Universidade do estado do rio de janeiro


MANOEL BOMFIM: A FORMAÇÃO SOCIAL DO SUJEITO



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MANOEL BOMFIM: A FORMAÇÃO SOCIAL DO SUJEITO
Rafael Pinheiral Ferreira

Instituto de Psicologia, UFRJ.
No presente trabalho, é feito um estudo sobre a obra de Manoel Bomfim com a intenção de investigar o papel da formação social do sujeito psicológico, especialmente no que se refere à educação. Manoel Bomfim enfatizou a consciência como característica distintiva do homem. Ela seria formada por estados, como a atenção, a atividade sensorial, a inteligência e a experiência mental, por onde passariam todas as reações do nosso corpo, até mesmo as mais complexas. Colocando a Psicologia como sendo a ciência da personalidade, Manoel Bomfim fez uma análise de seus vários elementos constituintes, a fim de captar o caráter do homem, entendido como manifestação dessa personalidade, em seus aspectos mais específicos, e assim verificar sua assimilação ao grupo social. Os fatos psíquicos foram concebidos como parte da nossa relação e dos nossos esforços de assimilação e acomodação ao mundo. O espírito é, em seu centro, social, atendendo basicamente à exigência de comunicação e socialização, de onde se conclui que o espírito é um efeito das relações estabelecidas entre os sujeitos. O espírito pode ser conhecido das relações sociais e pela exteriorização da linguagem - aspecto mais sensível e manifestação mais evidente do pensamento. A sociedade, então, desempenha uma importante função, pois a grande maioria de nossas relações com o meio não se efetua por meio de comportamentos instintivos herdados geneticamente; dessa forma, as tradições sociais (transmitidas por meio da educação e da tradição) condensam todo um conjunto de experiências da espécie e evitam que o indivíduo tenha que se submeter às mesmas, o que conduz não somente o fluxo do espírito singular, mas sua própria rede de relações sociais. Assim, sendo o espírito humano um produto da trama social em que está inserido, ela se forma sobre o instinto humano por excelência, o instinto social, que deve então ser estudado e analisado sob a ótica do constante viver social e de suas influências. Para que se possa então elucidar a Psicologia, fazendo-se possível assim definir as suas leis, esse homem-espírito deve ser estudado não mais individualmente, e sim socialmente. Nesse processo dinâmico e interacional a educação ocupou posição especial e foi tema marcante de sua produção bibliográfica. Para Bomfim, um ensino de qualidade, até mesmo para os estudantes de Psicologia, era fundamental para que tivessem condições de discernir as formas de atividade psíquica, analisando-as e as interpretando com lucidez e parcialidade. É a educação um dos modos relevantes de assimilação do indivíduo à atividade social, e por isso compreende a organização da consciência, sendo uma síntese do viver social no subjetivo e na personalidade. O ser perfeitamente definido dentro do conjunto da atividade psíquica é o que se chama de espírito. Sua teoria foi revista criticamente algumas décadas depois por Dante Moreira Leite que, em sua tese de doutorado, que viria depois a se tornar seu livro mais importante, fez uma análise sobre as teorias do caráter nacional brasileiro, revelando seus aspectos ideológicos. Dentre os teóricos abordados destacou Manoel Bomfim, principalmente pelo relevo atribuído às condições objetivas para constituição dos indivíduos e do corpo social e, por isso, afirmou ser uma obra de proteção às classes menos favorecidas. Dante Moreira Leite afirmou que a idéia de que a educação pode modificar as características psicológicas fez com que a obra de Bomfim caísse em uma forte contradição com sua concepção de transmissão hereditária de traços psicológicos, e que, por isso, não seja tão apreciada e assim termine por passar desapercebida.
A IDENTIDADE NACIONAL NA OBRA DE DANTE MOREIRA LEITE
Aline Kamlot

