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No centro da discussão democrática está o tema da tolerância política – a busca do consenso na diferença. Tolerância com os opositores, com os não iguais, com a diversidade social, religiosa, cultural. O tema da tolerância é o tema da cidadania: participação, liberdade e bem estar social. A ditadura é o reverso da democracia: nasce sob o signo da intolerância política, promotora de formas coercitivas para instauração da autoridade e do governo. Tem como corolário o cerceamento da cidadania, logo da participação e das liberdades. A ditadura militar não se constituiu enquanto tal quando do golpe de 1964 – ela foi se conformando até o derradeiro Ato Institucional, em dezembro de 1968. Nem a democracia renasce em um passe de mágica em 1985 – percorreu um longo processo desde, ao menos, 1974. Logo, durante esses vinte e um anos os indivíduos vivenciaram experiências políticas variadas e inusitadas. Interessa-nos pensar essas experiências sob a dimensão e o alcance de projetos em meio a práticas políticas autoritárias. Essas, ao circunscrever uma determinada ordem redefiniram a cidadania, o princípio da tolerância, o exercício da liberdade de uma forma que renomeou todos os que passaram a ser julgados como indesejáveis e ameaçadores. Estabeleceram-se para esses outros a repressão, o controle e a expansão do medo como estratégia de neutralização e de prevenção aos que ousassem subverter o instituído. Caberá também, ainda que a contrapelo, escapar do olhar exclusivo sobre a ação do Estado autoritário brasileiro. Se a tantos cerceou, não foi plenamente eficaz no controle e no direcionamento das ações dos que optaram pelas micropolíticas do quotidiano. Na esteira dos movimentos de contracultura, valores identitários e regras comportamentais foram revistos de tal forma que, por exemplo, papéis femininos e políticas de gênero foram redimensionados.



DITADURA MILITAR E MODOS DE SUBJETIVAÇÃO
Equipe Clínica do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
Em 1964 foi implantado no Brasil um regime militar que durou 21 anos. Tendo como base a Doutrina de Segurança Nacional, os governos militares alteraram a estrutura jurídico-política vigente em nosso país. A violência, que parecia apenas atingir a alguns – os “subversivos”, contra os quais eram usados os métodos mais coercitivos – dirigiu-se à toda sociedade. Utilizando estratégias coletivas e sofisticadas de produção de subjetividade, disseminando a impotência e o silenciamento, o regime pretendia inviabilizar a ação dos opositores ao regime e também produzir subjetividades individualizadas e domesticadas, prontas a justificar a violação dos direitos civis como política de Estado e a adotar os modos de subjetivação próprios aos cânones capitalísticos. Com a reconstrução do estado de direito e as reformas neoliberais, gradativamente, passamos da ideologia de segurança nacional à ideologia de segurança urbana, não tendo o Estado brasileiro efetuado o desmonte do aparelho de repressivo da ditadura mas, apenas, atualizado o perfil do inimigo interno definido agora segundo critérios geográficos e sociais. Se os anos 60 disseminaram o medo e os anos 70 consolidaram uma determinada forma de pensar, sentir, e agir ─ prontas a justificar as práticas de exceção, a silenciar os efeitos causados pela tortura e a privatizar os danos nos diretamente atingidos ─, nos tempos neoliberais garante-se a impunidade dos torturadores e investe-se em uma cultura do medo que vem re-legitimando a tortura e o extermínio perpetrados contra os atuais inimigos da sociedade. Nesse contexto, são produzidas subjetividades dispostas a aceitar que grande parte da população seja tratada como perigosa e destituída dos seus direitos mais essenciais. Criminalizando a pobreza, espetacularizando a violência, demonizando criminosos ou suspeitos e utilizando a retórica da guerra contra o crime, o Estado vem obtendo o apoio da sociedade para novas formas de violações de direitos humanos e para a constituição de territórios de exceção onde estão suspensas todas as garantias. Consolida-se uma outra cultura de emergência: novas leis para hediondizar crimes, agravar penas, ampliar delitos sujeitos à pena de reclusa e criar cárceres de segurança máxima. Crimes praticados pela polícia são atribuídos à necessidade de um maior rigor contra os criminosos, as acusações de tortura e extermínio são raramente investigadas e, quando processados, os responsáveis quase nunca são punidos. Nas comunidades pobres a violência do Estado encontra parcas barreiras. Nas prisões a vulnerabilidade é total. Os presos – mesmo aqueles que ainda aguardam sentença – podem ser impunemente torturados e eliminados sem que sua morte seja sequer qualificada como homicídio. Defensores dos direitos humanos são acusados de proteger bandidos e, nas áreas populares, as manifestações de repúdio à violência policial são classificadas como atos de desordem ou de ameaça à segurança. Muito se tem escrito acerca desse trágico período da história brasileira e uma vasta bibliografia já vem revelando o esforço de desconstruir as produções da chamada história oficial para que possam aparecer aquelas histórias que – pela força e pelo terror – foram invizibilizadas ou tornadas clandestinas produzindo variados modos de subjetivação, ainda em curso nos dias atuais.
BIBLIOGRAFIA:

