Universidade do estado do rio de janeiro


ULISSES PERNAMBUCANO: A MARCA DO PIONEIRISMO E DEFESA DE MINORIAS MARGINALIZADAS!



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ULISSES PERNAMBUCANO: A MARCA DO PIONEIRISMO E DEFESA DE MINORIAS MARGINALIZADAS!




Adailson Medeiros


Mestre em Psicologia Cognitiva. Professor aposentado do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Atual Diretor da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - FACHO.
Ulisses Pernambucano de Mello Sobrinho nasceu, no Recife, em 1892. Com apenas 20 anos forma-se em Medicina, no Rio de Janeiro. Nos últimos anos do curso, foi acadêmico interno do Hospital Nacional de Alienados recebendo forte influência intelectual e empreendedora do Dr. Juliano Moreira. Já formado, reside alguns anos no Paraná e retorna a Pernambuco. A vida e a obra de Ulisses Pernambucano tem a marca do pioneirismo e da defesa de minorias marginalizadas. Em 1918, é criada, no Recife, a cadeira de “Psicologia e Pedagogia” na Escola Normal Oficial do Estado e que, em sua avaliação, marca o início oficial da Psicologia em Pernambuco. Ulisses concorre com a monografia Classificação das crianças anormais: a parada do desenvolvimento intelectual e suas formas; a instabilidade e a astenia mental, tida como a primeira tese brasileira no campo da deficiência mental (Isaías Pessotti, 1984). De 1923 a 1927, exerce a direção dessa instituição e funda, em 1925, uma escola pioneira para crianças excepcionais, anexa à Escola Normal e que, em outra estrutura organizacional, continua ainda hoje em funcionamento. Outro pioneirismo relevante foi a fundação, em 1925, do Instituto de Psicologia do Recife, considerado como a primeira instituição cientificamente autônoma a funcionar regularmente no Brasil (Rute Scheffer, 1976 e Paulo Rosas, 1984). O Instituto realiza um amplo programa de padronização de testes psicológicos (sobretudo de origem européia), avaliações psicológicas, seleção e orientação profissionais. É de pouco depois dessa época a confecção local das lâminas do Rorschach, seguindo orientações publicadas em artigo assinado do próprio autor suíço. Essas lâminas, hoje, estão em mãos da psicóloga Argentina Rosas, viúva do historiador Paulo Rosas. Nos primeiros anos da década de 1930, Ulisses implementa um audacioso projeto de reestruturação de todo o serviço de Assistência a Psicopatas de Pernambuco, atendendo convite do então governador do Estado. Tanto no Instituto de Psicologia quanto na Assistência a Psicopatas, forma um multidisciplinar grupo de pesquisadores e funda alguns periódicos (“Neurobiologia” fundado em 1938, que continua a ser editado), onde ele e seus colaboradores publicam centenas de trabalhos. Alguns títulos: "Bases fisiopsicológicas da ambidestra" (1924); "Estudo psicotécnico de alguns testes de aptidão" (1927); "O vocabulário das crianças das escolas primárias do Recife” (1931); “Revisão pernambucana da Escala Métrica de Inteligência Binet-Simon-Terman” (1934); "As doenças mentais entre os negros de Pernambuco" (1935)". Paralelamente, desenvolve atividades docentes na Faculdade de Medicina do Recife em “Clínica Neurológica e Psiquiátrica”. Em 1934 preside, no Recife, o “1º Congresso Afro-brasileiro” – realizado no mais nobre teatro da cidade, o Santa Isabel – e idealizado por seu primo e amigo, Gilberto Freyre. A sua intransigente defesa de minorias marginalizadas - crianças excepcionais, doentes mentais, adeptos de seitas africanas – começa a incomodar e é denunciado como "subversivo"; vivia-se os duros tempos do Estado Novo. É arbitrariamente preso e fica detido por 60 dias na Casa de Detenção do Recife, além de ser aposentado compulsoriamente do ensino público. Vem a falecer relativamente jovem - enfarto fulminante - em 1943, no Rio de Janeiro. Tinha 51 anos.