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Instituto de Psicologia
A abordagem principal utilizada no presente trabalho é a identidade nacional. Buscou-se um estudo maior neste assunto através da obra O Caráter Nacional Brasileiro de Dante Moreira Leite. Este aborda alguns períodos de importância no contexto brasileiro, como o romantismo e o modernismo utilizando autores como Afonso Celso e Paulo da Silva Prado a fim de demonstrar diferentes construções que foram propostas na caracterização do Brasil. A partir de uma reflexão acerca das abordagens do caráter nacional brasileiro pode-se afirmar que diferentes teorias são formuladas no que diz respeito ao papel da psicologia e da história na sua construção. Conforme a obra já citada anteriormente, pôde-se perceber uma articulação entre essas duas abordagens. Ao falar de Afonso Celso, Dante Moreira Leite refere-se a um caráter ideológico. Destaca-se a obra Por Que Me Ufano do Meu País, publicada por aquele autor em 1900, no qual fica claro seu otimismo. Um exemplo disso é o que ele chama de “ser brasileiro”. Diz que para muitos, ser brasileiro significa condição de inferioridade, quando na verdade deveria ser “distinção e vantagem”. Segundo sua visão: “embora existam países mais prósperos, nenhum é mais digno, mais rico de fundadas vantagens, mais invejável”. Neste contexto, o autor afirma que o patriotismo é uma das principais virtudes que pode existir, e a partir daí complementa que este deve ser explicado por razões convincentes, enumerando alguns motivos para a superioridade do Brasil. Após falar de tantas qualidades do brasileiro, o autor apresenta poucos defeitos como a falta de iniciativa, de decisão e de firmeza. Mas ele justifica que essa falta de diligência e esforço se deve ao fato de a terra ser fértil e a vida ser fácil e, segundo ele, essas deficiências desaparecerão logo que aumentarem a concorrência e o conflito pela existência. Ao referir-se a Paulo Prado, Dante Moreira Leite o cita como um dos defensores do modernismo. Este afirma que o modernismo não se caracterizou como uma espécie de ideologia bem definida, diferenciando-se do romantismo onde era claramente notada suas características, como o otimismo e o nacionalismo. Dante Moreira Leite cita a obra de Paulo Prado, Retrato do Brasil, publicada em 1928, e descreve o livro como sendo exclusivamente voltado para a descrição do caráter nacional brasileiro, possuindo uma explicação psicológica da história do Brasil. O autor fala que as paixões do colono, além da sensualidade, era a cobiça. Os primeiros colonos viveram obcecados pela descoberta de tesouros e é essa ambição que dirige os seus passos pela colônia. Segundo Paulo Prado, assim como o erotismo e a cobiça provocam no indivíduo estados de tristeza, o mesmo pode ser observado na sociedade. Ou seja, se os primeiros colonos vieram para cá em busca de prazer sensual e dos metais preciosos, as gerações seguintes corresponderam à tristeza como resultado desses dois motivos. Dessa forma, ele parte do pressuposto que a satisfação sexual provoca tristeza e que esta pode ser transmitida às gerações seguintes. Segundo este mesmo autor, nós herdamos traços psicológicos que constituem nossa maneira de ser e, neste sentido, não existe uma possibilidade de solução para a tragédia nacional.(CNPq)

A ALTERIDADE SUBTRAÍDA:

O KARATE E A CONSTITUIÇÃO DO OUTRO NA EXPERIÊNCIA DE ESVAZIAMENTO.
Cristiano Roque Antunes Barreira