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: Nunca Mais, Rj, Vozes, 1985.

AGAMBEM, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2002.

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BENEVIDES DE BARROS, R. e PASSOS, E. (2000). A construção do plano da clínica e o conceito de transdisciplinaridade. Revista Psicologia: Teoria e Pesquisa, 16(1),

CALDEIRA, Tereza Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. SP: Editora 34-Edusp, 2000.

CANO, Ignácio. Análise territorial da violência no Rio de Janeiro, RJ: ISER, 1997.

COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Guardiães da Ordem: Uma Viagem pelas Práticas Psi no Brasil do "Milagre", RJ, Oficina do Autor, 1995.

___________________________. Operação Rio: o mito das classes perigosas. Niterói: Intertexto, 2001.

COIMBRA, C.M.B.; VITAL BRASIL, V. – Exumando, identificando os mortos e desaparecidos políticos: uma contribuição do GTNM/RJ para o resgate da Memória, artigo no prelo - 2006

COIMBRA, C.M.B, ANDRADE, J.M.P., SÁ LEITÃO, M.B. E VITAL BRASIL, V. “Intervenção clínica quanto à violação dos direitos humanos: por uma clínica desnaturalizadora na teoria, na ética e na política”, “. In Rauter, C., Passos, E. e Benevides, R. (orgs.), Clínica e Política: subjetividade e violações dos direitos humanos. RJ: IFB/Te Cora, 2002”.

KOLKER, Tânia. “Tortura nas prisões e produção de subjetividade”. In Rauter, C., Passos, E. e Benevides, R. (orgs.), Clínica e Política: subjetividade e violações dos direitos humanos. RJ: IFB/Te Cora, 2002.

_____________ “Instituições totais no século XXI”. In Menegat, M. e Neri, R. (orgs.) Criminologia e subjetividade. RJ: Lumen Juris, 2005.

_____________ Vidas precarizadas, mortes banalizadas: a invisibilização do outro no capitalismo contemporâneo, mimeo, 2006.

MOURÃO, J.C., JORGE, M.A. & FRANCISCO, S.A., “Violência organizada, impunidade e silenciamento”. In Rauter, C., Passos, E. e Benevides, R. (orgs.), Clínica e Política: subjetividade e violações dos direitos humanos. RJ: IFB/Te Cora, 2002.

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WACQUANT, Loic. As prisões da miséria. RJ: Jorge Zahar, 2001.

VERANI, Sérgio. Assassinatos em nome da Lei: uma prática ideológica do direito penal. RJ: Aldebarã, 1996.

ZAFFARONI, Eugenio Raul. “Globalização e sistema penal na América Latina: da segurança nacional à urbana”. In Discursos sediciosos: crime, direito e sociedade, ano 2, nº 4. RJ: Freitas Bastos, 1997.

_______________________ “Buscando o inimigo: de satã ao direito penal cool”. In Menegat, M. e Néri (orgs.), Criminologia e subjetividade, RJ, Lúmen Júris, 2005.



