada na mesma hora.

Zé Pelintra é um Exu, de fato, mas diferenciado dos demais. Malandro, boêmio, brigão, mulherengo, jogador, bom conselheiro, amigo dos amigos, enfim, “humano, demasiadamente humano”, como expressava Nietzsche.

Começou então uma longa pesquisa bibliográfica acerca desse nosso personagem, que, ao contrário de outros exus, tem uma história razoavelmente conhecida pelo povo, principalmente dos menos favorecidos socialmente que se identificam com a história deste Mestre, que como muitos deles, migrou do Nordeste para o Rio de Janeiro para tentar uma vida mais digna. Mas nem Zé Pelintra escapou da marginalização a que é submetido o “povo”, como é chamado o pobre de nosso país. Entretanto, a identificação com a figura de Seu Zé, como carinhosamente é chamado por seus devotos, vem de sua luta a favor de sua gente, de sua malandragem, de sua ginga, de quem conseguiu dar estilo a um modo de vida que é, no mínimo, inaceitável principalmente hoje em um país que figura entre as maiores economias do mundo. Zé Pelintra se fez ouvir e hoje, como entidade espiritual, chega a dar consultas até mesmo para quem, vestido de sua máscara social, não pode ser fotografado ou filmado utilizando-se de seus serviços e continua perpetuando a hipocrisia de suas vidas.

Um trickster, definitivamente, Seu Zé é uma figura trickster. E, se vamos utilizar-nos de uma figura mitológica para explicar esse conceito da teoria de Jung, por que em vez de recorrer ao panteão grego e falar de Hermes, não recorremos a figura de Zé Pelintra? Sem dúvida alguma, o Malandro Divino, como apelidou Zeca Ligiéro, reserva muito mais de nossa realidade do que Hermes. Isso não é negar a universalidade do arquétipo. De fato, Hermes é um trickster também e se presta como exemplo perfeitamente. Porém, as ações tricksterianas de Zé Pelintra são muito mais condizentes conosco, do que as de Hermes. Não podemos nem mesmo compará-los. Hermes tinha um significado muito específico na Grécia antiga. Suas brincadeiras e falcatruas diziam muito do povo grego. Certamente, ao longo de traduções em cima de traduções dos textos gregos pelos quais tomamos conhecimento de Hermes, esse significado específico já foi diluído e por mais que estudiosos tentem resgatar sua essência, nunca haverá a certeza de que é aquilo mesmo. Por outro lado, Zé Pelintra é ainda um mito vivo. Acreditando ou não, espírito ou arquétipo, tendo sido vivo ou não, ainda é possível saber bem mais de sua “vida” do que do deus grego. Seu Zé é brasileiro. Seu Zé é dos nossos. Sem querer levantar nenhuma bandeira político-partidária, deixemos viver a nossa cultura. Viva a cultura brasileira. Salve Seu Zé Pelintra.




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