Escola de Artes, Ciências e Humanidades – USP.
O interesse pela dinâmica psicológica e sua conseqüente configuração moral têm orientado as investigações realizadas acerca da tradição existencial inerente ao karate-do. Percorrendo um caminho que passa pela história dos saberes psicológicos e vem até uma fenomenologia das vivências, estas pesquisas têm trazido à luz aspectos obscuros àquele entendimento que parte de categorias reflexivas e, recorrentemente, busca essas mesmas categorias em objetos que, por definição cultural, não têm nem a mesma iniciativa reflexiva e, tampouco, a mesma perspectiva. A primeira menção ao karate documentada por escrito pertence ao século XVII, quando já se referia à moralidade entranhada numa arte que, por alguns séculos, permaneceu secreta e restrita a pequenos círculos sociais de Okinawa. O mistério e a restrição contribuíram à sua crescente densidade moral, mesmo quando veio a tornar-se público no início do século XX e mundialmente popularizado na segunda metade do mesmo século; neste último momento bastante inspirado pelas parábolas fundadoras que mantinham alusões a certa constrição e introspecção. Dessa forma, o karate-do pôde ser identificado como expressão de uma tradição que ultrapassa sua angulação técnica para ser eminentemente existencial, isto é, uma tradição que norteia ao adepto seu modo de ser e sua relação com a vida, o corpo, a alma, o ambiente, a morte, o outro. Este último aspecto delimita o presente enfoque. Embora o karate possa, de fato, ser entendido como um conjunto de técnicas e disposições de combate, o posposto do, em karate-do, obriga que a atenção ao mesmo se dirija pelo interior de suas dimensões éticas. Do, caminho, doutrina, associa-se com as mãos vazias, denominação que caracteriza a ausência de armas na performance combativa do praticante. A ausência de armas sinaliza tanto a forma exterior com a qual se combate, como sua intenção formativa de fundo, a disposição interior de se dar ao mundo sem armas, isto é, livre de preconceitos, aberto a uma equivalência externo/interno. De simples categoria instrumental, mãos vazias, combate sem armas, passa-se à categoria existencial: o caminho em que, por meio da técnica, se eleva ao vaziokarate-do. A essência da ética extraída destas investigações, contudo, e condizendo a variações históricas similares em outras tradições marciais japonesas, poderá manifestar-se impregnada por predicados situacionais que tendem a eclipsá-la e reduzi-la instrumentalmente. Este foi o caso durante as guerras de que o Japão participou da década de 1930 ao fim da II Grande Guerra, mesmo que tenha havido focos de resistência que evitassem tomar o karate por arma de guerra. E como tal, o esvaziamento tem como pré-disposição matar um obstáculo intransponível. Passadas as guerras e iniciada sua diáspora mundial, a arte chegou ao Brasil na década de 1950, ganhando vulto duas décadas depois quando, em que pese sua ênfase esportiva competitiva, tem encontrado ambientes propícios para a manifestação de sua experiência própria. A descrição das vivências determinantes do caminho mostra uma articulação hierárquica não racionalista, mas sensível, profundamente ancorada na composição hilética (material) do fluxo de consciência, para a qual o conteúdo noético (reflexivo) se volta e a partir do qual se constitui. Conseqüências morais e racionais do karate, portanto, apenas delineiam horizontes existenciais e