D. COMUNICAÇÕES ORAIS
1 - História da Psicologia I
Tudo é histórico, logo a história não existe” (Paul Veyne).



AS PATOLOGIAS NOS MODOS DE SER CRIANÇA E ADOLESCENTE: UMA ANÁLISE DOS MOTIVOS DAS INTERNAÇÕES NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO SÃO PEDRO (1890 – 1937)
Sara Hartmann

Bolsista PIBIC/UFRGS

Andrea Scisleski



Bolsista CAPES PPGPSI/UFRGS

Mariana Lorenz Pires



Aluna Graduação/UFRGS

Rosane Neves da Silva



Professora PPGPSI/UFRGS
Esta pesquisa se insere no projeto “A problematização do normal e do patológico nos modos de ser criança e adolescente” e tem por objetivo mostrar tanto as transformações naquilo que a sociedade considera como desviante, quanto as mudanças paradigmáticas que foram ocorrendo no próprio diagnóstico do que é considerado como doença mental. A coleta de dados está sendo realizada no Arquivo Público do Rio Grande do Sul onde são analisados os prontuários e os livros de registro de internação dos pacientes na faixa etária até 18 anos no período de 1890 a 1937. Também está sendo investigada a bibliografia psiquiátrica produzida neste período. A análise dos dados pretende identificar o que é socialmente considerado como patológico nos modos de ser criança e adolescente no período estudado, problematizando tanto os motivos de encaminhamento para a internação psiquiátrica quanto os diagnósticos apresentados. O referencial teórico e metodológico fundamenta-se na obra de Michel Foucault e permite problematizar as redes enunciativas que definem o que é considerado normal ou patológico em um determinado contexto histórico. Nesta trama enunciativa produz-se não só o que deve ser excluído socialmente, mas também as formas de se proceder a esta exclusão (por exemplo, através do confinamento). O patológico expressa, portanto, o que a própria sociedade reconhece como sendo desviante do modo “normal” de ser. Em uma análise inicial do material investigado, foi possível constatar que no período até 1920 as internações predominantes evidenciavam doenças orgânicas e/ou congênitas, aliadas a uma caracterização do tipo físico e comportamental dos pacientes. Remetendo aos humores hipocráticos, tais denominações mostram neste momento uma estreita relação entre o saber popular e o saber médico no que se refere a uma tipologia da loucura. De 1920 a 1929 apontam-se excitação, mania e alucinação como os principais motivos de encaminhamento para internação de crianças e adolescentes, o que não exclui moléstias mentais relacionadas à idiotia e à demência. A loucura passa a ser mais fortemente caracterizada pelos “estados maníacos”, e os diagnósticos de degeneração (típica e atípica) e psicose maníaco-depressiva são os predominantes nesses casos. Pode-se relacionar a isso uma mudança na nosografia psiquiátrica posterior a 1905 com as idéias introduzidas por Kraepelin (1856-1926) que buscavam aproximar o saber psiquiátrico de uma base orgânica tendo como parâmetro o modelo das ciências naturais. Os diagnósticos de internação deste período parecem ajustar-se a tal nosografia. No entanto, ainda permanecem como motivos de encaminhamento descrições de amoralidade dos pacientes. Em período posterior, até 1937, o que se verifica nos encaminhamentos está relacionado ao “enfraquecimento psíquico”, além das caracterizações de alienação e perturbação mental, delírio e agitação, remetendo aos novos diagnósticos predominantes de esquizofrenia e psicose auto-tóxica (de esgotamento). Cabe ressaltar que já neste período aparecem como significativos os encaminhamentos do Juizado de Menores, que descrevem “menores incorrigíveis e degenerados”, pontuando a presença de uma forte dimensão moralizante nos motivos de internação. Ao analisar as formações discursivas que produzem o que é considerado patológico nos modos de ser criança e adolescente em diferentes períodos históricos, este projeto visa contribuir para pensar como se constrói a rede enunciativa sobre o que é considerado desviante nos territórios da infância e da adolescência na atualidade. Trata-se, portanto, de analisar o passado para poder problematizar o presente a fim de entender como vai se produzindo uma certa “pulverização do patológico” nas formas contemporâneas de subjetivação.(CAPES; CNPq)


