Universidade do estado do rio de janeiro


Unversidade São Marcos, SP



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Esta questão de alteridade se apresentou a mim em duas circunstâncias distintas, enquanto vivenciava o papel de pesquisadora de História da Psicologia no Brasil. Em uma primeira situação (não bem resolvida até hoje) me defrontei inicialmente com questões de cunho metodológico, mas concluí posteriormente que elas eram fundamentalmente de caráter ético. Esse problema se apresentou quando iniciei algumas reflexões sobre um personagem da história recente da psicologia, ainda vivo. Há várias versões a respeito de sua participação na constituição do percurso histórico da Psicologia no Brasil. Ele constitui o que eu denominaria de “um personagem controverso”, pois os depoimentos de alguns contemporâneos e ex-alunos são divergentes sobre a sua importância e/ou significado na construção da Psicologia. Ao mesmo tempo o próprio participante demonstra conhecer senão todas, mas algumas das perspectivas através das quais é visto, tendo argumentos para rebatê-la, ou seja, explicitando os motivos que provocariam tais interpretações. Em um primeiro momento essa questão me pareceu ser de fundo metodológico. Como trabalhar essa complexidade para explicitar a participação de tal personagem na construção da História da Psicologia? Posteriormente ao começar a trabalhar mais detalhadamente na análise do caso, me deparo com algo muito mais importante - qual seja a questão ética. Se o personagem está vivo, qual seria seu sentimento ao se defrontar com a exposição dessa diversidade de opiniões a seu respeito? Em uma entrevista ele encontra argumentos para justificar outras opiniões a seu respeito, ou mesmo para neutralizar para si próprio os efeitos nefastos de avaliações negativas. Mas e o efeito de encontrar tudo sacramentado em uma matéria escrita? Mesmo com a concordância dele, seria ético? Como trabalhar com esses “olhares externos” que constroem um “ outro eu” para ele, que atribuem sentidos, diferentes dos seus, para várias de suas ações, principalmente algumas de caráter político relacionadas à implantação oficial da profissão? Não tendo conseguido prosseguir na reflexão de tal problemática, dispus-me a estudar a questão da alteridade a partir de um outro personagem que já não compartilha conosco da vivência terrena, e não só por isso, mas principalmente porque ao trabalhar seu percurso não me deparei com conflitos éticos. A questão que trago, portanto, sobre “alteridade” diz respeito, nesse caso, a uma “cegueira’ da pesquisadora em relação ao percurso histórico do personagem. Trago para esse estudo um psicólogo bem conhecido: Oswaldo de Barros Santos. Ainda não me encontrava envolvida com a Psicologia, mas enquanto aluna de um curso de Especialização em Orientação Educacional e cursando a disciplina Orientação Vocacional, fui apresentada a ele em 1962, através do exercício de um de seus papéis profissionais - o de orientador profissional e de seu livro: Psicologia aplicada à Orientação e Seleção Profissional. Durante várias décadas esse personagem foi para mim um orientador profissional envolvido com um trabalho dito “psicotécnico”, desenvolvido principalmente em instituições como o SENAI. Passados quase 40 anos, ao começar a buscar informações para produzir um verbete sobre ele para o Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil (2000), encontrei um outro Oswaldo de Barros, que passei a conhecer só a partir de material bibliográfico, tendo em vista que a entrevista, que havia marcado com o mesmo, não pode ser realizada em função de sua morte. Esse “outro Oswaldo de Barros” que encontrei me mostrou várias facetas do profissional que ilustram bem o processo de transformação da identidade, e ao mesmo tempo da sua importante participação na construção da História da Psicologia, abrindo novas frentes em momentos diferentes de sua vida. Ao voltar, nesse momento, à sua obra “ Psicologia aplicada à Orientação e Seleção Profissional” me deparei nela com uma sinalização da primeira transformação pela qual ele passou e que na época em que li pela primeira vez ( 1962) não me chamara atenção. Nesse momento duas questões me ocorreram: como um profissional se torna “cego” para a realidade de um colega que vai se transformando e como um material escrito ( o livro lido em 1962) não me sensibilizou para observar essa mudança naquele momento? Retomei nesse momento o significado de alteridade – contraste, diferença, distinção. O próprio Oswaldo demarca essa questão em relação a si mesmo (de sua transformação enquanto profissional), e também em relação à própria Psicologia. Ele menciona que na ocasião em que o livro foi escrito a Psicologia já havia passado por mudanças. Refere -se, historiando esse processo, à Psicologia “de índole filosófica” sendo substituída pela “Psicologia Moderna” (científica). Em um segundo momento menciona a passagem da Psicotécnica à Psicologia Aplicada que começa a utilizar “investigações mais amplas e mais profundas” em lugar dos “antigos testes psicotécnicos”. Finalmente refere-se a “mais recente e mais moderna área da Psicologia” o Aconselhamento Psicológico, com o qual estava pessoalmente envolvido. ( Introdução, s/p). Nesse momento se evidencia um outro de si mesmo sendo gestado e dando uma contribuição significativa à ampliação do campo da Psicologia. Na perspectiva de identidade dizemos que houve uma metamorfose em sua identidade profissional, ao assumir uma ação profissional diferente não só do ponto de vista técnico, mas também filosófico. A inovação se dá em termos da relação na qual estariam envolvidos o psicólogo e o seu “cliente”. Em função de sua defesa dessa nova (para a época) perspectiva foi convidado para planejar e ministrar disciplinas correspondentes em dois cursos superiores da cidade de São Paulo: Universidade de São Paulo e SEDES SAPIENTIAE. Fica claro nesse momento que esse seu movimento de incorporar uma outra forma de ser psicólogo, traz também a possibilidade da Psicologia inovar o seu campo teórico/ prático. Esse exemplo nos leva a pensar não só a importância de evidenciar esses movimentos dos protagonistas da história da Psicologia, mas também no papel do pesquisador desse processo que deve estar trabalhando permanentemente com questões de alteridade, tanto no plano individual quanto no coletivo e institucional. Oswaldo de Barros efetua um outro movimento importante em seu percurso quando passa a se envolver com questões de desenvolvimento humano e principalmente de desenvolvimento de superdotados. Nesse momento dá novamente sua contribuição para a ampliação da perspectiva da Psicologia, ao disseminar também em instituições de ensino superior (nas mesmas citadas anteriormente, e também na UNICAMPI) esse seu novo interesse , configurando novamente experiências curriculares referentes a ela. O estudo desse percurso faz retornar o problema colocado inicialmente. No caso de Oswaldo, não houve problema de diferentes olhares para seu percurso, mas de um olhar enviesado de uma pesquisadora para o mesmo, impedida de “ver” o outro em função de uma marca estabelecida em um momento de seu próprio percurso profissional. No primeiro caso trata-se de conseguir descobrir, se é que esse processo é exeqüível, como fazer para elaborar as questões ético-metodológicas que torne possível uma exposição que não fira e nem destrua a auto - imagem de alguém que contribuiu para a História da Psicologia, dedicando uma vida a ela, mesmo que isso não mereça o reconhecimento de parte da comunidade, ou mesmo que o tipo de trabalho desenvolvido por ele não seja valorizado ou que sua inserção no campo seja avaliada ideologicamente.

C . MINI-CURSOS:


DITADURA E ALTERIDADE
Luis Reznik



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