atitudinais quando aquecidas pela experiência viva, sob pena de prevalecerem frágeis abstrações. O percurso formativo do karate-do, mesmo que se referindo pouco a ele, fundamenta-se sobre a experiência de esvaziamento que, pouco a pouco, o praticante deve fazer. Conforme se depreende do relato dos primeiros mestres a ensinarem o karate shotokan no país, se é comum que o principiante tenha em mente o karate como um método de fortalecimento que lhe fornece condições de fazer face e ir de encontro a situações de violência, é incomum que tal mentalidade resista a alguns anos de treinamento. O abandono da prática ou a transformação da mentalidade são as duas alternativas possíveis. A ênfase na agressividade durante o combate implica em poucas condições de controle pessoal e interpessoal. O tempo e os sucessivos combates se encarregam de explicitar a exigência de mudança. O mesmo é válido para a carência de agressividade. É preciso, demonstra a experiência, um equilíbrio não extático, mas dinâmico, isto é, em sintonia com cada situação. Nesse sentido, também a atuação intelectiva de combate passa por transformações. O excesso de pensamento reflexivo interfere negativamente na performance. A antecipação racional das situações deve ceder espaço à atenção voltada ao aqui e agora. Certamente que tanto a atuação emocional quanto a intelectiva estará sujeita a um aperfeiçoamento prático que se estende por muito tempo. Ambos são exemplos práticos de esvaziamento. Entretanto, é a natureza interpessoal dos combates que interessa examinar. A relação combativa busca formar uma disposição interpessoal de absoluta sintonia. Mais uma vez, é o esvaziamento que determinará a qualidade desta sintonia. A incidência do outro como presença diante do combatente é pro-vocadora. Pode ser intimidadora ou, pelo contrário, ser objeto de subestimação. Pode ainda ser objeto de racionalizações variadas que provocam a imaginação a trabalhar hipóteses de atuação e de reação do oponente. Estes exemplos de provocação negativa – enquanto não condizentes com a experiência de esvaziamento – têm sua contrapartida positiva, como ilustra o relato de um dos mestres: eu é ele é, ele é eu é! Um só (...), fica um só. (...) Quando luta com você, quando é de pensar de oposto, diferente, você é você, eu é eu, assim (...) nunca vence (...) Pois que, precisa ficar junto, você é eu, eu é você, já mistura, completamente já, como se fosse espelho. Atuar de modo especular corresponde a entrar naquela sintonia ab-soluta em que o outro não é objeto de provocações, mas é o mesmo sujeito da subjetividade do combatente. Paroxismo da intersubjetividade, esta dissolução do outro equivale à dissolução dos mínimos resquícios de cisão sujeito/objeto. Fora de uma tradição como tal, experiências de subtração da alteridade poderiam ser sintomas psicopatológicos graves. O mesmo se dá com o esvaziamento que, fora de uma articulação que o tem como positividade, está mais para sintoma comum a quadros depressivos. No entanto, o esvaziamento e a subtração do outro correspondem a experiências fundadoras de uma moralidade e uma espiritualidade, como sugerem as conseqüências compreensivas que os mestres entrevistados extraem de suas vivências. O outro vem, assim, re-constituído pela moral da subtração que é uma abertura total à constituição autêntica de uma alteridade não dada como pronta e fora da racionalidade definidora, mas sensível e por se fazer. (CAPES)