DA DOENÇA AOS INUMERÁVEIS ESTADOS DO SER
Fábio Medeiros Massière

Colaborador do Espaço Terapêutico Antonin Artaud
Este trabalho se propõe a analisar a influência da obra de Antonin Artaud sobre o pensamento de Nise da Silveira, e como esta relação contribuiu na mudança do paradigma da psiquiatria brasileira no que se refere à alteridade do louco. A partir de um levantamento da psiquiatria da década de 1940, observa-se que os principais métodos utilizados eram o eletrochoque, o coma insulínico e as psicocirurgias (lobotomia). A visão hegemonicamente organicista fundamentava tal ciência, que se focava em intervenções de cunho estritamente biológico. A alteridade do denominado doente mental era resumida a um parecer médico que trazia atrelado a si um estigma de periculosidade, insensatez e exclusão. É neste contexto que Dra. Nise da Silveira inicia o seu trabalho no campo da saúde mental no Centro Psiquiátrico Pedro II. Abismada com tais tipos de tratamento, considerados por ela como extremamente agressivos, resolve seguir um outro caminho: dedica-se à Seção de Terapêutica Ocupacional, prática que, até então, era considerada como uma mera forma de “distrair” os internos do hospital. É a partir de sua experiência diária com este tipo de tratamento que Nise da Silveira começa a se deparar com a alteridade, que ia muito além de um diagnóstico ou de um sintoma “básico” ou “acessório” na esquizofrenia. Desmembramentos e metamorfoses do corpo, estreitamentos e ampliações do espaço, sentimentos de comunhão com o sagrado, a angústia dos olhares, o encontro com o caos, o vazio e a imensidão, vivências subjetivas demasiadamente ricas, e por vezes terríveis, que os ditos loucos experimentavam e que estavam muito além de uma entidade nosográfica definida. Foi somente em Artaud que Nise da Silveira encontrou a tradução em palavras para tais incríveis imagens pintadas pelos internos do Engenho de Dentro, que expressavam experiências únicas, ricas e por vezes nefastas. A frase “O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos” escrita por Artaud como um pequeno comentário à pintura do surrealista Victor Brauner, parecia ser a legenda das imagens que surgiam das pontas dos pincéis dos internos. Tal frase passou então a ser de uso comum de Dra. Nise da Silveira e toda sua equipe. O encontro de Dra. Nise da Silveira com o trabalho de Artaud foi o começo de uma mudança do paradigma psiquiátrico no Brasil, já que, desde os primórdios de sua criação, esta ciência reduziu o louco a um mero objeto de estudo, negando a sua subjetividade e acabando por constituí-lo como alteridade radical. A obra de Artaud sendo perpassada por uma pluralização do singular, onde quem tem o sentido da unidade tem o sentido da multiplicidade, pode ser encarada como um símbolo em prol da transformação de tal alteridade radical em uma valorização da diferença no outro onde se possa resgatar a dimensão positiva da loucura e restituir ao louco a sua subjetividade e a possibilidade de uma interação válida com a sociedade, para que tal alteridade possa ser realmente levada em conta, ao invés de ser meramente o representante da sombra, do outro, do estranho que a sociedade depositou sobre os “doentes mentais”. Deve-se ressaltar a importância do debate acerca da alteridade do denominado “doente mental”, possibilitando assim a abertura para a expressão de sua multiplicidade subjetiva. Para que isto seja possível é necessário que retomemos, a todo o momento, as valiosas experiências que possibilitaram o início de um processo de mudança no campo da saúde mental. É justamente neste aspecto que o trabalho de Nise da Silveira e as vivências relatadas por Antonin Artaud se tornam essenciais.

VOZES “DO LADO DE FORA” – HISTÓRIA ORAL, ANÁLISE INSTITUCIONAL E DESINSTITUCIONALIZAÇÃO PSIQUIÁTRICA NO BRASIL
Camilla Martins de Oliveira