NADANDO CONTRA A CORRENTE: A PIRACEMA-CULTURAL DE NISE DA SILVEIRA


Walter Melo

Universidade Federal de São João d’El Rey


Espaço Terapêutico Antonin Artaud
A história da psiquiatria demonstra que, ao longo de mais de dois séculos, a relação entre a ciência e a loucura se pautou pela exclusão. As cenas que mostram doentes mentais abandonados, vagando nus pelos pátios dos manicômios já são de conhecimento da sociedade e, apesar de todos os esforços, ainda permanecem atuais. O louco personifica a alteridade radical que coloca em xeque os sentimentos mais sublimes proclamados pelo homem. De onde viria tanto descaso e agressão contra seres humanos, senão do próprio homem? Neste contexto, Nise da Silveira tenta provocar uma verdadeira transformação cultural. Mas, como a médica alagoana pretendia desfazer hábitos tão bem estabelecidos? Em primeiro lugar, modificando seu próprio posicionamento médico: na Faculdade de Medicina da Bahia, local de formação de Nise da Silveira entre 1920 e 1926, o discurso preponderante dizia respeito à raça e à fragilidade do povo brasileiro, altamente miscigenado. A tese inaugural de Nise da Silveira, intitulada Ensaio sobre a Criminalidade das Mulheres da Bahia, era de cunho eminentemente higienista. Nesse momento, as pessoas de outra raça eram tidas por Nise da Silveira como perigosas à nação e o imigrante como a alteridade a ser banida, pois representava o lixo social que nos era imposto por países que pretendiam depurar a raça. Essas pessoas, então, deveriam ser impedidas de entrar no país ou ter o destino asilar/prisional de exclusão social. Para deslocar esse pensamento até o ponto de ser considerada a libertadora dos loucos através da arte, Nise da Silveira teve que se posicionar como uma outsider: intelectual num meio predominantemente masculino, feminista numa sociedade machista, comunista durante um governo ditatorial anti-comunista, psicodinamista frente a um arsenal de métodos organicistas altamente agressivos, junguiana no reduto psicanalítico etc. O trabalho de Nise da Silveira constitui-se como um marco de resistência contra os métodos agressivos de respaldo científico, como a lobotomia, o coma insulínico e o eletrochoque. Ao desenvolver seu trabalho pautado nas atividades expressivas, como a pintura, a modelagem e o teatro, Nise da Silveira instaura um núcleo de reserva ética e, nadando contra a corrente do mecanicismo, sempre se mostrou em desacordo com Descartes, definindo-o como inimigo a ser combatido. Posicionar-se de modo contrário às concepções de Descartes e tentar, a partir daí, montar algum tipo de trabalho, já se trata de um ato que requer um enorme esforço. Este esforço torna-se muito maior pelo fato de a área de trabalho de Nise de Silveira ser a psiquiatria, pois o ambiente dos hospitais psiquiátricos tem se caracterizado por ser historicamente frio, sujo, feio e cercado por grades. Um lugar de degradante constrangimento que possui como marca a negligência e os maus-tratos, caracterizando a confluência do mecanicismo, da banalidade do mal e do desencantamento do mundo. Podemos supor grandes dificuldades para quem nada contra a corrente desta poderosa confluência, na qual as cabeças são separadas dos corpos que, tidos como máquinas, ficam sem qualquer possibilidade de voltar a funcionar em sua plenitude, sendo, então, amontoados em depósitos de exclusão humana, onde são silenciados em todas as suas formas de manifestação. O reencantamento do mundo, em Nise da Silveira, inicia-se com a recusa em obedecer à ordem cega de aplicar o eletrochoque, afastando-se tanto da base mecanicista quanto da psiquiatria burocrática das práticas asilares. Posicionando-se ativamente de maneira contrária aos métodos agressivos, Nise da Silveira aproxima-se das pessoas com graves sofrimentos psíquicos, garantindo-lhes a livre expressão de pensamentos e sentimentos, além de possibilitar que tanto as pessoas em atendimento quanto os terapeutas pudessem ter sonhos, ideais, fantasias, tendo sempre como parâmetro o que é o mais justo, o que é o melhor, o que é o mais belo. A partir do trabalho de Nise da Silveira, os posicionamentos éticos são trazidos para o campo da saúde mental, ou seja, a psiquiatria deixa de ser um território onde vale tudo, passando a contar com um enfático questionamento acerca dos métodos de tratamento. O que se pretende é uma completa transformação nos métodos embasados nos pressupostos cientificistas que destroem para conhecer.

O “EU” E O “OUTRO EU”: QUESTÕES DE ALTERIDADE NA HISTÓRIA DA PSICOLOGIA.
Marisa Todescan



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