A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE IDENTIDADE

Carla Neves



Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRJ
O presente trabalho tem como objetivo traçar um breve histórico sobre o processo de construção e transformação do conceito de identidade a partir das mudanças sociais, políticas e econômicas que se sucederam ao longo da chamada modernidade, e que atingem os mais diversos domínios da vida material cotidiana no momento histórico presente. O conceito central do trabalho é entendido como produto de um contexto no qual a organização e o funcionamento da estrutura social moderna são tomados como objeto de estudo, e as discussões sobre a relação indivíduo e sociedade assumem força dentro dos estudos desenvolvidos pelas ciências humanas a partir do século XIX. A modernidade no suposto trabalho se refere, num sentido muito geral, aos modos de comportamento, funcionamento e relação estabelecidos primeiramente na Europa - depois do Feudalismo e do fim da Idade Média - com o surgimento de uma vida social marcada pelos Estados-nação e suas instituições de regulamentação e organização das atividades sociais cotidianas que exerciam ao mesmo tempo um alto poder de diferenciação de papéis, classes e domínios. Nesse sentido, a reflexão sobre a construção da idéia de identidade requer necessariamente a consideração da influência das diversas mudanças estruturais que a sociedade moderna ocidental sofreu e vem sofrendo ao longo da história para assim, podermos entender a atual relevância do conceito nas formas de relação do humano com o entorno. Tento assim, através deste ensaio, acompanhar as mudanças de entendimento do conceito de identidade na construção do indivíduo no mundo social desde as idéias Iluministas do século XVIII, passando pela visão sociológica do tema até a suposta crise e fragmentação da identidade que atinge o humano diante das transformações políticas, econômicas e sociais do contemporâneo globalizado do século XXI. Num primeiro momento de minha análise retenho-me na elucidação do conceito de indivíduo a partir do Iluminismo, conceito base subjacente à discussão sociológica sobre a identidade e a ulterior concepção de crise da condição humana circunscrita no contexto pós-moderno. Utilizo como contribuição teórica a abordagem histórica de Steven Lukes para entender as conotações e a forma como conceito de individualismo passou a ser adotado e discutido na sociedade moderna ocidental, e demonstrar de que forma esta ideologia serviu de contraponto para o surgimento de uma concepção mais sociológica sobre o humano. O autor mostra o subseqüente movimento de reação e crítica aos lemas e ideais individualistas do Iluminismo iniciado pelos estudos sociológicos do século XIX com a adoção de um enfoque centrado nas relações e estruturas sociais na busca de um melhor entendimento da relação indivíduo X sociedade. A sistematização da Psicologia Social no Brasil a partir da segunda metade do século XX, permitiu uma maior discussão do tema da identidade. Influenciada pelos estudos filosóficos e sociológicos produzidos principalmente na Europa, essa nova corrente surgiu na tentativa de dar conta dos aspectos sociais que dizem respeito ao humano. Dessa forma, o trabalho de autores como Silvia Lane, Tomaz Tadeu da Silva e Antônio Ciampa propõe-se a tratar do indivíduo de forma empírica, de um ser que se constitui na ação e na fala, localizado, datado e regulamentado pela tradição e pelas sólidas instituições sociais modernas. Os autores destacam a função reguladora da identidade no equilíbrio e manutenção das relações sociais, se detendo a aspectos mais concretos e materiais das práticas sociais como papel social, diferença, igualdade e pertencimento. Entretanto, os padrões estabilizados e os modelos morais institucionalizados da era clássica moderna começam, na atualidade, a mudar sua configuração, influenciando nas formas de entendimento da identidade na pós-modernidade. Nesse sentido, utilizo as contribuições de Zygmunt Bauman e as considerações de Stuart Hall sobre as transformações que a identidade vem sofrendo a partir de um presente histórico cada vez mais marcado pela flexibilidade, autonomia e fragmentação do sujeito contemporâneo globalizado para, assim, levantar possíveis questões sobre a idéia de crise e até mesmo de morte do conceito de identidade na atualidade.