Aline de Araujo Gonçalves da Cunha

Amanda Gonçalves

Daniel Maribondo Barboza



Heliana de Barros Conde Rodrigues

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Percorrendo os caminhos da influência basagliana e da experiência italiana de desinstitucionalização no movimento de Reforma Psiquiátrica em São Paulo, através da nossa pesquisa sobre a história da Análise Institucional no Brasil, nos deparamos com alguns questionamentos suscitados pela visita de Franco Basaglia ao nosso país, no final da década de 1970, e que até hoje se mostram relevantes: a importância de considerarmos as especificidades de nossa realidade usando a experiência como inspiração e possibilidade de interlocuções, e não como um modelo a ser seguido; os limites e desafios da reinserção social dos pacientes psiquiátricos com a abertura das portas do manicômio; a mudança da denominação “doentes mentais” e “paciente” para “usuário” ou “cliente” (que em princípio expressaria uma transformação na forma de “olhar”, mas nem sempre significa uma mudança nas práticas dos profissionais). Muitos anos se passaram desde que os debates nesse âmbito se iniciaram e uma Reforma Psiquiátrica foi proposta; porém, ainda hoje, encontramos entraves para uma efetiva transformação. Nesse sentido, é importante pensarmos no que tem sido feito durante esse tempo e o que realmente mudou, para entendermos e tentarmos transformar o presente. Trazendo à cena a intervenção na Casa de Saúde Anchieta e a implantação do primeiro NAPS, realizadas pela prefeitura de Santos em 1989, nos deparamos com o caráter pioneiro e inovador dessa proposta, à época. Após denúncias de mortes e maus-tratos, a Secretaria de Higiene e Saúde da prefeitura petista ordena uma intervenção na instituição. A partir desta, desencadeia-se todo um processo de mudança que convida à participação e à análise coletiva, dando início a uma revolução no campo da saúde mental da cidade. À medida que o “hospital” deixa de ser um “depósito de loucos” e ganha um outro estatuto, também dá lugar a outros espaços: implantam-se o NAPS (Núcleo de Atenção Psicossocial)  serviço comunitário de portas abertas 24 horas por dia, 7 dias por semana, propondo-se a acolher todo tipo de demanda , o Centro de Convivência Tam-tam  voltado a promover mudanças culturais na relação com a loucura através de projetos artesanais, teatro, murais e uma emissora de rádio , a Unidade de Reabilitação Psicossocial (que agencia projetos de trabalho, como as Cooperativas Sociais) e o Lar Abrigado República Manoel da Silva Neto (projeto residencial). É interessante observar que foi possível propor, antes de acontecerem mudanças na esfera legislativa, uma outra forma de cuidado em saúde mental, enfrentando os limites e desafios deste campo e oferecendo uma alternativa viável, clínica e eticamente, ao hospício. Entretanto, o NAPS e esses outros projetos ainda coexistiam (e prosseguem coexistindo) com um grande número de hospitais psiquiátricos. No cenário brasileiro encontramos, ao lado desses serviços, muitos hospitais-manicômios, que ainda se assemelham ao tristemente célebre Centro Psiquiátrico de Barbacena, em Minas gerais, cujas “colorações mortas” foram capturadas pelo filme-denúncia “Em nome da Razão” de Helvécio Ratton, 1979. Não podemos ser tão ingênuos em pensar que o fechamento do manicômio e sua substituição por serviços abertos tenha feito com que a lógica da atenção em Saúde Mental mudasse completamente, superando completamente o modelo manicomial. Por isso, é crucial refletirmos sobre nossas práticas atuais, e avaliar o quanto essas antigas práticas e relações manicomiais de poder/saber se repetem até hoje em outros espaços. Pensar e modificar nossa prática é um grande desafio, demandando um constante movimento de desconstrução e reconstrução. Há um longo caminho a ser traçado e percorrido para uma efetiva transformação, mas pensamos que é possível. Longo, mas possível... Os relatos daqueles que tentaram pôr em prática essas mudanças aparecem, para nós, como uma possibilidade de reavivar questionamentos. Suas experiências e histórias nos inspiram a repensar nossa prática e a arriscar mudanças. Utilizando, em nossa pesquisa, o referencial da História Oral, podemos apreender a vivacidade dessas experiências. Através de entrevistas com os atores engajados nesse movimento, podemos perceber as diferentes vozes que formam esse cenário de mudanças, atentando às linhas de fuga que escapam ao instituído e à circulação dos afetos que catalisam transformações. O contato com esses relatos e o encontro com as “portas abertas” dos novos serviços de atendimento em Saúde Mental nos impulsionam a “libertar” questões que geralmente permanecem “trancafiadas” nos manicômios e que, quando surgem “do lado de fora”, possibilitam a formação de grupos e a coletivização de saberes e práticas. E assim vamos questionando e tentando reinventar uma história – a da Análise Institucional e ada Desinstitucionalização Psiquiátrica no Brasil.(UERJ; CNPq)