3 – Temas Historiográficos I


Se a história é uma construção, o historiador gostaria instintivamente que esta construção fosse uma reconstrução” (Paul Ricoeur).




QUATRO ANALISADORES PARA AFIRMAR QUE A PSICOLOGIA DO ESPORTE CORRESPONDE A UM VETOR CAPITALÍSTICO DE SUBJETIVAÇÃO
Vitor Martins Regis

Mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor da Faculdade de Educação da Serra/ES.
Criaremos um sistema temporário, conjugado por determinados analisadores, que experimente a inscrição da Psicologia do Esporte no rol das disciplinas que possuem uma constante de formatação dos corpos através da subjetivação capitalística no ambiente do esporte de rendimento. Nosso intuito principal será o de esclarecer que a união entre a Psicologia e o Esporte, cada um deles embebido em especificidades disciplinares características da época moderna, vai gerar, contemporaneamente, um instrumento de forja e atualização daquilo que, em um nível amplificado, escolhemos denominar Sociedade de Controle. Para tanto, escolhemos pinçar quatro analisadores, a saber: a tradição científica que perpassa a constituição e a utilização da Psicologia do Esporte; os indícios de que a forma como a Psicologia do Esporte é historicizada reverbera uma vontade de vitória entre os psicólogos do esporte, que separa os trabalhos importantes – merecedores de descrição – dos menos importantes – passíveis de esquecimento; as contingências de viabilidade que o contexto social capitalista do fim do séc. XIX permite fazer emergir uma disciplina como a Psicologia do Esporte; e, finalmente, a proposição que a Psicologia do Esporte assume o perfil de especialismo técnico-científico. Tematizando a tradição que embasa o modo de produção e utilização do conhecimento no âmbito da Psicologia do Esporte, esclarecemos que ela é inconciliável com a perspectiva fundamental que achamos dever nortear o fazer científico: a expansão da vida. Lastreada pela matriz funcionalista, a Psicologia do Esporte assume um caráter instrumentalista para pensar os fenômenos mentais e comportamentais, favorecendo uma leitura que trata o humano sob o signo da adaptação, e não da diferenciação. Visadas como os estudos sobre a personalidade, a organização de laboratórios experimentais, a criação de técnicas de mensuração e de modificação dos comportamentos, a fixação pelo estabelecimento de metas (como a de maximização do rendimento dos atletas), a utilização do psicodiagnóstico, entre outras, demonstram a ligação da Psicologia do Esporte ao movimento da Psicologia Bahaviorista, mandatária contemporânea da metafísica platônica. As correntes que sustentam mais fortemente a Psicologia do Esporte (derivadas do Behaviorismo), como o Cognitivismo, advogam a favor de um pretenso equilíbrio natural dos processos psicológicos, negando o caos, que é um movimento intrínseco ao de equilíbrio. Centrando as análises na forma como a história da Psicologia do Esporte é produzida, queremos mostrar que os psicólogos que tratam de escrever a história da disciplina, apesar de a definirem sob uma perspectiva múltipla, voltada para o desenvolvimento do bem-estar e da saúde de atletas e não atletas, descrevem-na a partir de um modelo que privilegia o sucesso, a vitória e o rendimento. Desde a primeira investigação em Psicologia do Esporte produzida por Triplett em 1895, até chegar-se ao estudo da Psicologia do Esporte brasileira da década de noventa, em que é tomado como feito qualificativo para a disciplina a participação da psicóloga Regina Brandão junto à obtenção da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona pela Seleção Brasileira de Voleyball, a Psicologia do Esporte é referenciada como campo de saberes e práticas voltado e valorizado para o desempenho nos esportes competitivos de alto rendimento. Para experimentar a proposição de que a Psicologia do Esporte tem as contingências de sua viabilização operadas dentro do contexto social capitalista do fim do séc. XIX, retomamos a análise de que o aparecimento da Psicologia e a transformação das antigas práticas corporais em Esportes estiveram ligadas ao contexto europeu, mais especificamente à Inglaterra da época moderna. É reconhecida, naquela época, a emergência da Sociedade Disciplinar, momento em que os dois campos de saberes e práticas – Psicologia e Esporte – guardaram relação com a produção em série de corpos docilizados, orientados para a manutenção e desenvolvimento do capitalismo que se expandia após a Revolução Industrial. Se na modernidade o capitalismo possuiu a Inglaterra como maior expoente, depois da Segunda Guerra Mundial, em meados do séc. XX, são os EUA que assumem um papel preponderante no desenvolvimento do modelo capitalista. Assumindo as características do movimento behaviorista americano, nascido no início do séc. XX e atuante ainda hoje, não é possível propor que a atividade da Psicologia do Esporte, engendrada no fim do séc. XIX e disseminada com grande força através dos especialistas estadunidenses, não tenha relação com o desejo de produzir corpos e modos de viver que garantam a sobrevivência do capitalismo contemporâneo. A Psicologia do Esporte constitui-se um dos vetores que alimentam a Sociedade de Controle, configuração social em que a lógica disciplinar desdobra-se para além dos muros dos estabelecimentos de confinamento, e constitui uma nova modalidade de subjetivação. Com a Sociedade de Controle, as subjetividades vão continuar sendo fabricadas através de variadas instituições, mas as lógicas operativas específicas de constituição da subjetividade vão transbordar e se misturar por todo o campo social, atualizando a variedade de papéis sociais de forma independente de onde se está. Se é tudo que se precisa ser em todos os lugares que se precisa estar. Não é por acaso que os dramas psíquicos de hoje em dia estejam vinculados à depressão, ao burnout e à síndrome do pânico, quadros que esclarecem que o corpo não agüenta mais. Problematizar a Psicologia do Esporte como um especialismo técnico-científico, remete os seus saberes e práticas a uma discussão sobre a divisão social do trabalho, isto é, sobre a fragmentação do processo de produção dos bens materiais e imateriais por meio da especialização de tarefas. No plano específico da Psicologia do Esporte, a aplicação política dos conhecimentos produzidos pelo corpo técnico dos psicólogos tenta impedir os atletas de atualizarem os seus próprios saberes sobre a prática que desenvolvem. A decorrência direta disso é a impossibilidade forjada no que se refere à determinação da utilização dos conhecimentos e, contingencialmente, da sua própria atividade. Os discursos dos especialistas, usando a ciência como anteparo são despotencializadores, desvitalizantes, subtraem o significado singular que cada sujeito pode dar à sua vida. Se nos vinculamos exclusivamente a eles, os fins da prática desportiva se desconectam da vida e respondem aos desígnios do capital. (CAPES)



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