A PSICOLOGIA, A SAÚDE E O HOSPITAL: UMA DIGRESSÃO SOCIO-HISTÓRICA EM DIREÇÃO A UMA CLÍNICA AMPLIADA.
Martha Cristina Nunes Moreira

Analista em C&T do Instituto Fernandes Figueira / FIOCRUZ (Supervisora e Pesquisadora do Saúde & Brincar – Programa de Atenção Integral à Criança Hospitalizada).
O presente trabalho discute as relações que estruturam o campo das práticas de psicologia na área da saúde. Partindo da pergunta “por que a psicologia na saúde é identificada com a psicologia no campo hospitalar?” buscamos na história da psicologia investigar as relações de alteridade entre saúde e hospital, por meio da perspectiva da Análise Institucional. Recorrendo ao método da digressão socio-histórica que, segundo Robert Castel, seria o “‘método’ adequado para descrever as metamorfoses”, assumimos a posição não da continuidade histórica, mas da reatualização temática, que tanto mantém como transforma. Para tanto reunimos referências bibliográficas na forma de livros e artigos que abordam a psicologia nas suas relações históricas como campo de saber especializado para lidar com os processos de adoecimento humano. Como técnicas de pesquisa recorremos a uma análise de textos assentada na análise de conteúdo, selecionando os temas recorrentes no material reunido, os quais informam sobre os significados das categorias: Psicologia e Saúde; Psicologia e Hospital; Campo de Ação/Intervenção; Abordagem Teórica. Na busca de artigos na base de dados www.scielo.br a locução “psicologia no hospital” aparece com um descritor, assim como “psicologia hospitalar”, não aparecendo nenhuma referência à locução “psicologia na saúde”. Encontramos, enfim uma referência à locução “psicologia da saúde hospitalar”. Reconhecemos que a utilização dos descritores pode excluir artigos que sejam escritos por psicólogos e que estejam tratando de temas referidos ao campo da saúde e/ou a ação no interior da instituição hospitalar. Ainda assim, é interessante observar que predomina a tendência em identificar a ação da psicologia na saúde com o campo hospitalar, de tal forma que a “Psicologia Hospitalar” se torna mais uma especialidade que conforma um outro importante para a psicologia em termos de comunidade de especialistas e comunidade de prática. Nesse sentido, se a psicologia na saúde é um campo ampliado, a psicologia hospitalar funciona enquanto um reducionismo que identifica o cenário da ação com o campo de intervenção. Esse reducionismo, por hipótese, pode estar relacionado à força com que o dispositivo hospitalar impregnou o imaginário social e técnico com a idéia de que a saúde está ligada ao hospital, ou ainda à tradição biomédica que faz parte do olhar especializado nos temas da saúde e da doença e que iluminou mais essa última como alvo de intervenção do que as perspectivas de promoção e ampliação de olhares sobre os processos de saúde – doença – tratamento – cuidado. Propomos como debate a perspectiva de construção de uma prática de psicólogos na área da saúde que supere reducionismos, pensada mais como uma prática política nas instituições e com as pessoas, na intenção de identificar categorias conceituais que funcionem de forma mais englobante como, por exemplo, a noção de clínica ampliada. Se uma “boa prática em saúde” tem como qualificativo central o vínculo de confiança, que se estabelece no encontro entre pessoas, profissionais/pacientes, profissionais/profissionais, entendemos também que esse encontro pode vir a possibilitar relações de convívio, e de troca social que transcendam um modelo reducionista de saúde, baseado apenas na anulação da doença, e na desconsideração da dimensão subjetiva do adoecer com suas interpretações e impasses decisórios. Ou seja, a clínica ampliada prioriza e incorpora nas suas formulações diagnósticas e terapêuticas, aspectos sócio-históricos, culturais e psíquicos do adoecimento. Nesse sentido possibilita o resgate, o reconhecimento e a reavaliação de nossos valores morais e éticos no trato com os pacientes, buscando desvelar percepções, experiências vividas por estes em suas relações cotidianas.

2- História da Psicologia II


O saber da história é tanto mais confuso quanto mais seu poder aumenta”

(Jacques Le Goff).







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